Sweet Epiphany
27 The Great Trap
Notas iniciais

— Isso é loucura! — Sam declarou, enquanto andava apressadamente atrás de Bucky Barnes.
— Pode parecer, mas eu não me importo. — A resposta veio direta, a alça da mochila sobre o ombro e os passos certeiros em direção a porta de saída.
Havia falado com Wilson sobre sua indubitável certeza, mas o amigo não estava tão convicto assim. Ele não entendia.
— Bucky... — Sam atravessou a frente do outro com as mãos espalmadas pedindo calma. — Espera um pouco, vamos pensar racionalmente sobre isso por um instantinho só, certo?
Barnes parou, mesmo que a contragosto, o peso do corpo apoiado em um dos pés e a mão direita correndo sobre o rosto em um gesto que acompanhava sua respiração frustrada.
— Olha, eu entendo que você não acredita, e tudo bem, Sam. — Começou, tentando argumentar de forma menos insana e impulsiva. — Mas o lance entre mim e a Makayla nunca foi racional, desde o começo foi... Inexplicável.
Wilson também respirou fundo, foi visível que estava procurando as palavras certas para dizer o que queria.
— E talvez, você queira achar formas inexplicáveis de aplacar sua dor, já pensou nisso? — Devolveu direto, mas apaziguador.
Bucky respirou profundamente, deixando que o ar saísse de seus pulmões de uma só vez.
— Já, e eu admito que estava fazendo isso. — Respondeu neutro. — Quer dizer, nesses últimos dias eu pensei em recorrer a magia, joias do infinito e viagem no tempo para trazer Makayla de volta, só Deus sabe quantas vezes eu cogitei ir procurar a Wanda, o Doutor Estranho ou o Hulk e...
— “Só Deus sabe”, não, eu também sei, você falou pra mim todas as vezes. — Sam completou antes que Barnes pudesse terminar.
Era verdade, naqueles últimos dias, enquanto Bucky mergulhava nos estágios menos saudáveis do luto e tentava encontrar barganhas mirabolantes no meio de sua negação, era sempre Sam Wilson lá com uma palavra amiga, um argumento sensato ou apenas uma companhia silenciosa. Barnes sabia muito bem que se não fosse isso ele jamais teria conseguido se manter firme no propósito de cumprir a promessa que fizera a Makayla...
— E eu deixei você me dissuadir todas as vezes porque sabia que você estava certo, morto é morto, mas agora eu sei que a Makayla não está morta. — Dessa vez foi Bucky quem tentou um argumento sensato, no entanto ele nunca chegaria aos pés de Sam nesse sentido, estava bem claro.
— Mas você não consegue explicar como sabe... — Wilson completou, respirando fundo e se encostando em um dos móveis.
— Não... — Barnes respondeu, parado no mesmo lugar.
— Olha, Buck... — Sam gesticulou de forma calma e seu tom assumiu notas cautelosas. — Você segurou o corpo dela, teve um velório e a gente espalhou as cinzas, eu... eu não vejo como...
— Eu sei, Sam. — Bucky cortou, tentando afastar de sua mente aquelas imagens de puro sofrimento. — Eu sei de tudo isso muito bem, mas eu também sei que ela está viva. — Queria que houvessem palavras suficientes para explicar aquele sentimento tão intenso e convicto, mas preferiu focar em possibilidades mais criveis do que em algo tão imaterial. — Talvez tenha sido aquela mulher do CRG, pensando agora em retrospecto ela estava muito estranha o tempo todo.
Sam franziu as sobrancelhas, mas acabou negando algumas vezes de forma incrédula antes de retrucar:
— Então você acha que Emma Kennedy mentiu pra todo mundo e sequestrou a Makayla depois de forjar a morte dela?
— É tão difícil assim de acreditar? — Bucky devolveu acusatório. — Ela mentiu pra você, sobre o escudo, não foi?
— Eu não sou filho dela. — Wilson contra-argumentou como se isso fosse o fato que mudava tudo.
— Nem a Makayla. — Barnes completou sério e quase mórbido.
— Bucky, isso é... — Sam não terminou, respirou fundo como se não encontrasse as palavras, era visível o quanto aquela possibilidade o desestabilizava e horrorizava ao mesmo tempo.
— Olha, eu entendo que você não acredita que alguém seja capaz de fazer mal a própria família, mesmo que não tenha o mesmo sangue envolvido. Você é um bom homem, Sam, você nunca faria algo assim. Mas bons homens raramente cogitam todas as atrocidades que um ser humano pode executar. — Bucky argumentou de forma neutra. — Mas eu já vi muitas dessas atrocidades de perto, então...
Ele não confiava em Emma Kennedy, quanto mais repassava na mente as horas que cercavam a morte de Makayla mais estranha a Diretora do CRG parecia. Se não estivesse tão devastado naquele momento, talvez tivesse percebido logo de cara que podia ter algo errado.
— Eu vou com você então. — Sam decidiu, se afastando do móvel e dando um passo na direção de Bucky.
— Não. Eu vou sozinho. — A resposta veio firme. — Você precisa ficar aqui, terminando seu treinamento e monitorando a Karli, além disso, eu vou ter que fazer trabalho de espionagem. Se algo der errado e eu me encrencar com o governo por estar fuçando onde não devo, isso não pode ter seu envolvimento. As pessoas precisam de você, se eu acabar preso tudo bem, mas não quero que isso te ferre.
Sam estava treinando mais que nunca para finalmente empunhar o Escudo e o manto de Capitão América, tirá-lo daquele caminho naquele instante era errado, Bucky tinha que fazer aquilo sozinho.
— Isso é estupidez e um péssimo plano. — Wilson rebateu como se fosse a coisa mais óbvia de todo o universo.
— Talvez, mas pelo menos eu tenho um plano e estou compartilhando com você. — Bucky devolveu em um tom claro de deboche, que fazia referência a primeira missão dos dois sozinhos, semanas antes.
Os dois se encararam por alguns instantes, e Wilson terminou por revirar os olhos de forma contrariada.
— Eu tenho que fazer isso sozinho, Sam. Eu prometi que não faria nada impensado com a minha vida, mas também prometi que sempre encontraria a Makayla caso a gente se separasse por qualquer motivo. — Bucky explicou calmamente, citando a conversa de Riga, que tinha outro contexto, mas ainda era verídica.
— Meu Deus vocês e essas promessas... É por isso que não invisto em uma namorada. — Sam rebateu divertido, mas então focou em Barnes de forma tensa. — Se alguma coisa acontecer...
— Eu vou te ligar, prometo, se eu descobri que ela está mesmo viva você vai ser o primeiro a saber. — Bucky garantiu. — Afinal se eu tiver que resgatá-la de algum lugar, vai ser útil ter a ajuda do Capitão América.
Sam apenas riu de canto e bateu amigavelmente no ombro de Barnes.
— Boa sorte, Buck. — Desejou com sinceridade evidente.
O ex-sargento assentiu, caminhando para a saída com uma mochila nas costas.
Pitico estava no quintal, correndo atrás dos sobrinhos de Sam enquanto as crianças riam em alto e bom som, aqueles momentos eram os únicos em que o cãozinho parecia menos ansioso ou inquieto. Desde o enterro de Makayla Pitico estava impaciente, como se houvesse algo que Bucky precisava descobrir, talvez o cachorro soubesse desde o começo.
— Cuida do Pitico pra mim. — Pediu para Sam, no momento em que os dois caminhavam pelo gramado juntos.
— Pode deixar. — Wilson garantiu enquanto se despediam.
E então Bucky partiu, não tinha um plano em mente ainda, mas sabia muito que tinha que começar por Nova York, quem sabe pelo CRG...
★☆ • ★☆ • ★☆
Makayla havia colocado todas as suas esperanças em um pequeno toque, parecia tolo e irrisório, era até inocente de certa forma, afinal um único toque não resolveria todos os seus problemas... Evidente que não. Mas ela pensou exatamente isso quando segurou o braço de Emma Kennedy, esperando que o soro estranho dado por Feltz tivesse funcionado.
Que bobagem, devia saber que aquele seria apenas o começo dos problemas...
Ela ainda se lembrava da sensação estranha de ter sua cabeça invadida por imagens intrusas, do queimar incômodo em sua mente, da dor nas têmporas, e naquele instante a ausência desses sintomas fez com que a jovem quase acreditasse que o tal soro era inútil.
Mas isso não durou, logo a dor veio acompanhada de uma cacofonia de imagens que passavam rápido demais. Realmente havia funcionado. Makayla tinha suas habilidades de volta...
Demorou alguns segundos para entender e decifrar o que acontecia ao seu redor, a mente de Emma parecia uma velha sala de arquivo e, embora Makayla quisesse caminhar ali e procurar por todas as respostas que desejava, isso não era tão simples.
Era como se houvesse uma ventania invisível soprando sobre ela arquivos de memórias diversas das quais ela não podia escapar, por mais que se esforçasse para focar no que precisava saber, a mente de Emma estava empenhada em lhe mostrar outros tipos de coisa. Era como se houvesse um sistema de segurança ou algo assim...
Com Bucky tinha sido fácil e natural, com Emma parecia uma guerra.
Dentre a sucessão de lembranças não requisitadas que voavam em seu rosto, Makayla tentou captar informações que lhe eram relevantes, não sabia exatamente o que estava buscando, mas seu desejo principal era entender como seu pai estava bem ali vivo.
Com algumas das memórias que lhe atingiam a jovem conseguiu descobrir que estava abaixo do prédio central do CRG, que sua morte havia sido forjada usando a mesma droga que o próprio Nicky Fury tinha usado uma vez. Tudo isso era por causa de um tal “Objeto Z”, uma cabeça gigante e robótica que tinha sido encontrada nos arredores da Suíça, perto da mesma cabana onde Makayla tanto gostava de ir com a família. O único lugar que ela realmente chamava de lar.
Havia uma organização secreta inteira formada ao redor desse tal Objeto Z; políticos, magnatas, cientistas... Gente com grande poder e conhecimento, que estava empenhada em descobrir de onde viera o OZ e para quê ele servia.
Emma era a líder, mas para ela sempre foi mais que uma simples descoberta, era pessoal, porque o Objeto parecia de alguma forma conectado a Elizabeth Braddock, a mãe de Makayla, a mulher que a Diretora Kennedy sabia muito bem que Danniel havia amado mais do que um dia seria capaz de amá-la.
Será que era tudo por ciúme e despeito?
Makayla descobriu através de algumas lembranças que a sucessão de coisas horríveis que Emma fizera era de dar nojo, desde guardar o corpo de Cameron da criogenia, usar Lemar como uma cobaia e uma arma, passando por forjar a morte não apenas dela, mas também de Danniel Devinne.
Era por isso que seu pai estava ali...
Emma havia aproveitado que o homem realmente foi para o hospital graças ao acidente de carro pós blip e o sequestrou, não só porque pensava que ele teria informações cruciais sobre o OZ, mas porque ele havia descoberto muitas das coisas horríveis e ilegais que ela fazia com a tal Orquídea e estava disposto a contar tudo em seu programa. Seria um escândalo e o fim da carreira de Emma.
Danniel então foi declarado morto para o mundo, com enterro e certidão de óbito, para desde então ser mantido nesse lugar que Emma chamava de “Forja”, sem sequer saber que Makayla havia voltado do blip ou de qualquer outro fato que se passava do lado de fora... O problema é que ele não tinha absolutamente nenhuma informação sobre o OZ e mal sabia sobre a própria Elizabeth Braddock, não importava quantas vezes ele foi torturado e interrogado em todo aquele tempo, suas respostas nunca mudaram.
Makayla soube que Emma estava usando aquele reencontro de pai e filha como última cartada para tentar extrair algo de Danniel. A mulher havia ameaçado o ex-marido, se ele não cooperasse ela mataria Makayla...
A jovem guardou todas essas lembranças e informações consigo, vasculhando tudo que conseguiu através daquele furacão de lembranças que estava se formando ao seu redor. Queria desvendar os planos de Emma, quem sabe descobrir um trunfo, mas aquilo não parecia disponível nas informações que lhe cercavam. Makayla sabia que havia algo mais, algo escondido nos arquivos mentais, porém o vendaval que jogava todas as lembranças não requisitadas sobre ela a impedia de avançar.
O que mais havia para descobrir? Makayla já estava horrorizada demais com as poucas informações que tinha, era impossível conseguir pensar direito ou focar em atravessar aquela estranha barreira, e de toda forma, o contato foi interrompido pela voz da víbora que um dia havia chamado de mãe...
— Tudo bem, querida?
Emma tinha acabado de dar um passo para trás e Makayla piscou algumas vezes sem qualquer contato com a mente da diretora do CRG.
Em qualquer outra ocasião teria enfrentado aquela mulher horrível e dito todas as verdades na cara dela, assim como fez no hospital em Riga, porém naquele instante Makayla sabia que isso seria inútil, porque enfrentar Emma seria dar a ela informação para agir primeiro. Precisava pegar a Diretora Kennedy de surpresa.
Makayla pensou rápido, sabia que aquele toque repentino podia ser suspeito, então sua desculpa pra isso tinha que ser perfeita. Por sorte era uma ótima mentirosa.
— Está sim, eu só tive a impressão que senti minha perna quando você passou, já estava super empolgada pra falar, só que notei que foi só impressão mesmo, desculpa, mãe. — Disse com decepção na voz.
Doía chamar de “mãe” uma mulher que nunca sequer tinha tentado gostar dela... Makayla entendia isso perfeitamente agora, mesmo sem conseguir acesso a todas as lembranças isso estava claro; desde o começo foi apenas uma ferramenta, usada para salvar um casamento falido, manipulada para ser a filha perfeita de uma madrasta que queria apenas controlar o marido.
Emma Kennedy era uma mulher horrível.
A Diretora do CRG olhou para a garota um tanto desconfiada, mas Makayla manteve a postura normal e ainda completou.
— Acha que podemos chamar o médico para ver isso, não aguento mais ficar nessa cama, odeio hospitais. — Sua reclamação fez Emma relaxar um pouco, mas Makayla fingiu não se importar com isso quando focou em Danniel Devinne. — Oi, pai.
Teve que conter a emoção, afinal, para todos os efeitos ainda estava sem memórias e tinha visto Danniel um pouco antes do blip, expressar a reação de uma filha que vê o pai depois de pensar que ele estava morto seria colocar tudo a perder...
Danniel Devinne por sua vez tinha os olhos marejados, mas seus movimentos eram calculados, Makayla notou que podia sentir a tensão dele emanar pelo quarto, era uma mistura de emoções intensa que ia do ódio ao medo, porém não era um tipo simples de medo, ele temia pela vida da filha.
Makayla notou Lemar parado na porta do quarto, entendia agora porque o amigo parecia tão estranho, isso também ficou claro nas lembranças de Emma; Lemar estava sendo controlado por um tipo de droga biológica que agia no cérebro, algo que os cientistas daquele lugar haviam conseguido dos destroços da sala vermelha, para então aprimorar e reutilizar.
Tudo que a Orquídea possuía era “roubado” de outras organizações, Makayla sabia agora de todos os joguetes de Emma Kennedy para usar a burocracia politica a seu favor. Ela havia descoberto muito, não teve tempo de processar nada, e mesmo assim sentia que não sabia de tudo...
Mas já não era necessário “saber de tudo”, para entender muito bem que Emma tinha usado de meios escusos por toda a vida, ela fazia coisas indefensáveis, brincava com a vida das pessoas.
De toda forma, o fato é que havia um mistério real ali dentro da Orquídea, algo conectado diretamente com aquela estranha cabeça gigante que havia despertado as mais diversas teorias em todos os integrantes da Orquídea.
Alienígenas, viagem no tempo... Algumas hipóteses haviam surgido nas memórias de Emma. Mas qual era a verdade?
Makayla disse a si mesma que ter essas respostas podia ser um trunfo, mesmo que no fundo houvesse um desejo um tanto egoísta por trás disso... Se o Objeto Zero estava mesmo conectado com sua mãe biológica, talvez desvendar esse mistério fosse também lhe dar respostas sobre a própria vida...
Olhou para o pai por alguns instantes e soube que, se havia alguém ali dentro que podia ter alguma resposta mínima, esse alguém devia ser Danniel Devinne.
Em todas as memórias de Emma, ele nunca deu indícios de que sabia de alguma coisa a mais, porém... e se?
Ele seria forte o bastante para resistir por anos guardando aquele segredo?
Makayla o examinou por alguns segundos e sentiu seu coração se partir. A fisionomia abatida deixava bem claro o quanto de sofrimento ele havia suportado durante os anos. A jovem sentiu raiva, desejou que seu poder fosse mais do que entrar na mente alheia através de um toque, quis machucar seus algozes para conseguir fugir dali, porém todos os seus desejos eram inúteis naquele momento, não se sentia descontroladamente poderosa como quando ajudou Bucky e Sam em Madripoor, seja lá o que havia acontecido com suas habilidades naquele dia isso não estava funcionando de novo.
Não podia machucar Emma e seu bondinho do mal, então teria que ser mais inteligente que eles... Mas havia mesmo uma forma de ser mais esperta que uma organização inteira?
O médico entrou na sala, o mesmo homem de óculos redondos que Makayla havia conhecido em Riga e que agora ela sabia que trabalhava para a Orquídea e chamava Bolivar, o mesmo que queria fazer experiencias com o sangue dela e com o Bebê dos Sonhos...
— Melhor vocês saírem, eu vou examinar a Makayla agora e ver se tivemos progresso no quadro dela. — Ele disse profissional, porém havia algo naquele olhar que deixou Makayla em alerta.
E se ele soubesse de algo?
Scott Feltz estava na porta, parado alguns passos atrás de Lemar com uma expressão neutra que oscilou minimamente quando seus olhos pousaram em Makayla. Realmente havia um problema.
Estava sendo monitorada e, a julgar pelas memórias de Emma, a sala ao lado era equipada com tecnologia o bastante para notar qualquer alteração nos sinais vitais de Makayla. Talvez ao usar os poderes ela tenha gerado um tipo de alerta...
O que mais podia ser senão isso?
— Como o senhor achar melhor, doutor. — Emma assentiu cordial, mas seu sorriso foi ensaiado demais para ser natural. — Vamos, querido?
Danniel estava visivelmente desconfortável ali. O que deixava Makayla alerta, com o coração aos saltos, era como se o perigo eminente estivesse eletrocutando cada terminação nervosa dela.
Ele deu um passo para frente e Emma tocou-lhe o ombro como um tipo de aviso mudo.
— Eu vou abraçar minha filha antes de irmos. — Danniel disse, encarando o olhar da ex-mulher de forma firme.
Makayla sentia que toda aquela situação era um simples castelo de cartas prestes a desmoronar. Um movimento errado de qualquer um deles seria o fim, isso porque cada um a seu próprio modo e por sua própria razão ainda estava tentando manter aquele teatro ridículo, quando na verdade tudo que havia de palpável ali era desconfiança.
Porém uma coisa ficou clara quando Emma nada fez ao ver Danniel avançar alguns passos; nem ela, nem o Doutor ali presentes tinham certeza do estado real de Makayla, talvez a jovem ainda tivesse uma chance.
Danniel abraçou a filha e beijou-lhe o topo da cabeça com ternura. Makayla, mesmo sem querer realmente, pairou fora do espaço tempo. Era como se estivesse assistindo as memórias do pai através de uma tela de televisão, sua própria mente agindo como um controle remoto que pulava cenas conforme ela desejava. Ou melhor, atraia as cenas...
Porque de fato não estava procurando por nada, mesmo assim a memória veio até ela: Um bar nos arredores de Sokovia, Makayla sabia que seu pai já estivera em muitas partes do mundo, mas ali tão perto do local que foi destruído por Ultron era uma novidade.
No entanto aquelas certezas epifânicas, que vinham junto com as memórias roubadas, diziam a Makayla que aquilo havia acontecido mais de duas décadas antes de qualquer indicio de Ultron, ou da batalha dos Vingadores naquele país...
Danniel estava ali cobrindo a guerra civil que acontecia em Sokovia, pelo menos era o que ele dizia para as pessoas, no fundo ele estava se mantendo afastado dos problemas de casa; e “problemas” era sinônimo de “Emma”.
Makayla soube que aquela era a época do “tempo” que os dois deram no relacionamento, ao menos era isso que a própria Emma sempre dizia, no entanto, naquele instante assistindo as memórias do pai e tendo para si as mesmas convicções que ele, a jovem perceber que nunca foi apenas um “tempo” para Danniel, ele de fato pediu o divórcio, coisa que Emma estava dificultando de todas as formas, usando inclusive Cameron como trunfo, o garoto era apenas uma criança na época.
Apesar de desvendar mais aquela mentira florida de Emma, Makayla não entendeu exatamente por qual motivo estava vendo aquela memória específica do pai entrando em um bar de Sokovia, não até que ele se sentou em frente ao balcão do lado de uma moça de cabelos negros.
Makayla nunca a tinha visto antes, não havia fotos dela ou qualquer coisa que não tivesse vindo das palavras de Danniel, mesmo assim a jovem soube com toda certeza quem era... Elizabeth Braddock, sua mãe biológica.
Aquele era o momento que seus pais se conheceram.
Naquele instante fora do espaço tempo, Makayla viu a história se desenrolar através das memórias de Danniel; um filme sobre esse casal que se conhece em um local improvável e acabou se apaixonando sem motivo aparente, dois solitários que tinham seus próprios objetivos em um país estranho...
Não que Elizabeth alguma vez tenha dito o que estava fazendo em Sokovia.
Enquanto assistia os pais se apaixonarem e começarem um relacionamento — com Danniel vencendo as muitas barreiras e ressalvas de Elizabeth — Makayla ficou com aquela estranha sensação de que havia algo mais, algo não explicado, um mistério que parecia excluído da narrativa, por vezes ela sentia algo estranho nas memórias, um oscilar inexplicável na imagem.
Quase como estática no meio de um filme... Uma aura púrpura que envolvia sutilmente algumas cenas.
Makayla assistiu a gravidez da mãe naquele ano e descobriu que a cabana na suíça na verdade era um refúgio para seus pais, algo que Danniel comprou para Elizabeth e que sempre irritou Emma Kennedy ao extremo.
Apesar dos problemas com o divórcio que nunca chegou a sair, a vida parecia normal para o recente casal, ainda assim Makayla sentia que haviam coisas não contadas nas cenas, a sensação recorrente é que estava assistindo um filme editado.
A sucessão de memórias levou Makayla direto para um momento específico, sua mãe segurando um bebê recém-nascido. A jovem soube que era o momento de seu nascimento, porém havia algo de estranho ali, a lembrança oscilava, ora mãe e bebê estavam em uma cama de hospital, ora estavam na cama de casal de um quarto na cabana dá suíça...
Como aquilo era possível?
Tudo que Makayla sabia sobre aquele fatídico dia era que havia nascido em um hospital na Florida e que sua mãe estava muito fraca durante o parto, por isso não sobreviveu, no entanto Elizabeth parecia bem, segurando o bebê em seus braços ofegante e suada, mas bem. Apenas seu olhar tinha urgência e um certo ar de medo, como se uma ameaça eminente os rondasse.
Makayla notou que cada vez que a lembrança oscilava do hospital para a cabana isso era causado por um tipo de tremor, quase como se algo enorme estivesse se aproximando e suas passadas provocassem um atrito semelhante a um pequeno terremoto.
O que infernos estava acontecendo?
Ela podia sentir o medo de seu pai vindo da lembrança, embora isso conflitasse com algo na mente de Danniel. Era como se suas memórias estivessem adulteradas.
E apesar de todos os sinais conflitantes, Makayla só conseguia prestar atenção de verdade naquele pequeno momento de Elizabeth com o bebê...
Emma nunca havia olhado para Makayla daquela forma, havia carinho palpável por trás da preocupação latente de Elizabeth, algo quente e reconfortante que a jovem Devinne havia buscado por toda a vida, mesmo sem entender de fato.
Amor materno.
— Eu te amo, meu doce bebêzinho... — Elizabeth Braddock sussurrou, aproximando os lábios da testa de sua filhinha. — E eu vou sempre estar com você, não esqueça disso.
A mulher tocou a testa do bebê com os dedos indicador e anelar e tudo se dissipou em um flash púrpura.
Makayla piscou algumas vezes, sua mente de volta para o tempo presente, seu pai já um passo afastado.
Ao emergir da mente de Daniel haviam muitas dúvidas, algumas surpresas e uma certeza. Ele não sabia de nada sobre o Objeto Zero.
— Acabaram? — Emma perguntou, interrompendo o olhar de pai e filha.
Danniel assentiu, a jovem Devinne recordou com amargor que o homem estava sendo ameaçado, que tinha visto nas lembranças de Emma que ela machucaria Makayla, caso Dan não cooperasse com informações. Informações que ele não tinha...
Sabia que precisava de um plano, e sabia que precisava agir rápido, mas esse pensamento ficou perdido em sua mente quando Emma abriu um sorriso venenoso
— Ótimo! — Ela exclamou satisfeita, tirando uma arma do cós traseiro e apontando... para Danniel?
Com certeza não era o que Makayla esperava, quer dizer, a jovem pensou que ela mesma seria o alvo de qualquer ameaça. Por que a mudança?
— Agora, porque não me dá algumas respostas sobre o que viu na mente de seu pai, querida? — A diretora do CRG sugeriu, destravando a arma e deixando claro que não estava brincando.
O choque completo tomou conta do rosto de Makayla, então Emma já sabia? Havia essa peça que não se encaixava, e mesmo quando encarou Feltz logo atrás de Lemar o homem não parecia ter respostas, na verdade ele também parecia chocado.
— O que infernos você está fazendo, Emma? — Danniel perguntou irritado, mas não se moveu mais quando viu o olhar assustado da filha.
— É quase recompensador ver essa carinha de vocês. — A Diretora Kennedy respondeu satisfeita.
Makayla tentou se recompor, nas memórias que tinha visto as coisas pareciam estar caminhando para outro ponto. Pelo visto até isso Emma tinha conseguido esconder, mas como?
— É tudo uma armadilha... — A jovem declarou em voz alta, ainda sem saber como reagiria a tudo isso.
Tinha uma arma na cabeça de seu pai afinal e ela não podia perdê-lo outra vez.
— Eu sou muito mais esperta do que você imagina, Kayla. — Emma se gabou, dando alguns passos e encurralando Danniel em um dos cantos usando a arma como vantagem. — Estou sempre dez passos a frente. — Os olhos da mulher seguiram para Feltz de um jeito ameaçador. — De todo mundo.
Prevendo o perigo o segurança tentou reagir para escapar, mas logo foi imobilizado por Lemar. Como se tudo estivesse planejado desde o começo.
— Achou mesmo que daria aquele antídoto para ela sem que eu soubesse? — Emma perguntou exibindo um sorriso superior. Ela já sabia de tudo. — Na verdade, você achou mesmo que eu seria traída por um idiota como você?
Feltz tentou falar alguma coisa, mas a Diretora Kennedy não permitiu.
— Você não podia fazer seu trabalho sem se apaixonar pela linda Doutora Hills, não é? — Ela acusou e por trás de todo veneno e superioridade Makayla conseguia notar muito bem um certo despeito e ciúme.
No entanto não foi naquilo que a jovem Devinne focou e sim no sobrenome conhecido. Hills? Como Caroline Hills a ex-mulher do Doutor Brooks? Não podia ser. Podia?
— Sabe, de primeiro eu recrutei a moça para a Orquídea por sua causa. — Emma apontou para Makayla com a mão livre. — Seria um plano B contra aquelas suas ameaças infantis de Riga, e caso você descobrisse o que fiz com seu pai. Eu não podia arriscar que desse com a língua nos dentes, então recrutei a esposa do seu terapeuta e forjei documentos que colocam sobre ela a culpa de tudo que acontece por aqui. — Ela moveu os ombros como se fosse a coisa mais simples de todas. — Eu sei que você tem essa mania de proteger as pessoas, não abriria sua boquinha grande para o mundo se houvesse alguém conhecido correndo risco. Você não deixaria a mulher do seu terapeuta ir presa por crimes contra o país, não deixaria uma garotinha crescer sem mãe.
Makayla não conseguia acreditar naquelas palavras ditas de modo tão leviano, Emma havia puxado uma pessoa inocente para aquela bagunça toda apenas por vingança e maldade. Até onde aquela mulher estava disposta a ir?
A jovem ainda estava confusa por não ter visto nada daquilo na mente de Emma, e até chegou a cogitar ser apenas um blefe, mas a verdade é que naquele ponto já não duvidava mais que a mulher que chamou a vida toda de mãe fosse capaz de todo tipo de atrocidade...
— Claro que depois que eu tive acesso a você diretamente, esse plano se tornou obsoleto, e enquanto isso o idiota ali já tinha se envolvido demais. — Emma continuou contando e era evidente sua irritação. — Resolvi usar isso a meu favor então, deixei que ele bancasse o salvador da pátria, tanto da doutorazinha, quanto seu. Mas a verdade é que você só tomou aquele antídoto porque eu queria assim. Você pode ser a chave para todas as respostas que buscamos.
Era tudo uma grande armadilha...
Ainda não havia respostas sobre como Emma havia escondido isso quando Makayla leu a mente dela, mas já estava bem claro que não existia chances de fuga desde o começo.
Makayla se sentiu apenas um ratinho de laboratório, correndo desesperadamente por um labirinto que nunca teve saída. Correndo? Não, nem isso ela poderia fazer se quisesse, pois mesmo depois da tal cura, o movimento de suas pernas não havia voltado.
— Vocês estão trabalhando juntos... — Feltz pareceu fazer uma conta muito difícil quando apontou de Emma para Bolivar Trask.
— Claro que sim, temos objetivos em comum... — O homem de óculos redondos respondeu com um dar de ombros.
— Descobrir sobre o Objeto Z. — Foi Makayla quem terminou aquela frase, isso era algo bem claro na mente de Emma, era tudo sobre o tal OZ. O que a tal cabeça gigante teria de tão especial assim?
— Eu já disse que não sei nada sobre isso! — Danniel declarou, quando notou qual era o intuito daquela armadilha.
Ele estava cansado, isso ficava claro em sua fisionomia, e Makayla entendia bem, porque afinal também estava, a sensação de que não havia saída, de que tudo que planejasse seria em vão contra Emma era desanimadora. A diferença é que seu pai estava vivendo isso há mais de cinco anos...
— Eu não acredito em você. — A diretora do CRG deu de ombros ao ouvir o ex-marido. — Mas acredito que você realmente não diria nada, mesmo que soubesse, por isso mudei minha estratégia. Nada como uma monstrinha telepata pra descobrir segredos.
Makayla nem se deu ao trabalho de responder aos insultos, no fundo sempre soube que Emma a veria como uma aberração se soubesse daquelas habilidades.
— O único monstro que eu estou vendo aqui é você! — Danniel retrucou de queixo erguido, e o olhar de Emma oscilou de pura raiva.
— O que você fez com a Caroline? — Feltz interrompeu, ainda imobilizado por Lemar, estava bem claro que o segurança tinha suas próprias preocupações no momento.
Será que a ex-esposa do doutor Brooks corria mesmo perigo? Assim que essa pergunta surgiu na mente de Makayla a jovem quase riu da inocência contida nela... Que besteira, é claro que Caroline Hills corria perigo, qualquer um estava em risco enquanto Emma estivesse no comando.
— Não é da sua conta. — A diretora retrucou, irritada com a interrupção.
Ela fez um gesto simples com a mão livre e Lemar Hoskins se moveu, Makayla previu o que viria...
— Lemar, não faz isso! — Pediu, tentando fazer as pernas obedecerem, mas isso foi totalmente em vão.
Cegamente obediente o soldado segurou a cabeça de Feltz e a bateu uma única vez contra a parede, Makayla conhecia a força que o soro era capaz de fornecer a alguém, afinal viu em primeira mão, por isso ela soube que Lemar não havia usado todo seu potencial naquele movimento e algo que ficou provado quando Feltz caiu no chão, nocauteado, mas não morto a julgar pelo lento movimento de respiração em seu tórax.
O olhar de Makayla seguiu para Emma, aguardando pela fatídica ordem, mas ela não veio.
— Eu não sou uma assassina. — A mulher deu de ombros, decifrando a pergunta por trás das íris azul-cinzentas de Makayla.
A garota respirou fundo, sabia que estava em uma situação muito ruim, que haviam pessoas em perigo e que tudo ainda podia piorar. Mas tentou fingir que estava calma, torcendo para que isso lhe desse algum tempo para bolar um plano...
— Então você sabia desde o começo. Por que o teatro? — Perguntou, desejando que aquilo lhe desse alguma informação útil. No pior dos casos Emma começaria um monólogo que por bem ou mal, era tempo ganho.
— Ah não, eu não sabia de nada antes, só depois que você veio para cá eu acreditei que a coisa dos poderes era real. Tive provas, graças aos estudos de Trask. — A diretora do CRG apontou para o cientista de óculos redondos. — Você é um trunfo e tanto, sabe, Kayla? Uma telepata. As coisas que eu vou conseguir usando você.
Um arrepio horrível percorreu o corpo de Makayla, mesmo sem ter visão política o bastante ela conseguia compreender com perfeição o tipo de trunfo que ler mentes podia ser para Emma Kennedy.
— Eu não vou te ajudar. Nunca! — Declarou firme, mas ganhou apenas uma risada condescendente como resposta.
— Ah, Kayla, vai sim, você tem muito a perder. Pai, bebê... — Emma apontou simples.
Makayla percebeu que falar deixava a mulher desatenta, e que Danniel estava olhando ao redor bolando seu próprio plano. Era ariscado sem dúvida, mas situações desesperadoras pediam medidas desesperadas...
— Você não acha que está apostando muito alto, me chamar de telepata é presunção, eu sequer conseguir ler a sua mente direito, não é? — A jovem Devinne jogou como quem não se importa, na verdade queria que Emma mordesse a isca e que aquela conversa toda fosse prolongada.
— Não se preocupe, isso foi totalmente mérito meu. — A mais velha se gabou. — Confesso que no começo eu não sabia se funcionaria, era um tiro no escuro, mas felizmente um novo amigo especialista em lavagem cerebral e controle mental pela Hydra me ensinou alguns truques para passar por interrogatórios e adaptamos o melhor que dava para o seu caso. Se você é capaz de ler mentes, então meu truque foi focar em te bombardear com informações em excesso. Mas só as que eu queria que você soubesse, é claro. É uma técnica de desvio de atenção, dar uma informação pra esconder outra. Eu aprendo rápido. — O sorriso presunçoso nos lábios dela e a explicação dada com tanta facilidade fez com que Makayla soubesse que não teria oportunidade de tocar Emma novamente. — Claro que Trask também ajudou diminuindo a eficácia da cura o máximo possível para controlar a intensidade dos seus poderes.
A primeira coisa na qual Makayla focou foi na informação de que havia um cientista da Hydra envolvido. Um especialista em controle mental e lavagem cerebral... As coisas que Bucky havia sofrido nas mãos de pessoas assim fez com que um gosto horrível subisse pela garganta da jovem.
Por outro lado, talvez devesse ficar preocupada em saber que havia uma fraqueza óbvia em suas habilidades, um jeito de burlar aquilo com uma simples técnica de distração, se sentiu um tanto inútil... Se era obrigada a ter aquelas habilidades estranhas, não podia ter ganhado algo foda como, sei lá, poder de fogo?
E, por fim, havia a informação sobre a intensidade da tal cura, talvez isso explicasse porquê ainda não podia mover as pernas...
Será que tinha como ficar pior? Makayla quase revirou os olhos para a própria pergunta estupida, era a vida dela afinal, sempre podia ficar pior.
— É isso, você não tem trunfos contra mim. Então vamos impedir derramamento de sangue, que tal? — Emma concluiu com um sorriso de deboche no canto dos lábios, enquanto balançava a arma na direção de Danniel. Ela sabia que tinha toda a vantagem.
— E qual garantia eu tenho que não vai matar a gente depois de saber o que quer? — Makayla questionou de forma dura.
— Matar vocês? Querida, tudo que eu quero é a minha família juntinha. — A mais velha respondeu de forma dócil. — Eu não quero matar ninguém. Quando tudo acabar seremos eu, seu pai, seu irmão e você. Juntos de novo.
Naquele ponto já havia se tornado difícil dizer se aquilo era apenas fingimento ou se eram os delírios de uma mulher emocional e psicologicamente desequilibrada...
O irônico é que a própria Makayla tinha passado a maior parte da vida sendo também uma mulher emocional e psicologicamente desequilibrada, ela e Emma haviam enfrentado coisa semelhantes, algumas perdas inclusive eram compartilhadas entre as duas. A diferença é que a mais jovem não se tornou uma sociopata sequestradora.
Elas eram talvez dois lados da mesma moeda; Makayla sempre usou a dor como um combustível para auxiliar aqueles ao seu redor, mesmo quando dizia não se importar com nada, mesmo quando estava no fundo no poço, lá estava ela, escondida em um projeto social, construindo casas do outro lado do mundo, seguindo um estranho na rua apenas porque queria fazer com que ele se sentisse melhor... Ela se esforçava o máximo para ajudar as pessoas, embora não se sentisse capaz de ajudar a si mesma, porque afinal, queria que todos fossem felizes, mesmo quando ela não podia ser.
Enquanto Emma, que de fato tinha em mãos o poder e influência para fazer a diferença e que dizia se importar com o mundo todo, deixou que a dor lhe corrompesse e o usou todo o privilégio que lhe cercava apenas para benefício próprio, prejudicando com a mesma mão que prometia ajudar... Ela não se importava com os problemas ou dores de outras pessoas, porque afinal, se ela própria não podia ser feliz, então ninguém mais poderia.
— Então vamos, diga, o OZ veio do futuro, não é? — Trask interrompeu de forma impaciente e ansiosa.
Makayla encarou todos no quarto: Feltz desacordado; Danniel com uma arma apontada na cabeça; Emma exibindo o olhar firme de quem tem tudo sob controle; Lemar bloqueando a porta; E o tal cientista de óculos redondos com os olhos arregalados esperando sua resposta...
A jovem respirou fundo, não tinha nada, nem respostas, nem vantagens, muito menos uma forma de pedir ajuda, na verdade sequer tinha o movimento das próprias pernas. Estava tudo em suas mãos... mãos essas que até tinham certa habilidade, mas de que adiantava se elas haviam se provado inúteis?
Talvez fosse hora de deixar de lado os planos mirabolantes e voltar para o básico... uma boa e velha mentira.
— Se eu disser o que eu vi, você promete pelo Cam que não vai machucar nenhum de nós? — Ela questionou para Emma, exibindo uma postura derrotada.
A Diretora do CRG assentiu, não que Makayla tenha realmente acreditado na palavra daquela mulher, mas era o melhor que conseguiria naquele momento.
Olhou para o homem chamado Trask e respirou fundo, assentindo brevemente de forma consternada, como quem de fato estava prestes a contar um segredo que não queria revelar.
— Foi, foi isso.... — Ela começou controlando a postura o máximo que podia.
A história que foi tecendo a seguir era um compilado de mentiras elaboradas que se baseavam nas teorias que Makayla tinha visto na mente de Emma, e misturavam detalhes de algumas séries futuristas que pareciam criveis o bastante. Trask escutava com atenção, puxando uma cadeira para se sentar perto da cama, sua empolgação evidente fez com que a jovem começasse a ter esperanças.
Enquanto ainda falava suas mentiras improvisadas, sem saber se elas tinham alguma verdade ou não, Makayla notou que Emma recebeu uma mensagem. A mais velha retirou o celular do bolso sem parar de mirar em Danniel e não pareceu muito contente com o que leu, claramente contrariada ela guardou o aparelho no lugar e encarou a mais jovem por alguns segundos.
Era um tipo muito especifico de olhar, não aquele disfarçado e quase debochado de antes, era algo muito mais investigativo e desconfiado. O mesmo com o qual ela costumava analisar Makayla depois de uma travessura digna de uma adolescente rebelde.
Como se um sinal de alerta soasse em seu cérebro, Makayla procurou pela seringa que havia escondido embaixo das cobertas, não havia mais do tal antidoto ali dentro, porém era o mais próximo de uma arma que teria acesso naquele momento...
— Ela está mentindo. — Emma decretou, erguendo um pouco mais a arma e dando um sorriso vil para a jovem. — Eu te conheço a vida toda, acha mesmo que vai me enganar com uma historinha inventada de última hora? Eu sou sua mãe, Makayla.
A garota estava prestes a se defender com outra mentira, mas foi interrompida pela voz de Danniel.
— Não, você não é! — Ele gritou, enquanto avançava sobre Emma, tentando tirar dela a arma em uma briga corporal.
Um disparo ecoou pelo quarto e ricocheteou pelas paredes, fazendo com que Trask reagisse no susto, porém antes que ele pudesse levantar da cadeira, enquanto a arma de Emma caia no chão e deslizava para perto da cama, Makayla deu um impulso com os braços e se jogou sobre ele, era muito mais difícil sem puder usar a força das pernas, enquanto o cientista gritava, a cadeira em que ele estava tombava para trás e tanto ele quanto Makayla despencavam no chão.
A garota atingiu o homem outra vez com a agulha da seringa, tentando fazer o máximo de estrago que podia com um objeto tão frágil, era difícil conseguir mais que uns arranhões e poucos furos minúsculos.
Mesmo assim a coragem de pai e filha logo se provou em vão, Lemar se envolveu no conflito, imobilizando Danniel facilmente.
Makayla tentou conseguir qualquer coisa para bater na cabeça de Trask, acabou arranhando o rosto do cientista e derrubando sobre ele o suporte de soro e algumas outras coisas que não tinham peso o bastante para de fato machucar alguém, mas que lhe deram uma pequena vantagem para que ela se arrastasse em direção a arma que tinha escorregado pelo chão para perto da cama.
O fato de ainda não sentir as pernas dificultava e muito esse trabalho, ao fundo Danniel gritava enquanto se debatia. Makayla usou isso como incentivo para não desistir, ela já podia tocar o metal da automática com a ponta dos dedos quando um salto caro pisou na sua mão de forma cruel.
— Vejo que teremos que resolver nossos problemas de família depois. — Emma declarou fria, alinhando os fios de cabelo. — Eu tenho um compromisso agora.
Antes que pudesse reagir, Makayla teve um pequeno dispositivo metálico e circular colocado em sua testa. Imediatamente uma descarga elétrica tomou conta de seu sistema nervoso, seu corpo começou a ficar mole e tudo ficou escuro...
Emma olhou o corpo desacordado da garota no chão e respirou fundo enquanto ignorava os gritos irritantes de Danniel. Não tinha certeza se o DS — o Dispositivo de Supressão — funcionaria totalmente, era ainda um protótipo, feito a partir da tecnologia coletada no OZ, misturado um projeto antigo do governo que conseguiu suprimir os poderes de Wanda Maximoff quando ela foi capturada com os amigos, depois da luta entre Capitão América e Homem de Ferro.
Mas tinha funcionado muito bem.
Moveu a cabeça para o lado e revirou os olhos para o patético Trask que se levantava no meio de uma bagunça. Sabia que o idiota era ridículo, mas ser tapado a ponto de não conseguir se defender de uma garotinha que sequer tinha o movimento das pernas? Incompetente...
Era assim que Emma se sentia a maior parte do tempo, cercada por incompetentes ou traidores, como o maldito Scott Feltz que agora estava desacordado no chão.
E falando em traidor... Ela ergueu a cabeça e encarou Danniel Devinne que ainda tentava se esquivar da imobilização do Super Soldado Controlado.
Hoskins era o primeiro sucesso real da Forja.
— O que você fez com ela?! — Danniel gritava revoltado.
Emma encarou o ex-marido de forma entediada. Por que todos os homens que a cercavam tinham que ser uma total decepção?
Com um gesto simples ela ordenou que seu super soldado nocauteasse Danniel, e logo em seguida um silêncio absoluto caiu sobre a sala.
Infelizmente não durou muito porque Trask começou a reclamar de mil coisas no instante seguinte...
Emma o ignorou, se abaixando para recolher sua arma e ordenando a Lemar que colocasse o corpo desacordo de Makayla de volta na cama, para então levar Dannuel e Feltz para suas celas.
Teria que lidar com tudo aquilo depois, havia recebido uma mensagem do Ministro de Relações Internacionais dizendo que ele e os outros já estavam na base do CRG. Aquela noite aconteceria uma reunião para que esses políticos assinassem um acordo de evacuação de todos os centros de refugiados.
Eram burocracias da vida política que Emma cumpria com rigor, afinal eram esses tipos de movimento que garantiam que ela continuasse a ter poder e influência através do CRG.
Sendo assim, teria que lidar com a teimosia de Makayla depois.
Saiu andando do quarto, deixando Lemar cuidar de suas ordens e sendo seguida por Trask de perto, que ainda não tinha parado de reclamar...
Haviam muitas coisas para resolver, lá em cima teria que convencer os poucos Ministros reticentes que o acordo de evacuação era o melhor a fazer naquele momento; fora isso havia, ali em baixo, a teimosia de Makayla em cooperar; ao longe, uma equipe já estava seguindo Caroline Hills que o idiota do Feltz tinha instruído a sair do país; além disso, algumas horas antes havia recebido uma mensagem do time de monitoramento dizendo que Bucky Barnes estava de volta a nova York.
Não que achasse que isso seria mesmo um problema, afinal ele havia segurado o corpo “morto” de Makayla nos braços, não tinha motivo nenhum para procurar a garota. Ainda assim era mais um ponto a ser observado.
Emma sentia que estava ficando encurralada e, pra piorar um pouco mais, o CRG estava sendo alvo de ameaças constantes dos Apátridas, um confronto com o grupinho de super soldados era a última coisa que a Diretora precisava naquele momento...
Respirou fundo e tentou centralizar seus pensamentos e organizar todo aquele caos, estava tentando planejar seus próximos passos com o celular em mãos, mas era impossível se concentrar com Trask ainda resmungando dois passos atrás dela.
— Será que você pode calar a boca! — Se exaltou, parando no meio do corredor e dando meia volta tão repentinamente que o cientista idiota quase se chocou com ela.
— Tudo que você tentou fazer até agora deu errado, acho que é hora de pedir para o conselho te afastar. — Trask estufou o peito como um frango de padaria e Emma revirou os olhos.
— Tudo deu errado, tem certeza? — Ela jogou de volta, com um sorriso superior enfeitando o canto dos lábios. — Porque de onde eu vejo agora você tem a chave para ativar aquela porcaria e conseguir respostas.
Trask tinha sido contra “libertar” os poderes de Makayla, assim como era contra submeter a garota aos mesmos procedimentos de controle que Lemar passara, e infelizmente Bolivar ainda tinha bastante influência sobre parte do conselho. Porém Emma não estava realmente preocupada, ter uma leitora de mentes e usar os genes delas para ativar o OZ era argumento o bastante para convencer todos aqueles velhos idiotas. Cedo ou tarde faria com que eles vissem que submeter Makayla ao programa de controle era o melhor a fazer.
— Não era pra ser assim... — Trask ainda continuava a resmungar.
— Mas é assim que é. — Emma decretou seca. — Faça o seu trabalho e ative o OZ de uma vez, enquanto isso eu cuidarei do resto.
Por um segundo a Diretora do CRG pensou que o cientista idiota teria algo mais para dizer, porém, por bem ou mal, ele também estava interessado demais em ativar o Objeto Zero para tecer argumentos inúteis naquele momento.
Enfim sozinha, Emma pôde colocar todas as suas prioridades em ordem. Primeiro deu uma passada rápida em sua sala naquele andar da Forja para garantir que sua aparência estivesse impecável para o encontro com os ministros. Depois aproveitou para dar uma olhada nas imagens das câmeras de segurança, Danniel estava revoltado, mas preso em sua cela; Feltz ainda apagado; Makayla também desacordada, com o dispositivo intacto no meio da testa; e Hoskins patrulhando de forma impecável. Tudo sob controle.
Por fim, antes de deixar as instalações secretas e pegar o elevador que a levaria para o prédio do CRG, Emma passou em um dos laboratórios para dar ordens.
— Comecem o processo na Cobaia Sete. — Apontou para o corpo de Pietro Maximoff.
— Sim, senhora. — Todos ali responderam solicitamente.
Depois disso cuidaria de Cameron.
No instante era importante ter um reforço caso algo saísse do controle, e ter um velocista controlado a seu dispor era o tipo perfeito de plano B...
Com tudo resolvido, Emma Kennedy tomou o rumo da reunião com os Ministros, enquanto Bolivar Trask trabalhava no Objeto Zero. Estava tudo perfeito e sob controle.
Ou ao menos foi isso que Emma pensou... Ela só não contava que aquela noite seria um caos completo, começando com os Apátridas invadindo o CRG para interromper a reunião...
O que mais podia dar errado?
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