Sweet Epiphany
17 The Flag Smashers
Notas iniciais

Bucky devia saber que tudo daria errado, devia ter adivinhado que Walker não seguiria o maldito plano e atrapalharia tudo... Ele se deixou levar pela preocupação com Sam e agora estava correndo pelos corredores e escadas vazias sem encontrar qualquer sinal de Karli.
E o pior, Wilson teria conseguido, se Barnes não tivesse deixado Walker entrar em sua cabeça...
Agora estava tudo perdido e eles teriam que, literalmente, correr atrás do prejuízo. Bucky acabou se encontrando com Sam em um dos andares inferiores, com um olhar e um mover de cabeça ambos souberam que nada haviam conseguido.
Juntos, olharam para uma porta no fim do corredor, entraram ao mesmo tempo, era um tipo de depósito, ali encontraram John Walker parado e o corpo de Zemo desmaiado, enquanto vários frascos quebrados podiam ser vistos por todo o chão.
— O que a gente perdeu? — Sam foi o primeiro a perguntar. Enquanto Lemar despontava do lado oposto, também acabando de entrar no ambiente.
— O que ele está fazendo aqui? — Bucky apontou para o Sokoviano que devia estar preso na entrada do lugar, junto com Makayla.
Ele tentou não se desesperar com isso, da última vez que sentiu aquela apreensão no peito a garota estava apenas dormindo no quarto ao lado... Porém pensar nisso não diminuiu em nada o ritmo descontrolado de suas batidas.
— Não sei... Ele estava aqui de pé no meio dessa bagunça e armado, então eu o nocauteei com o escudo. — Walker deu de ombros como se não fosse nada demais.
Ele tinha os olhos um tanto arregalados e a postura estranha, mas Bucky não deu atenção o bastante para isso.
— Por que? — Sam perguntou, descendo as escadas que o separava da outra dupla e do homem desmaiado.
— Porque eu não sou amiguinho de criminosos internacionais, igual vocês. — Walker retrucou um tanto agressivo.
— Eu teria conseguido falar com ela se você não tivesse... — Wilson retrucou com calma e paciência, mas foi interrompido.
— E depois, hein, Sam? — Walker riu desdenhoso. — A líder super poderosa de um grupo extremista se entregaria para as autoridades numa boa, só porque você pediu com jeitinho?
— Cala a boca! — Bucky cortou sem qualquer paciência ou educação, seus olhos presos na mancha vermelha de sangue fresco, que podia ser vista na frente de uma mesa tombada. — Onde está a Makayla?
— Eu tenho cara de babá por acaso? — John rebateu e recebeu um olhar pouco satisfeito de Lemar que havia passado por ele naquele instante.
— Alguém foi baleado aqui. — Hoskins também notou a mancha.
— Makayla! — Bucky gritou, deixando os outros para trás e correndo para a entrada do lugar, encontrando nada mais que a algema aberta de Zemo.
Sua cabeça rodou, seu estômago ficou enjoado e mesmo sua respiração saiu totalmente do ritmo. Algo havia acontecido com ela...
Ele saiu acelerado pelo prédio, cobrindo todos os andares e sendo incapaz de encontrar qualquer pista. Minutos depois estava de volta ao depósito, onde Sam havia acabado de levantar Zemo e o apoiava, ainda desacordado, no ombro.
— Eu procurei nas ruas adjacentes e nada... — Lemar veio do lado oposto, e trocou um olhar preocupado com Bucky, parando ao lado de Wilson para ajudá-lo com o peso do Barão.
— Talvez ela tenha ficado entediada e foi embora. — Walker comentou em displicência, apoiado em uma das paredes como se nada de grave estivesse acontecendo. Ao ganhar um olhar repreensivo do parceiro ele ergueu uma das mãos de forma displicente. — Ah qual é? Não seria a primeira vez que ela some do nada...
— Agora não, John. — Lemar pediu com um menear de cabeça.
Bucky podia ter voado no pescoço do idiota pousando de Capitão América, no entanto sua preocupação naquele momento era tão corrosiva que até mesmo socar John Walker parecia uma perda de tempo.
Algo havia acontecido com Makayla. Ela podia estar ferida. E ele não tinha nem ideia de por onde começar a procurar.
Bucky sentiu que suas pernas tremiam, sua mente saía de foco e a raiva corria gelada por suas veias, se mesclando com a preocupação como um veneno de ação rápida. Se algo acontecesse com ela...
Cortou o espaço até Zemo em passos rápidos, sua mão direita atingindo o rosto do homem duas vezes:
— Acorda! Acorda!
Nada aconteceu. Bucky podia ter culpado o idiota do Walker por ter desacordado a última pessoa que vira Makayla, porém não havia tempo pra isso. Olhou ao redor, se movendo na direção de algo antes que Sam tivesse chance de dizer alguma coisa.
Abriu uma torneira que viu no canto e logo havia um recipiente cheio de água fria que foi jogada em Zemo de uma só vez. O Barão acordou em um rompante, ainda meio atordoado, piscando os olhos entre as gotículas de água que escorriam por seus cílios.
Bucky agarrou o homem pelo colarinho, o puxando do apoio de Sam e Lemar e batendo as costas do Sokoviano violentamente contra uma das paredes.
— Onde ela está?! — Vociferou, perdendo um pouco do controle que mantinha sobre si mesmo vinte e quatro horas por dia. — O que você fez com ela?!
Zemo piscou devagar, um tanto atordoado, sua mão esquerda tocando um ponto de sua própria cabeça e uma expressão de dor cortando seu rosto.
— Presumo que esteja falando da Makayla... — Disse finalmente, nada abalado com o aparente descontrole de Barnes.
— Não brinca comigo, Zemo, eu juro que quebro seu pescoço! — As palavras de Bucky eram afiadas como facas, ele bateu novamente o corpo do Barão contra a parede em um movimento que era apenas reflexo do pânico e raiva crescente em suas veias. Até queria ter um pouco mais de paciência, porém naquele momento não conseguia se concentrar nisso. — Como você escapou?
Sentiu a mão de Sam apoiar em seu ombro, em um pedido mudo por calma, então deu um passo para trás, soltando Zemo de uma vez só.
— Tudo bem, não precisa de toda essa violência. — As duas mãos do Sokoviano se ergueram em rendição. — A Makayla me soltou.
— Era só o que me faltava... — Walker soprou em um misto de deboche e crítica.
— Por que ela faria isso? — Lemar questionou antes que Bucky pudesse.
— Porque eu pedi com educação... — Zemo explicou de forma neutra. — Eu tinha um plano, interceptar Karli pelos fundos, porque eu sabia que o distinto cavaleiro ali... — Apontou para John. — Não seguiria o plano, Makayla concordou com isso.
Bucky procurou por respostas nos olhos de Sam e o viu encolher os ombros incerto, mesmo Lemar parecia inclinado a acreditar na versão do Barão...
— Na verdade, isso é a cara dela, sempre metida com as pessoas erradas, sempre fazendo escolhas duvidosas, uma merda atrás da outra, essa é a Makayla que todo mundo conhece... — Walker comentou naquele mesmo tom inoportunamente crítico e debochado de antes.
Bucky não pensou primeiro, apenas reagiu quando o instinto mais selvagem dentro de si pediu, seus dedos se fechando com ódio e seu punho seguindo certeiro na direção de John, que tentou barrar o golpe com o escudo, mas não foi rápido o bastante para isso.
O soco atingiu o queixo de Walker em cheio, ele cambaleou pra trás, tropeçando nas próprias pernas e se colocando de pé no mesmo instante. O ódio bem claro em seu olhar, um filete de sangue escorrendo no canto de sua boca que ele rapidamente limpou com o dorso da mão.
Bucky sentiu que não respirava, completamente gelado por dentro, seu punho de vibranium rangendo tamanha a força com a qual estava fechado, era como se aquela parte de seu corpo implorasse para ser usada no próximo golpe.
— Seu... — Walker se preparou para o combate, mas Lemar se meteu entre os dois no mesmo instante em que Sam apoiou a mão sobre o ombro de Bucky para detê-lo.
— Você não está ajudando. Agora não é hora disso. — Hoskins decretou com o dedo em riste e os olhos focados no parceiro.
— Tem razão, me desculpe. — Walker pediu focado em Lemar apenas. — Vamos encontrá-la, não se preocupe. Makayla não é burra, com certeza ela está bem.
— Buck... — Sam chamou cautelosamente.
Barnes piscou devagar, respirando fundo e recobrando o controle de si mesmo. Havia uma violência latente dentro de sua mente, estava lá o tempo todo, o instinto assassino de um animal enjaulado implorando para se libertar, e Bucky sabia, com toda certeza, que se permitisse que isso acontecesse, nem que fosse por um simples momento, não haveria volta...
Sua vida consistia em reprimir aquela parte todo o tempo, mesmo quando estava lutando contra Thanos ou contra os Apátridas, nunca usava toda sua força, todo seu conhecimento, todo seu potencial. Sempre estava controlando cada soco, para que ele não machucasse alguém além do limite, mesmo quando esse alguém era um inimigo.
Não podia permitir que seu desespero destruísse seu autocontrole. Mesmo que o alvo de sua raiva reprimida fosse John Walker.
Matar aquele idiota, ainda seria matar alguém, e Bucky não fazia mais isso.
Não era um assassino.
— Você está mentindo, Zemo. — Barnes declarou convicto, voltando seu foco para o que importava, ignorando Walker e se virando na direção do Barão. — Makayla nunca soltaria você. Diz de uma vez onde ela está!
— Ela soltaria sim, se isso fosse para o seu bem, James. — O Sokoviano retrucou na calmaria de quem tem razão. — E teria dado tudo perfeitamente certo, eu destruí o soro... — Ele apontou para todo o vidro quebrado no chão. — E teria matado Karli, se a Makayla não tivesse sofrido uma crise de consciência e resolvido ajudar a garota.
A mente de Bucky deu um nó completo, a preocupação sufocante tornando difícil raciocinar com clareza. Por que Makayla ajudaria a líder dos Apátridas?
— Desembucha de uma vez. — Foi Lemar quem pediu, já no limite de perder a calma. — Ou você quer que a gente acredite que ela foi com a Karli por livre e espontânea vontade?
— Eu nunca disse isso. — Zemo rebateu. — Aparentemente Karli Morgenthau gostou muito da ajuda e levou a garota. Mas Makayla estava bem, o sangue ali no chão não é dela, é da Karli.
Bucky sentiu o estômago revirar, Makayla estava nas mãos dos Apátridas...
Tentou encontrar algum conforto no fato de que ao menos ela não estava ferida, mas isso não ajudou em absolutamente nada. Karli tinha levado Makayla provavelmente pra ajudar no ferimento, mas quanto tempo demoraria para descobrir quem a garota era de verdade? A filha da Diretora do CRG... O lugar que os Apátridas vinham atacando sistematicamente desde o começo.
Makayla não estava segura.
— Você não deu seu colete pra ela? — John questionou simples e Lemar assentiu freneticamente, procurando algo nos bolsos.
— Nosso equipamento tem localizador, o meu fica no colete. — Ele explicou, quando viu que Bucky o encarava.
Com o aparelho celular em mãos digitou alguma coisa. Mas sua fisionomia deixava claro que não obtivera nenhum sucesso.
— Eles devem ter desligado... — Sua voz era a expressão da derrota.
Bucky soube que nesse caso a situação de Makayla era ainda pior. Ela foi pega com equipamento do CRG, a tratariam como uma ameaça...
— Tenho que procurar por ela. — Ele declarou, se movendo dois passos na direção de Sam. — Pode levar o Zemo e ficar de olho nele? Se ela voltar ou se acontecer qualquer coisa...
— Eu te ligo. Vai. — Wilson completou de imediato, seu olhar firme mostrando que ele entendia muito bem o desespero de Bucky. — Mas não se preocupe, ela está bem, Karli não é uma assassina e Makayla fez a coisa descente.
Barnes quis acreditar nisso, porém seu coração estava apertado demais naquele momento para que ele se desse ao luxo de crer em hipóteses otimistas. Preferia que Makayla não tivesse feito a coisa descente. Preferia que ela tivesse sido um pouquinho egoísta.
— Bucky? — Lemar chamou quando ele já estava no topo da escada, prestes a passar pela porta. — Nós cobrimos o lado norte.
Barnes acenou de forma positiva uma única vez, não confiava em Walker, mas sentia que Hoskins faria o que estivesse em seu alcance para encontrar Makayla...
Com esse pensamento em mente e com todas as incertezas e preocupações correndo por suas veias, Bucky ganhou as ruas de Riga, atento a qualquer pista, sinal ou simples migalha que pudesse seguir. E não encontrou nada.
Mesmo o treinamento do Soldado Invernal foi inútil, no fundo ele sabia que aquela habilidade de desaparecer dos Apátridas estava completamente conectada com o apoio que eles tinham da população...
Isso significava que nunca acharia Karli Morgenthau, a menos que ela quisesse ser achada. Até lá Makayla estava nas mãos de um grupo extremistas de super soldados. Correndo todo tipo de risco.
Bucky não conseguia respirar. A impotência sufocava seus pulmões. Queria gritar de ódio e socar alguma coisa. Se algo acontecesse com ela...
★☆ • ★☆ • ★☆
Sua cabeça foi coberta por todo o percurso enquanto era carregada por um dos homens, sendo assim Makayla não tinha muita noção de onde estava... Não que isso fosse adiantar de verdade, porque seu celular fora destruído por um dos Apátridas, e o colete de Lemar fora arrancado dela, então ela não teria como avisar ninguém de seu paradeiro.
Estava em um dos muitos prédios de Riga, uma construção com padrões típicos da cidade, ou seja, nem os detalhes particulares da arquitetura lhe forneciam qualquer informação útil.
Estava presa em uma cadeira, cercada por dois Apátridas, enquanto Karli tentava lidar com o ferimento em sua barriga.
— Tem uma bala aí dentro ainda, não importa quanto soro tenha no organismo, ela não vai ser expelida. — Comentou, vendo a expressão de dor no rosto da garota.
— Deixa eu adivinhar, você pode ajudar, não é? — A ruiva retrucou cheia de sarcasmo na voz.
— Na verdade eu posso sim, não sou nenhuma perita, mas fiz um semestre de medicina, então... — Makayla encolheu os ombros de forma neutra.
— Claro! E é assim que você me mata, me pegando vulnerável. — Karli devolveu um tanto irritada.
— Se eu quisesse você morta, teria deixado o Zemo matar você. — A resposta veio calma e um tanto óbvia.
— Talvez sua intenção fosse se infiltrar no nosso grupo pra conseguir informações... — Era evidente que Karli não estava disposta a dar o braço a torcer.
— Mas foi você que me sequestrou, eu nem queria ter vindo junto. — Makayla reprimiu a vontade de rir, porque era extremamente inapropriado para a situação, sabia que estava bem ferrada e que estar com aquele colete do CGR só piorava tudo, ou seja, queria rir de puro nervoso.
Um dos Apátridas se aproximou, era alto e magro, cabelo escuro e barba sem falhas. Ele disse algo no ouvido de Karli, os dois trocaram um olhar tenso e ela terminou por assentir. Makayla não sabia nada sobre o homem, apenas que fora ele quem havia tirado o colete dela e que lidou com o equipamento, encontrando inclusive um rastreador na peça que foi prontamente desativado.
Ele se aproximou, soltou Makayla e a fez ficar de pé.
— Você vai ajudar, mas se ela morrer, você morre, entendeu? — Declarou, tirando uma arma da cintura e apontando para a jovem.
— Sem pressão, né? — Makayla retrucou, se aproximando da mesa.
Um semestre de medicina não a tornava perita em coisa alguma, muito menos capacitada a tirar uma bala da barriga de alguém, porém não era como se tivesse outra escolha. Aquele instinto de ajudar Karli da primeira vez tinha ferrado tudo.
Pra piorar um pouco mais, lhe trouxeram uma caixa de primeiros socorros que não continha sequer o básico para aquele tipo de procedimento. Ela teria que improvisar.
Karli não quis ser sedada, era evidente que não confiava o suficiente em Makayla e por isso queria ficar totalmente alerta o tempo todo. Ou seja, isso tornou tudo ainda mais difícil, afinal não é fácil enfiar a pinça na barriga de alguém, a sangue frio, pra tirar uma bala enquanto a pessoa não para quieta...
Makayla teve um vislumbre curiosos de uma lembrança intrusa, Bucky na guerra, vendo algo parecido acontecer no campo de batalha. Alguém tirava uma bala da lateral do quadril de um aliado e depois fechava esse ferimento de um jeito bem peculiar. Aquela memória acabou fornecendo um conhecimento útil, considerando que ali eles não tinham o básico para dar pontos em alguém.
— Preciso de uma bala sua. — Makayla disse, finalmente alcançando o projétil e o retirando do corpo de Karli.
— Ah claro! A gente tem cara de idiota? — A ruiva retrucou irritada.
— Eu pedi uma bala, não a arma. O que eu vou fazer com uma única bala?
Ao ouvir a explicação da jovem os dois Apátridas trocaram um olhar e concordaram. O homem no fundo da sala se aproximou, tinha traços asiáticos e um cabelo comprido, tirou uma arma da cintura e uma bala do pente, assim o primeiro ainda manteve a prisioneira em sua mira.
— Preciso que use uma faca pra abrir e preciso que me dê um fósforo. — Makayla explicou, preparando o curativo.
— O que você pretende fazer, menina? — Karli perguntou desconfiada.
— Eu não tenho agulha aqui pra te dar pontos, posso fechar com o curativo, mas isso vai fazer o ferimento levar um tempo pra cicatrizar, mesmo com o soro em seu organismo. — Makayla começou a explicar, agindo como se já tivesse feito aquilo uma dezena de vezes. O que obviamente era mentira. — Então eu vou cauterizar sua ferida, usando a pólvora da bala, provavelmente é a coisa mais eficiente se você quer se envolver em outra batalha daqui dez minutos.
Talvez deixar o ferimento aberto gerasse uma vantagem posterior para Sam e Bucky, caso houvesse uma luta, mas Karli era apenas uma menina, não parecia certo fazer mal a ela intencionalmente, ainda mais quando Makayla estava no papel de médica.
Não era formada, mas sabia que médicos nunca machucavam seus pacientes.
— Quem é você? — Karli questionou de forma surpresa.
Aquele procedimento era coisa de soldado, feito no meio da guerra quando os recursos eram escassos e era tudo questão de vida ou morte. As pessoas comuns não sabiam de coisas assim...
— Uma amiga... — Respondeu apenas.
Era a melhor coisa que podia dizer no momento, afinal não podia contar quem era de verdade; Filha da diretora do CRG. Assim como não faria sentido explicar como conseguira a informação sobre a cauterização com pólvora; Direto da mente do Soldado mais antigo vivo...
— Eu tenho cara de idiota? — Karli rebateu, irritada com a resposta.
— Eu salvei sua vida e estou cuidando do seu ferimento. Isso soa bem amigável, então... — Makayla encolheu os ombros, deixando claro que sua resposta era a única que importava naquele momento.
— Você estava usando equipamento do CRG e conhece uns truques bem específicos... — Karli ainda não estava satisfeita.
Um dos Apátridas ainda tentava abrir a pólvora, então isso dava tempo para que as duas continuassem conversando, enquanto Makayla estancava qualquer sangramento.
— O equipamento é uma coincidência, foi colocado em mim porque eu era uma civil no meio da confusão. — Ela explicou usando a verdade simples. — E os meus truques eu aprendi com alguém...
— Com o cara que tentou me matar? — Karli presumiu erroneamente.
— Com o Zemo? — Makayla acabou rindo. — Com ele a gente aprende como enganar criancinhas e separar os Vingadores. Mas, pois é... ele queria te matar, digamos que ele não é seu fã.
— Muita gente não é minha fã ultimamente. — A líder dos apátridas declarou e parecia ter orgulho disso.
— E muita gente é, pelo que eu percebi. — Makayla rebateu, finalmente recebendo a bala em mãos.
— E em qual grupo você se encaixa? — Karli questionou interessada, enquanto seu ferimento era preenchido com pólvora.
— No grupo que não se importa. — A morena riscou o fósforo que lhe foi entregue. — Vai doer...
Esperou que suas lembranças fossem o bastante para fazer com que ela executasse a técnica corretamente, era um procedimento de emergência da segunda guerra afinal, não devia ser tão difícil assim.
Nem mesmo quando o fogo tocou a pólvora Karli gritou, ela se manteve firme o tempo todo e, por um instante, Makayla se perguntou se aquilo era para se mostrar forte aos outros membros do grupo ali presentes, ou se era apenas uma demonstração de poder frente a alguém que a ruiva considerava uma inimiga.
Fosse o que fosse, não fez a menor diferença para Makayla, o que importou realmente foi que funcionou, o ferimento foi cauterizado e ela apenas precisou colocar um curativo básico por cima. Provavelmente o soro cuidaria do resto...
— Todo mundo se importa com alguma coisa. — Karli retomou a conversa, se sentando e arrumando sua blusa que estivera erguida até metade do abdômen.
Enquanto fazia esse movimento algo em Makayla lhe chamou atenção, a mão direita da ruiva se moveu em direção ao pescoço da morena, seus dedos puxando a corrente ali pendurada, até que as plaquetas escondidas por dentro da regata se revelassem. Karli examinou as peças com curiosidade.
— Ora, ora, ora.... “James Buchanan Barnes...” — A líder dos Apátridas sorriu como se tivesse montado um quebra-cabeças.
— É o Soldado Invernal. — O rapaz com a arma apontada para Makayla soprou, dando um passo para trás, como se a garota fosse explodir de uma hora para outra.
— Ele não é o Soldado Invernal. — Ela retrucou encarando cada um dos Apátridas na sala de forma ofendida. — Não mais.
Puxou as plaquetas da mão de Karli sem se importar se isso seria prudente ou não, então as colocou dentro da regata.
— Então ele é seu namorado, certo? — A ruiva perguntou com um sorriso de quem já sabe a resposta.
— Chame como quiser... — Makayla deu de ombros.
Eles eram mesmo namorados? Nem ela saberia realmente, mas evidentemente eram alguma coisa importante um para o outro...
Isso significava que naquele instante Bucky com certeza estava surtando com o sumiço dela. Makayla se sentia mal por isso, porque afinal ele já tinha problemas o suficiente para lidar.
— E você ainda diz que é do grupo que não se importa... — Karli riu em um misto de sarcasmo e deboche. — Seu namorado está tentando me matar também.
— Bucky e Sam só não querem que mais pessoas inocentes se machuquem. — Makayla esclareceu de forma neutra.
— Não foi o que pareceu quando seu namorado invadiu um velório com o Capitão América. — A ruiva retrucou e a irritação em sua voz não era um bom sinal.
— Primeiro; John é um idiota trabalhando para o governo, não o Capitão América. Segundo, Bucky não está com ele, se estivesse seu velório teria sido interrompido bem mais cedo. — A explicação foi dada em tom claro e direto.
— Você não gosta do governo... — Karli presumiu, franzindo as sobrancelhas em surpresa.
— Só homens brancos e ricos, sem consciência de classe, gostam de homens brancos e ricos governando um país. — Makayla respondeu com um encolher casual de ombros.
Karli ergueu uma das mãos e a arma que estava apontada para a jovem prisioneira foi baixada. A líder dos Apátridas deu um passo para frente.
— Então me ajuda. Diz para o seu namorado e para o Sam se unirem a mim. Podemos fazer a diferença, podemos ajudar pessoas. Nós somos os bonzinhos. Podemos mudar as coisas.
Makayla conseguiu entender porque algumas pessoas gostavam daquele grupo, Karli era uma líder simples, que inspirava confiança por soar inocente e bem intencionada, alguém que tinha aspirações que pareciam puras...
— Robin Hood só funciona nas histórias infantis, Karli, no mundo real suas ações estão prejudicando pessoas inocentes. Isso não é mudança, é caos disfarçado. — A morena declarou em um tom conciliador. — Acha que roubar uns postos do CRG vai mudar alguma coisa? Você alimenta seus amigos hoje, por um mês talvez, mas e depois?
A expressão da ruiva se fechou, ela deu um passo para trás com os olhos alagados de irritação, mas Makayla continuou a falar:
— Anarquia só vai causar mais anarquia. Eu entendo sua causa, você está lutando pela coisa certa, mas está lutando do jeito errado. As pessoas que realmente tem poder pra fazer alguma coisa não vão te ouvir, elas só vão te vilanizar.
— Bom, então que seja. Eu vou ser a vilã. — Karli declarou com a voz firme e fria, mas o clima que emanou de seus companheiros foi um tanto conflitante. — Quando eu destruir o símbolo deles, todo mundo vai me ouvir.
Saiu do cômodo em passos intempestivos, dignos de uma adolescente que não aceita ser contrariada. Outro dos Apátridas foi atrás, batendo a porta quando saiu, e Makayla ficou sob os cuidados daquele que lhe apontava a arma segundos antes, o mesmo que havia se afastado um passo quando soube do envolvimento dela com Bucky...
— O que ela quis dizer com “destruir o símbolo deles”? — Makayla perguntou, porque aquele com certeza era o próximo passo do plano.
Qual era o símbolo do governo norte-americano, a Casa Branca?
— Olha, eu vou ser bem honesto, você deu sorte até aqui, então não força a barra. — O rapaz a puxou de volta para a cadeira. — A gente não está de brincadeira.
Para Makayla parecia uma coisa totalmente impensada atacar o lar do presidente, Karli não era tão burra assim, devia ser outra coisa.
— Você não concorda com ela... — Comentou, enquanto era amarrada novamente. — Sobre a coisa de ser a vilã. Eu vi sua cara, seja o que Karli esteja planejando, você não concorda.
— Você é o quê, espertinha? Telepata por acaso? — O Apátrida questionou de forma ofensiva, mas acabou arrancando uma risada da garota.
— Felizmente, nesse momento, sou apenas uma pessoa normal. — Ela disse divertida, sabendo que ele jamais seria capaz de entender aquela referência. — Mas eu presto atenção nas coisas. Tem algo nesse plano que não te deixa confortável.... — Deixou uma pausa no fim da frase, quando notou que não sabia como chamar o rapaz. — Como é seu nome mesmo?
— Nico. — Ele respondeu, movendo a cabeça de forma crítica para a reação da garota. — E, se quer um conselho de amigo; devia parar de prestar atenção em mim e se preocupar com a sua vida, sabia? — Se colocou de pé e encarou Makayla de cima. — Fazemos o que temos que fazer. Nem sempre vamos gostar disso, mas no fim é por uma boa causa.
— Os fins justificam os meios então? — Ela devolveu de forma neutra, apenas tentando entender as pessoas que estavam a seu redor.
Provavelmente deveria estar com medo, estava em posse de terroristas e suas ligações familiares podiam tornar tudo extremamente difícil. Mas aparentar medo não ajudaria em nada. Naquele momento Makayla era apenas a namorado do Soldado Invernal e, a julgar pela reação de Nico quando descobriu isso, era bem claro que ninguém ali lhe machucaria.
Pelo menos ela esperava que não...
— Talvez... — O rapaz respondeu, depois de pensar por alguns segundos.
Makayla viu uma oportunidade naquela dúvida... Talvez Sam estivesse certo, todo aquele grupo eram apenas jovens perdidos tentando fazer o melhor que podiam, quem sabe havia um jeito de fazê-los verem a razão?
— “Talvez” é uma resposta perigosa para um anarquista... — Ela comentou neutra. — Quer dizer, é tudo muito extremo nessa linha de raciocino e “talvez” não tem espaço no extremismo...
— Não somos anarquistas. — Nico respondeu, mas dava pra ver nos olhos dele que não havia certeza em suas palavras.
— Não são? É o que vocês pregam, pelo que eu entendi. — Makayla devolveu naquele mesmo tom neutro. — Um mundo e um povo sem governo, ou seja, um mundo anarquista. Porque o Anarquismo é o único sistema político baseado na negação do princípio da autoridade, ou seja, sem governo.
— O jeito do governo de fazer as coisas está errado. — O rapaz argumentou, mas não parecia um argumento de fato, apenas as palavras de alguém insatisfeito que sequer sabia exatamente o caminho que estava trilhando.
— Concordo. — A jovem assentiu. — Mas e então? Vamos viver em um mundo sem governo?
— Um mundo, um povo. — Ele declarou e parecia apenas o repeteco de algo que alguém dizia.
Nico acreditava na causa, isso era óbvio. Estava bem claro que os Apátridas conheciam a dor, conheciam o problema de perto e achavam que sabiam qual era a solução e o caminho para chegar até ela, porém essa “solução” apenas geraria mais problemas e mais dor, só que nenhum deles tinha parado para pensar nisso ainda.
— Bonito, utópico até, mas e como vai ser? — Makayla perguntou, controlando sua entonação para parecer genuinamente interessada.
— Como vai ser o quê? — Nico perguntou confuso, provando que os Apátridas tinham pensando apenas na solução a curto prazo, não nas implicações dela.
E, feliz ou infelizmente, graças a seus pais, Makayla entendia o bastante de política e sociologia para ver exatamente o caminho que eles estavam trilhando.
— Como vai ser quando formos um mundo e um povo? — Ela deixou a pergunta mais clara. — Todo mundo pega o que quer quando quiser? Quem cuida de verbas públicas pra saúde, educação, e manutenção? Quem garante que uns não vão se aproveitar de outros? Que cultura vamos seguir? Porque nosso mundo tem muitas, sabia? Quando vocês falam “um mundo, um povo” qual povo seremos?
Nico deu um passo para trás, era bem evidente que ele não sabia a resposta para nenhuma daquelas perguntas, era provável que ele sequer tivesse imaginado que haveriam aqueles questionamentos antes....
— Vocês estão pedindo por uma mudança insustentável, é caos, puro e simples. — Makayla declarou, como se estivesse dando uma sentença.
— A gente só quer que seja tudo como antes. — Nico argumentou e era de dar pena o quão simples e honesto aquilo era.
A pior parte é que Makayla conseguia entender que aquele grupo era apenas a voz de todas as pessoas magoadas pela gestão injusta do CRG. Tudo isso era culpa da mãe dela.
— Antes metade da população não existia, o que vocês vão fazer agora? Juntar as joias do infinito, como quem junta esferas do dragão e matar metade do mundo de novo? — Ela continuou com suas perguntas, mesmo sabendo que começaram a soar cruéis.
— Queremos igualdade. — Nico declarou convicto e esse era um sentimento que Makayla com certeza podia entender.
— Todo mundo quer igualdade, Nico; as Mulheres, a Comunidade LGBTQIA+, o Movimento Negro. Todo mundo quer igualdade. Mas você está vendo um levante de mulheres matando seus maridos? Está vendo igrejas serem invadidas e religiosos sendo empalados pela bandeira gay? A polícia está sendo alvejada nas ruas pelos negros? Não. O oprimido se tornar o opressor soa muito atrativo, mas não traz mudanças reais. — Ela argumentou de forma calma e neutra. — Olhe para a história, aprenda com o que deu certo, faça melhor do que aquilo que deu errado, coloque isso nas urnas. É assim que se consegue mudança, não é matando pessoas inocentes.
— O governo não é inocente. — O Apátrida retrucou um tanto irritado.
— Concordo, toda vez que um povo sofre por questões que podiam ser resolvidas com uma gestão mais responsável, a culpa é do governo sim. Mas as pessoas que trabalhavam no CRG eram inocentes. — Makayla rebateu ainda mais calma e certeira. — E esse é o ponto, antes de vocês chegarem no governo a corda sempre vai estourar para o lado mais fraco: as pessoas inocentes.
Nico pareceu bastante desconfortável com aquilo, no entanto não deu o braço a torcer:
— Karli disse que eles não eram inocentes.
— E é nisso que você acredita? — A jovem perguntou, focando diretamente nos olhos do Apátrida.
Nico titubeou, deu um passo para trás, não conseguiu responder de forma direta:
— Karli é uma boa pessoa. Vamos todos fazer o que ela acredita ser melhor.
— Se você não pode opinar dentro de um grupo anarquista, então você não está seguindo uma anarquista e sim uma ditadora. — Makayla declarou sem tirar os olhos dele.
A porta foi aberta e Karli estava de volta, sozinha dessa vez, Nico se afastou repentinamente e a ruiva pareceu descontente com o que viu.
— Por que ela não está amordaçada? — Questionou, apontando para Makayla.
— Estávamos conversando. É proibido conversar? — A jovem rebateu com muito mais ousadia do que seria indicada para aquela ocasião.
Karli revirou os olhos e chamou Nico de canto, disse algo pra ele e o rapaz assentiu, olhando para Makayla por alguns segundos e puxando um celular do bolso para tirar uma foto dela. Ou seja, ele com certeza tinha a tarefa de descobrir quem a jovem era...
Makayla tentou não se apavorar com isso, apenas respirou fundo e viu Karli fechar a porta depois que Nico saiu, puxando uma cadeira e se sentando na frente da morena.
— Me fala sobre o Sam e o seu namorado. — Mandou, cruzando os braços em espera.
— São bem legais, mas só conhecendo pra saber. — Makayla respondeu, fingindo que era uma conversa casual e não um interrogatório.
É claro que a líder dos Apátridas queria informações relevantes sobre a dupla, pra saber se eram inimigos em potencial ou possíveis aliados.... Mas Makayla não diria nada.
As duas se encararam por alguns segundos, era evidente que a postura insolente da morena — que não devia existir naquele tipo de situação, já que ela estava amarrada — deixava Karli visivelmente irritada.
— Sabe que eu posso quebrar seu pescoço com uma mão certo? — Ela ameaçou, estreitando o olhar, porém, ao contrário do esperado, Makayla sorriu em resposta antes de retrucar:
— Mas você não vai.
— Acha que eu tenho medo do seu namoradinho? — A ruiva devolveu, se colocando de pé em um rompante e aproximando-se agressivamente.
— Você não tem, e nem devia, ele não é um monstro. Bucky é um dos mocinhos. — Makayla respondeu de forma calma, erguendo um pouco a cabeça para encarar Karli, que havia imposto uma diferença considerável de altura entre elas ao ficar de pé. — E você se diz uma das mocinhas, então... você não vai quebrar o pescoço de alguém, ainda mais de alguém que salvou sua vida. O que seus companheiros Apátridas vão pensar de você?
— Você se acha muito esperta, não é? — A pergunta retórica tinha um tom sarcástico evidente.
— Às vezes... — A prisioneira encolheu os ombros em displicência.
Talvez estivesse fazendo as escolhas erradas ali, talvez o certo fosse baixar a cabeça e cooperar, era o que qualquer pessoa sensata faria em um sequestro. No entanto Makayla já havia percebido que Karli não era uma simples criminosa, nesse caso o comportamento submisso padrão não fazia sentido com ela.
Ou talvez Makayla simplesmente fosse teimosa demais para fingir um medo que até devia sentir, mas que não era encontrado me parte alguma dentro dela...
— Talvez eu te use como moeda de troca, posso pedir pro seu namorado fazer o que eu quero... — Karli voltou a se sentar, suas palavras eram uma clara tentativa de subjugar a prisioneira. — Posso mandar o Soldado Invernal matar quem eu quero.
Uma raiva crua e assassina correu pelas veias de Makayla, porém ela reprimiu essa reação porque sabia que era apenas a tentativa desesperada de uma garota de ser a líder de uma causa muito maior que ela. Além disso, ela havia acabado de revelar seu plano...
“Destruir um símbolo” era assassinar alguém... E é claro que Karli havia enxergado apenas o óbvio daquela situação.
— Você não vai fazer isso, não vai mandar o Bucky matar ninguém pra você, é contra producente. — Makayla declarou finalmente, contendo sua raiva e se concentrando em suas palavras. — Seja quem você esteja planejando assassinar, você quer fazer uma cena disso, quer que saibam porque aconteceu, como aconteceu, quer que saibam que foram os Apátridas. Se mandar alguém fazer o trabalho sujo, você vai perder o propósito da mensagem e, é claro, vai perder vários seguidores também.
Preferiu não revelar que já sabia quem era o alvo. John Walker, ou melhor o Capitão América.
— Você entende muito desse tipo de coisa, não é mesmo? — Karli debochou, mas sua irritação escapava por suas palavras.
— Eu sou muito esperta às vezes. — Makayla respondeu com uma adaptação do que a própria garota ruiva tinha dito antes.
— O que sugere que eu faça, então? — A líder dos Apátridas cruzou os braços, não era um pedido amigável de conselho, era um desafio.
Porém, mesmo sabendo o intuito da pergunta, Makayla decidiu ser ponderada e apaziguadora, oferecendo a Karli o melhor conselho que tinha naquele momento:
— Sugiro que pare enquanto ainda pode, deve ter um jeito melhor de fazer isso... Esse caminho é mortal.
— “Deve ter”, todo mundo diz isso, mas ninguém diz como fazer. — A ruiva soltou um riso seco e irritado. — Então eu vou fazer o que acho certo, do meu jeito, não me importo de morrer pelas minhas ideias.
— Mas e os seus amigos? Você também não se importa de acabar com o sangue deles nas mãos? —Makayla questionou séria e pela primeira vez Karli realmente parou e pareceu ponderar aquelas palavras.
Porém esse instante fugaz não durou praticamente nada porque a porta foi aberta e Nico entrou no ambiente com dois aparelhos celulares em mão.
— Achei o telefone e as informações. — Ele entregou um deles para a líder.
A ruiva focou em Makayla por alguns segundos, como se estivesse ponderando o que fazer com ela e então meneou a cabeça.
— Vou fazer uma ligação. — Declarou diretamente para a morena, enquanto dava um passo em direção a saída. — Infelizmente você é muito irritante, então vou conseguir informações sobre o Sam de outra fonte. — Estava passando pela porta quando olhou para Nico e ordenou: — Amordaça ela.
Makayla parou por um instante, tentando desvendar quem era o alvo da ligação, pelas palavras de Karli só podia ser uma pessoa...
— Ela vai ligar pra irmã dele? — Perguntou para Nico, torcendo para que seu palpite estivesse certo. Felizmente o olhar do Apátrida disse tudo que Makayla precisava saber. — Sério? Ela acha mesmo que vai conseguir simpatia das pessoas indo atrás de quem elas amam?
— Karli nunca foi atrás de ninguém. — Nico retrucou.
Makayla se moveu na cadeira mostrando que estava presa e erguendo uma sobrancelha com oquem diz “sério?”
— Tecnicamente ela não foi atrás de você... — O rapaz devolveu neutro. — Você que entrou no nosso caminho.
— Não posso discordar disso. — Makayla admitiu compriminto os lábios de forma conformada. — Se arrependimento matasse...
— Mas talvez ela devesse... — Nico disse de repente, acendendo a tela do celular e mostrando o aparelho para a jovem. — Eu sei quem você é.
A busca tinha uma foto de Emma e todas as informações públicas sobre a líder do CRG... Makayla sabia que era questão de tempo até que eles descobrissem, respirou fundo, tentando não se deixar levar pela situação desesperadora diante de seus olhos.
Provavelmente os Apátridas não seriam tão legais quanto Sam, ao saber de quem ela era filha...
— Parabéns. — Disse como se fosse algo casual. — E agora, vai contar pra Karli e então vamos oficializar o sequestro?
— Não. — Nico negou, colocando o celular de volta no bolso e assumindo uma postura séria. — Eu não quero seu sangue nas minhas mãos e muito menos quero irritar o Soldado Invernal.
— Ele não é o Soldado Invernal, já falei. — Makayla rebateu, mas não pôde deixar de estranhar o posicionamento do Apátrida naquele assunto.
— Mas ele ainda sabe exatamente como caçar e matar alguém, não é? — Nico retrucou de forma neutra.
— Então não vai contar porque está com medo da retaliação do Bucky? — Ela questionou, sem conseguir entender totalmente a linha de raciocínio do rapaz.
— Eu tenho sensatez. — Ele respondeu apenas, dando as costas para ela e procurando um pedaço de pano para rasgar.
Makayla teve um vislumbre da verdade, talvez Nico não estivesse fazendo aquilo por medo de Bucky, — não inteiramente pelo menos, — mas sim porque ele temia que Karli descobrisse... Ele sabia que ela mataria qualquer um ligado ao CRG, inocente ou não. Se matar o Capitão América fajuto era um ato simbólico, matar a filha da líder do Conselho de Repatriação seria uma mensagem direta....
Nico não estava se protegendo da fúria do Soldado Invernal, ele estava protegendo Makayla da fúria de Karli.
— Talvez você seja só um cara legal, Nico. — A jovem declarou enquanto o Apátrida se aproximava para amordaça-la com o pedaço de pano rasgado. — Obrigada por isso...
Eles trocaram um olhar significativo e cúmplice, ambos sabendo exatamente o que manter segredo sobre aquela informação significava. Nico estava salvando a vida de Makayla.
Ele se foi depois disso, deixando a jovem sozinha pela primeira vez desde que havia sido sequestrada. Imediatamente ela começou a procurar por formas de se soltar, precisava escapar e contar para Sam e Bucky os planos de Karli.
Pensar em Bucky fez com que a dor cortasse seu peito, conseguia imaginar o quão nervoso e preocupado ele estava... Barnes tinha mania de se culpar por tudo e certamente era isso que estava passando pela mente dele naquele momento. Makayla se sentia péssima por entender que de novo era motivo de dor para ele.
Quando pararia de fazer coisas estúpidas?
Continuou se movendo para se soltar, podia sentir as amarras machucando seus pulsos, mas isso pouco importava naquele instante, no entanto todo seu esforço no decorrer daqueles minutos infinitos foram completamente em vão. Makayla era inútil, não tinha super força afinal, amarras simples e ela era subjugada facilmente. Mesmo as técnicas do Soldado Invernal presas em sua mente eram ineficazes já que ela não tinha o condicionamento físico necessário para executá-las.
Além disso não demorou muito para que Karli estivesse de volta, ela parecia muito satisfeita, como se algo estivesse dando extremamente certo. Vinha acompanhada de Nico e mais dois Apátridas, um deles soltou Makayla e a colocou de pé.
— Eu finalmente te entendi. — A ruiva declarou com um sorriso satisfeito. — Graças ao Nico é claro.
Makayla pousou seus olhos no Apátrida, porém ele estava calmo demais. Era impossível que tivesse mudado de ideia tão rápido.
— Você não é apenas namorada do Soldado Invernal, é amiga de um dos agentes do CRG, por isso estava com o colete. O colete dele. — Karli prosseguiu de convicta. — Isso quer dizer que você se tornou uma peça importante do meu quebra-cabeças. — Sorriu satisfeita.
Makayla entendeu que o rapaz havia omitido seu parentesco com Emma Kennedy, porém contou uma versão da verdade para sua líder, ele tinha que fazer isso ou seria suspeito...
Mas não teve tempo de processar muito mais. Nico carregava o colete do CRG que Lemar havia dado a ela, e um dos Apátridas tinha nas mãos um pano e um frasco. A jovem entendeu que seria levada para outro lugar e que certamente usariam o rastreador no colete para atrair John...
Isso significava que tanto ele quanto Lemar cairiam direto em uma armadilha.
— Espera. Isso não vai funcionar. — Ela tentou argumentar, cuspindo a mordaça em sua boca para ser capaz de falar. — John não é um símbolo, ele é apenas um cara substituível. Não vai adiantar de nada...
— Vai sim. — Karli rebateu antes que Makayla pudesse dizer mais alguma coisa. — E só pra constar, espero que viva, de verdade, mas também espero não te ver nunca mais, porque você é muito chata metida a sabe tudo. E, já que não está comigo, está contra mim.
O pano foi colocado sobre o nariz e boca da jovem, impedindo que ela respirasse qualquer coisa que não fosse o cheiro forte de clorofórmio. Ainda queria dizer que John era substituível, que o CRG arrumaria mais dez soldados branquelos iguais ele para vestirem o manto de Capitão América antes de darem o braço a torcer para um grupo como os Apátridas, porém ela não foi capaz de proferir nenhuma palavra.
A última coisa que viu antes de desmaiar foram os olhos assustados de Nico. Ele sabia que tudo aquilo era um erro...
★☆ • ★☆ • ★☆
Como era possível que sua vida tivesse caído naquele buraco de fracasso, vergonha e impotência em questão de horas? Era apenas nisso que Bucky Barnes conseguia pensar.
Estava sem chão, sem forças... Em um instante estava tudo bem e no outro tinha perdido Karli, Makayla estava sumida e ele fora lembrado do quão falho e indigno era por Ayo...
As oito horas haviam acabado e as Dora Milaje apareceram para levar Zemo, o problema é que Walker e Lemar estavam na propriedade do Barão naquele momento, Hoskins preocupado com Makayla e John querendo cantar de galo. Ele quis pagar de bonzão para cima das Wakandanas e levou uma surra muito merecida.
Bucky teria deixado que o homem apanhasse até que as Dora Milaje cansassem, mas Sam quis intervir e por isso Barnes enfrentou Ayo...
O problema não foi perder para ela, isso ele tinha certa noção que aconteceria, sua intenção sequer era vencer, era apenas pedir um segundo para conversarem. Porém sua derrota trouxe pequenas coisinhas que tinham um grande significado.
Começou com a percepção que Ayo não lhe daria ouvidos; Bucky sabia que soltar Zemo tinha sido uma afronta, mas imaginou que depois de dois anos vivendo em Wakanda ele, ao menos, ganharia o benefício da dúvida...
Então teve as palavras de Ayo; condenado pelo Deus que aquele povo mais cultuava, Bucky havia se tornado uma decepção. Porém havia algo mais na forma como a guerreira lhe encarou, um fundo de conformidade em seus olhos escuros, quase como se ela soubesse e esperasse que cedo ou tarde ele desapontasse a todos.
E, por fim, teve o braço... Aquilo dizia mais do que qualquer outra coisa. Não só porque a peça saía, porque, se pensasse de forma lógica com certeza Shuri faria algo de fácil manutenção, o problema era o fato do próprio Bucky não saber disso, e de Ayo saber desarmá-lo com uma facilidade irrisória...
Aquilo era um “sistema de segurança”, uma forma de deter Barnes caso ele se tornasse uma ameaça. E, considerando que o braço tinha sido feito depois que toda a programação do Soldado Invernal havia sido removida da mente dele, então não era precaução. Era desconfiança. Pura e simples desconfiança.
Mas Bucky devia saber, não é?
Ele devia saber...
Todos sempre o veriam como uma ameaça. Uma falha.
E talvez estivessem certos.
O que tinha feito de correto desde que voltara para Nova York? Julgado Sam da pior forma, soltado um criminoso internacional, falhado em proteger Makayla...
Era uma decepção para si mesmo e para todos ao seu redor.
Para piorar, durante a luta Zemo havia escapado. O que mais podia dar errado?
— Você está bem? — Sam questionou, analisando o rosto de Bucky por alguns instantes.
Os últimos minutos haviam sido caóticos para ele também, Karli entrara em contato com Sarah Wilson, a irmã de Sam, o que era uma clara demonstração de ameaça. Depois disso ele havia recebido uma localização para encontrar a líder dos Apátridas sozinho. Coisa que Bucky nunca permitiria, mesmo que Makayla não tivesse sido sequestrada por aqueles malditos.
— Sim. — Mentiu, acelerando um pouco mais seus passos conforme se aproximavam do lugar, já trajados em seus uniformes. — Ela não falou nada mesmo sobre a Makayla na mensagem?
Era ultrajante que Karli estivesse agindo como se não tivesse uma prisioneira. Nenhuma exigência, prova de vida, menção indireta, nada.
A cada segundo que passava ele ficava ainda mais preocupado.
— Sinto muito, Buck. — Sam declarou, pousando a mão no ombro de Barnes em um gesto de apoio. — Mas sei que vamos encontrá-la.
Com um suspiro profundo, tentando se manter firme em seu propósito ao invés de afundar na culpa do próprio fracasso, Bucky assentiu.
— Vamos sim. — Concordou convicto, nisso ele não falharia.
Seguiram para o endereço mandado pela líder dos Apátridas, era uma construção antiga como tantas outras da cidade. Bucky estava atento a qualquer som ou movimentação, mas mesmo quando entraram no pátio não havia nada, ou Karli estava sozinha ou aquilo era uma grande armadilha.
Barnes podia sentir o nervoso emanar de Sam, ele nada tinha dito o caminho todo, mas era evidente que não lhe agradara em nada que tivessem ligado para sua irmã em uma ameaça implícita a vida dela e aos sobrinhos dele.
Não se joga com a segurança de crianças. É desonesto.
E se Zemo estivesse certo? E se Karli estivesse fora de controle, além da salvação, e Sam apenas não visse isso pois era bom demais, decente demais, para acreditar que uma garota seria tão cruel a ponto de realmente fazer mal a inocentes.
Ela podia estar perdida, podia ser apenas alguém desesperada, mas devia haver um limite para o quanto alguém desviava o caminho até ser considerado além da salvação, certo? E qual era esse limite?
Bucky tinha sua cota de pecados também... Seria certo julgar Karli?
Avistaram a ruiva debruçada no andar de cima, Sam subiu na frente, os passos pesados e a postura dura, Barnes seguiu na retaguarda, os punhos fechados e o corpo tenso, apenas a preocupação com Makayla orbitando em sua mente.
Karli estava encostada casualmente em um dos pilares da varanda quando Sam falou sobre a irmã. Ela argumentou que nunca machucaria a família dele. Bucky não tinha tanta certeza disso.
— Onde está a Makayla? — Ele questionou duro, parado alguns metros atrás de Sam, agradecendo por haver aquela separação, ou acabaria cedendo aos seus instintos e pulando no pescoço da garota ruiva.
— Vejo que não veio sozinho... — Ela falou direto com Sam, nada afetada com a presença de Barnes, se desencostando do pilar e dando um passo, pronta para continuar a conversa como se nada estivesse acontecido. — Olha...
— Responda a pergunta dele. Onde está a Makayla? — Sam retrucou de forma dura.
Karli revirou os olhos, como se aquele assunto lhe fosse banal e pouco importante, algo com o qual ela não queria gastar tempo. Focou em Barnes de forma quase entediada.
— Sua namorada não está aqui. Mas ela está bem, não se preocupe. — Respondeu simples e prática. — Eu não a machuquei. Na verdade, ela me ajudou antes e está me ajudando com outra coisa agora. Acho até que ela vai ficar bem.
Bucky tentou processar aquelas palavras em uma linha de raciocínio coerente, enquanto Sam declarava que era hora de Karli parar com tudo aquilo. Makayla estava ajudando por vontade própria?
Foi incapaz de acreditar nessa teoria, podia imaginar que a jovem havia se preocupado com a líder dos Apátridas porque a ruiva estava ferida e assustada e no fim era mesmo apenas uma garota, mas de cuidar dos ferimentos de uma menina, para ajudar na causa anarquista de um grupo terrorista... Não. Makayla não faria isso.
Bucky tinha certeza que, fosse o que fosse, ela não estava cooperando por vontade própria.
Enquanto isso Karli argumentava que não queria machucar Sam, que ele era apenas uma ferramenta no sistema que ela estava tentando destruir. Ele não se escondia por trás de um escudo, portanto não teria qualquer significado matá-lo... Na verdade a jovem até fez um convite para que Wilson se juntasse a causa dela.
— Você acha que vai sequestrar alguém importante pra mim e vamos ser amiguinhos? Simples assim? — Bucky cortou com uma risada sarcástica presa no fundo da garganta.
Karli não estava perdida, ela havia perdido a cabeça, isso sim...
— Na verdade o convite é apenas para o Sam. Era pra sua namorada também, ela é muito inteligente, embora seja impertinente, teimosa e irritante, mas enfim, não deu certo... Já você não tem utilidade nenhuma pra mim. — A ruiva retrucou, pousando os olhos em Barnes por um instante apenas. — Tudo que você pode fazer eu também posso.
Bucky estava pronto para retrucar, porém algo piscou no visor preso ao punho de Sam, ao mesmo tempo em que uma mensagem fazia o celular de Barnes vibrar. Era Lemar, havia dado seu número para o parceiro de John para que trocassem informações sobre Makayla.
Encontramos um traço do sinal do meu colete.
Pode ser o paradeiro da Kay
Vou te enviar o endereço.
Barnes ergueu o olhar no mesmo instante em que Sam também o encarava, os dois chegando na mesma conclusão por fatos diferentes, Barnes tinha a mensagem de Lemar, Wilson dados fornecidos por Sharon que estava sendo uma aliada remota...
“Se eu matar você não vai ter nenhum significado”. Essas tinham sido as palavras de Karli.
— Estão usando a Makayla como isca pra pegar o Walker. — Os dois disseram ao mesmo tempo.
Karli queria matar o atual Capitão América para provar sua força ao CRG e aos Estados Unidos.
— Vai! — Sam apontou urgente.
Bucky pulou pela sacada, mas foi interceptado por Karli. Seu corpo sendo arremessado contra uma das paredes por causa do impacto. Wilson atingiu a ruiva com um golpe aéreo e pousou no chão em seguida, pronto para o embate corpo a corpo.
O Falcão tinha técnica e treinamento. Isso batia de frente com o super soro nas veias de Karli Morgenthau.
Era evidente que a garota não queria que seu plano fosse interrompido, porém se ficassem ali lutando com a ruiva, Walker e Lemar talvez não fossem capazes de lidar com a armadilha dos outros Apátridas sozinhos e, acima disso, Makayla estaria correndo grande perigo...
Sendo assim, logo que Karli caiu com outro golpe de Sam, Bucky correu porta afora, usando o máximo de sua velocidade, enquanto gravava um áudio alertando Hoskins, mas essa mensagem sequer foi visualizada.
Felizmente, não demorou muito para que visse o Falcão cortar o céu. Tinham se chegar antes que uma tragédia acontecesse...
★☆ • ★☆ • ★☆
Quando ela abriu os olhos tudo ainda rodava, seu nariz parecia cortado por dentro, ardia e queimava como se algo corrosivo estivesse preso em suas vias respiratórias. Atordoada, Makayla piscou algumas vezes, sua mente trabalhando para se situar na realidade. Ah sim, estava no meio de um plano de Karli Morgenthau...
Sua primeira percepção foi o cheiro estranho que vinha de toda a parte, porém um pano com o que devia ser clorofórmio tinha sido praticamente enfiado em seu nariz, então talvez o cheiro fosse disso. Ela olhou ao redor, o ambiente não tinha luz e estava embaçado, como se um tipo de fumaça se espalhasse pelo ar, ainda assim, graças a luz que vinha de uma pequena abertura de vidro na porta, era possível notar que estava em uma sala vazia.
Franziu as sobrancelhas, era um mero cubículo de poucos metros quadrados e, ao se apoiar em uma das paredes para se levantar, a jovem notou que aquela superfície parecia acolchoada, assim como o chão abaixo de seus pés.
Olhou para a porta de novo, caminhando até ali enquanto tossia, porque algo no ar parecia arranhar sua garganta. Estava trancada, é claro, e qualquer tentativa de Makayla em bater na superfície parecia em vão, porque até a porta era acolchoada.
Que merda de lugar era aquele?
Respirou fundo, tentando sorver o ar do cômodo que, por algum motivo parecia rarefeito. Quando seus olhos finalmente se acostumavam a escuridão parcial e os detalhes ficavam mais nítidos, Makayla finalmente teve um vislumbre de onde estava...
Era um manicômio?
Analisou o lado de fora através do vidro, parecia mesmo uma instalação pública abandonada... Isso significava que Makayla estava presa no que devia ser uma das solitárias do lugar.
— Olá! — Ela bateu diversas vezes na superfície transparente totalmente lacrada. — Tem alguém aí?!
O esforço de gritar causou uma crise de tosse na jovem, seus pulmões ardendo em busca de ar e suas vias respiratórias parecendo conter vidro. No ato de se curvar para tossir, uma réstia de luz cortou o pequeno cubículo e ela finalmente pôde ver que o embaçado em sua visão era de fato fumaça ou gás circulando ali.
Ergueu os olhos e viu que a pequena abertura de circulação no teto, o local por onde — supostamente — devia entrar ventilação naquele cubículo estava, na verdade, jogando fumaça ou gás ali dentro. E, a julgar pela forma como todas as vias respiratórias dela ardiam, aquilo com certeza era algum componente toxico...
Significava que se não saísse dali o mais rápido possível ou Makayla sufocaria na fumaça, ou seria envenenada pela toxidade no ar.
— Socorro! — Bateu no vidro, logo depois de se colocar de pé.
Não tinha certeza se alguém do lado de fora poderia lhe ouvir, porém isso foi irrelevante quando uma figura conhecida cruzou o corredor.
— Lemar! — Ela gritou de volta, na esperança que ele olhasse para o lado. — Lemar, eu estou aqui!
— Makayla?! — Os olhos de Hoskins seguiram naquela direção, era possível ouvir a voz dele vir abafada através da porta.
Ele andou até ali, tinha uma mão nas costelas e seu rosto estava com um corte no lábio e um hematoma sobre o olho direito.
— O que aconteceu? Você está machucado? — Makayla questionou o mais alto que podia, reprimindo a vontade de tossir.
— Não, eu estou bem... — Ele desconversou, tentando abrir a porta, mas por sua expressão essa simples tarefa parecia impossível. — Conseguimos rastrear o seu sinal, mas...
— Era uma armadilha. — Makayla completou, revelando o plano dos Apátridas em seguida. — Eles querem o John.
O pavor puro atravessou o rosto de Lemar, o risco de perder o parceiro. Makayla sentiu aquela dor cortar seu coração também, não por John, claro que não queria que ele fosse assassinado, apesar de tudo ele não merecia isso, mas naquele instante a dor vinha de lembranças. Afinal não era a primeira vez que Hoskins perdia um parceiro...
— Okay. Eu vou te tirar daqui. — Ele disse decididamente, tentando puxar algo que parecia bloquear a porta. — Está travada por uma barra de ferro enorme e contorcida, mas vou dar um jeito.
A cabeça de Makayla rodou, presente e passado se misturando por um instante, enquanto ela tentava não sucumbir às memórias, e seus pulmões ardiam como se fossem corroídos de dentro para fora, fazendo com que caísse em outra crise de tosse incontrolável.
— Kay! — Lemar gritou do lado de fora, batendo no vidro freneticamente. — Você está bem?
— Tem algum tipo de gás aqui, vindo da tubulação... — Ela lutou para conseguir algum fôlego.
— Fica no chão e longe da porta! — Hoskins ordenou de forma urgente e Makayla obedeceu.
De fato conseguiu algum ar respirável ali, mas sabia que era uma questão de tempo até que todo oxigênio daquele cubículo se extinguisse totalmente. Morrer na solitária de um manicômio seria mais uma ironia irritante de sua vida. Talvez a prova de que sempre foi louca...
Esse pensamento mórbido fez com que a jovem risse de forma nervosa, enquanto lá fora Lemar continuava a atingir a porta e o vidro...
Makayla franziu as sobrancelhas, as palavras de Karli lhe vindo a mente; “Você é uma peça importante do meu quebra-cabeças”... “Espero que não morra”.
— Eu sou uma distração... — A jovem se deu conta finalmente. — Só uma distração.
Com certeza a porta tinha sido travada por fora por um dos Apátridas e o vidro blindado que cobria aquela pequena abertura demoraria a ser quebrado sem as ferramentas certas. Tempo. Lemar precisava de tempo para tirá-la dali.
O tempo que Karli usaria para matar John Walker...
A jovem se colocou de pé com um pouco de dificuldade, estava tonta já, a garganta ardendo tanto que era uma sensação constante, como se tivesse engolido fogo.
— Tudo isso é uma distração para te afastar do John. — Ela disse, observando Lemar através do vidro.
Uma parte egoísta de si queria omitir aquilo, manter o amigo longe do perigo, mas se isso era condenar Walker, seria justo com Lemar?
Ele jamais se perdoaria por não estar lá, por não ter feito nada, se o parceiro dele morresse. Seria uma dor e um arrependimento que o corroeria por dentro.
Era justo tirar o poder de escolha dele apenas para protegê-lo?
Makayla não entendia tanto de justiça assim para ter aquela resposta, o que ela entendia em seu coração era que... a vida é sobre as escolhas que fazemos, aquelas que nos levam mais perto da pessoa que queremos ser e aquelas que nos afastam disso drasticamente.
E Makayla Devinne não queria ser a pessoa que mente e omite, que decide pelos outros, não mais, não depois de Bucky. Ele havia lhe ensinado a importância do livre-arbítrio e da verdade.
Era essa pessoa que ela queria ser...
— Você tem que parar e ir atrás do John. — Declarou por fim. — Eu sou uma distração pra te afastar dele. Para que os Apátridas o peguem sozinho.
Quis dizer que ficaria bem, mas não tinha tanta certeza assim se era verdade, porque estava fazendo um esforço surreal para não tossir e era como se não houvesse mais ar para ser tirado do ambiente. Apenas veneno gasoso.
O conflito atravessou o olhar de Hoskins, mas ele veio acompanhado de dor e culpa, o que talvez não fizesse tanto sentido naquela situação.
— Não vou deixar você. — Ele decidiu, batendo no vidro de forma ensandecida e frenética.
— Lemmy... — Makayla tentou argumentar, mas engoliu as próprias palavras junto com outra crise de tosse.
— Não! — O homem retrucou convicto. — Eu não vou abandonar você, também!
Um milhão de pequenas memórias cortou a mente de Makayla, toda uma infância feliz ao lado do irmão: Cam descobrindo verdades novas sobre si mesmo, coisas que compartilhou apenas com ela nos primeiros anos; sua paixão secreta pelo melhor amigo; o primeiro beijo; o medo de serem descobertos; a guerra juntos; um mundo de planos; um apartamento no Brooklyn para construir um futuro; um anel dourado; o jantar em família onde ele revelou suas verdades aos que amava, logo depois de uma incursão, dias antes da tragédia.
E então Lemar mudando de ideia, tendo medo, hesitando. Uma briga no telefone. Lágrimas no carpete caro de um apartamento para dois que não tinha uma das metades...
Makayla sempre esteve lá, em cada um desses momentos, e aos doze ela acreditava que o amor podia vencer tudo, que Cam e Lemar ficariam bem, porque namorados brigavam e faziam as pazes. Tudo que eles precisavam era tempo e todo mundo sabia — pelo menos aos doze anos — que o tempo passa mais rápido quando você está se divertindo.
Um sorvete. Foi isso que ela sugeriu. Porque sorvetes animavam as pessoas. Porque no outro dia tudo ficaria bem. Tudo se resolveria. Ela voltaria a planejar o casamento do irmão usando recortes de revista. Makayla só queria que Cameron ficasse feliz...
E ele acabou morto.
Uma tragédia em efeito domino...
Mas Lemar... Lemar não tinha culpa disso. Makayla tinha certeza em seu coração que não.
— Você não abandonou o Cam, Lemmy. — Ela disse, os olhos ardendo em lembranças liquidas. — Eu sei que se você pudesse...
— Eu abandone ele, sim. — Lemar cortou, parecia um tanto transtornado naquele instante. Um misto de culpa, arrependimento e pesar em sua voz. — Eu menti pra você. Eu menti pra ele. Eu não tive dúvidas. Só terminei tudo naquele dia, porque sua mãe disse que seria melhor assim...
— O que? — A verdade atingiu Makayla como um tapa certeiro na cara.
Tudo rodou, como se as estruturas de sua vida estivessem desabando lentamente.
— Ela disse que não tínhamos futuro, que a sociedade nunca aceitaria a gente junto. Que eu destruiria a carreira do Cameron se ficasse com ele. — A revolta de Lemar estava em cada sílaba, em cada golpe que ele continuava dando no vidro ou chute que atingia a porta.
— E você acreditou nela? — Makayla cambaleou para trás, as extremidades de seu corpo começando a formigar. Era ódio ou apenas seu corpo antevendo um desmaio? Impossível saber...
— Eu... fiquei confuso. — Lemar respondeu, olhando ao redor como se procurasse algo que pudesse usar. — E nunca vou me perdoar por isso.
— E você ainda está fazendo o que ela manda? Por que? — Foi tudo que Makayla conseguiu expressar naquele momento.
Sempre imaginou que a dívida não dita de Lemar com Emma fosse sobre ele não estar lá quando Cameron mais precisou. Porém aquela nova verdade mudava as coisas. Por que ele continuava a fazer o que ela pedia?
— Por sua causa. — Hoskins respondeu. — Você é minha família também e eu não queria que soubesse de tudo isso, não queria que ficasse desapontada comigo... Por isso eu sempre te evitei, e quando Emma insinuou que contaria tudo pra você se eu não aceitasse essa nova proposta... Eu aceitei por medo de te decepcionar. Mas Kay, com proposta ou sem, eu não posso mais viver com essa mentira. Não posso. Foi minha culpa. Você pode me odiar se quiser, mas não posso continuar mentindo.
Lemar não parou de atingir o vidro e a porta em nenhum momento, mas era evidente que não tinha como abrir aquilo sem as ferramentas certas. Makayla sentiu seus joelhos cederem, tudo rodando e saindo de foco.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Estava vagando pelas memórias do jantar outra vez, os sons do lado de fora ficando distantes e distantes conforme a inconsciência lhe puxava, enquanto seus pulmões ainda tentavam se livrar da fumaça fazendo o corpo feminino convulsionar em uma nova crise de tosse...
Naquela noite, com uma taça erguida e a mão estendida para Lemar, Cameron contou aos pais que a conexão que tinha com o parceiro era maior que uma amizade, que ele não se encaixava nos padrões. Ele contou quem era em sua essência. Ouve na mesa duas reações distintas. A de Danniel e a de Emma:
O pai se levantou de seu lugar e cruzou a sala, ambas as mãos seguindo para o rosto do filho, ele tinha lágrimas nos olhos e suas palavras ficaram guardadas dentro do coração de Makayla e, ela gostava de pensar, que ficaram guardadas no coração de Cameron também:
“Você é meu filho. Como pai, eu tenho apenas uma missão e um desejo; a missão de te dar toda a educação e suporte para ser uma boa pessoa e o desejo de te ver feliz. Hoje você me deu o maior orgulho de todos. Você é uma pessoa excepcionalmente boa e está feliz. Eu não podia estar mais orgulhoso de você, meu filho. Obrigado por compartilhar sua verdade conosco. Eu te amo.”
Então ele abraçou Cameron apertado, puxando Lemar para junto deles, logo antes de levantar sua taça e brindar ao novo membro da família...
E então teve Emma, seu sorriso polido, sua educação cordial, a forma como beijou a testa de Cameron sem dizer uma palavra e ergueu sua taça para Lemar sem de fato encará-lo. Apenas a mesma expressão cordialmente vazia das campanhas em seu rosto durante todo o jantar.
Mas Makayla era jovem demais para entender isso naquele dia... As micro expressões. A educação controlada. Ela era nova demais para entender que a pior violência era a mais sutil, estava escondida na falta de um abraço para o homem que seu filho amava, estava explícita no silêncio, no olhar dado enquanto outros olhos não viam...
Ela era nova demais para compreender a discussão que os pais tiveram naquela noite quando Cam se foi com Lemar. “Meninos na guerra fazem coisas estúpidas. Vai passar. Ninguém tem que saber.”. Um pai tentando celebrar e proteger a verdade de seu filho. Uma mãe tentando enterrar tudo aquilo como quem enterra um corpo no meio da noite depois de um crime. Mas Makayla não entendia isso. Não naquela época.
E essa discussão se perdeu em sua mente, junto com tantas outras que ela ouviu no meio de várias noites. Se esvaiu em meio a dor que os anos trouxeram, foi esquecida...
Mas ali, entre a fumaça e falta de ar, ela se lembrou finalmente. Emma dizia amar Cameron, mas não aceitava quem ele era de verdade. Isso era mesmo amor?
E talvez por isso a própria Makayla sempre soube que não seria aceita também. Era algo enraizado em sua mente, preso a uma discussão esquecida, que ela ouviu no meio da noite quando tinha doze anos.
Emma Kennedy se tornou então uma figura mais clara naquele momento, sua verdadeira face emergindo, rasgando o amor e admiração que havia restado no coração de Makayla.
Ela não era uma boa pessoa.
A mulher que havia lhe criado era uma manipuladora, alguém disposta a destruir a felicidade do filho para manter aparências retrógradas. Usando e abusando das pessoas no caminho. Explorando suas fraquezas e dor. Chantageando com um sorriso no rosto. Tratando diferenças como falhas, menosprezando e pisando na cabeça de quem ela achava inferior.
Sam, Lemar... Quantos mais?
Quais outros pecados ela escondia por trás de seu sorriso polido e de sua diplomacia manipuladora?
Makayla não soube a resposta, porque estava tudo turvo, etéreo, não havia ar o bastante e seu corpo estava pesado demais para manter um pensamento suficientemente coerente. Seus pulmões doíam e a tosse não parava, mas isso era apenas um reflexo falho de seu sistema nervoso naquele momento, não uma vontade consciente.
— Makayla! Makayla! — Alguém chamou ao fundo, longe tão longe...
— Estamos aqui! Rápido! — Lemar respondeu.
Lemmy... pobre Lemmy, sozinho com sua dor por anos e anos, remoendo uma culpa que não lhe cabia. Não quando suas escolhas haviam sido manipuladas, seus medos explorados. A culpa era de Emma.
Um baque violento fez com que o lugar tremesse. Makayla teve o vislumbre de algo voando de encontro a parede oposta. Tudo estava turvo, distante, ela fechou os olhos e sentiu que flutuava, amparada por algo firme. Um coração batendo disparado de encontro ao seu ouvido...
Seu corpo foi apoiado em uma superfície dura, e ela pôde sentir o exato momento em que o colete a prova de balas que usava foi rasgado de seu corpo por mãos extremamente fortes. O ar veio de todos os lugares ao mesmo tempo, trazendo consigo um perfume reconfortante de lar. Neve com um fundo amadeirado. Ela se viu nos alpes de novo. Na suíça. Naquela casa no topo da montanha onde a guerra não podia entrar. Mas aquele cheiro era muito mais masculino, a sutil diferença fez sentido finalmente...
Não estava nos alpes, não estava em casa. Estava com ele.
— Princesa, por favor, fala comigo. — A voz masculina pediu e Makayla se esforçou para abrir os olhos, enquanto sorvia todo o oxigênio possível para dentro dos pulmões.
O rosto bonito e alagado de aflição surgiu diante dela, ficando mais nítido conforme a jovem piscava. Bucky Barnes.
— Aí está você, me salvando outra vez, isso está virando um hábito, sabe? — Sua voz saiu rarefeita, mas ela sorriu, erguendo o os dedos para tocar a barba dele, um tanto zonza ainda.
Estava deitada no chão no meio do corredor, Bucky debruçado sobre si. Ele a puxou para perto de uma só vez, a envolvendo em um abraço apertado que era um misto de desespero e angústia, mas que foi capaz de causar paz e conforto imediato em todo o corpo de Makayla.
— Eu pensei que tinha perdido você... — Ele murmurou baixinho, contra os fios castanhos dela, soltando todo o ar dos pulmões de forma aliviada. — Me desculpa. Eu devia ter protegido você. Devia ter encontrado você antes... eu...
Makayla o deteve quando ergueu a cabeça e isso fez com que se separassem um pouco.
— Eu estou bem. Não é sua culpa. — Assegurou, logo em seguida procurando Lemar com os olhos e sorrindo para ele de forma apaziguadora. — Não é culpa de ninguém. Nada disso.
Na verdade, muito daquilo era sim culpa de alguém, não o sequestro e os Apátridas, claro, mas a dor dentro de Makayla, as injustiças que envolviam John com aquele escudo, Lemar usando o uniforme do CRG para lidar com o remorso... Tudo isso era sim culpa de alguém.
De Emma Kennedy.
Mas Makayla não queria pensar nela, não queria ficar decepcionada ou triste com o fato de descobrir que a figura materna que ela amava era apenas uma ilusão. Emma não merecia suas lágrimas...
Além disso, eles tinham problemas maiores no momento.
Lemar estendeu a mão e Makayla aceitou a ajuda para se colocar de pé, enquanto era amparada de perto por Bucky. A primeira coisa que a jovem fez foi abraçar Hoskins, tentando dar a ele algum conforto para a dor que ele sentia.
— Não foi sua culpa... — Murmurou no ouvido dele. — Eu não te odeio.
Barnes olhou dos dois para o corredor atrás de si, a preocupação em seus olhos era explícita. Makayla se deu conta que se ele estava ali, então Sam também estava, assim como os Apátridas e John.
Tinha uma luta acontecendo.
E por mais que Makayla quisesse voltar para os braços de Bucky e apenas ir embora dali, ela sabia muito bem que ele era um herói, e precisava fazer o que era certo.
Deu um passo na direção dele, sendo amparada imediatamente. Seus movimentos eram um tanto desconexos ainda, por causa da privação de oxigênio. Seus pulmões pareciam corroídos por dentro, assim como cada pequena parte de suas vias respiratórias, mas ela sabia que ficaria bem.
— Vai, Sam precisa de você. — Declarou, fazendo com que os lábios deles se tocassem por um segundo.
Bucky concordou, a puxando para outro beijo antes que seus olhos seguissem para Lemar:
— Tira ela daqui.
Hoskins assentiu, mas tinha algo para pedir em troca:
— Ajuda o John.
Bucky acenou positivamente com a cabeça, correndo para o lado oposto, enquanto Lemar amparava Makayla e ambos seguiram para uma saída alternativa nos fundos do lugar... Logo estavam na rua, a claridade cegando Makayla por um momento e o ar puro invadindo seus pulmões cansados como um balsamo.
— Acha que consegue andar? — Lemar perguntou, encarando a garota de forma cautelosa.
Ela assentiu, dando um passo para longe dele e provando que tinha recuperado ao menos um pouco do equilíbrio.
— Tem uma praça pública no fim dessa rua... — Ele apontou e Makayla soube o que aconteceria a seguir.
— Você não vai comigo, não é? — Ela conseguia ver a verdade estampada no rosto de Lemar.
— Eu não posso deixar o John pra trás. — A resposta era quase um pedido de desculpas. — Ele é o meu parceiro...
Makayla soube que não haveria um argumento bom o bastante para fazer com que Hoskins desistisse. Eram mais de duas décadas de amizade afinal. Para ela, Bucky, Sam e muitos outros John Walker era apenas um idiota presunçoso, mas para Lemar ele era um irmão.
E era justamente aquela amizade a coisa que fazia de John um homem melhor... No fim, eles faziam qualquer coisa um pelo outro.
— Me espera, nos vemos em um minuto. — Ele declarou, deixando um beijo carinhoso na testa de Makayla, antes de sair correndo pelo caminho de volta.
Por um instante, enquanto via a figura de Lemar sumir prédio adentro, a jovem teve o impulso de voltar também. Porém sabia que seu envolvimento seria apenas uma distração no meio de uma luta que exigia força e treinamento. Duas coisas que ela não tinha.
Continuou a caminhar pela rua então, até que chegou na praça com uma estátua de ferro no centro. Algumas pessoas estavam ali, seja de passagem ou turistando as ruas de Riga. Makayla se sentou em um dos bancos que contornava a estátua. As pernas mexendo frenéticas em ansiedade. E se alguém se ferisse?
Tentou respirar fundo. Não. Nada disso aconteceria. Tudo ficaria bem. Era o que tinha que acreditar. Logo estariam voltando para casa com tudo resolvido...
Porém, como se o universo mandasse um recado para o otimismo exagerado de Makayla, não demorou sequer vinte minutos para que um estrondo repentino cortasse o ar. Era quase como se algo tivesse se chocado com um carro.
As pessoas na praça começaram a olhar ao redor assustadas. Makayla se colocou de pé, procurando pela origem do som com o coração já aos saltos. Foi nesse momento que um rapaz saiu correndo em direção ao público...
Ela reconheceu a figura de Nico, segundos antes que ele fosse atingido pelo escudo de vibranium e caísse nos degraus da praça. Walker veio logo depois, a postura dura, assassina... e foi naquele instante, através daquele olhar perturbado, ensandecido e descontrolado, que Makayla sentiu a tragédia eminente.
— John! — Ela gritou, tentando passar pela multidão para alcança-lo, enquanto Nico gritava que não tinha sido ele.
O estômago de Makayla embrulhou em antecipação. Walker não parou, a violência pura e completa havia se apossado dele. Rápido demais para ser detido. Rápido demais para que as pessoas conseguissem reagir ao choque.
Nico foi atingido pelo escudo de vibranium... uma; duas; três vezes. O símbolo de proteção de um país havia virado uma arma letal. O legado de Steve Rogers estava manchado de sangue... Tudo havia dado errado.
Exatamente como a jovem tinha dito mais cedo, um dos amigos de Karli estava morto. Nico. O rapaz gentil que havia guardado o segredo de Makayla...
Mas foi apenas quando os olhos de Walker encontraram a garota através da multidão que ela realmente viu a verdade. Aquilo não era uma missão. Não era um soldado pegando inimigo. Não era uma ação oficial. Era vingança. Pura e simples.
As pernas de Makayla fraquejaram. A verdade tomando conta da sua mente, rasgando seu coração de dentro pra fora. Ela sabia. Já tinha passado por aquilo vezes demais para não saber...
Empurrou a multidão que se amontoava ali. Seu olhar cruzando com o de Walker uma vez mais enquanto ela corria para a mesma direção da qual ele tinha vindo. Se fosse honesta, sequer sabia com que força suas pernas lhe levaram de volta para o maldito manicômio.
— Lemar! — Gritou. Sua voz ecoando por toda a parte e voltando para ela sem resposta.
Não podia ser verdade.
Entrou no salão principal. Seus olhos encontrando a figura caída a baixo de uma pilastra quebrada.
Lemar Hoskins. Seu amigo. Sua família. Alguém que ela amava desde criança...
Não foi possível decifrar o que aconteceu primeiro; Bucky, que veio de parte alguma, como se tivesse corrido atrás dela por todo o caminho, a envolveu em seus braços de forma firme e acolhedora, as pernas de Makayla cederam e um grito de profunda agonia e pesar cortou o ar como uma adaga afiada e fantasmagórica, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto jovem.
Só havia uma certeza... Mais uma vez, Makayla Devinne havia perdido.
Fale com o autor