Notas iniciais
Aeeee cheguei finalmente! Eu sei que demorei gente, mas dessa vez eu realmente tenha uma desculpa coerente, e essa desculpa é um capitulo de 20k hahahahahahahahaha (rindo de desespero), eu juro que tento ser uma escritora normal, que posta capitulos de tamanho normal, mas de repente a coisa saí do controle... Então leiam conforme a disponibilidade de vocês, sem pressa, dividam pela semana talvez. Enfim, além desse cap de 20k que devia ser o penultimo, eu tive que dividir o final, então temos um capitulo extra (que é oficialmente o último), e um epilogo pra fechar tudo. É isso. Bom tenho que dizer que esse aqui tem SPOILERS de WandaVison, e da pré-trama de Multiverse of Madness (do filme diretamente não, fiquei tranquilos). Tem imagem ilustrativa do paragrafo marcado com * no link nas notas finais Boa leitura e boa sorte!

Makayla se sentou na cama, os pedaços do dispositivo tecnológico que outrora estivera preso em sua testa caindo sobre o lençol. Então era isso... Ela sabia agora sobre cada pequena peça que havia montado o quebra-cabeças de seu passado e, acima disso, Makayla sabia exatamente tudo que era capaz de fazer.

Não tinha noção, no entanto, de quanto tempo havia dormido, mas de uma forma ou de outra imaginou que enfrentaria uma luta para sair dali. Era uma instalação secreta do governo afinal.

Tateou por debaixo do lençol, buscando algo que havia escondido ali logo depois de tomar o soro que Feltz lhe dera. O anel de noivado que supostamente foi comprado por Bucky Barnes.

Guardou a joia consigo, então respirou fundo, fechando os olhos e se concentrando; graças ao que havia aprendido nas memórias da mãe, Makayla entendia agora que poderia projetar sua mente a ponto de sentir todas as outras ao redor. Assim como tinha feito em Madripoor.

Foi desse jeito que soube onde Danniel e Feltz estavam sendo mantidos prisioneiros e também que o local como um todo se encontrava estranhamente vazio. O que será que estava acontecendo?

Makayla encarou o chão e tomou coragem, percebeu que tinha mais confiança, que não duvidava mais, então o ato de comandar suas pernas a se moverem foi quase natural...

Seus pés descalços deslizaram da cama e tocaram o chão com êxito, a temperatura fria atravessando sua pele e fazendo com que Makayla sorrisse. Era um alivio sentir os membros inferiores de novo.

Com o primeiro desafio vencido, a jovem encarou a porta, mentalmente ela sabia que não haveriam guardas do lado de fora, mas ainda assim estava tensa. Caminhou devagar, seus passos fazendo nenhum som contra o chão. Não tinha nada para usar como arma, então teria que confiar de verdade no fato de sua mente não ter encontrado ninguém.

A porta de correr parecia controlada por sensor, afinal se abriu assim que a jovem se aproximou dela. Se era burrice ou excesso de confiança não ter trancado o quarto foi algo em que Makayla não pensou naquele momento, mesmo porque, assim que colocou os olhos no corredor ela notou que algo mais estava acontecendo naquele lugar...

Luzes vermelhas piscavam em toda parte como um alerta silencioso.

Makayla franziu as sobrancelhas, não sabia o que havia causado aquilo, mas, no fim, pouco importava, pelo visto tinha uma oportunidade em mãos e não podia perder tempo com questionamentos. Cortou os corredores pela parte de trás diretamente para a ala em que estavam os prisioneiros.

Na primeira cela, um cubículo completamente fechado por um vidro que certamente era a prova de balas, Makayla viu a figura de Scott Feltz, andando de um lado para o outro de forma impaciente. A aproximação da jovem fez com que o homem se virasse na direção dela.

— Olha só quem está de pé... — Ele de um sorriso satisfeito, que veio acompanhado de um suspiro de alívio que tinha pretensão de ser sutil, mas não foi tanto assim.

— Alguém devia ter trancado minha porta. — Makayla apenas moveu os ombros, se aproximando da fechadura eletrônica.

— As trancas das áreas médicas e comuns não funcionam quando o Código 1 está ativado. — Feltz explicou, se aproximando da porta também.

— Código 1? — A jovem questionou, enquanto examinava o dispositivo eletrônico que ela não fazia ideia de como abrir.

— O prédio principal deve estar sob ataque. — O segurança, ou melhor ex, de Emma apontou para cima, indicando o que a garota já sabia ser a sede do CRG.

Seja lá quem estava atacando o lugar, estava fazendo isso em momento muito apropriado.

— Makayla? — A voz de Danniel veio da cela ao lado em um tom urgente. — Filha, você tem que fugir, não se preocupa com a gente, corre!

— Vai ficar tudo bem. — Ela respondeu, dando um passo para o lado afim de olhar para o pai e ignorando o pedido dele, para então focar novamente nas fechaduras.

— Por que não está abrindo? — Perguntou, empurrando a porta. Se a merda do prédio estava no tal “Código 1” as fechaduras não deviam abrir automaticamente?

— Essa porta não faz parte das áreas comuns, nem da área médica, então... — Feltz indicou frustrado. — Tanto aqui quanto os elevadores precisam seguir os protocolos de segurança.

— E como eu abro? — Makayla tinha um tom impaciente, cada segundo contava e ela sabia disso.

— Precisa da chave eletrônica, ou de uma digital autorizada. — A resposta não indicava nenhuma ponta de esperança.

— Makayla, me escuta. — Danniel implorou, colocando sua mão no vidro blindado que fechava a cela. — Você precisa sair daqui agora.

— Nem pensar. — Makayla negou imediatamente. — Eu só saio daqui com você. — Apontou para Feltz em seguida. — E com esse cara também.

— Valeu pela consideração. — O segurança retrucou com um revirar de olhos sarcástico.

— Eu sei de tudo agora. — Makayla encarou o pai e sorriu de forma a passar um pouco de calma para ele. — E em breve você vai saber também.

Olhou ao redor, precisava de uma chave eletrônica ou de uma digital pra abrir aquelas celas.

— Não devia ter seguranças por aqui? — Questionou impaciente.

— O código 1 remaneja a segurança pra pontos mais importantes. — Feltz explicou de forma prática. — Emma deve ter pedido o apoio do pessoal lá em cima. Isso significa que a situação é crítica.

— Eu não acho que ela deixaria aqui embaixo desprotegido. — Danniel opinou, enquanto Makayla se concentrava para procurar mentalmente por alguém que estivesse perto.

— Ela não deixou... — A jovem declarou, erguendo a cabeça de forma assustada ao notar que a pessoa em questão estava se aproximando pelo corredor oposto. — Tem um super soldado cuidando da segurança de vocês.

Mal terminou de falar e Hoskins despontou no fim do corredor, a aparência dura e apática. Certamente não fora ordenado a fingir ser o verdadeiro Lemar extrovertido e alegre. Aquele homem era apenas uma sombra sem vontade própria.

— Makayla corre, agora! — Danniel bateu no vidro de sua cela vendo Hoskins se aproximar calmamente, como um predador.

A jovem Devinne deu um passo cauteloso para trás, passando pela cela de Feltz

— Devia obedecer seu pai, é de um super soldado controlado que estamos falando. — Ele aconselhou e, embora mantivesse a postura de sempre, seu olhar parecia preocupado.

Makayla se tocou de algo crucial então...

— E você disse a palavra-chave, não é? Controlado. — Ela murmurou, tendo uma ideia ousada que não sabia se daria certo ou não.

Se Lemar era controlado por um composto biológico, então talvez houvesse uma chance de Makayla neutralizar isso com seus poderes...

Quer dizer, não sabia se era mesmo capaz de fazer algo assim, entrar na mente das pessoas e ver memórias era completamente diferente de destravar algum tipo de bloqueio mental que fazia essa pessoa suscetível a todas as ordens de outrem.

E o pior, teria que fazer isso sem tocar em Lemar...

Depois de ver as memórias de Charles Xavier e da mãe, Makayla estava convencida de que ler mentes através do toque era apenas o estágio inicial de suas habilidades. Quando abriu os olhos já estava totalmente convencida de que, com o tempo, seria capaz de controlar seus dons. Chegaria o momento em que poderia tocar alguém sem ser uma invasora de mentes e talvez ela conseguisse até mesmo usar seus poderes sem precisar de qualquer contato físico. Quer dizer, já estava conseguindo projetar sua consciência para sentir as pessoas ao redor, então era questão de tempo para todo o resto, certo?

Porém “tempo” era algo que Makayla não possuía naquele momento, sabia muito bem que deixar que um super soldado chegasse tão perto a ponto de haver um toque físico era arriscado demais, então não era apenas o desafio de desbloquear a mente dele, era fazer isso em segundos antes que fosse alcançada.

Apenas mais um dia desesperador em sua vida, nada novo. Makayla revirou os olhos para o próprio pensamento e respirou fundo, tentando se concentrar enquanto ia caminhando para trás na mesma velocidade que Lemar avançava.

Tem que dar certo. Tem que dar certo.

Todavia não era tão simples assim, por mais que Makayla soubesse o que queria fazer, ela não fazia a menor ideia de como fazer. Entrar na mente de Lemar e depois o que?

Um passo de cada vez. Confie nos seus poderes. Disse a si mesma e, enquanto ainda caminhava para trás, fechou os olhos...

Projetar sua mente foi fácil, e logo percebeu que podia fazer isso enquanto se mantinha consciente no corpo físico. Conseguia sentir todos os outros ao redor, seu pai e Feltz, além de ter ciência dos sentimentos que eles emanavam, ansiedade, preocupação e medo se misturavam no ar.

Os sentimentos que vinham de Lemar, no entanto, eram confusos, porque Makayla não os sentia de fato, a melhor forma de explicar em palavras talvez fosse dizer que podia ouvir um eco de agonia e desespero.

Enquanto fisicamente continuava a caminhar para trás, com seus poderes ela tentava encontrar uma brecha para adentrar a mente de Lemar sem precisar tocá-lo. Não sabia exatamente como fazer isso, mas apenas deixou fluir, confiando que suas habilidades encontrariam o melhor caminho.

Ela pareceu encontrar o que procurava, mas o esforço para isso lhe causava dores físicas, sua cabeça latejava, era como se houvesse uma barreira que ela não podia atravessar. Tentou se concentrar mais, as sobrancelhas franzindo, indicando seu esforço.

Lemar parou onde estava, levou a mão até a própria cabeça em um misto de dor e confusão. Enquanto isso Makayla sentia que havia invadido a mente dele, passando por seus pensamentos sem focar em nenhum, procurando pela consciência do amigo...

Todo acontecia ao mesmo tempo. Físico e mental coexistindo diante dos olhos de Makayla. A mente de Lemar parecia presa por fios, cordas como as que prendem marionetes, a jovem Devinne imaginou que talvez ali, naquele espaço mental que não existia de verdade, ela seria capaz de conjurar uma lâmina de energia psíquica afim cortar aqueles fios e libertar Lemar pra devolver-lhe o livre arbítrio. Muito parecido com o que sua mãe fazia.

Enquanto isso, tudo que olhos físicos viam era Makayla agora parada no meio do corredor, as sobrancelhas franzidas, as íris já abertas faiscando em raios púrpura e um super soldado com as mãos na cabeça, deixando que seus joelhos cedessem ao chão.

Mentalmente, Makayla se via incapaz de criar qualquer lâmina de energia, então teve que puxar as cordas que prendiam Lemar com suas próprias mãos — ou melhor a versão astral delas — até que conseguisse enfim libertar o amigo. Fisicamente, o grito de agonia de Hoskins cortou ar, enquanto Makayla cambaleava para trás com o nariz sangrando.

Tudo rodava, a jovem sentia que tinha ficado girando de ponta cabeça por três horas ininterruptas, ao fundo era possível ouvir a voz de seu pai e Feltz chamando, mas ela não estava em condições de responder. Se encostou em uma parede e respirou fundo, esfregando os olhos para ver se a sensação de vertigem que pulsava em seu cérebro passava. Quando sua visão enfim desanuviou, ela pôde enxergar Lemar caído no chão.

Em passos um tanto trôpegos foi se aproximando dele. O medo correndo por suas veias. E se ele tivesse morto? E se o poder dela tivesse machucado Hoskins de forma definitiva? Makayla sabia muito bem que não aguentaria segurar o corpo sem vida do amigo uma vez mais.

— O que você fez? — Feltz e Danniel perguntaram quase em uníssono, mas a jovem ignorou isso enquanto se aproximava do corpo no chão.

— Lemmy? — Chamou com cautela, se abaixando próximo a ele com medo de medir seus batimentos e eles serem inexistentes.

— Kayzinha? — O homem abriu os olhos devagar em um misto de confusão e dor.

A jovem suspirou de alívio, mal esperando que Lemar se sentasse no chão para abraçá-lo. Foi uma agradável e inesperada surpresa notar que aquele abraço não a fez roubar para si todos os pensamentos e lembranças dele. Os poderes de Makayla haviam atingido o próximo nível, finalmente...

— Você se lembra de alguma coisa? — Ela perguntou com cautela, se afastando de Lemar, mas permanecendo ajoelhada ali no chão.

— Eu me lembro do bastante. — Ele respondeu em um misto de resignação e decepção.

— Está tudo bem agora, você está seguro. — Makayla acariciou o braço do amigo em um gesto reconfortante.

Não havia muito mais que pudesse dizer naquele momento, sabia que Lemar teria uma longa jornada pela frente para processar o fato de ter morrido e voltado a vida como um super soldado controlado.

— Temos que sair daqui, tudo bem? — Ela perguntou compassiva, ajudando Hoskis a se levantar.

Ambos se viraram para as celas, os olhos de Feltz e Danniel neles em um misto de surpresa e urgência. Talvez naquele ponto todo mundo já tivesse desistido de entender exatamente o que estava acontecendo e como Makayla podia fazer aquelas coisas.

Mas ela sabia, isso que importava.

— Como a gente vai conseguir a chave? Eu não estou com nenhuma e também não tenho permissão. — Lemar declarou, colocando o dedo sobre a fechadura digital e recebendo um sinal vermelho como resposta.

É claro que mesmo controlado não o achariam digno de confiança a ponto de ter a chave das portas da ala de prisioneiros.

— Você não precisa. — Feltz comentou de forma simples. — Faz seu lance de supersoldado aí. As celas são feitas de material comum, o metal espacial está apenas na estrutura e nas portas do elevador.

Lemar encarou a fechadura de novo e então focou em Makayla, ele sabia é claro, mas só naquele instante foi que pareceu realmente absorver a verdade.

— Eu sou um supersoldado agora... — Disse para ninguém em particular e um sorriso mínimo surgiu em seus lábios.

Alguns socos depois as duas portas de vidro, já com a fechadura destruída, estavam se abrindo.

Feltz foi direto para um armário oculto no fim do corredor, enquanto Danniel parava na frente de Lemar.

— Bom te ver, senhor. — Hoskins cumprimentou, com a mão estendida.

Danniel dispensou o aperto de mão e abraçou Lemar de forma carinhosa.

— É bom te ver também, meu filho.

— Bela reunião familiar, será que podemos ir agora? — Feltz voltou de mãos vazias. — Minhas permissões para abrir os armários de armas já foram revogadas, vamos ter que enfrentar o que vier no soco.

É claro que devia ter armas escondidas em locais estratégicos do lugar e era mais evidente ainda que Emma já teria barrado Feltz. Ele era apenas um traidor e um prisioneiro agora.

— Ainda, não ir. — Makayla respondeu e se aproximou do pai. — Tem uma coisa que eu preciso de mostrar, posso?

Danniel assentiu e a jovem ergueu a mão direita, tocando-lhe a têmpora. Junto com as memórias da mãe havia essa visão de como desfazer tudo que Elizabeth tinha feito na mente do homem que amava...

Os olhos de Makayla foram iluminados por um raio púrpura que pareceu viajar diretamente para a ponta de seus dedos antes de passar para a pele de Danniel e sumir dentro dos olhos dele o fazendo piscar diversas vezes.

Foi possível assistir todas aquelas memórias modificadas inundarem os olhos do homem até que a compreensão absoluta iluminou seu rosto de um jeito quase melancólico. Ele se lembrava agora.

Danniel tocou o rosto da filha de forma carinhosa, ainda que seu sorriso fosse triste.

— Obrigada, querida. — Disse apenas, antes de dar um beijo na testa dela.

Para Danniel Devine o “saber de tudo” tinha um preço alto, afinal recuperar suas memórias era também lembrar que Elizabeth Braddock não era apenas um caso extraconjugal, ela era o grande amor da vida dele, e estava morta agora.

— E agora, já podemos ir? — Feltz interrompeu a cena de forma impaciente.

— Mas você é chato, hein. — Makayla retrucou de imediato.

— Me desculpa se prefiro continuar sendo um chato vivo. — Ele sorriu de forma irônica e então apontou o corredor. — Então, se não se importa...

Makayla se deu por vencida, realmente tinha que sair daquele inferninho. Mas havia um lugar onde queria passar primeiro...

★☆ • ★☆ • ★☆

Bucky estava parado entre os carros de polícia e ambulâncias, as luzes vermelhas e azuis piscando ritmadamente, enquanto o público via Sam Wilson — o Capitão América — alçar voo para ajudar as autoridades, depois de um discurso inspirador que colocou aqueles políticos em seus devidos lugares.

Como tanta coisa podia acontecer em tão pouco tempo?

Chegou em Nova York para procurar por Makayla, mas sua tarefa ficou interrompida por causa de uma invasão dos Apátridas à sede do Conselho de Repatriação Global; encontrou com Sharon Carter ali do nada para ajudar; entrou no prédio e foi praticamente enganado por um simples telefonema de Karli; Sam surgiu dos céus com seu novo traje de Capitão América e provou de uma vez por todas, aquilo que Steve Rogers sempre soube. Wilson era o melhor para carregar o manto.

Mas a chegada do Capitão América obviamente não foi o fim dos problemas, a luta seguiu para as ruas da cidade, os Apátridas não queriam apenas deter a reunião dos políticos que acontecia no CRG, o grupo de super soldados estava ali para matar todo mundo.

Enquanto tentavam resolver o problema, Walker apareceu do nada pra atrapalhar e no fim até tentou ajudar; mas o destaque da noite ainda permaneceu sendo mesmo Sam Wilson, seu heroísmo brilhante que não precisava de super soro, seu discurso memorável, e seu coração enorme que tentou salvar Karli Morgenthau até o último segundo, quando Sharon acabou atirando na garota.

A líder dos Apátridas estava morta, Sam tinha acabado de alçar voo para capturar o último integrante do grupo extremista que tinha caído na água durante a perseguição do escritório e Bucky ficou ali no chão, alguns passos a frente de Sharon.

Por mais que a aparição de Carter fosse confusa e cheia de contradições no mínimo suspeitas, fazendo com que tudo isso culminasse na morte de Karli, Barnes estava mais preocupado em prestar atenção em uma certa Diretora que era deixada para trás por todos os seus colegas políticos naquele instante.

Emma Kennedy havia se esquivado de todos os focos de ataque, protegida por seus seguranças em algum lugar fora do alcance dos Apátridas como se fosse a própria presidente do país, ela só deu as caras novamente quando tudo estava resolvido, assistindo o discurso do Sam de longe com a expressão fria e apática de quem é treinada para nunca demostrar nenhuma emoção em público.

Bucky se arrependeu profundamente por ter sido conivente com a presença daquela mulher perto de Makayla. Estava tão óbvio que a Diretora não era uma boa pessoa, como ele pôde ser tão passivo?

Mas não cometeria esse erro outra vez...

Observou os Ministros se afastarem de Emma, alguns negavam depois de uma breve argumentação, seja lá quais eram os planos da Diretora com aquela reunião, o discurso do Capitão América fez com que os políticos mudassem de ideia. Talvez algumas coisas positivas viessem disso.

Honestamente, havia uma certa satisfação pessoal em Barnes por saber que os planos de Emma Kennedy não tinham obtido sucesso. Sim, a mulher ainda podia ser inocente do horrível crime de forjar a morte de Makayla, mas isso não fazia dela uma boa pessoa. Ter tirado o escudo de Sam já era prova o bastante disso. Bucky só foi idiota para não notar antes...

Percebeu que um dos cinco seguranças que seguiam a mulher lhe soprou algo no ouvido, a atenção dela vagou pela multidão que ainda estava ali aglomerada, passou pela polícia e SWAT, e então Bucky a viu assentir, foi nesse instante que, ao erguer a cabeça o olhar dos dois se encontrou. Emma não esboçou reação alguma, nem positiva nem negativa, apenas desviou o olhar para seus seguranças e, como em uma ordem muda, todos os cinco a seguiram.

Alguns passos atrás de Barnes, Sharon Carter falava initerruptamente.

— ... e por isso acho melhor eu ir embora, melhor as autoridades não me verem aqui. Fico em um local mais discreto até as coisas se...

— Boa sorte. Nos falamos depois. — Foi tudo que ele disse para a loira, antes de começar a cortar a multidão discretamente, seguindo Emma de longe.

Ela não rumou para o prédio do CRG, afinal o local estava cercado pelas autoridades e teria que ser completamente inspecionado para o inquérito antes de ser liberado. Ao invés disso, seguranças e Diretora seguiram para o edifício vizinho, outro prédio comercial, uma construção típica de Nova York, muitos andares e heliporto na cobertura.

Não era preciso muito pra entender o que Emma estava fazendo. Uma saída estratégica naquele momento de caos completo talvez fosse uma decisão prudente para alguém com uma carreira política a zelar.

A única coisa que Bucky sabia com certeza era que não podia permitir que Emma fosse embora em um helicóptero antes de arrancar dela a verdade sobre Makayla. Nem que tivesse que ultrapassar alguns limites pra isso.

Entrar no prédio não foi difícil, principalmente porque todos os funcionários estavam ocupados demais tentando capturar uma foto do Capitão América nos céus da cidade. Bucky teve apenas que ser discreto e passar despercebido. Certamente teria que agradecer ao Sam por ter se tornado a grande atração da noite e prendido toda a atenção.

Enquanto Emma e sua equipe subiam por um elevador, Barnes pegou o outro, tirando de seu coldre uma das armas que carregava e preparando o pente, foi nesse instante que um zumbido chato veio diretamente de seu ouvido e ele, para ficar totalmente focado, desligou o comunicador intra-auricular. Sabia que, se os seguranças fossem bons, a movimentação do segundo elevador os deixaria alertas, por isso, antes que as portas se abrissem ele se posicionou estrategicamente acima no teto da caixa metálica.

Foi dessa forma que, pegou os oponentes desprevenidos e, facilmente, derrubou os três primeiros homens com golpes não letais, deixando-os desacordados no chão e seguindo pelo hall da cobertura direito para o heliporto no telhado, onde Emma estava prestes a embarcar em um helicóptero.

— Não se mexa. — Ele ordenou, com a arma em punho e a voz muito firme.

Emma se virou devagar, um dos seguranças já estava atrás do painel de controle com o manche nas mãos e o helicóptero ligado, mas o outro prontamente apontou também uma arma para Barnes.

Como se isso fosse adiantar. O ex-sargento quase revirou os olhos, não era como Karli e os novos super soldados, sua anatomia aguentava alguns tiros, e isso seria o bastante para um contra-ataque.

— Eu acredito que não esteja pensando direito nesse momento, senhor Barnes. — Emma disse de forma simples e calma, a postura intacta de quem não tem medo de nada.

Aquele aparente autocontrole inabalável da mulher só fazia com que Bucky sentisse ainda mais raiva.

— Eu sei o que você fez com a Makayla. — Ele cuspiu as palavras sem tirar os olhos dela, se aproximando dois passos, pouco se importando com o segurança. — Eu sei que ela está viva.

Emma respirou fundo e ergueu uma das mãos para o homem ao seu lado em uma ordem muda para que a arma fosse abaixada. Barnes reparou que na outra mão ela carregava um aparelho eletrônico do tamanho de um celular.

— Oh Deus, vejo que a dor da perda tirou o juízo do senhor. — A Diretora Kennedy declarou em um tom consternado, que em nada convenceu Bucky. — Sinto muitíssimo pelo que aconteceu com a minha filha, mas ela está morta, sabemos bem disso, estivemos no funeral, não foi?

— Você não é a mãe dela. — O tom de Barnes era gélido e agressivo. — Você é só uma mulher cega por poder e eu tenho certeza que fez algo com ela, visando apenas seu próprio benefício. Então me fala onde ela está. Agora!

Emma apenas encarou Barnes de cima abaixo e apoiou as mãos em frente ao corpo, aquele dispositivo eletrônico ainda em sua posse.

— Ou o que? — Ela respondeu em um desafio venenoso. — Vai atirar em mim, senhor Barnes? Achei que não fosse um assassino.

— Pela Makayla eu me tornaria o que for preciso. — Sem sequer pensar Bucky puxou a trava da arma em uma ameaça clara, avançando mais alguns passos. Pela mulher que amava qualquer coisa valeria a pena, mesmo que tivesse que sujar as mãos de sangue novamente.

O segurança se moveu assustado, mas novamente Emma fez um gesto que pedia calma.

— Por mais que eu até acredite nisso, prefiro pensar que seus impulsos heroícos sempre irão prevalecer sobre sua ira. — A Diretora respondeu, deslizando os dedos pelo aparelho eletrônico que tinha em mãos rapidamente. — Então é, talvez eu tenha forjado a morte daquela aberração bastarda pra usar os poderes dela em meu favor, e é, talvez ela esteja sendo mantida cativa abaixo do CRG em um subsolo secreto que só pode ser acessado usando essa chave eletrônica. — Tirou do bolso algo que parecia um cartão de crédito. — E talvez eu tenha acabado de dar um comando que vai explodir o prédio inteirinho a começar pelo meu sobsolo secreto em apenas alguns minutinhos.

Ainda atônito pelo tanto de informação que veio de uma vez só, e pela forma fria e dissimulada como Emma disse tudo aquilo, Bucky viu a mulher erguer a mão lentamente e mostrar o visor do aparelho eletrônico que segurava, onde um cronometro em contagem regressiva provava que de fato não havia tempo para pensar demais em nada.

Podia ser um blefe, porém era perigoso demais ariscar.

— Então o que vai ser, Senhor Barnes? Fazer justiça com as próprias mãos ou salvar a mulher que você ama e aquele futuro monstrinho que ela carrega na barriga? — Emma perguntou e em um simples instante atirou longe o cartão eletrônico que supostamente era a única chave capaz de libertar Makayla. — Tic Tac.

As coisas apenas passaram na mente de Bucky sem que ele tivesse oportunidade de ponderar suas opções e a melhor saída. Ele se jogou atrás da chave em forma de cartão. Que escolha tinha afinal? Deixar que o objeto despencasse do prédio direto no meio da multidão, correndo o risco de danificar ou perder para sempre a chave da liberdade de Makayla enquanto segundos preciosos passavam?

Para Bucky a prioridade era bem clara: salvar a mulher que amava antes que aquela maldita explosão programada o fizesse perdê-la para sempre. De verdade dessa vez.

Seu corpo deslizou pelo chão do terraço em direção a borda, seus dedos sempre a um único milímetro de recuperar a chave eletrônica. Quando finalmente alcançou o objeto seu corpo já tinha passado da beirada e a única coisa que o impediu de cair trinta andares foi seu reflexo instintivo e seu braço de vibranium segurando seu peso na borda.

A chave para libertar Makayla estava segura entre seus dedos, mas ele próprio estava pendurado para fora do prédio enquanto o helicóptero de Emma Kennedy decolava.

Sempre havia uma maldita queda em seu caminho. Que merda.

— Sam! Está me ouvindo? — Bucky perguntou, ligando rapidamente o comunicador intra-auricular, enquanto tentava escalar a borda. — Eu preciso de reforços.

Não houve resposta, era como se o objeto misteriosamente tivesse parado de funcionar.

Bucky usou a força do braço de vibranium para alçar o corpo para o terraço em segurança e foi nesse instante, quando suas costas bateram no chão e ele viu o helicóptero sumindo ao longe, que finalmente a coisa toda fez sentido.

Desde o começo era um plano de fuga... todo o resto foi apenas cortina de fumaça.

Emma certamente tinha protocolos diversos de segurança e estava preparada para tudo, inclusive para escapar de Bucky caso fosse encurralada.

Ela já sabia...

O zumbido no elevador certamente era algum pulso eletromagnético pra destruir as comunicações de Bucky, e tudo que veio depois era apenas um teatrinho ensaiado que o levaria a fazer exatamente o que Emma queria. Deixar que ela escapasse ilesa e impune quando toda sua farsa foi descoberta.

Bucky não duvidava que houvesse mesmo uma instalação subterrânea que explodiria, afinal que jeito melhor de queimar provas do que detonar todas elas e cobrir com entulho?

— Merda!

Barnes se colocou de pé e correu em direção ao elevador, tinha praticamente deixado Emma Kennedy fugir, mas ainda assim isso valeria a pena se pelo menos ele conseguisse resgatar Makayla a tempo...

Era melhor que aquela maldita chave eletrônica funcionasse.

★☆ • ★☆ • ★☆

Os quatro fugitivos caminhavam rapidamente pelos corredores da Forja, Makayla seguia na frente, um rumo bem certo em seus pensamentos, afinal ela tinha visto na mente de Emma que alguém muito importante também estava sendo mantido ali. Congelado e preservado em uma câmara especial.

— Não deveríamos estar aqui, temos que ir. — Feltz protestou, quando estavam em frente ao laboratório.

Makayla ignorou o aviso e adentrou a sala, um local amplo que se encontrava na penumbra, com a maior parte dos monitores desligados, a não ser por aquele conectado a uma grande câmara horizontal no meio do ambiente. A tela exibia a seguinte mensagem “aguardando comando final”.

A maior luz visível era a que vinha da própria câmara, um brilho levemente azulado, a coisa toda lembrava uma máquina de bronzeamento artificial, porém muito mais avançada e tecnológica.

Logo ao lado da tal câmara havia toda uma estação médica montada, diversos instrumentos cirúrgicos e uma seringa enorme preparada com algo vermelho dento, sendo mantida em uma bandeja com gelo já quase derretido naquele ponto.

Mas apesar de haver alguém dentro da câmara central, não foi em nada disso que Makayla focou, e sim em seu lado esquerdo, onde havia uma fileira de outras câmaras, essas verticais e completamente diferentes da outra, todas vazias, exceto por uma que estava ligada e apresentava sinais de congelamento evidentes. Um rosto podia ser visto através do vidro.

Um rosto bem conhecido...

Danniel e Lemar se aproximaram ao mesmo tempo, um silêncio pesado pairando no ar, enquanto as luzes vermelhas ainda piscavam do lado de fora do laboratório.

— Emma manteve o corpo do Cameron em criogenia, ela acredita que pode trazê-lo de volta da mesma forma que trouxe o Lemar. — Makayla explicou em voz alta, uma pontada de esperança evidente em sua voz.

Tinha dado certo uma vez, então poderia dar novamente, certo?

— Eu odeio dizer isso, Kay, mas eu estava morto há algumas horas, Cam está morto há vários anos. — Lemar declarou, um misto de apreensão, surpresa e pesar em sua voz. — Por mais que eu o ame, isso não... não tá certo.

Makayla estava pronta para responder quando a voz de Feltz os interrompeu.

— Merda... — Ele xingou sozinho, enquanto olhava para a câmara central na sala. — Merda, merda, merda, merda.

— O que aconteceu? — Danniel foi o primeiro a perguntar, enquanto se aproximava alguns passos do segurança.

— Eles começaram. Deram início ao Ressurgence com a cobaia sete. — Feltz declarou e Makayla pode jurar que a voz do homem estava trêmula.

Todos eles se aproximaram da câmara central para olhar o corpo ali, um jovem de cabelos platinado que era conhecido de várias imagens na televisão.

— Pietro Maximoff. — Feltz disse me voz alta, embora ninguém precisasse de uma apresentação formal. Ele era meio que inconfundível. — O corpo dele foi mantido aqui depois de Sokovia.

— Emma roubou o corpo desse menino do túmulo? — Danniel questionou de forma indignada.

Feltz apenas respirou fundo e seu corpo se moveu em um claro “fazer o que, não é mesmo?”.

— O plano era reviver e depois injetar os soros que o manteriam controlado. — Apontou para a seringa com o liquido vermelho ali ao lado.

Então Emma pretendia usar Pietro assim como estava usando Lemar, ou seja, ela tinha a intenção de montar um pequeno exército de superpoderosos. Bastante hipócrita vindo da mulher que odiava qualquer um que tinha habilidades...

Makayla se aproximou mais alguns passos, focando no rosto de Pietro que parecia simplesmente em um sono tranquilo. Se lembrou de quando tinha visto o rapaz pela primeira vez, em uma televisão de um hospital em que ela estava internada depois que todos seus amigos morreram.

Pietro era mostrado resgatando pessoas em Sokovia, embora a reportagem contasse que o jovem estava sempre envolvido em protestos no país. Logo depois, faziam questão de mostrar imagens amadoras feitas por drones do corpo dele no chão, vários tiros em seu dorso.

Era uma cena muito triste.

E era mais triste ainda lembrar disso naquele instante, já que Makayla sabia agora exatamente como a vida de Pietro Maximoff havia começado.

— Ele está vivo? — Ela perguntou, sem tirar os olhos da figura desacordada.

— Não ainda, leva algumas horas pra colocar o corpo em estado e temperatura adequada, então a máquina injeta um composto especial nas veias e isso vai devolvendo o funcionamento dos órgãos um de cada vez, mas a atividade cerebral só volta quando alguém ativar a última etapa, o gerador. Leva um minuto e meio depois de apertarmos o botão. Até lá tudo funciona artificialmente, como uma pessoa em morte cerebral. — Feltz explicou, indicando o tal botão logo abaixo do monitor aceso. Era vermelho e redondo, mais óbvio impossível. — Temos que desligar tudo imediatamente.

Makayla ergueu a cabeça com as sobrancelhas já franzidas, enquanto o segurança se movia afim de puxar os fios que mantinham a alimentação da máquina.

— Não. — Makayla o impediu. — Por que? Se podemos trazer alguém de volta, deveríamos fazer isso. — Ela encarou o pai e depois Lemar. — Se der certo com o Pietro podemos tentar com o Cam depois.

Podia até soar precipitado, mas se havia a possibilidade de ter o irmão de volta, não valia a pena tentar?

— O que? — Feltz jogou incrédulo, como se Makayla tivesse acabado de dizer uma loucura absurda.

— Eu não acho que isso é muito ético... — Lemar opinou em um misto de ponderação e incerteza.

— Como não? Isso é ciência. — Makayla apontou enérgica. — Você está aqui, você está bem e vivo.

— Querida. — Danniel chamou a atenção da filha. — Não podemos brincar de Deus assim. — Havia um tom dócil em sua voz, o mesmo que se usa com crianças para explicar calmamente o motivo de algo ser errado. — Não temos direito de controlar a vida e morte de alguém, algumas coisas fazem parte da nossa natureza e temos que aceitar isso. Mexer com o fluxo da vida nunca acaba bem. Eu entendo que sinta falta do seu irmão, eu sinto também, todos os dias, mas não podemos deixar essa dor influenciar nossas ações desse jeito.

— O velho tá certo. — Feltz concordou, colocando sua mão direita sobre o fio. — Vamos desligar isso aqui antes que a gêmea do mal venha foder com a gente.

— Wanda não é uma vilã. — Makayla atingiu a mão do segurança com um tapa rápido de alerta que o fez se afastar por instinto com o olhar de profunda indignação.

— Pode até ser, mas ela sentiu a morte dele, então certamente vai sentir a ressureição assim que o corpo dele voltar a ter atividade cerebral, você acha que ela vai chegar aqui agradecendo por alguém ter mantido o irmãozinho dela congelado por anos antes de brincar de Frankstein com ele, ou ela vai vir atirando primeiro e perguntando depois? — O homem jogou em um tom levemente sarcástico.

— Detesto concordar com o careca, mas ele tem um ponto. — Lemar declarou com um aceno rápido. — Eu não acho que a Wanda Maximoff vai chegar perguntando quem é inocente e quem não é.

Até fazia sentido, ainda mais depois de todas as informações que Makayla tinha sobre Wanda Maximoff ser como uma bomba relógio caótica. Mesmo assim a jovem não estava disposta a simplesmente acreditar no pior. Wanda era uma Vingadora e uma heroína, ela merecia alguma felicidade na vida.

— Então vocês estão me dizendo que a vida de um homem está a um botão de distância e vocês vão simplesmente ignorar isso? — Retrucou, movendo seu olhar para encarar os três homens no cômodo. — Wanda perdeu tudo, isso significaria o mundo pra ela.

— E seria a destruição pra nós. — Feltz retorquiu de forma meio fúnebre.

— Vocês são tão hipócritas. — A jovem revirou os olhos de indignação e decepção. — Okay, eu entendo, não podemos brincar de Deus e trazer alguém de volta a vida. — Ela se virou para o segurança em seguida. — Mas você está dizendo pra mim que o procedimento já foi feito, é só um botão. Vamos simplesmente puxar o fio e sentar aqui enquanto os órgãos dele entram em falência.

— Você está sendo extremista e dramática. — Ele respondeu naquele tom condescendente que lhe era típico em todos os seis meses que passou sendo praticamente a sombra de Makayla.

Isso trouxe à tona toda a birra que ela costumava ter do homem.

— Não, eu estou sendo realista, me desculpe se eu não mato pessoas todo dia feito você, e por isso não acho normal desistir de uma vida. — Retrucou superior e irritadiça.

Feltz chegou a abrir a boca para responder, mas foi interrompido por Danniel:

— Okay. Já chega. Está na cara que essa é uma conversa complexa e que não vamos resolver nada agora, e nem precisamos também, nem sobre Pietro e nem sobre o Cam. Vamos achar um jeito de sair daqui, denunciamos tudo que a Emma anda fazendo e colocamos esse processo sob a responsabilidade de alguém competente e confiável.

À primeira vista Makayla até gostou do que ouviu, isso só até ela pensar em quem seria esse “alguém” competente e confiável. Evidente que assim que as autoridades soubessem de tudo, elas apreenderiam toda a tecnologia da Forja, e depois disso usariam o que fosse a seu bel prazer.

Não dava pra confiar no governo.

E sim, parecia um tanto egoísta querer manter aquele tipo de tecnologia apenas para si mesma, longe e em segredo do resto do mundo. Porém Makayla estava cansada de ver as pessoas ao seu redor morrerem, se havia um jeito de reverter isso, ela não tinha o direito de desejar tal coisa?

Assim que o pensamento passou por sua mente, houve esse vislumbre de autorreflexão que mostrou o quão problemático ele era...

Será que estava passando dos limites em seus desejos egoístas?

— Depois disso podemos até podemos procurar a senhorita Maximoff pra explicar tudo, e ela não sentir o irmão voltar a vida de supetão. — Danniel ainda falava em um tom apaziguador.

— É uma ideia razoável. — Lemar concordou. — Podemos pensar melhor e com calma em tudo. Não precisamos decidir nada correndo.

Makayla ponderou; a opção pacifica e equilibrada parecia certa em um primeiro momento, mas a longo prazo era mesmo a melhor escolha?

Havia essa vozinha em sua cabeça que dizia que algo como aquela tecnologia devia ficar bem longe das mãos do governo, talvez o certo de verdade fosse destruir aquele projeto antes que ele caísse em mãos erradas que usariam algo aparentemente tão bom para fins escusos....

O coração de Makayla ainda queria o irmão de volta, custasse o que fosse, mesmo que sua mente acusasse que isso não era sensato. Mas quem a culparia? Quem nunca havia desejado trazer um ente querido de volta? Quem desperdiçaria a chance de vencer a morte?

Era mesmo um desejo tão insano e errado?

Talvez Danniel estivesse certo, aquele assunto era complexo demais, precisavam de tempo para pensar e decidir com cautela, cabeça fria e emoções controladas.

— Não vai dar tempo de nada disso. — Feltz declarou de repente e havia uma certa pitada de pânico em sua voz.

— Ah, mas é claro que você tinha que criar um problema, não é mesmo? — Makayla cruzou os braços de forma contrariada. Impressionante como ficar perto daquele homem por míseros dez minutos havia revivido todo o ranço que sentia dele.

— Eu não “criei” um problema. — O homem fez aspas com o dedo, enquanto imitava o tom empertigado da jovem. — Eu só achei um, antes que matasse a gente.

Ele apontou para uma pequena luz vermelha abaixo de um dos monitores desligados.

— Alguém sabe a quanto tempo essa luzinha tá piscando? — Questionou tenso.

Todos negaram em conjunto.

— Que diferença faz? As luzes estão o tempo todo piscando, não estão? — Makayla devolveu um tanto sem paciência.

— Isso é diferente. A luz piscando em todas as áreas é alerta de invasão, essa pequena nos monitores é pra outra coisa.

Feltz ligou o monitor, suas mãos visivelmente trêmulas, a tensão que emanava dele era tão intensa que Makayla podia captá-la com seus poderes. Pensou em adentrar a mente dele e ver todas as suas lembranças para entender o que exatamente estava acontecendo, sabia que conseguiria, principalmente depois do confronto com Lemar, mas parecia muito invasivo, mesmo sendo alguém por quem ela não nutria nenhum tipo de carinho.

Tinha que estabelecer limites e regras para quando usar aquelas habilidades. Apenas em situações de necessidade e urgência.

Logo que o monitor se acendeu uma imagem especifica apareceu na tela.

— Por que o cronômetro? — Makayla apontou os números que mudavam segundo a segundo em ordem decrescente.

— Isso importa? Cronômetro em contagem regressiva é sempre ruim. — Lemar comentou e a tensão dele também começou a pinicar os sentidos de Makayla.

— Alguém iniciou a operação queima de arquivo. — Feltz explicou e sua voz expressava muito bem o nível de seriedade da coisa. — Segundo os protocolos de segurança, na ameaça de uma descoberta da Forja a instalação entraria em processo de autodestruição para...

— Acabar com qualquer prova que puder comprometer a Emma. — Danniel completou, prevendo muito bem como a mente egocêntrica da ex-mulher funcionaria.

Os números na tela não marcavam muito mais que uma dezena de minutos...

— Temos que ir agora. — Feltz acertou o tempo em seu relógio de pulso e se colocou a caminho da saída, praticamente atropelando todo mundo. — Não é hora pra discussões existenciais, se ficarmos acabaremos como eles, mortos.

Makayla encarou as câmaras que o homem havia acabado de apontar de forma tão displicente. Não havia tempo. Olhou para o rosto congelado do irmão através do pequeno vidro, qualquer discussão sobre trazê-lo ou não de volta a vida era irrelevante naquele momento, porque mesmo que houvesse concordância, não haveria tempo para que o procedimento fosse feito, o corpo tinha que ser descongelado e submetido ao processo de reanimação dos órgãos e só depois podiam acionar o botão que devolveria a atividade cerebral dele. Era um processo de horas, e eles tinham minutos.

Era como se estivesse perdendo o irmão outra vez...

A dor quase física que cortou seu corpo fez com que sua mente pairasse por um milésimo de segundo em um lugar especifico entre o espaço e o tempo, ali os pensamentos imediatos de Danniel, Lemar e Feltz ressoavam todos de uma vez, como se estivessem conversando em voz alta. Algumas vozes mais altas que outras, inclusive, como se alguns pensamentos gritassem e outros sussurrassem.

Makayla compreendeu que sua habilidade podia não apenas entrar na mente de alguém e vasculhar suas lembranças, ela tinha a capacidade de ouvir pensamentos em tempo real, assim como Xavier e Psylocke. Além disso, já era evidente naquele ponto que ela tinha uma certa facilidade em captar o sentimento que as pessoas emanavam. Seus poderes estavam evoluindo bem rápido.

Antes de tirar um segundo para entender como bloquear o som dos pensamentos alheios — afinal não pretendia ser inoportuna e xereta, — Makayla notou que, de fato, não havia qualquer atividade mental nem em Cameron, nem em Pietro.

Tanto poder e não podia fazer nada por eles... Era seu pensamento no instante em que olhava para o rosto do irmão e via seu pai e Lemar se despedirem dele de forma silenciosa, antes de serem incentivados a sair por Feltz.

Makayla respirou fundo, grande parte de sua terapia foi sobre aceitar o luto e a inevitabilidade da morte, ela tentou se lembrar de tudo aquilo para que talvez sua mente e seu coração ficassem em paz. Não podia salvar o irmão.

Seus olhos caíram sobre Pietro Maximoff. O irmão de Wanda.

Em seguida olhou para Feltz na saída, pedindo que ela se apressasse.

Makayla tomou uma decisão então, uma que talvez pudesse ser imprudente e impulsiva, mas ela estava disposta a correr o risco.

Deu dois passos para trás e apenas bateu a mão no botão vermelho que supostamente devia ativar a atividade cerebral de Pietro Maximoff.

— O que você fez?! — Feltz perguntou exasperado.

Makayla havia bloqueado o som dos pensamentos alheios, mas não precisava ouvir nada disso para saber que pegou os três homens de surpresa e que, mesmo excluindo a total indignação de Feltz, ou outros dois também não estavam exatamente confortáveis com a decisão unilateral dela.

— Se eu nunca vou poder salvar o meu irmão, pelo menos vou salvar o irmão da Wanda. — Declarou apenas, enquanto o cronômetro de autodestruição começava a correr e a luz dentro da câmara se intensificava em umas dez vezes.

— É claro. — Feltz revirou os olhos contrariado. — E agora pouco importa se um prédio vai cair ou não na nossa cabeça, porque no fim vamos todos virar macacos voadores nas mãos da Mágica de Oz.

— É Feiticeira Escarlate. — Makayla corrigiu calmamente. Estava segura do que tinha feito. — É assim que chamam ela agora. Além disso, não se preocupe, eu já pensei nisso. — Ganhou um olhar interessado de todos ali. — Wanda e Pietro claramente tem uma conexão mental, se eu bloquear isso ela não vai perceber até que seja um momento mais apropriado.

Era um plano arriscado, mas Makayla estava convencida que, se podia bloquear o pensamento dos outros de chegarem até ela, então poderia bloquear qualquer pensamento de Pietro de chegar até Wanda, pelo menos momentaneamente. Não era a mesma coisa, mas era parecido, certo?

— Bloquear mentalmente a mulher que controlou uma cidade inteira e todos os habitantes nela? — Feltz soou incrédulo. — Eu não acho que você esse tanto de poder.

— E eu acho que você não tem ideia de quanto poder eu tenho. — Makayla retrucou firme.

Nem ela mesma tinha ideia, a verdade é que ainda era completamente incerto se teria ou não sucesso naquilo que planejou, mas havia essa única certeza, tinha que tentar.

Além disso não estaria bloqueando a própria Wanda, apenas Pietro. Uma pessoa não pode procurar por aquilo que não sabe que existe, não era essa a premissa usada pela megera da Emma? Talvez desse certo...

Se tudo aquilo que tinha visto nas memórias de sua mãe e de Xavier estava correto, se havia mesmo uma profecia “perseguindo” Wanda, apesar da mudança de universo, então provavelmente Magneto estava tinha razão, ela precisava do irmão gêmeo.

Ou talvez tudo aquilo fosse Makayla deixando o coração falar mais alto, tinha se compadecido da história dos gêmeos, tinha se identificado com Wanda de alguma forma, e no fundo estava fazendo aquilo por Pietro, porque gostaria que alguém tivesse feiro o mesmo por Cameron.

Mas nada disso importava no momento...

Quando a luz incandescente na câmara começou a baixar e um aviso verde de sucesso foi exibido na tela, Makayla sabia que precisava deixar todos seus questionamentos e dúvidas de lado e focar apenas em seu plano. Bloquear os pensamentos de Pietro.

Imaginou aquilo como se estivesse construindo um campo de força de energia psíquica ao redor dele, algo que tinha efeito apenas ali, naquele limbo fora do espaço tempo onde todos os pensamentos se encontravam...

Ela se aproximou da câmara.

Um, dois segundos.

Ele estava vivo.

Os pensamentos de Pietro Maximoff vieram em uma velocidade tão frenética e caótica que Makayla sequer conseguiu acompanhar. Tudo junto, tudo de uma vez. No geral todo mundo pensava em uma velocidade muito mais rápida que a necessária para organizar a própria fala. Mas Pietro... ele pensava na velocidade da luz. Era impressionante.

O gêmeo de cabelos platinados abriu os olhos finalmente, encontrando as íris de Makayla por um microssegundo, as dúvidas em sua mente se tornando tantas que deixavam a jovem tonta. Ela chegou a abrir a boca falar alguma coisa, mas quando ensaiou a primeira palavra Pietro já tinha se levantado e saído correndo, quase mais rápido do que os olhos podiam ver.

— Parabéns! — Feltz ironizou com uma única batida de palma.

— Temos que sair daqui, pensamos no Pietro depois. — Danniel disse apenas, apontando o cronometro de autodestruição que não parava, mostrando o tempo se esvaindo.

Makayla no entanto, embora estivesse caminhando com os outros, sabia exatamente onde Pietro estava, correndo por todo o andar descontroladamente, procurando um jeito de escapar, ela sentia que os pensamentos dele se chocavam contra algo invisível, e talvez essa fosse a prova que sua barreira havia funcionado.

Foi nesse instante que Pietro começou a pensar na irmã, chamar por ela, e cada vez que a mente dele fazia isso, Makayla sentia que era golpeada de forma violenta, como se os pensamentos do gêmeo Maximoff estivessem tentando a todo custo transpassar a barreira.

“Por favor, fica calmo, Pietro.” Makayla pensou, se esforçando para permanecer concentrada na barreira psíquica, enquanto ainda caminhava pelos corredores da Forja sob a liderança de Feltz

“Quem falou isso?” Os pensamentos do gêmeo Maximoff responderam.

“Você me ouviu?” A pergunta de Makayla permaneceu sendo apenas mental.

Nunca imaginou que podia fazer como Xavier e ter conversas mentais com qualquer pessoa...

“Quem é você, onde está a Wanda?” Pietro estava confuso, não sabia como sair dali e sequer sabia onde estava, mas sua primeira preocupação era com a irmã.

Isso era admirável.

“Meu nome é Makayla, a gente se viu quando você acordou, não se preocupe, sua irmã está bem, eu vou te explicar tudo...” A jovem comentou, passando a narrar todos os eventos depois da morte de Pietro, o que havia acontecido com Wanda, e como ele tinha ido parar na Forja, além de deixar claro seu próprio envolvimento em tudo isso.

Ao mesmo tempo, o grupo de fugitivos chegou ao elevador que os levaria a saída, enquanto Feltz resmungava que era péssimo que não tivessem encontrado absolutamente ninguém naquele andar.

Lemar tentou apertar o botão do elevador diversas vezes, mas a resposta era sempre a mesma, o botão ficando vermelho e emitindo um bip de erro. Feltz também tentou, mas o resultado não mudou em nada.

— Ela já me tirou de todo o sistema mesmo. — Ele resmungou entredentes, claramente se referindo a Emma. — Não podemos chamar o elevador sem ter uma digital cadastrada, e mesmo que conseguíssemos, cada um de nós precisaria de uma identificação autorizada para que ele se movesse. — Explicou contrariado, e seu suspiro derrotado disse muito sobre a situação. — A única pessoa que tem permissão pra andar com pessoal não cadastradas dentro do elevador é a Emma com o cartão de acesso mestre dela.

Lemar tentou de novo, mesmo assim não obteve êxito. Era certo que a Diretora Kennedy não cadastraria, justo na única saída do lugar, a digital de alguém que ela não queria que deixasse a Forja...

Ao menos foi isso que Makayla concluiu, assim que passou a prestar total atenção à cena, logo depois que sua conversa com Pietro foi finalizada. Sorte que quando se tratavam de pensamentos, tudo era mais rápido e prático, principalmente porque a jovem descobriu que podia mostras a Pietro suas memórias, pra resumir bem a história.

Ainda bem, porque a julgar pela olhada rápida que Feltz deu no relógio de pulso e na urgência que emanou dele em seguida, era bem óbvio que eles não tinham muito mais tempo.

— E escada de incêndio? Todo lugar tem escada de incêndio. — Ela tentou sugerir, fazendo com que Feltz lhe encarasse por um instante.

— Nos andares comuns sim, mas em um andar projetado para prisioneiros, não. Tudo aqui foi minuciosamente planejado para não ter falhas. — A resposta não era nada boa. — Cada vez que seu pai tentava fugir Emma implementava algo novo e melhor.

— Deve ter outra saída. — Danniel ponderou em tom urgente.

Foi nesse instante que um furacão veio correndo da esquerda e parou bem no meio de todos eles.

— Não tem... — Pietro respondeu de forma simples, ganhando um olhar assustado de todos os homens ali. — Já olhei por aí. — Focou em Makayla, a analisando de baixo a cima por um instante. — Na minha mente você era mais alta.

— Mas você me viu quando acordou. — A jovem devolveu de forma óbvia.

— Eu estava correndo, não reparei. — O gêmeo Maximoff apenas deu de ombros enquanto examinava a porta do elevador.

Ao ver o olhar confuso de todos os outros Makayla apenas respondeu casualmente, apontando para a própria cabeça:

— A gente conversou e se resolveu.

Feltz se aproximou de Pietro uns três passos, de modo cauteloso e desconfiado.

— E a sua irmã? — Questionou.

— Já ‘tô sabendo que não é pra chamar ela porque você tem medinho. — Pietro se limitou a responder, focando em todos os outros logo em seguida. — Vasculhei o andar tudo, não tem ninguém, nem qualquer saída.

Lemar respirou fundo e se posicionou na porta do elevador, socando o metal com sua nova super força, basicamente nada aconteceu.

— Socar as portas não vai funcionar dessa vez. — Feltz comentou, passando a mão pelo rosto de forma frustrada. — Como eu disse, a estrutura do prédio e os elevadores não são feitos de metal comum, são de adamantium, então, mesmo sendo um super soldado você não vai ter resultado.

— Adamantium? — Pietro repetiu confuso.

— Chamaram assim, é um metal sintético que a equipe de pesquisa descobriu analisando o OZ e conseguiu replicar. — Feltz explicou sem ânimo.

Ninguém fez mais perguntas sobre, mesmo porque a preocupação do momento era outra. Se não abrissem aquelas portas e conseguissem fazer o elevador funcionar, então estavam presos ali. Seriam soterrados pelos escombros da explosão em breve.

— Legal, nem bem revivi e já vou morrer de novo. — Pietro moveu a cabeça de forma negativa. — Deu nem tempo de comer um sanduba.

Ele rapidamente correu para a parede oposta e se encostou ali, com ambas as mãos atrás da cabeça de forma despreocupada.

Makayla estava prestes a responder, quando sua mente notou algo que fez seu coração acelerar...

— Nós todos vamos morrer aqui galera... — Pietro cantarolou. — Ainda acho que devíamos chamar minha irmã.

— Ninguém vai morrer aqui. — Makayla declarou convicta. — E não precisamos da Wanda, eu vou manter o bloqueio como está, a ajuda já está vindo.

Apontou para o visor acima do elevador, que indicava seu andar, porém nada aconteceu. Um, dois, três, quatro, cinco, seis segundos e a luz mostrou que alguém estava descendo.

— Você prevê o futuro também? — Pietro questionou, se desencostando da parede e dando alguns passos pra frente.

— Não, eu só consegui sentir ele de longe.... — Makayla respondeu com os olhos fixos na porta e um sorriso suave nascendo em seu rosto.

— “Ele?” — Danniel repetiu confuso.

Não houve resposta, Makayla não se importava mais com isso nada disso, porque quando as portas do elevador finalmente se abriram ela finalmente reencontrou o homem que tanto amava...

Bucky Barnes.

Aquele segundo ficou parado no tempo, o momento exato em que os olhares se encontraram e a alegria se tornou explícita neles. O coração de Makayla saiu totalmente do ritmo, sua respiração descontrolada e um sorriso tão grande se abrindo em seus lábios que a única coisa que Bucky realmente teve tempo de fazer foi baixar a arma que tinha em punho para receber a jovem em seus braços.

Ele a envolveu de forma angustiada, o alívio que emanava era mútuo, vinha dos dois ao mesmo tempo. Seus corações batiam fora do ritmo, mas ainda assim em sincronia e seus lábios buscaram um pelo outro com desespero.

Pouco importava quem estivesse ao redor, a realidade deixou de existir por um momento. Havia apenas os dois, presos em seu próprio mundo, transbordando toda a emoção de estarem juntos outra vez.

Eles afastaram o rosto, suas íris se encontrando uma vez mais e um sorriso conjunto se abrindo.

— Eu sabia que você estava viva. — Bucky tinha os olhos marejados, puxou ambas as mãos de Makayla e as beijou com ternura. — Eu tinha certeza.

A jovem Devinne sequer se lembrava da última vez que tinha experimentado uma felicidade tão plena quanto naquele instante. Se jogou nos braços de Barnes novamente, sendo envolvida de forma tão acolhedora que simplesmente se sentiu em casa. Não havia outra forma de descrever.

Bucky Barnes era seu lar.

— E eu devia saber que você vinha se salvar, você sempre salva. — Ela murmurou, ainda colada nele, mas sentiu o exato instante que a postura masculina enrijeceu.

Deu um passo para trás e viu que os olhos de Barnes estavam em um ponto do lado esquerdo.

— O que esse idiota está fazendo aqui? — Ele ergueu a arma novamente, assim que viu Scott Feltz a cinco ou seis passos do elevador, em seguida colocou Makayla um pouco atrás de si de forma protetora.

— Ele me ajudou. — A jovem pousou a mão sobre os dedos de vibranium de Barnes, fazendo com que ele abaixasse a arma. — Acho que podemos dar a ele o benefício da dúvida.

Embora Bucky não tenha parecido tão satisfeito assim, ele cedeu, focando seus olhos alguns centímetros mais para a esquerda, onde Lemar Hoskis estava. Franziu as sobrancelhas, uma porção de dúvidas emanando de dele tão claramente que Makayla podia sentir sob sua pele, mesmo sem precisar ler os pensamentos de Barnes para isso.

— Pois é, o Lemar tá vivo, e tem o super soro também. — Ela explicou rapidamente, mas isso não fez com que Bucky desfizesse a expressão de confusão e surpresa.

— A vida é louca, cara. — Foi só que o Hoskins disse, movendo as mãos em rendição.

— Pois é, e a vida vai continuar sendo louca se a gente sair daqui logo e parar de lerdeza. — Pietro declarou impaciente, entrando no elevador com sua super velocidade e se encostando em um dos cantos.

Bucky pareceu se lembrar de algo muito importante finalmente.

— Tem um tipo de bomba no prédio. Foi a Emma. — Ele disse urgente, focando os olhos em Makayla de forma protetora.

— A gente já está sabendo, cara. — Pietro resmungou em tom entediado, antes que a jovem Devinne tivesse chance de dizer qualquer coisa.

— Quem é esse? — Bucky apontou para o rapaz de cabelos platinados, enquanto Lemar e Feltz também entravam no elevador.

— É o irmão da Wanda, Pietro. — Makayla esclareceu de formas simples.

— Ele não estava morto? — Barnes franziu as sobrancelhas uma vez mais, enquanto apoiava ambas as mãos na cintura de Makayla, como se não conseguisse ficar longe dela por sequer um segundo.

— Parece que quase todo mundo decidiu burlar a morte. — A jovem disse com um mover de ombros, apontando para trás de si em seguida. — Falando nisso... esse é o meu pai.

Os olhos de Bucky seguiram para Danniel rapidamente.

— Seu... pai...? — Ele repetiu devagar, parecendo se dar conta de um milhão de coisas importantes ao mesmo tempo.

Barnes se afastou de Makayla no mesmo instante, como se tivesse levado um choque, sua postura era um misto quase engraçado de constrangimento e receio.

— Senh... Senhor Devinne. — Ele gaguejou limpando as mãos na roupa antes de estender uma delas. — É um prazer conhece-lo.

Danniel encarou a mão direita de Bucky, então focou na filha por alguns segundos. Só então Makayla se deu conta que tinha acabado de protagonizar um baita beijo ali na frente de todo mundo. Parecia um jeito um tanto inesperado de apresentar um namorado, que por coincidência era também um herói e um soldado centenário, para o pai...

— Quando foi que...? — Danniel apontou de Makayla para Bucky algumas vezes e então balançou a cabeça como quem espanta o assunto. — Deixa pra lá... — Ele finalmente estendeu a mão direita. — É um prazer te conhecer também, Sargento Barnes, mas que tal deixarmos as explicações pra depois?

Ambos trocaram um aperto de mão que foi no mínimo constrangedor, antes de entrarem todos no elevador. Aparentemente Bucky havia conseguido o cartão de Emma e por isso todos eles não teriam problemas em sair dali, Makayla não sabia exatamente como tinha acontecido, mas parecia um tanto irrelevante no momento.

— Onde...? — Danniel apontou para o casal novamente, sem conseguir tirar os olhos deles por um só instante.

Makayla viu Bucky abrir e fechar a boca três vezes, procurando por uma resposta adequada enquanto o elevador começava a se mover.

— Longa história. — Ela declarou primeiro, dando a conversa por encerrada pelo menos no instante.

Focou em Bucky, que naquele instante estava no limite do constrangimento, o que era um tantinho engraçado e muito fofo, porém além disso, ele tinha tantas dúvidas e preocupações naquele instante que Makayla podia sentir no ar.

— Eu não vou mais morrer de um tumor estranho e desconhecido. — Ela tocou o braço dele com carinho, sabendo que de todas as coisas que podia dizer, aquela era a que mais acalmaria Bucky. — Eu também tenho meus poderes de volta, mas posso controlar agora, então...

— Eu nunca duvidei que você acharia um meio de controlar. — Barnes pousou seus olhos azuis em Makayla e disse aquelas palavras de forma tão carinhosa que a jovem sentiu como se fossem um abraço.

Mas isso durou apenas um segundo, porque logo depois Bucky pareceu lembrar que haviam pessoas com eles no elevador — ou melhor, havia um pai com eles no elevador — e voltou a uma postura séria e distinta.

Mesmo assim, ele não conseguia tirar os olhos de Makayla, ainda havia essa urgência emanando dele e a jovem Devinne teria se permitido ouvir os pensamentos imediatos de Barnes, se não tivesse prometido a si mesma que só faria algo assim em situações de emergência. Podia controlar agora, não precisava invadir a mente de Bucky sem o consentimento dele novamente.

E, de uma forma ou outra, ele acabou verbalizando o que queria saber.

— E como você está? — Questionou, mas seus olhos pousaram no ventre de Makayla, indicando que a pergunta não era apenas sobre ela.

A jovem sorriu pousando a mão sobre a barriga quando respondeu:

— Estamos bem. — Makayla sorriu, prestes a dizer algo mais, antes do clima ser destruído por Pietro Maximoff.

— Vocês sabem que a gente não está em um barquinho do amor em Veneza, não é? — Ele jogou naquele tom impaciente que lhe parecia um tanto natural em situações de tensão. — É basicamente um elevador que pode explodir a qualquer instante.

— Qualquer instante, não. Temos uns minutos ainda. — Feltz apontou o próprio relógio e Makayla moveu a cabeça naquela direção para olhar o tempo.

Mesmo assim ela não precisaria ter olhado, em seu coração ela tinha essa estranha certeza que tudo ficaria bem, eles sairiam do prédio a tempo graças a chegada de Bucky e no fim, apesar de ter deixado Cameron para trás, tudo daria certo.

A Forja seria destruída pela explosão, mas os planos de Emma seriam expostos, afinal Lemar, Danniel e Pietro eram agora, assim como ela própria, testemunhas de todo o ocorrido.

Não havia mais nada que pudesse dar errado.

Ou talvez Makayla tenha pensado nisso um pouco cedo demais. O elevador parando repentinamente em um andar não requisitado foi a prova disso.

— O que aconteceu, por que estamos parando aqui? — Feltz olhou para o painel no mesmo instante, checando se alguém tinha apertado o botão errado, mas não, a maquina estava parando ali por causa de uma ordem externa.

— Ainda tem alguém no prédio. — Makayla declarou tensa.

Ela podia sentir um pânico muito grande exalando por toda a parte, mas não precisou focar muito em descobrir o motivo desse sentimento, porque logo as portas de abriram.

Era o mesmo médico de óculos muito redondos, Bolivar Trask. Uma variante dele havia criado as Sentinelas na realidade de Charles Xavier, mas ali, no universo de Makayla, aquele homem era apenas um pretenso cientista que achava que aquela tecnologia viera do futuro, algo criado para salvar a humanidade.

Naquele instante, Trask parecia apavorado, seus olhos arregalados por trás dos óculos e suas mãos trêmulas.

— Alguma coisa deu errado! — Ele disse abalado, focando em Feltz, avançando um passo na direção do elevador. — Eu consegui, mas alguma coisa deu errado!

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Não houve tempo para perguntas, uma nuvem cinzenta despontou no corredor, se unindo bem ali em três das aranhas robóticas parecidas com as que Makayla tinha visto nas memórias de Xavier.

A Sentinela estava de volta.

Bucky foi rápido o bastante para começar a atirar. Infelizmente as balas não faziam dano algum naquelas coisas, pelo contrário, era como se os nano-robôs estivessem acoplando o metal dos projeteis em seus próprios corpos.

Makayla instintivamente colocou uma das mãos sobre o ventre e com a outra puxou Pietro um pouco para trás antes que ele se movesse, imaginou que os dois seriam os alvos da Sentinela, no entanto, a primeira das aranhas atacou Trask, atravessando o centro do rosto do cientista com sua pata afiada antes que a segunda aranha missasse seus olhos vermelhos no homem e disparasse uma sequência de raios laser nele.

A criação havia assassinado a variante de seu criador.

A jovem Devinne teve apenas um milésimo de segundo para ler a mente do cientista antes que o cérebro dele cessasse com qualquer função vital. Trask havia implementado linhas recuperadas do código básico de Ultron para “melhorar” o OZ.

E, considerando que as Sentinelas evoluíam e se adaptavam conforme o ambiente em que estavam...

— Mas que porra é essa?! — Lemar questionou enquanto apertava freneticamente o botão do elevador para que as portas se fechassem.

Os olhos vermelhos das três aranhas focaram ali, Makayla se preparou para o que viria assim que o escaneamento dos nano-robôs analisasse o organismo dela e detectasse um gene X ativo.

No entanto a tecnologia assassina desconsiderou Makayla, passando por Pietro da mesma forma, para então focar em Danniel, Feltz, Bucky e Lemar.

“Alvos identificados.” A voz robótica entoou em conjunto e todos os olhos das três abelhas se acenderam ao mesmo tempo, porém, quando o disparo foi feito o elevador já havia fechado suas portas de adamantium.

Makayla respirou aliviada, a mão de Bucky envolvendo a dela e seus olhares se encontrando mutuamente, como se ambos precisassem se certificar que estavam bem.

— Ele conseguiu, ele ligou o OZ... — Feltz balbuciou com surpresa evidente na voz.

A jovem Devinne revisou a cena, montando o quebra-cabeças bem mais rápido do que pensou ser capaz. Havia um motivo para a tecnologia não ter ser importado com ela ou Pietro...

— O nome é Sentinela. — Declarou em voz alta e então focou em Feltz — Devia caçar pessoas como eu e o Pietro, mas pelo visto o seu amigo fez algo errado mexendo na programação e agora está caçando humanos...

— Pessoas como você e o Pietro? — Lemar questionou com as sobrancelhas franzidas. — Com poderes? Eu e o Bucky também temos e o treco estranho estava mirando na gente.

— As habilidades de vocês têm a ver com o super soro, a minha e a do Pietro são causadas por um gene especifico que acabou sendo ativado por causa das joias do infinito em duas ocasiões diferentes. — Makayla esclareceu de forma prática, sua preocupação naquele instante era uma só: a explosão do CRG seria o bastante para acabar com a Sentinela de uma vez por todas?

— Como foi que você virou especialista de uma hora para outra? — Feltz perguntou desconfiado.

— Eu tive um bom professor. — A jovem rebateu com os olhos nas portas do elevador, que logo se abriram no hall de entrada e saída. — Vamos!

O grupo então começou a correr junto, poucas pessoas ainda estavam ali, Makayla presumiu que Bucky tivesse avisado as equipes da SWAT para que o prédio fosse evacuado, quando passou por aquele mesmo caminho afim de encontrá-la momentos antes.

Era isso, eles estavam prestes a conseguir...

Lemar e Danniel gritavam para que as últimas pessoas saíssem, Feltz ia logo na frente, Pietro sumiu com sua velocidade, Makayla sabia que ele estava vasculhando os andares superiores em busca de alguém inocente desavisado.

Eles estavam logo na saída, Bucky com seu braço de vibranium ao redor do corpo de Makayla a incentivando a continuar. Eles iam conseguir. Havia essa certeza, porque afinal estava acontecendo naquele instante, o ar fresco da noite já estava batendo no rosto deles. Tudo daria certo...

Ainda assim havia esse sentimento... algo opressor no peito de Makayla que chegava a fazer com que seus pulmões parassem de levar ar suficiente para seu organismo por um instante. Era um pressentimento fúnebre que grudava nela, que deixava um gosto ocre em seu paladar e que dizia insistentemente: não vai dar certo. Algo terrível vai acontecer.

Mas a realidade, segundo a segundo, se provava oposta a isso.

Eles saíram, o vento frio da noite acertando o rosto de Makayla como uma chicotada, ao redor uma multidão curiosa de civis e repórteres muito interessada no motivo daquela evacuação relâmpago. Havia uma barreira de proteção feita com fitas amarelas da polícia metros e metros a frente.

Pietro foi o primeiro a atravessar, aparentemente não havia encontrado ninguém dentro do prédio, mas estava vestindo um uniforme de faxineiro, com boné e tudo, usou uma velocidade normal assim que atravessou as portas e nada atraiu de atenção.

— De nada vai adiantar manter minha irmã longe da minha mente se ela vir meu rosto pela internet a fora. — Foi o que ele disse em um sussurro, enquanto o restante deles atravessava as fitas amarelas para a área segura.

Era isso então? Eles tinham conseguido mesmo?

Makayla não conseguia acreditar, aquele pressentimento ocre ainda lhe paralisava os pulmões, não podia ser tão fácil.

Nunca era...

Estavam ali, era real, ainda assim a jovem Devinne não conseguia acreditar ou se acalmar. Ela começou a dizer a si mesma que era apenas ansiedade falando mais alto, apenas um efeito colateral de ter pensado que tudo daria certo dentro do elevador apenas para levar um baita justo com a morte de Trask. E logo isso se perdeu em sua mente, quando seu olhar avistou algo no céu.

Makayla podia ter dito que era um anjo, um com asas de metal, listras e estrelas, portando um conhecido escudo azul e vermelho...

Mas não era um anjo, era o Capitão América.

— Bucky, o que... — Sam Wilson começou a perguntar, mas logo seu olhar focou em Makayla. — Você estava certo mesmo...

— Eu falei. — Barnes disse apenas, enquanto Makayla e Sam caminhavam um na direção do outro.

— Olá, Capitão. — A jovem disse há uns dois passos de distância. — Belo traje.

Eles se abraçaram, aquele sentimento bom que sempre emanava de Sam, sendo capaz de sobrepujar toda a ansiedade de Makayla por um instante.

— Lemar? — A voz conhecida fez com que alguns deles olhassem por cima de seus ombros.

John Walker se aproximava, se encontrando com o amigo de longa data no meio do caminho em um misto de alivio, emoção, felicidade e surpresa.

Era óbvio que haviam muitas perguntas a serem respondidas, porém, antes que qualquer palavra fosse verbalizada uma explosão vez o chão da cidade tremer.

Bucky puxou Makayla para perto de si em uma postura protetora, mas aquele gesto era um tanto desnecessário, estavam todos atrás da barreira da polícia, a uma distância segura do prédio do CRG que desabava naquele instante, enquanto o fogo consumia os destroços de baixo para cima. A única coisa que realmente os atingiu foi a nuvem de fumaça e pó que se espalhou no ar.

As pessoas na rua sequer estavam assustadas, assistindo a explosão como se fosse algum tipo de espetáculo, filmando com seus celulares. Certamente alguém da polícia diria que foi um vazamento de gás. Era sempre essa a desculpa...

Makayla respirou fundo, escondendo seu rosto no peitoral de Bucky enquanto era abraçada. Não havia um sentimento de conclusão em seu peito, não havia a paz de algo ruim que tinha acabado finalmente, existia apenas essa ansiedade latente, o esperar constante de que algo pior ainda estava por vir.

— É isso. Acabou. — Pietro Maximoff deu de ombros de forma quase desdenhosa. — No fim vocês nem foram tão lerdos assim e vai dar tempo de um sanduba.

Lemar e Walker riam, perdidos em alguma conversa paralela que talvez tivesse a intenção de explicar tudo aquilo. Danniel tinha um sorriso satisfeito no rosto, aspirando o ar noturno de forma saudosa, pouco se importando que ainda houvesse fumaça no ar.

Tudo estava bem...

Mesmo Bucky emanava um sentimento de profundo alivio.

Mas Makayla simplesmente não conseguia relaxar, ela se afastou dele um passo, estalando os dedos de forma frenética, olhando ao redor no meio da multidão, como se de repente alguém fosse surgir das sombras na intenção de lhe fazer mal.

Não podia ter acabado, não tão fácil assim...

— Foi uma noite e tanto. — Sam deu um longo assobio que atraiu a atenção de Danniel.

O pai de Makayla mediu Wilson de cima abaixo, reparando nas cores de seu uniforme e no inconfundível escudo preso nas costas do antigo Falcão.

— Pelo visto eu realmente vou precisar de uma atualização... — Ele comentou em meio a um sorriso, logo em seguida cumprimentando Sam de modo formal. — Capitão.

Ao ouvir a voz Walker olhou por sobre o ombro e finalmente reparou em todas as outras presenças ali além de Lemar.

— Makayla? Senhor Devinne? — Ele questionou surpreso.

Essa mesma expressão tomou conta do rosto de Sam. Provavelmente ele tinha reconhecido o sobrenome.

— Esse é o seu...? — Apontou focando em Makayla e a jovem apenas deu de ombros, incapaz de se envolver o bastante naquele clima ameno de reencontro e calmaria.

— Olha, tudo mundo tem perguntas, mas acho que eu devia ter prioridade em receber algumas respostas. — Danniel ergueu as mãos e seu olhar focou especificamente em Bucky.

— Vixe. — Sam deu uma cotovelada nada discreta no amigo. — Acho que você tem um sogro pra encarar agora.

A risada de Wilson cortou o ar, mas algo diferente fez com que um arrepio frio atravessasse o corpo de Makayla...

Uma nuvem mais escura começava a se erguer por entre a fumaça do recém destruído prédio do CRG. No começo parecia apenas parte dos pequenos focos de incêndio persistentes no meio dos escombros, as pessoas sequer prestaram atenção. Makayla, no entanto, já sabia o que estava por vir antes mesmo da nuvem começar a crescer a ponto de se tornar impossível de ignorar.

Eram nano-robôs. A explosão não havia destruído a Sentinela.

É claro que não podia ter acabado tão fácil assim...

Uma tecnologia adaptável, programada para matar seres super poderosos, e infectada com o código de Ultron, com certeza não seria destruída por uma simples explosão e um desabamento.

— Precisamos evacuar tudo. — Foi só o que Makayla disse, enquanto a nuvem escura começava a crescer no céu.

Os pedidos de Bucky, Sam e os outros não foram acatados de imediato, o fenômeno que naquele instante parecia apenas uma nuvem de gafanhotos era interessante demais para que a população entendesse o perigo dele, por mais que o próprio Capitão América estivesse insistindo.

Apenas quando os nano-robôs começaram a se unir foi que a ameaça foi vista como tal...

— A gente está muito ferrado, não é? — Pietro questionou ali ao lado, enquanto os policiais tentavam atingir a nuvem com diversos disparos.

Makayla apenas assentiu, vendo os nano-robôs começarem a formar a mesma Sentinela gigante que ela tinha visto nas memórias de Xavier. Era como se a tecnologia estivesse absorvendo o metal dos escombros para ficar maior e mais forte.

Merda!

— Temos que tirar as pessoas daqui agora! — Makayla gesticulou efusivamente para os amigos.

Todos eles começaram a trabalhar em conjunto, não que precisassem fazer muito, já que, assim que o robô gigante começou a tomar forma as pessoas caíram na real e começaram a correr. O pânico se alastrou pelas ruas como um vírus contagioso.

Se o que Makayla tinha visto na mente de Trask era verdade, então logo qualquer um ali estaria correndo grave risco...

Aos gritos ela pediu que todos parassem de atacar a coisa e focassem na evacuação total do lugar, mas as autoridades presentes pouco se importaram com o que a menina tinha a dizer e continuaram a atirar, pedindo reforço aéreo pelo rádio.

A Sentinela se formou rápido demais, uma forma humanoide do tamanho de um prédio, que podia facilmente esmagar pessoas como quem esmaga formigas e que, pra piorar, era provida de lasers em seus olhos.

Era possível ouvir a sequência de “alvos identificados” que soava como um alarme, o primeiro disparo veio sobre os agentes da SWAT, as pessoas corriam por todo o lado. Estava óbvio que a tecnologia tinha a capacidade de identificar armas e focava nas pessoas que considerava ameaça primeiro.

As Sentinelas tinham sido projetadas para caçar mutantes, contra humanos seria uma chacina completa...

As coisas ficaram caóticas demais, o pânico das pessoas começou a afetar a capacidade de raciocínio de Makayla, já que se tornava cada vez mais difícil ignorar os pensamentos de quem estava ao redor. Era como se o medo fosse um som impossível de ignorar. Além disso, ela ainda precisava se manter concentrada para que a mente de Pietro se mantivesse contida.

Sam gritava ordens de evacuação e o grupo como um todo tentava cooperar para manter as pessoas seguras. O apoio aéreo chegou rápido, provavelmente já estava a caminho por conta da invasão anterior, mas os disparos só ajudavam a ganhar alguns segundos, porque a Sentinela não sofria dano algum e ainda absorvia qualquer projétil.

O olhar de laser da tecnologia disparava initerruptamente, destruindo construções no caminho e com certeza atingindo mais pessoas do que eles podiam contar. Pietro corria de um lado para o outro tentando tirar os alvos da linha de tiro, mas eram muitas pessoas e ele apenas um.

Eles não tinham um plano de ataque, munição era inútil e uma luta corpo a corpo seria impossível, antes de se aproximar qualquer um deles seria pisoteado. Makayla tentou encontrar qualquer coisa em sua mente que pudesse ajudar, mas todas as lembranças alheias que tinha de confrontos contra as Sentinelas eram sempre uma questão de ter a vantagem com poderes ofensivos ou então ter um bom plano para fugir.

Mesmo Wolverine só conseguia combater aquelas coisas de perto porque além das garras, ele tinha poderes de se regenerar se algo desse errado.

Enquanto corria, ou melhor, praticamente era arrastada por Bucky para um local mais estratégico que usava alguns escombros como proteção, Makayla tentou fazer como a mãe e gerar qualquer arma de energia psíquica, mesmo que não tivesse qualquer habilidade de combate talvez algo gerado por seus poderes mutantes pudesse fazer a diferença.

Walker sugeriu que eles tentassem atacar todos juntos, eram três super soldados afinal, se derrubassem a coisa talvez tivessem alguma vantagem.

— Estão mandando artilharia pesada pra cima dessa coisa, acha mesmo que um trio de socos, por mais fortes que sejam, vai fazer alguma diferença? — Danniel opinou.

Estava ofegante, e um tanto elétrico, mas não era apenas isso, Makayla conseguia sentir o medo emanar dele também, afinal agora que tinha as memórias de volta seu pai sabia bem do que uma Sentinela era capaz.

Ao redor o cenário já era de caos completo, a cidade estava destruída, era como estar no meio da invasão Shitauri uma vez mais, só então Makayla notou que tremia.

Precisava de uma arma de verdade.

Continuou tentando se concentrar em materializar alguma coisa. Mas tudo em que pensava, — de armas brancas a raios púrpura, — não dava certo. Talvez não pudesse materializar nada como sua mãe, talvez seu poder fosse puramente mental...

Ou seja, não valia de nada naquele instante.

Tudo acontecia depressa demais, Sam passou em um voo rasante para tirar alguém da linha de tiro. Bucky gritou para que Makayla não saísse dali e correu pelo meio da rua para trazer um pequeno grupo para aquele local mais protegido, Pietro estava praticamente do outro lado dos prédios ajudando mais pessoas, Makayla podia sentir perfeitamente.

Eles não iam conseguir... Não tinha como salvarem ou protegerem todo mundo.

Lemar e Walker saíram correndo pelo canto, usando sua força conjunta para desvirar um ônibus afim de enchê-lo de civis. Mais suporte aéreo chegou e uns poucos agentes da SWAT ainda persistiam em solo. Era como uma guerra contra um homem só. Um homem robô gigante que nada tinha de humanidade.

Pietro apareceu como um raio, todo sujo e fuligem e sangue, Makayla não precisaria de uma conexão direta com a mente do gêmeo Maximoff para saber que do outro lado as coisas não estava nenhum pouco melhores, qualquer um poderia ver isso nos olhos dele.

— Não vamos conseguir. — Ele disse, movendo a cabeça em negativa, um pouco ao norte uma nova rajada de laser derrubou parte de um prédio. — Me diz que você tem uma carta na manga.

Makayla se sentiu inútil e péssima, não tinha carta alguma na manga, não tinha nada. Não podia salvar ninguém. Por mais que se concentrasse em criar alguma coisa, nada adiantava.

— Você tem que tirar ela daqui agora. — Danniel declarou firme. — Vocês dois podem sair sem serem notados. A Sentinela claramente está caçando apenas humanos.

— Não! Eu não vou pra lugar nenhum. — Makayla retrucou de imediato.

— Me escuta, eles são soldados, você é só uma criança. Seu lugar não é aqui. — O pai dela ainda tentou argumentar.

— Eu não sou mais criança já faz bastante tempo. — A jovem rebateu e ergueu o dedo em riste antes Danniel pudesse dizer algo mais. — E nem tenta me convencer, nem acorrentada eu vou deixar o Bucky pra trás.

Danniel respirou fundo em clara preocupação, nesse instante Bucky já estava voltando com o pequeno grupo, conduzindo todos eles para o ônibus que Lemar e Walker haviam preparado para extração.

— Pelo amor de Deus, coloca um pouco de juízo na cabeça dela. — Danniel pediu, jogando as palavras por cima do barulho.

Makayla apenas negou voltando a focar em criar uma simples rajada de energia que fosse, enquanto Bucky, Danniel e Pietro seguiam em direção ao ônibus tentando explicar o impasse.

— Eu vou fazer o que ela mandar, então vocês se decidam aí. — Pietro disse apenas, correndo para o lado oposto afim de ajudar um casal a atravessar até ali.

Makayla viu a Sentinela mirar na rua, o laser vindo na direção de uma criança que chorava pela mãe no meio do caos completo que havia engolido a cidade, o grito chegou a se formar em sua garganta, mas Sam chegou um segundo antes e envolveu a pequena, usando o escudo para se defender, em um primeiro momento o vibranium pareceu ser o bastante para segurar o disparo, mesmo que o impacto tenha feito os pés de Sam deslizarem pelo chão metros para trás, mas estava evidente que o metal não aguentaria.

“Pietro.” A jovem Devinne chamou mentalmente. “Uma distração”. O gêmeo Maximoff deixou o casal sob a proteção de Walker e correu para o sentido oposto, agarrando os grossos presos aos postes caídos no chão, que já não conduziam eletricidade alguma por causa do estrago, e usando sua velocidade para “laçar” os pés da Sentinela. Deu duas voltas e levou o cabo nas mãos de Bucky que uniu os outros dois super soldados para que puxassem para o sentido oposto.

Isso foi o bastante para desestabilizar a Sentinela e sessar o disparo, dando tempo para que Sam saísse voando dali com as crianças no braço. Por um instante Makayla pensou que eles teriam chance de derrubar o robô gigante, e pelo menos ganhar algum tempo, mas isso não aconteceu. A tecnologia simplesmente desfez seu próprio calcanhar e refez novamente em uma passada para fora do laço e, por sorte dos disparos aéreos, acabou focando os lasers no sentido oposto.

Eles realmente não tinham vantagem alguma.

Sam pousou com a menina ao lado do ônibus, e em seguida correu com Bucky para perto de Makayla. Os sentimentos emanando do Capitão América não eram mais a calmaria de sempre, mostrou o escudo, a pintura derretida e o metal danificado pelos raios da sentinela. Estava inteiro de certa forma, mas claramente não suportaria outro disparo.

Bucky olhou de Sam para Makayla de forma tensa, havia uma mistura de sentimentos angustiantes nele, Makayla podia sentir muito bem. Pietro chegou em seguida, derrapando nos escombros por causa da velocidade.

Ninguém precisava dizer nada, eles sabiam que estavam perdendo feio. Quantos feridos já haviam? Quantas vitimas fatais a Sentinela tinha feito?

Bucky segurou o rosto de Makayla com as duas mãos, a preocupação emanando dele de forma contagiosa.

— Você tem que ouvir seu pai, princesa. Você precisa sair daqui. — A súplica nos olhos gélidos era comovente. — Por favor.

“Eu não posso te perder de novo.” A voz dele ecoou perfeitamente na mente de Makayla. Os olhos marejados deles refletiam um ao outro.

“E eu também não posso perder você.” A jovem deixou que seus pensamentos respondessem.

— Mas não é mais só sobre a gente... — Barnes disse em voz alta, focando seu olhar no ventre de Makayla.

Ela respirou fundo, seu olhar seguindo para Sam que assentiu, ele também queria que ela fosse. Ao fundo o primeiro ônibus de evacuação deixava o lugar totalmente lotado, enquanto Lemar e Walker já procuravam por outro veiculo para tirar mais civis.

— Eu te levo e volto depois pra buscar mais gente. — Pietro garantiu com o olhar em Makayla.

Ela pensou em um bom argumento para não ceder, mas Danniel se aproximando de novo já era prova de que seria uma discussão complicada. Todo mundo estaria contra ela, com certeza.

Respirou fundo, mas mesmo esse gesto ficou suspenso quando a Sentinela virou seu olhar exatamente na direção deles.

— Merda! — Alguém disse quando os olhos vermelhos do robô gigante se acenderam.

O segundo ficou ali suspenso no ar para Makayla, uma fração tão pequena de tempo que serviu apenas para que Pietro agarrasse Danniel primeiro e saísse centímetros da linha de tiro, ele não teria tempo de ir mais longe que isso ou de voltar por mais ninguém, Sam sequer conseguiu abrir as asas, Bucky instintivamente protegeu Makayla com o corpo.

Eles seriam atingidos em cheio.

Makayla viu o clarão vir com o disparo, um grito preso em sua garganta e apenas aquele desejo latente de proteger as pessoas que amava. De proteger o Bucky especificamente. Ela fechou os olhos esperando pelo impacto e...

Nada aconteceu.

Makayla podia sentir fluir através de si mesma, era como eletricidade estática, intenso, quente e trêmulo. Ela abriu os olhos devagar e viu o inacreditável... Um tipo de redoma feita de pura energia púrpura estava envolvendo ela, Bucky e Sam, o disparo da Sentinela batendo do lado de fora, mas sendo incapaz de atravessar

Bucky deu um passo para trás e Makayla encarou as próprias mãos, a ponta de seus dedos brilhava no mesmo tom da energia, e se ela pudesse ver seus olhos notaria que eles continham raios púrpura nas íris, mesmo seus fios de cabelo pareciam um pouco roxos naquele instante...

Ela entendeu finalmente. Não tinha obtido resultado algum tentando conjurar lâminas porque ela não criava armas de energia psíquica como sua mãe...

— Eu crio escudos. — Disse em um sussurro para si mesmo.

— Na verdade quem tem o escudo sou eu. Isso está mais pra um campo de força. — Sam que estava perto o bastante comentou olhando a redoma de forma surpresa. — Mas dada a situação vou deixar passar.

Bucky apenas revirou os olhos para a piada fora de hora e focou em Makayla.

— Você está bem? Isso te machuca?

— Eu estou bem, eu aguento. — Makayla garantiu, dando um passo para frente e ajeitando a postura.

Do lado de fora, Pietro, Danniel, Lemar e Walker olhavam tão surpresos quanto qualquer outro.

A Sentinela parou, por um instante Makayla pensou que seu escudo — ou melhor, campo de forma púrpura, — seria capaz de ocultar Sam e Bucky do escaneamento, porém isso não aconteceu. Na verdade, a barreira de energia psíquica pareceu deixar a tecnologia ainda mais certa de que havia um alvo humano importante sendo mantido ali dentro.

O segundo disparo foi pior, mais intenso e muito mais potente que o primeiro. Makayla pareceu sentir o impacto dentro de seu próprio corpo assim que o laser atingiu o campo de força. Ela tremeu, mas se manteve firme. Não podia falhar.

Se o disparo da Sentinela atravessasse o campo de força Sam seria atingido, Bucky seria atingido.

Do lado de forma era podia ouvir através dos pensamentos de Pietro que os rapazes tentavam bolar um plano de distração novamente.

A intensidade do laser aumentou, Makayla pôde sentir o impacto daquilo como uma onda devastadora, suas pernas tremiam, ela tentava manter o campo de força inteiro, e seu esforço parecia muito mais que mental, era físico também.

Os pensamentos começaram a se misturar em sua mente e isso não ajudava, a urgência dos amigos do lado de fora, o desespero de Sam e Bucky ali dentro, tudo parecia culminar na mente de Makayla de uma vez só.

Tinha que salvá-los, mas como faria isso?

A ideia que lhe ocorreu não era boa, mas parecia muito melhor que manter Bucky e Sam presos dentro do campo de força. Se estivessem livres eles podiam fugir...

Makayla focou em projetar seu poder mais longe, o campo de força expandindo de tal forma que ela foi capaz de mandá-lo para longe de si. Melhor que proteger três pessoas era proteger todos ao redor prendendo a Sentinela com seu poder.

A redoma púrpura cercou o robô gigante, era muito mais difícil e doloroso manter aquele tipo de campo de força, mas Makayla sabia que era mais eficiente também.

— Corram! Agora! — Ela conseguiu dizer, a voz trêmula e falha de quem estava fazendo muito mais força do que o limite. Sam se moveu. Bucky não.

As pessoas corriam pelas ruas todas de uma vez. A Sentinela atacava a redoma de todas as formas, identificando aquilo como ameaça máxima. Makayla podia sentir cada golpe, um de seus joelhos cedendo em direção ao chão enquanto ela se esforçava para manter a energia psíquica ao redor do robô gigante.

A sentinela agora socava o campo de força e o acertava com disparos de lasers ao mesmo tempo. Um grito escapou da garganta de Makayla enquanto ela fazia seu melhor para resistir. Tudo doía, cada musculo, cada fibra, cada átomo.

“Bucky. Você tem que ir agora!” Gritou na mente dele. “Tira as pessoas daqui”.

“Não vou pra lugar nenhum sem você.” Ele não se moveu de novo. “Se eu sair você vai acabar desistindo porque todo mundo está a salvo e essa merda vai te atingir. Eu não vou segurar seu corpo nos meus braços outra vez, Makayla. Nunca mais”.

Esse pequeno fragmento de ideia tinha realmente passado pela mente dela, um “se nada der certo pelo menos todo mundo vai estar a salvo”... Não era sequer surpreendente que Barnes a conhecesse tão bem a ponto de saber.

“Droga, Bucky. Faz o que eu mandei.” Pediu, tendo alguma dificuldade para isolar o pensamento dos dois de todos os outros que ela ouvia ao mesmo tempo.

“Não.” Ele retrucou firme, sua mente tão forte quanto aço. “Eu não vou a lugar sem você. E se o pior acontecer. Então vamos morrer juntos”.

Não era uma opção, Makayla tinha plena convicção disso. Tinha que achar um jeito.

Podia sentir seu campo de força enfraquecendo, seu corpo já tinha passado e muito do limite. Precisava de ajuda. Precisava de algo que fosse forte o bastante para acabar com a sentinela de uma vez por todas.

Algo passou rápido demais pela mente de Makayla, uma velocidade digna apenas de Pietro, uma ideia solta que ele teve e que invadiu os pensamentos da jovem Devinne, os inundando de um vermelho vivo e caótico.

Era isso, não era? Se precisavam da ajuda de alguém com poder o suficiente pra destruir qualquer coisa então era dela que precisavam.

Da irmã de Pietro.

Precisavam de Wanda Maximoff.

“Chame por ela”. Makayla fez ecoar na mente do rapaz, deixando que o bloqueio, que tinha feito para que os pensamentos dele não atraíssem a irmã, se desfizesse por completo.

Ainda que todos estivessem certos e Wanda surgisse ali totalmente furiosa, Makayla tinha essa estranha esperança de que poderiam dialogar com ela.

Wanda não era uma vilã. Ela não era uma máquina de destruição como a Sentinela.

Ela seria razoável...

Um novo ataque da Sentinela, fez com que Makayla quase tombasse para trás a dor foi tanta que ela quase perdeu o foco. Ao redor todo mundo tentava evacuar a cidade o mais rápido possível, mas ela tinha plena convicção que não daria tempo.

Onde você está Wanda?

Uma conversa paralela e preocupada envolvendo Bucky e Pietro se fazia alguns metros atrás em sussurros, mas a jovem não podia se dar ao luxo de ouvir. Cada investida da Sentinela se tornava mais forte e agressiva, Makayla já estava com os dois joelhos apoiados no chão quando uma nova rajada de laser foi lançada, um grito ainda mais agudo escapou de sua garganta, a dor que lhe abateu atravessou seu corpo e tomou conta de seu sistema nervoso de forma aterrorizante, culminando exatamente em seu ventre de um jeito tão angustiante que ela perdeu o foco por um instante...

O campo de força oscilou por um segundo, tempo suficiente para que a Sentinela visse uma brecha, o raio atravessou o ar com força total vindo na direção de Makayla ao mesmo que Pietro começava a correr.

O velocista acabaria atingido, qualquer um ao redor pensaria isso, mas Makayla já tinha uma visão — ou melhor, uma sensação — diferente da cena...

Uma energia densa tomou conta de tudo, a jovem Devinne podia captar todos esses sentimentos conflitantes ao mesmo tempo; luto, dor, raiva, confusão e, principalmente... caos.

Pietro tocou seu braço no mesmo instante em que o clarão do raio laser estava prestes a atingi-los, e então tudo se desfez em vermelho vivo.

A Feiticeira Escarlate pairava alguns metros acima deles, flutuando no ar com a imponência de uma rainha, movendo seus dedos ritmadamente como se brincasse com a energia carmesim que emanava de si.

Makayla respirou fundo em alívio, embora todos ao redor emanassem tensão absoluta, Pietro deu um passo para frente, um misto de surpresa e orgulho vindo dele. Nunca tinha visto a irmã tão poderosa daquela forma.

Wanda Maximoff sobrevoou a cidade de Nova York por um instante, havia nela um ar pesado, uma ira corrosiva, uma obstinação que não conhece limites, era tão denso que não pareciam apenas sentimentos, era como se algo a intoxicasse, e Makayla podia experimentar essa mesma sensação perniciosa como se vírus sombrio estivesse se arrastando por sob sua pele.

Ficou repentinamente tonta, mas foi prontamente amparada por Bucky, que abraçou seu corpo de forma protetora a tirando do meio da zona de ataque para um local um pouco mais seguro. Makayla quis agradecer o cuidado, mas notou que não tinha força sequer para formar palavras, estava cansada ao extremo, cada músculo de seu corpo doía, sua cabeça latejava e havia aquela pontada aguda em seu ventre. Ela tinha certeza que era ruim, mas estava evitando pensar nisso naquele momento.

Enquanto isso, Wanda encarava a Sentinela, havia nela um misto de curiosidade e tédio. Makayla se perguntou se ela conseguiria sentir os vestígios de Ultron dentro da tecnologia, mas honestamente, pouco importava. Isso porque a Feiticeira Escarlate levou um tempo irrisório para resolver o problema, ela destruiu o robô gigante como quem amassa papel velho. Fácil assim.

Makayla se deu conta que qualquer força naquele universo, e talvez em qualquer outro, seria apenas uma formiga sob as botas de Wanda Maximoff. Ela parecia ainda mais poderosa...

Quão perto ela estaria de tornar realidade a profecia que pairava sobre si?

Quando a Feiticeira Escarlate pousou ali, bem no meio da rua, entre os escombros e a destruição, há apenas alguns metros de Makayla, Pietro foi quem decidiu se aproximar primeiro...

No entanto, Wanda deteve os movimentos do irmão, envolvendo as pernas dele com a energia carmesim que dançava em seus dedos.

— Pietro? — Ela questionou em um misto de desconfiança e esperança.

Makayla não conseguia entender aquele sentimento confuso, era como se Wanda não acreditasse em seus olhos, como se já tivesse sido enganada antes. Houve uma curiosidade quase mórbida, mas a jovem Devinne achou que seria mais educado não invadir o pensamento alheio em busca de resposta.

O mais provável era que Wanda sentiria a simples tentativa e isso pioraria tudo.

— Quem mais seria? — Pietro respondeu com um leve ar de deboche, mas isso não fez com que Wanda baixasse a guarda.

Ao redor as pessoas restantes começavam a se aproximar, curiosa com a cena que se desenrolava. Wanda percebendo a presença de intrusos fez um bloqueio, usando sua telecinesia para fazer um bloqueio de escombros.

A multidão ficou para trás e na frente dela apenas Pietro, Sam, Bucky, Makayla, Lemar, Walker e Danniel.

— Diga algo que apenas meu irmão saberia. — Wanda ordenou no limite da irritação.

O gêmeo Maximoff franziu as sobrancelhas e embora nenhuma palavra tenha sido dita, Makayla presumiu que houve uma conversa mental entre os dois, porque logo Wanda soltou o irmão, que correu até ela para um abraço comovente.

Makayla notou que todos ao redor suspiram de alívio, mas isso durou apenas um segundo antes que Wanda erguesse a cabeça novamente e focasse em todos com as íris refletindo vermelho vivo.

— O que vocês fizeram com o meu irmão?! — Estava furiosa, pelo visto o reencontro havia levantado algumas perguntas e ela realmente tinha presumido o pior.

Sam foi o primeiro a se mover, dando um passo para frente, erguendo as mãos de forma apaziguadora e cautelosa, logo depois de pousar o Escudo no chão.

— Wanda, vamos conversar. — Ele pediu em um tom ponderado.

— Conversar... — Ela rebateu carregada de sarcasmo. — Onde estavam todos vocês pra conversar quando eu estava sozinha tentando recuperar o corpo do Viz pra um enterro descente?

Wilson abaixou a cabeça de forma constrita. Pietro por sua vez encarou a irmã como se tivesse nascido uma cabeça extra nela.

— Viz? — Ele repetiu em um misto de descaso, deboche e puro estranhamento. — “Visão” o robô bizarro com a cara rosa?

Wanda encarou o irmão de forma tão fria que por um instante Makayla temeu que o gêmeo fosse lançado longe.

— Wanda, se você manter a calma e me ouvir... — Sam tentou argumentar, atraindo a atenção da Feiticeira Escarlate de volta para si.

— Estou farta de conversar, manter a calma e ouvir, enquanto nos usam de novo e de novo, se não for como ratinhos de laboratório, então é como soldados pra resolver os problemas que eles criaram. — Ela jogou de volta, sua raiva perceptível e, até onde Makayla sabia, era justificável.

Porém havia algo mais ali, algo mesclado aos sentimentos antagônicos que emanavam de Wanda, algo pesado e denso que parecia grudado dela, mas não pertencia a ela exatamente. Como uma infecção.

— E eles sempre criam outro problema, não é mesmo? — A Feiticeira apontou para direção onde a Sentinela estivera segundos antes. — De onde saiu esse aí?

Ela não esperou resposta, focou em Pietro por alguns instantes e Makayla simplesmente soube que Wanda estava obtendo todas as informações que precisava direto da mente do irmão.

— Você está certa, Wanda, não te demos o apoio que você precisava. — Wilson interrompeu com seu tom manso e apaziguador. — Os Vingadores deviam...

— Os Vingadores estão acabados, Sam, acorda! — Wanda rebateu de imediato, tirando o olhar do irmão e o pousando no antigo colega de equipe. — Éramos um grupo fadado ao fracasso desde o começo. — Ela riu de forma seca e decepcionada. — A única ponta de esperança que podia nos manter unidos ficou no fundo de um abismo em Vormir.

Um silêncio pesado pairou entre eles, o luto emanando de Sam colocou lágrimas nos olhos de Makayla sem que ela tivesse controle sobre isso. Estavam falando de Natasha Romanoff.

— Nós lutamos e morremos pelo mundo, mas o que o mundo nos deu em troca? — Wanda questionou em tom acusatório. — Mesmo o Steve percebeu isso e foi atrás de quem amava.

Outro momento de silêncio, o sentimento que rodeava o nome de Steve era misto, tinha entendimento, mas também saudade.

— Ele entendeu tudo, Sam... — Wanda prosseguiu, focando no colega como se fosse importante que ele visse as coisas como ela. — Steve finalmente cansou de se doar para um mundo que só quer nos usar e experimentar em nossos corpos, estejam eles vivos ou mortos. Eles nos tratam como se fossemos propriedade pública e nos odeiam por qualquer erro. Como isso é justo?

Ela apontou para Pietro e então para si mesma. Pelo visto tinha mesmo descoberto a verdade através da mente do irmão.

— Qualquer erro? — Walker ironizou tão baixinho que provavelmente mais ninguém deviria ter ouvido. — A mulher sequestrou uma cidade inteira...

O problema é que Wanda ouviu muito bem, e sua reação não foi nada boa.

Levou menos de dois segundos para que o corpo de Walker estivesse flutuando alguns sentimentos longe do chão, envolvido em energia vermelha.

Enquanto a Feiticeira movia os dedos como em uma dança, foi impossível não reparar que as pontas deles estavam estranhamente escuras, como se tivessem sido mergulhadas em tinta preta.

— Eu te vi na televisão... — Wanda declarou em um tom totalmente diferente do que estava usando com Sam. Era sombrio e um tanto cruel. — Manchando de sangue um legado que não te pertencia, fingindo ser metade do homem que Steve Rogers era. — A energia parecia apertar Walker que se contorcia de dor. — Já que você gosta tanto de derramar sangue, acho que não vai se importar se eu derramar o seu também.

— Wanda, já chega! — Makayla não planejou gritar aquilo, ela sequer pensou que teria forças pra isso. Mas quando viu já estava de pé, encarando a Feiticeira Escarlate.

Sim, John Walker era um idiota de marca maior, mas ele também era o melhor amigo de Lemar, parceiro de Cameron e, de uma forma ou de outra, por mais que isso parecesse estranho, era um amigo de infância. Makayla não podia simplesmente ficar ali calada e parada, enquanto tudo acontecia...

O corpo de Walker despencou no chão em um baque seco, enquanto o homem se levantava resmungando de dor, Wanda focou seus olhos em Makayla, o vermelho tingindo as íris da Feiticeira e sua cabeça tombando um pouco para a direita antes que a jovem Devinne fosse envolta por energia vermelha e lentamente flutuasse em direção a Feiticeira.

Makayla teve a noção que Bucky chegou a se mover, parecia decidido a alcançar o Escudo, porém Wanda foi mais rápida e fez o objeto de vibranium voar no ar, metros longe, até ficar fincado no concreto de um dos prédios.

— Não é um bom momento pra me irritar. — Ela advertiu, passando os olhos por Bucky e por Sam logo em seguida.

Focou em Makayla, que ainda estava cativa da energia vermelha, poucos centímetros separando as duas.

— E você? Quem pensa que é, pra me mandar fazer alguma coisa? — Wanda questionou com irritação e curiosidade.

— Alguém que sabe que você não é a vilã dessa história. — Makayla respondeu de forma simples.

A Feiticeira Escarlate emanava uma profusão caótica de sentimentos, a maior parte deles corrosivos e pesados, impregnados de algo sombrio que parecia se alimentar da tristeza de Wanda. Ainda assim Makayla se mantinha calma, algo estranhamente bizarro, considerando que ela estava nas mãos de uma mulher que, segundo as profecias de outrem, destruiria o mundo.

— Não é isso que as pessoas dizem... — Wanda retrucou apenas, apertando a garota um pouco mais com sua energia vermelha.

— E você é o que as pessoas dizem? Ou é aquilo que você mesma decide ser? — Makayla devolveu, talvez com um pouco mais de ousadia que o aconselhável.

Wanda a trouxe para mais perto, os olhos franzindo minimamente em um misto de curiosidade e interesse, que ao mesmo tempo soava um tanto ameaçador.

— Quem. É. Você? — Ela questionou pausadamente, focando tão fundo nos olhos azuis cinzentos que parecia decidida a ler a alma da jovem.

Makayla teve uma certa noção que podia tentar barrar Wanda, como tinha feito instintivamente assim que conheceu Charles Xavier, no entanto ela apenas deixou que a Feiticeira Escarlate entrasse em sua mente, fornecendo de bom grado todas as informações que achou úteis.

Isso incluía não somente como tinha encontrado Pietro na Forja, mas também a viagem astral pelo multiverso e toda a verdadeira história dos gêmeos Maximoff.

Naquele pequeno milésimo de segundo em que as duas pairavam fora do espaço tempo, Makayla teve a chance de ver parte da mente de Wanda também. Suas dores, suas perdas, a verdade por trás do incidente em Westville...

Wanda não teve intenção de criar nada ali, foi a dor dela quem projetou uma realidade perfeita onde houvesse felicidade. Os poderes da Feiticeira Escarlate eram instintivos e caóticos. Ela podia fazer qualquer coisa, mesmo sem querer fazer isso conscientemente.

Foi assim que criou o Hex, que controlou a cidade toda, que trouxe uma versão própria de seu amado Visão a vida e que gerou filhos. Gêmeos. Billy e Tommy.

E então era tarde demais para voltar atrás. Por que abriria mão de tudo que mais quis na vida?

Mas Wanda vez isso, ela fez o certo no fim.

E isso só lhe causou mais dor...

Libertar Westville significou perder os filhos.

Crianças criadas pelo poder de Wanda... Qualquer um talvez dissesse que aqueles dois sequer eram reais, porém Makayla havia viajado pelo multiverso e conversado com um homem de outra realidade, tudo isso mentalmente. Ela seria a última pessoa a dizer que algo criado com poder, magia ou a simples força da mente não era real.

Pouco importava o que qualquer pessoa diria, a dor de Wanda era genuína.

As duas ficaram frente a frente de novo. Não ali no meio da rua, entre os escombros e a destruição. Makayla e Wanda estavam paradas fora do espaço tempo, um ambiente onde púrpura e carmesim se misturavam perfeitamente em uma paisagem que parecia pintada a mão.

— Interessante... — Wanda soprou. Ali também trajava seu uniforme de Feiticeira Escarlate, embora a tiara fosse feita de energia pura naquele instante.

Makayla por sua vez usava algo totalmente diferente das roupas que estava vestindo quando fugiu do CRG. Eram uma calça e uma blusa sem mangas, ambos feitos de couro branco, mas com todos os detalhes da costura feitos em linhas púrpura, montando formas geométricas e detalhes sem padrão certo. Por cima, um sobretudo também sem mangas, que lhe descia até os joelhos, tanto essa peça, quanto as luvas sem dedos e os coturnos compridos eram feitos de couro púrpura*.

A jovem não fazia ideia de quando havia imaginado aquele traje, provavelmente era alguma projeção subconsciente, mas isso pouco tinha importância no momento.

— Você sabe quem eu sou agora. — Ela declarou, se aproximando mais alguns passos de Wanda, que ainda lhe encarava.

— É, agora eu sei, Makayla... — Foi só o que a Feiticeira disse, antes de focar na paisagem ao redor, como se estivesse ponderando tudo que havia descoberto sobre si mesma.

— Tem toda uma trama multiversal esperando que você seja aquilo que profecias dizem que você é. — Makayla se virou na mesma direção de Wanda, se sentindo incapaz de ficar calada naquele momento.

— E talvez eu seja. — A resposta veio com um dar de ombros e logo as íris com reflexos vermelhos focaram em Makayla. — O que você vai fazer, usar seus poderes mentais pra me derrotar? Só porque barrou a mente do meu irmão, não pense que pode me vencer.

A jovem Devinne sorriu, ali, naquele lugar que não era de fato um lugar, havia um certo equilíbrio perfeito criado pelos poderes de ambas.

— Não preciso vencer, Wanda, porque não tenho a intenção de lutar com você. — Declarou de forma pacífica. — Sequer tenho a pretensão de ficar no seu caminho.

A Feiticeira Escarlate riu de canto.

— Isso não é verdade. — Novamente ela focou em Makayla, mas dessa vez havia uma ameaça implícita naquele olhar. — Você se colocaria no meu caminho se eu ameaçasse tirar de você o mesmo que foi tirado de mim...

Makayla não gostou da sensação fúnebre que aquelas palavras lhe causaram, mesmo assim não se deixou abalar.

Wanda era como um animal selvagem e ferido, ela atacaria se estivesse se sentindo ameaçada ou desafiada. Respeitar o tempo e o espaço dela e evitar um confronto era o melhor a se fazer.

— E é isso que você quer? — A jovem Devinne perguntou apenas.

Wanda voltou a encarar a paisagem, se afastando alguns passos enquanto falava:

— Você salvou meu irmão e meu deu um pedaço importante de informação. Deixarei sua família e seus amigos vivos em retribuição, por enquanto.

Para qualquer outra pessoa a ameaça subentendida naquela frase seria uma ofensa, para Makayla era apenas como encarar uma grande muralha de proteção que Wanda Maximoff havia criado para se proteger do mundo.

— Apesar de ter o poder para matar quem quiser. Você não é uma assassina, Wanda. — Respondeu em um tom neutro.

— E o que eu sou então? — Havia desafio na entonação da Feiticeira.

— Uma mãe que perdeu os filhos. — Makayla declarou pesarosa. — Uma esposa que perdeu o homem que amava. Uma criança que perdeu os pais... — Deu alguns passos em direção a outra. — Não deixe a dor despertar seu pior lado.

— Se o meu pior lado trouxer aqueles que eu amo de volta, valerá a pena. — Wanda rebateu, usando o mesmo tom que havia usado com Sam momentos antes. — Não finja que não entende, porque eu vi que você entende muito melhor que a maioria.

— Eu entendo mesmo. — A resposta veio com um aceno positivo de Makayla, ela encarou a Feiticeira por alguns segundos e decidiu que talvez fosse hora de falar sobre algo que parecia preocupante. — Mas não acho que aquele livro seja a solução dos seus problemas. Ele não é bom pra você.

Darkhold, esse era o nome. Um livro que Wanda havia conseguido das mãos de uma bruxa chamada Agatha, algo milenar e impregnado de magia. Era esse o responsável pela sensação densa e sombria que Makayla havia captado assim que a gêmea Maximoff chegou.

O livro de alguma forma estava infectando Wanda tal qual um vírus, manchava a magia dela, sussurrava coisas que incendiavam ainda mais a raiva da Feiticeira.

— Não fique no meu caminho. — As palavras foram um ultimato, falar do livro estava totalmente fora dos limites. — Eu não sou sua amiga, mas também não sou alguém que você quer ter como inimiga.

— Não. Eu não quero te ter como inimiga. — Makayla admitiu com um mover lento de cabeça. — Eu entendo sua dor, e não sou ninguém pra te julgar. Já cometi meus próprios erros também. — Ela focou em Wanda por alguns instantes antes de continuar: — Mas se tem algo que aprendi é que...

— Não quero saber. — A Feiticeira Escarlate cortou de forma dura. — Agora é melhor findarmos com essa conversa inútil, eu vou levar meu irmão para casa e voltar a procurar pelos meus filhos. E você... — Ela analisou Makayla dos pés a cabeça focando em um ponto abaixo do umbigo da jovem com olhar cheio de sentimentos conflitantes. — Acho melhor ir direto para um hospital.

E acabou. Makayla foi jogada para fora daquele espaço mental, literalmente jogada, já que Bucky teve que aparar seu corpo quando ela voou metros para longe de Wanda.

Houve então esse momento de pura tensão. Barnes travou seu maxilar, uma raiva quase descontrolada emanando dele. Makayla prendeu a respiração, prevendo que qualquer movimento mínimo podia se tornar uma tragédia.

Wanda observou o casal, focando em Bucky com um sorriso quase debochado nos lábios, seus dedos dançando ao lado do corpo enquanto a energia vermelho-vivo se acumulava ali.

Makayla fechou os punhos, franzindo as sobrancelhas minimamente para forçar sua mente a se concentrar. Se Bucky fizesse algo impensado e se envolvesse em uma briga que não tinha chances de ganhar, então a jovem Devinne sabia que teria que intervir. Mesmo que isso significasse se opor a própria Feiticeira Escarlate.

Não deixaria ninguém machucar o homem que amava, se não fosse capaz de proteger Bucky com seus poderes, então morreria tentando...

Wanda emitiu um riso contido que carregava uma certa dose de sarcasmo, ela moveu de uma lado para o outro e qualquer vestígio da energia carmesim desapareceu.

— Não se engane, Makayla, você está muito mais disposta a uma luta do que diz estar. — Declarou em voz alta, dando um último olhar ao casal e focando no irmão em seguida. —Vamos embora, Pietro. Hoje é um bom dia para ser razoável.

O gêmeo Maximoff encarou Makayla por um breve segundo.

“Adeus.” Ela ouviu mentalmente.

E assim eles se foram, incerto dizer se por causa da velocidade de Pietro, ou se por alguma magia de Wanda. Tudo que restou foram os destroços usados como bloqueio, caindo no chão novamente.

“Não importa o que o mundo diz ou pensa. Eu sempre vou te ver como uma heroína.” Makayla deixou essa mensagem no ar para a Feiticeira Escarlate. “Espero que consiga trazer seus filhos de volta.”

“Eu vou”. Foi o pensamento transmitido de volta.

E Makayla sabia que isso era a mais pura verdade. Wanda Maximoff teria seus dois filhos consigo outra vez. Nem que tivesse que ultrapassar limites e destruir o mundo todo para isso.

Profecias se cumpriam de formas estranhas afinal...

Ao redor, um certo sentimento de alívio emanava de todos presentes. Agora sim havia acabado. A sensação de perigo eminente não estava mais lá.

Makayla soube que antes não foi sua ansiedade ou seu trauma falando mais alto. Foi um pressentimento que se tornou verdadeiro...

— Você está bem? Ela machucou você? — Bucky tocou o rosto dela forma cuidadosa.

A jovem moveu a cabeça algumas vezes, queria dizer que estava bem, mas isso seria mentira, então apenas focou no fato de que Wanda não havia lhe machucado de forma alguma. Era a melhor verdade que poderia fornecer a Bucky naquele momento.

Existia um misto de tristeza e medo borbulhando dentro de si, ela sabia que apesar de todas as pequenas vitórias daquele dia, algo ainda podia dar errado... Ela podia sentir escorrendo por suas pernas de forma desconfortável.

Mas seria justo derramar essa tristeza nas costas de seus amigos naquele instante?

Lemar e seu pai estavam de volta, Sam era o novo Capitão América finalmente, mesmo Walker havia encontrado um rumo. Makayla estava viva, sem tumor algum no cérebro, no controle de seus poderes e com Bucky a seu lado.

Nem tudo deu tão certo, mas também não deu errado... Era o melhor que Makayla podia esperar da vida, não é?

Talvez o segredo fosse esse, aproveitar as pequenas vitórias, para que as derrotas não se tornassem pesadas demais. Porque elas viriam, a dor e a perda faziam parte da vida e, por mais que Makayla tentasse ela jamais seria capaz de concordar isso.

E se os sinais da eminente perda de seu bebê dos sonhos estivessem corretos... Se ela nunca pudesse ter aquela criança em seus braços... Seria triste, verdade, mas, pela primeira vez, Makayla entendeu que não era o fim do mundo.

A verdade é que o copo sempre estaria pela metade, cabia a cada um focar no que importava mais, na parte vazia, ou naquela que estava completa.

Agridoce. Esse era um termo adequado para descrever a vida. Makayla talvez tivesse encontrado uma maneira de lidar com isso de forma equilibrada...

— Caramba, pensei que a gente ia se ferrar dessa vez. — Lemar riu, passando a mão sobre o rosto suado e sujo de fuligem e então dando um soco no ombro de Walker. — Viu o que dar ser bocudão?

Os dois amigos riram, a expressão do nervosismo indo embora e dando lugar ao alívio.

— Parece que acabou mesmo. — Sam respirou fundo, olhando ao redor e caminhando até seu escudo fincado em um pedaço de concreto.

Bucky se afastou de Makayla alguns metros para puxar o objeto de vibranium e entregá-lo ao Capitão América. Apesar do leve estrago na superfície o Escudo ficaria bem, uma boa polida e uma pintura nova e ele estaria pronto para mais aventuras.

Sam deu um sorriso ameno a Barnes, pousando a mão no ombro do ex-sargento e então olhando a destruição ao redor.

— Acho que eu devia dar uma olhada se as pessoas precisam de ajuda, pode ter gente presa nos escombros. — Comentou, apontando algumas pessoas que se aglomeravam a oeste dali.

— Eu vou com você. — Lemar se ofereceu no mesmo instante.

— Eu também vou. — Walker se prontificou já caminhando na frente.

Ao passar por Makayla lhe acenou com a cabeça de forma amigável e respeitosa, diferente de Hoskins que deu um carinho beijo na testa da jovem.

— Vocês vão precisar de mim? — Sam olhou de Bucky para Makayla.

— Vai lá ser o Capitão América deles, Sam. — A jovem sorriu para Wilson de forma amena.

Sam abriu suas asas de vibranium alçou voo em direção as pessoas que precisavam. Um verdadeiro herói.

— É... isso foi intenso... — Danniel comentou depois de um longo suspiro. — Essa coisa de estar no olho do furacão não é pra mim, não. Prefiro a área reservada para a imprensa.

Se aproximou da filha e beijou-lhe a fronte, a envolvendo em seus braços por alguns instantes.

— Estou orgulhoso de você, querida. Mas tenho que confessar que vou ter que acompanhar essa sua nova vida de heroína de uma distância segura. — Ele riu com seu bom humor habitual.

— Não sou heroína, pai. No máximo sou freelancer. — Makayla respondeu, escondendo sua preocupação no mesmo tom descontraído.

Bucky encarava os dois de longe, havia esse sentimento de não pertencimento nele naquele instante.

— Agora, eu tenho que perguntar... — Danniel ergueu a cabeça e encarou o ex-sargento. — Como foi que vocês dois se conheceram, porque, se bem me lembro, seu circulo de amigos estavam bem longe de qualquer envolvimento com um Vingador.

— Bom, eu não sou um Vingador. — Bucky encolheu os ombros. — Sou só um cara comum que tem que ir na terapia às vezes.

— E eu sou só uma garota comum que precisava de muita terapia. — Makayla concordou e os dois sorriram um para o outro. — E eu também sou um pouquinho desatenta ao atravessar a rua, felizmente o Sargento Barnes é muito mais heroico do admite ser.

Bucky acabou rindo de canto enquanto negava algumas vezes.

— Bom, nesse caso, bendita seja a terapia, não é mesmo? — Danniel declarou, abrindo um grande sorriso. — E espero mesmo que o Sargento Barnes te ensine a atravessar a rua em segurança a partir de agora.

Os três acabaram rindo, aquela sensação de não pertencimento que emanava de Bucky ia sumindo aos poucos.

— E falando em segurança... — Danniel franziu as sobrancelhas. — Vocês repararam que aquele segurança idiota sumiu?

Makayla assentiu, Feltz não tinha sido mais visto desde que eles sairiam do CRG em segurança, era incerto para onde o homem tinha ido, mas... vaso ruim não quebrava tão fácil, então ele estava bem.

— A Emma também fugiu. — Bucky revelou com pesar.

Mas aquela não era uma notícia que surpreendia a nenhum deles. Emma Kennedy era tão escorregadia quanto uma cobra traiçoeira. Apesar disso. Makayla sabia que não teria tempo de lidar com sua madrasta naquele momento.

Danniel olhou para o aglomerado de pessoas que cercava o lugar onde Sam e os outros rapazes estavam trabalhando, a imprensa já estava lá feito abutres, e as ambulâncias começavam a chegar.

A cidade de Nova York havia se adaptado ao caos corriqueiro, e tinha desenvolvido formas ágeis de responder a situações de emergência. Era um mundo de heróis, portanto, era também um mundo de ameaças constantes e de muitos efeitos colaterais.

— Eu devia aproveitar a imprensa pra expor as barbaridades da Emma, talvez alguém a veja e denuncie seu paradeiro antes que seja tarde. As autoridades também vão se empenhar mais se tiver pressão pública no caso. — Danniel comentou pensativo.

Mesmo depois de cinco anos preso, ele ainda sabia as melhores formas de atingir alguém com tanto poder politico quanto Emma Kennedy. Era o que Danniel Devinne fazia da vida afinal.

— Vai lá, pai, alguém precisa ser a voz da justiça, não é? — Makayla incentivou.

— Tem certeza que está bem? — O pai observou a jovem de forma preocupada, mas ela assentiu.

Sabia que devia estar com uma fisionomia péssima, que seus sorrisos certamente continham muito de cansado e tristeza, mas dado tudo que tinha acontecido, ninguém desconfiaria que ela estava na verdade sofrendo a possível interrupção de uma gravidez.

— Eu vou fazer isso mesmo, assim também dou um tempinho pra vocês dois. — Danniel apontou de Makayla para Bucky. — Mas que fique claro que vamos ter uma longa conversa depois. Eu sou um pai muito rígido, ainda quero saber todas as suas intenções com a minha filha, Sargento.

— Sim, senhor. — Barnes respondeu imediatamente, em uma educação e formalidade impecável. Makayla prendeu uma risadinha.

Danniel assentiu em sua melhor pose de “pai muito sério”, e logo saiu para fazer o que devia.

Makayla se virou na direção de Bucky, pousado uma das mãos no rosto dele de forma carinhosa.

— Não deixa aquela pose de mau te enganar. — Ela comentou como se fosse um segredo. — Ele é seu fã.

Bucky riu de canto, segurando a mão de Makayla que estava em seu rosto e beijando os dedos dela ternamente.

— Você foi incrível. Você é incrível. — Ele declarou com a honestidade brilhando em seus olhos gélidos. — Mas não vamos fazer nada assim de novo.

Makayla sorriu um tanto melancólica, depositando um beijo casto nos lábios do homem que amava.

— Honestamente, eu também espero que não. — Ela disse apenas, focando na direção que seu pai tinha seguido instantes antes.

Todos eles estavam fazendo que deviam. Era hora de fazer o mesmo... Adiar o momento de ouvir a verdade não era uma forma honesta e saudável de lidar com as coisas.

— Se quiser estar lá do lado do seu pai pra expor a Emma... — Bucky entendeu a postura de Makayla da forma errada.

— Não é isso... — Ela respondeu, focando nas íris dele e segurando-lhe a mão direita como forma de passar algum conforto antecipado. — Bucky... Eu preciso que me leve ao hospital, ‘tá bom?

E, simples assim, ele soube exatamente do que se tratava. Qualquer traço de felicidade sumiu de seu rosto bonito e a preocupação e tristeza emanaram dele de forma dilacerante...

Nem sempre a vida era justa.

Bucky assentiu e assim, nesse pequeno entendimento mútuo e sem qualquer palavra, o casal começou a caminhar lado a lado na direção que precisavam ir...

Pois é, a vida era agridoce e Makayla queria enfrentar a perda de cabeça erguida, com aceitação e conformismo. Mas algumas coisas são inevitáveis e alguns ditados estão bem certos...

A esperança é a última que morre.

Duas palavrinhas dançaram na mente da jovem telepata.

“E se...”

Notas finais
Link pra roupa da Makayla: https://i.imgur.com/4klLVNq.png Bom, aqui estamos, eu espero de verdade que vocês tenham gostado desse caos todo e da forma que eu escolhi resolver alguns conflitos. Não tinha como eu terminar essa história sem uma participação especial da Wanda, pra honrar o fato de que a ideia pra Sweet Epiphany surgiu exatamente em WandaVison e não em TFWS. E sim, eu puxo sardinha pro lado dela mesmo (e a Makayla tbm) então dei o Pietro original de presente pra minha bruxinha kkkkkkkkk Agora acho que é hora de respirar um pouco, o próximo tem a conclusão do plot do bebê dos sonhos, além de vermos o fim da Emma (vamos torcer pra ela não escapar de novo) e claro, termos um momento Buckayla sem caos pairando ao redor (nem que seja pra eles compartilharem o luto, vai saber....) Acho que o proximo vai ter um tamanho normal (ênfase no "acho" kkkkkkk) então talvez eu não demore tanto. Beijos e até!