Notas iniciais
E aqui estou, nem acredito que deu mesmo pra vir hoje. Tenho que dizer que eu considero esse capitulo extremamente importante para o enredo da história, eu sei que muitas de vocês leem apenas pelo romance e talvez pra vocês esse capitulo vai ser apenas exceção de saco, entendo isso, tá tudo bem, mas quando eu crio uma fic eu trato ela como um livro que tem, além do romance, todo um enredo, então pra mim, enquanto escritora (e enquanto fanfiqueira da marvel), esse é o capitulo mais importante da história, mesmo que não tenha romance de fato nele. Além disso para a Makayla é sem dúvida o fechamento do arco de desenvolvimento que eu venho criando desde o prólogo. É um capitulo explicativo e bem grande (16k) então leiam com calma, dividam aí na semana se quiserem. Importante dizer que vai conter referências a muitos personagens da Marvel e pode ser que tenha "spoilers" da série Loki. Enfim, é isso, espero de verdade que gostem. Boa leitura!

Naquele momento Bucky Barnes se perguntava se sua vida sempre seria aquele compilado de “contratempos”. Quer dizer, se é que se podia chamar de contratempo o ataque de um grupo extremista de Super Soldados a um prédio cheio de políticos importantes...

Barnes tinha um plano simples quando voltou a Nova York, ir até a sede do CRG, espreitar o lugar, talvez seguir Emma Kennedy por um tempo e quem sabe invadir a propriedade em busca de informações. O que ele jamais imaginou é que encontraria o local cercado tanto pelo povo curioso quanto pela SWAT, haviam helicópteros por toda a parte, e o caos estava instaurado.

Naquele instante acontecia dentro da sede do CRG um tipo de reunião dos Ministros Internacionais para decidirem alguma coisa burocrática da qual Bucky não estava a par... A recente “morte” de Makayla tinha feito todo o resto perder a importância, então o ex-sargento sequer se sentia culpado por não ter se atualizado dos tramites políticos do país.

Enfim, apenas mais caos surgindo na vida de Bucky e interrompendo os planos dele.

Ele foi passando entre a multidão para se aproximar do bloqueio feito pelas autoridades, já havia se comunicado com Sam e, enquanto o amigo estava a caminho, Bucky entraria no prédio e tentaria controlar a situação antes que os Apátridas machucassem alguém.

Estava um pouco irritado que a busca por Makayla teria que ficar em segundo plano, porém havia um senso de responsabilidade em lidar com um problema envolvendo super soldados. Não podia permitir que Karli colocasse a vida de inocentes em risco com seu descontrole...

Quando a SWAT abriu caminho de forma educada, o cumprimentando como “sargento”, Barnes se esforçou para não expressar nenhuma surpresa. Não sabia que tinha o respeito das autoridades. No entanto, esse mesmo controle de suas expressões foi por água a baixo quando ele deu de cara com Sharon Carter no local.

A espiã deu uma explicação básica para estar ali e, com Sam a par de tudo e a urgência da situação, Bucky acabou deixando de lado perguntas básicas, mas muito importantes... Como Sharon havia chegado ali tão rápido?

De toda a forma, não era o momento de reclamar de ajuda, tudo que Barnes queria realmente era acabar com aquela bagunça de uma vez e focar em procurar Makayla.

Porém, talvez estivesse sendo desatendo a sinais óbvios uma vez mais...

★☆ • ★☆ • ★☆

Ela não se lembrava de como tinha chegado ali, deitada no chão gelado, com uma penumbra quase etérea ao seu redor. Esfregou os olhos, a realidade voltando aos poucos, tinha se envolvido em uma briga com Emma e um dispositivo foi colocado em sua testa...

Olhou ao redor, reparando no ambiente revelado pela penumbra e levando um susto com a própria imagem refletida diversas e diversas vezes em uma infinidade de espelhos que lhe cercava. Onde estava?

Havia uma sensação estranha no ar, não era apenas a peculiaridade de estar no escuro parcial cercada dos próprios reflexos como em um estranho filme de terror psicológico, era uma sensação em seu corpo, uma leveza peculiar, um formigamento constante em toda a parte e parte alguma.

O que estava acontecendo?

— Tem alguém aí? — Sua voz ecoou por toda a parte, reverberando nos espelhos de um jeito muito especifico. Havia metal nas paredes?

Olhou o próprio reflexo por um instante, mesmo sua figura parecia um tanto etérea se fosse honesta.

— Mas que merda de bizarrice é essa? — Murmurou para si mesma de forma frustrada, logo em seguida gritando novamente. — Tem alguém aí?

Nada. Apenas sua voz reverberando pelas paredes metálicas revestidas de espelhos...

Makayla respirou fundo, mas mesmo esse simples ato quase instintivo parecia estranho, quase como se seu corpo não fosse um corpo de fato. Olhou para os próprios pés e, com um medo do que viria, tentou se concentrar pra ver se podia senti-los...

A verdade é que não havia um sentir de fato, era estranho demais para ser explicado, havia essa sensação de uma brisa gélida no ar, mas Makayla não podia dizer que a sentia com o tato. E isso não era limitado aos seus pés ou pernas, era uma coisa que tomava seu corpo todo.

— E continua ficando ainda mais bizarro... — Negou em um sarcasmo que tinha muito de nervoso.

Encarando os pés, com a incerteza de que responderiam a seu comando, Makayla decidiu se levantar. No fundo ela imaginou que ainda seria como antes quando estava deitada naquela maca, no quarto de hospital falso da tal Forja, que seu quer seria apenas um desejo em vão, que seu cérebro enviaria comandos claros para as pernas e pés, mas esses comandos seriam totalmente ignorados.

Então, sim, foi uma agradável e encorajadora surpresa quando Makayla de fato conseguiu se mover, e mais que isso, foi capaz de ficar em pé e sustentar o peso do próprio corpo.

— Ah, Deus, que isso não seja um sonho, por favor. — Murmurou, enquanto dava alguns passos pelo lugar.

Seus pés não faziam qualquer som no chão, e isso era uma sensação quase fantasmagórica quando combinada com todos aqueles reflexos de si mesma lhe encarando de volta.

A ideia de que estava em um ambiente feito de metal era uma certeza naquele ponto, porém a verdade se mostrou um pouco mais complicada: Makayla não se encontrava em uma simples sala, era um labirinto de espelhos com paredes, teto e chão metálico.

Estava presa, mas presa aonde?

— Hey! Tem alguém aí? — Gritou uma vez mais, enquanto continuava a caminhar pelo lugar procurando uma saída.

Nada aconteceu.

Makayla continuou a caminhar sem rumo certo, tendo a estranha sensação que pairava em um lugar fora do tempo e espaço, ou talvez fosse apenas impressão, podia ser apenas uma nova armadilha de Emma... era impossível saber.

Em dado momento, ao virar por outro corredor de espelhos, a jovem sentiu atrás de si uma presença, olhou por cima do ombro rapidamente a tempo de ver uma pequena sombra virar para a esquerda.

Um barulhinho quase indistinto, mas muito reconhecível ecoou pelo ar... Aquilo era um bebê?

Makayla deu meia volta para correr atrás da figura, tentando ver sua imagem pelos reflexos nos espelhos, mas cada vez que ela virava uma das esquinas do labirinto o possível bebê desaparecia de vista.

Era mesmo um bebê, o balbuciar infantil e desconexo não negava isso. Talvez aquilo tudo fosse um sonho, isso explicaria a bizarrice da situação.

Mais uma esquina de espelhos e outra, foi só então que Makayla finalmente deu de cara com o que estava perseguindo.

Era mesmo um bebê.

Impossível dizer quantos meses tinha ou seu gênero, mas era uma coisinha adorável e pequeninha. Seus cabelos eram apenas uma pelugem castanho-escuro e seu macacãozinho branco tinha estrelas azuis e lilases, a pele era clara e rosada, porém o mais impressionante eram seus olhos... um azul claro límpido e ao mesmo tempo intenso, como uma tempestade de neve.

Makayla parou onde estava. O choque de sentir algo extremamente conhecido na figura infantil lhe deixando desnorteada por um instante.

O bebê sorriu para ela e algo dentro de seu peito ficou quente e confortável, Makayla sorriu também, dando um passo cauteloso em direção a criança que permanecia sentadinha no chão.

Só então ela reparou que atrás do bebê havia um buraco, se é que se podia chamar assim, porque não era exatamente a definição simples de um, já que era cercado por um tipo de aura ou energia que, assim como as estrelas na roupa da criança mesclava azul e lilás.

Parecia algum tipo de portal.

Makayla começou a caminhar mais depressa, embora cada passo que ela desse parecesse deixá-la, de uma forma estranha e inexplicável, mais longe do bebê.

Uma risadinha infantil ecoou no ar e a criança apenas apoiou as mãos no chão e, engatinhando, alcançou a borda do buraco e caiu ali, segundos antes que Makayla pudesse alcançá-la.

— Mas que merda... — A jovem xingou, olhando para baixo e sendo incapaz de ver qualquer coisa. — Bom, já estou na chuva mesmo, o jeito é me molhar, o que eu tenho a perder?

Respirou fundo e também pulou no buraco, portal, ou seja lá o que aquilo fosse. A verdade é que Makayla estava cada vez mais convencida de que era apenas um sonho mesmo, e isso lhe fornecia uma dose extra de coragem.

E lá estava ela, caindo e caindo como Alice despencando no buraco do coelho...

Aos poucos foi se revelando diante de seus olhos um caleidoscópio de cores, Makayla já não mais caia, ela flutuava lentamente entre essas imensas paredes de cristal que refletiam imagens diversas. Logo a jovem notou que haviam portas nessas paredes, todas cercadas pela mesma energia azul e lilás do buraco em que havia caído.

— Mas o que caralhos é tudo isso? — Murmurou baixinho, ouvindo a risadinha infantil ecoar ao longe.

Seus olhos vagaram automaticamente em direção ao som, ela teve certeza que viu o bebê entrar em uma desses porta — uma estranha porta metálica com um enorme X de ponta a ponta — e obviamente seguiu esse mesmo caminho.

Não foi tão fácil assim controlar o rumo daquele cair-flutuando, mas depois de alguns minutos Makayla estava empurrando a porta, que lhe deu acesso direto a uma imensa sala circular feita também de metal, ali no centro, exatamente onde ela havia saído, existia uma plataforma circular com uma longa passarela. O local parecia um tanto abandonado, mas Makayla deixou isso de lado quando a porta pela qual ela havia passado bateu atrás de si e simplesmente sumiu no ar.

— Ah, merda... — Resmungou, olhando o ambiente e reparando em uma única mesa onde um tipo de capacete podia ser visto. Estranho...

Além disso, não havia sequer sinal do bebêzinho.

Makayla encarou a longa passarela que levava a uma porta de correr metálica também estampada com um imenso X, deu alguns passos naquela direção, mas antes que alcançasse a metade do caminho a porta se abriu automaticamente... Uma figura passou por ali, primeiro apenas sua silhueta na penumbra do lugar abandonado.

Logo ela notou que a pessoa vinha de cadeira de rodas, um velho careca de olhos amáveis e com um sorriso curioso despontando por entre as rugas de seu rosto.

— Quem é você? — Makayla deu um passo para trás em uma mistura de desconfiança e cautela. — Cadê o bebê?

— Que bebê? — O homem perguntou de forma calma, seu olhar também tinha uma curiosidade velada.

Cada vez ficava mais estranho...

— Ah para, nem vem, o bebê que acabou de entrar aqui. — Makayla apontou, cruzando os braços em seguida, havia essa estranha sensação de se sentir analisada e invadida, mesmo que o senhor na cadeira de rodas nada estivesse fazendo além de olhar para ela.

Ele estreitou suavemente as sobrancelhas, fazendo com que as rugas de seu rosto velho se movessem alguns milímetros apenas. Makayla sentiu esse peculiar formigar dentro do cérebro, algo incômodo, mas quase imperceptível. Se mexeu desconfortável, piscando algumas vezes para que esse movimento afastasse aquela sensação. O homem na cadeira de rodas franziu as sobrancelhas de forma surpresa....

— Interessante. — Ele disse enquanto meneava a cabeça, arrumando a postura logo em seguida. — Bem-vinda, Makayla.

Foi a vez da jovem franzir as sobrancelhas de forma surpresa.

— Como você sabe meu nome? — Ela questionou arisca, dando alguns passos para trás. — E onde exatamente eu estou?

— Bom, podemos dizer que estamos no Instituto Xavier, embora não seja bem isso, mas o que importa é que, se o que eu vi está correto, então você se encontra bem longe de casa. — O homem respondeu calmamente. — E sei seu nome porque acabei de ler sua mente.

Como é que é?!

— Curiosamente, não li muito, porque você me expulsou. — Ele pareceu genuinamente surpreso com isso.

Makayla tentou alinhar as ideias; devia estar surpresa com o fato de haver um velho que alegava ler mentes? Devia se espantar com por ser capaz de “expulsar” alguém? Não... Honestamente, aquele mundo era louco, aquela coisa de poderes e habilidades era o de menos no momento, por mais que todo tipo de questionamento sobre esse assunto se amontoasse em sua mente, haviam de fato perguntas mais urgentes.

— Quem é você? — Ela começou com algo simples.

— Charles, costumavam me chamar de Professor Xavier, mas isso já faz tempo... — Ele pareceu nostálgico por alguns instantes e logo estava estranhamente focado nos olhos de Makayla uma vez mais, como se tentasse achar uma brecha.

Novamente a jovem sentiu aquele estranho formigar em sua mente, como um alarme que dizia que alguém não autorizado está invadindo um território perigoso.

— Pare de fazer isso. — Ela ordenou, imaginando que aquele era um sinal dos poderes do homem a sua frente.

— Desculpe, é a força do habito. — Ele ergueu as mãos em rendição e com um sorriso dócil em seu rosto envelhecido foi se aproximando com sua cadeira de rodas. — Conheci pouquíssimas pessoas que eram capazes de me barrar assim tão facilmente.

— Vai me falar onde estamos e como eu vim parar aqui? — Makayla rebateu, cruzando os braços e se afastando um passo. — É mais alguma tramóia da Forja, aposto.

O homem chamado Charles franziu as sobrancelhas minimamente, como se jamais tivesse ouvido falar daquele lugar na vida, e logo começou a explicar com sua voz mansa:

— Estamos na mansão Xavier para Jovens Super Dotados, ou o que me lembro dela ao menos... — Ele olhou para as paredes com melancolia, mas logo focou em Makayla novamente. — E quanto a forma como chegou aqui... acredito que não está aqui de fato, não fisicamente ao menos.

Dessa vez foi a jovem Devinne quem franziu as sobrancelhas, totalmente confusa com aquela resposta. O que infernos isso significava?

— Bom, não tenho todas as respostas porque não tive oportunidade de ler sua mente de forma apropriada. — Charles Xavier declarou ao observar a fisionomia da garota. — Mas com o que vi tenho algumas teorias.

— Estou ouvindo... — Ela o incentivou a continuar.

— Acredito que isso seja apenas uma projeção astral. — Ele começou a explicar. — Alguns telepatas poderosos tem a capacidade de enviar suas mentes para outros lugares, isso pode influenciar pensamentos de outras pessoas, ou então causar encontros como esse...

— Então isso é um sonho? — Makayla presumiu.

— Quase isso. — Xavier moveu a cabeça de um lado para o outro.

— Então nada disso é real? — A jovem perguntou enquanto olhava ao redor. Tinha uma quantidade absurda de detalhes para ser apenas um sonho.

— Ah não, Makayla, lhe asseguro que tudo isso é real. O fato de não ser físico não torna nada menos verdadeiro. — O homem outrora conhecido como Professor corrigiu, com o sorriso de quem ensina uma criança. — Na maior parte das vezes nós telepatas agimos nesse campo do que os outros chamam de “irreal”. Alguns de nós, no entanto, tem o poder extra de tornar a energia de suas mentes algo físico, já vi de perto. — O olhar envelhecido divagou por alguns instantes, até que focou em Makayla novamente. — Desculpe, estou me desviando do assunto principal, é o que acontece quando ficamos velhos.

— E o bebê que eu vi? Como explica isso? — As dúvidas começaram a se amontoar na mente de Makayla.

A coisa com o bebê de macacão com estrelas lilases e azuis realmente tinha beirado a estranheza de um sonho, mas se nada daquilo era um sonho de fato, onde a criança de olhos tão familiares se encaixava?

— Bom, creio eu que algumas vezes os poderes que um dia o feto desenvolverá podem ser usufruídos pela mãe em situações específicas. — Xavier declarou, e parecia surpreso com a própria explicação, como se nunca tivesse visto algo igual.

Espera. Ele disse feto? Aquilo significava... Makayla automaticamente levou as mãos ao próprio ventre. Aquele bebê com olhos extremamente familiares era o seu bebê milagroso?

— E acredito que foi assim que chegou aqui, porque, por mais poderosa que você seja, sua mente não atravessaria o multiverso sem ajuda de uma habilidade extra. — O homem concluiu calmamente.

— Multiverso? — Makayla repetiu incrédula.

Não lhe era um termo desconhecido, sabia como funcionava essa teoria fantasiosa, vários universos paralelos coexistindo, com versões diferentes do mesmo mundo e as vezes até de uma mesma pessoa. Mas era loucura, certo? Coisa de ficção apenas...

— Ah sim, eu vivo em Nova York, mas não na sua Nova York. — O professor esclareceu de forma simples, demonstrando que nada daquilo era uma surpresa para ele. — Até hoje eu só vi uma coisa ser capaz de abrir um portal entre universos, mas pelo visto existe um poder mutante capaz de fazer isso também... O que tenho certeza é que apenas uma mutante nível ômega seria capaz de mandar a própria mente separada do corpo em uma viagem para tão longe.

— Mutante? — A jovem estranhou a palavra.

— Sim, mutante. É isso que você é, Makayla. — Charles Xavier declarou convicto. — Assim como sua mãe era, e assim como sua criança será um dia. Mutante. Mesmo com o pouco que vi em sua mente, esse fato é uma certeza.

— Eu não... eu não entendo. — Makayla sentiu que tudo ao seu redor estava rodando. — Você conhecia minha mãe?

— Tirando os olhos, você se parece com ela, mesmo que eu não tivesse visto um pequeno fragmento dela em sua mente eu saberia. — O homem respondeu suavemente.

Makayla passou a mão no rosto e tentou respirar fundo, para só então perceber que não estava respirando de fato, qualquer que fosse seu estado atual ela não tinha necessidade de ar em seus pulmões, havia o tato, a visão e a audição, mas o olfato era rarefeito e o paladar inexistente. Seria isso uma projeção astral? O estar ali consciente, mas com apenas uma versão de seu corpo que não era física de fato, que não carecia de coisas próprias ao organismo, como se alimentar, respirar e assim por diante... Era de fato como um sonho, porém real, se é que isso fazia algum sentido.

Xavier observava a jovem com o olhar compassivo comum aos mais sábios, apesar de ser um completo desconhecido havia algo estranhamente acolhedor nele.

— Por que não fazemos uma troca? — Ele sugeriu, exibindo um sorriso tranquilo. — Você vê tudo que eu sei, e eu vejo o que você passou, assim diminuímos as perguntas e focamos apenas nas respostas mais importantes. Temo que nosso tempo seja curto, esse tipo de viagem é rara e vai lhe consumir muita energia, temos que aproveitar agora, porque pode ser uma oportunidade única.

Makayla encarou a mão estendida e respirou fundo, o que tinha a perder afinal?

Deu alguns passos para frente e tocou os dedos do homem chamado Charles Xavier, imediatamente se viu sugada por um túnel de memórias, todas elas passando rapidamente em sua mente uma sucessão inteira delas, mas dessa vez vinham de forma indolor e muito clara. Makayla se sentia lendo um livro em velocidade absurda.

Entendeu o que eram “Mutantes”; uma evolução do ser-humano, pessoas que tinham um gene especifico e desenvolviam habilidades, ali naquele universo existiam milhões deles. Charles Xavier era um homem que lutava para integrar todas essas pessoas na sociedade, que ajudava vários deles a controlarem seus poderes e que, com o tempo, acabou formando um grupo...

Infelizmente a paz durou pouco para os Mutantes, o governo instaurou o projeto Sentinela, chefiado por Bolivar Trask, a tecnologia devia caçar e reportar Mutantes não registrados, mas conforme evoluía começou a ganhar inteligência própria e a caçar todo e qualquer portador doe gene X, transformando rapidamente o mundo em devastação e caos.

Os Mutantes tiveram que voltar para as sombras, a equipe de Xavier se uniu a antigos inimigos em prol da sobrevivência e assim eles iam levando, resistindo. Até que um evento inesperado levou alguns dos chamados X-Mens a uma missão totalmente diferente...

Makayla se viu dentro da memória, vivendo-a como se fizesse parte dela, e não como mera expectadora.

— Eu ainda acho uma péssima ideia... — Um homem resmungou irritado, era parrudo, com os cabelos em um penteado arrepiado e costeletas grossas em conjunto com uma barba peculiar. Ele fumava um charuto enquanto caminhava com passos pesados.

Makayla notou que assistia a cena um pouco de baixo, meio deslizante no chão, foi assim que soube que estava vendo tudo pelos olhos de Charles Xavier, embora, a julgar pelas mãos apoiadas nos encostos da cadeira de rodas tecnológica, ele fosse um pouco mais jovem naquele ponto.

Estavam em um tipo de vilarejo onde trailers e barracas eram vistos por todos os cantos, um campo de refugiados talvez...

— Você tem péssimas ideias a todo momento e ninguém reclama, Wolverine. — Uma voz feminina disse logo atrás deles.

Makayla, ou melhor, Xavier, virou o rosto naquela direção a tempo de ver uma mulher se aproximar, para Charles um rosto conhecido que não causou nenhuma reação diferente. Para a jovem Devinne também um rosto conhecido, um que ela tinha visto exatamente igual nas memórias do pai...

Mãe?

— Ninguém? — O homem chamado Wolverine bufou com incredulidade. — Você é sempre a primeira a reclamar das minhas ideias, Psylocke.

Makayla estranhou o nome pelo qual sua mãe era chamada e isso a fez, instintivamente, procurar respostas na mente de Charles Xavier... Eram codinomes que os Mutantes escolhiam.

Psylocke tinha poderes psíquicos além de ser uma telepata poderosa.

Ainda um tanto desnorteada, a jovem ficou perdida no olhar que lhe encarou de volta, nunca pensou que ficaria cara a cara com sua mãe biológica... E naquele instante, enquanto analisava o rosto de sua progenitora com cautela e atenção, Makayla notou que haviam algumas diferenças mínimas na figura que havia visto na mente de seu pai, e isso tinha pouco a ver com algumas ruguinhas e marcas de expressão, era mais sobre o brilho nos olhos, o viço na pele e o sorriso no canto dos lábios. Elizabeth Braddock era mais bonita na mente de Danniel. Provavelmente porque ele era apaixonado por ela.

Já Charles Xavier evidentemente não era, e essa certeza não tinha a ver com o que Makayla podia “ver”, era sobre aquilo que a jovem era capaz de sentir na mente do chamado Professor. Era exatamente assim que ele via “Betzy Braddock” uma aluna, alguém por quem ele se sentia responsável e a quem ele olhava com carinho paternal e orgulho.

— Onde estava? — Charles questionou e Makayla focou na conversa.

— Reconhecimento de terreno. — A chamada Psylocke disse com um mover de ombros. Naquele instante Xavier teve a certeza que que aquela não era toda a verdade, mas ao tentar olhar mais fundo nos olhos de Elizabeth ele foi barrado e recebeu um olhar quase desafiador em resposta. — Quer parar de tentar ler meus pensamentos?

— Desculpe, força do hábito. — O professor ergueu as mãos em um gesto de desculpas, enquanto o grupo continuava a cortar aquele acampamento de refugiados em direção as montanhas.

— Um hábito muito irritante, diga-se de passagem... — Um homem que caminhava mais a frente disse em um misto de critica e sarcasmo.

Makayla não sabia quem ele era, e não podia ver muito além das costas das vestes de couro vermelho-escuro, mesmo assim, em um simples segundo ela soube um mundo de coisas sobre o desconhecido. Erik Lehnsherr, codinome Magneto. Aquela figura era algo marcado na mente de Xavier de forma intensa e definitiva, mesmo que curiosamente houvesse algo que parecia forçar Makayla para longe de algumas lembranças envolvendo aquele homem.

Havia uma sensação conflitante de conexão e antagonismo, uma amizade marcante e uma rivalidade dilacerante, algo de toda uma vida. Um sentimento enterrado que insistia em continuar resistindo.

A sensação que Makayla tinha é que Xavier dividia o outro homem em dois lados, Erik e Magneto. Um desses lados representava uma ameaça que o Professor se sentia moralmente responsável a combater, enquanto o outro lado era tudo que Charles ansiava manter a seu lado. Era dúbio...

A jovem foi arrastada para longe de lembranças que não lhe pertenciam, como se aquela fosse uma parte da mente de Charles Xavier proibida para si, e então voltou para a conversa que se seguia.

— Falando em hábitos irritantes... — Wolverine comentou com uma pontada de deboche e acidez escapando por entre as silabas. — Que tal a gente falar do seu irritante hábito de ser incapaz de manter o pau dentro das calças mesmo durante uma guerra, hein, Magneto?

Psylocke conteve uma risadinha e Erik Lehncherr apenas encarou Wolverine por sobre os ombros. Era um olhar impactante sem dúvida, o de um líder firme, mas também de um tirano capaz de atrocidades. A dualidade que Xavier atribuía a Magneto era muito apropriada.

— Bom, que eu saiba não sou o membro desse grupo que está envolvido em um trisal, sou? — Erik respondeu por fim, exibindo um meio sorriso irônico.

Makayla teve um vislumbre de uma ruiva e um homem usando um tipo de óculos tecnológico e soube que estavam ligados a Wolverine de alguma forma, ao mesmo tempo em que isso lhe trouxe a ciência de que essas pessoas se encontravam quase do outro lado do mundo lidando com outras ameaças que aquela guerra proporcionava.

Aquilo era uma missão especial.

Magneto precisava estar ali, porque tinha tudo a ver com ele, mas Xavier não estava disposto a deixar o amigo sozinho naquela missão, ao mesmo tempo em que Wolverine não confiava em deixar o Professor com um aliado que até pouco tempo atrás era um inimigo. Psylocke se envolveu para que ninguém acabasse se matando e apenas isso.

Metade deles duvidava das alianças que a guerra havia formado, porém nenhum deles estava disposto a deixar um Mutante sozinho com a ameaça das Sentinelas tão presente em todos os cantos do mundo.

— Pelo menos a gente usa proteção, não sai por aí gerando crianças que tem o potencial pra destruir o mundo. — Wolverine provocou com presunção.

— Você fala demais pra alguém com o esqueleto todo feito de metal, sabia? — Magneto retrucou, sem se preocupar em olhar para o outro homem, apenas ergueu dois dedos no ar e o corpo de Wolverine foi lançado contra uma pilha de caixas perto da estrada que os estava levando ao topo da montanha.

— Obrigada. — Psylocke agradeceu ao manipulador de metal com um sorriso satisfeito, enquanto ganhava a dianteira na trilha.

Wolverine se levantou resmungando, qualquer possível ferimento em seu corpo cicatrizando automaticamente. Charles e Erik trocaram um olhar que tinha muito mais cumplicidade do que qualquer um esperaria.

— Não fala nada. — Magneto advertiu, com um sorriso escondido no canto dos lábios.

— Eu não ia. — Charles garantiu, e Makayla pôde notar que o coração do Professor errou uma batida.

Enquanto o pequeno grupo continuava o caminho para o topo da montanha, Makayla procurou por respostas mentais: por que estava vendo aquele momento específico?

Descobriu que o quarteto estava ali por causa de um deslize de Magneto, que havia se envolvido com uma mulher durante uma missão e alguns meses depois recebeu uma mensagem dela contando da gravidez. Se ter um filho naquele ambiente de guerra já era muito complicado, uma criança mutante podia ser a sentença de morte de um povoado todo, já que os pequenos, quando desenvolviam poderes muito cedo, não tinham capacidade de controlar ou camuflar essas habilidades, chamando facilmente a atenção de Sentinelas, que naquele ponto da guerra já haviam desenvolvido um tipo de consciência própria e pouco se importavam com a segurança dos humanos no caminho. A prioridade era matar o Mutante que estava sendo caçado, o resto era apenas efeito colateral.

Mas a criança que viria a nascer tinha um destino muito mais complicado que apenas ter um pai Mutante — que coincidentemente era um dos líderes da resistência, — esse pequeno ser que logo viria ao mundo também tinha uma mãe extraordinária; Magda, uma mulher dotada de um tom muito especial... magia.

Mesmo naquele universo de pessoas poderosas, magia era algo raro. A de Magda estava ligada a suas origens, envolva em mistério e lendas, sendo passada de geração para geração por aquele povo chamado Romani.

Sendo assim, a criança que estava prestes a chegar ao mundo teria em seu código genético um misto de mutação e magia, isso por si só já parecia alarmante o bastante, porém não era o que havia preocupado Magda... O motivo que fez a futura mãe entrar em contato com Magneto era mais sombrio.

O nascimento da criança tinha feito anciões Romanis receberem alertas de seus ancestrais, uma profecia antiga foi trazida á tona. O bebê que estava sendo gerado no ventre de Magda era um risco para o mundo.

Mesmo antes de seu nascimento esse feto precisava ser sacrificado...

Makayla sentiu um nó em sua garganta, teria levado a mão ao próprio ventre se não estivesse apenas ali vendo aquelas memórias na mente de Xavier. Aquilo não parecia justo, que culpa tinha um bebê inocente?

Aparentemente Magda teve esse mesmo sentimento, por isso enviou a Magneto a carta contando da gravidez e do plano dos anciões. Se fugisse ela seria caçada, e mesmo seus feitiços não seriam o bastante para proteger a ela e a criança. Precisava de ajuda.

Por esse motivo Magneto estava ali, mesmo com a ameaça das Sentinelas pairando sobre sua cabeça, mesmo com todas as baixas diárias na resistência Mutante. Aquele bebê também era sua responsabilidade afinal.

Makayla podia sentir essa admiração latente em Xavier. O professor apreciava a atitude do amigo e via nessa criança uma esperança, uma luz em meio a todas as trevas que haviam dominado a mente de Erik Lehncherr. Talvez um filho dissipasse toda a raiva que Magneto carregava sempre consigo.

Assim, ainda pelos olhos de Charles, a jovem Devinne viu o grupo continuar a subir a colina, havia nela um sentimento de orgulho, sua mãe pertencia a algo maior e lutava pelos amigos, isso era nobre.

Porém, se os X-Men apenas existiam em um universo diferente, o que havia acontecido para que a Psylocke lutando em uma guerra se tornasse apenas a Elizabeth Braddock que Danniel Devinne conheceu nos arredores de Sokovia?

Embora quisesse vasculhar a mente de Charles Xavier em busca dessa resposta, a jovem se sentiu estranhamente forçada a permanecer naquela memória, como se aquele fosse um passeio guiado e o condutor quisesse parar exatamente ali...

No fim da trilha Magneto bateu na porta de uma humilde cabana. Wolverine cobria a retaguarda e antes mesmo que a porta se abrisse, Xavier e Pskylocke trocaram um olhar cumplice, eles já sabiam da verdade trágica que Eric teve que escutar segundos depois.

— Vocês chegaram tarde demais. — A mulher velha e franzina que abriu a porta declarou com tristeza, apontando para o interior da cabana. — Ela não resistiu ao parto das crianças...

O pesar de Magneto passou pela mente de Xavier. Os dois homens entraram na residência acompanhados de Pskylocke, Wolverine permaneceu do lado de fora.

— Crianças? No plural? — O professor foi o primeiro a questionar, enquanto os olhos de Erik Lehncherr estavam focados no corpo sobre a cama no único cômodo amplo que compunha a cabana.

— São gêmeos. — A senhora respondeu, se apossando de uma cesta forrada com cobertas brancas e pousando o objeto sobre a mesa.

Os dois homens se aproximaram quase ao mesmo tempo, havia em Magneto uma certa reverência e, bem lá no fundo, escondido em sua pose firme, uma dose nada moderada de receio.

Xavier olhou a cesta onde dois bebês — de traços parecidos, mas não idênticos — dormiam praticamente abraçados, eram pequenos e frágeis, e a mente do professor se encheu de uma certeza que não era dele, vinha da mente do pai das crianças.

— Eu vou levá-los. — Magneto decretou com a imponência de quem pode governar um país.

Makayla poderia ter sorrido se estivesse ali de corpo presente, os bebês ficariam bem.

Sendo uma criança que também havia perdido a mãe logo ao nascer, ela se identificava com aqueles pequenos gêmeos dos quais sequer sabia o nome ainda.

— Você não pode fazer isso. — A mulher velha declarou, puxando a cesta de volta antes que Magneto pudesse tocar nos bebês.

Xavier soube naquele instante que Eric destruiria não só a cabana, mas a vila inteira para levar os pequenos com ele. E, tentando remediar as coisas, implorou por calma e ponderação na mente do amigo.

Magneto respirou fundo, alguns talheres sobre a pia tremiam descontroladamente. Psylocke estava com os pés estrategicamente posicionados, pronta para qualquer ação rápida que fosse necessária.

— Magda disse que seu povo quer sacrificar os meus filhos. — Erik Lehncherr silabou irritado.

Havia na voz dele uma imperatividade devastadora, Makayla finalmente viu a dualidade que estava impressa na mente de Xavier. Magneto era capaz de coisas terríveis para conseguir o que queria.

Mas em se tratando de um pai querendo proteger seus filhos, isso era mesmo tão ruim? Essa pergunta ficou impregnada no subconsciente da jovem Devinne, enquanto a memória de outrem continuava a passar diante de seus olhos azuis-cinzentos

— Existe uma profecia. — A senhora disse em tom apaziguador.

— Estou ciente disso, mas não acredito em profecias. — Magneto retrucou, dando um passo para frente.

— A crença de alguém não é fator chave para que profecias se cumpram. — A mulher recuou o mesmo um passo. — O que foi escrito não pode ser mudado.

Diversos objetos metálicos voaram no ar, se contorcendo sob um simples olhar de Magneto.

— Não pense que existe algo que eu não posso mudar. — Ele declarou com um tanto de prepotência na voz. Era uma ameaça muito clara.

A mulher com a cesta observou os gêmeos por um instante, então focou no corpo que estava coberto com um lençol sobre a cama.

— Você se apaixonou pelos bebês, assim como a Magda... — Havia um toque nada moderado de melancolia na voz dela. — E isso foi a ruina dela. Será a sua também. — Ergueu os olhos na direção de Magneto. — A criança pertence ao caos.

— Eu não tenho medo de um pouco de caos. — Magneto retrucou.

O clima na cabana parecia anteceder uma tragédia, era como se Pskylocke e Xavier estivessem prevendo a explosão devastadora de uma bomba. Na mente do professor havia essa certeza de que qualquer movimento ou palavra errada traria o pior de Eric à tona.

— Não é desse jeito. — A velha Romani lamentou com suspiro. — Mas você não entenderia.

— O que eu entendo é que não vou deixar um bando de velhos decrépitos sacrificarem meus filhos por causa de uma profecia boba. — Magneto declarou, olhando para ela como se lhe desse uma ordem.

— Magda também pensava assim. — A mulher garantiu. — Por isso ela tinha um plano...

— Entregar os bebês para mim. — Magneto completou antes que ela pudesse terminar.

— Não, sua ajuda é para outros fins... — A cesta foi colocada sobre a cama, ao lado do corpo coberto. — A mistura de gene X e magia dentro da criança vai trazer o caos para o mundo, um poder tão grande que vai devastar tudo, mas... se enviarmos essa criança para um lugar onde esse gene nunca vai despertar, então talvez exista uma chance.

— Do que você está falando? — Magneto estava impaciente, não era necessário ser um telepata para saber disso.

Xavier também se fez essa pergunta, mas ao invés de esperar pela resposta, ele mesmo vasculhou a mente da velha Romani para encontrar tudo que buscava.

— Multiverso. — O professor declarou em voz alta, olhando para Eric. — Magda queria abrir uma fenda para uma versão do nosso mundo onde o gene X nunca despertou, o plano dela era entregar a criança para ser criada em um lugar neutro, sem as crenças do povo dela ou contato com a magia; e sem as suas convicções extremistas ou qualquer tipo de poder.

— Um mundo sem Mutantes. — Magneto completou e havia nele uma pontada de raiva.

— E sem Sentinelas. — Xavier pontuou, mostrando um lado bom em tudo aquilo.

Todos ali sabiam muito bem como era ser caçado apenas por serem quem eram, todos ali conheciam o terror da incerteza e a ameaça dos Sentinelas. E, por mais que Magneto fosse extremamente orgulhoso, ele sabia que crianças sofriam demais na realidade em que viviam.

Ele sabia muito bem...

— Um mundo onde esse bebê nunca se tornará aquilo que está destinado a ser. — A mulher Romani declarou. — Um mundo onde não haverá acesso ao caos que sua criança usará para destruir tudo.

— Meus filhos seriam criados por estranhos em um universo estranho... — Magneto praticamente cuspiu as palavras, nada convencido.

— E talvez eles tenham chances de crescer em um mundo de paz. — Charles ponderou, entrando na mente do amigo e lhe mostrando a esperança que Magda tinha quando planejou tudo aquilo. — Uma chance que nós não teremos tão cedo.

Eric suspirou, talvez balançado pelo que viu. Olhou para a cesta que repousava sobre a cama e depois para a mulher que lhe mantinha afastado dos filhos.

— Mas então, se já existia um plano perfeito, porque fui chamado aqui para olhar nos olhos de algo que eu amaria à primeira vista e nunca poderia ver crescer? — A revolta em sua voz tocou de alguma forma o coração de Makayla, ela podia entender a dor de Eric, mesmo sem ter jamais sentido algo parecido.

— Magda sabia que os filhos precisariam de um guardião. — A mulher Romani explicou. — Alguém que não compartilhasse das crenças de seu povo e que cedo ou tarde acabaria cedendo a vontade dos ancestrais, alguém que fosse de confiança, mas que não se apegasse demais as crianças, como você ou ela fariam.

— Um aliado que o líder de um exército com certeza poderia prover. — Psylocke soprou desconfortável e recebeu um aceno positivo em concordância.

— Eu não uso os Mutantes a minha volta como se fossem peões. — Magneto declarou ofendido e irritadiço.

— Não foi isso que eu ouvi. — A velha Romani retrucou, olhando o homem de cabeça erguida.

Houve então esse momento de profundo silêncio, que para Makayla estava preenchido com uma discussão mental entre Eric e Charles. O professor tentava mostrar ao amigo todos os benefícios daquele plano, enquanto Magneto apontava cada detalhe absurdo. Além disso pairava no ar uma dúvida. Quem levaria as crianças através do multiverso?

— Eu vou. — Elizabeth Braddock declarou com um dar de ombros, ganhando um olhar totalmente surpreso de Eric. — Você não pode, é o pai, vai intervir. Além disso não seria seguro. Com todo respeito Magneto, você tende a ser meio viciado em poder. Sendo o único Mutante de um universo inteiro isso seria um problema. — O sorriso ela que exibiu tinha um ar de desafio. — Xavier não pode, os X-Men precisam dele. Wolverine é muito instável e tem fortes laços aqui. Eu sou a pessoa perfeita para o trabalho, sem laços, com o poder ideal para alocar as crianças em um local discreto, com bons pais e uma vida segura.

— Eu não gosto disso. — Magneto declarou naquele mesmo tom de desafio. — Você e meus dois filhos em uma terra estranha, com todo respeito, não sei se confio tanto assim em você, Pskylocke.

Elizabeth riu de canto, e era possível notar a rivalidade amigável que havia ali. Pela mente de Xavier, Makayla soube que sua mãe e Magneto haviam passado de rivais para aliados várias vezes durante a vida.

— Na verdade, apenas uma das crianças precisa atravessar. — A velha Romani interrompeu, pegando a cesta e finalmente a entregando nas mãos de Magneto. — Apenas a garota. O menino não faz parte disso. A profecia é sobre ela.

Magneto encarou os dois bebês, acariciando o rostinho de cada um deles com o indicador e ficando pensativo por alguns instantes.

— Não... — Declarou por fim. — Eles são irmãos gêmeos, separá-los assim seria cruel demais, se formos fazer isso eles precisam estar juntos, vão precisar um do outro.

Os três mutantes na sala se entreolharam, como se ponderassem em consenso se aquele era mesmo um bom plano...

— Gente! — A voz de Wolverine veio alta lá de fora. — Temos um problema.

Uma aeronave se aproximava, suas cores deixavam bem claro que eram posse das Trask Industries, ou seja, haviam Sentinelas a caminho.

— Seu tempo está acabando, você decidir agora. — A velha Romani agarrou o braço de Magneto de forma urgente, então o puxou com ela para uma mesa ao canto.

Ali em cima, sobre um mapa simples da região, havia um tipo de dispositivo tecnológico, era muito difícil saber o que era exatamente porque Makayla nunca tinha visto nada igual, e pelas memórias de Xavier ele também não. Lembrava um relógio de pulso, embora fosse maior, como um bracelete, e ao mesmo tempo em que parecia feito de pedra, também parecia ser de metal.

— Isso vai abrir uma fenda entre os universos, mas se, e apenas se, for usado hoje ao pôr do sol, nesse ponto exato do mapa. — A mulher apontou o lugar, colocando o dispositivo na cesta com os gêmeos em seguida.

— Por que? É um feitiço? — Psylocke questionou, se aproximando alguns passos para olhar o objeto estranho.

— É uma chave, dada por um amigo de Magda. — A resposta não revelou coisa alguma.

— Amigo? — Magneto repetiu, enquanto do lado de fora os sons indicavam que a destruição e pânico estavam se alastrando pelo lugar.

— Um homem que veio até ela em momento de necessidade, alguém que garante que esse outro universo seja seguro e isolado das eventualidades do acaso. — A velha Romani respondeu de forma apressada.

— O que infernos isso quer dizer? — Magneto soltou em tom irritadiço.

— Gente! Temos que ir agora! — A voz de Wolverine veio junto com o som do que parecia disparos.

Xavier olhou novamente pela janela e a pequena vila já se transformara em caos, de dentro da aeronave vinha uma nuvem que parecia de gafanhotos, mas que Makayla sabia através de memórias serem uma evolução do Projeto Sentinela, milhares de nano robôs, que se desmontavam e montavam em outros tipos de formas, sejam Sentinelas gigantes, como aquela que se formava ao norte, ou o que pareciam aranhas voadoras que escaneavam a vila e ativaram por toda a parte.

Era o caos completo, focos de incêndio começavam a aparecer por toda a parte, cabanas e tendas eram pisoteadas, pessoas gritavam em desespero... E aquilo sequer era um decimo de uma batalha de verdade, Makayla conseguia ver isso na mente de Xavier.

— Vamos. — Magneto decidiu, entregando para Charles a cesta com os gêmeos e o dispositivo.

O grupo abandonou a cabana, o Professor com as crianças na frente, flutuando em sua cadeira, a mulher Romani seguindo logo atrás com olhos arregalados de medo, Psylocke e Magneto no meio e Wolverine no fim.

Não demorou para que eles fossem alcançados, as aranhas robóticas vieram primeiro, Wolverine revelou garras de metal que saíram do dorso de sua mão, se lançou sobre o inimigo com selvageria e rolou morro abaixo em uma luta física.

— Não parem! — Erik Lehncherr ordenou, olhando os dois bebês na cesta em uma despedida muda, antes de dar meia volta para focar na nuvem de nano-robôs que se aproximava rapidamente.

Makayla conseguiu sentir o desespero na mente de Xavier, no princípio as Sentinelas eram feitas exclusivamente de metal, dando a Magneto vantagem absoluta, com o passar das batalhes a tecnologia achou uma forma de evoluir, e os inimigos robóticos ganharam compostos orgânicos em seus corpos, algo feito exclusivamente para mascarar e proteger o metal que era utilizado em outras partes. Eric não tinha mais a vantagem.

Na verdade, qualquer Mutante que enfrentasse uma Sentinela estava em risco...

Quando Xavier olhou por sobre o ombro, Makayla pode ver a imensa figura se formando, tinha cerca de dez metros de altura, sua cabeça era extremamente parecida com aquela que a jovem tinha visto na mente de Emma. Magneto, que naquele instante flutuava no ar, uniu todo o metal ao redor e fez uma lâmina gigante que arrancou a cabeça do inimigo.

A coisa rolou montanha abaixo, mas de sua enorme boca aberta saíram milhares de nano-robôs que logo se uniram e formaram um outro corpo gigante que novamente se acoplou na cabeça... A cena, além de impactante e bizarra era uma total novidade para Charles Xavier. As Sentinelas haviam evoluído uma vez mais, elas conseguiam se reconstruir.

Nesse instante o professor teve que virar seu corpo para o outro lado, já que bem na frente deles outra nuvem de nano-robôs começou a se agrupar.

Makayla estava assustada, Xavier segurava a cesta com os bebês no colo, e sim, ele era um telepata poderoso, porém contra as Sentinelas ele pouco podia fazer... Foi nesse instante que Psylocke pulou na frente deles, em suas mãos surgiram, como se por mágica, lâminas feitas do que parecia pura energia.

Armas psíquicas. Foi a informação que a jovem Devinne conseguiu na mente de Xavier, Elizabeth Braddock era uma telepata e dentre todas as suas habilidades, ela também possuía o dom de transformar sua energia mental em coisas físicas, isso se manifestava como aquelas adagas de energia purpura com as quais ela batalhava contra a Sentinela naquele momento.

Ela era incrível...

Não eram apenas os poderes, ficava bem claro que Psylocke possuía habilidades físicas dignas de uma ninja quando se tratava de uma luta corpo a corpo. O coração de Makayla se encheu de admiração e empolgação. Sua mãe era muito foda.

Enquanto a batalha acontecia por toda a parte, eles iam avançando aos poucos, no local indicado a velha Romani mexeu no estranho dispositivo tecnológico — ou mágico, impossível saber — que estava na cesta e uma porta se abriu. Mas não era como as portas que Makayla viu enquanto despencava naquele estranho buraco momentos antes, era mais como um portal feito de um tipo de luz dourada, estava ali no meio, mas não parecia físico de fato.

— Eles precisam ir agora! — A mulher ordenou.

Wolverine e Magneto se aproximaram dos outros, dando cobertura para que Psylocke pudesse recuar em direção aos bebês.

— Magda deu um nome a eles? — Xavier perguntou para a velha Romani, enquanto olhava para os gêmeos uma última vez.

— Sim. — A mulher assentiu, enquanto Psylocke pegava a cesta. — Wanda e Pietro.

A mente de Makayla entrou em curto. É evidente que ela conhecia aqueles nomes. O choque foi tanto que ela se sentiu sendo sugada para fora da lembrança por sua própria desconcentração, foi como se todas as memórias de Xavier passassem diante de seus olhos em alta velocidade...

Psylocke atravessando a porta com os gêmeos no meio da batalha; Wolverine cortando a cabeça de uma Sentinela gigante; Magneto gritando para impedir a cabeça de rolar pela porta segundos antes que ela se fechasse e sendo atingido pela pata afiada de uma das aranhas; O sofrimento de Xavier ao segurar o corpo do amigo e amor de uma vida nos braços.

E depois disso cada ano foi um pouco mais cruel e trouxe uma nova perda, uma nova morte, até que os Sentinelas ganharam a guerra e tudo que restou foi um Charles Xavier capturado e levado para seu antigo Instituto, que agora era apenas mais um centro de detenção mutante. Ele acabou ali, sendo mantido em coma constante para que seus poderes não se tornassem um problema. Apenas um homem velho esperando a morte chegar...

A mente de Charles Xavier havia criado para ele um refúgio mental com a aparência de seu antigo Instituto, mas a verdade era muito pior que isso. O Professor era o último dos X-Men.

Era nesse lugar, que não era um lugar de fato, que as mentes de Charles e Makayla haviam se encontrado. Um encontro astral e multiversal, por assim dizer...

A jovem Devinne estava no chão, não recordava muito bem do momento em que havia caído mas ali estava, trêmula e assustada como uma garotinha, as memórias de Xavier, apesar de esclarecedoras, eram dolorosas e tinham um final cruel. Olhando nos olhos do homem naquele instante a jovem soube que ele não queria falar sobre nada daquilo. Talvez sequer pretendesse mostrar o final de suas lembranças para ela. Foi o choque de Makayla que a levou por esse caminho proibido.

Ela respirou fundo e se colocou de pé, resolvendo focar na parte das lembranças que lhe pareciam permitidas.

— Aquela era... Wanda... A Wanda Maximoff? — Questionou, ainda desnorteada.

Era difícil olhar para Xavier e saber a dor que ele carregava, mas não se sentir no direito de falar sobre isso. Tinha sido uma intrusa, roubado memórias que o homem não queria compartilhar.

— Pelo visto eu estava mesmo certo sobre minhas teorias. — Charles declarou, afastando de sua voz um peso que agora Makayla entendia completamente. — Você a filha da Psylocke e atravessou o multiverso.

Obviamente, enquanto a jovem assistia as memórias do professor, ele também era capaz de ter acesso as lembranças dela.

— O multiverso que minha mãe já havia atravessado uma vez pra salvar Wanda e Pietro Maximoff... — Makayla completou, focando no que importava ali.

Xavier assentiu de forma automática, ficando alguns segundos preso nas próprias conjecturas.

— E pelo que vi em sua mente levar os gêmeos embora não impediu que as mutações deles se desenvolvesse. — Ele declarou após a pausa, mas parecia estar falando sozinho. —Algo deu errado...

— Wanda Maximoff é uma heroína, ela nunca destruiria o mundo. — A jovem declarou convicta e com isso ganhou um olhar direto do professor.

Sim, tinha o tal sequestro da cidade, mas podia ser apenas exagero da mídia e, de uma forma ou de outra, foi apenas um evento isolado. Makayla realmente não acreditava que Wanda fosse uma vilã.

— Espero que esteja certa, Makayla. — O tom preocupado na voz de Charles era evidente. — Espero que esteja certa...

Certo. A coisa toda com Wanda e Pietro era uma surpresa e tanto, saber que o tal Objeto Zero era na verdade uma cabeça de Sentinela vinda do multiverso era uma revelação sem dúvida importante, porém por mais respostas que aquela viagem pela mente de Charles Xavier tivesse trazido, ainda haviam perguntas, talvez mais até do que antes.

— Se o meu universo supostamente é uma realidade o sem mutantes, como eu... — Makayla começou a formular seu questionamento, mas não precisou terminar.

— Eu acho que tem a ver com as pedras. Joias do Infinito, não é? — Xavier comentou pensativo. — Pelo que vi em sua mente, Wanda e Pietro foram cobaias em experimentos com uma dessas pedras, e assim desenvolveram poderes.

— É a informação que o público tem. A única pessoa que sabe exatamente o que aconteceu é a própria Wanda já que o Pietro está morto agora. — A garota respondeu com um leve dar de ombros.

— Acredito que por terem nascido aqui, eles tinham o gene adormecido no organismo, por isso foram os únicos que sobreviveram a esses experimentos. Além disso, a magia latente em Wanda deve ter crescido exponencialmente com esse contato, fazendo dela um dos seres mais poderosos do universo, se não o mais poderoso de todos... Nossa tentativa de afastá-la da profecia foi exatamente o que a levou direto para esse mesmo caminho. — O professor parecia divagar no próprio raciocínio, era evidente que para ele era importante saber o que tinha “dado errado”, no futuro planejado para Wanda e Pietro, afinal atravessar os gêmeos tinha sido o começo do fim para os X-Men.

Foi nesse dia que Charles perdeu Eric...

Makayla não queria ser inoportuna nem nada assim, evidente que a coisa com Wanda e Pietro era grande e importante, porém parecia um tanto absurdo ela ter caído em um buraco de coelho aberto por um bebê milagroso apenas por causa de uma fofoca multiversal. Aquela conversa tinha que render algumas respostas sobre si mesma também.

— Isso explica a vida deles, mas não tem nada a ver comigo, quer dizer, agora eu sei de onde minha mãe veio, sei que o que é aquela cabeça gigante, mas nada disso explica como eu tenho essas habilidades, eu nasci no meu universo afinal e nunca entrei em contato com alguma das joias. — Ela expôs sua duvida principal.

Xavier encarou a garota por um instante e então sorriu como se ela tivesse deixado de pensar algo muito importante.

— Na verdade você entrou em contato com todas elas... indiretamente.

Makayla franziu as sobrancelhas sem entender nada.

— Eu vi na sua mente, você foi “blipada”, não é? Foi desintegrada pelo poder de todas as joias juntas e depois voltou por causa desse mesmo poder... — Xavier explicou de forma simples. — Um evento dessa magnitude com esse poder desconhecido e absurdo envolvido, certamente seria o bastante para fazer com que os organismos humanos predispostos revelassem um gene X.

Puta merda.

— Nesse caso teríamos Mutantes em toda a parte, metade da população foi blipada. — Makayla argumentou, pensando no caos que isso geraria no mundo.

— Veja bem, eu disse indivíduos predispostos, e não todos os que passaram pelo tal blip, e além da predisposição precisa haver um gatilho. — O professor elucidou calmamente.

— Um evento traumático que desperta os poderes da pessoa... — A garota balbuciou, lembrando do amigo que havia feito na clínica de Jackson Brooks.

— Exatamente. — Xavier assentiu. — Assim como o garoto que você conheceu, Bobby Drake. Eu o vi em sua mente... O curioso é que também tive um aluno chamado Bobby Drake, eram diferentes fisicamente, mas com o mesmo poder, como se fossem variantes da mesma pessoa... Certamente é assim que o multiverso funciona.

A coisa toda de variantes parecia muito interessante de fato. Será que haveriam outras versões da própria Makayla por aí? Será que todas elas se apaixonariam perdidamente por um Bucky Barnes? Ou será que em cada versão da realidade Bucky estava destinado em ser amado por alguém diferente? Talvez algumas dessas pessoas preferissem até chamá-lo de James... Vai saber.

Makayla teve que impedir sua mente de divagar para tão longe e focou no que realmente parecia um problema naquele instante.

— Se você estiver certo, então cedo ou tarde a minha realidade vai estar cheia de Mutantes. — Ela opinou preocupada. — O que não falta lá no meu mundo são eventos estressantes pra gerar gatilho em geral.

Talvez milhares de pessoas com habilidades já estivessem espalhadas por toda a parte, podiam ser boas pessoas, com medo de tudo aquilo; pessoas valorosas, prontas para usar seus dons para ajudar o mundo; ou então pessoas ruins que usariam o poder para benefício próprio e machucariam inocentes no caminho...

Tinha potencial para se tornar uma catástrofe.

— Com certeza, provavelmente sua realidade já está cheia de Mutantes nesse instante, aos poucos eles vão se revelar. — Xavier dizia com a calma de um monge, enquanto Makayla surtava por dentro. — E eu acho que eles precisarão de orientação.

Algo dentro dela coçava ou ardia de forma desconfortável, mas a jovem desconsiderou isso para prosseguir com a conversa.

— Bom, se essa coisa de “variante” é verdade, com certeza tem um de você por aí pra ser o professor deles, certo? — Questionou, coçando a ponta do nariz como se isso fosse diminuir o desconforto que formigava por seu corpo todo.

— Ou talvez não tenha. Nenhuma realidade é igual a outra. É exatamente essa a premissa do multiverso, não é? — Charles Xavier discursou, encarando Makayla por alguns instantes. — Eles vão precisar de outra pessoa, alguém com conhecimento o bastante sobre tudo isso...

— A Wanda? — A jovem perguntou de forma inocente, enquanto coçava o antebraço direito. Nunca foi de ter alergias, mas a coisa estava evoluindo de tal forma que parecia esse o quadro, fora a dor de cabeça chata bem lá no fundo de sua mente.

— Você, Makayla. — O professor declarou como se fosse a coisa mais óbvia de todas. — Você é a pessoa perfeita.

Makayla acabou caindo na risada, algo que misturava nervosismo e desespero.

— Amigo, eu não consegui nem ensinar meu cachorro recém-adotado a me obedecer, como é que vou ensinar um número não contado de Mutantes a controlar o poder deles? Eu não controlo nem o meu. — Ela rebateu com uma pitada nada moderada de humor depreciativo na voz.

Charles Xavier a encarou por alguns instantes com olhos compassivos, pareceu prestes a dizer algo, mas focou no movimento que Makayla fez para coçar a nuca, então claramente mudou de ideia sobre o que diria.

— Você devia ir agora, sua mente está dando indícios claros de estafa, manter uma projeção astral comum já é bem complicado, uma que atravesse o multiverso é mais cansativo ainda. — Ele apontou para o local que a jovem estava coçando. — E não queremos que fique presa no universo errado, certo?

Então aquele formigar estranho por todo seu corpo era isso, sua mente cansada demais para manter a tal projeção... Fazia sentido até, como um celular que começa a dar avisos quando a bateria está acabando.

— Pois é, melhor eu ir, mesmo porque, pelo que eu sei, já estou presa no subsolo de uma instalação secreta, melhor não piorar as coisas. — Makayla moveu os ombros para esconder sua preocupação.

Ainda haviam muitas perguntas, mas pelo jeito não tinha tempo de conseguir todas as repostas ali...

Estava pronta para perguntar como voltaria, ou como invocaria o bebê milagroso pra abrir uma passagem pelo multiverso, quando a risadinha infantil cortou o ar e no fim da passarela, do mesmo lugar por onde Makayla tinha entrado, apareceu a porta de antes.

Muito apropriado... Mas ainda assim bizarro. Makayla revirou os olhos para a maluquice que era sua vida, deu um sorriso para Charles Xavier e caminhou em direção ao fim da passarela.

— Makayla? — O professor chamou antes que ela alcançasse a porta e a jovem olhou por sobre o ombro. — Você é uma Mutante, fique orgulhosa disso. — A declaração paralisou Makayla por um instante. — Você pode fazer coisas grandiosas.

Ela respirou fundo de forma frustrada, então deu de ombros fingindo conformismo.

— Pena que eu não faço ideia de como fazer essas coisas. — Forçou um sorriso. — Eu sou um tantinho inútil pra ser honesta, como deve ter visto meus poderes sequer voltaram por completo e, eu posso estar aqui caminhando, mas não tenho mais controle das minhas pernas. — Apontou para o professor. — Como você.

— Não. Não é como eu, Makayla. Eu sofri uma lesão na coluna, exigia uma grande quantidade de concentração e poder permanecer andando, poder esse que eu senti que seria melhor empregado em outras coisas. — Ele declarou de forma simples.

Makayla sabia que Charles não precisaria estar ali em uma cadeira de rodas se não quisesse, afinal era apenas uma projeção, porém ele havia acostumado com isso e era confortavelmente nostálgico manter as coisas como sempre tinham sido.

— E eu tive um tumor cerebral, ué, mesma coisa. — Ela rebateu, claramente na defensiva.

— Não. Você tentou reprimir seus poderes com drogas experimentais e eles eram grandes demais para ficarem presos no seu cérebro, isso começou a adoecer seu corpo. — Xavier explicou de forma direta e até um pouco dura. — Essas habilidades não nasceram para ser contidas.

— Mas essa não era sua missão de vida? Tentar adaptar os Mutantes no mundo humano? — Makayla devolveu, cruzando os braços de forma desconfortável. O formigamento estava aumentando de um jeito impossível de ignorar, mas aquela discussão parecia mais importante.

— Adaptação não é repressão. O que eu sempre quis é que pudéssemos viver em equilibro, sem ferirmos uns aos outros. Mas nunca acreditei que pudéssemos ou devêssemos ser curados. Não estamos doentes, Makayla. Somos Mutantes. — Charles explicou e realmente parecia um professor naquele momento. — E nossa mutação é como um músculo que pode ser exercitado, ensinado, treinado para evoluir. Mas essa mutação também é mais que isso, porque é tão inesperada e perfeita quanto um instinto, o gene X vai combater qualquer coisa que julgue uma ameaça, foi o que ele fez com a “cura” que você tomou. — Prosseguiu, focando os olhos nas íris azuis-cinzentas de Makayla — Pare de duvidar de si mesma e confie nos seus poderes. Você vai entender que nenhuma droga ou dispositivo criado no seu mundo pode controlar essas habilidades. Eles não estão preparados para a sua mutação. Você é mais forte que isso. — Ele sorriu calmamente. — E eu desconfio que cedo ou tarde você vai descobrir como ser a pessoas que você tem que ser. As respostas estão na sua mente, Makayla. Procure por elas.

A jovem não entendeu muito bem o que aquela última parte queria dizer. Que respostas estavam em sua mente afinal? Porque, sendo bem honesta, ela só tinha perguntas... Chegou a abrir a boca para dizer isso, mas Xavier interrompeu.

— É melhor você ir agora. — Ele apontou a porta atrás da jovem, que começava a oscilar como uma televisão de sinal ruim.

Pelo visto não era só a mente dela que estava cansada...

Teria que ir embora com suas perguntas então.

— Obrigada, Professor. — Agradeceu com honestidade, porque, de uma forma ou de outra, aquele encontro tinha sido muito esclarecedor.

— Não, eu é que agradeço por me permitir guiar uma última aluna. — Charles Xavier sorriu de forma pacifica. — Adeus.

Makayla atravessou a porta com a sensação melancólica de estar deixando alguém para trás, não havia como salvar o Professor Xavier de seu próprio destino, o universo dele não fora um bom lugar para os Mutantes, e no fundo a jovem sentia essa responsabilidade de não deixar acontecer o mesmo com a sua realidade...

Mas antes de pensar em salvar alguém, ela teria que descobrir como salvar a si mesma.

A viagem de volta não foi tão pacífica quando a ida, Makayla não flutuou na estrada multiversal, ela despencou por infinitos minutos, até que caiu de um buraco de coelho direto na sala de espelhos, como quem caí do sótão de uma casa velha.

O baque seco de seu corpo contra o chão não causou dor propriamente, mas foi bastante desconfortável.

— Sério, Bebê Milagroso, vamos ter que trabalhar nessa aterrisagem, hein. — Resmungou ainda deitada, mas não houve sequer uma risadinha infantil como resposta.

Pelo visto estava sozinha.

Se sentou ainda no chão e olhou ao redor, ponderou que talvez aquele labirinto de espelhos não fosse algo físico, podia ser uma ilusão ou até outra viajem astral. Não tinha certeza de como Emma conseguiria fazer algo assim, mas já havia passado da hora de duvidar da capacidade daquela víbora...

O que importava é que Makayla sabia que estava presa — mental ou fisicamente — e precisava sair dali o mais rápido possível.

Sendo assim. se colocou de pé e passou a andar entre o labirinto, imaginou se o Bebê Milagroso poderia abrir uma porta para fora daquele lugar, mas logo lhe ocorreu que o poder dele talvez funcionasse apenas para mandar mentes em viagens pelo multiverso...

Uma criança que sequer nasceu e já tem poderes... Realmente um Bebê Milagroso.

Depois de andar por um tempo não contado, Makayla admitiu que estava perdida.

— Mas que merda hein... — Olhou para o próprio reflexo de forma frustrada. — Como eu vou sair dessa merda de lugar?

De repente lhe ocorreu que talvez ela pudesse quebrar os espelhos, era óbvio que atrás deles havia uma estrutura metálica, mas e se houvesse uma passagem ocultada em algum lugar?

Assim que esse pensamento cortou a mente de Makayla seus olhos captaram um movimento sutil às suas costas, no primeiro instante ela imaginou que seria apenas um oscilar de seu próprio reflexo em um dos espelhos, mas ao ficar parada e olhar ao redor ela pode jurar que viu sua figura se mover...

Deu alguns passos naquela direção, desconfiada, já imaginando que tipo de bizarrice viria pela frente, porém, ao virar mais uma esquina de espelhos não encontrou nada além do próprio reflexo.

Respirou fundo, estava aliviada e sentindo-se um pouco idiota, o que pensou afinal, que seria perseguida por um serial killer dentro de uma casa mal assombrada de espelhos como em um filme de terror macabro?

Riu de si mesma, movendo a cabeça de um lado para o outro e decidindo dar meia volta, ainda precisava encontrar um jeito de sair dali. Porém assim que se virou deu de cara com uma figura que fez seu próprio grito de susto ecoar pelo ar.

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— Mas que merda! — Xingou logo que caiu sentada no chão.

Uma versão sem face de si mesma estava parada bem ali movendo a cabeça de forma estranhamente robótica.

Isso não pode estar acontecendo...

Foi se arrastando para trás enquanto piscava freneticamente como quem tenta acordar de um pesadelo. Atrás da figura com seu corpo — mas que no lugar da face tinha apenas o crânio coberto de pele, sem olhos, nariz ou boca, — vinha acompanhada de outras duas exatamente iguais, todas elas caminhando em conjunto em direção a verdadeira Makayla.

Havia algo de robótico nelas, isso era fato, porém naquele estado de pânico absoluto nenhuma teoria lógica seria feita. Quando um tipo de pesadelo encarnado está te perseguindo você só pensa em fugir, não em explicar a situação inacreditável em que se encontra.

Makayla finalmente conseguiu se levantar, correndo por um corredor e outro enquanto ouvia os passos de suas perseguidoras atrás de si. Em sua mente a única coisa compreensível era uma sucessão infinita e ininterrupta de “fodeu, fodeu muito”.

Enquanto olhava por sobre o ombro, tentando calcular sua vantagem, ela virou desavisadamente por mais uma esquina de espelhos e só quando seu corpo se chocou em um deles foi que se deu conta... estava em um beco sem saída.

— Quando eu penso que não posso estar mais fodida... — Resmungou para si mesma, vendo que suas versões sem face já haviam bloqueado a passagem.

Por um segundo Makayla se perguntou o que aconteceria se fosse pega, será que acordaria e finalmente veria que tudo não passou de um pesadelo? Será que seria levada uma sala de tortura? Será que passaria por um ritual macabro que a faria virar também uma versão sem rosto de si mesma?

Fosse o que fosse a jovem não estava nada ansiosa para descobrir...

Não era uma boa lutadora, mas se tivesse que lutar para sair dali, então faria isso. Provavelmente perderia, mas enfim, melhor cair lutando, certo?

Ela chegou a erguer os punhos em uma posição ofensiva — bem desengonçada, mas uma tentativa válida — porém nesse instante algo agarrou uma das perseguidoras.

Uma a uma, aquelas versões estranhas foram puxadas para fora do campo de visão de Makayla e, a julgar pelo som de metal sendo dilacerado, elas foram destruídas por aquele “algo”.

Logo o silêncio pairou no lugar, Makayla tinha os olhos nos espelhos, tentando ver qualquer coisa que não era mostrada pelos reflexos ainda, foi nesse instante que um corpo apareceu em seu campo de visão. Aquilo que havia lhe salvado não era “algo”, era alguém...

Alguém com olhos gélidos extremamente conhecidos.

— Bucky?

Assim que o nome pairou no ar, carregado de saudade, alivio e empolgação, Makayla analisou melhor a figura; coturnos e roupas de couro negro, máscara cobrindo o rosto, olhos manchados de preto, cabelo mais comprido e um braço de metal prateado com uma estrela vermelha...

— Você não é o Bucky. — A jovem se deu conta. — Você é o Soldado Invernal.

Ele ficou parado exatamente onde estava, a postura digna de um militar altamente treinado, os olhos fixos em Makayla de um jeito extremamente intenso e então, em mais uma de suas já usuais epifanias, a jovem teve certeza da verdade.

— Ah meu deus, isso tudo está acontecendo dentro da minha cabeça... — Ela declarou finalmente. — Eu estou presa aqui por causa daquela coisa que a Emma colocou na minha testa.

Tinha visto na mente de Charles que existiam tecnologias capazes de suprimir o poder mutante, coleiras usadas nas prisões... Era totalmente possível que Emma tivesse conseguido produzir algo viável, mas não totalmente eficaz a ponto de impedir Makayla de fazer uma viagem astral... Quer dizer, a tecnologia não era tão nova assim, certo? A própria Wanda Maximoff ficou algum tempo presa na Balsa.

Então era isso, seu corpo estava desacordado, mas sua mente continuava em atividade, tinha atravessado multiverso em busca de respostas e agora, que havia retornado e decidido fugir, a tecnologia suprimindo os poderes de Makayla estava se manifestando como as perseguidoras sem rosto para mantê-la ali por mais tempo.

Uma tentativa de continuar contendo seus poderes.

— E você... — Ela se aproximou alguns passos do Soldado Invernal, sentindo uma saudade imensa de Bucky ao olhar para versão dele que mais o assombrava. — Você é uma manifestação subconsciente de tudo que aprendi na mente do Bucky, criada pelos meus poderes para me proteger.

Era como Xavier tinha dito, o gene X tinha seus próprios instintos e sempre achava um jeito de combater aquilo que lhe ameaçava...

Makayla achou extremamente simbólico e tocante que sua mente tivesse escolhido justo o Soldado Invernal para lhe proteger. Aquela era a prova do quanto amava Barnes incondicionalmente, confiando nele de forma tão completa e plena que daria a própria segurança nas mãos dele, mesmo se fosse nas mãos daquela parte de si que Bucky julgava tão indigna de carinho e amparo.

Tinha que voltar pra ele, não importa o que custasse.

Era impossível ver os lábios do Soldado Invernal, por causa da máscara, mas dava para notar o sorriso dele no olhar, era quase como se ele estivesse satisfeito por Makayla ter descoberto tudo aquilo sozinha... Obviamente era o próprio subconsciente da jovem que estava orgulhoso, mas havia algo de muito reconfortante em pensar que o verdadeiro Bucky também estaria.

— Bom, e você sabe como sair daqui? — Ela questionou, sentindo uma injeção de ânimo tomar conta de si.

Porém o Soldado nada disse, apenas continuou ali, parado com sua postura protetora.

— É claro que não seria tão fácil, não é mesmo? — Makayla revirou os olhos e riu de si mesma.

Olhou ao redor alguns instantes e teve uma ideia.

— E você, por acaso, saberia onde eu posso encontrar respostas sobre como sair daqui? — Tentou, e finalmente o Soldado Invernal se moveu.

Ele passou por ela depois de assentir uma única vez, caminhando para o fim daquele beco de espelhos, então, dando um passo para trás preparou o punho de metal e socou o vidro, fazendo com que os cacos voassem por toda parte. Ali atrás, em uma parede metálica, havia um tipo de janela totalmente escura.

Makayla se aproximou alguns passos, passando a cabeça pelo lugar e notando que não havia nada do outro lado, parecia apenas um grande abismo sem fim, totalmente escuro.

— Que maravilha... — Ironizou, voltando a cabeça para dentro da sala de espelhos.

Pelo visto tinha achado uma janela para as profundezas de sua mente e teria que mergulhar fundo se quisesse respostas. Não podia ser mais óbvio, não é mesmo?

O Soldado Invernal estendeu sua mão metálica fornecendo o apoio que Makayla precisaria se quisesse pular a janela, ela respirou fundo e aceitou, parando no parapeito e olhando por sobre o ombro, para os olhos gélidos exatamente iguais ao do homem que tanto amava.

— Obrigada. — Agradeceu, mesmo sabendo que estava falando com uma projeção de seu próprio subconsciente.

E então pulou...

Cair foi estranho, porque o caminho era um breu tão absoluto que a queda sequer era sentida, Makayla parecia apenas pairar ali, vagando no nada por uma eternidade inteira. Durante esse tempo uma infinidade de sentimos lhe invadiu, aqueles que havia escondido dentro de si por tanto tempo que foram esquecidos...

Era um encarar a si mesmo de forma íntima, mas sem ver nada, era entender as verdades profundas e desvendar os traumas que tinham feito dela quem era. Mas não havia agonia nisso, não havia mais raiva ou dor... Era como um processo de catarse. Era o se entender de verdade e estar em paz com isso.

E então veio a luz... Esse brilho roxo que crescia rapidamente lá no fundo do vazio, Makayla não sabia se estava caindo em direção a isso ou se era a claridade que vinha subindo em direção a ela, todavia, independente da ordem dos fatores, o produto final foi o mesmo, ela foi engolida pela luz...

Foi como encontrar um tesouro guardado, um baú de memórias que não eram suas, a história de uma vida.

A vida de Elizabeth Braddock mais precisamente...

Cada partícula de brilho continha um momento especifico. Makayla pôde ver com os próprios olhos a mãe atravessar o multiverso com Wanda e Pietro, então usar seus dons para fazer com que os gêmeos fossem criados como filhos legítimos por uma boa família em Sokovia. Um país em plena guerra civil não era uma escolha óbvia, mas foi uma estratégia bem pensada afinal a cabeça de Sentinela que também havia atravessado o multiverso tinha se desfeito em nano-robôs e obviamente estava caçando Pskylocke.

Se esconder em um local improvável com o caos de uma guerra civil como proteção era o melhor que poderia fazer por Wanda e Pietro.

Elizabeth mantinha a mente das crianças protegidas e cuidava dos pais deles também, dessa forma o impacto mental dos terrores externos não os afetava. Porém ela também tinha que ser cautelosa, ocultar os poderes o máximo possível e usar todas as técnicas que havia aprendido na resistência mutante para se manter indetectável dos nano-robôs Sentinelas que estavam sumidos nesse novo e não tão estranho mundo.

Por alguns anos Elizabeth orbitou ao redor dos gêmeos, que cresciam bem e com uma boa vida mesmo com a guerra civil da Sokovia ao redor, enquanto isso, ela usava seu tempo para trabalhar em um vírus capaz de neutralizar a Sentinela, mas logo o trabalho solitário em um mundo estranho começou a pesar em seu emocional...

Psylocke então teve a ousada ideia de achar uma forma de abrir um novo portal no multiverso e assim trazer seus amigos mutantes para essa realidade. Ela estudou por um ano inteiro e, quando finalmente pensou ter achado uma solução ele a visitou.

Aconteceu em um dia comum, Elizabeth chegou no pequeno cômodo que alugava em Sokovia e o homem já estava em sua casa, sentado atrás de sua mesa de estudos olhando suas anotações. Trajava vestes roxas, tinha a pele negra e uma postura despreocupada demais para um invasor.

A primeira coisa que Psylocke tentou foi ler a mente dele, porém não obteve nenhum sucesso.

— Você não quer fazer isso... — O intruso ainda olhava as anotações quando falou aquilo em voz alta.

Impossível saber se o estranho falava sobre a tentativa falha de Elizabeth em ler sua mente, ou se estava se referindo ao que via nos estudos.

— Quem é você? — Ela questionou cautelosa, já se preparando para o ataque.

O homem se arrumou na cadeira e focou seus olhos em Elizabeth.

— Eu tenho muitos nomes, tive tantos outros através das eras... — Disse em um floreio animado. — Alguns me chamam de “Aquele Que Permanece”. Mas se preferir algo mais simples pode usar Kang.

Os nomes nada diziam para Elizabeth, porém um invasor era um inimigo, isso era tudo que ela precisava saber.

— Olha, Kang. — Declarou movendo a mão, pronta para fazer surgir uma de suas lâminas feitas de energia psíquica. — Se veio aqui procurando por uma briga, saiba que vai perder.

— Você é corajosa, eu gosto disso. — O intruso sorriu amigável, então seu olhar vagou para longe por um instante. — Pra ser honesto faz muito tempo que não perco uma briga... — Voltou a focar em Elizabeth. — Mas não vamos precisar das armas psíquicas que você conjura, não vim aqui atrás disso, vim te dar um aviso.

A mãe de Makayla franziu as sobrancelhas de forma confusa, como ele sabia daquilo?

— Quando sugeri a Magda que atravessasse a criança da profecia pelo multiverso isso foi extremamente bem pensado. Esses planos certamente não incluem uma travessia desenfreada de mutantes. — O estranho chamado Kang apontou as anotações de Elizabeth sobre a mesa. — O equilíbrio dessa linha do tempo em que estamos é o que garante que outros universos não colidam com esse. Nada pode sair do planejado.

Não foi difícil unir todas as informações e entender quem era aquele homem...

— Você é o “amigo” de Magda, o homem que disse que essa realidade era segura. — Elizabeth declarou em voz alta.

Em seus estudos sobre o multiverso tinha se dado conta de que devia haver algo, ou alguém, que protegia aquela realidade.

Alguém poderoso ou inteligente o bastante para saber manipular e ler todas as probabilidades...

— Como disse, gosto de você. — Kang declarou, parecendo orgulhoso de que ela tivesse descoberto tudo. — Gosto mais ainda que tenha aprendido a agir com tanta discrição. — Sua voz se tornou mais grave e séria. — Não vamos mudar isso agora.

Era uma ameaça bem clara.

— E se eu não concordar? — Elizabeth retrucou de cabeça erguida.

— Bom... — Kang mexeu em um tipo estranho de dispositivo no dorso de sua mão, um bem parecido com aquele usado para abrir um portal no multiverso, e algumas figuras holográficas apareceram sobre a mesa. — Então vou acabar com tudo isso e quem sabe damos mais sorte da próxima vez.

No holograma, uma porta se abria no quarto dos gêmeos e um tipo de soldado entrava ali, colocando um dispositivo no chão que simplesmente apagava toda aquela cena.

Elizabeth entendeu que, para controlar as coisas, aquele homem devia possuir alguma tecnologia ou magia capaz de apagar realidades. E não havia como lutar contra isso, certo?

No entanto, algo na entonação do intruso fez com que a mãe de Makayla notasse outra coisa: “quem sabe damos mais sorte da próxima vez”.

— Você deixa implícito que vai tentar de novo, ou seja, quer a criança da profecia aqui. Por que? — Ela questionou, ganhando um sorriso satisfeito de Kang. Era exatamente isso.

— Veja bem, o multiverso é composto por várias linhas do tempo, vários universos ou realidades paralelas, nesse contexto as três coisas são a mesma coisa. Cada pequeno evento pode resultar em uma mudança que gera uma bifurcação. Quanto mais cedo uma linha bifurca, mais diferente ela se torna da outra, cada uma delas é o seu próprio universo; na sua realidade o gene X foi despertado e os Mutantes vivem em guerra, em outras ainda existe o gene, mas os Mutantes vivem em paz e nessa aqui sequer existe esse gene... Não ainda pelo menos. — Ele sorriu empolgado. — O que importa é que algumas vezes essas bifurcações são tantas que esses universos convergem entre si. E isso pode ser bem ruim... Minha missão é proteger essa realidade, e pra ser honesto não existe uma receita de bolo para isolar uma linha do tempo inteira. Achei que uma pitadinha de caos cairia bem.

Elizabeth notou que Kang nunca falaria claramente sobre nada, ele dava voltas para despistar do assunto principal. Mas ela era ótima em ler nas entrelinhas.

— Então você se considera o heroí dessa realidade? — Questionou com um tantinho de desdém.

— Bom, tenho garantido a paz e afastado o mal por muito e muito tempo. — Ele ergueu os braços de forma presunçosa.

Elizabeth se aproximou da mesa e apoiou as mãos ali, para ficar cara a cara com Kang em um gesto de desafio.

— Pra mim você é só um cara que conseguiu um pouco mais de poder que a maioria e agora está brincando de Deus. Provavelmente esse mal que você tanto diz afastar foi você mesmo quem criou. — Ela praticamente cuspiu as palavras. — E agora, como todo Deus, você está entediado e cansado, então precisou adicionar um elemento surpresa no seu mundinho perfeito apenas pra ver no que dá. E se der errado você apaga e faz tudo de novo.

Ele se curvou um pouco mais na mesa para que ambos se aproximassem.

— Eu já disse que gosto de você? — Repetiu com aquele sorriso irritante.

Era evidente que Kang sabia que estava no controle, Elizabeth notou rápido que nada do que fizesse seria capaz de vencer aquele homem, ela estava sozinha afinal.

Não era inteligente se opor a um ser que protegia uma linha do tempo inteira, Psylocke conhecia seus limites e, acima disso, sabia muito bem reconhecer uma luta perdida.

Ela endireitou o corpo então, e encarou o homem de cima.

— Com um pouquinho de sorte essa criança vai se tornar algo que nem você vai ser capaz de controlar. — Declarou, sabendo que talvez ela não pudesse vencer Kang, mas um dia as coisas sairiam do controle para ele.

No entanto “Aquele Que Permanece” apenas riu de forma divertida.

— Um pouquinho de sorte? Não... Eu diria um pouquinho de caos.

Ele estava contando com isso... Ou era um homem realmente entediado, ou era louco, mas no geral as pessoas com muito poder são sempre um pouco de tudo isso junto, não é?

Gênios, loucos e entediados brincando de deus.

Makayla podia sentir através da lembrança a certeza que Elizabeth tinha de não haver uma forma de se opor a Kang, era essa energia que o homem emanava, embora sua aparência e seus sorriso amigável não denunciasse isso.

— E depois o quê? — Psylocke questionou em desafio.

— Depois eu não sei... — Kang se colocou de pé, parecendo maravilhado com a incerteza. — Quem sabe a natureza ache um jeito de se equilibrar sozinha, não é? — Ele moveu os ombros, enquanto dava a volta na mesa. — Nosso destino é escrito certo por linhas tortas, é o que dizem. — Parou ao lado de Elizabeth e focou nela com uma ameaça implícita no olhar. — O que eu sei com certeza, é que nem mesmo nessas linhas tortas tem você trazendo mutantes de outras realidades para a minha linha do tempo. Os gêmeos foram uma exceção, e a definição de “exceção” é exatamente algo que não acontece com frequência.

A mãe de Makayla respirou fundo, havia uma certa revolva borbulhando dentro dela, não podia se conformar, não podia simplesmente acreditar que aquele homem tinha o poder que insinuava. Ela se concentrou, conjurando uma lâmina psíquica e desferindo um golpe que devia ser certeiro, mas que simplesmente atingiu o ar quando Kang sumiu e apareceu em outro lugar, como se já soubesse o que iria acontecer.

— Você tinha que tentar, não é? — Ele moveu a cabeça de um lado para o outro como quem repreende uma criança. — Psylocke tentou outro golpe, mas novamente atingiu o ar. — Sua sorte é que eu gosto de você.

Depois de uma sequência falha de tentativas Elizabeth parou, sentindo-se derrotada mesmo que em nenhum momento Kang tenha lhe desferido qualquer golpe. Ele realmente estava um nível acima de qualquer coisa que ela já havia enfrentado antes...

— Apenas deixe as coisas como estão. Você não pode salvar seus amigos da realidade deles, não era esse o acordo. — O homem declarou, parado ali no meio do cômodo com a calma de um monge. — Vá viver, menina. Arrumar um namorado, ter um filho, deixar que a vida siga seu rumo. — Sugeriu como se fosse nada. — Deixe que o caos trabalhe um pouco.

Sorriu daquele jeito despreocupado e amigável que não combinava exatamente com todo o poder e responsabilidade que carregava, em seguida tocou o dispositivo no dorso de sua mão e abriu uma porta dourada atrás de si.

— Adeus, Elizabeth. — Disse apenas, então simplesmente sumiu... E nunca mais apareceu novamente.

As memórias que Makayla assistiu a seguir foram meses de Elizabeth desacreditada da vida e do mundo no geral. Ela se sentia usada de alguma forma, como se não tivesse controle sobre o próprio destino, manipulada por um cara que se achava um Deus.

Sim, o plano inicial era atravessar os gêmeos para uma realidade mais segura, onde o gene X deles não se desenvolveria e onde a magia de Wanda permaneceria adormecida, e isso aparentemente estava dando certo, mas saber que havia um homem por trás das cortinas brincando de “O Mágico de Oz” tornava tudo confuso e pouco agradável.

Será que estavam seguindo apenas o plano traçado por um maluco entediado?

E, se estava, que destino teriam os gêmeos?

Pskylocke não tinha respostas, e as perguntas consumiram sua vitalidade, sua alegria e sua saúde mental por meses a fio... isso até que, em uma noite qualquer, em um dos bares nos arredores de Sokovia, ela conheceu Danniel Devinne.

Makayla assistiu o pai vencer todas as barreiras da mãe, exatamente como tinha visto nas memórias dele, porém na mente de Elizabeth tudo era mais intenso e bonito, porque agora havia todo um passado emocional que a jovem Devinne sabia que seus pais haviam superado por se amarem.

Não eram apenas um caso fora do casamento, eles eram uma história de amor.

E era nesse ponto que as memórias começavam a divergir, porque na mente de Elizabeth Braddock haviam conversas extensas com Danniel sobre toda a verdade, sobre o Multiverso, os Mutantes, os gêmeos, o destino de Wanda, a Sentinela desaparecida e a visita de Kang.

Danniel sabia de tudo.

Foi ele inclusive quem ajudou Elizabeth a aceitar que o conceito de terem um destino pré-definido não era tão novo assim, as pessoas passavam por esses questionamentos em diversas religiões e conseguiam superar e seguir com a vida.

O acordo estava sendo comprido e de uma forma ou de outra os gêmeos estavam seguros, isso era o melhor que podiam esperar no momento, podiam viver um dia de cada vez e lidar com Kang mais pra frente, se ele viesse a se tornar uma ameaça.

Danniel dizia que por mais que homens poderosos tentassem controlar o destino do mundo todo, a vida sempre encontraria seu próprio jeito de prosseguir e de equilibrar as coisas. Elizabeth tinha que ter paciência e confiar um pouco, porque no fim as coisas são como tem que ser...

Foi visando equilibrar sua nova vida com sua missão que Elizabeth sugeriu a cabana na Suíça, perto o bastante de Sokovia para ficarem de olho nos gêmeos e longe o suficiente para terem a própria vida.

Makayla assistiu a felicidade dos pais naquele ano, viu o momento em que descobriram a gravidez e o quanto os dois ficaram empolgados com isso, a cada plano que faziam o coração da jovem se enchia de alegria e tristeza na mesma medida. Alegria por descobrir que era fruto de um amor muito bonito, e tristeza por saber que seus pais sequer tiveram a oportunidade de viver esse futuro que planejaram.

Conforme a gravidez de Elizabeth avançava e se aproximava o momento do nascimento, Makayla sabia que também eram os últimos dias de vida de sua mãe...

As contrações vieram uma semana antes da hora, todo o planejado para o parto acabou dando errado e — diferente daquilo que Makayla sempre acreditou, — Elizabeth teria que dar a luz na própria cabana. O problema foi que a dor, comum para essa situação, fez com que ela perdesse o foco que mantinha sempre sobre os próprios poderes e causasse uma explosão psíquica que, à primeira vista, apenas quebrou vidros e lâmpadas e deu Danniel uma bela dor de cabeça.

Não parecia nada demais, porém Makayla podia sentir a tensão que emanava de sua mãe, Psylocke temia que algo terrível acontecesse. Ainda havia uma Sentinela desaparecida no mundo afinal...

Porém o bebê finalmente veio ao mundo bem e saudável — na cabana, não no hospital — e Makayla percebeu que esteve errada por toda a vida, de muitas formas, não apenas por estar equivocada sobre o local exato de seu nascimento, mas também por sempre ter pensado que foi esse evento que de alguma forma matou sua mãe, uma complicação no parto.

Isso não era verdade, porque Elizabeth estava bem e saudável, ali com o recém nascido nos braços.

— Ela é tão perfeita... — A mãe acariciava o rostinho do bebê, enquanto olhava de forma encantada.

Havia esse clima acolhedor no ar, algo que deixava Makayla profundamente emocionada, era a família que ela sempre quis ter. Foi nesse exato instante que o chão todo tremeu sutilmente.

O casal trocou um olhar preocupado, o medo emanando de Elizabeth, enquanto a mente dela sabia exatamente o que estava por vir.

— A Sentinela está aqui. — Declarou como se aquilo fosse uma sentença de morte.

Danniel não fez perguntas, ele não precisava, os dois haviam conversado sobre o risco do robô encontrar Psylocke várias vezes.

— Podemos pegar o carro e fugir, vamos pra outro lugar, qualquer lugar. — Ele disse, começando a recolher todas as coisas e colocar em uma bolsa.

— E eu iria para todos os lugares com você. — Ela disse de forma calma. — Mas nossa filha não estaria segura.

Em todos as conversas dos dois sobre aquele assunto os planos sempre foram fugir e encontrar um bom lutar para se esconder, eles resolviam tudo, juntos. Mas naquele momento Elizabeth Braddock tinha um bebê recém-nascido no colo e viver fugindo pelo mundo não parecia mais a opção certa.

Tinha que dar a melhor chance de todas para sua filha.

Makayla conseguia sentir o desespero e a emoção se apoderar de cada célula de seu corpo, ela sabia o que estava prestes acontecer, ela conseguir ver todo o novo plano de sua mãe enquanto ele se formava na mente dela.

E nunca foi tão triste saber...

— Eu tenho uma chance de usar o vírus que desenvolvi e desativar a Sentinela. — Elizabeth declarou, se sentando melhor na cama — Eu tenho que fazer isso, esse robô maldito nunca vai parar de me perseguir. Nossa filha nunca vai estar segura.

— Não faz isso, podemos dar um jeito, podemos resolver isso. — Danniel pediu, porque no fundo ele também sabia o que estava por vir. — Se você for, é uma missão suicida. Não tem volta.

Para atingir a Sentinela com o vírus Psylocke teria que se aproximar demais e não havia uma forma segura de fazer isso, ela seria atingida. Injetar aquele vírus seria a última coisa que ela faria.

— Eu sei, mas não temos tempo... — Ela declarou com um sorriso triste nos lábios, detendo o homem que amava antes mesmo que ele pudesse falar qualquer coisa. — Não tenho tempo sequer de discutir com você.

Os olhos de Pskylocke brilharam em um tom intenso de roxo e Danniel pareceu enfeitiçado, controlado...

— Me desculpe por isso, Dan, eu te amo, e é por isso que tenho que proteger você e a nossa filha. — Ela respirou fundo, movendo os dedos no ar como quem controla um fio invisível. Makayla soube que Elizabeth estava manipulando a mente de Danniel. — Quando acabar você vai encontrar o meu corpo e vai queimá-lo para que não reste nenhum material genético meu, então vai enterrar o que sobrar da Sentinela o mais fundo que puder, vai pegar nossa filha e vai embora. E... vai se esquecer de todas as conversas que tivemos envolvendo Sentinelas, Mutantes, Multiverso, Kang, Wanda e Pietro ou caos... Nós apenas nos conhecemos em um bar, nos apaixonamos e eu morri no hospital depois de dar a luz ao nosso bebê, isso é tudo que você vai se lembrar. Você merece uma vida sem esse peso e a nossa Makayla merece a oportunidade de ser uma criança normal e feliz, com um pai que não carregue o peso do mundo nas costas

Elizabeth se moveu na cama e beijou os lábios do homem que amava.

— Eu sei que você vai ser o melhor pai de todos. Eu te amo, Dan. Adeus.

Como se fosse ordenado ele se levantou e aguardou a despedida de mãe e filha.

Makayla com o coração partido de todas as formas possíveis, assistiu novamente ao momento em que sua Elizabeth dizia que lhe amava. Porém dessa vez a jovem entendeu que foi naquele exato instante que sua mãe escondeu aquele baú de memórias em sua mente.

Esse era o brilho púrpura que havia cortado a cena...

Makayla entendia tudo agora, as memórias do pai que pareciam manipuladas, o motivo pelo qual ele realmente não sabia de nada, como a mãe havia morrido de verdade e de onde vinha a Sentinela... Tudo estava bem claro.

Elizabeth havia se sacrificado pela segurança da filha...

De uma forma ou de outra tudo se conectava, fazendo uma conta rápida até mesmo o destino de Wanda e Pietro foi modificado pela morte de Psylocke, foi só depois disso que aquela bomba matou os pais sokovianos dos gêmeos.

E quanto a Sentinela que agora era conhecida como Objeto Zero; Provavelmente Emma havia escavado o lugar e achado a cabeça gigante depois. E foi mais fácil para todo mundo pensar que o OZ vinha do futuro do que descobrir que ele havia sido criado em uma outra realidade, por uma outra versão de Bolivar Trask...

Não havia mais nenhum mistério para desvendar. Makayla sabia de tudo, finalmente.

Ela se viu fora das memórias, ainda no fundo de sua mente, ajoelhada em frente ao baú e com aquele brilho púrpura na palma de suas mãos.

Elizabeth havia deixado um último presente, uma mensagem psíquica que Makayla agora podia ouvir com clareza:

“Me escuta minha doce garotinha... Se você encontrou isso dentro da sua mente, eu temo que você tenha crescido sem mim, e que tenha chegado esse momento em sua vida que você está se tornando algo mais.

Algo extraordinário.

Eu não sei qual será o seu dom, não sei como ele vai se revelar, principalmente por você estar em uma realidade que supostamente não devia permitir que seus genes florescessem, mas sei que, se você está ouvindo isso, seu pai tinha razão quando dizia que por mais que homens poderosos tentem controlar o destino do mundo todo, a vida sempre encontrará seu próprio jeito de prosseguir e de equilibrar as coisas.

Lhe deixei tudo que que vivi, não apenas as memórias que espero serem capazes de lhe trazer respostas sobre quem você é e de onde eu vim, mas também tudo que apreendi para controlar meus poderes, talvez eu esteja sendo um pouco otimista ou coruja, mas gosto de pensar que meu fruto não caíra longe da árvore e os dons que você pode desenvolver serão, de alguma forma, parecidos com os meus.

Eu queria poder te dizer mais, queria ser capaz de responder cada dúvida que surgisse no caminho, queria estar lá para te guiar durante todo o percurso, para te abraçar depois de cada tropeço e vibrar com você depois de cada vitória... Mas infelizmente nem sempre temos oportunidade de viver o que queremos.

Só saiba, minha filha, que te amei de todo o coração e que esse amor vai perdurar em você para sempre e, com ou sem poderes, em qualquer que seja o caminho que você escolher, não importa o canto do multiverso em que você estiver, eu estarei olhando por você. Sempre.

Não tenha medo de quem você é, minha filha, tenha orgulho disso.

Eu sei que terei também."

A mensagem acabou e Makayla se viu de volta a sala de espelhos, sozinha ali no meio, com o coração cheio de amor e com a mente repleta de repostas. Pela primeira vez não haviam mais perguntas.

A grande epifania de sua vida estava completa, e ela, finalmente, sabia de tudo.

A verdade era simples; ninguém viria salvar Makayla, ninguém aparecia para libertá-la daquela prisão mental causada pelo dispositivo tecnológico de Emma, ninguém naquele universo, ou em qualquer outro, surgiria com uma solução mágica.

Makayla teria que fazer isso sozinha. Com seu próprio poder. Com sua própria mente. Confiando em si mesma.

— Você é uma mutante, fique orgulhosa disso... — Repetiu as palavras aprendidas com Charles Xavier. — Eu sou uma mutante, e me orgulho disso. — Ela fechou os olhos e se concentrou em todos os ensinamentos contidos nas memorias de sua mãe. — Mutante e orgulhosa!

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Em Nova York, enquanto a sede do Conselho de Repatriação Global era atacada pelos Apátridas e o novo Capitão América cortava os céus com suas asas de vibranium, lá embaixo, metros e metros no subsolo, nas instalações secretas da Forja, o dispositivo na testa de Makayla Devinne se partiu ao meio e os olhos da jovem finalmente se abriram, uma tempestade azul-cinzenta repleta de raios púrpura...

Notas finais
Como já devem saber, Charles Xavier; Magneto; Wolverine; Pskylocke e companhia são todos personagens da Marvel/X-men. Aqui eu não uso a realidade apresentada nos filmes, mas um universo paralelo que eu criei, mesclando plots das HQs e teorias. Wanda e Pietro são mesmo filhos do Magneto e da Magda em algumas HQs (a teoria dela vir de outro universo é original minha mesmo. Multiverse of Madness vai tombar isso, mas tudo bem kkkk) Kang ou "Aquele Que Permanece" e um personagem de Loki, e eu gosto de pensar que ele sempre soube que a Wanda se tornaria algo que ele não poderia controlar e que até gostava dessa imprevisibilidade. Enfim, coloquei basicamente todas as minhas teorias desde o tempo de WandaVison pra jogo nesse capitulo, e me diverti pra caramba, espero que tenham gostado de como as coisas se encaixaram no final, das respostas que vieram e da jornada da Makayla pra aceitar a si mesma enquanto Mutante (agora é oficial mesmo gente). Enfim, será que vem por aí uma Makayla fodona botando a Forja abaixo agora? Bom, quanto a isso eu não sei, mas o que eu sei é que já está na hora de um certo reencontro, não é? Pretendo que o próximo saía dia 30 (sem ser nesse fim de semana no outro), mas já sabem, é praticamente o capitulo final, então pode demorar um pouco mais que isso. Beijos e até!