Sweet Epiphany
25 The Worst Day... - parte II
Notas iniciais

Havia aquele odor, aquele típico odor que para ela cheirava a morte e talvez tenha sido isso que a puxou de volta para a realidade de uma só vez, sabia onde estava mesmo antes de ver o ambiente.
Odiava hospitais...
Abriu as pálpebras finalmente, a letargia a deixando desnorteada por um momento, a cabeça pesada e a vista muito embaçada. Tentou mover a mão para esfregar os olhos e percebeu que tinha alguém com os dedos entrelaçados nos dela.
— Makayla? — A voz preocupada de Bucky fez com que a realidade viesse de uma vez só, caindo sobre a jovem tão ferozmente quanto uma bola de demolição.
Se lembrou da conversa com a médica; da verdade esmagadora sobre sua própria vida; de ter demorado demais para encontrar uma forma de dizer aquilo para Bucky; das esperanças sobre Wakanda ser a solução; e de estar na cozinha quando tudo ficou embaçado, rodando até que não houvesse mais luz... Talvez por isso estivesse no hospital de novo.
Makayla respirou fundo, sua vista parcialmente nublada, não importando quantas vezes ela piscasse. A doutora havia dito que era um dos sintomas da evolução daquele “tumor”.
Focou em Bucky, a névoa inoportuna em sua vista não impedia de notar o quanto ele parecia nervoso, preocupado e abatido, a forma como os olhos gélidos estavam fixos nela fazia com que Makayla odiasse ser o motivo de tanta dor...
— O que aconteceu? — Perguntou apenas por perguntar, talvez precisasse preencher o silêncio sufocante daquele quarto de hospital.
— Você desmaiou... — Bucky respondeu, a voz alterada e embargada na garganta, deixando óbvio que ele havia chorado recentemente.
Makayla quis dizer alguma coisa que fizesse tudo aquilo ficar bem; desejou que existisse um botão que ela pudesse apertar para deletar sua presença da mente de Bucky, assim ele não teria que sofrer pelas escolhas estúpidas que ela tinha feito...
Estava apavorada, com dor, o desespero tomando conta de tudo, porém nada disso chegava aos pés da culpa de saber que Bucky estava passando por aquilo por causa dela. Porque tinha feito todas as escolhas mais ridículas possíveis e agora uma parte de seu cérebro estava comendo a outra.
A angústia evidente no olhar do homem que ela amava doía muito mais do que todas as outras coisas.
— Aqui não é Wakanda, é? — Perguntou casual, virando o rosto apenas para piscar algumas vezes antes que as lágrimas rolassem. Não queria que Bucky a visse chorar, só pioraria tudo.
Enquanto buscava as imagens de Wakanda nas memórias intrusas de Barnes, Makayla se deu conta de duas coisas, a maior parte de suas lembranças, principalmente aquelas vindas de fora, eram apena névoa e... ela não conseguia sentir os dedos dos pés.
Tentou não esboçar reação alguma, focou em se mover e deu tudo certo, nada estava errado nesse sentido, mas havia aquela sensação, quase como quando se toma anestesia local; um peso misturado com um formigar que a impedia de realmente sentir aquela parte do corpo.
A médica havia falado que não sabia como Makayla ainda estava de pé e funcional com aqueles exames, não fazia sentido. Que ela devia estar sem a maior parte dos movimentos e tendo lapsos de memória...
Será que era isso que estava começando a acontecer?
— Não é Wakanda. Tivemos que voltar para o hospital. — Bucky foi explicando enquanto a jovem tentava não se desesperar. — Quando eles chegarem a gente transfere você.
Certo, Wakanda ainda era uma opção. Isso era bom. Talvez eles pudessem resolver tudo. Podia ser uma sensação momentânea de dormência ou algo assim, só isso, não era necessariamente uma paralisia. Pensou em contar para Bucky, porém ao olhar para ele as palavras travaram em sua garganta, não podia causar ainda mais preocupação.
Era melhor esperar Wakanda...
— Onde está o Pitico? — Preferiu focar em coisas que podia controlar.
Era ridículo, Makayla sabia bem disso, era como se estivesse descendo uma montanha direto para um desfiladeiro em um carro sem freios e ao invés de se preocupar com isso, estivesse arrumando os retrovisores. Não fazia sentido.
Porém conversar sobre amenidades talvez fizesse Bucky ficar mais calmo, essa era a prioridade naquele momento...
— No seu apartamento. — Ele respondeu simples, os olhos focados no rosto feminino e a mão direita sobre a dela o tempo todo. — Não se preocupa, quando a nave de Wakanda chegar eu busco ele.
Makayla assentiu devagar, sorrindo quando ele envolveu a mão dela e a levou até os lábios carinhosamente.
— Como está se sentindo? — A pergunta que ela queria evitar pairou no quarto de hospital feito um fantasma.
— Bem... — Makayla detestou contar aquela mentira, porém já havia causado dor demais naquele homem por um só dia...
Já começou errado quando ela foi incapaz de contar sobre os exames assim que saiu do hospital. Mas como contaria algo que ela sequer tinha conseguido digerir ainda?
Havia mesmo um jeito de lidar com aquela situação de merda? Ou eles eram como crianças perdidas no meio de um bombardeio, tentando o melhor para sobreviverem mais algumas horas, sabendo muito bem que, mesmo na melhor das hipóteses, sairiam dali feridos?
Nada daquilo era justo.
— Tem certeza? — Bucky perguntou de novo, analisando o rosto de Makayla com mais atenção. Ele tinha aprendido a saber exatamente quando ela estava mentindo.
E a jovem não queria mentir para ele, de verdade não queria, porém também não desejava ser a fonte de ainda mais dor e sofrimento em um só dia, por isso, ao invés de responder, olhou ao redor buscando por um assunto diferente.
— O que é isso? — Apontou para um remédio que estava conectado na veia de seu braço por um cateter.
Estava sendo monitorada por vários fios ligados em aparelhos que apitavam constantemente a cada novo bater de coração, porém apenas uma bolsa de medicamento estava ligada à sua veia.
— Eles não podiam fazer muito por você aqui, é tudo paliativo, pra impedir dor ou dar mais conforto. — Bucky explicou e na verdade a própria médica havia dito algo parecido quando Makayla estava no consultório dela mais cedo.
Era como se a jovem estivesse em um estágio bem mais do que avançado de câncer, não havia tratamento, era tudo apenas para evitar o desconforto.
E na verdade nem era câncer de fato. Não havia um nome para o que ela tinha...
— Mas eu posso tomar essas coisas? — Perguntou no impulso. — Não vai prejudicar o bebê?
Era estranho se preocupar com algo daquele tipo naquele momento, e na verdade Makayla sequer havia se dado conta que se importava tanto, até que as palavras saíram de sua boca.
Aquilo, aquele instinto, era novo e... bom?
Bucky abriu e fechou a boca duas vezes, pareceu tão abalado com aquela simples pergunta, mas Makayla julgou que fosse a situação como um todo...
Era estranho pra ela, nunca sequer pensou em ter filhos, por isso mesmo tinha um DIU, e embora soubesse que algumas mulheres relatavam gravidez mesmo com o Dispositivo Intrauterino, Makayla jamais imaginou que aconteceria consigo. Mas aconteceu. E ela se viu desejando poder conversar sobre aquilo com Bucky sem que houvesse o peso de um “tumor” misterioso entre eles.
Ela tinha apenas vinte anos, devia estar surtando por ser nova demais, porque tinha um histórico ruim de traumas envolvendo família, devia chorar porque, puta merda, como seria mãe? Era esse tipo de drama que queria, não estar deitada em uma maca de hospital sem sentir os dedos, com receio que isso se desenvolvesse para uma paralisia, enquanto uma parte do seu cérebro comia a outra e, ainda por cima, preocupada se remédios paliativos eram prejudiciais para um feto de três semanas. O simples uso da palavra “paliativo” já dizia que Makayla era um caso perdido, ou seja, ninguém ali achava que ela fosse sobreviver por tempo o bastante...
— Eu espero que não, como eu disse é tudo paliativo, então não é nada forte demais. — Bucky desviou os olhos em quanto respondia.
Makayla respirou fundo, tentou não pensar demais naquelas coisas que estavam fora do controle. Pelo menos os remédios eram fracos. Tinha que manter a esperança, afinal Bucky havia envolvido Wakanda, isso devia que valer de alguma coisa.
O país mais evoluído do planeta Terra com certeza poderia fazer algo por ela.
— Melhor assim, e de toda forma você mesmo disse que vai ficar tudo bem quando Wakanda chegar, certo? — Tentou reforçar, como se buscasse uma confirmação para algo que sua mente não achava possível.
Porque uma parte de Makayla estava apenas ciente e conformada que ela não viveria o bastante nem para ver a próxima estação, quem dirá para dar à luz...
— Isso, não temos que nos preocupar com nada. — Bucky apertou a mão dela em um gesto de conforto e até tentou passar convicção na voz, porém não soou verdadeiro. Nem ele acreditava mais que tudo ficaria bem. — Com sede?
Ele se levantou rapidamente, virando de costas e passando a mão no rosto como se estivesse limpando lágrimas. Makayla respirou fundo, exausta demais do sofrimento ao seu redor, sua cabeça latejava, provando que os remédios eram mesmo fracos.
A jovem só se deu conta do quão debilitada estava quando Bucky lhe entregou o copo descartável com água e ela mal teve firmeza para segurar o objeto. E se Shuri fosse incapaz de reverter aquelas sequelas?
Naqueles curtos segundos, entre um gole de água e outro, Makayla pensou sobre qualidade de vida e acessibilidade, enquanto se perguntava como é que tinha despencado do paraíso, no qual passou a última semana, direto para o inferno...
Queria dizer que não sabia o que havia feito para merecer aquilo, mas a verdade é que sequer podia usar essa desculpa. Ela sabia exatamente o que tinha feito. Tudo que estava vivendo eram apenas as consequências de suas próprias decisões impulsivas... O que pensou? Que deixaria um maluco injetar drogas experimentais em seu corpo e ficaria tudo bem?
Brooks tinha avisado que abrir mão daquelas habilidades podia não ser uma boa ideia. Devia tê-lo escutado.
Talvez ela merecesse tudo que estava acontecendo...
Mas Bucky não merecia.
E essa era coisa que mais machucava naquele momento. Não era apenas Makayla quem havia despencado do paraíso, ela havia arrastado Barnes para o inferno junto.
Justo ele, que já tinha passado por tanto e só merecia paz e felicidade...
Era uma grande merda injusta. Como não se culparia por isso?
Uma leve batida na entrada do quarto fez com que ambos erguessem os olhares para a porta aberta. As sobrancelhas de Makayla franziram imediatamente, seu estômago embrulhando em um sentimento ruim assim que viu Emma Kennedy parada no batente, bem ali, surgida do nada. E falando em inferno...
— O que você está fazendo aqui? — Perguntou nada amigável.
— Fiquei preocupada com você... — A mulher ergueu as duas mãos como quem agita uma bandeira branca pedindo trégua.
— Isso não responde muita coisa. — Makayla retrucou em um tom arisco.
Como Emma sabia que eles estavam ali? Procurou por Bucky com olhar e ele pareceu decifrar a pergunta quando apenas moveu a cabeça sutilmente, indicando que não havia chamado a Diretora Kennedy.
— Eu estava monitorando você. — Ela confidenciou com a mesma naturalidade de quem fala do tempo.
— Como é? — A indignação de Makayla estava em cada sílaba.
— Você não respondia minhas mensagens, não me dava notícias... — Emma se defendeu, dando um passo para dentro do quarto. — Não me culpe por colocar um alerta caso você acabasse no hospital. E ainda bem que eu coloquei. Você não pretendia contar nada disso pra mim? Eu sou sua mãe.
Makayla respirou fundo, estava em uma cama de hospital, sem saber se viveria o bastante para ver as flores desabrocharem na primavera e com toda a incerteza de desconhecer se sua possível sobrevivência viria acompanhada de sequelas horríveis que mudariam sua vida para sempre. Estava apavorada, devastada e é evidente que queria um colo materno, qualquer pessoa naquela situação desejaria o conforto e a segurança que somente ter a mãe por perto podia proporcionar.
O problema é que Makayla não confiava mais em Emma pra saber se estava mesmo segura com ela.
— Achei que tínhamos concordado que você não é minha mãe. — Declarou arredia, com todas as defesas erguidas.
— Aquilo foi no calor do momento, pelo amor de Deus, Kayla. — Emma devolveu em tom apaziguador. — Você tem que entender que...
— Olha só, vocês não vão brigar agora, de jeito nenhum. — Bucky cortou muito firme.
Ele e a Diretora Kennedy se encararam por um instante curto, que resultou em um sorriso amigável da mulher.
— O Sargento Barnes está certo. Eu não vim aqui pra brigar com você, Kayla. — Ela apontou indicando que concordava com Bucky.
“Sargento”? O que infernos estava acontecendo ali?
— Então veio por quê? — Makayla estava confusa e desconfiada.
— Não é óbvio? — Emma moveu os ombros, dando outro passo para perto. — Você é minha única família, eu vim cuidar de você, não vou te perder também. — As duas se encararam por um momento, Makayla sentindo a dor daquelas palavras sem saber se era tudo falso, mas desejando que houvesse um pouco de verdade ali. Eram vinte anos, Emma devia gostar pelo menos um pouquinho dela, não é? — Vamos te transferir para o melhor hospital, conseguir os melhores médicos. Vai ficar tudo bem, filha.
Barnes e Makayla trocaram um olhar, ele nada disse, aguardando a resposta dela, talvez porque soubesse bem o quanto aquilo significava para a jovem.
Porque no fim, tudo que Makayla sempre quis foi o amor e a aprovação de sua mãe, era o motivo de tudo aquilo desde o começo, esconder os poderes, abrir mão deles. Tudo que ela sempre quis foi a família que foi arrancada dela, e mais que isso até. Sempre foi a Emma... porque uma garota precisa de sua mãe, é a relação mais importante de sua vida.
Ou ao menos devia ser.
Makayla passou a vida tentando formar um vinculo com aquela mulher, porque no fundo sempre sentiu, mesmo antes de saber disso de forma consciente, que o laço que as unia era frágil e falso. Não por não haver sangue envolvido, mas sim por não haver amor vindo de uma das partes.
Ela podia ver isso agora.
— Eu sei que vai ficar tudo bem. Bucky já resolveu tudo. Eu vou pra Wakanda. — Makayla respondeu finalmente. Estava cansada de procurar aprovação e amor de quem não merecia essas mesmas coisas dela, era hora de deixar aquela co-dependência para trás.
Bucky respirou aliviado, talvez uma parte dele tenha mesmo cogitado que Makayla ouviria as sugestões da mãe, mas não, se ele estava dizendo que Wakanda era melhor, então era para lá que eles iriam.
— Wakanda? — Emma soou surpresa por um instante, algo nela pareceu se abalar, para então voltar ao normal um segundo depois em forma de sorriso. — É, isso é bom, eles têm recursos inimagináveis, isso é ótimo. — Ela se virou para Bucky e moveu a cabeça em agradecimento. — Obrigada por cuidar dela, Sargento.
Sequer parecia a mesma mulher de Rigga...
Makayla cogitou se seu provável risco de morte era algo forte o bastante para despertar o instinto materno e a decência de Emma Kennedy. No fundo ela quis acreditar que sim, afinal as pessoas mudam, melhoram, evoluem, certo?
Talvez fosse tolice e ingenuidade de uma garota vulnerável, presa em uma cama sem saber se seu destino seria trágico ou milagroso, ou talvez fosse apenas a esperança de alguém que ainda queria acreditar que as pessoas podiam ser boas...
— Acha que eu posso ficar e te fazer companhia enquanto isso? — A pergunta tão humilde da diretora Kennedy fez com que a jovem titubeasse. O que devia fazer?
Emma já não havia errado o suficiente? Ela ainda merecia uma segunda chance? E, se Makayla estava mesmo morrendo, era justo e certo negar seus momentos finais para a mulher que, por bem ou por mal, havia sido sua mãe por vinte anos?
Essas perguntas não pareciam ter uma resposta certa, talvez, se fosse uma pessoa de coração ruim, a jovem sequer fizesse esses questionamentos a si mesma... Mas ela não era e talvez esse fosse o “problema”.
Procurou pelos olhos de Bucky, querendo que ele lhe desse uma resposta para tudo aquilo, porque confiaria no julgamento dele mais do que confiaria em si mesma...
Naqueles curtos segundos foi como se eles pudessem ter uma conversa inteira apenas com o olhar. Barnes não tinha respostas, apenas apoio e amor, ele aceitaria o que a jovem decidisse. E ela resolveu inverter os papeis. Se fosse Emma em um leito de hospital, na incerteza da vida ou da morte, Makayla gostaria de estar lá, nem que fosse para se despedir.
— Tudo bem. — Ela disse por fim, mesmo que sua postura não fosse tão amigável quanto suas palavras permissivas.
Emma assentiu devagar, pareceu entender que havia uma distância invisível entre as duas. Mesmo assim se aproximou um pouco mais.
— Está com dor? — Seu tom era maternal, mas Makayla não sabia se podia confiar no próprio julgamento para defini-lo como honesto.
— Não, eu estou bem. — Era uma mentira, mas parecia a coisa certeza a dizer naquele momento.
Emma assentiu, Bucky voltou para seu lugar, sua mão envolvendo a de Makayla, nada acuado com a presença da Diretora do CRG no mesmo cômodo. A jovem foi capaz de entender que naquele instante nada mais importava para Barnes, apenas estar ali cuidando dela. O amou um pouco mais por isso...
— Quando vocês vão? — Emma perguntou diretamente para o sargento, enquanto analisava o quarto e as aparelhagens disponíveis.
— Daqui algumas horas, o transporte já está a caminho. — Bucky respondeu de forma simples.
Havia um certo clima pairando no ar, não era exatamente tensão, era só... estranho.
— Ótimo, quanto mais cedo melhor. — A Diretora assentiu satisfeita, e Makayla voltou a se perguntar se aquilo era honesto. — O que são esses remédios?
— É paliativo, pra dor e essas coisas. — A jovem respondeu apenas.
— Não é prejudicial para o bebê? — Makayla ergueu os olhos para Emma no mesmo momento, sua mão seguindo instintivamente para a barriga.
Aquilo não era algo que a mais velha devia saber.
— Eu consegui uma cópia dos seus exames. — Emma confessou quando viu o olhar da filha.
Não era surpreendente que a Diretora do CRG tivesse acesso a documentos que deviam ser confidenciais. E, para uma boa mãe era realmente um crime estar preocupada com a filha? Porém, Emma Kennedy era de fato uma mãe preocupada ou apenas uma mulher extremamente invasiva e controladora?
Makayla não sabia o que pensar, mas com certeza ficou desconfortável com aquela informação.
— Não me orgulho disso, se quer saber. — Emma declarou em tom de desculpas. — Mas enfim, certamente os médicos sabem o que estão fazendo. Tenho certeza que nada é prejudicial para o bebê. O importante agora é você é ser forte e pensar no seu neném. Esse é o único trabalho de uma mãe.
Makayla sentiu uma coisa ruim na boca do estômago, de todas as coisas incertas sobre Emma Kennedy de uma a jovem tinha total convicção, jamais aceitaria conselhos sobre como ser uma mãe com aquela mulher.
— Vocês já comeram alguma coisa hoje? — Emma perguntou, como se não notasse o clima pesado que se instalou no quarto.
Será que ela tarde para mandá-la embora?
— A alimentação dela está sob responsabilidade médica agora. — Foi Bucky quem respondeu e ele sim parecia entender que tantas perguntas não estavam fazendo bem para Makayla
— Mas e você, rapaz? Comeu alguma coisa? — Aquele questionamento inusitado fez com que a jovem erguesse a cabeça. Ela estava preocupada com Bucky? — Esse tipo de lugar é exaustivo, precisamos de todas as nossas forças.
— Agradeço a preocupação, mas tenho força o bastante. — Ele devolveu neutro. — Além disso, não vou sair daqui.
— E nem deve, Kayla precisa de você agora. — Emma declarou e talvez tenha sido a coisa mais sensata que disse na vida. — Eu vou te buscar alguma coisa, nem que seja um chocolate quente.
O que?
Ela saiu em seguida, deixando o casal sozinho. Makayla olhou da porta para Bucky três vezes em choque completo. Aquilo ou foi muito atencioso, uma tentativa de fazer a coisa certa pelo menos uma vez, ou foi totalmente estranho e suspeito, uma desculpa para simplesmente sair do quarto talvez, a jovem estava incerta de qual dessas hipóteses era a mais provável.
— O que acha que ela está fazendo aqui? — Perguntou em um quase sussurro, como se estivesse trocando um segredo com alguém.
— Ela veio te ver pelo que parece... — Barnes respondeu em tom normal, porém ao ver a preocupação no rosto de Makayla ele completou: — Eu posso pedir que ela vá embora se isso te incomoda.
A jovem sorriu fraco, tocando a barba rala de forma carinhosa, não tinha a menor dúvida que Bucky expulsaria a Diretora Kennedy dali a ponta pés, mesmo que ele tivesse que enfrentar o CRG todo para isso. Bastava que Makayla pedisse.
Ela pensou nisso por um instante, será que valia a pena? Quer dizer, Emma foi invasiva e conseguiu exames que deveriam ser confidenciais, verdade, mas desde que colocara o pé ali ela não havia ofendido ninguém, na verdade fora até que agradável, por mais que isso fosse estranho...
E talvez fosse esse o problema. Algo não parecia certo.
Sem perceber, Makayla levou a mão até a barriga em um gesto de proteção instintivo que foi acompanhado pelo olhar gélido de Bucky.
— Vamos ver como ela age quando voltar. — Ponderou, sem querer agir drasticamente. De toda forma logo iriam para Wakanda e lá com certeza Emma não seria um problema.
— Como você quiser. — Bucky respondeu, mas seus olhos continuaram no ponto onde Makayla acariciava a barriga.
Só então ela notou o que estava fazendo e acabou rindo de canto.
— É estanho... — Comentou, olhando para a própria barriga. — Quer dizer, de manhã eu sequer desconfiava e agora... É uma coisa que não consigo ignorar. É como se eu sentisse dentro de mim. — Negou algumas vezes, notando o quão bobinha ela era. — O que é uma grande besteira, evidente, porque todo mundo sabe que com menos de um mês o feto é menor que um grão de feijão. Na verdade, os sintomas todos que me trouxeram aqui sequer são de gravidez ainda, são por causa do meu cérebro. Descobrir essa gravidez agora foi só coincidência.
Lembrou do que a médica havia dito mais cedo, do fato de o positivo no papel ser apenas uma eventualidade, se estivesse saudável Makayla certamente levaria mais algumas semanas pra desconfiar de qualquer coisa, talvez levasse um par de meses para ter que lidar com aquela verdade. Tudo que estava sentindo até então nada tinha a ver com o feto crescendo dentro de si...
Em uma vida normal uma gravidez seria um grande evento, a coisa mais importante acontecendo, porém, dentro da perspectiva atual de Makayla isso era apenas um detalhe. Talvez essa fosse a prova de que tudo estava fora dos trilhos.
— E ainda assim... — Ela riu de si mesma de forma amarga. — Não dá pra ignorar.
Makayla que aquela percepção de haver uma vida dentro de si era apenas psicológica naquele momento, nem havia um coração batendo ainda, isso só acontecia com cinco semanas, mais de um mês de gravidez. Nesse caso, tudo o que havia naquele instante era uma ideia, um futuro hipotético, algo que podia ser, mas que ainda não era. Um bebê dos sonhos. E ela sabia disso, é claro que sabia, mas saber não mudava o que ela sentia...
— Acha que eu sou idiota? — Ela perguntou de repente, alternando seu olhar na direção de Bucky.
— Não, Princesa, de jeito nenhum. — Ele respondeu com um sorriso que parecia triste demais. — Você já se apaixonou, deve ser instinto materno.
Makayla olhou para a própria barriga uma vez mais, puxando um pouco a blusa para isso, e assentiu algumas vezes.
— Deve ser... — Disse apenas, enquanto traçava linhas imaginárias abaixo do umbigo.
Voltou para o momento em que ficou sabendo de tudo, para a certeza que seus erros a tinham empurrado do precipício sem um paraquedas, e então para o momento exato em que aquele instinto se apossou dela... A necessidade empírica de proteger, de ficar viva, porque agora sua vida não era apenas sua. Mas logo veio a impotência de saber que não havia tempo o bastante. E então Bucky lhe devolveu todas as esperanças, ele e sempre ele.
Talvez Bucky Barnes fosse seu paraquedas... Era uma péssima analogia, Makayla teve noção disso, mas gostou de pensar assim naquele momento. E foi impossível não sorrir imaginando a família que eles seriam... Ela, a garota que sempre se metia em problemas; Bucky, o soldado centenário que sempre estava lá para ser o salvador da pátria; Pitico, o pitbull mais adorável do mundo; e o pequeno bebê dos sonhos...
Seria um menino? Uma menina? Ou uma criança que não se encaixa nos estereótipos binários de gênero? Qual seria sua cor favorita? Seu sabor preferido de sorvete? Suas primeiras palavras? Que nome escolheriam para o bebê dos sonhos? E o mais importante, seria uma criança feliz e saudável?
Makayla e Bucky seriam bons pais?
De certa forma era assustador pensar em tudo isso, porém ao mesmo tempo era empolgante também, era como planejar uma aventura.
Haviam muitas coisas que Makayla não sabia, algumas que ela tinha medo de descobrir e tantas outras que ela estava ansiosa para saber e, no meio de tudo isso, havia uma única certeza. Se ela e Bucky estivessem juntos, eles poderiam fazer qualquer coisa, inclusive criar um bebê dos sonhos.
De repente os dedos da mão direita de Barnes tocaram os dela, quase receosos, escorregando devagar para a barriga feminina tão trêmulos e gelados que Makayla procurou pelos olhos de Bucky naquele momento...
Uma lágrima pesada rolava pelo rosto dele, toda sua expressão alagada de sofrimento, angústia e algo mais, algo que Makayla conhecia muito bem, a dor da perda.
E foi naquele exato momento, com a mão de Bucky em sua barriga e os olhos dele cheios de lágrimas que Makayla finalmente entendeu o que estava acontecendo. Seu futuro hipotético estava desmoronando.
Makayla pensou que já havia vivido tudo de terrível, mas nada se comparava àquilo; era o saber que a tragédia é eminente, o estar em um carro há 200km por hora na rodovia e sair da estrada direto para o desfiladeiro, a certeza massacrante de que não importava o que ela fizesse, mesmo que pisasse no freio ou virasse o volante para mudar de direção, nada importava. Nada mudaria o resultado final daquela tragédia.
— Essa gravidez não vai durar, não é? — Ela perguntou com a voz travada na garganta e os olhos cheios de lágrimas.
É claro que não teria um Bebê dos Sonhos, Wakanda era uma nação evoluída, mas não fazia magia, era ciência. E ciência exigia remédios. Remédios esses que seriam fortes demais para um feto que mal tinha o coração formado ainda.
Makayla só estava deslumbrada demais com a esperança de um futuro cheio de felicidade para perceber isso logo de cara...
Como pôde ser tão estúpida de não notar?
Tentou não se abalar com isso, como podia doer tanto perder algo que ela só sabia da existência há um único dia? Algo que ela nem sabia que queria antes de ter? Makayla desejou não ter fantasiado tanto com aquele Bebê dos Sonhos, mas ela também desejou não ter acelerado tanto na estrada que a levaria a tragédia, talvez se tivesse feito escolhas diferentes durante o caminho, seu carro não tivesse atravessado a curva direto para o desfiladeiro.
Aquelas habilidades que ela nunca quis tinham lhe dado tudo; colocaram Bucky em sua vida afinal, e quando Makayla abriu mão daqueles poderes, de uma parte de si mesma, ela não pensou que estava começando a redigir o atestado de óbito de seu Bebê dos Sonhos. As consequências sempre vinham, cedo ou tarde... Era como se tivesse assinado um contrato sem ler as letras miúdas.
— É minha culpa... — Declarou, colocando a mão sobre os lábios para reprimir o choro.
— Hey. Hey. — Bucky segurou o rosto dela no mesmo instante. — Nada disso é sua culpa. Jamais diga isso.
Makayla queria acreditar, mas como? Tentou focar em tudo que havia aprendido na Fundação, porém todas as palavras pareciam mergulhadas em ácido dentro de sua mente. Era impossível lembrar de como ser sensata e razoável consigo mesma quando doía tanto...
— Olha pra mim. — Bucky pediu, tocando a base do queixo feminino com o dedo indicador. — Vamos superar isso, entendeu? Vamos passar por isso juntos e vamos superar. Eu não vou sair do seu lado um só minuto, eu prometo.
— Você não vai me odiar por isso? — Ela perguntou com a voz embargada, porque naquele instante aquele era único sentimento que ela era capaz de nutrir por si mesma.
— Nunca. — Ele garantiu com tanta convicção que era impossível não crer na veracidade daquelas palavras. — Princesa, eu te amo, mais que tudo. Eu nunca te odiaria, por nada, muito menos por isso.
Makayla não queria chorar, não queria trazer ainda mais preocupação para Bucky, porém quando ele a abraçou apertado, da melhor forma que era possível no momento por causa da aparelhagem médica e da posição dos dois, chorar foi a única coisa que ela conseguiu fazer...
Não haviam palavras para expressar tudo que estava sentindo no momento, a impotência paralisante e revoltante de saber que qualquer esperança de ficar viva envolvia uma perda.
Não queria voltar a pensar que estava amaldiçoada, tinha superado isso, havia seguido em frente e agora entendia que a vida era cheia de coisas que não se pode controlar... mas aquilo? Makayla não sabia como lidar ou encarar aquela situação...
Havia certo conforto em saber que Bucky estava ali, verdade, mas mesmo a companhia dele não dissipava toda a dor e angústia. Será que aquela era mesmo uma perda que os dois iriam superar?
O casal ficou abraçado por um tempo, perdidos em seus próprios sentimentos enquanto tentavam se apoiar um no outro, só se separaram quando alguém bateu suavemente na porta.
Makayla desejou que não fosse Emma, não queria ter que lidar com aquela mulher naquele momento... Por sorte era apenas uma enfermeira.
— Com licença... — A moça disse parada na porta. — Eu preciso trocar isso.
Apontou para o soro com medicamento acima da cabeça de Makayla e Bucky se ajeitou no lugar, assentindo para que a mulher entrasse.
Usava máscara de proteção e o uniforme do hospital, entrou em passos lentos, quase incertos até. Seus olhos se encontraram com os de Bucky e por um instante pareceu que a moça viraria as costas e sairia correndo dali, mas ficou. Trocou o soro com medicamento totalmente calada.
Makayla se perguntou se a enfermeira havia reconhecido Bucky da época de Soldado Invernal da televisão, se era uma novata nervosa, ou qualquer outra coisa. Talvez só estivesse em um dia ruim.
— Obrigada. — A jovem disse com um sorriso sincero, logo depois de limpar as lágrimas.
A moça parou onde estava, seus olhos alternando entre Makayla e Bucky por um instante, ela pareceu prestes a dizer alguma coisa, então apenas assentiu assustada e saiu dali.
O casal trocou um olhar confuso, mas no fim, já estavam com tanta coisa na cabeça que apenas deram de ombros e deixaram aquilo de lado...
Bucky tirou alguns momentos para ligar para Shuri, ela estava a caminho, mas ainda levaria mais algumas poucas horas. Makayla ergueu os olhos para o relógio que ficava na parede sobre a porta, era quase meia noite.
Ela focou no soro com medicamento caindo pelo cateter e entrando em suas veias, por um instante um pensamento intruso, dizendo que morrer exatamente no dia de seu aniversário seria quase poético, cortou a mente de Makayla, ela o dispensou imediatamente, se mexendo desconfortável como se isso fosse espantar o mau-agouro que se instalou nos ossos dela.
Foi nesse instante que ela percebeu algo um tanto assustador, aquele formigar que a impedia de sentir, não estava mais apenas nos dedos... estava no pé inteiro. Mas esse não era o único problema. Não era mais apenas uma questão de sentir, o simples ato de mover a perna minimamente foi custoso demais, quase como se seu corpo não estivesse correspondendo aos comandos de seu cérebro.
Ela tentou não se apavorar, mas foi impossível não entender que, pela forma como aquilo estava evoluindo, era apenas questão de tempo para que estivesse com os membros paralisados...
Makayla sabia que naquele último mês estava vivendo a vida em velocidade máxima, era só pensar na forma como o relacionamento dela e de Bucky havia evoluído rápido e isso era maravilhoso, de fato, mas quando se tratava de um tumor, aquela velocidade máxima era uma péssima coisa.
Olhou para o relógio de novo. E se não tivessem tempo o bastante?
Repentinamente, a jovem notou que estava ficando sonolenta demais para alguém que havia apagado por tanto tempo, o cansaço podia ser normal, mas aquela letargia... era como se Makayla pudesse sentir seu coração desacelerar aos poucos.
— Amor...? — Chamou, tentando não deixar o desespero consumir suas palavras. — Precisamos conversar sobre uma coisa...
— Sobre o que você quiser. — Ele guardou o aparelho celular no bolso e voltou para perto dela imediatamente.
Makayla respirou fundo, engoliu em seco e moveu a mão para segurar a de Bucky. Havia apenas uma coisa que precisava garantir antes que fosse tarde demais...
— Se Wakanda não chegar a tempo... — Começou, se esforçando para que as palavras não travassem em sua garganta e que tudo não parecesse tão trágico quanto era de verdade.
— Eles vão chegar. — Bucky garantiu, apertando os dedos dela entre os seus de forma desesperada.
Os lábios femininos se moveram em um sorriso sem qualquer felicidade.
— Me escuta, por favor. — Ela pediu com cautela, tocando o rosto dele para que seus olhares se encontrassem. — Se eles não chegarem ou se... se algo fora do controle acontecer comigo, você precisa me prometer uma coisa...
— Nada vai acontecer com você. Não diz isso. Sequer pense nisso. — Barnes cortou firme, mas sua voz vacilando um tom provava que ele sabia muito bem o que estava por vir.
— Bucky... — A voz de Makayla travou na garganta.
— Não... — Ele moveu a cabeça, seus olhos azuis se enchendo de lágrimas.
— Promete pra mim que você vai ficar bem, que você não vai fazer nada estúpido, que você não vai desistir. — Ela pediu finalmente, segurando o choro para que suas palavras soassem suaves, porém o desespero escapou por cada sílaba mesmo assim.
— Não faz isso, por favor. — Bucky respondeu, beijando ambas as mãos da jovem, como quem implora.
— Me escuta... — Makayla tentou manter a calma, colocou até mesmo um sorriso no rosto para passar paz em suas palavras. — Me diz que você vai ter uma vida que vale a pena ser vivida, não importa o que aconteça. Que você vai ser feliz.
— Eu não quero ser feliz sem você. — Barnes retrucou irredutível. — Não temos que ter essa conversa, vai dar tudo certo. Olha pra mim. — Segurou o rosto dela com as duas mãos. — Vamos ficar bem.
E Makayla quis acreditar nisso, é claro que ela quis, mas algo dentro de seu coração, que parecia bater tão lento naquele instante, dizia exatamente oposto.
— Por favor, se você me ama... — Ela colocou as mãos sobre as dele. — Se você me ama, Bucky, promete pra mim...
Havia um desespero latente em Makayla, algo ruim correndo em suas veias, uma certeza corrosiva e uma única preocupação. Precisava que Bucky prometesse.
— Você vai ficar bem. — Ele tentou reforçar, trêmulo, seus olhos dizendo muito mais que suas palavras. Ele sabia e isso o destruía de todas as formas. — Foi você quem prometeu pra mim lembra? Você me escolheu...
— Amor.... — Makayla implorou, limpando as lágrimas dele, mas sendo incapaz de conter as próprias. — Eu lutaria para ficar com você em qualquer ocasião, mas tem coisas que estão fora do meu alcance e do meu controle. Então... promete pra mim, por favor, promete que vai lutar pela sua própria vida com o mesmo afinco que está lutando pela minha.
Bucky negou algumas vezes de forma um tanto descontrolada, puxando Makayla para mais perto e escondendo o rosto nos cabelos dela, prendendo o choro na garganta e apertando a jovem contra si de forma desesperava, enquanto murmurava que nada aconteceria e que tudo ficaria bem, como um mantra ou uma prece.
Makayla se sentia tão extremamente cansada naquele momento que até o simples movimento de segurar o rosto de Bucky entre suas mãos, para que seus olhos se encontrassem, pareceu custoso demais. É claro que ela também queria se esconder nos braços dele e aceitar a esperança que lhe era oferecida como uma boia salva-vidas, porém havia aquela urgência em seu peito a certeza estranha e apavorante de que talvez não houvesse outra oportunidade de terem aquela conversa.
— Se nada vai acontecer, você nunca vai precisar cumprir essa promessa... — Ela tentou ser ponderada, enquanto engolia as lágrimas. — Mas eu preciso que você prometa pra mim, porque se algo der errado...
— Nada vai dar errado, para com isso. — Bucky interrompeu, sua respiração alterada, seus olhos angustiados e o desespero latente em cada palavra. — Nós vamos pra Wakanda daqui há algumas horas e você vai poder conhecer tudo lá no dia do seu aniversário. A Shuri vai resolver isso mais rápido do que alguém consegue dizer o nome de todos os Vingadores. — Ele começou a enumerar tudo de uma vez só, um lindo futuro de fato, o problema é que Makayla conseguia sentir no coração que não seria assim, e isso só fazia com que o sentimento de urgência se tornasse insuportável dentro dela e escorresse por seus olhos. — E eu... eu te comprei um presente e você vai gostar e vai dar tudo certo e... e...
— Por favor. — Ela pediu, exausta demais até para limpar as próprias lágrimas. — Eu imploro, eu só preciso...
Sua voz se perdeu na garganta, simplesmente falhou como se ela não tivesse força o bastante para terminar. Bucky a olhou tão assustado que o coração de Makayla se partiu em mil pedaços. Não queria que ele passasse por isso.
— Eu prometo. — Ele disse finalmente, segurando uma das mãos dela de forma quase desesperada. — Eu prometo, Princesa.
Era visível que aquelas palavras o machucavam, o destruíam por dentro, e por isso Makayla achou extremamente injusto que essas mesmas palavras tivessem lhe trazido tanto alivio. Ela respirou fundo e seus pulmões pareciam exaustos demais até para esse simples serviço.
Estava letárgica e sonolenta, seu corpo pedindo uma pausa, quase como se trabalhasse de forma muito lenta e quisesse simplesmente parar todos os processos biológicos. Era tão estranho...
— Eu te amo, Bucky Barnes. — Declarou, movendo os lábios em um sorriso honesto, seus dedos deslizando pelo rosto dele devagar, conforme seus próprios ossos pareciam pesar muito mais do que sua força era capaz de suportar. — Nunca se esqueça disso.
Ele segurou a mão dela no meio do caminho, depositando em seus dedos um beijo terno e molhado pelas lágrimas. Makayla fechou os olhos, cansada demais para sequer mantê-los abertos.
Ouviu a voz de Bucky dizendo o quanto a amava enquanto seus pulmões soltavam o ar devagar e então tudo ficou quieto demais, mesmo o som do próprio coração parecia inexistente, segundos infinitos de nada e então o apitar constante e estridente da aparelhagem médica e nada mais, Makayla perdeu a consciência, exausta demais para lutar conta isso...
O som que preencheu o quarto era a representação pura do pavor. Bucky Barnes nunca pensou que um único bip constante e agudo pudesse fazer o medo se espalhar nele daquela forma. Nem mesmo as sessões de tortura de Hydra causavam tal sentimento...
— Makayla? — Ele chamou, tocando o rosto dela em desespero. A mão da jovem totalmente mole, escorregando da dele.
Seu coração batia fora do ritmo, sua mente se dividia entre a certeza do que aquele som significava e a frágil convicção de que Makayla estava ali falando com ele há menos te um segundo, havia acabado de fechar os olhos, tinha que ser um engano.
Mas não era, isso ficou bem claro quando uma equipe médica invadiu o quarto as pressas. Alguém, talvez uma das enfermeiras pediu que ele se afastasse da cama, Bucky não se moveu, o caos ao redor parecendo distante demais, alguém o empurrou ou puxou, ele não sabia ao certo, se esquivou dessa pessoa de forma rude, o som das vozes ao redor abafado pelo desespero gritando na mente de Barnes.
Alguém falava de forma calma, pediu que ele saísse do quarto, Bucky só tinhas olhos para Makayla na maca, sendo cercada, instrumentos médicos vindos de todo o lugar, as vozes urgentes dando ordens. Mãos firmes tocaram os ombros dele o forçando para a saída, mas a esquiva foi tão violenta que a pessoa acabou no chão, Barnes só caiu em si quando viu que podia machucar alguém. E precisava daqueles médicos para salvar a vida de Makayla.
Ele saiu do quarto, mesmo que a contragosto, porém não permitiu que a porta se fechasse, ficou ali parado enquanto as pessoas iam e vinham fazendo vários procedimentos ao mesmo tempo. Bucky era incapaz de entender para quê cada coisa servia, e ele tinha certa noção que, mesmo se fosse formado em medicina, naquele instante não estaria em condições sequer de lembrar para quê servia uma agulha.
De seu lado esquerdo a figura de Emma Kennedy vinha se aproximando normalmente, com algumas coisas comestíveis na mão. Parecia de fato ter ido fazer o que falou, não que Bucky se importasse com isso naquele momento.
Ela se aproximou da porta do quarto, assim que viu a cena pareceu entender o que estava acontecendo e praticamente desabou em preocupação nos braços do segurança que Barnes sequer tinha se importado em reparar que também estava ali.
Bucky tinha suas próprias preocupações naquele momento, e nenhuma delas envolvia qualquer outra coisa que não fosse a sua garota...
Durante todo o tempo não conseguiu ficar parado, andando de um lado para o outro na frente da porta, as pernas tremendo de desespero e as lágrimas presas em seus olhos. Suas mãos abriam e fechavam freneticamente em um tipo de tique nervoso que ele era incapaz de controlar.
Aquilo não podia estar acontecendo. Não podia.
Wakanda estava a caminho, eles precisavam de tempo, é claro que os médicos a trariam de volta, tinham que trazer...
Bucky repetia isso para si mesmo várias e várias vezes como um mantra ou uma prece. Sequer acreditava em Deus, — não mais depois de tudo que havia vivido, — mas com certeza estava rezando naquele momento.
De repente todos do quarto pararam o que faziam, e o silêncio absoluto se fez. Bucky deteve seus passos diante da porta.
— Hora do óbito? — Um dos médicos perguntou baixinho.
— Meia noite. — Uma das enfermeiras respondeu.
— Em ponto?
— Sim, doutor.
Bucky sentiu que não podia respirar, que seu coração tinha sido arrancado fora do tempo. Não. Aquilo não era real. Não podia ser. Não nos primeiros segundos do dia do aniversário de Makayla.
Os olhos do médico perceberam Barnes ali naquele instante.
— Eu sinto muito... — O doutor negou algumas vezes de forma constrita. — Fizemos tudo que podíamos.
O choro audível de Emma Kennedy foi o primeiro som a cortar o ar. Mas para Bucky as palavras levaram alguns segundos para fazer real sentido, mesmo que, lá no fundo ele soubesse, era como estar com mente e coração desassociados naquele momento, sua lógica absorvendo a compreensão, seus sentimentos vivenciando um mar de lembranças que haviam levado Barnes até ali, para então empurrá-lo no abismo da incerteza, caindo e caindo, cada vez mais escuro, toda a cor de um futuro feliz, de uma família, ficando para trás.
— Não... — Ele murmurou com a voz quebradiça, uma lágrima rolando por seu rosto, enquanto a raiva e uma convicção insana lhe abatiam o corpo. — Não!
Sua voz se tornou mais firme e ele deu o primeiro passo, no fundo não sabia se suas pernas obedeceriam, mas se moveu mesmo assim em direção ao quarto. Um dos médicos tentou lhe impedir, mas Bucky empurrou o homem para o lado e teria passado por cima de todas as pessoas ali se fosse necessário.
— Makayla... — Ele alcançou o corpo na maca, segurando o rosto da mulher que amava com as duas mãos. Ela sequer estava gelada. Não era possível que estivesse m... — Princesa, olha pra mim por favor. Abre os olhos.
Sua súplica não teve qualquer resultado, nenhum movimento, nada. Bucky buscou por pulso na veia carótida, mas suas mãos estavam tão trêmulas naquele instante que qualquer que fosse o resultado ele teria duvidado.
— Volta pra mim, amor. — Implorou com os olhos nublados de lágrimas, trazendo o corpo totalmente mole de Makayla para perto de si. — Por favor, por favor.
Bucky não conseguia pensar com clareza, não era capaz de aceitar o que estava diante de seus olhos. Estava lutando contra a realidade com muito mais afinco do que havia lutado na guerra. Makayla não podia estar m... a simples palavra sequer foi permitida de se formar em sua mente, era dolorosa demais, o simples vislumbre dela fazia com que o coração de Bucky sentisse a dor de um milhão de facadas.
— Senhor... eu preciso que se acalme. — Alguém disse pacificamente, enquanto Bucky se desfazia de todos os fios e cateteres que prendiam o corpo feminino. — Eu vou...
— Não me toca! — Ele cortou, antes que a mão masculina apoiasse em seu ombro.
Sua voz tão fria e assassina fez com que toda a equipe médica se afastasse imediatamente. Bucky nunca quis ser temido por ninguém, mas naquele momento de profundo desespero ele sequer se importou com isso.
— Eu vou te tirar daqui, eu vou... eu vou... — Ele murmurou no ouvido de Makayla enquanto a pegava no colo e se afastava da maca em direção a porta.
Levaria o corpo dela a pé para Wakanda se preciso fosse, mesmo que tivesse que atravessar o mar... Levaria para o mago, para qualquer um que tivesse o poder de trazê-la de volta. Não desistiria.
Ele até tinha pensado em ligar para o homem com a capa mágica, Doutor Estranho se bem se lembrava, porém só ali no hospital, quando chegou com Makayla, é que Bucky se deu conta de que não tinha o contato de nenhum Vingador, tentou Sam, mas o telefone estava fora de área por algum motivo estúpido.
Mas não tinha problema, Bucky encontraria o tal Santuário, ou seja lá como se chamava. Ele estava decidido. Magia teria que resolver.
— Sargento Barnes, por favor. — Emma Kennedy se colocou em seu caminho quando ele tentou sair do quarto. — Kayla não iria querer isso.
A mulher tinha o rosto molhado de lágrimas, porém Bucky não via nela o transtorno que sentia oprimir seu peito.
— Você não sabe o que ela iria querer! — Ele se limitou a responder, esquivando da Diretora do CRG, enquanto ajeitava o corpo de Makayla nos braços.
Sim, ela era mãe, provavelmente estava sofrendo, mas Bucky não foi capaz de se importar com isso naquele momento, porque doía demais e tudo que ele queria era fazer isso parar, sua única necessidade inerente naquele momento era que Makayla lhe abraçasse de volta e dissesse que tudo ficaria bem. E isso só aconteceria se ele encontrasse alguém para ajudá-la.
Pisou no corredor, se preparando para seguir para a saída quando alguém puxou seu ombro para trás, como se quisesse lhe impedir de avançar mais.
— Já chega, amigo... — A voz de aviso veio e Bucky se virou para encontrar o segurança idiota que ficava seguindo Makayla antes. Sequer conseguia lembrar o nome dele.
Se esquivou do cara, apoiando o corpo da mulher que amava no braço de vibranium e deixando a mão direita livre. Sequer precisou pensar antes de fechar o punho e dar o soco. O homem barrou o golpe com destreza, estreitou os olhos, cerrou o maxilar, e embora tenha subido guarda com ambas as mãos não revidou.
Bucky só se deu conta do quão irritado estava quando moveu os pés de forma ágil, ensaiando um chute que tirou o foco de seu oponente, mas que era apenas distração para que o homem abaixasse e Barnes pudesse furar o bloqueio com um gancho de direita, que fez o nariz do outro estralar e espirrar sangue. Tudo isso com o corpo de Makayla ainda firme em seu braço de vibranium.
O segurança ergueu a cabeça, suas feições duras, mas foi estranho notar que não havia nenhum ódio em seu olhar.
— E o que você vai fazer agora, continuar me batendo enquanto segura o corpo da sua namorada nos braços? — Ele perguntou em um tom calmo. — Ela se foi, Barnes, é triste, mas você tem que aceitar isso.
As palavras pausadas trouxeram ainda mais raiva para Bucky, em um segundo ele simplesmente soube exatamente como seria fácil e rápido quebrar o pescoço do homem. E a pior parte é que talvez ele quisesse fazer isso.
— Bucky! — Uma voz conhecida chamou de forma quase assustada, vindo das costas de Barnes.
Ele virou então, a surpresa em seu semblante quando viu Sam Wilson bem ali, parado o encarando de longe. Por que ele estava ali?
No entanto qualquer pergunta deixou de ter importância quando olhar de Samuel encontrou o corpo de Makayla.
— Ah meu deus... — Ele soprou em um misto de entendimento, dor e choque.
E foi apenas então, quando se viu refletido nos olhos marejados de Sam, que Bucky finalmente encarou a verdade... A ficha caiu e a dor excruciante fez com que os joelhos dele cedessem.
— Ela... Ela... — Barnes ainda assim não foi capaz de dizer, apertando Makayla junto a seu corpo de forma desesperada enquanto Wilson se aproximava e se abaixava logo a sua frente. — Eu tenho que tirar ela daqui, Sam. Tenho que achar ajuda.
Bucky viu o amigo respirar fundo em um misto de tristeza, frustração e algo mais. E o grande problema é que, diferente de todos os outros ali, que pareciam nunca refletir a realidade, como se estivessem vazios por dentro, os olhos de Sam Wilson não mentiam.
Não havia uma forma de ajudar Makayla. Não mais. Não havia como desfazer a morte...
A verdade atingiu cada músculo de Bucky de uma só vez, cristalina, inegável e insuportavelmente dolorosa. Escondeu o rosto no cabelo de Makayla e deixou que o choro viesse...
Ela estava morta.
A mulher que ele amava estava morta e não havia nada que Bucky pudesse fazer sobre isso.
Por mais que quisesse se agarrar em pequenas esperanças, em magia, tecnologia ou joias do infinito que não mais existiam, havia aquela convicção humana dentro de si que o obrigava a aceitar o inegável. Se houvesse um jeito de trazer alguém de volta a vida, eles teriam feito isso por Tony Stark.
— Você tem que deixar os médicos cuidarem do corpo dela, Buck... — Sam murmurou, apoiando sua mão no ombro de Barnes de forma amigável e compassiva. — Ela precisa descasar.
Bucky ergueu um pouco a cabeça para encarar o rosto da mulher que amava, ela definitivamente não parecia morta... Suas bochechas ainda estavam coradas, sua pele quente, ele olhou para todas as pessoas paradas ao redor, os médicos, o segurança com o nariz ferrado, Emma Kennedy... quis discordar de todos, quis dizer que ela estava viva, que era tudo um engano, mas que propriedade tinha ele, um simples soldado treinado pra matar, para refutar a opinião de médicos que haviam estudado anos e anos para salvar vidas? Mesmo os aparelhos não haviam captado mais batimentos cardíacos...
Era o fim.
Ele depositou um beijo terno na testa de Makayla, trêmulo e com a vista nublada por lágrimas murmurou que a amava e permitiu finalmente que a tirassem de seus braços...
O vazio foi instantâneo. A falta, a perda. Bucky sequer teve forças para levantar, pouco importava que fosse um super soldado, a dor o havia vencido.
Makayla foi recolocada em uma maca e levada, Bucky a viu sumir no corredor e apenas se deixou ser praticamente arrastado por Sam para a recepção do hospital...
Ali em uma cadeira, com um copo de água com açúcar e um calmante — que ele não tomou — dado por uma enfermeira, ele ficou por longos instantes. Sam talvez tenha dito que sentia muito, talvez tenha explicado que, como Bucky não respondeu a mensagem de mais cedo e não deu qualquer notícia desde então, ele ficou preocupado e pegou um avião imediatamente para Nova York. Provável que fosse por isso que não atendeu quando Barnes ligou para perguntar do Mago...
Honestamente Bucky não tinha tanta certeza assim se essa explicação foi mesmo dada ou se ele apenas alucinou com isso. Não fazia diferença de qualquer forma, nada mais fazia.
E embora ele agradecesse por Sam estar ali a seu lado, tudo que Barnes sentia naquele momento é que o mundo ao seu redor estava atrasado: se ele e Makayla não tivessem passado dias na Pensilvânia talvez houvessem descoberto aquele maldito tumor antes e teriam conseguido ajuda há tempo; se Wilson chegasse um pouco antes eles poderiam ter procurado Stranger ou Bruce Banner; e então, quando os Wakandanos enfim chegaram ao hospital, novamente a única impressão que ficou foi a de que era tarde demais...
Shuri lhe pediu tantas desculpas que o único momento em que Bucky realmente saiu da letargia foi para dizer que não era culpa dela. A princesa de Wakanda havia deixado seu próprio país para estar ali. Ela fez tudo que podia.
Enquanto Sam se sentava ao lado de Barnes naquela maldita sala de espera frívola, Shuri se prontificou a ajudar em qualquer coisa que fosse preciso, mas não havia uma solução. Nem Wakanda podia vencer a morte. Os próprios médicos acharam antiético fornecer acesso a Makayla, já que existia uma certidão de óbito que provava que não havia mais nada humanamente possível de ser feito.
Por fim, não havia motivo para manter os Wakandanos longe de casa, se esforçando para expressar toda a gratidão e educação que Shuri e seus acompanhantes mereciam, Bucky aceitou os pêsames e deixou que eles partissem. Ou melhor, ele tentou focar em fazer essas coisas simples, mas a verdade é que foi Sam quem dominou a conversa, foi Sam quem tratou de tudo e realmente agradeceu, foi Sam quem segurou todas as pontas enquanto Barnes se afogava lentamente em uma tristeza profunda, tudo ao redor parecendo distante demais para atrair sua atenção.
O mundo parecia insignificante sem Makayla Devinne.
Algo dentro de si gritava que ele devia reagir, que tinha que erguer a cabeça e resolver a situação. Mas Bucky não possuía forças para isso, não era um problema físico... ah não, dor física era fácil, era conhecida, era quase banal naquele ponto, Bucky poderia correr uma maratona com uma faca enfiada entre as costelas, ele poderia subir uma infinidade de lances de escadas mesmo com uma perna quebrada. Porém, a dor de perder Makayla era... incomensurável.
Palavras falhariam em descrever aquela agonia.
— Sargento? — A voz feminina fez com que Bucky erguesse a cabeça.
Emma Kennedy se aproximava, ela havia sumido por um tempo, — não que Bucky houvesse procurado com afinco pela mulher, — mas já estava de volta, a aparência um tanto fragilizada, o rosto molhado e um lenço na mão direita. Barnes encarou a mãe de Makayla e não sentiu nada, Sam tinha dor nos olhos, Emma era vazia, mesmo sua postura parecia montada demais, era como ver uma atriz no palco de um teatro, sua perfeição tirava a veracidade de qualquer sentimento.
Mas Bucky estava se afogando o bastante na própria dor, por isso não quis julgar a verossimilhança do sofrimento alheio.
— Senhor Wilson. — Ela cumprimentou com uma educação que era difícil dizer se era forçada ou apenas vazia por causa da dor do momento.
Deu mais alguns passos em direção a Bucky, metros atrás, encostado no balcão da recepção, o segurança idiota aguardava, o nariz já com curativo e a cara feia de poucos amigos. Se Bucky estivesse em condições de julgar qualquer um, talvez tivesse pensado que o homem parecia muito alguém de saco bem cheio do trabalho. Mas isso era tão fútil e irrelevante naquele instante...
— Eu... — Emma começou, e mesmo suas pausas de incerteza pareciam ensaiadas. — Eu já lidei com a liberação do corpo. Presumo que deseje estar no velório?
— Evidente. — Bucky respondeu no mesmo instante.
Mas ele queria mesmo estar lá? Dizer adeus a alguém em um velório era o pior tipo de despedida possível... A última lembrança daqueles que amamos não devia ser o rosto dessa pessoa em um caixão.
Mesmo assim, Bucky sabia que se arrependeria se não estivesse lá. Era um sentimento dúbio e duplamente horrível.
— É claro... — Emma assentiu em uma educação tão impecável que chegava a causar mal-estar. — Presumo também que já soubesse das preferências de Makayla.
Bucky franziu as sobrancelhas em confusão.
— Ela queria ser cremada, como o pai. — A mulher explicou calmamente.
As mãos de Barnes se moveram de forma desconfortável, esfregando os jeans, enquanto ele tentava digerir aquilo. É claro que ele não sabia dos desejos pós-morte de Makayla, estavam felizes e curtindo um merecido momento de paz na vida depois de muito tempo, falar de morte parecia a coisa errada a se fazer.
— Mas se desejar podemos manter um túmulo simbólico. — Emma completou, depois de analisar o ex-sargento por alguns instantes.
Bucky sequer sabia o que dizer, trocou um olhar com Sam e foi ele quem assumiu a conversa:
— Isso seria bom, Diretora Kennedy.
A mulher assentiu, quase de forma prática demais. Mesmo com aquele lencinho na mão e com a aparência perfeitamente frágil ela parecia pouco abalada, era como se tratasse o velório da própria filha como uma mera formalidade burocrática.
Bucky sabia que a Diretora do CRG e Makayla tinham suas desavenças, mas pensou que em um instante como aqueles o sentimento falaria mais alto. Pelo visto a frieza da mulher seria permanente, mesmo ao tratar do velório da própria filha.
— Vou providenciar. — Ela assentiu para os dois, entregando um cartão para Sam. — Aqui o endereço.
Se despediu deles e saiu com o segurança para lidar com os últimos tramites.
Bucky quis ter ódio dela, porque mesmo aquele sentimento ácido seria melhor que a dor que lhe corroía o coração. Mas não conseguiu nem isso, não havia espaço em seu peito para mais nada além de sentir falta de Makayla...
A dor, o desalento e a saudade eram tantas que pela primeira vez na vida Barnes sentiu falta da criogênia. Queria que tudo parasse, queria que sua mente desligasse, até o gelo corroendo seus músculos pouco a pouco parecia uma tortura menor naquele momento.
Ainda assim ele se levantou, haviam coisas que precisavam ser feitas antes do velório. Não que Bucky realmente lembrasse de qualquer uma delas, mas Sam estava lá e cuidou de todos os detalhes práticos.
Teria que agradecê-lo por isso depois...
A parte mais difícil foi voltar no apartamento de Makayla para pegar o Pitico e foi ali, bem no meio daquela sala, enquanto o cachorro chorava como se soubesse que havia algo errado, que Bucky deu-se conta de uma verdade sufocante. Tudo aquilo era sua culpa, não era?
Se não tivesse brigado com Makayla bem ali naquela sala, se tivesse conversado com ela, se tivesse dito algo reconfortante sobre os poderes... Talvez ela não tivesse saído desesperadamente atrás de uma cura.
E sim, ela havia mentido, por isso houve uma briga. Mas quem se importava? Bucky deixaria Makayla mentir para ele todos os dois, se isso a mantivesse saudável, segura e, principalmente, viva.
Mas era tarde demais para concessões e barganhas...
Trancou o lugar e levou Pitico para o próprio apartamento, ou melhor, Sam levou, porque era ele quem dirigia. Quando o Sol nasceu, com a chuva ameaçando no horizonte, eles já estacionavam no local do velório.
Era ainda pior que fosse justamente o aniversário de Makayla naquele dia...
Estavam em uma pequena capela dentro do cemitério, nos fundos do lugar funcionava um crematório. Era pintado em tons neutros, com decoração clássica. De bom gosto, mas nada exagerado e mesmo assim não confortou Bucky em nada.
Ele se surpreendeu ao ver o Doutor Jackson Brooks passando pelas portar do lugar.
— Eu liguei pra ele do seu celular. — Sam murmurou, enquanto o terapeuta se aproximava.
Bucky agradeceu por isso, se deu conta que não teria capacidade nenhuma de pensar naquele tipo de coisa. graças a Deus por Sam Wilson.
Jackson se aproximou os últimos passos, o rosto visivelmente abalado, Barnes não esperava por um abraço, mas recebeu um.
— Sinto muito, Bucky. — Brooks disse com uma honestidade comovente. — Se precisar de mim, se precisar de ajuda. Qualquer coisa. Estou sempre a uma única ligação de distância.
— Obrigada doutor. — Foi a única coisa que o ex-soldado conseguiu dizer.
Brooks e Sam trocaram algumas palavras de cordialidade, algo sobre se conhecerem em uma situação muito ruim que Bucky não ouviu realmente, porque seus olhos se perderam na foto de Makayla em um tripé sobre o altar. Ela sorria...
Era daquele jeito que queria se lembrar dela.
O caixão já estava no crematório, Bucky fez questão de checar assim que chegaram ao local. Se recordou do exato momento em que Emma o chamou para entrar na pequena saleta, Makayla repousava entre flores brancas, com um véu sobre o corpo, absolutamente nada indicava que ela estava morta, parecia apenas dormir.
Ele não conseguiu olhar por muito tempo, se tentasse sabia que acabaria se descontrolando. Seu desejo ainda era pegar o corpo dela e fugir dali, como se isso fosse realmente resolver seus problemas. Ele foi capaz de entender o que tinha visto na televisão meses antes sobre Wanda Maximoff...
Se tivesse poderes como os da moça, ele também teria trazido seu grande amor de volta a vida em uma cidade dos sonhos.
Mas Bucky não tinha esse poder, por isso estava sentado naquele maldito banco de madeira olhando a foto da mulher que amava no meio de um velório, enquanto o corpo dela virava cinzas lentamente na saleta dos fundos
Ele desviou o olhar, e automaticamente checou todo o ambiente. Sam e Brooks estavam a seu lado, o terapeuta falava sobre achar melhor esperar o momento apropriado para contar sobre aquela tragédia para Bobby Drake. O garoto ainda estava em tratamento afinal.
Fora isso não haviam tantas pessoas ali, Emma Kennedy estava nas cadeiras da frente, do lado oposto ao de Bucky, que ocupava os lugares da fileira do meio. Ela tinha um lencinho perto dos olhos, como se chorasse constantemente, mas novamente o ex-sargento a julgou apática demais. Por incrível que pareça o segurança idiota não estava colado nela, mas Barnes tinha visto o cara quando chegou ali...
Um homem se aproximou da diretora do CRG vindo dos fundos, era um pouco mais baixo que a mulher, meia idade, os olhos esbugalhados por trás de pequenos óculos perfeitamente redondos. Devia ser um funcionário do lugar ou algo assim, Bucky não deu atenção para isso, desviando o olhar quando uma sombra projetada no chão o fez virar o rosto para encarar a entrada por sobre o ombro. John Walker estava ali.
Vinha acompanhado de uma mulher que, a julgar pelos braços dados, era a esposa dele. O casal se sentou no fundo, discretamente, e assim que Walker percebeu que era observado se limitou a mover sua cabeça de forma educada para Bucky, só isso nada mais.
Barnes olhou para Sam em busca de respostas, duvidava muito que Emma Kennedy tivesse chamado o soldado, e isso ficou ainda mais óbvio quando ela olhou por sobre o ombro também e pareceu incomodada com a presença dele.
Devia ser uma merda encarar o homem que ela havia exonerado sem honrarias alguns dias antes. Logo depois que ele havia perdido o melhor amigo.
Não que Bucky se importasse ou tivesse qualquer tipo de empatia por John Walker...
— Ele conhecia a Makayla a vida toda, parecia certo avisar. — Foi o que Sam murmurou, revelando que ele também havia cuidado desse detalhe.
Porque Wilson sim tinha empatia de sobra, pouco importava que John Walker houvesse usurpado o escudo do Capitão América, manchado seu legado, destruído as asas do Falcão e quase matado o homem dentro do traje no processo... Essas coisas ficavam em segundo plano para Sam, quando se tratava de fazer o que era certo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A atenção de todos eles focou no homem que entrou logo em seguida com uma bíblia na mão, difícil dizer se era um padre ou um pastor, mas a julgar pela aparência provável que fosse apenas um cerimonialista contratado para funerais.
Ele se posicionou atrás do pequeno púlpito ao lado da foto de Makayla e começou a falar algumas coisas que foram incapazes de trazer qualquer alento a Bucky, parecia apenas um monte de baboseira decorada e repetida centenas de vezes em outros funerais. Era até revoltante.
Quando o cerimonialista perguntou se alguém queria dizer alguma coisa, ele primeiro pousou os olhos em Emma, mas ela negou escondendo o rosto em seu lencinho, como se estivesse abalada demais para isso. Bucky quis julgar, mas é verdade é que ele também não conseguia sequer pensar em ficar na frente de todos para falar de Makayla, porque aquilo doeria demais e seria muito mais revoltante do que qualquer coisa que já tinha feito na vida.
Ainda mais depois dos planos que havia feito... O paralelo seria cruel demais. Automaticamente seus dedos reviraram o pequeno objeto em seu bolso, o presente que ele havia comprado e que nunca teve a chance de entregar.
Pois é, com certeza não queria ficar parado de pé ali naquele “palco”, falando coisas sobre a mulher que amava, dizendo o quanto ela era maravilhosa e muito mais do que o melhor dos sonhos, não era justo que ele tivesse que dizer isso para todas aquelas pessoas e não pudesse dizer para a única que realmente importava.
De quê serviam as malditas homenagens póstumas afinal, se a pessoa homenageada não estava ali para ouvir?
Ainda assim, ele sentiu que seria cruel se aquele momento passasse em branco, por isso, apesar da dor que seria ter que parar ali na frente de todos para dizer coisas bonitas naquele que era o pior dia de sua vida, Bucky sentiu que teria que fazer isso. Por que se não, quem mais faria?
Se preparou para se levantar, mas Brooks fez isso primeiro, o olhar dos dois se encontrou e o terapeuta apenas moveu a cabeça em um gesto de conforto, como se ele soubesse muito bem qual era o peso daquele momento e quisesse tirar isso dos ombros de Bucky.
Ele caminhou até o púlpito e assumiu o lugar do cerimonialista sob o olhar atento e pouco amigável de Emma Kennedy, limpando a garganta antes de começar:
— Eu não conhecia Makayla Devinne há muito tempo, isso é verdade. — Ele parou e respirou fundo. — Mas acredito que o tempo seja uma medida irrelevante e inexata quando se trata do impacto das pessoas em nossa vida. Podemos conhecer alguém por apenas algumas horas e essa pessoa nos marcar muito mais do que aquela que conhecemos por décadas. E, se posso ousar dizer, Makayla com certeza foi alguém de grande impacto na vida daqueles que tiveram a sorte de lhe conhecer.
Bucky sentiu aquelas palavras em seu coração, porque era a verdade para ele também, o tempo nunca foi uma medida relevante quando se tratava de Makayla Devinne, a conexão que criou com ela sempre esteve acima disso.
— Em uma de nossas primeiras consultas, Makayla se sentou na minha frente e perguntou como ela podia ajudar um amigo que estava sofrendo, cansado de viver. — Brooks prosseguiu e havia um sorriso de nostalgia em seu olhar. — A maior parte das pessoas usa a metáfora do amigo para falar de si mesmo, mas não ela, Makayla estava realmente preocupada com outra pessoa. E ela era exatamente... A constante de sua personalidade era se importar com a dor dos outros mais até do que ela se importava com a própria dor. E isso significa muito no mundo egoísta que vivemos hoje.
Bucky limpou uma lágrima teimosa rapidamente, enquanto prestava total atenção ao discurso. De muitas formas era reconfortante ouvir o quanto a mulher que ele amava era maravilhosa...
— Quando ela se sentava comigo em sessão, eu podia ver que ela não desejava muita coisa. Makayla era simples, ela queria ser amada por aqueles que ela amava, queria paz e um pouquinho de felicidade, mas, acima disso, ela queria que as pessoas que ela amava ficassem sãs e salvas. Seguras. Felizes. — O terapeuta fez uma pausa, o sorriso em seu rosto era um misto de orgulho e tristeza. — Novamente, ela colocava a felicidade de outros acima até da própria. Mas Makayla não via o quanto era abnegada, altruísta e empática, se você perguntasse, ela provavelmente diria que era egoísta e que só pensava em si mesma. — Ele pousou os olhos em Emma de forma direta. — Isso eram resquícios de uma infância difícil, talvez falas reproduzidas de alguém.
Não durou muito, logo os olhos de Brooks estavam na foto de Makayla, a emoção na voz dele era real e palpável. E Bucky já havia desistido de conter as lágrimas.
— Makayla foi uma das pessoas mais fortes que eu conheci. — Jackson Brooks declarou com convicção. — Porque, sabe, ser forte é fácil se você se fecha, é cruel, frio e egoísta. Ser forte é fácil se você se blinda do mundo. Mas Makayla não era assim, ela era boa, empática e não tinha medo de ser vulnerável, e mesmo assim era forte. O tipo de força que não se vê em muitas pessoas...
Os olhos do terapeuta pousaram em Bucky, e o ex-sargento entendeu naquele momento para quê serviam as homenagens póstumas, não era para aquele que se foi, eram para os que ficavam, um jeito de alentar seus corações dilacerados pela dor, um segundo de nostalgia acolhedora no meio do pior dia de suas vidas...
Porque disseram uma vez que “o pior dia para amar alguém é o dia em que perdemos essa pessoa.” E Bucky infelizmente sabia que era frase estava precisamente correta.
— Da primeira vez que eu vi Makayla Devinne, ela precisava de um porto-seguro, de alguém que lhe mostrasse que estaria ali em qualquer situação, alguém que desse a ela amor o bastante, para que ela se sentisse digna de amar a si mesma. — Brooks ainda tinha os olhos em Barnes. — Da última vez que eu falei com ela, Makayla Devinne tinha esse amor, essa pessoa que ela sempre quis e precisou, e ela estava feliz. Nas palavras dela “nunca estive tão feliz na minha vida, Doc.” Foi você quem fez isso por ela, Bucky Barnes. Então obrigado.
O doutor deixou o púlpito e voltou para seu lugar, enquanto Bucky assimilava um misto agridoce de sentimentos, saber que Makayla estava feliz a seu lado lhe dava paz e ao mesmo tempo era doloroso, porque não havia nada capaz de levar para longe a sensação de que a vida deles foi interrompida cedo demais...
Logo o velório acabou, um homem veio dos fundos e entregou uma urna dourada com as cinzas de Makayla para a mãe dela. Bucky não achou justo, mas o que podia fazer, impedir Emma Kennedy de ser mãe?
Do lado de forma a chuva estava castigando Nova York, Bucky e Sam pararam na porta protegidos na marquise enquanto se despediam de Brooks. O terapeuta pediu que Barnes mantivesse contato e logo se foi, correndo das gotas pesadas de água direto para o carro.
Wilson abriu um guarda-chuvas, mas não chegou a se mover porque John Walker parou ali ao lado. O homem encarou Barnes de modo constrito, mesmo ele, diferente de Emma, tinha o olhar chateado.
— Sinto muito, Bucky. — Declarou e pareceu realmente honesto. — De verdade eu sinto. Ela não merecia isso.
Barnes se limitou a assentir, recebendo um sorriso compassivo da mulher de Walker antes que o casal se afastasse, protegidos da tempestade pelo guarda-chuva que John abriu.
Bucky acompanhou os dois com o olhar, estavam juntos, de braços dados, apesar de tudo que Walker tinha feito. Eles tinham sorte...
Automaticamente os olhos gélidos atravessaram o gramado, focando em uma lápide que estava aos pés de uma árvore, quando chegou ali um dos funcionários do lugar estava trabalhando nela, agora já estava finalizada.
— Sargento Barnes? — A voz feminina chamou e Bucky olhou sobre o ombro para ver Emma se aproximar com a urna dourada em mãos. — Achei que gostaria de ficar com isso. — Ela estendeu o objeto para ele. — Makayla gostaria também.
Nem em um milhão de anos Bucky teria imaginado que poderia ficar com as cinzas.
— Obrigado. — Agradeceu com honestidade, aquilo com certeza significava muito.
Emma Kennedy apenas assentiu, então se despediu dos dois homens educadamente, abriu o próprio guarda-chuva e se foi.
Bucky e Sam trocaram um olhar, ficou evidente que Wilson estava esperando o outro decidir se eles também iriam embora ou se ficariam um pouco mais. Em resposta, Barnes saiu para chuva, pouco se importando com os pingos pesados caindo sobre si, apenas protegendo a urna de cinzas enquanto Sam seguia cautelosamente atrás dele.
O ex-sargento deixou o objeto dourado na proteção de seu veículo e disse que logo estaria de volta, caminhando em direção a lápide aos pés da árvore, porém, apesar de suas palavras, Sam seguiu alguns passos atrás, protegido em seu guarda-chuva.
Bucky parou ali, seus olhos focando na pedra sobre a qual haviam algumas palavras gravadas. A chuva caindo sobre ele sem parada como se o próprio céu chorasse a perda de um grande amor...
A lápide simbólica que Emma Kennedy havia encomendado era de fato muito bonita, coisa de primeira linha, mas isso não causava conforto algum.
Makayla Devinne
Amada filha, amiga e irmã
Aquelas simples palavras não podiam definir a vida de Makayla, não era justo ou certo que ela fosse apenas uma filha, uma amiga e uma irmã, ela merecia mais, ela devia ter tido uma vida longa, ter sido mãe, ter sido...
— Eu ia me casar com ela, Sam. — Bucky declarou de repente, tirando do bolso do casaco a caixinha de veludo vermelho que ele estava carregando desde o momento que comprou.
Wilson baixou os olhos para o objeto de forma melancólica, ele entendeu o impacto de tudo que o casal havia perdido... Uma vida inteira juntos.
— Era meu presente de aniversário. — Barnes declarou, abrindo a caixinha e segurando o delicado anel entre os dedos. — Depois do que você disse pra mim eu... eu percebi que, se um dia eu fosse ter uma família, um filho... era com a Makayla que eu queria fazer isso. Só com ela.
Ele baixou a cabeça, os ombros caídos e a postura curvada, estava devastado, verdade, mas ao mesmo tempo sentia tanta raiva, tanto ódio. Seu desejo real era quebrar aquela lápide no soco, todos as lápides, tudo que houvesse ao redor.
Bucky queria destruir o mundo, para lidar com o fato de que seu mundo estava destruído.
— Acho que agora não faz mais diferença... — Ele soltou o anel, deixando que a peça caísse sobre a terra molhada e fosse parcialmente engolida pelas dezenas de gotículas de chuva.
Deu as costas, mas não aguentou andar muito, seus joelhos cederam no barro e ele socou uma árvore com a mão direita. Um ferimento se abriu nos nós de seus dedos quando uma parte do tronco se despedaçou com sua força.
Bucky apoiou uma mão ali, a outra tampando seu rosto enquanto ele desabada em um choro desalentador.
Wilson lhe alcançou logo, um passo atrás do amigo o tempo todo, apoiou a mão no ombro dele em um gesto de consolo.
— O que eu vou fazer da minha vida sem ela, Sam...? — Bucky questionou com a voz cheia de desespero e embargada pelo choro. — Eu fiz uma promessa, mas não acho que consigo cumprir...
Sam respirou fundo, se colocando na frente de Bucky e o cobrindo com seu guarda-chuvas.
— Você vai comigo pra Delacroix, vamos pensar onde é o melhor lugar pra espalhar as cinzas dela e depois vamos viver um dia de cada vez. — Ele estendeu a mão direita para ajudar Barnes a se colocar de pé. — Você não tá sozinho, Buck. Eu não vou deixar você falhar em cumprir sua promessa.
Bucky respirou fundo, naquele instante ele queria mesmo era continuar ali, na chuva, até que a morte viesse lhe buscar. Mas tinha feito uma promessa, aquele era o último pedido da mulher que ele amava... não podia falhar com ela.
E com certeza precisaria de toda a ajuda possível para se manter firme. Por isso aceitou a mão que lhe era estendida. Honestamente, que bom que Sam Wilson estava ali.
★☆ • ★☆ • ★☆
Parado na janela da pequena saleta de cremação, no fundo da casa funerária, Scott Feltz viu os dois Vingadores se afastando. Em seu ouvido direito o pequeno comunicador transmitindo a escuta estrategicamente colocada no túmulo simbólico de Makayla Devinne...
Por que é claro que Emma daria um jeito de descobrir exatamente qual o próximo passo de Bucky Barnes.
A Diretora do CRG estava mexendo peças de xadrez em um maldito tabuleiro macabro e a pior parte é que ela era muito boa nisso...
O Agente olhou por sobre o ombro e viu Bolivar Trask focado em seu trabalho, mal piscava o cientista. Enquanto isso o responsável pelo lugar e por todo processo de cremação assistia encostado em uma das paredes. O idiota parecia interessado demais.
Feltz fez uma careta de desgosto e sentiu a fisgada em seu nariz, com certeza estava quebrado, mas tudo bem, não era a primeira vez que isso acontecia, e com certeza não seria a última. Bucky Barnes tinha um ótimo gancho de direita.
Mas também... qualquer um que acabou de perder o amor de sua vida teria...
Aproveitou que Trask estava ocupado e saiu da saleta, respirando fundo o ar puro e ignorando a dor em seu nariz. Estava particularmente sem paciência naquele dia, quer dizer, desde o dia anterior tecnicamente, já que havia virado a noite acordado, teve que correr pra atender a cada capricho macabro e maquiavélico de Emma Kennedy, enquanto ela posava de boa mãe.
Seu ódio por aquela mulher realmente atingira níveis estratosféricos.
Cruzou o cemitério até o túmulo simbólico de Makayla Devinne, a chuva lhe incomodando pouco, comparado a toda aquela situação de merda. Se fosse honesto, Feltz não sabia bem o que era, a missão não havia mudado tanto assim, havia?
Parou em frente a lápide e encarou o nome de Makayla Devinne enquanto negava algumas vezes. Nunca odiou a garota, a achava chata, pedante, esquiva e espertinha demais, porém achava isso de basicamente todo adolescente. Além disso, ficou colado nela por seis longos meses, era impossível não acabar simpatizando com o humor ácido dela. Bom, quer dizer, Emma Kennedy tinha passado vinte anos perto da menina e não desenvolveu sentimento nenhum por ela...
Mas aquela mulher não era exemplo pra nada, muito menos para uma boa mãe.
E apesar disso, com certeza, mereceria um oscar por sua atuação no hospital. Quem olhasse realmente pensaria que ela estava sofrendo pela filha morta. Naquele ponto Feltz duvidada muito que Emma fosse capaz de sofrer por qualquer ser vivo no mundo...
Ele negou algumas vezes, quando tinha se tornado tão crítico? Era só a porra de um trabalho.
Respirou fundo e se abaixou, olhando no meio da grama lamacenta por causa da chuva. Não foi difícil encontrar o anel que Bucky Barnes havia jogado ali momentos atrás. Feltz pegou a pequena joia na mão e analisou com atenção; era uma peça extremamente delicada, feita de ouro rosê, ou talvez apenas banhada, impossível saber. Não era o típico solitário, ao invés disso o anel era trabalhado como uma fita, sobreposto sobre ele mesmo, formando um tipo de laço que, quando visto do ângulo certo formava um símbolo do infinito. Por fim um dos lados era cravejado de pedrinhas, com certeza não eram diamantes de verdade, mas ainda brilhavam como se fossem.*
Era piegas, mas de bom gosto até, o tipo de coisa que Makayla gostaria, a julgar por tudo que Feltz havia descoberto e analisado dela nos seis meses que serviu como seu segurança.
Uma pena... esse pensamento solto cortou sua mente, enquanto o Agente movia o anel para tentar ler o que estava gravado em seu interior. Infelizmente era russo, uma língua que Feltz até entendia um pouco se ouvisse, mas que não tinha ideia de como decifrar quando lia. Espanhol, Italiano e Francês, tudo bem, mas os russos tinham mesmo que usar até um alfabeto diferente?
Desistiu de decifrar aquela porcaria, porque certamente era algo romântico e açucarado que não faria diferença nenhuma. Enfiou a joia no bolso do casaco e voltou para a saleta fétida onde Trask trabalhava.
— Onde você estava? — O cientista perguntou, assim que o agente passou pela porta.
— Tomando ar, aqui tem cheiro de morte. — Feltz deu de ombros sem empolgação. Não era mentira afinal, principalmente a parte do fedor, estavam em um maldito crematório.
— Eu vou ver se o transporte já chegou. — Trask declarou, se afastando da grande mesa onde trabalhava. — Fica de olho. Está tudo sob controle, mas é bom não dar margem para o azar.
Feltz se aproximou alguns passos, entre aquelas porcarias médicas, soros e agulhas, um corpo repousava... um que para todos os efeitos era apenas cinzas naquele momento.
Makayla Devinne. Viva e respirando.
Feltz reviveu aquele dia maldito na mente, Emma e Trask se unindo em um objetivo em comum, vendo vantagens nos exames da garota e seguindo para o hospital, apenas para descobrirem que teriam que correr contra o tempo ou perderiam Makayla para Wakanda.
Ela era extremamente importante para os propósitos da Forja outra vez e havia uma oportunidade perfeita para a levarem até o lugar, sem que Bucky Barnes ou qualquer outro Vingador se tornasse um problema...
Depois disso foi tudo sobre dinheiro, Emma comprou basicamente toda a equipe médica, Trask forneceu as drogas que parariam a pulsação da garota o bastante para que ela parecesse morta até para os aparelhos, mas que não afetariam sua saúde geral. Os doutores fizeram o resto declarando o óbito.
Uma sequência de atuações que talvez Bucky Barnes tivesse percebido se não se encontrasse tão abalado com a suposta morte de seu grande amor.
Foi uma cena difícil de ver, se Feltz fosse honesto, por um instante ele se perguntou como devia ser amar alguém daquela forma tão desesperada...
Mas nada disso abalou Emma ou a fez mudar de ideia, desde que ela pisou naquele hospital ela tinha um único objetivo, levar Makayla Devinne para a Forja, e tudo que ela fez desde então, cada palavra, gesto, sorriso ou lágrima foi pra alcançar esse objetivo. Até a aparente boa vontade com o casal era pra isso.
A história da cremação também era mentira, claro. Ela ainda foi esperta o bastante para manter o corpo ali, ao invés de transportá-lo imediatamente, porque previu que Bucky podia querer ver Makayla outra vez.
Esperta e mentirosa, não se podia confiar em nada que saía da boca daquela mulher.
Feltz chegou a desejar que Bucky descobrisse tudo, Wakanda certamente teria descoberto se o hospital não os tivesse barrado de ver o corpo... Será que Barnes deixaria de lado suas convicções de não matar se soubesse o que Emma havia feito com o amor da vida dele?
A Diretora Kennedy teve coragem de forjar a morte da própria filha gravida para arrancá-la de Bucky sem maiores problemas. “Porque morto é morto, ninguém procura pessoas mortas”. Filosofia de merda dessa mulherzinha, Feltz pensou, com os olhos fixos no rosto de Makayla. Trask já havia reestabelecido os batimentos cardíacos, enquanto o velório estava em andamento, e agora a menina estava apenas sedada, provavelmente acordaria em breve, já que o tumor nada tinha a ver com o desmaio dela no hospital...
— Ela é uma das bonitas, não é mesmo? — O cara da cremação se aproximou com um sorriso ladino e uma mão boba.
Feltz segurou o pulso do idiota no ar, antes que ele tivesse qualquer chance.
— Se colocar esses dedos nojentos nela, eu vou arrancar um por um com uma faca de serra e enfiar todos eles no seu cu. — Ameaçou, sem sequer se dignar a olhar para o homem. — Ela não é para o seu bico, se afaste.
Soltou o pulso do cara e ele deu alguns passos para trás com as mãos erguidas.
— Relaxa, cara, era brincadeira. — O idiota lançou em tom bem-humorado.
— Eu tenho cara de criança, pra gostar de brincadeira? — Feltz retrucou seco.
O maldito nojento estava levando uma bolada pra ficar de boca fechada e agir como se realmente tivesse feito a tal cremação. E nem era a primeira vez que o imbecil fazia isso para Emma Kennedy.
O Agente respirou fundo, não sabia porque estava tão particularmente sem paciência naquele dia, mas tentou se controlar.
— Pode trazer, Feltz. — Trask ordenou, indicando a ambulância que havia acabado de estacionar na entrada da frente.
É claro que Emma Kennedy devia estar posando de boa mãe em algum lugar, pra alguma revista ou merda do tipo, ao invés de estar ali colocando a mão na sujeira que ela havia planejado... Era apenas isso que existia na mente do Agente Scott Feltz enquanto ele pegava o corpo desacordado de Makayla nos braços.
Dizer que estava puto era pouco. E o problema é que sequer sabia porque estava tão afetado daquele jeito. Sim, seu “encontro” com Caroline Hills fora interrompido, mas sequer era a primeira vez que tinha que deixar uma mulher bonita por causa de trabalho, não era isso...
Passou pelo cara da cremação com um olhar de puro ódio.
— Porco chauvinista. — Murmurou alto o bastante para que o nojento pudesse ouvir.
— O que disse? — Trask questionou, parado com as portas traseiras da ambulância aberta.
— Nada, não. — O Agente desconversou, acomodando o corpo de Makayla com cuidado na maca disponível ali.
Ambos se sentaram ao redor dela, enquanto um terceiro homem, — outro idiota comprado, Feltz tinha certeza, — guiava o veículo.
Mas o que ele próprio era afinal, se não outro idiota comprado? O mais comprado de todos a julgar que recebia duas vezes pelo mesmo trabalho...
Por alguns minutos o único som entre eles foram as sirenes que cortavam caminho rapidamente para a Forja, levando sua mais nova prisioneira.
— Quando ela vai acordar? — Feltz perguntou de repente, com os olhos fixos no rosto sereno de Makayla.
No fundo queria que a jovem acordasse e surtasse, talvez ela poderia até enfiar uma agulha ou um bisturi no olho esbugalhado daquele cientista chato.
Sim, estava com raiva de Bolivar Trask também, percebeu isso naquele momento. E o motivo permanecia um mistério mesmo para o próprio Feltz. Até que ele gostava do cara antes.
— Em breve. — O homem falou apenas, ajeitando seus óculos sobre o nariz.
— E o tal tumor? — O Agente questionou desinteressado, girando o anel de noivado de Bucky Barnes dentro do bolso.
— Não tive tempo de estudar muito ainda, mas posso dar um jeito de estabilizar e ganhar tempo, e isso já vai ser o suficiente. — Trask explicou sem qualquer comoção. Era como se não estivessem falando de uma garota.
— E o bebê? — Feltz trincou os dentes sem nem notar com sua própria pergunta.
— Eu espero que esteja bem, vamos precisar dele. — O cientista esclareceu, descendo os olhos para o ventre de Makayla Devinne. — Tudo isso é por causa desse feto...
E foi naquele instante que Scott Feltz finalmente se deu conta de qual era o grande problema; de porquê estava tão puto com tudo ao seu redor: Makayla Devinne não era mais apenas uma adolescente levemente chata, ela era uma mãe.
E mães que queriam seus bebês, deveriam poder ficar com eles em paz.
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