Notas iniciais
Hey! Cheguei atrasada e sei disso kkkkkk, essa semana foi um verdadeiro inferno pessoal pra mim, e só hoje tive tempo de sentar pra revisar o cap que tava pronto desde quinta... Enfim, a vida. Mas agora eu tô aqui e vamos que vamos porque faltam pouquíssimos capítulos pro final e tá tudo uma completa bagunça. Boa Leitura!

Havia esse homem, esse que estava lá, mas ao mesmo tempo não estava, ela podia sentí-lo, porém sua presença desvanecia em uma nuvem de fumaça. Era como se uma borracha houvesse passado por cima de palavras escritas a lápis, as frases antigas não estavam mais lá, porém havia a marca... a forma das letras que permanece no papel quando escrevemos algo com muita força. Esse homem era assim. Haviam muitas coisas que ela não sabia — ou não lembrava — sobre ele, e havia aqueles detalhes específicos demais que sua mente era incapaz de apagar.

Ele tinha cheiro de lar, e beijava seus dedos como se venerasse algo que ela não tinha certeza do que era. E cada vez que tentava alcançá-lo a dor de mil volts cortava seu corpo, culminando em sua mente, alagando tudo com uma agonia crescente e estranhamente familiar. Era como se já houvesse passado por isso, mesmo que nunca tivesse de fato...

Um milhão de pequenas lembranças se perdia, eram destruídas como gelo derretendo aos poucos, e ao mesmo tempo aquela presença, aquele homem, isso ficava lá. Sempre lá, mesmo que ela fosse incapaz de alcançá-lo ou vê-lo. Ainda assim, era como se estivesse gravado em sua mente como uma tatuagem misteriosa...

O que aquilo significava?

Makayla Devinne acordou em um sobressalto. Seu peito subindo e descendo e o suor escorrendo de sua testa. Ainda ofegante ela olhou ao redor, o lugar claro e bem iluminado, os lençóis brancos e os detalhes gerais compostos pela mobília indicavam que ela estava em um quarto de hospital. Mesmo o bip constante dos aparelhos de monitoramento ou o medicamento que pingava em sua veia indicava isso, no entanto... onde estava o cheiro característico?

A jovem piscou algumas vezes, tentando alinhar seus pensamentos de forma coerente, mas não teve qualquer oportunidade de fazer isso antes que a porta se abrisse revelando uma figura conhecida...

— Olá, querida. Que bom que acordou. — Emma Kennedy saudou maternal, um sorriso reconfortante em seus lábios.

Makayla estranhou o incomum choque de aversão que teve naquele curto segundo. Meu deus, era a sua mãe, por que por um segundo todos os instintos de seu corpo reagiram como se fosse um tipo de ameaça?

— O que aconteceu, mãe? — Ela perguntou, notando o quão confusa e desnorteada estava, além disso havia uma dor de cabeça chata que tornava mais difícil ainda se concentrar.

— Você não sabe? — Emma perguntou de forma simples, enquanto se aproximava alguns passos. — Qual a última coisa que você se lembra?

Makayla parou por um instante, procurando as lembranças em sua mente como quem tenta recordar o nome de uma música antiga. Havia uma sensação estranha de que havia algo importante que não estava lá, um vazio incomum, algo faltando, mas como não encontrou nenhuma memória para explicar essa sensação, a jovem focou apenas na última coisa da qual realmente haviam registros em sua mente.

— Eu estava no carro... com o papai, e... — Ela começou a falar e encarou os dedos. — Eu vi minhas mãos virarem pó.

Uma sensação incomum de deja vu lhe abateu, quase como se já tivesse dito isso em voz alta antes, mas Makayla não conseguia pensar direito, um pouco porque sua cabeça doía e muito porque tudo estava embaralhado demais, era como se alguém tivesse colocado sua mente no liquidificador.

— Você foi blipada, ou seja desapareceu no ar depois de virar pó, aconteceu com metade do universo. — Emma explicou calmamente, se sentando na ponta da maca. — Fui tudo culpa daqueles alienígenas malditos. — Makayla sentiu que aquilo era, de alguma forma estranha... familiar? Não as palavras em si, mas os eventos que elas relatavam.

Ouvir que metade do universo havia desaparecido devia causar uma reação de surpresa ou choque, mas Makayla não sentiu nada disso, mesmo sabendo de forma consciente que deveria.

— Mas resolvemos isso. — Emma continuou, exibindo um sorriso reconfortante. —Trabalhamos incansavelmente em uma solução e finalmente conseguimos.

— Trabalhamos? — A jovem repetiu e isso sim pareceu lhe surpreender.

— Sim, o governo. — A mais velha afirmou, mas isso não pareceu certo na mente de Makayla.

Era quase como uma peça que não se encaixa corretamente em um quebra-cabeças.

— O governo reverteu uma catástrofe alienígena? — Ela questionou, sem entender o motivo de estar tão incrédula com isso.

— Demorou um tempo, mas somos empenhados, não desistiríamos tão fácil. — Emma confirmou de forma firme, como se pretendesse passar convicção por suas palavras.

— Mas e os Vingadores? — Makayla perguntou, sabendo que um evento daquela magnitude não passaria despercebido para os heróis mais poderosos da terra.

Emma Kennedy se levantou de onde estava para se aproximar da mais nova, sua mão direita ajeitou o cabelo escuro da garota e houve um choque de rejeição imediato àquele toque que a própria Makayla foi incapaz de compreender. Era como um tipo de memória muscular...

Mas isso não fazia sentido, fazia?

— Ah, querida... Eles estão todos mortos. — A mais velha revelou, ainda ajeitando os fios escuros da filha.

Makayla sentiu aquele choque de um jeito estranho. Suas mãos tremendo e um nó se formando em sua garganta. Sim, havia amado os Vingadores um dia, porém isso tinha anos, aqueles heróis a haviam decepcionado durante sua vida e, com o tempo, ela passou a aceitar que eles eram apenas pessoas com boas intenções, passiveis de erros como todos os outros. Ainda assim, naquele instante, ao receber aquela notícia, a jovem sentiu aquilo lhe atingir como se eles fossem mais próximos, como se ela os conhecesse... ou ao menos alguns deles.

— Sinto muito, sei o quanto importavam pra você, mas eles perderam na primeira batalha. — Emma completou, analisando a reação de Makayla com atenção.

— Todos eles? — A garota balbuciou, seus olhos enchendo de lágrimas, sua mente querendo focar em alguém em especifico, mas vagando sem rumo e sem formar uma imagem certa.

— Infelizmente... — A mais velha assentiu de forma constrita, que pareceu um tanto vazia.

Makayla se mexeu desconfortável e foi nesse momento que ela notou algo bem mais preocupante do que a morte de pessoas que ela não conhecia.

— Eu não sinto minhas pernas... — Declarou abalada e muito assustada. Tentou se mover, mas da cintura para baixo nada correspondia a seus comandos.

— Ah querida, você não lembra, não é? — Emma acariciou o rosto da filha, mas Makayla sentiu o impulso de reagir àquele toque como quem sente uma cobra peçonhenta se enrolar em seu pescoço. — Infelizmente a volta do blip deixou algumas sequelas, você pode se sentir confusa, ter dores de cabeça, lapsos de memória e, é claro, os movimentos afetados. Mas já estamos trabalhando em uma forma de resolver tudo isso, meu amor. Vai ficar tudo bem, certo?

Makayla assentiu sem qualquer certeza, aquilo explicava muito do que estava sentindo e daquela confusão em sua mente, ao mesmo tempo simplesmente... não parecia certo.

Havia algo... algo que não podia ser explicado com palavras, mas estava lá, um tipo de instinto que colocava Makayla em estado de alerta, como se ela estivesse em perigo e como se houvesse algo crucialmente importante para ser protegido, embora ela não soubesse o que era.

Tentou se acalmar, tentou acreditar nas palavras de Emma. Era sua mãe afinal, ela nunca lhe faria mal.

— Agora descansa, quando você acordar já vai estar bem melhor. — Teve seu travesseiro afofado e seus lençóis ajeitados.

Makayla assentiu, tentando transmitir a reação que achava certa ter naquele momento, e não aquela que sua mente lhe dizia para ter. Tudo ficaria bem. Instintivamente ela apoiou as mãos sobre o ventre de forma distraída.

— Mãe? — Chamou quando Emma estava a caminho da saída. — Cadê o meu pai?

Se os dois estavam no carro naquele momento... será que ele estava bem?

— Descansa primeiro, depois você vai saber. — Emma respondeu, parada na porta. — Não se preocupa com nada. Eu já volto.

Saiu então, deixando Makayla sozinha naquele quarto de hospital que não cheirava como hospital nenhum...

A garota respirou fundo, suas mãos ainda sobre o ventre, mas seus pensamentos longe, tentou se conformar com o que Emma havia explicado, colocar aquelas palavras lógicas como o motivo para sua mente estar tão confusa, ainda assim, havia algo mais, não eram apenas seus pensamentos, havia algo que vinha de dentro, do fundo de seu coração talvez, uma falta... Como se existisse alguém que devia estar ao seu lado naquele momento, mas não estava.

Mas era loucura, certo? Como podia sentir falta de alguém do qual ela não se lembrava?

Respirou fundo e encarou as janelas do quarto, grandes vidros que refletiam a cidade de Nova York vista de alguns metros acima do chão...

Sem que ela soubesse, do outro lado do vidro, que na verdade só projetava imagens pensadas para dar veracidade a toda aquela farsa, três pares de olhos masculinos a monitoravam com atenção.

Scott Feltz era quem estava mais perto do vidro, sua atenção fixa nas mãos femininas que distraidamente protegiam o ventre, sem sequer lembrar o que havia ali para ser protegido. Enquanto isso Trask e outro homem analisavam dados transmitidos nas diversas telas ao redor deles.

Makayla Devinne havia se tornado um ratinho de laboratório...

Levou menos de um minuto para que a porta da sala de monitoramento se abrisse e uma Emma Kennedy exultante de orgulho entrasse com o queixo erguido.

— Como me saí? — Ela perguntou para o cientista ao lado de Trask, se é que alguém chamaria aquele homem dessa forma...

— Parece bom, você deu a ela uma história crível, isso vai mantê-la estável. — O homem declarou.

Matvey Karpov, ou como era conhecido atualmente Matthias Karter, era filho de Vasily Karpov, ex-assossiado da Hydra que trabalhou diretamente no programa Soldado Invernal, posteriormente fugindo da organização para depois ser encontrado e assassinado por Helmut Zemo. Vasily guardava o livro vermelho com as palavras chave que controlavam Bucky Barnes, porém Matvey tinha conhecimentos que não estavam em livro algum. Ele havia aprendido a arte de apagar a mente de alguém através de eletrochoques.

Quer dizer, Emma chamava aquilo de arte...

Não foi fácil encontrar o homem, mas a Diretora Kennedy tinha essa mania irritante de sempre conseguir tudo que queria. Então lá estava Matvey Karpov, recrutado pela Orquídea.

Naqueles últimos dez dias, desde que Makayla Devinne se tornara prisioneira da Forja, enquanto Trask trabalhava em estabilizar o quadro da jovem, Karpov seguia as ordens de Emma e erradicava os últimos meses da mente da garota.

Nada de Bucky Barnes, nada de descobertas problemáticas sobre aquela que Kayla julgava ser sua mãe, nada de habilidades, nada de bebê...

Ou melhor, o bebê ainda estava lá, a garota só não lembrava disso.

Feltz colocou ambas as mãos no bolso e se aproximou do vidro um passo, seus olhos presos na figura jovem que tinha acabado de fechar os olhos, doente e grávida, alheia a toda a crueldade que lhe cercava, mesmo depois de ser arrancada do homem que amava, furada, estudada, examinada, e literalmente eletrocutada naqueles últimos dez dias.

Os gritos dela durante as sessões de erradicação de memórias tinham impregnado na mente de Scott Feltz, ele sonhava com isso a noite... E então, tudo que havia era a pergunta constante: como havia chegado tão longe?

Quando tinha deixado de tentar fazer o melhor?

Porque no começo era isso, não era? Quando se alistou, quando dedicou sua vida ao governo, primeiro no exército, depois na CIA... Em que momento deixou de acreditar em justiça?

O que lhe corrompeu foi o dinheiro que suas habilidades podiam gerar? Ou foi ver que não importava o que fizesse, os canalhas ricos sempre sairiam impune? Lutar contra isso era inútil. E se você não pode contra eles, junte-se a eles então.

Mas ali, dentro daquela sala de monitoramento, olhando para Makayla Devinne grávida e sem memória enquanto cientistas e políticos decidiam a vida dela e daquele bebê como se nada valessem, Feltz se tocou de uma coisa incômoda: Se juntar a “eles”, era ser como eles...

Não era apenas violência contra inimigos em campo de batalha, não era somente espionagem empresarial, não era trabalhar para o governo fodendo outros ricaços que também faziam parte do governo. O dinheiro em seu bolso estava cheio de sangue inocente. E Scott Feltz nunca tinha se dado conta dessa verdade com tanta clareza quanto naqueles últimos dez dias...

— Eu ainda acho esse um risco desnecessário. — Bolivar Trask comentava contrariado, bem ali atrás. — Ela está debilitada, precisamos focar em mantê-la viva por causa do feto em desenvolvimento.

A discussão não era novidade. Trask e Emma discordavam sobre a maneira de lidar com Makayla, eles queriam que ela fosse útil de formas distintas, ambas cruéis e revoltantes.

— Você já expressou toda sua vontade de manter a garota sedada Bolivar, e tanto eu quanto os outros membros concordamos que ela pode ser útil de outras formas também. — Emma rebateu muito segura de si.

É claro que ela havia conseguido apoio de outros membros importantes da Orquídea, afinal a Diretora Kennedy sabia muito bem como manipular seus colegas políticos quando queria. Nem mesmo Trask podia contra isso, por mais que tivesse angariado confiança de vários membros.

— Além disso, como todos vocês viram ela está estável. Não temos com o que nos preocupar. — Emma decretou, apontando a garota do outro lado do vidro como se ela fosse uma coisa a ser usada e não sua própria filha.

— A mente dela é... — Trask tentou argumentar, mas foi interrompido.

— Não é relevante. — A Diretora Kennedy tinha um dedo erguido em riste. — Kayla está sem memórias e vai confiar em mim, além disso ela está viva e vai servir ao propósito que queremos, nesse meio tempo você cuida dos assuntos relacionados ao feto. — A forma prática como cada palavra era dita causava certa revolta em Feltz. — Em resumo, você cuida do seu trabalho, Bolivar, e eu cuido do meu. Simples assim.

Ficou evidente que o cientista não gostou do que estava ouvindo. Enquanto isso Emma parecia se regozijar com sua demonstração ridícula de superioridade, e Feltz sabia muito bem que aquela mulher era exatamente esse tipo de pessoa... Ela gostava de humilhar os outros para mostrar que era melhor, mais poderosa ou simplesmente que estava um degrau acima na hierarquia de comando.

— Lembre-se que usar esse feto é apenas uma das alternativas para ativarmos o OZ. — Ela prosseguiu em um tom que misturava prepotência e autoridade. — No entanto, como eu bem previ, Kayla pode ser a chave para obtermos respostas cruciais sobre o Objeto. De onde ele veio, por que está aqui...

— Você está arriscando a integridade física da provedora por uma tarefa que já se provou falha. Usar a garota em um interrogatório do Prisioneiro não vai mudar o resultado final dos últimos cinco anos. Ele não sabe de nada. — Trask rebateu sem abaixar a cabeça ou recuar.

Feltz concordava com a última parte, se o prisioneiro soubesse de algo ele teria dito naqueles últimos anos...

— Como eu disse, preocupe-se com o seu trabalho e eu me preocupo com o meu. — Emma repetiu, dando o assunto por encerrado.

Era sempre assim, ela nunca admitia que estava errada, continuava batendo o pé para fazer tudo de seu jeito e, no fim, se desse errado, ela provavelmente acharia alguém para culpar...

Assim que a mulher saiu da sala o Agente a seguiu, não porque quisesse estar perto de Emma, mas naquele instante parecia crucial saber cada passo dela para assim conter possíveis danos. Além disso havia algo que Feltz estava esperando naqueles últimos dez dias e ainda não havia acontecido.

— Parece bem confiante nesses últimos dias, Diretora Kennedy. — Puxou assunto, preparando o terreno para perguntar o que queria.

— Eu estou, resetamos a mente da Kayla, ela está estável, Barnes continua bem longe com Wilson, tudo está saindo conforme eu quero. — Emma respondeu, sem parar de caminhar em direção a outro dos laboratórios. — E logo aquele homem maldito vai me dar todas as respostas que escondeu de mim por todos esses anos. Por bem ou por mal.

É claro que se referia ao Prisioneiro da Forja, sua obsessão pelo homem era o único motivo para a maioria das coisas que aconteciam ali afinal. Não importava o quão megalomaníaco parecesse, Emma Kennedy estava disposta a tudo quando se tratava de alcançar seus objetivos egoístas...

E naquele instante em particular isso podia ser bom até, quem sabe ela estivesse tão focada em Makayla e no Prisioneiro que desistisse de outras pessoas.

— Se me permite perguntar, Diretora Kennedy... — Feltz controlou o tom para não parecer interessado demais. — Se tudo está saindo conforme planejado, por que ainda mantém a Doutora Hills aqui?

Naqueles últimos dias o Agente estava esperando que Emma demitisse a mulher, parecia o certo afinal, Caroline havia sido recrutada para ser usada contra Makayla em um futuro próximo, mas agora que a garota estava sob os cuidados da Forja, a Doutora não era mais necessária, ela poderia ir embora antes de saber demais, era o mais prudente a fazer.

Feltz só queria Caroline bem longe de tudo aquilo, segura, antes que as merdas daquele lugar acabassem atingindo não apenas ela própria como também a pequena Olivia...

— Preocupado com aquela mulherzinha, Agente Feltz? — Emma tinha um tom que misturava desconfiança e veneno.

— Com ela? Não. Com a integridade da nossa missão, certamente. — O homem rebateu de imediato, sabendo que titubear colocaria Caroline bem na mira daquela víbora.

— Explique. — A Diretora Kennedy ordenou, parando ali no meio do corredor e se virando para Feltz.

Pelo menos ela parecia ter acreditado na desculpa dele...

— Temos variáveis demais no momento, isso pode sair do controle. — O Agente explicou com o tom profissional e frio de sempre. — Talvez demitir a Doutora Hills e mandá-la de volta para casa seja o mais inteligente a se fazer no momento. Afinal temos Makayla, o Prisioneiro, o Projeto Resurface e o monitoramento de Bucky Barnes, além das ameaças eletrônicas que o CRG vem recebendo dos Apátridas, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Evidente que o mundo não havia parado para que Emma Kennedy torturasse sua filha, os problemas lá em cima continuavam aparecendo, o CRG havia convencido vários dos líderes mundiais a esvaziarem os campos de refugiados, isso queria dizer que em breve um decreto seria assinado e uma força tarefa seria enfiada para expulsar as pessoas.

Seriam milhares de desabrigados, pessoas que durante o blip haviam sido convidadas por diversos países para se mudarem, com novos lares e recursos quase ilimitados, e que agora, com o retorno dos blipados, tinham sido tiradas de suas casas e ficado sem nada para que a restituição fosse feita aos antigos donos. Com as antigas politicas de imigração e fronteiras voltando essas pessoas estavam se abrigando em campos de refugiados, mas com o decreto ficaram sem sequer um teto.

Feltz não sabia o bastante de politicas públicas pra entender esse tipo de tramite ou os motivos por trás dele, mas ele tinha certeza de duas coisas; Primeira, era tudo culpa e ideia da Emma, é claro. Segunda, os Apátridas estavam furiosos com isso.

O grupo extremista, que agora eles sabiam ser liderado por super soldados, ainda não havia aparecido publicamente depois do confronto com Walker, Barnes e Wilson em Riga, no entanto estavam enviando e-mails constantes de ameaça para ao servidores do CRG, prometendo um ataque caso os líderes mundiais realmente mandassem seus embaixadores para assinar aquele decreto.

Feltz achava até justo, Emma merecia levar um golpe que afetasse sua confiança, pois estava avançando demais sem lembrar que não era dona do mundo. Porém ele também via a ameaça em potencial que aquilo seria, afinal a sede do CRG que receberia vários daqueles embaixadores era a de Nova York, ou seja, bem em cima da Forja.

Então, sim, evidente que estava preocupado com a segurança de Caroline Hills, no entanto os argumentos que estava usando eram verdadeiros, Emma estava se cercando de pessoas e situações potencialmente problemáticas, se uma só dessas coisas saísse do controle todo o resto desabaria em efeito dominó...

— Não se preocupe, Agente Feltz, eu tenho tudo sob controle. — Emma desconsiderou todas as preocupações do homem como se fossem apenas bobagem. — Caroline Hills ainda é meu plano B. E eu sempre gosto de ter um desses por perto.

Saiu andando na frente, enquanto Feltz ficava ali parado por um segundo, as sobrancelhas se unindo em confusão; se Makayla já estava na Forja, porque ainda havia um plano B? O que Emma Kennedy realmente queria com Caroline?

Voltou a seguir a mulher, um pressentimento ruim em seu peito, pensou que conseguiria tirar a Doutora daquele lugar antes que ela acabasse em perigo, porém isso parecia cada vez menos provável naquele instante.

— Além disso, em breve você não vai ter que lidar com todas essas “variáveis” sozinho. — Emma declarou, entrando no laboratório onde o Projeto Resurface estava em andamento. — Você vai ter um Super Soldado como parceiro.

Ela apontou a câmara onde Lemar Hoskins fora colocado, haviam fios, soros e todo tipo de maquinário conectados ali. Eles executariam o protocolo de ressuscitação naquele momento. Haviam trabalhado no homem exaustivamente naquele tempo, Feltz conhecia o plano, basicamente um Soldado Invernal 2.0, algumas memórias apagadas, mas o controle não seria lavagem cerebral, isso demorava muito, usariam o composto químico das Viúvas, mas eficaz, mais rápido e mais moderno.

O Agente tinha certeza que se o tal composto funcionasse Emma tentaria usar em todo mundo, a começar pelo Prisioneiro da Forja... Na verdade, ela teria testado aquilo na própria Makayla se Trask não tivesse se oposto totalmente por causa do feto.

Aquela mulher era uma sociopata, não havia outra explicação.

— E ele vai ser apenas o primeiro. Logo vou ter meu Vingador particular também. — Emma caminhou até uma das câmaras de criogênia e apontou a Cobaia Sete, Pietro Maximoff. — E depois... — Ela seguiu para a Cobaia Um, a mais antiga da Forja, passando a mão sobre o vidro embaçado para revelar um rosto que Feltz só vira em fotos. — Meu filho.

Cameron Devinne-Kennedy, a Cobaia Um, o garoto que havia morrido para defender a irmã mais nova durante a invasão de Nova York...

Feltz com certeza não entendia muito de amor maternal, mas preservar um cadáver no gelo por mais de uma década, enquanto outros tantos são usados como cobaias em testes nada éticos, no intuito ensandecido de trazer alguém de volta a vida, era mesmo amor?

Será que ela pretendia usar o composto químico de controle mental no próprio filho também?

— Acha prudente? — Ele perguntou neutro, parado em sua postura profissional.

— Estou há anos esperando o momento de trazer meu menino de volta pra mim, não me venha com prudência! — Emma perdeu sua pose tão controlada por breves instantes e esse simples lapso fez com que todas as pessoas no laboratório começassem a trabalhar mais depressa.

— Eu não falava sobre ele. — Feltz explicou sem se afetar em nada. — Eu falava sobre o garoto Maximoff.

Os olhos de Emma seguiram para a Cobaia Sete e ela arrumou sua postura no mesmo instante.

— Se eu acho prudente ter um velocista ao meu lado? Com certeza. — Declarou muito segura de si.

— Acho que você está se esquecendo da variável caótica que vem junto com ele. — O Agente devolveu tentando não parecer tenso. — Dizem que Wanda Maximoff sentiu a morte do irmão, acha que ela não vai sentir se ele voltar a vida? Mesmo manipulado, mesmo sem memórias...

Sim, estava com medo daquela que tinham passado a chamar de “Feiticeira Escarlate”, mas como não estaria? Não era apenas medo sendo que a ameaça era real, certo? Aquela Vingadora podia colocar a Forja abaixo com um simples estalar de dedos. Feltz havia expressado sua preocupação sobre isso para todas as pessoas que pôde naqueles últimos dias. Emma tinha que ouvir a voz da razão.

— Eu tenho minhas precauções. — Ela declarou com convicção e segurança, então caminhou até uma das mesas e mostrou um pequeno dispositivo circular para Feltz. — Primeiro esse brinquedinho aqui, é um protótipo feito a partir das coleiras que usaram em Wanda Maximoff na balsa, vai reprimir os poderes de qualquer um deles. — A coisinha redonda que parecia muito uma simples bolacha metálica era claramente feita de nanotecnologia e outras coisas nerds que Feltz nunca se preocupou em entender. — E depois a Forja é perfeitamente segura, foi feita de um substituto sintético do Vibranium, chamamos de Adamantium, o descobrimos no OZ e o aplicamos em muitas coisas. É provável que mesmo os poderes mentais de Wanda não sejam capazes de atravessar essas paredes. Todos os testes feitos com ondas mentais acusaram que elas não atravessam metal.

Feltz quis acreditar nisso, Emma parecia convicta e preparada, mas era risco demais para correr por um garoto morto.

— Então você vai trazer um Vingador de volta a vida cujo poder é ser a pessoa mais veloz do mundo, mas ele nunca vai poder sair desse lugar? Qual a vantagem para tanto risco? — Tentou argumentar.

Emma respirou fundo contrariada, mas Feltz soube que tinha atingido o ponto certo, se o garoto fosse inútil, ele não valia o risco.

— Vamos manter a Cobaia Sete em criogênia até novas ordens. — A Diretora Kennedy declarou em voz alta, dando dois passos em direção ao Agente logo em seguida. — Isso é eliminar variáveis o bastante, Feltz?

— Espero que seja. — Ele assentiu, respirando fundo em um misto de alivio e exaustão.

Manter a Forja de pé parecia estúpido naquele ponto, mas ele duvidada muito que Wanda Maximoff chegaria ali disposta a conversar para saber quem era culpado e quem não era. Ela destruiria tudo e levaria o irmão embora, apenas isso.

E haviam pessoas ali dentro que Feltz ainda queria proteger...

Deu alguns passos para trás, deixando Emma Kennedy e os cientistas ali, focados em transformar o inocente Lemar Hoskins em um projeto controlado, mas torcendo para que não obtivessem sucesso.

Feltz sabia que tinha que parar por um instante, colocar as ideias no lugar e pensar em uma forma de manter Caroline a salvo, no entanto sentia-se acorrentado a uma bomba, como se qualquer movimento ou decisão impensada fosse na verdade piorar tudo ao invés de ajudar...

No curso daqueles últimos dez dias Feltz chegou a cogitar contar a verdade para Bucky Barnes, mas essa era provavelmente a atitude que faria tudo ir pelos ares, um ataque a Forja poderia machucar as pessoas que o Agente tinha se pegado empenhado em proteger. Porque Emma com certeza tinha um plano para uma possível interferência de qualquer Vingador, e considerando que aquela mulher era mais traiçoeira que uma cobra, com certeza nada de bom viria desse plano.

Se Feltz fosse muito honesto, ele havia passado aqueles dias tentando convencer a si mesmo que não era seu problema, que ele não tinha obrigação de ser o salvador de ninguém, porém, ainda assim, ele continuava preocupado.

Péssimo momento para que sua bússola moral voltasse a funcionar direito...

Mudou de andar e parou em um dos laboratórios que rodeava o Objeto Z, Trask estava trabalhando sem parar naqueles últimos dez dias, sequer saíra da Forja, dormindo poucas horas por dia, isso quando não passava a noite acordado a base de café, energéticos e remédios.

Naquele instante o cientista andava de um lado para o outro, resmungando impropérios enquanto focava em suas tarefas. Feltz entrou no ambiente e encostou em uma das mesas, sabia que se resolvesse mesmo lidar com a bomba relógio que tinha em mão, então teria que juntar o máximo de informação útil antes de decidir seu próximo movimento. Era uma questão de estratégia.

— Não parece de muito bom humor hoje, Senhor Trask... — Comentou como quem não quer nada.

— Emma está arriscando meu projeto em nome dos caprichos dela. — O homem resmungou mais alto, parecendo satisfeito em ter alguém que fosse ouvir suas frustrações. — Isso é imprudente.

— Acha que pode ser prejudicial para o bebê? — Feltz perguntou casualmente.

Sim, era tudo sobre o bebê para ele, talvez esse sempre tenha sido o ponto, a partir do momento que Makayla Devinne passou de uma simples garota chata que ele tinha que monitorar para uma futura mãe, as coisas mudaram. O próprio Feltz não sabia exatamente o motivo, talvez tivesse algo a ver com sua própria infância. Não que isso fizesse muita diferença naquele momento.

Quem sabe se saísse de toda aquela merda vivo ele seguisse o exemplo do casalzinho apaixonado e pagasse um bom terapeuta pra lidar com as merdas que já tinha vivido....

— Acho que não temos motivos bons o bastante para arriscar, o feto devia ser nossa prioridade. — Trask explicou, sem parar o que fazia. — Depois que o usarmos para ativar o OZ e caso isso não nos dê todas as respostas, podemos voltar a investir nesse Prisioneiro idiota.

Era bem evidente que a obsessão de Emma pelo homem cativo na Forja estava se tornando um problema para Bolivar. Eles tinham objetivos distintos naquele instante.

— Mas como você sabe que o bebê vai ser a chave? — Feltz continuou a especular, sem saber sequer se estava fazendo as perguntas certas. — E se ele não tiver os genes que você precisa?

— Improvável. — O cientista retrucou neutro. — Mas mesmo que você esteja certo, esse tipo de pergunta se responde com o tempo, o certo era mantermos a garota sedada até lá.

Sedada era ruim, certamente, mas acordada e sendo eletrocutada, manipulada e usada por uma mãe sociopata parecia muito pior...

— “Até lá” quando? — O Agente quis saber, estava naquele ramo há tempo o bastante para entender que não tinha como Makayla simplesmente voltar para casa depois de tudo, mas talvez aquele lado de si mesmo que ainda estava em negação, quisesse pensar que havia um jeito de resolver tudo de modo controlado.

Não tinha nada contra uma boa briga, mas sabia muito bem que quando chegava nesse ponto pessoas inocentes acabavam machucadas, ou pior... mortas.

— Até que o feto pudesse ser tirado do útero dela de forma segura. — Trask respondeu e aquilo fez com que um gosto ruim subisse a garganta de Feltz. — Até o nascimento mais precisamente.

Aquilo era ainda mais desumano do que o Agente havia imaginado...

— Mas ela vai resistir até lá? — Ele não queria soar tão interessado, mas foi impossível conter sua reação imediata. — E o câncer?

— Ela não tem câncer. — Trask declarou com um movimento displicente da mão direita. — Entendo porque a médica analisou assim, porque de fato parece um tumor, mas nesse tempo que eu tive pra examinar a garota, e com o tipo de informação que eu tinha disponível...

— O que você descobriu? — Feltz deu um passo para frente, estreitando os olhos em curiosidade.

Por sorte Bolivar pareceu feliz em compartilhar suas teorias, foi a primeira vez que se afastou de seu trabalho para então tocar um dos botões e abrir imagens do cérebro de Makayla na grande tela do lado esquerdo do laboratório.

— Ficou claro pra mim que Makayla tomou algum tipo de droga experimental para destruir os genes, talvez ela tenha se assustado com os poderes, não sei dizer. — Ele começou com a mesma fluência de um professor. — O fato é que a droga provavelmente deveria erradicar os genes do organismo dela, o que não funcionou como esperado. — Aproximou uma das imagens e apontou o ponto que parecia um caroço do lado esquerdo do cérebro. — O que estamos vendo aqui é os anticorpos gerados pela droga, tentando destruir o pouco que falta dos genes especiais da garota. Esses “anticorpos turbinados” formaram uma barreira em volta dos ditos genes, que de fato se parece com um tumor maligno, afinal células cancerígenas também tentam destruir células saudáveis.

— Então ela não morreria por causa disso? — Feltz presumiu, sentindo o quão terrível seria se além de tudo aquela ida ao hospital, que foi o começo do fim para Makayla e Bucky, tivesse sido apenas uma tentativa inútil de impedir algo que nunca aconteceria.

— Ah não, ela teria morrido sim, com certeza. — Trask garantiu convicto. — Como as drogas que ela tomou falharam em eliminar todo esse gene especial, os anticorpos turbinados começaram a atacar o organismo, o cérebro mais precisamente, porque acredito que era aqui que esse gene se concentrava ou nascia. Pra dizer de forma bem leiga, o cérebro é a fonte do poder que a garota tinha.

Fazia sentido, principalmente se Feltz estivesse certo em sua teoria de que Makayla podia ler mentes de alguma forma...

— Enfim... os anticorpos turbinados foram “destruindo” o cérebro dela para alcançar o gene especial. Não é uma destruição de fato, é mais uma “conquista”, esse conglomerado de células formado pelos anticorpos, que a médica definiu com um tumor, tomaram conta de várias partes e acabariam matando o cérebro para destruir o gene. — Bolivar foi explicando enquanto alternava seu olhar entre o Agente e a tela, usando termos mais simples quando via as sobrancelhas de seu ouvinte se franzirem em confusão. — Em resumo, ela teria morte cerebral em breve.

— Então como pretende mantê-la viva por nove meses pra ter um bebê? — Scott Feltz questionou, afinal qualquer tentativa de libertar Makayla das garras de Emma seriam ridiculamente inúteis se a garota morresse assim que saísse ali na esquina.

— Eu desenvolvi uma droga que retarda os anticorpos dela, digamos que nesse instante o progresso desse tumor está congelado. Pense nisso como uma batalha pausada... — O cientista explicou. — Ela tem todas as sequelas dos lugares afetados, mas está estável.

O Agente ficou encarando as imagens na tela por alguns instantes, como se ele fosse mesmo inteligente o bastante para encontrar uma solução para tudo aquilo. O que estava fazendo afinal?

Costumava acreditar no propósito da Orquídea, não foi sempre apenas pelo dinheiro, certo? Em algum ponto ele chegou a crer de verdade que aquela organização queria o melhor para o mundo, que o Objeto Zero era um mistério que valeria a pena ser desvendado, que algo bom viria daquilo...

Tinha abandonado todas essas convicções por uma mulher bonita e uma garota gravida?

Não... Isso era mentira, não era apenas por Caroline e Makayla, o real problema era Emma Kennedy, seus métodos sujos, suas manipulações escrotas e tudo que cercava aquela maldita víbora rica. Foi ela quem destruiu a crença de Feltz de que algo bom podia ver da Orquídea ou mesmo do governo...

De repente, enquanto seus olhos ainda estavam nos exames ele notou esse pequeno ponto mais claro entre a mancha escura que compunha o tal “tumor”.

— Se os genes estão aqui, cercados por esses anticorpos, por que não tira uma amostra para reativar o OZ? — Perguntou, apontando esse exato local na imagem.

Bolivar Trask deu um suspiro pesado de decepção antes de responder:

— Eu pensei nisso, mas me vi em uma encruzilhada, tem uma pequena chance de conseguir uma amostra pura do gene, mas a probabilidade das células que eu quero acabarem contaminadas no processo de extração é muito maior. Além disso, tem outro problema, se eu furar o bloqueio para conseguir retirar a amostra, certamente vou abrir uma passagem para os anticorpos, nesse caso eles vão destruir todos os genes restantes e eu acredito que isso seja a única coisa mantendo Makayla viva nesse momento, e precisamos dela viva pra gestar o feto.

— Como assim “a única coisa mantendo Makayla viva”? — Feltz repetiu em um misto de confusão e interesse.

— O diagnostico da médica estava correto em um ponto; com esse nível de “tumor” Makayla devia estar em fase terminal, as sequelas que estamos vendo agora são mínimas comparadas com a área afetada. Eu acredito que os genes restantes no cérebro dela a protegem da morte nesse instante e mantém a maior parte do organismo funcional. — Trask explicou e era nítido o quanto aquilo o impressionava, fascinava e assustava na mesma medida. — Ainda tem essa parte de Makayla, esses poucos genes especiais eu suponho, que está lutando ferozmente pela vida dela.

De fato era impressionante...

— E não tem como... sei lá, acabar com esses anticorpos turbinados que estão destruindo o cérebro dela? — O Agente perguntou, afinal, atacar a causa do problema era geralmente a solução base para a maioria das coisas.

Trask comprimiu os lábios em desinteresse, e fez um gesto displicente, desligando as imagens e voltando para seu trabalho enquanto falava:

— Na verdade essa foi a primeira coisa que eu pensei, trabalhei arduamente nesses últimos dias com esse propósito. E honestamente acho que fui bem sucedido em criar um contra-soro desenvolvido a partir do liquido amniótico da placenta dela e do gene adormecido nas amostras vindas de Pietro Maximoff. — O cientista apontou um pequeno frasco com líquido púrpura, praticamente jogado na estufa refrigerada do laboratório. — Teoricamente esse contra-soro atacaria os anticorpos turbinados e ajudaria os genes da Makayla a vencerem essa “guerra simbólica”. Tudo isso sem prejudicar o feto, já que foi feito a partir de material genético e não de drogas ou fármacos. — Ele falava aquilo como se fosse nada. — Claro que eu não tenho muita certeza do que poderia acontecer depois, mas tenho essa teoria de que, uma vez livres os genes especiais reestabeleceriam as partes danificadas do cérebro e consequentemente o estado de saúde da garota.

— E por que não usa? — Feltz questionou com mais indignação do que pretendia.

— Por que, eu me dei conta que isso faria mais do que apenas “curar” Makayla Devinne, também devolveria as habilidades que ela possivelmente tinha. — Bolivar Trask respondeu de forma prática.

Ele tinha desenvolvido algo que salvaria a vida de Makayla e simplesmente estava escolhendo não usar?

— Foi você quem disse pra mim que ela podia ler mentes, e isso já era bem perigoso por si só, mas será que era apenas isso? — O cientista continuou falando enquanto trabalhava, alheio a reação chocada do Agente. — E se os poderes vindos dela forem algo além do nosso controle? Ela poderia colocar esse lugar abaixo... E eu sei que você entende muito bem que algumas atitudes envolvendo essas pessoas com poderes são imprudentes, foi seu afinco em impedir que trouxessem Pietro Maximoff de volta a vida que me fez perceber que manter Makayla Devinne doente e sedada é muito mais seguro, e a Emma concordou com isso.

Feltz percebeu que tremia, eles estavam escolhendo conscientemente manter a garota entre a vida e a morte para usá-la em seus propósitos. Isso era ultrajante.

A pior parte era notar que Emma ter concordado com tudo aquilo não surpreendia realmente, mas o Trask? Não era justo ele quem dizia que estava tentando salvar a humanidade? Era realmente salvação se ele estava torturando e sacrificando pessoas pelo caminho?

— Com sorte, depois que Emma falhar outra vez em arrancar informações do Prisioneiro, talvez ela recupere o bom senso e permita que a garota seja sedada permanentemente. — O cientista prosseguiu em seu monólogo macabro.

— Então você vai mantê-la viva até o bebê nascer, e depois? — Feltz teve controle e frieza o bastante para questionar sem parecer abalado ou irritado.

— Depois ela será inútil, deixá-la morrer para que o sofrimento acabe é o mais humano a se fazer. — O dar de ombros desinteressado de Trask fez com que uma raiva visceral corresse pelas veias de Scott Feltz.

— E a criança? — Perguntou entredentes, tentando se manter controlado.

— Esse feto vai ser um recurso inestimável! Vamos estudá-lo aqui, desde o começo, entender como ativar os genes que ele certamente vai ter, vê-lo se desenvolver, descobrir como eliminar esses poderes de vez, como eles surgem, possíveis fraquezas e como combater essa nova praga...

Feltz parou de ouvir, não porque estava pouco interessado, e sim porque sua mente começou a imaginar um pequeno bebê indefeso sendo cortado, furado, estudado, usado e torturado enquanto chorava pela mãe. Sozinho. Sem família.

O Agente respirou fundo, não podia ser traído por suas emoções. Tinha que ser mais esperto que isso...

— Pelo visto o senhor, como sempre, já pensou em tudo. — Declarou em tom de elogio.

— Vamos estar preparados para salvar a humanidade, Agente Feltz. — Bolivar Trask declarou orgulhoso.

“Humanidade”, no entanto, parecia excluir todos aqueles com poderes. Pelo visto sempre haveria no homem o desejo de oprimir uma minoria em nome de um bem maior...

— O senhor é mesmo um gênio. — Feltz comentou enquanto tecia xingamentos mentais, tinha que sair dali antes que acabasse dizendo algo que lhe denunciasse.

Ao deixar o laboratório, olhou o relógio em seu pulso e soube que Caroline Hills estava prestes a chegar, ela nunca se atrasava, sendo assim Feltz pegou o elevador e saiu na recepção do Centro de Repatriação Global, logo passou pelas portas da frente, se dirigindo para o estacionamento. Tudo ali estava mais movimentado do que o Agente gostaria, os preparativos para receberem os embaixadores que assinariam o maldito decreto de os Apátridas tanto abominavam seguiam a todo o vapor, e por isso haviam vários carros nas vagas que geralmente estavam vazias.

Feltz aguardou até que o carro conhecido chegasse, e logo viu Caroline Hills descendo do veículo. Ela estava linda como sempre, usando sua peça verde de praxe, um sobretudo naquele dia. O Agente estudou a posição das câmeras do lugar e deu alguns passos em direção a mulher, entrando em seu campo de visão.

— Bom dia, Scott. — Ela sorriu assim que o avistou.

Não levou mais que alguns poucos segundos para que Feltz a agarrasse e arrastasse para trás de uma das vans que estavam estacionadas ali, longe do foco das câmeras.

— Hey, o que você está fazendo?! — Caroline questionou em um misto de irritação, medo, desconfiança e confusão.

Feltz sabia que estava agindo um tanto desesperadamente naquele instante, mas pareceu a coisa mais prudente que poderia fazer...

— Olha pra mim. — Ele tocou o rosto da mulher e fez com que os olhares dos dois se encontrassem. — Você não pode voltar lá. Não é seguro.

— O que? — A Doutora Hills mudou seu tom para indignação.

— Eu não posso explicar e sei que você não tem qualquer motivo para confiar em mim. — Feltz começou, sabendo que não tinha tempo. Se Emma notasse sua ausência podia dar tudo errado. — Mas você tem que fugir, agora. As coisas não são o que parecem aqui e quanto mais você souber pior vai ser. É uma questão de vida ou morte.

O olhar de Caroline denunciou que aquelas palavras a tinham preocupado o bastante para que essa fosse a única emoção predominante no momento.

Feltz pensava rápido demais, sabia que a Doutora Hills não tinha todo o dinheiro que uma fuga rápida e segura pediria, por isso ele puxou uma corrente do pescoço. Era onde deixava suas plaquetas da época em que era fuzileiro, era também onde ele havia colocado o anel de noivado que Bucky Barnes havia comprado para Makayla Devinne e, também, uma pequena chave típica de cofres físicos de banco.

— Aqui. Pega isso. — Ele puxou a mão de Caroline e colocou a chave ali. — Eu tenho um daqueles cofres em um banco no centro, dinheiro vivo, porque contas são facilmente monitoradas.

Era um agente secreto afinal, recursos para fugir eram o básico que tinha que se manter a mão naquele meio.

— Não use cartões, não pegue nenhum meio de transporte que exija seu nome verdadeiro. — Ele começou a explicar rápido demais, enquanto fechava os dedos de Caroline contra a chave.

— Scott, eu não... — Ela tentou argumentar, mas foi interrompida.

— Não fala nada. Só me escuta. — Ele fez com que o olhar deles se encontrassem novamente. — Pega isso, pega o dinheiro e sua filha e saía do país. Não conte pra mais ninguém, nem para o seu ex-marido, principalmente para ele, ele vai ficar bem se não souber de nada, é você quem precisa se proteger. Quanto mais pessoas se envolverem nisso pior pode ser. Se você realmente ama sua filha vá agora. E não fale com ninguém.

Sabia que podia pedir que Caroline contasse para alguém sobre Makayla, para Brooks por exemplo, que com certeza contaria para Bucky. Porém isso parecia a decisão totalmente errada no momento, uma informação como aquela colocaria a Doutora ainda mais em risco, além disso Bucky não pensaria com frieza, ele atacaria a Forja com tudo que tinha, e isso podia ser o último prego que faltava no caixão de Makayla...

Afinal era Emma Kennedy no comando de tudo aquilo, era altamente provável que ela matasse a própria filha apenas para que a garota nunca fosse feliz com o homem que amava.

— Isso é sério, não é? — Caroline Hills questionou assustada.

— Muito, e quanto mais você ou qualquer pessoa souber pior vai ser. — Feltz reforçou convicto.

Ele deu a ela três segundos para processar aquela loucura frenética, viu os olhos escuros da doutora se moverem de um lado para o outro como se ela pensasse rápido.

— Então vem comigo... — Caroline disse enfim e aquilo pegou Feltz totalmente de surpresa. — Se o que está acontecendo aqui é realmente tão perigoso, então você não pode ficar. Vem comigo.

Naquele curto instante a mente do Agente voou por esse futuro hipotético onde ele aceitaria esse convite, uma vida que não era solitária, uma em que ele se dedicaria a proteger uma família. Uma família que ele nunca teve. No entanto Feltz sabia muito bem que eles nunca teriam paz ou segurança se fugissem juntos.

O último homem que havia traído Emma Kennedy tivera um destino horrível afinal...

Aquela mulher perversa nunca admitiria qualquer situação em que ela saísse como perdedora, mesmo que fosse um amante com quem ela nunca se importou de verdade, Emma tomaria a traição de Feltz como algo pessoal, e ela os caçaria até o inferno se fosse necessário e machucaria qualquer um no caminho para isso, incluindo crianças.

O Agente sabia muito bem que a melhor chance de Caroline e a filha saírem ilesas de tudo aquilo era se elas fossem sozinhas, sem fazer alarde ou levantar suspeitas, enquanto isso ele teria um pequeno tempo de vantagem para agir...

Porque talvez houvesse uma chance, não é? Uma chance de conseguir o que nunca achou que fosse querer. Uma família.

— Eu queria isso. Mas não posso, não agora. — Ele apoiou as mãos nos ombros de Caroline quando decidiu. — Mas eu vou atrás de vocês duas assim que der. Pegue a sua filha e o dinheiro vá. E lembre, não confie ou fale com mais ninguém.

Sim, ele tinha um plano, um que realmente podia mesmo dar certo. No entanto, enquanto Caroline voltava para seu próprio carro, dando-lhe um último olhar de despedida antes de sair, Feltz soube que, mesmo se tudo desse errado, teria valido a pena, pelo menos ela e a filha estariam a salvo.

Com isso em mente, ele cuidou de seu álibi e voltou para a Forja, dando de cara com Emma Kennedy assim que saiu do elevador.

— Agente Feltz, onde estava? — O tom desconfiado podia soar quase como uma ameaça.

— Fui te comprar um presente. — Ele ergueu uma sacola chique contendo uma caixa de chocolates caros que havia comprado antes de voltar para o prédio. Sabia muito bem que seu sumiço repentino não passaria despercebido. — Não tenho sido tão atencioso quanto você merece e acho que precisamos comemorar seu sucesso.

Emma sorriu, amava se bajulada e, por bem ou por mal, Feltz havia construído uma relação inteira apenas bajulando aquela mulher nos últimos anos. Isso tinha que servir de alguma coisa.

Ela pegou a sacola e ajeitou a postura plenamente satisfeita.

— Tem razão hoje é um dia digno de comemorações. — Ela saiu na frente e então abriu uma das portas do longo corredor de laboratórios.

Ali parado no meio do lugar, com uma postura ereta digna de qualquer soldado treinado, apenas aguardando ordens, estava Lemar Hoskins. Vivo.

— Funcionou... — Feltz murmurou em choque, sem saber se devia ficar impressionado ou com medo daquele resultado.

— É claro que sim. — Emma declarou orgulhosa — Hoskins é o primeiro Soldado Perfeito, revivido pelo Resurface, controlado com o composto químico usado nas Viúvas Negras, turbinado pelo soro que coletamos do sangue de John Walker, e com as memórias apagadas pelos mesmos processos usados em Bucky Barnes. Ele tem o melhor de cada programa.

— Parabéns Diretora Kennedy. — O Agente exclamou, porque sabia muito bem que era o certo a dizer naquele momento.

Mas no fundo entendia que uma mulher daquelas com aquele poder em mãos seria tão perigoso quanto os cientistas da Hydra com uma das joias do infinito. Nada bom viria daquilo.

— Agora vou testá-lo em frente a um rosto conhecido... — Emma moveu a mão em uma ordem muda que Hoskins prontamente obedeceu.

Feltz não sabia exatamente como funcionava o tal composto, mas ele imaginava que a quantidade de químicos usadas no cérebro era manipulada para que assim o indivíduo obedecesse a todas as ordens dadas, obviamente havia algum dispositivo que dosava os químicos e que pareava a pessoa controlada e o controlador... Provavelmente a pulseira que Emma estava usando naquele momento.

Outro problema para resolver...

Enquanto Emma e Hoskins seguiam na frente, Scott Feltz fez uma parada estratégica no laboratório de Trask. Evidente que o cientista estaria na sala de monitoramento para ver a interação de Makayla com o velho amigo Lemar, então o Agente teria tempo para o que planejava.

Depois disso só teria que esperar a oportunidade perfeita.

★☆ • ★☆ • ★☆

Ela teve aquele sonho outra vez, com o homem misterioso que beijava seus dedos, mas era impossível enxergar o rosto dele.

Acordou do seu cochilo ainda mais perturbada, naquelas últimas horas sua mente era essa confusão caótica e seu corpo parecia exausto demais para reagir, então Makayla permanecia nesse ciclo de acordar por alguns minutos e acabar dormindo de novo. Dois médicos vieram vê-la nesse meio tempo, um deles, o que tinha os óculos pequenos e redondos, parecia um tanto familiar, porém a jovem não conseguia se lembrar onde o tinha visto...

Odiava essa sensação, a de que algo estava errado, de que tinha uma parte importante faltando e de que estava em perigo constante. Tentava se desfazer disso, dizer a si mesma que era por causa do tal blip, repetir a explicação que sua mãe tinha dado antes, mas isso parecia tão... insuficiente. Errado talvez, de formas que Makayla Devinne não era realmente capaz de explicar.

Uma leve batida na porta fez com que a jovem erguesse a cabeça, levou apenas um segundo para que Emma Kennedy surgisse no batente com um sorriso singelo nos lábios.

— Olá, querida. — Ela deu alguns passos para dentro do quarto. — Como se sente?

— Parece que colocaram meu cérebro no liquidificador e que meu corpo foi atropelado por um caminhão. — Makayla foi morbidamente honesta, mesmo que tenha preferido deixar de lado a confusão mental, a sensação de perigo e a certeza de que tinha algo, ou melhor, alguém, faltando.

— Sempre tão dramática. — Emma se aproximou dela, ajeitando os fios castanhos da jovem, para depois arrumar os travesseiros, fazendo com que Makayla ficasse um pouco mais sentada na cama. Era quase desesperador não ter controle das próprias pernas naquele momento. — Eu te trouxe uma visita. Ele queria te ver há um tempo, mas eu achei melhor esperar até que você estivesse acordada.

— É meu pai? — A jovem questionou, se arrumando o melhor que podia na cama e olhando para a porta em expectativa.

A figura masculina que passou por ali era, com certeza, conhecida, mas não era Danniel Devinne.

— Lemmy! — Makayla exclamou, sentindo uma onda de alivio, surpresa, euforia e felicidade lhe invadir. No entanto tudo isso veio acompanhado também de um forte sentimento de estranheza.

Era quase como se ver Lemar Hoskins ali fosse um tipo de milagre...

— Olá, Makayla. É bom te ver. — Ele sorriu, e disse aquilo com aparente casualidade, mas algo pareceu errado para a jovem que o conhecia por toda uma vida. — Como está se recuperando?

— Estou presa em uma cama, então... — Makayla encolheu os ombros em uma piada que acabou não tendo nenhuma graça.

— Vou deixar vocês conversarem. — Emma declarou, acariciando a filha uma vez mais e saindo em seguida.

Makayla e Lemar ficaram sozinhos. O homem se aproximou da cama, sentando-se na poltrona logo ali ao lado e puxando um assunto qualquer. Ele respondeu cada pergunta com calma, reforçou a versão de Emma, falou da morte dos Vingadores e do mundo naqueles cinco anos...

No decorrer daqueles minutos, embora a conversa fluísse normalmente, Makayla começou a ter essa sensação crescente de que algo definitivamente não estava certo. Não era realmente palpável, mas estava lá, a impressão nítida de estranheza. Talvez fosse os gestos mais contidos de Lemar, a falta do sorriso fácil e das piadinhas, os olhos tão... opacos?

Ou talvez não fosse nada...

Quer dizer, haviam se passado cinco anos, certo? E mesmo antes disso Makayla já não via Lemar por algum tempo. Pessoas mudavam afinal.

Mas será que mudavam tanto?

Além disso havia aquela certeza constante de estar sendo observada, Makayla teve esse instinto estranho de examinar o lugar discretamente com o olhar para ver se não haviam câmeras. O curioso é que ela sabia que jamais pensaria em algo como aquilo, ainda assim, o instinto estava lá junto com esse conhecimento que parecia inédito. Quando tinha realmente aprendido a reconhecer uma câmera escondida se por acaso visse uma?

Aliás, quando se tornara tão atenta a detalhes, para reparar naqueles pormenores tão meticulosos sobre Lemar?

Makayla não se lembrava do momento em que obtivera ou desenvolvera nenhuma daquelas habilidades ou conhecimentos, ainda assim estava tudo ali, em sua mente, lhe fornecendo essa estranha certeza epifânica sobre muitas coisas...

No entanto todos esses pensamentos e divagações ficaram interrompidos quando Emma voltou a entrar no quarto.

— Hey, vocês colocaram a conversa em dia? — Ela perguntou simpática.

— Sim, senhora. — Lemar respondeu, levantando-se de imediato.

Makayla observou a interação dos dois por um instante e teve um pressentimento ruim, que ela não soube decifrar totalmente.

— Agora é melhor você descansar, meu amor. — Emma declarou com um sorriso, enquanto aquele médico familiar de óculos muito redondos entrava no quarto. — Foram muitas emoções para um só dia.

Enquanto o doutor colocava algo na veia de Makayla, ela não teve muito tempo para nada além de se acomodar na cama.

— Mãe, mas e o meu pai? — Perguntou, segurando o braço de Emma que estava prestes a se afastar.

A mulher sorriu, mas por algum motivo pareceu haver algo de um tanto cruel naquela expressão. Todavia Makayla julgou que estava imaginando coisas, porque começou a ficar sonolenta e muito cansada.

— Não se preocupa com isso agora. — Sentiu uma das mãos de Emma arrumarem seu cabelo. — Falaremos sobre seu pai amanhã. — Ela sorriu maternal e dócil. — Não confia em mim?

— É claro que confio. — Makayla falou simples, porque pareciam as palavras certas a serem ditas para uma mãe, no entanto algo dentro de si não compactuava com aquela declaração.

O que tinha de errado afinal?

De toda forma, estava cansada demais para pensar nisso, a última coisa que viu antes de fechar os olhos foi o sorriso totalmente satisfeito de Emma Kennedy. Talvez tivesse dito a coisa certa, sua mãe estava feliz, isso era bom, não é?

Makayla lutou para ficar consciente, mesmo com os olhos fechados, sua mente queria encontrar respostas ainda, mas tudo parecia mais confuso e etéreo conforme a inconsciência tentava consumir todos os seus sentidos.

— Eu te falei que isso não era uma boa ideia... — Ouviu uma voz masculina dizer, mas estava tão longe e abafada que podia ser apenas um sonho estranho.

— Não sei do que você está falando, correu tudo perfeitamente bem, Trask. — O timbre inconfundível de Emma Kennedy veio logo depois.

— Você mesma viu! — O primeiro homem, que provavelmente era o tal Trask, protestou. — Ela ficou muito desconfiada do seu Soldado, estava bem claro na postura dela.

Mas quem era essa “ela”?

— Kayla sempre foi uma garota estranha, não sei do que está falando. — Emma rebateu e Makayla soube que estavam falando de si, porém essa certeza parecia tão frágil e confusa, que ela julgou estar em um sonho sem sentido. — Mas se está tão preocupado podemos fazê-la passar pelo procedimento do Karpov de novo.

— É claro que não. É perigoso. — Trask parecia irritado, algo no sotaque dele pareceu familiar, mas a jovem não conseguiu dizer o motivo disso. — Você tem apenas mais uma chance quando ela acordar, se não der certo eu vou sedá-la de forma permanente, nem que eu tenha que convocar os outros membros para conseguir os votos necessários.

Emma rebateu com algo que não chegou a ser decifrado pela consciência nublada de Makayla, estava cansada demais para permanecer acordada...

Ela caiu, caiu e caiu sem nunca chegar ao chão. Sua queda sem fim levou um tempo não contado, horas, dias? Quem poderia saber. Makayla sentiu o solo sob seus pés em algum momento, mas não o impacto. Então, na escuridão de seus sonhos, ela se viu perseguindo um homem. Algo lhe dizia que era o mesmo homem que beijava suas mãos tão suavemente, ainda assim havia algo de extremamente diferente nele.

Eles estavam em um lugar frio demais e o cheiro de sangue parecia tão real que Makayla chegou mesmo a acreditar que não era um sonho. Era quase como uma memória talvez... Mas ela tinha certeza de nunca ter vivido algo assim.

Um lampejo de claridade tocou as paredes e ela notou que estava em um poço, cercada de cubos de gelo que compunham o lugar inteiro e o interessante é que pareciam haver pequenas imagens dentro deles...

Makayla pensou em dar um passo na direção de um desses cubos para observar melhor, mas a figura masculina entrou na sua frente. Cabelos cumpridos e um corpo cheio de músculos coberto de couro, era impossível ver seus olhos ou seu rosto, porque usava óculos táticos e máscara.

— Acorda! — O homem exigiu e, por mais que Makayla tivesse entendido a palavra, ela percebeu que não tinha sido dita em sua língua e sim em russo. Mas ela não sabia nada de russo.... — Acorda agora!

A jovem abriu os olhos em um rompante, ofegante e suada, com seu coração aos saltos. Foi apenas um sonho...

Respirou fundo, passando a mão no rosto e notando que estava no mesmo quarto de hospital de antes, as janelas fechadas deixavam tudo na penumbra. Devia ser noite. Se preparou para fechar os olhos novamente, quando a luz ao lado de sua cama se acendeu... Um homem a observava sentado na poltrona ali perto, usava roupas totalmente pretas que lembravam um segurança e tinha uma expressão calma.

— Já era hora de você acordar mesmo... — Ele disse quase entediado.

Makayla, depois de passado o susto inicial, teve uma estranha sensação, algo naquele rosto magro e naquela careca parecia familiar.

— Eu te conheço? — Ela perguntou desconfiada.

— Sim. — O homem respondeu de forma simples.

— Eu não me lembro de você. — Makayla rebateu, não se sentia à vontade com aquele cara, todos os seus instintos pareciam em colapso. Realmente não ia com a cara dele. — E não acho que você devia estar aqui.

— Não. Eu não devia. — Ele devolveu calmo, enquanto se colocava de pé. — Mas eu precisava te ver.

— Fica longe de mim. — A jovem advertiu, pronta para gritar se preciso fosse. Não confiava naquele homem.

— Você precisa se lembrar. — O estranho tão familiar decretou, cortando qualquer espaço entre os dois e puxando a mão de Makayla. — E você precisa fazer isso rápido.

Ele colocou na palma dela um pequeno anel. Ou melhor, uma aliança...

— O que é isso? — Perguntou confusa, examinando a peça com atenção.

O anel era extremamente delicado, feito em ouro rosê, com várias pedrinhas de brilhante cravejadas de um lado, e, quando visto do ângulo certo formava um símbolo do infinito. Era lindo.

— O homem que você ama comprou para te dar no dia que você morreu. — O estranho revelou, mas aquelas palavras não fizeram sentido algum.

— O que? — Makayla quase riu daquela bizarrice. — Isso não...

Sua frase ficou sem fim quando seus olhos bateram na parte interna do anel, haviam algumas palavras gravadas em russo, língua que a jovem sabia que não conhecia, ainda assim... ela foi capaz de entender perfeitamente o que estava escrito ali.

“Seu toque mudou tudo.”

As sobrancelhas da jovem se franziram, e ela chegou a abrir a boca para perguntar o que aquilo significava, mas ela não precisou, aquelas quatro palavras simples foram como puxar a ponta de um novelo de lã embolado, Makayla lembrou exatamente o motivo de seu toque ter mudado tudo...

Uma esquina qualquer, a buzina de um carro, uma mão firme em seu braço, olhos azuis gélidos. Uma vida inteira de memórias intrusas. Um homem que se tornou seu mundo. Bucky Barnes.

Cada fragmento arrancado dela foi sendo encontrado, lembranças encaixando umas nas outras como um quebra-cabeças perfeito. Como podia ter esquecido?

A sensação de seu cérebro sendo eletrocutado entre lapsos de consciência fez com que ela soubesse a resposta. Não havia esquecido sozinha, alguém tentou apagar sua memória...

Makayla Devinne ergueu a cabeça, os olhos tempestuosos fulminando o homem bem ali na frente.

— Feltz... — Pronunciou o nome como um xingamento, e se suas pernas obedecessem certamente teria levantado daquela cama para socar a fuça do maldito segurança idiota. — Seu filho da puta! O que você fez comigo?!

Ela mal teve tempo de terminar sua frase indignada, antes que sua boca fosse coberta rapidamente pela mão do homem.

— Fala baixo. — Feltz ordenou, ignorando os socos que recebia por causa da proximidade. — Está de madrugada e não tem ninguém na sala de monitoramento, mas não significa que seja seguro.

Makayla parou por um instante. Aquele idiota era um grande babaca, mas de alguma forma ele tinha ajudado, não é? Essa constatação causou certo estranhamento, a jovem não sabia o que estava acontecendo, forçou um pouco a mente e a última lembrança que tinha era de adormecer logo depois de ter uma conversa de partir o coração com Bucky. Depois disso haviam apenas lapsos dos momentos em que foi eletrocutada...

Feltz viu que a jovem ficou quieta e a soltou, enquanto isso os olhos azuis-cinzentos examinaram o lugar em busca de algo conhecido.

— Isso não é um hospital. — Ela presumiu de forma certeira.

— Nós sequestramos você. — Feltz revelou com a naturalidade de quem fala do tempo.

Makayla desejou ter uma faca pra jogar bem no meio da cara daquele maldito.

— Bucky vai me achar e vai arrancar as suas mãos por isso. — Praticamente cuspiu a ameaça.

Não sabia onde estava, nem por que tinha sido sequestrada, mas isso pouco importava naquele instante. Bucky a encontraria, Makayla tinha certeza disso.

— Não duvido que ele faria isso. — Feltz concordou com um dar de ombros, nada abalado com a ameaça. — Mas ele não vai te achar, porque ele não está te procurando. Ele acha que você está morta, Kayla.

Aquelas palavras atingiram a jovem de modo angustiante e desesperador, não por causa da percepção de que não havia ninguém lhe procurando, e sim porque, se havia morrido, então Bucky havia sofrido essa perda.

E Makayla não conseguia sequer imaginar como ele suportaria uma dor dessas. Seus olhos encheram de lágrimas... e se algo tivesse acontecido?

— O que você fez seu monstro?! — Seu descontrole fez com que sua boca fosse tampada de novo.

— Eu fiz apenas o que sua mãe ordenou. — Feltz respondeu com uma calma que era irritante.

Makayla quis morder a mão daquele cretino maldito, porém, assim que se calou ele a soltou e deu um passo para trás. Era meio evidente que não estava tentando machucá-la, mesmo assim a jovem não estava disposta a baixar a guarda.

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Sua mente trabalhava depressa, correndo por todas as perguntas sem respostas, como se estivesse perdida em um labirinto, Emma tinha feito aquilo, ela tinha sido capaz de sequestrar e forjar a morte da garota que ela própria havia criado como filha pelos últimos vinte anos.

Makayla era um misto de revolta, incredulidade e decepção. Em Riga, havia entendido que sua mãe não era digna de confiança, mas no fundo sempre teve esperanças que a mulher caísse em si e se redimisse. Porque pessoas mereciam segundas chances e podiam melhorar, evoluir, mudar. Mas aquilo...

Aquilo provava que Emma Kennedy era uma sociopata.

Não havia justificativa para toda aquela merda, não havia como se redimir depois disso. Sua mãe era o inimigo.

Makayla sentiu a dor daquela certeza lhe atingir como um golpe letal, nunca perdoaria aquilo. De repente, enquanto revivia suas últimas interações com a mulher que havia amado por toda a vida, passando por todas as mentiras ridículas das últimas horas, a jovem se deu conta de algo...

— Espera... O Lemar está aqui. — Ela não pôde evitar sorrir com essa constatação. — Ele está vivo. Vocês forjaram a morte dele também?

Parecia terrível que Hoskins fosse um refém assim como Makayla, porém ele estava vivo e isso era, de uma forma ou de outra, uma boa notícia, certo?

— Não. Ele morreu mesmo em Riga. — Feltz explicou, sentando-se novamente na poltrona perto da cama. — Trouxemos ele pra cá porque havia um projeto para reviver pessoas.

— Isso é impossível. — Makayla descartou aquela informação absurda. Pessoas não podiam voltar a vida. Morto era morto. Fim.

— Você o viu com seus próprios olhos, não foi? — O homem devolveu sem grande comoção. — Ele foi revivido, mas teve a mente apagada, como você, e está sendo controlado, além disso, recebeu um protótipo do supersoro extraído de John Walker.

— Walker está envolvido nisso? — A indignação da jovem era perceptível.

— Claro que não, sua mãe nunca confiaria segredo algum ao idiota do Walker. — Feltz rebateu com um gesto displicente da mão esquerda.

Makayla respirou fundo, pelo menos John não estava compactuando com toda aquela merda. Ele continuava sendo apenas o boboca presunçoso e metido de sempre. Graças a Deus.

Ela parou um instante para examinar o homem que um dia foi seu segurança. Não fazia sentido que ele estivesse dizendo todas aquelas coisas por nada.

— O que você quer de mim, seu psicopata de merda? — Perguntou desconfiada, mas dessa vez manteve o tom baixo.

— Eu? Nada. — Feltz moveu os ombros casualmente. — Sua mãe e outros que comandam esse lugar no entanto... eles acham que você a chave de algum mistério e vão te usar pra conseguir respostas. Você e seu bebê.

Makayla levou a mão ao ventre, um sorriso mínimo surgindo em seus lábios.

— Ele ainda está vivo? — Perguntou comovida, depois de um sequestro, uma morte forjada e lavagem cerebral isso soava como um milagre...

— Ele está vivo porque para as pessoas no comando desse lugar isso é uma prioridade. — A resposta fez com que Makayla erguesse a cabeça.

Precisava focar no perigo ao seu redor e achar um jeito de se manter segura, ela e o bebê dos sonhos em seu ventre.

— Quem são “essas pessoas” e por que você está me contanto tudo isso? — Foi direto ao ponto, quanto mais rápido tivesse respostas e bolasse um plano, melhor seria.

— Longa história, não temos tempo pra isso. Logo vai amanhecer e alguém vai vir para a sala de monitoramento. E eu não posso ser visto aqui com você. — Feltz se colocou de pé, tirando do bolso uma seringa cheia de um liquido púrpura. — Mas eu te trouxe mais uma coisa.

Entregou o objeto na mão da jovem.

— O que é isso? — Ela questionou em um misto de desconfiança e interesse.

— É uma cura, ou algo assim, um dos cientistas daqui desenvolveu. É um contra-soro, na verdade, aparentemente a merda que você tomou para se livrar dos seus poderes está matando você, isso vai destruir os vestígios da porcaria toda no seu corpo. O tal tumor some e seu cérebro vai voltar ao normal, incluindo os movimentos que você perdeu, e seu bebê não vai sofrer consequências, porque é tudo feito a partir de material genético. — Feltz revelou e seu tom tenso não combinava com o otimismo e esperança pintado por suas palavras. — Mas os seus poderes vão voltar também.

Makayla encarou a seringa e tentou processar todas aquelas informações novas e a situação em que estava. E se fosse uma armadilha?

— Eu nunca tive poder nenhum. — Ela não deu o braço a torcer.

Talvez só quisessem saber a verdade... Se bem que se haviam cientistas envolvidos naquela merda toda, provavelmente eles já sabiam tudo que precisavam...

— E eu nunca estive nesse quarto. — Feltz deu de ombro, sem se preocupar com a mentira ou com a desconfiança evidente da jovem.

Deu as costas, seguindo para a saída e deixando Makayla com a seringa.

— Por que eu devia confiar em você? — Ela perguntou para detê-lo. — Você é um cretino, chato, que tá transando com a minha mãe e me sequestrou, pelo que eu sei. Nós não somos amigos. Eu te odeio.

Feltz voltou um passo, era um tanto irritante que ele parecesse sempre no controle, sempre calmo, como se nada o atingisse realmente.

— Eu fiz todas essas merdas aí que você falou mesmo, e com certeza não somos amigos, mas eu não vim te dar uma pulseirinha da amizade, menina, eu te dei uma chance. — Moveu os ombros em displicência. — Confie em mim ou não confie em mim, não faz diferença, pelo menos eu fiz minha parte. — Encarou a jovem por alguns instantes e completou: — E só pra constar, eu não gosto muito de você também, se quer saber, mas acho que o seu bebê devia ter uma chance de não crescer em um lugar como esse. Faça o que achar melhor, mas faça logo, porque você vai voltar a ser monitorada em breve.

E então saiu, simples assim, sem dizer mais nada, mesmo que Makayla ainda precisasse de muitas respostas.

— Hey, volta aqui! — A jovem gritou de forma sussurrada. — Feltz!

Ele não voltou. Makayla estava sozinha, sem respostas, com um contra-soro que supostamente seria a solução de metade dos problemas dela. Podia ser mentira, verdade, mas e se não fosse?

E se aquele líquido púrpura realmente pudesse acabar com o tumor sem machucar o bebê dos sonhos? Makayla encarou a seringa.... Se fosse verdade ela teria tempo para ser mãe, teria uma segunda chance.

E teria os malditos poderes de volta.

Parecia até ironia cósmica, se meteu com um cientista louco pra acabar com habilidades e teria que se submeter a outro soro de cientista louco, pra no fim ter aquela porcaria de volta...

E se fosse esse o objetivo de Emma? E se ela, ou as outras pessoas envolvidas, quisessem usar aqueles poderes de alguma forma?

E se não tivesse mais bebê nenhum e o objetivo fosse apenas usar aquelas habilidades como arma?

Com um toque Makayla seria capaz de descobrir qualquer segredo... Isso certamente era útil na área política.

Respirou fundo, frustrada, assustada, irritada e confusa. Sequestrada pela terceira vez... Um novo padrão de merda.

Escondeu a seringa embaixo do lençol que cobria seu corpo, encarando a outra mão, onde repousava o anel. Não havia dúvidas que aquilo era de Bucky, a gravação em russo e as palavras especificas eram prova o bastante. E só então Makayla se deu conta...

Bucky Barnes havia comprado uma aliança pra ela.

Seus olhos encheram de lágrimas quando notou que aquilo também era um presente de aniversário. Ela sorriu, encaixando o anel no dedo apropriado e respirando fundo, tinha que voltar para o homem que amava. Independente do custo ou do sacrifício, não importa quem teria que enfrentar pelo caminho...

Respirou fundo e segurou o ar, fechando a mão direita em torno da seringa e procurando uma veia. Se pretendia fugir precisava do movimento das pernas e, no fim, talvez aqueles poderes fossem úteis para obter algumas respostas.

— Nós vamos sair daqui, Bebê dos Sonhos. Eu prometo. — Murmurou baixinho, acariciando o ventre antes de colocar a agulha na veia e pressionar a seringa.

Era isso. Tudo ou nada. Seja o que fosse ela teria que enfrentar.

Esperou pelo ardor nas veias, pela dor de cabeça angustiante e pelo descontrole usual quando sua mente vagasse longe, afinal era isso que havia acontecido das últimas duas vezes...

Só que daquela vez não aconteceu nada.

Sim, havia dor de cabeça, mas era a mesma que estava acompanhando Makayla há dias, fora isso nada diferente.

Talvez não tivesse funcionado... Cientista incompetente. Ou vai ver o maldito liquido púrpura servisse para outra coisa. Que merda.

Por outro lado, podia ser diferente, afinal, o soro em duas etapas criados por Nagel era feito de compostos sintéticos, drogas basicamente, e Feltz havia dito que esse contra-soro era feito de material genético. Além disso um queria erradicar os poderes dela e outro, supostamente, estava trabalhando na cura.

Talvez fosse uma questão de tempo...

Makayla esperou então, pouco esperançosa que desse certo, mas atenta a qualquer movimento, enquanto ainda se portava como se não soubesse de nada, afinal se estava sendo monitorada, então melhor manter as aparências.

Ainda tinha que fugir dali e o elemento surpresa era vantagem.

Foi um certo alivio notar que as memórias e treinamento do Soldado Invernal ainda estavam lá em sua mente, afinal aquele era o tipo de conhecimento que seria muito útil.

Ter o movimento das pernas de volta também seria...

Makayla focou nos dedos dos pés, tentando a todo custo movê-los sutilmente por baixo da coberta. Em um primeiro momento absolutamente nada aconteceu, mas ela estava presa naquele maldito quarto, sem ter nada mais para fazer a não ser fingir inocência e ingenuidade, então obviamente teve um bom tempo para focar apenas nessa tarefa.

Não soube ao certo quanto demorou, mas teve certeza absoluta que, em certo momento, um de seus dedos respondeu aos comandos de seu cérebro. Makayla tentou não esboçar reação alguma, afinal euforia ou felicidade excessiva seriam suspeitas. Mas ela tinha certeza que era capaz de sentir os lençóis agora e isso era um avanço.

Talvez estivesse funcionando.

Tinha que estar.

Estava concentrada em mexer o outro pé quando a porta se abriu e a figura odiosa de Emma Kennedy surgiu com um sorriso amigável.

— Já acordou, meu amor? Que bom, é sinal que está melhorando. — A mulher foi se aproximando e Makayla conteve qualquer reação impulsiva, tentando passar a imagem de uma boa filha. — Te trouxe uma visita...

Ela estava muito perto agora, provavelmente no intuito de arrumar o travesseiro e postura da jovem. Makayla pensou se suas pernas obedeceriam, caso ela enfiasse a agulha escondida debaixo dos lençóis em Emma para então correr, porém esse plano tolo ficou perdido em sua memória assim que uma figura masculina passou pela porta.

A jovem congelou com o choque. Haviam poucas coisas diferentes, como o cabelo mais grisalho e mal cortado, a barba por fazer, a palidez preocupante, o rosto muito mais magro e a expressão sofrida, mas ainda assim era ele, com os mesmos olhos azuis-cinzentos, que continham um mundo inteiro de força.

— Pai... — Makayla balbuciou em um misto indecifrável de emoções.

Danniel Devinne estava bem ali, andando em sua direção. Vivo.

— Minha filha... — Ele respondeu com comoção evidente na voz.

Como? Por quê?

A mente de Makayla se dividiu em um milhão de perguntas e no mesmo instante ela soube que havia alguém ali com todas as respostas. Seus olhos focaram em Emma Kennedy, frios, decididos, implacáveis. Sem hesitar ela agarrou o braço da mulher.

Era hora de testar a eficiência daquele maldito contra-soro.

Era hora de conseguir respostas...

★☆ • ★☆ • ★☆

Bucky Barnes abriu os olhos em um rompante, seu corpo suado e sua respiração fora do ritmo. Estava acostumado com pesadelos, principalmente naqueles últimos dias quando isso havia se tornado uma tortura frequente em suas madrugadas.

Sempre, ou melhor, nas noites em que de fato era capaz de dormir, acabava acordando apavorado, algumas vezes gritando. O que era péssimo, considerando que ainda era um convidado na casa dos Wilson...

Odiava aqueles malditos pesadelos, pensou que os antigos eram cruéis, aqueles com a Hydra e com tudo de terrível que fizera como o Soldado Invernal, no entanto, seus novos pesadelos eram sempre os mesmos, reproduziam terrores muito recentes.

Ele sempre perdia a mulher que amava em todos eles...

Porém, naquele em particular, o que acordou Bucky Barnes não foi o pavor de um pesadelo cruel, foi algo muito diferente disso, uma certeza convicta.

Ele não sabia de onde tinha vindo, ele não tinha uma explicação lógica para isso, mas essa certeza estava lá, dentro dele, crescendo forte e contra todas as probabilidades, exatamente como o sentimento que havia brotado dentro dele quando conheceu uma certa garota de olhos tempestuosos.

Era algo inexplicável, mas ainda intenso e palpável.

Bucky Barnes sabia.

Tinha certeza absoluta. Sem qualquer fagulha de dúvida.

Makayla Devinne estava viva.

Notas finais
Bucky acordando do nada com a certeza que a Makayla tá vida bem no dia que ela "supostamente" recuperou os poderes... Será que é coincidência? E teve de um tudo no capitulo, Feltz virando a casaca, teorias sobre Cameron e Danniel sendo confirmadas, Lemar de volta (eu dei muitos sinais vai kkkkk), enfim será que a gente vai ter uma "grande epifania" no próximo pra explicar tudo que rolou? E, o mais importante, quando e como Buckayla vai se encontrar de novo? (se é que eles vão, mas enfim...) Três capítulos para o final, muita coisa pra resolver.. Será que vai dar tempo? Eu queria muito muito voltar com o próximo dia 30, mas como eu disse lá em cima minha vida tá de ponta cabeça com problemas de família, então é tudo meio incerto, a única coisa que posso dizer é que, mesmo que demore, assim que for possível eu volto. Beijos e até!