Sweet Epiphany
7 Comfort Zone
Notas iniciais

Ela não devia estar ali, no fundo sabia disso, mas quando colocou os pés para fora daquele consultório o peso da vida foi tanto em seus ombros que Makayla simplesmente se viu sem rumo... Estava acostumada com a solidão de certa forma, no decorrer dos anos foi se afastando cada vez mais das pessoas, parecia mais seguro do que ver todos ao seu redor morrendo... porém a verdade é que nunca gostou de estar sozinha.
E naquele dia, mais do que em qualquer outro, ela soube que estava.
Não planejou correr até Barnes — o cara que ela mal conhecia, mesmo que sua mente jurasse que sim — apenas aconteceu, já estava na frente do endereço dele quando se deu conta.
E por que não?
De todas as merdas que já tinha feito na vida aquela era mesmo tão ruim assim?
Quando a porta se abriu e aqueles gélidos olhos azuis a encararam, Makayla ficou a um triz de desabar, todas as dúvidas e dores se acumularam dentro de seu peito e ela soube que se começasse a chorar nunca mais pararia.
— É meio que... um trabalho em andamento... — Bucky comentou sem-jeito, assim que ela colocou os pés dentro da sala.
— Exatamente como eu... — Makayla respondeu apenas.
Se deu conta que estava vendo o lugar pela primeira vez, porém era como se o conhecesse com riqueza de detalhes. A sala era um ambiente parcialmente vazio, apenas uma televisão sobre um rack simples e uma poltrona, dali era possível ver a cozinha, que também tinha poucos móveis e eletrodomésticos.
A casa vazia não lhe incomodava em nada, mas saber o motivo por trás disso a fez cair em si...
O que estava pensando? Em aparecer do nada ali e despejar toda a sua vida triste nos ombros de Bucky? Ele já não tinha sofrimento o bastante nas costas para suportar?
Quando ele lhe indicou a poltrona enquanto oferecia uma bebida, Makayla encarou o espaço vazio ao lado antes de se sentar. Sabia que Barnes dormia ali, mesmo que houvesse uma cama de casal no único quarto do apartamento.
Ele escolhia o chão não só pela falta de costume ou pelo quanto o colchão parecia macio e inapropriado, Bucky dormia no chão porque não se achava digno de conforto algum.
Esse era um dos motivos pelos quais ele não tinha comprado um só móvel para seu lar, apenas usava os que foram locados junto com o lugar. O último e principal motivo era mais pesado e triste no entanto; Bucky estava de passagem...
Ele não pretendia ficar, nem ali, nem em lugar nenhum...
Makayla se sentiu repentinamente mal, era egoísta e ridículo que ela achasse que os problemas com a mãe e com aquelas habilidades idiotas chegassem aos pés do sofrimento de Barnes. Perto dele tudo que ela vivera era basicamente drama de menina rica.
Deus, o que estava fazendo?
Aquele homem precisava de conforto, companhia e felicidade, ele precisava ver que a vida era mais que uma sucessão trágica de dor e falta de esperança. Ele não precisava de mais problemas.
E Makayla sabia muito bem que ela era um problema dos grandes...
— Eu... não tenho chá e não sou muito de refrigerante, então... — Uma xícara de louça foi estendida em sua direção.
Makayla encarou a bebida dourada ali dentro e pelo cheiro soube que era whisky.
— Pois é, chá não era mesmo o que eu esperava encontrar quando bati na porta de um homem que mora sozinho. — Ela ofereceu a ele um sorriso e um dar de ombros, enquanto sorvia um gole na bebida alcoólica e sentia o liquido queimar sua garganta.
Queria dizer a Bucky que estava tudo bem, que entendia como era não se importar o bastante com nada, que ela também não se importava, que casas vazias e whisky em xicaras de chá não eram um problema. Mas sabia que não faria sentido dizer nada assim...
— Como sabe que eu moro sozinho? — Barnes questionou de repente, enquanto puxava a única cadeira disponível em um dos cantos do cômodo, para se sentar na frente de Makayla.
Merda.
Ela devia saber que suas “suposições” sempre tão acertadas sobre Bucky o fariam desconfiar. Ele era esperto demais para não ver as coincidências.
— Ah, sei lá... — Encolheu os ombros, agindo o mais casualmente que podia. — Acho que uma pessoa solitária reconhece a outra, só isso. Eu errei? Você por acaso tem um colega de quarto, ou quem sabe um gato?
— Bom... não, você não errou... — Ele negou com um movimento de cabeça simples, comprando outra mentira que Makayla havia inventado. — Não tenho colega de quartos e nem gatos.
— Eu gosto de gatos. Sou alérgica, mas gosto. — Ela disse a única verdade que conseguiria naquele momento.
Era uma aleatoriedade completa, apenas para tirar o foco de todo o resto, mas ainda era verdade. No entanto Bucky não se deixou levar por isso.
— Mas então...? Quer me contar o que aconteceu? — Ele questionou, se arrumando um pouco melhor na cadeira para ouvi-la.
Makayla respirou fundo, segurando a xícara como se houvesse mesmo algo quente e reconfortante ali dentro.
— As coisas estão meio... de ponta cabeça agora... — Preferiu ser vaga, não precisava que seus problemas enchessem a mente já sobrecarregada de Bucky Barnes. — Uma dessas coisas que acontece às vezes, sabe?
Sim, ele entendia. Makayla soube disso antes mesmo de ver o olhar no rosto masculino. Ela respirou fundo, mesmo que não fosse dizer a verdade sobre seu dia louco e decepcionante, ela ainda devia uma explicação para o dono da casa.
— Mas isso ainda não explica o motivo pelo qual eu estou justo aqui, não é mesmo? — Riu sem qualquer traço de humor. — Eu não tenho muitos amigos... Pra ser honesta, acho que não tenho nenhum.... — Dizer aquelas palavras em voz alta machucou muito mais do que Makayla esperava. — Na verdade, eu venho progressivamente perdendo as pessoas ao meu redor, uma após a outra desde que eu nasci. É como se eu fosse amaldiçoada.
Um riso seco escapou de sua garganta, talvez fosse verdade, afinal o que era um pouco de magia em um mundo de aliens e poderes inexplicáveis.
— E hoje... eu percebi que perdi a última pessoa que me sobrava... — Ela terminou, virando mais um gole de whisky como se isso pudesse matar a dor que a consumia por dentro.
Quando tinha enfiado a vida naquele buraco de solidão e melancolia?
— Sinto muito. Foi um acidente, uma doença ou....? — Bucky pareceu genuinamente preocupado.
Como alguém que tinha passado por tanto ainda conseguia se importar com os outros?
Makayla desejou ter aquela força, aquela bondade inerente... Mas ela não era assim. Barnes era um herói, era, mesmo que negasse. Quanto a ela... Makayla era apenas uma garotinha estúpida que nunca aprendia.
— Ah não, não. Não foi assim, ela ainda está lá, é só que... — Deixou que todo o ar saísse de seus pulmões, sentindo que tudo aquilo era muito mais pesado do que ela podia suportar. — Ela não vai mais me amar agora, eu sou muito diferente do que ela espera...
Bucky franziu as sobrancelhas, ele fazia isso com tanta frequência que havia uma marca de expressão constante formando um vinco entre seu olhar. Makayla achava aquilo um charme curioso.
— Diferente como? — Ele questionou, buscando os olhos dela.
— Eu... — Makayla começou, a vontade foi simplesmente contar toda a verdade de uma vez só, porém, só então se deu conta do que estava fazendo realmente. Falar sobre seus problemas com a mãe, também exigiria que falasse de suas habilidades e Bucky então entenderia porque ela sabia tanto sobre ele.
Medo e confusão se mesclaram em sua mente. Estava tão acostumada a mentir que não sabia mais como dizer verdades, não conseguia mais distinguir se isso era bom ou ruim...
Não podia fazer aquilo. Não conseguia.
Se levantou em um rompante.
— Eu não devia estar aqui. Você com certeza está ocupado e eu apareci do nada sem avisar pra derramar minha vida triste nos seus ombros, desculpa. — Ela entregou a xicara de volta para ele. — Melhor eu ir. Desculpa. Mesmo.
Se havia algo que Makayla fazia ainda melhor do que mentir. Era fugir.
Era sua forma de lidar com os problemas, sempre que as coisas ficavam difíceis ela partia em uma viagem qualquer, quanto mais longe de casa melhor, no começo ela dizia que estava fazendo algo pelo mundo, mas era apenas outra mentira, estava apenas fugindo, se ela fosse longe o bastante talvez os problemas não a seguissem...
— Hey, espera... — Já estava na porta quando a voz de Bucky lhe alcançou.
Makayla se virou na direção dele outra vez e encontrou os olhos gélidos e reconfortantes, bastou apenas isso para que ela fosse totalmente desarmada.
— Você não está me atrapalhando em nada. Fica. Eu estou meio enferrujado nessa coisa de consolar pessoas, mas... eu sou muito bom em ficar em silêncio... O que eu quero dizer é que você não tem que ficar sozinha.
Como ele conseguia?
Qualquer outra coisa na mente de Makayla foi embora, qualquer fuga, qualquer plano... Ela só queria ficar ali, exatamente ali, em um apartamento vazio, em silêncio, com Bucky Barnes...
— Eu também sou ótima em ficar em silêncio. — Disse apenas, soltando a maçaneta e voltando alguns passos.
Era evidente que aquele homem tinha algum poder sobre ela, Makayla não entendia isso, mas estava lá, como um magnetismo pairando entre eles, forte, intenso e inexplicável. Ela tinha a habilidade de ler mentes, mas era Bucky Barnes quem havia invadido sua cabeça.
Talvez fosse como as paixões à primeira vista dos filmes bobos de romance, uma conexão criada do nada. Exceto que a conexão inexplicável na verdade tinha nascido ao primeiro toque e não à primeira vista, além disso a vida de Makayla não era um filme e, principalmente, ela não estava apaixonada por Bucky...
Ela não podia estar...
Certo?
★☆ • ★☆ • ★☆
Quando Bucky se sentou naquele chão, em sua sala vazia, ao lado da garota que conhecia há um par de dias e com quem já tivera sonhos nada puritanos, ele estava um tanto nervoso. Ainda não entendia o que estava acontecendo entre os dois...
Mas ele sabia que algo estava acontecendo, não era idiota.
Havia uma conexão ali, inexplicável e imaterial, mas não irreal. Ele podia dizer que não, podia negar e explicar sua preocupação com a garota como sendo um simples ato de boa vontade; abriu a porta de seu apartamento para ela, porque Makayla parecia triste, ficou preocupado porque era o que qualquer um faria e pediu que ela ficasse por um combo de tudo isso.
Era normal se preocupar, certo?
Sim, era, mas ficar sentado em completo silêncio com alguém — uma semi-estranha — e se sentir inteiramente confortável com isso, a ponto até mesmo de notar seu nervosismo ir embora aos poucos... Isso não era normal.
E ainda assim, lá estava, crescendo, ganhando espaço, fazendo morada. A intensidade inegável daquilo pairava entre eles, e era estranhamente reconfortante, mas perigosamente magnética.
Bucky não sabia o que estava fazendo ou sentindo. Noite passada estava disposto a descobrir, pela manhã havia desistido e ali, no decorrer daqueles minutos, ele já não tinha mais certeza...
As dúvidas brotavam em sua mente em uma velocidade assustadora. E talvez esse fosse o ponto, a mente de Bucky era um campo congelado onde nada brotava, suas convicções estavam talhadas no gelo, suas culpas, seus temores, suas certezas e dores, tudo era gelo.
Muralhas de gelo, pedras de gelo, gelo estraçalhado, gelo manchado de sangue. Mas apenas gelo...
No entanto aquelas novas dúvidas eram verdes e frescas como grama na primavera, se alastravam rápido e sem controle transformando um pedaço daquela vastidão gélida em algo mais, um solo fértil, um lugar onde coisas podiam florescer.
Se era bom ou ruim ele não sabia, todavia, Makayla estava em sua mente, essa era a única coisa que Bucky não podia negar...
Ele encostou a cabeça na parede atrás de si e encarou a garota de cabelos castanhos e rosto delicado, mergulhou nos olhos tempestuosos assim que eles lhe tocaram. Talvez não devesse reclamar, sendo honesto, ele tinha coisas bem piores na cabeça, a imagem de Makayla era como um bálsamo no meio do caos. Mesmo se tivesse que sonhar com ela todas as noites e acordar dolorosamente excitado pela manhã, isso seria infinitamente melhor que o mais leve de seus pesadelos.
— Você está fazendo aquilo outra vez... — A voz doce, salpicada de divertimento, puxou Bucky do mundo particular que ele havia criado dentro daquelas tempestades cinzentas.
— Fazendo o que? — Questionou ainda aéreo, sua voz contagiada pelo tom de Makayla.
— Encarando... — Ela respondeu com um sorriso ladino.
— Mas você também está, não é? — Ele devolveu em um tom perspicaz, vendo as bochechas de Makayla corarem gradativamente, enquanto ela desviava os olhos e mordia o canto dos lábios de forma nervosa.
As íris dela focaram em um ponto fictício a frente, e Bucky fez uma nota mental tola sobre a distância física desnecessária que havia entre eles, estavam sempre um pouco mais longe do que o espaço pessoal pediria...
— Ligou para o bonitinho do bar? — Makayla questionou de repente, como se tivesse lembrado desse fato apenas naquele segundo.
— Não... — Bucky também só se recordou que havia o telefone de um garçom no bolso de sua jaqueta naquele instante. — Não vai rolar.
— Triste... — A voz feminina não soou realmente honesta. — Quem vai te ajudar a não se apaixonar por mim?
Ela riu da própria piada, mas aquele som era mais irônico do que bem humorado de fato.
— Vai ser um trabalho muito difícil, sabe? — Continuou, finalmente voltando a pousar os olhos em Bucky. — Ninguém é capaz de resistir a todos os meus defeitos, falhas e desgraçamentos da cabeça. Todo mundo ama uma mulher louca...
O sarcasmo autodepreciativo ficou evidente, e Barnes conseguiu entender o que as palavras de Makayla realmente queriam dizer, ela não achava que poderiam se apaixonar por alguém como ela. E ele entendia muito bem esse sentimento, porque se fosse bem honesto também achava isso sobre si mesmo...
— Não se preocupe, eu não vou me apaixonar, você é muito bonita, não faz meu tipo, é até difícil olhar pra você. — Ele respondeu com um dar de ombros simples.
Se Makayla podia exaltar os próprios defeitos fingindo que eram qualidades, então Bucky podia fazer o contrário disso, e tratar uma das qualidades dela como defeito.
Isso arrancou uma risada tímida da jovem, talvez ela não esperasse que alguém fosse entender aquele tipo de humor, ou pior, responder à altura...
— Disse o deus grego que não consegue entrar no bar sem fazer um garçom se apaixonar. — Daquela vez ela não usou qualquer sarcasmo, as palavras vieram apenas em um tom divertido. — Você é muito gostoso, Bucky, admita que isso é um problema.
Ele passou os dedos enluvados pelo cabelo, enquanto ria de canto e balançava a cabeça sem-jeito. Estava bem claro que não era “só” uma piada.
— Você sabe que toda a coisa do “não se apaixonar”, meio que exige que você pare de flertar comigo, certo? — Acusou, estreitando um pouco o olhar e comprimindo os lábios.
— Eu não estou flertando com você! — Makayla se defendeu no mesmo instante. — Essa é só minha personalidade charmosa.
— Ah entendi... — Bucky foi incapaz de evitar um sorriso. — Disse a menina tímida.
— Eu sou, mas parece que te conheço a vida toda, então não funciona mais. — Ela revidou de imediato, e então parou por um instante, claramente arrependida do que havia dito.
Então ela sentia também... Bucky já havia reparado que a garota agia dessa forma, mas pensou que fosse apenas uma impressão, ou então o jeito dela. Saber que Makayla de fato tinha aquela sensação deu a ele uma outra visão das coisas...
A conexão entre os dois era mútua. Não era apenas uma impressão. Estava mesmo lá. E quanto mais tempo eles passavam juntos mais intenso ficava.
Todavia, era evidente que ela não o conhecia de verdade, não as piores partes, cedo ou tarde isso aconteceria, era inevitável, e dali em diante tudo seria complicado demais...
Porém naquele instante, apesar das perguntas sem resposta, as coisas eram simples; apenas duas pessoas sentadas em um apartamento vazio, tentando não ficar tristes. E com isso Bucky podia lidar.
Ele decidiu então que, por pelo menos um dia, as perguntas ficariam de lado, e o passado ficaria para trás. Pensar demais era exaustivo, então daria uma folga a si mesmo naquele dia. Na manhã seguinte seria o mesmo homem, com os mesmos problemas, os mesmos pecados, a mesma lista e o mesmo objetivo.
Um dia não mudaria nada.
E mesmo que Bucky não se achasse merecedor de um único dia de paz, ele sabia que Makayla era, então faria isso por ela.
— Quer sair pra comer alguma coisa? — Perguntou de repente. Desperdiçar o dia ali dentro daquele apartamento vazio não parecia certo. — Eu estava prestes a fazer isso quando você chegou.
— Droga, me desculpa, não queria atrapalhar seu dia. — Makayla entendeu o convite do jeito errado e se colocou de pé imediatamente. — Eu já vou.
Bucky se levantou tão rápido quanto ela, e antes de pensar nisso segurou o braço feminino, impedindo a jovem de dar outro passo. A luva de couro dele sobre a jaqueta dela. Makayla pareceu surpresa, quase assustada, mas Barnes julgou ser apenas por causa de seu gesto repentino e a soltou normalmente.
— Eu não te falei pra ir embora, só perguntei se quer sair pra comer. — Explicou em um tom neutro. — Você não está me atrapalhando, sério.
Na verdade, a aparição de Makayla criou o equivalente a uma zona de conforto no meio de toda a dor em que Barnes se afogava dia a dia. Mas é evidente que ele nunca diria isso em voz alta.
Eles se encararam por alguns segundos até que os lábios femininos se curvaram em um sorriso. Bucky lembrou do sonho inapropriado e basicamente pôde sentir o gosto daquela boca na sua, mas afastou esses pensamentos para longe o mais rápido que podia...
— Okay... — Makayla concordou enfim. — Então vamos logo comer alguma coisa, não quero que seu déficit de calorias cause uma diminuição dos seus músculos, garçons apaixonados sofrerão muito com essa perda.
Bucky riu de canto do quão inusitadas as piadas dela podiam ser.
— Você está bêbada de novo? — Ele questionou enquanto os dois caminhavam para fora do apartamento.
— Bem que eu queria... — Makayla riu, encostada na parede ao lado, enquanto Bucky trancava a porta. — Mas meu anfitrião não me deu whisky o bastante.
Foram andando juntos para fora do edifício, como se já tivessem feito aquilo dezenas de vezes, mesmo o ritmo de suas passadas casava de alguma forma, estavam em sincronia. Bucky virou o rosto na direção de Makayla casualmente quando eles saíram para a luz do dia, isso aconteceu no mesmo instante que ela também virava o rosto na direção dele, as tempestades cinzentas se encheram de tons azuis e o rosto feminino se iluminou com um sorriso jovial, um arco-íris nasceu no peito de Barnes, e todo o resto desapareceu, qualquer dúvida, qualquer receio, tudo deixou de existir naquele microssegundo, que pareceu passar em câmera lenta diante dos seus olhos...
— Só pra constar... — Makayla colocou as mãos nos bolsos e virou de frente para Bucky, caminhando de costas. — Eu estou fugindo do Feltz de novo, então seria legal se não fossemos para o lado de Manhattan.
— Se não gosta do cara, por que não manda ele embora? — Barnes questionou com um franzir de sobrancelhas.
— Aparentemente minha mãe acha que eu sou uma bebê que precisa de babá. — Ambos riram da forma como a jovem pronunciou as palavras. — Mas não quero falar da minha mãe e muito menos do idiota do Feltz. Onde vamos?
Bucky não sabia, apenas tinha decidido não gastar o dia no apartamento, não planejou nada. Podia dizer que iriam em qualquer lugar, porém teve uma ideia, se a intenção era deixar Makayla feliz, Barnes só conhecia um lugar no mundo com esse poder.
— Já foi pra Coney Island? — Perguntou de repente.
— Você quer ir na praia? — Makayla devolveu, mas algo nos olhos dela fez com que Bucky imaginasse que ela sabia exatamente o que ele diria a seguir.
— Não... eu não gosto muito de praia. — Encolheu os ombros de forma simples. Ir com aquele braço e com aquelas cicatrizes na praia seria uma catástrofe. — Mas eles têm parques de diversões por lá. Tem um que existe desde os anos 40. Eu costumava ir com um amigo... — Bucky sorriu para a própria memória. — A gente não tinha dinheiro pra muita coisa, então saíamos de casa com alguns trocados pra passagem e nada mais, o problema era quando achávamos que tudo bem gastar o dinheiro no parque, que não seria tão ruim assim voltar a pé. — Riu das escolhas idiotas que costumava fazer com Steve. — Acontece que meu amigo era asmático...
Só então percebeu que tinha deixado escapar a coisa dos anos 40 e que estava falando demais, no entanto Makayla não parecia ter estranhado o comentário com a data, na verdade o olhar tempestuoso dela exprimia tanto fascínio que Bucky quase acreditou que ela pudesse visualizar aquelas memórias. Bobagem é claro.
Ele também se deu conta de outra coisa...
— Mas é claro que você deve conhecer, você é rica, já deve ter ido em todos os parques desse país. — Encolheu os ombros, se sentindo meio idiota com a empolgação. Makayla não era uma garotinha dos anos 40 que se impressionaria com qualquer coisa. — Desculpa, foi só uma ideia estúpida.
— Não foi não. — Ela rebateu de imediato. — E não importa quanto dinheiro meus pais tenham ou não, porque eu nunca fui a Coney Island, e já que você me contou como é legal por lá, acho que agora você tem o dever moral de me levar.
Por um instante Bucky se deixou levar pelo brilho no olhar azul-acinzentado e pelo sorriso jovial e animado.
— Está dizendo que vai ser sua primeira vez? — Ele não pensou antes de falar e só se deu conta do tom malicioso de suas próprias palavras quando elas escorregaram de sua língua de forma prazerosa. Merda! — ... indo pra Coney Island... — Tentou consertar, mas o rosto vermelho de Makayla dizia que ela tinha entendido exatamente qual era a primeira intenção. — Você vive em Nova York, e nunca foi até lá?
Ela desviou os olhos para o chão por dois segundos, mordendo os lábios nervosamente. Bucky por sua vez repassava todos os palavrões conhecidos em sua mente.
— Em minha defesa eu vivo nessa cidade faz só alguns meses, antes disso a última vez que estive aqui foi em 2012, meu irmão tinha comprado aquele apartamento fazia pouco mais de dois anos... — Makayla despejou todas as palavras de uma vez só, claramente querendo normalizar o clima, mas algo no que ela mesmo disse a fez parar por um segundo. — Mas ele quase não tinha tempo de ficar aqui por causa das convocações.
— Seu irmão era soldado? — Bucky presumiu, por causa do termo usado.
— Capitão, na verdade... — Ela respondeu e foi possível ver todo o seu semblante perder o brilho.
Bucky entendia a dor da perda, e era ainda mais relacionável que os dois tivessem perdido um Capitão...
— Era a primeira vez que ele vinha pra casa desde que foi promovido. — Makayla soprou tão baixo, que era como se ela apenas estivesse afundando nas memorias ruins e não contando aquilo para Bucky. — E então ele morreu aqui... em Nova York, na invasão de 2012. Foi minha culpa... Eu queria um sorvete estúpido. Cam não queria me trazer, ele estava irritado e triste, teve problemas com o namorado... Mas eu insisti. Estavamos no centro quando o céu se abriu e aquelas coisas vieram... Meu irmão morreu por causa de um sorvete.
O primeiro instinto de Bucky foi parar ali no meio da rua, no intuito de abraçar Makayla e dizer que a culpa não era dela, mas quando ele se aproximou um passo a mais, ela se afastou dois, como se tivesse repentinamente acordado de um transe.
— Podemos falar de outra coisa? — A voz casual pareceu forçada, e Bucky conseguia entender que era apenas um jeito de fugir de assuntos dolorosos.
— Eu fui do exército também, por um tempo... Sargento. — Ele disse, porque foi a primeira coisa em que conseguiu pensar. Merda.
Makayla se virou na direção dele, o rosto todo exprimindo grande surpresa.
— Sério?
Barnes apenas encolheu os ombros, se arrependendo das verdades impulsivas, todavia, por um instante ele teve impressão que a reação de Makayla não foi por causa do fato e sim por Bucky ter dito aquilo em voz alta. Mas não fazia sentido, então ele desconsiderou. Talvez a surpresa fosse dele próprio, porque nunca se imaginou dizendo aquilo para ninguém...
Não tinha planejado contar, porque não queria responder as perguntas que viriam depois disso, porém com Makayla era fácil falar, parecia natural. O problema seria lidar com as consequências, afinal se ela perguntasse do batalhão ou das incursões ele não teria escolha a não ser mentir... ou então contar a verdade e esperar que ela acreditasse ser uma mentira.
No entanto Makayla apenas sorriu, voltando a caminhar de costas para a rua e de frente para Bucky, fazendo uma continência despojada usando apenas dois dedos da mão direita enquanto falava:
— Então... obrigada pelos seus serviços, Sargento.
Barnes paralisou ali mesmo no meio da calçada, seu coração batendo apressado, um nó invisível em sua garganta e um cubo de gelo derretendo em seu estômago.
— O que foi? — Makayla franziu as sobrancelhas, parando de andar também.
— Nunca disseram isso pra mim... — Bucky soprou, em não mais que um sussurro.
Conhecia o costume, porque agradecer soldados por seus serviços pelo país era algo originário da primeira guerra, mas Barnes nunca tinha passado por isso, mesmo a medalha de honra póstuma foi retirada em algum momento após a bomba da ONU e a fuga para Wakanda e nunca foi recuperada. Ele nunca foi tratado por ninguém como um verdadeiro soldado que voltou para a casa.
Até mesmo isso a Hydra havia tirado de Bucky...
Mas ele se lembrava que em algum momento, entre as missões nas trincheiras e as noites nos acampamentos precários, havia sonhado com isso; em voltar pra casa de cabeça erguida, em ser o orgulho de sua família. Talvez por isso, ouvir aquilo pela primeira vez, tenha causado um impacto imediato que Bucky não foi capaz de controlar.
— Bom... agora eu disse. — Makayla declarou da forma mais simples possível e ofereceu a Bucky um sorriso que parecia vir com um duplo sentido. — Isso faz de mim sua primeira?
Bucky não esperava que seu flerte impensado de antes fosse ter uma resposta tardia, aquilo o pegou desprevenido com certeza, liberando por todo seu corpo uma corrente elétrica que era um misto de autoestima, euforia e adrenalina. Ele deu um sorriso de canto e se aproximou três passos antes de responder:
— Primeiros, segundos, últimos... Isso não faz diferença. O que importa é ser inesquecível... Certo?
Sequer poderia se defender dizendo que não era sua intenção soltar aquelas palavras em um tom tão malicioso, Bucky sabia o que estava fazendo, e ele queria fazer exatamente daquele jeito.
Flertes costumavam ser seu lance nos anos 40, era como um jogo no qual Barnes sempre acabava vitorioso, e apesar de se achar completamente enferrujado talvez ele ainda fosse um bom jogador.
E, contra todos os seus instintos, apesar de tudo que o separava de sua jovial versão dos anos 40, Bucky decidiu que naquele dia não pensaria demais sobre as coisas que devia ou não fazer. Talvez, por pelo menos um único dia, as coisas pudessem ser como ele queria que fossem...
Makayla piscou devagar, conforme ela absorvia as palavras suas bochechas assumiam tons mais quentes. Bucky achava isso uma graça. Quando ela instintivamente mordeu os lábios de forma nervosa, ele se aproximou um passo, não tinha ideia de suas próprias intenções naquele momento e de toda forma tudo se perdeu, quando a jovem repentinamente se afastou e voltou a caminhar.
— Achei que a coisa toda de “não se apaixonar” exigisse que você parasse de flertar comigo... — Ela lançou casualmente, repetindo a exata frase que Bucky havia usado um pouco antes.
— Eu não estou flertando com você, é só a minha personalidade charmosa. — Ele retrucou, também usando a mesma resposta que ela.
Dois podiam entrar naquele jogo.
Eles riram, voltando a caminhar lado a lado até o metrô, geralmente Bucky ficava muito confortável no silêncio que eles compartilhavam, porém, quando entraram no metrô e Makayla escolheu um dos cantos quase como se estivesse com medo de ficar perto demais das pessoas, foi impossível para Barnes não se lembrar do sonho...
— Então, onde você nasceu? — Ele questionou de repente, querendo encher sua mente com a imagem de qualquer coisa que não fossem as coxas de Makayla e a curiosidade pelo gosto de seu beijo.
— Nasci na Flórida, mas cresci na Georgia. — Ela respondeu, dando três passos para trás quando uma pessoa quase esbarrou em seu corpo.
No decorrer dos próximos minutos, através de perguntas igualmente casuais, Bucky descobriu mais algumas coisas de Makayla, como por exemplo; ela havia mudado o foco de sua graduação três vezes, mesmo só tendo vinte anos, tentou engenharia, medicina e direito, um semestre de cada um desses, até que por fim simplesmente desistiu de um diploma e naquele instante não estava sequer pensando em tentar outra faculdade.
— Não sou do tipo que termina o que começa. — Ela disse em um tom amargo, enquanto os dois saíam do metrô.
— Talvez você simplesmente não tenha encontrado aquilo que está procurando ainda. — Bucky opinou, Makayla era jovem demais pra ser tão decepcionada consigo mesma. — Com vinte anos eu não fazia ideia do que fazer com meu futuro, e aqui estou eu, décadas depois... e continuo sem saber.
— Eu não acho que seja a mesma coisa, mas obrigada por passar pano pra mim. — Ela disse e Barnes não entendeu a gíria, mas por algum motivo isso importou muito menos do que o sorriso genuíno que a jovem abriu.
Ao longe eles podiam avistar os parques no píer, a grande roda gigante e a montanha russa se destacando na paisagem a beira mar. De repente, algo captou a atenção de Makayla nas lojas à esquerda deles.
— Preciso comprar um celular... — Ela apontou, mudando o rumo de seus passos.
Bucky não estranhou, afinal um telefone novo era o exato motivo pelo qual eles tinham combinado de se encontrar de novo, no entanto, quando Makayla pegou um aparelho simples e não muito caro e pagou por isso em dinheiro, algo pareceu um tanto estranho.
Jovens ricas não deviam escolher o modelo mais novo da geração?
Além disso, Barnes podia não entender muito da modernidade, mas sabia que a maior parte das pessoas não andava por aí com aquele tanto de dinheiro no bolso...
— Me fala seu número, vai ser o primeiro que eu vou salvar. — Makayla comentou assim que pegou o aparelho em mãos e Bucky apenas deixou todo o resto de lado.
Enquanto voltavam a caminhar, ele ditou o número.
— “Bucky. O Herói Gostoso”. — A jovem entoou divertida enquanto salvava o contato.
— Eu não sou herói. — Barnes rebateu de imediato.
— Mas é gostoso. — Makayla devolveu com um sorriso perspicaz e travesso.
Ele se limitou a rir de canto, estava claro que era uma brincadeira boba na qual a garota insistia e, por mais que aquilo tivesse certo efeito em seu ego, ele preferiu não levar a sério.
— Você pode salvar só “Bucky”, sabe disso, não sabe? — Sugeriu, enquanto eles caminhavam em direção a entrada do parque.
— Eu até podia, mas vai que conheço outro Bucky amanhã... — Makayla encolheu os ombros em resposta e arrancou um sorriso honesto de Barnes.
— Claro, porque “Bucky” é um nome muito comum... — Ele retrucou e os dois acabaram por rir juntos.
— Salva o meu aí. — Ela disse enquanto fazia o celular dele tocar. — “Makayla. A garota maluca”.
Bucky pegou o aparelho e encarou o número na tela, então teve uma ideia melhor. Era como tinha pensado antes: dois podiam participar daquele jogo.
— Acho que não... — Ele salvou o contato de seu próprio jeito e mostrou a tela para Makayla com um sorriso de canto.
Ela riu daquele jeito constrangido quando viu “Princesa” estampado no visor. Bucky achava realmente curiosa e adorável a forma como aquela garota conseguia ser tímida e ousada ao mesmo tempo, era uma contradição muito interessante sobre ela, quase afrodisíaca talvez.
— Eu não sou princesa... — Makayla desconversou com um dar de ombros. — A menos que essa princesa seja a Fiona, daí poderia até ser.
— Quem é Fiona? — Bucky certamente não entendeu a referência.
— É de um filme infantil chamado Shrek. — Ela respondeu animada, enquanto eles paravam na bilheteria do parque. — É meio que um conto de fadas, mas o personagem principal é um ogro, o melhor amigo dele é um burro falante e a princesa que ele devia salvar é... Bom, spoiler. Assista, é bem legal.
Bucky fez uma nota mental, porque achou a premissa curiosa e então focou em comprar os ingressos... O parque não se parecia em nada com aquele que havia ali nos anos 40, os brinquedos eram mais modernos e o local, no geral, bem menos movimentado, mesmo assim, pelo próximo par de horas Barnes teve momentos de pura calmaria e diversão.
Quer dizer, é claro que estava velho demais para os brinquedos, porém encontrou uma tenda de bingo quase escondida no fim dos limites do parque e convenceu Makayla a jogar algumas partidas, mesmo que o lugar tivesse apenas velhos, provavelmente os avós das crianças que corriam por toda a parte.
Não ganharam absolutamente nada, mas por algum motivo estranho, cada vez que Makayla ria ou apenas fazia uma piada muito inapropriada para o momento, Bucky se sentia sortudo como há muitos anos não acontecia... E ele decidiu que, naquele dia, apenas aceitaria isso, sem pensar muito em certo, errado ou qualquer implicação futura.
Depois que cansaram de perder para velhinhos no bingo, os dois apenas gastaram um tempo caminhando pelo parque enquanto comiam os fasfoods ofertados pelas barracas, carrinhos e foodtrucks espalhados pelo lugar, aquele foi um dos únicos momentos em que Bucky viu Makayla sem a luva, e só então ele se deu conta que, apesar de dizer que era uma questão de estilo, nenhum outro jovem caminhava por aí com aqueles acessórios. Ela tinha mãos bonitas e delicadas, com unhas compridas e bem feitas, era estranho que escondesse isso com aquela peça que Bucky achava tão desconfortável.
Ele próprio não usaria se não tivesse algo a esconder...
Porém esse foi apenas outro pensamento solto que ficou perdido em sua mente, quando ambos começaram uma leve e divertida discussão sobre deverem ou não dar uma volta na roda-gigante.
Bucky deixou que Makayla ganhasse e logo os dois estavam na fila jogando conversa fora. Era estranho que fosse tão fácil falar com aquela garota, tinham uma grande diferença de idade, se conheciam há pouco e ainda assim, era confortável estar com ela. E, tirando os flertes que escapavam hora ou outra, absolutamente nenhum assunto “constrangedor” era colocado em pauta.
Depois do encontro com Leah — do qual Barnes praticamente fugiu ainda na metade — ele havia pensado que nunca mais poderia fazer aquilo, mas com Makayla... Reprimiu o pensamento antes que se formasse em sua mente e encarou a jovem parada há um metro dele. Talvez pela primeira vez naquela tarde os olhos tempestuosos não estavam focados em Bucky, algo dentro dele não se agradou muito dessa constatação.
Seguiu o olhar de Makayla para então descobrir que ela estava focada em uma criança algumas barracas para a esquerda. A mãe tentava conseguir um brinquedo para a filha no tiro ao alvo, mas obviamente falhou, por isso a menininha chorava de forma sentida, enquanto era acolhida no colo de sua progenitora.
— Vem... — Makayla disse apenas, abandonando seu lugar na fila e seguindo em direção a barraca.
Bucky não viu outra alternativa a não ser segui-la, curioso com o que aconteceria a seguir...
Makayla pagou por uma rodada no lugar e o homem atrás da bancada lhe entregou uma arma com um único tiro, tudo falso obviamente, então explicou as regras; para cada prêmio na parede o jogador tinha que derrubar um alvo posicionado no centro da barraca, quanto maior o prémio mais difícil derrubar o alvo.
— Aqui. — Makayla colocou a arma sobre o balcão e a empurrou na direção de Bucky. — A garotinha queria o panda.
Enquanto isso a menina se afastava com a mãe, ainda chorando e apontando a barraca.
— Como tem tanta certeza que eu posso acertar? — Bucky franziu as sobrancelhas intrigado, afinal o panda era o maior prêmio daquele lugar, ou seja, o mais difícil.
Makayla parou por um instante e encolheu os ombros como uma criança que é pega no meio de uma travessura.
— Porque... você foi do exército, não foi? — Ela lançou como se fosse a equação mais simples de todas.
Bucky podia ter dito que servir ao exército não significava ser um exímio atirador, mas apenas aceitou aquela resposta, afinal suas habilidades naquela área realmente haviam sido desenvolvidas na guerra, muito antes de serem aprimoradas dentro dos métodos violentos da Hydra.
Ele pensou em errar de propósito, apenas para manter melhor as aparências, mas honestamente pareceu uma coisa muito egoísta a se fazer quando havia uma criança indo embora chorando por causa de um urso gigante. Respirou fundo então, e simplesmente puxou o gatilho, derrubando o alvo com perfeição e ganhando um olhar nada satisfeito do dono da barraca.
Quando entregou o enorme panda para Makayla, que estava no limite total de animação e euforia, por um segundo Bucky pensou que a garota se lançaria contra ele para um abraço, essa intenção estava bem clara nos olhos dela por um breve instante e então, como se repentinamente se lembrasse de algo, a jovem apenas agradeceu de forma constrangida e saiu correndo atrás da criança.
Barnes levou um instante para entender o que tinha acabado de acontecer, porém resolveu deixar aquilo de lado, ela era tímida afinal... mesmo que às vezes não parecesse tanto assim.
Estava pronto para segui-la, mas algo no mural de prêmios chamou sua atenção, Bucky parou por um segundo... E por que não? Era apenas outro tiro.
Depois de comprar mais uma rodada, ele saiu atrás de Makayla. Não foi tão difícil assim de encontrar a jovem, graças ao panda gigante que ela tinha acabado de entregar para a garotinha que agora sorria de orelha a orelha com a pelúcia três vezes maior que ela nos braços.
Barnes se aproximou devagar, as mãos para trás, apoiadas nas costas, de modo que quando finalmente parou ao lado de Makayla, a garotinha e sua mãe já estavam se afastando depois de muito agradecer.
— Então você gosta de crianças? — Ele questionou assim que aqueles lindos olhos tempestuosos lhe encontraram.
— Desde que eu possa devolver essas crianças para as mães delas depois... — Makayla franziu o nariz de um jeito adorável e engraçadinho. — Sabe, dizem que quando fazemos uma criança sorrir estamos um passo mais perto do céu.
— Eu devia virar animador de festas infantis, então... — Bucky lançou, soltando uma risada um tanto seca, e é claro que Makayla riu, porque ela com certeza era capaz de apreciar aquele humor sarcástico e sombrio.
— Obrigada por ganhar o panda a propósito. — Ela voltou a caminhar em direção a lugar algum, dando passos de costas como era de seu costume. — Eu sei que você meio que fez por livre e espontânea pressão, mas obrigada mesmo assim.
Bucky sorriu, anos e anos de violência o tinham feito esquecer que suas habilidades serviriam para algo mais que lutas, assassinatos e sangue, mesmo na batalha contra Thanos, quando tecnicamente estava fazendo a coisa certa, ele ainda estava ferindo seres vivos. De todos os gatilhos que havia apertado nos últimos noventa anos, aquele era o mais inofensivo de todos, havia certo conforto nisso, mas é claro que Makayla não tinha como saber.
Na verdade, ela havia lhe feito um favor.
Barnes se sentiu muito mais humano do que um assassino naquele pequeno momento, talvez por isso tenha gastado alguns dólares com um segundo e último tiro, pra conseguir algo para aquela peculiar garota de olhos tempestuosos.
— Não foi nada, sério. — Ele desconversou, parando bem ali e trazendo as mãos para frente conforme continuava. — E... eu trouxe uma coisa pra você.
— Ah meu deus! — Makayla exclamou em um misto de surpresa, euforia e animação pura. — É um gato!
Bucky ficou com os olhos presos naquele rosto jovem e bonito; a forma como as íris brilhavam um tom mais claras, o sorriso aberto e cada pequena micro expressão de felicidade pura; aquela imagem grudou na mente dele, perfeita, como uma pintura em um museu.
Quando deu aquele tiro, jamais imaginou que isso faria Makayla tão clara e genuinamente feliz, afinal era apenas um gato de pelúcia. Não tinha sequer um terço do tamanho daquele panda; era pequeno, inteiramente branco não fossem pelos detalhes rosa bebê nas orelhinhas e focinho, os pelos eram macios e sua carinha levemente brava.*
Uma graça, verdade, mas com certeza uma menina rica como Makayla já havia ganhado pelúcias mil vezes melhores.
Bucky não entendia porque ela parecia tão feliz e quase comovida com o gesto tão bobo.
— Você disse que gostava de gatos. — Ele explicou apenas, colocando a pelúcia nas mãos enluvadas da jovem, que sorria ainda mais naquele instante.
— Eu disse... — Makayla concordou, examinando o gatinho como se ele fosse uma das sete maravilhas do mundo. — Mas geralmente ninguém presta muita atenção no que eu digo.
Ela ergueu os olhos para Bucky e sorriu tão bonito que o coração desavisado dele errou uma batida, quase como se ainda fosse um meninote do Brooklyn que estava flertando pela primeira vez. Bobagem, é claro. Mesmo assim ele se permitiu sentir aquilo, porque era confortável e um tanto eufórico. Era bom.
E algo dentro dele ansiava desesperadamente por coisas boas.
— Obrigada... Minha nossa, não sei nem o que dizer, é adorável. Obrigada. Obrigada. Obrigada. — A impressão de que Makayla estava prestes a lhe dar um abraço estava lá de novo, mais forte e clara daquela vez, porque a garota até mesmo deu três passos na direção de Bucky antes de desistir sem motivo algum e olhar para o semblante da pelúcia. — Acho que o nome dela vai ser Alpine.
Ele franziu as sobrancelhas, não teria pensado em uma “ela”, mas de fato combinava.
— Alpine? Por que? — Perguntou, enquanto eles voltavam a caminhar ainda sem rumo certo.
— Ela é branca... — Makayla respondeu simples, como se isso explicasse tudo.
— Então não devia ser “Albina”... “Albine”? — Bucky testou as sonoridades e nenhuma delas se encaixou realmente.
Alpine era mesmo um nome muito bom para uma gata.
— É por causa dos Alpes que são cobertos de neve. — Makayla esclareceu. — Dos Alpes Suíços, pra ser mais exata.
— Bem especifico...
A jovem respirou fundo e deixou que os olhos vagassem pelo parque sem de fato focar em lugar algum.
— Quando eu era adolescente, as coisas na minha casa não iam muito bem. Meu pai e minha mãe brigavam constantemente... — Ela contou e era perceptível o quanto a memória lhe afetava. — Então o meu pai comprou uma casa de inverno nos Alpes Suíços, um lugar pequeno e aconchegante, onde tínhamos que ir pelo menos uma vez ao ano pra fazer bonecos e anjos de neve, tomar chocolate quente e ficar em paz. “Castelo da Paz”, era assim que ele chamava, mesmo que não fosse um castelo... ele dizia ter uma lógica por trás do lugar, mas eu era meio nova pra entender referências históricas...
Ela sorriu melancólica, abraçando a gata de pelúcia junto ao peito.
— É porque a suíça é considerada um país neutro. Eles não escolheram um lado durante a segunda guerra. — Bucky decifrou o significado por trás do “Castelo da Paz”. Era claramente um local neutro onde a família deixaria as diferenças e desavenças de fora. — Muito inteligente.
— Eu acabei descobrindo isso depois. — O tom de Makayla estava impregnado de saudade e desalento. — Meu pai tinha essas sacadas geniais.
Tinha. Barnes notou perfeitamente o verbo no passado e soube pela tristeza nos olhos da jovem que o homem havia morrido... Irmão e pai, a conversa de mais cedo sobre perder pessoas começou a fazer cada vez mais sentido.
Makayla respirou fundo e foi visível o quanto se esforçou para mandar as lembranças melancólicas embora.
— Ele gostaria muito de você, sabe? — Comentou casual e ofereceu a Bucky o esboço de um sorriso.
Ele riu de canto, porque com certeza era a primeira vez que ouvia algo como aquilo.
— Eu meio que duvido disso. — Teve que discordar, mergulhando também em suas próprias lembranças. — Nunca fui exatamente o tipo de cara que os pais gostavam muito.
Não era um bom partido nos anos 40, praticamente o terror dos pais das donzelas, sua reputação o precedia, pobre e cafajeste, mas era divertido carregar essa fama.
— Nem imagino o motivo, Sargento... — Makayla riu, quase como se soubesse mesmo de toda a história.
O que obviamente era impossível, Bucky apenas presumiu que ela tinha feito sua própria interpretação moderna de um garoto problema.
E, no fim, mesmo depois de décadas isso em nada tinha mudado... os motivos eram outros, é claro, mas nenhum pai ficaria confortável com sua prole — fosse filho ou filha — andando por aí na companhia de Bucky Barnes. Ele conseguia até mesmo imaginar o choque, pavor e decepção nos olhos das pessoas.
Ninguém aceitaria ter o Soldado Invernal como genro...
— Olha... — Ao tentar fugir dos próprios pensamentos, algo na coleira de Alpine lhe chamou atenção. — Vem com um broche, ou sei lá...
Makayla focou ali também e pareceu ainda mais animada com o presente.
— É um ear cuff. — Explicou, tirando a peça prateada da coleira da gatinha. — Obrigada, eu adorei. Mesmo, mesmo.
Bucky franziu as sobrancelhas em clara confusão, porque com certeza não fazia ideia do que a tal “ear cuff” era e para o que servia. Makayla riu quando viu aquela expressão, entregando a pelúcia para ele e ficando apenas com o pequeno acessório.
— É um brinco, geralmente solitário, só que ele acompanha o formato todo da orelha. — Ela explicou, enquanto colocava a peça em si própria. — Viu? Assim...
Era um gato também, delicado e prateado, se espreguiçando de modo que desde as patas até o rabo alongado, todo seu corpo fazia o formato perfeito da orelha de Makayla.*
— Combinou com você... — Bucky comentou, se aproximando alguns passos para entregar Alpine na mão livre da jovem, já que a outra ela usava para segurar os fios castanhos e expor o brinco. — Mas acho que vai deixar sua orelha verde em três dias.
Sabia que algo saído de uma barraquinha de parque não duraria muito, mas o olhar tempestuoso de Makayla dizia que ela não estava realmente preocupava com esse fato.
— Tem alguns truques pra isso. — Disse simples, erguendo um pouco a cabeça para encarar Bucky e só então ele se deu conta do quão perto estavam.
Ele devia ter recuado um passo e até pensou nisso, mas simplesmente avançou ao invés de retroceder, erguendo a mão direita e tocando os fios castanhos de Makayla, deixando que deslizassem pelo couro, até que seus dedos enluvados encontrassem os dela em um ponto logo abaixo da orelha.
Era um toque, mas ao mesmo tempo não era, pelo tanto de tecido que impedia suas peles de terem qualquer contato. Um instinto na cabeça de Bucky lamentou por isso, enquanto Makayla parecia paralisada, totalmente em choque ou hipnotizada demais com a proximidade repentina para se mover.
— Eu conheço uma porção de truques, mas esse com certeza não é um deles... — Barnes soprou em um misto de malícia e casualidade, sendo ousado o suficiente para dar os dois passos que ainda os separavam.
Makayla respirava lentamente através dos lábios entreabertos, seus olhos presos no rosto de Bucky, tão rendida e ao mesmo tempo tão perfeita, que foi impossível para ele não achar aquilo extremamente atraente.
Sua mão direita envolveu a nuca dela e a puxou para mais perto, um gesto muito mais instintivo do que planejado de fato. Tudo que Barnes conseguia pensar naquele momento era na textura e gosto que aqueles lábios volumosos e irresistíveis teriam quando estivessem colados nos dele.
Sim, desejava beijar Makayla, como não desejaria afinal?
E de repente todos os argumentos que pareciam tão vívidos e válidos pela manhã, quando decidiu se afastar dela, não faziam mais o menor sentido ou diferença. Eram maiores de idade e seria apenas um beijo, não um pedido de casamento.
Que mal havia então?
Bucky decidiu que estava cansado demais de se preocupar com tudo, de pensar demais, de não fazer qualquer merda estúpida e impulsiva que ele quisesse fazer. Não era um assassinato, era apenas um beijo. Talvez estivesse embriagado demais no perfume de jardim noturno para ser racional, mas foda-se, era o que ele queria e os olhos de Makayla diziam claramente que ela queria a mesma coisa...
A puxou um pouco mais, sendo capaz de sentir a respiração dela bater em seu rosto, nada mais que um sopro separava seus lábios, foi quando Makayla piscou, como se fosse bruscamente arrancada de um transe.
— Bucky... — Ela colocou a mão enluvada sobre o peitoral dele para que se afastassem. — Eu... eu... não posso.
Ele piscou confuso, quando Makayla escapou pro entre seus dedos e uma distância desnecessária foi imposta entre os dois. Tinha entendido os sinais errado?
— Me desculpa, eu... eu... — Tentou encontrar algo pra dizer, mas a verdade é que estava absolutamente constrangido. — Eu não sei o que deu em mim...
Nunca tinha sido rejeitado, quer dizer, talvez por Peggy e Steve, mas não tinha investido em nenhum dos dois de verdade e com certeza não ficara tão perto de beijar nenhum deles. Aquilo era novo... estranha e constrangedoramente novo.
Mas devia ter adivinhado, certo? Porque afinal o que uma garota como Makayla iria querer com ele? Ela tinha vinte anos, e mesmo que não soubesse a idade real de Bucky, ainda assim ele aparentava ter mais de trinta. Garota nenhuma desperdiçaria sua juventude com ele.
— Não, tudo bem, sério... eu... — Ela se apressou em falar, embora se atropelasse nas próprias palavras. — Olha, não é que eu não queira... eu só...
— Você não tem quem explicar, eu entendo, mesmo. — Bucky interrompeu, antes que as coisas ficassem ainda mais constrangedoras.
Mulher alguma devia ter que justificar suas negativas. Ela não queria, isso era tudo que ele precisava saber.
— Não, não, Bucky. — Ele com certeza não esperava que Makayla lhe segurasse pelo braço de vibranium para obrigar seus olhos a se encontrarem, mesmo por cima da jaqueta e com a luva na mão dela, aquilo parecia estranho. — Eu... quero, eu só não posso... fisicamente.
Barnes franziu as sobrancelhas, com certeza não era o que esperava ouvir, mas a forma como Makayla enfatizou as palavras o deixou realmente curioso.
— O que? — Foi tudo que conseguiu dizer.
— Tem uma coisa sobre mim, que você ainda não sabe... — A jovem respirou profundamente. — Eu...
A atenção de Bucky acabou fugindo dela, quando o telão do parque mostrou uma imagem conhecida.
Steve.
Makayla havia se calado, seus olhos seguindo para o mesmo lugar que os de Barnes estavam, era um noticiário, logo a imagem de Steve mudou para uma gravação, era uma entrevista ou algo assim, Bucky reconheceu Sam sobre um palanque, com um grande poster de Rogers atrás de si. Ele parecia dar um discurso com o escudo de vibranium do Capitão América em mãos.
Por um instante Bucky pensou que Wilson finalmente estava assumindo o manto que havia herdado, porém, embora o discurso estivesse sem som e ele não pudesse ouvir o homem do noticiário, a manchete no pé da tela era clara demais para ser ignorada.
“Falcão homenageia Capitão América e entrega icônico escudo do herói aos cuidados do governo”.
Bucky sentiu o estômago revirar, sua cabeça rodou totalmente e os pensamentos vieram como bombas. Quando aquilo tinha acontecido? Por que?
Sam devia assumir o manto, Sam devia ser o Capitão América, ele devia honrar o legado, era o que Steve desejava, aquele escudo não devia estar em um museu, não devia estar com o maldito governo que nunca deu o valor que Steve merecia.
— Bucky... — A voz feminina chamou, mas ele por um instante havia esquecido totalmente que estava acompanhado.
Seja lá o que desejasse para si mesmo ou o que pensou que aquele dia seria, estava claro que a vida tinha vindo lembrar que os planos e desejos de Barnes pouco importavam.
— Eu tenho que ir, desculpa... — Foi tudo que conseguiu dizer antes de sair dali o mais rápido e discretamente que podia.
As coisas se misturavam em sua mente e o ar não entrava como devia em seus pulmões. Era como se tudo ao redor estivesse desmoronando, todas as suas certezas estavam se provando erradas...
Se Sam não assumisse o escudo, se ele não fosse o homem que Rogers acreditava... Então Steve estava errado, tudo que eles dois conversaram não faria mais nenhum sentido.
E se Steve estava errado sobre Sam, então estava errado sobre Bucky também...
Ele não era bom. Não era digno de redenção. Ele era culpado.
Se Steve estava errado, então suas últimas palavras também estavam...
Nada ficaria bem.
Se Steve estava errado... Bucky não tinha mais absolutamente nada de certo na vida.
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