Sweet Epiphany
18 Long Night
Notas iniciais

Aquela era uma sensação extremamente familiar... o vazio. O momento em que ela pairava no limbo, enquanto tudo ao redor continuava a existir. As vozes ecoavam longe e tudo estava embaçado diante de seus olhos. Não era a primeira vez para Makayla...
As luzes das sirenes de resgate, que estava ali apenas para transportar um cadáver; a cor do uniforme das autoridades, que não eram capazes de proteger ninguém; o calor de um cobertor jogado sobre seus ombros, algo incapaz de trazer qualquer conforto.
Havia apenas a dor, parecia o único sentimento real e duradouro, como um velho amigo com quem se deixa de falar por tempos e tempos, mas que sempre está com você de alguma forma, que te conhece melhor do que qualquer um e que, quando retorna, é como se nunca tivesse te deixado...
Estava em seus ossos, gravado como tatuagem, a dor da perda. Tirando e tirando dela, de novo e de novo, um ciclo infinito que sempre culminava na solidão.
Mas Makayla não estava sozinha, não daquela vez.
Talvez pela primeira vez.
Dois corpos eram colocados dentro do carro do resgate, mas havia alguém ao lado dela, segurando sua mão, os dedos entrelaçados, um braço ao redor do seu ombro. Não estava sentada sozinha sendo bombardeada pelas perguntas de estranhos.
Makayla ergueu o olhar encontrando o azul gélido e reconfortante de Bucky Barnes, que lhe observava em um misto de carinho e preocupação, quase como se estivesse esperando a jovem desabar a qualquer momento....
Mas ela não desabou, ao menos não completamente, por fora era apenas a mesma garota de sempre, quem visse de longe sequer imaginaria o que ela havia perdido, mesmo suas lágrimas já haviam secado naquele ponto. Mas por dentro... Por dentro Makayla estava vazia, não havia nada, era um sentimento estranho.
Se Makayla tivesse que descrever com suas próprias palavras, diria que ela era um prédio condenado, por fora tudo parecia bem, a construção ainda se mantinha de pé, de modo que, se alguém passasse do outro lado da rua veria apenas um prédio como tantos outros. Porém, ao chegar mais perto, todo um ar de desolação e abandono que emanava do lugar poderia ser percebido por qualquer um, e, por fim, o verdadeiro problema estava lá dentro, onde muitas partes da estrutura haviam desabado, onde não havia nada além de destroços, nada bom, nada aproveitável, apenas cômodos cinzentos totalmente inabitáveis.
Makayla Devinne era esse prédio abandonado...
Uma construção de pé por milagre, que em seu interior estava sem vida, sem cor e sem uma única gota de alegria, seu vazio era na verdade um amontoado de destroços, poeira e teias de aranha perdidos na escuridão. Porque a dor era assim; a falta, a ausência, tudo aquilo que havia ficado quando o que era bom se esvaiu. Não era um vazio limpo e claro, pronto para ser preenchido com coisas novas, era o vazio da destruição que ficou pra trás, aquele que impede algo bom de ocupar o mesmo espaço.
Era assim que ela estava por dentro.
Respirou fundo, os pulmões parecendo pesar uma tonelada. Ao redor as pessoas curiosas cochichavam umas com as outras, esticando a cabeça para olhar melhor a situação, contidas por uma fita amarela e alguns policiais. Makayla se deu conta que não conseguia lembrar o exato instante em que as autoridades haviam chegado. Fazia diferença?
Seus olhos seguiram para uma das ambulâncias paradas ali, aquela que agora carregava dois corpos embalados em sacos próprios para cadáveres.
Cadáveres...
Makayla abaixou os olhos e encarou a mão livre, estava suja de sangue e ela sequer sabia de onde, talvez do pequeno filete que ela havia limpado do rosto de Lemar quando amparou o corpo dele. Apenas uma manchinha de nada, pequena e insignificante que de repente ficou borrada por uma lágrima pesada que escorreu de seus olhos.
Era assim que acabava?
Nunca entendeu de verdade porque as pessoas morriam, depois do irmão, antes de mergulhar em suas fugas autodestrutivas típicas da adolescência, Makayla costumava ir a igreja aos domingos, e o padre dizia que as pessoas morrem porque chegou sua hora, porque Deus tem um plano para elas... A jovem não se lembrava mais se um dia chegou mesmo a acreditar nisso, porém, depois de ter visto algumas tragédias bem de perto, ela sabia que não acreditava mais.
Que plano estúpido era esse que arrancava pessoas de suas vidas no meio do caminho?
Makayla fungou o nariz, piscando algumas vezes como se essa combinação de movimentos pudessem levar para longe perguntas indignadas que nunca teriam resposta. Não queria pensar no motivo das coisas serem como eram. Isso a deixava revoltada. E estava exausta demais até para se revoltar...
Nico e Lemar estavam mortos. O rapaz gentil que estava lutando por um mundo melhor, mesmo que do jeito errado e a pessoa mais próxima de uma boa família que ainda restava a Makayla. Ambos mortos no mesmo dia.
Como se a morte pairasse ao redor dela...
Amaldiçoada.
Que estúpido plano, propósito ou motivo de Deus justificaria isso? Que se fodessem as respostas, Makayla não as queria. Nada daquilo importava. Nada traria as pessoas que ela tinha perdido de volta.
Na verdade, havia mesmo algo que importava?
Sentiu Bucky afagar-lhe o braço em um gesto de conforto, seus olhos se encontraram por um instante, mas apenas o silêncio os acolheu. Ele não parecia saber o que dizer.
Mas havia mesmo algo que podia ser dito?
Makayla desviou o olhar, lá na frente Sam lidava com a polícia, mas sua postura exalava preocupação. Karli havia sumido com os outros Apátridas, John havia desaparecido, correndo por entre as pessoas depois que manchou o legado do Capitão América de sangue em via pública e, a julgar pela ausência de Zemo, era bem provável que o Barão houvesse escapado para não lidar com as Dora Milaje.
Absolutamente nada havia dado certo naquele dia.
Makayla entendeu que o gosto da derrota estava na boca de todos eles...
Sam se aproximou em passos cautelosos, seus olhos gentis encontraram a jovem, porém mesmo ele não parecia saber ao certo o que dizer. O silêncio os engoliu, como se o frenético falatório da multidão ao redor não passasse de ruido branco. Makayla podia sentir pairar no ar a urgência, ela sabia que estava sendo um empecilho para que os dois homens continuassem com seu trabalho.
Eles não sairiam dali enquanto ela não estivesse bem.
Porém, um dia ela estaria bem? De verdade? Havia mesmo uma forma de estar bem no meio de toda aquela tragédia e perda?
Olhando para o passado naquele momento, Makayla soube que sua vida inteira fora uma sucessão de momentos ruins, e a cada vez que ela tentava estar bem e realmente acreditava que isso era possível outro momento ruim vinha para acabar com as esperanças dela. Era como se sempre estivesse levando rasteiras da vida.
E, se nada nunca ficaria bem, então qual o propósito de manter Sam e Bucky ali?
Makayla decidiu ser prática, deixou seus próprios sentimentos e dores de lado, um pouco porque não queria se afogar neles e muito porque de nada valeriam naquele momento. Pelo visto ela sempre seria a garota coberta de luto.
— John sumiu, não é? — Comentou, erguendo seu olhar.
Aquele parecia ser o assunto que estava deixando Wilson preocupado, então Makayla focou nisso.
— Ele está descontrolado. — Sam respondeu com cautela.
— Eu entendo a raiva, mas isso... — Bucky comentou, apontando a praça com um menear de cabeça.
O sangue ainda manchava os degraus, mas Makayla piscou algumas vezes, tentando espantar da mente a cena indizível de momentos antes.
Makayla conseguia entender a dor de John, talvez fosse a primeira vez em toda a vida que ela realmente o compreendesse... Lemar, seu melhor amigo desde sempre, seu parceiro, seu irmão, estava morto. Tinha acontecido bem diante dos olhos de Walker.
Hoskins era a voz da razão na vida de John, seu descontrole era apenas efeito colateral de tudo aquilo, sua sede de vingança era previsível. Mas nada disso significava que Walker estava certo. Apenas indicava o quão perigoso ele era naquele momento...
Um homem no estado dele podia fazer qualquer coisa e, se isso já seria ruim em qualquer outra ocasião, naquele instante era ainda pior, afinal John Walker não era apenas um homem. Ele era um soldado treinado, alguém com todos os meios pra ferir pessoas e, acima disso, ele estava carregando um manto que não lhe pertencia.
Um legado que agora estava manchado de sangue...
— Vocês têm que pegar o escudo de volta. — Makayla declarou com um longo suspirar.
Sabia muito bem que aquilo era a pior coisa que poderiam fazer por John naquele momento, porém era a coisa certa, tinha que ser feito antes que a situação se tornasse ainda pior. Mesmo porque, ele não ficaria com aquele escudo por muito mais tempo, isso era bem evidente.
— Bucky sugeriu isso faz tempo... — Sam respondeu, passando a mão no rosto em frustração. — Antes do John ter o soro, antes de tudo isso dar errado.
Makayla franziu as sobrancelhas. John tinha o soro? Ela não sabia como, porém aquilo tornava tudo ainda pior... Um supersoldado transtornado com um escudo de vibranium podia causar um estrago irreversível.
— Não podemos simplesmente pegar de volta sem criar um problema com o governo... — Bucky comentou e pelo olhar que trocou com Sam aquela parecia uma conversa que os dois já haviam tido.
Makayla conseguiu perceber que ambos estavam vendo pelo ponto de vista um do outro, o que provavelmente era um passo importante na parceria deles. Sam finalmente entendia porque era preciso pegar o escudo e Bucky compreendia quais seriam os efeitos colaterais com o governo...
A jovem, no entanto, enxergava as coisas por um ponto de vista que os rapazes ainda não haviam cogitado. Eles com certeza não eram mais os únicos que queriam o escudo de volta, bem longe das mãos de Walker.
— O CRG vai estar aqui em instantes. Eles vão interceptar John cedo ou tarde e recuperar o escudo. Um evento público como esse não vai ser bem visto. Não como foi. Eles até vão acobertar para o público dizendo que Nico era um terrorista... — Ela explicou tentando ser o mais prática possível no meio de todo aquele caos. Ser útil a mantinha ocupada e longe da dor. — Mas a “assuntos internos” não vai deixar John manter o manto oficialmente. Ele vai ser exonerado, vão fazer parecer amigável, mas isso vai ser só um jeito bonitinho de dizer as coisas.
Não era difícil prever o tipo de protocolos que seriam implementados naquela situação, o governo era previsível e, querendo ou não, o CRG era apenas uma extensão do governo...
— Eles vão pegar o escudo de volta, porque é uma arma de um material muito raro. — Makayla continuou, mostrando os motivos pelos quais eles tinham que encontrar Walker primeiro. — E vai ser questão de tempo até darem a outra pessoa. Outro soldado que não vai aguentar a pressão.
— Vamos ter que derrubar o John pra pegar então... — Sam declarou decidido, mas em seu tom de voz era notável o desconforto que aquele conflito causava.
Wilson não era o tipo de homem que gostava de brigas, embora fosse evidente que ele sabia muito bem como ganhar uma. Talvez fosse exatamente isso que fizesse dele um herói.
— E vamos ter que criar uma guerra com o governo no processo. — Bucky completou, se colocando de pé tão decidido quanto Sam, mesmo que seu suspiro profundo deixasse claro o peso que aquela palavra tinha.
Estava bem claro que um confronto futuro com o governo era uma questão mais preocupante que a luta eminente com John. Porém Makayla estava ciente de pormenores sobre o Tratado de Sokovia, que pelo visto Sam e Bucky desconheciam.
— Não vai ser uma guerra. — Ela retrucou de forma prática e pousou os olhos em Barnes. — Eles querem que pensem assim, mas é mentira. O escudo não pertence a eles, nunca pertenceu. Por isso ficaram atrás do Sam por seis meses. — Focou em Wilson então. — Por isso te fizeram entregar de forma amigável.
— Mas tem aquela porcaria de Tratado quilométrico que eles fizeram a gente assinar. — Sam argumentou e Bucky concordou com um movimento de cabeça.
— O escudo, assim como as armaduras de Tony Stark, é propriedade privada, mesmo com o Tratado de Sokovia. — Makayla respondeu, vendo que nenhum dos dois tinha noção dos pequenos detalhes escondidos naquele documento.
Stark não havia contado a nenhum dos Vingadores o que tinha feito?
— Não era assim no começo, a versão do Tratado que foi apresentada de início era mais rígida, porém o Homem de Ferro não aceitou essa versão, ele pediu para os advogados dele fazerem algumas modificações antes que ele assinasse. — Makayla explicou, vendo as sobrancelhas de Sam se franzirem em surpresa.
Eles realmente não sabiam...
— Stark negou a primeira versão do Tratado. — A jovem revelou. — Ele apresentou uma bem mais branda na contra proposta... Branda demais até.... Os Governos não aceitaram. Mas acho que ele previa isso, poque eram modificações grandes demais, irrisórias até, acho que ele fez de propósito.
— Como assim? — Wilson questionou confuso.
— Foi como um show de mágicas, você atraí a atenção do público para essa grande coisa acontecendo aqui... — Makayla mostrou a mão direita. — Quando na verdade a “mágica” acontece aqui. — Ela mudou para a mão esquerda. — Stark fez modificações enormes, para que as pequenas não fossem notadas logo de cara. Ele abriu brechas por todo o Tratado, como quem deixa portas de acesso em um código de programação. Pequenas palavras que não parecem uma ameaça, preposições no lugar certo, frases ambíguas. Sozinhas não pareciam nada, juntas criaram uma área cinza no Tratado de Sokovia, uma área que só foi descoberta bem depois. E eu lembro disso porque minha mãe ficou bem puta quando percebeu.
Makayla conseguia se lembrar do dia, Natasha Romanoff estava foragida e Steve havia invadido a Balsa e tirado os Vingadores prisioneiros de lá, então desapareceu no ar. Uma força tarefa foi mandada até a base dos heróis para investigar e, embora Stark aparentemente não tivesse nada a ver com nenhum daqueles dois eventos, ele meio que foi culpabilizado por isso também e decidiram confiscar as armaduras do Homem de Ferro e qualquer outro item categorizado como arma, sob o pretexto de que, se houvesse uma ameaça, Tony as receberia de volta. É claro que tudo aquilo era conversa, na verdade Emma queria retaliação e mandou Ross como seu porta-voz. Foi a primeira vez que eles perceberam que haviam brechas no Tratado.
Brechas que Tony usou para manter suas armaduras e todo o equipamento da base, além de, é claro, impedir que Visão se tornasse um rato de laboratório nas mãos do Governo. Essas brechas também ajudaram Clint Barton e Scott Lang a firmar acordos para voltarem para suas famílias...
Emma ficou histérica, Makayla se lembrava de ter pensado o quão genial Tony Stark era. Mas ela nunca desconfiou que nenhum dos outros Vingadores sabia dessas brechas.
— Mas foi o próprio Tony que sugeriu que a gente assinasse o acordo... — Sam estava claramente confuso.
— Certamente porque ele sabia que haviam brechas que vocês poderiam usar. Ele criou essas áreas cinzas por todo o acordo, saídas estratégicas. — Makayla encolheu os ombros enquanto explicava. — Parecia que ele estava cedendo, mas na verdade havia um seguro, sempre houve.
Tony nunca havia deixado de cuidar dos Vingadores, ele nunca abandonou seu propósito de proteger o mundo, essa era a percepção que Makayla sempre teve dele. E essa era uma opinião própria e isolada, porque sua mãe odiava Tony Stark e seu pai não era um grande apoiador também, principalmente na época do Tratado.
O bilionário era sinônimo de polemica, no podcast de Danniel, Tony era chamado de Judas. A opinião popular massacrou Stark. Nas ruas as pessoas se dividiam em lados. Porém, na verdade o objetivo do Homem de Ferro permaneceu o mesmo por toda a sua vida: Proteger os Vingadores para que juntos eles protegessem a Terra.
E esse propósito ficou escondido nas entrelinhas do Tratado de Sokovia, mesmo depois da morte do herói...
Afinal ele era Tony Stark, já havia peitado o congresso antes, não era de se espantar que faria de novo, mesmo que parecesse cooperativo à primeira vista. Orgulhoso, certamente, cabeça dura talvez, mas ingênuo a ponto de confiar no governo? Jamais.
— Mas ele não disse isso pra ninguém. — Wilson começou a ficar um tanto indignado.
— Talvez ele não tenha tido tempo ou oportunidade... — Bucky argumentou, depois de ficar pensativo por alguns instantes. — Steve me contou que ele e Stark nunca conversaram realmente sobre esse Tratado. Peggie faleceu, eu apareci, tudo ao mesmo tempo. Steve nunca teve tempo para ouvir o que Tony realmente tinha a dizer... E depois os dois nunca mais se viram até Thanos, e nessa época haviam coisas mais importantes, então...
— E, se pararmos para pensar, nenhum dos fundadores ficou do lado dele no final. Então pra quem ele contaria? — Makayla completou de forma simples.
Sam respirou fundo e assentiu algumas vezes, concordando finalmente:
— Tem razão, Thor e Hulk estavam longe, Clint sempre esteve ao lado do Steve e a Nat mudou de lado. Tony não teve contato com nenhum dos fundadores depois de tudo, além disso os outros também não eram boas opções pra contar algo assim... T’challa era um aliado de ocasião; o Homem-Aranha um garoto; Visão que era o mais confiável estava balançado por causa da Wanda; e Rhodes, o melhor amigo, estava lidando com as coisas da coluna...
— E depois da divisão talvez não importasse mais. — Bucky completou e ambos os homens trocaram um olhar pesado.
Talvez aquela verdade sobre Tony tivesse ainda mais significado, já que o herói havia se sacrificado pela humanidade...
— Enfim... — Makayla retomou, arrumando um pouco a postura e voltando ao assunto principal. — O governo age como se estivesse no controle, mas, como tudo na vida política, isso é mentira. — Seus olhos azuis cinzentos pousaram em Sam. — Se você pegar o escudo de volta, não há nada que o governo possa fazer sobre isso. eles teriam que criar uma guerra contra você. Mas não vão fazer isso, nesse ponto, depois de Thanos algo assim seria ruim pra imagem.
Wilson e Barnes trocaram um olhar significativo e então assentiram um para o outro. Ambos sabiam o que precisava ser feito.
— Vocês precisam ir. — Makayla declarou por fim. — Antes que o John machuque mais alguém.
Outro olhar trocado entre os dois homens, Sam assentiu com um longo suspiro, se despedindo de Makayla e dando um pouco de privacidade ao casal.
— Eu não queria te deixar agora... — Bucky pousou a mão direita no rosto da jovem.
— Mas o Sam precisa de você, e se o John tomou mesmo o soro, então... Você tem que estar lá. — Makayla devolveu, apoiando sua mão sobre a masculina.
— Você também precisa de mim. — Ele retrucou, envolvendo os dedos dela e os levando até os lábios de forma terna.
Makayla não queria ficar sozinha naquele instante, é claro que não, porém sabia muito bem que ter Bucky ali a seu lado, segurando sua mão e lhe confortando, enquanto Sam lutava contra Walker, não era justo ou certo. Era egoísta até. Gente demais já havia morrido naquele dia...
— E eu vou estar esperando você voltar. — Ela garantiu, se apoiando na ponta dos pés para que seus lábios se tocassem rapidamente.
Barnes assentiu por fim, tirando do bolso o próprio celular e o entregando a Makayla, então focou seus olhos na jovem por mais um instante antes de dar alguns passos para trás.
— Liga para o Sam se precisar de alguma coisa. — Ordenou, fazendo com que Makayla concordasse.
— Bucky? — Ela chamou antes que ele se afastasse mais. — Eu sei que está com raiva, mas não machuca muito o Walker, já está doendo o bastante.
Perder Lemar já era apanhar o bastante da vida, e Makayla sabia disso melhor do que qualquer um.
— Eu vou tentar. — Barnes garantiu antes de dar as costas.
Logo nem ele e nem Sam estavam mais no campo de visão de Makayla, ela estava sozinha novamente, e esse sentimento tão familiar era nada reconfortante...
Não demorou muito para que fosse encaminhada ao hospital mais próximo e, embora não se sentisse mal para além da falta de ar passageira que teve por causa dos gases, sabia que era onde o corpo de Lemar ficaria até que todos os tramites para liberação fossem feitos, por isso fez mesmo questão de ir junto.
Ainda estava mergulhada em toda aquela maldita burocracia quando os primeiros representantes do CRG começaram a chegar e assumiram tudo, primeiro a colocaram em um quarto privativo, depois a encheram de perguntas sobre Walker, Sam e Bucky e sobre tudo o que havia acontecido. Makayla retratou o ocorrido da melhor forma que podia, omitindo a busca por John para que isso desse tempo o bastante para Barnes e Wilson resolverem tudo.
Depois disso foi deixada sozinha, ou melhor, isolada. A imprensa estava por toda a parte e é claro que o CRG não permitiria que a filha de sua diretora fosse vista bem no centro de toda aquela confusão.
Makayla respirou fundo, em outra ocasião provavelmente ligaria para a mãe, porém tudo que Lemar havia revelado ainda rondava sua cabeça e a última coisa que ela queria era ter que lidar com Emma Kennedy naquele momento.
Não confiava mais na própria mãe...
Sentada na maca ela abraçou os próprios joelhos, exausta de todas formas possíveis, sentia que se parasse um instante sequer para se permitir chorar nunca mais pararia. Sua cabeça rondava os acontecimentos do dia, a culpa lhe invadindo como um vírus invade um computador. Se não estivesse ali, o destino de Lemar e Nico teria sido outro?
E se sugerir que Sam e Bucky fossem atrás de John apenas aumentasse a pilha de corpos?
Essas perguntas assustadoras rondavam sua cabeça quando a porta do quarto se abriu.
— Com licença. — Um homem, trajando um jaleco de médico, pediu antes de entrar.
Makayla o observou por um segundo, tinha um sorriso reconfortante nos lábios enquanto se aproximava. Não era muito alto, branco e já passando da meia idade, seu cabelo grisalho estava alinhado para trás o que só evidenciava duas grandes entradas de calvície na testa. Tinha olhos levemente arregalados que pareciam ainda mais redondos atrás dos pequenos óculos com o mesmo formato.
Ele puxou uma cadeira e começou a fazer algumas perguntas típicas de médico, enquanto analisava o rosto de Makayla com cuidado e curiosidade, como se ela fosse uma antiga conhecida. Dada a forma como ele puxou uma bandeja de instrumentos e alcançou algodão e uma solução liquida, pedindo licença antes de passar aquilo na bochecha da jovem, ela presumiu que ainda estava suja de sangue.
O médico comentou algo sobre não ser um ferimento e Makayla focou os olhos em seu jaleco, onde podia ser lido “Dr. Adrians Ozola”. Ela franziu as sobrancelhas com aquele detalhe, o nome era típico daquele país, mas nada na fisionomia ou na voz do homem o faziam parecer um nativo da Letônia.
— Você não parece de Riga... — Ela comentou casualmente. — Nem tem sotaque.
Ele olhou para ela em silêncio por meio segundo, algo em seus olhos brilhou de forma estranha, como se aquele traço claro de inteligência na jovem fosse algo que ele admirava. Então acabou por rir.
— Vivi muito tempo nos Estados Unidos pra estudar, perdi o sotaque. — Moveu os ombros em displicência. — O braço, por favor.
Makayla observou o homem alcançar uma seringa com uma agulha imensa, instrumentação típica de retirar sangue.
— Algum problema? — Ela questionou sem entender o motivo daquele procedimento. — Nada aconteceu comigo, um exame de sangue não é exagero?
Outro meio segundo antes que o médico sorrisse daquele jeito típico.
— Eu também acho, tem muito mais gente por aí precisando de mim, mas aparentemente você é importante o bastante para pedirem exames completos. — Ele novamente moveu os ombros de forma displicente.
— Pedirem? — Makayla repetiu desconfiada.
— Esse tal de CRG. — O médico moveu a mão no ar e fez uma expressão de desgosto.
Makayla respirou fundo, assentindo finalmente, é claro que o Conselho de Repatriação seria altamente cuidadoso com ela. Era a filha da diretora afinal.
— Claro... — Respondeu, puxando um pouco a blusa para que o homem tivesse acesso a sua veia. — Desculpe por isso.
— Eles mandam e eu obedeço. — Foi tudo que o médico disse.
Makayla notou que o homem reparou nos hematomas em seu braço, passou sobre eles um olhar clinico, mas nada disse sobre isso, apenas fez seu trabalho em silêncio, se colocando de pé pouco depois com um sorriso nos lábios e com a amostra de sangue em mãos.
— Prontinho, Makayla. — Ele focou os olhos redondos nela por um instante e ajeitou os óculos. — Nos vemos em breve.
Saiu logo em seguida, deixando a jovem com as sobrancelhas franzidas sozinha no quarto. Ela não se lembrava de ter tido seu nome ao médico... Bom, talvez ele tivesse visto isso nos arquivos do hospital.
Não era grande coisa...
Ela voltou a abraçar os joelhos, apoiando a cabeça ali quando puxou as pernas para mais perto do corpo. Estava cansada, exausta na verdade, era como se toda a energia de seu corpo tivesse se esvaído de si. Sua mente se dividia entre tudo aquilo que Lemar havia dito; então partia para a falta massacrante dele; passava por todas as coisas que Makayla podia ter feito naquele dia para mudar o final das coisas; mergulhava na culpa torturante; e culminava na preocupação angustiante por Bucky e Sam ainda não terem voltado, na verdade estava preocupada até mesmo com Walker naquele momento.
Tinha a sensação de que tudo de sólido ao seu redor estava desabando, era como se não tivesse um único pingo de controle sobre a própria vida. Parecia que tudo que a cercava estava sempre destinado a acabar em tragédia.
Olhando a gaveta de instrumentos em um canto do quarto Makayla conseguia pensar em todas as formas de morrer dentro daquele hospital e, por um instante, ela desejou não ter feito aquela promessa a Bucky Barnes...
Antes não tinha nada a se apegar, antes sua morte seria apenas um evento triste e passageiro na vida daqueles que a conheciam, mas depois de Bucky qualquer decisão definitiva que tomasse sobre a própria vida seria uma facada direta no coração dele. Makayla sabia disso com uma certeza profunda e irrefutável.
E não queria machucar ou magoar aquele homem, essa era a única coisa que ainda sabia ser verdade dentro dela...
Não queria chorar, mas o que mais havia para fazer naquele lugar fúnebre? Deixou que as lágrimas rolassem então, por Lemar; por Nico; por ela mesma; pelos dias no laboratório; por cada agulha que havia afundado em sua pele; pelos sequestros relâmpagos; pelos poderes ganhos; por ter perdido os mesmos poderes; pela história que havia descoberto sobre Emma; pela tragédia na vida do irmão; pela saudade do pai; por nunca ter conhecido a mãe; por ter perdido todos os amigos; por Bucky e todo o terror, tortura, gelo e sangue na vida dele; por Sam e a injustiça que haviam feito com ele; e até por John Walker, que tinha ficado sem o melhor amigo e havia perdido totalmente o rumo e a sanidade...
Havia tanta dor e tragédia que, no fim, Makayla já nem tinha tanta certeza do verdadeiro motivo de estar chorando daquele jeito compulsivo, era como se houvesse muito mais peso do que ela podia aguentar em suas costas.
Se pudesse cavar um buraco no chão e desaparecer totalmente faria isso, porém, se fosse honesta, estava tão exausta que talvez sequer tivesse forças para segurar a pá...
Não soube bem quando dormiu e se dormiu de fato ou apenas fechou os olhos por um instante, mas duas batidas suaves na porta a fizeram erguer a cabeça.
— Entra. — Declarou em bom som depois de limpar o rosto às pressas, e logo viu a maçaneta se mover e um rosto conhecido surgir.
— Quando disse que nos veríamos em breve não imaginei que seria tão longe de casa... — Jackson Brooks deu um passo para dentro do quarto e fechou a porta atrás de si.
— Doc? O que você está fazendo aqui? — Makayla questionou surpresa, se arrumando na maca e limpando o rosto outra vez.
— Tomei a liberdade de me colocar como seu contato médico de emergência depois do seu primeiro incidente lá nem Nova York. — O terapeuta explicou de forma simples. — Sou a primeira pessoa pra quem eles enviam mensagem quando puxam seus dados no sistema.
— E voou até aqui só por isso? — Makayla perguntou, dando-se conta que havia dormido mais do que imaginava. Será que Sam e Bucky já haviam chegado? — Não está levando esse trabalho muito a sério?
Brooks respirou fundo e se aproximou alguns passos, tomando a liberdade de se sentar ao lado da jovem na maca.
— Eu soube o que aconteceu. Sinto muito de verdade, Makayla. Achei que precisaria de suporte. — Pousou a mão sobre o ombro dela de forma reconfortante. — Estou aqui pra ajudar.
— Agradeço por isso, mas te avisei, Doc... Todo mundo ao meu redor morre. Sou amaldiçoada. — Ela tentou rir da própria piada mórbida, mas não funcionou muito bem. — Talvez eu precise da ajuda de um bruxo, não de um psicólogo. Você é um bruxo por acaso?
— Não que eu saiba... — Jackson Brooks chegou a rir, mas não havia humor em seu gesto. Seus olhos gentis pousaram sobre Makayla por alguns instantes e sua postura ficou mais séria. —Olha, às vezes coisas horríveis acontecem com pessoas muito boas, e pra ser honesto eu não tenho uma resposta ou solução mágica para lidar com isso. Não podemos controlar tudo ao nosso redor, a vida é imprevisível, mas podemos aprender a lidar melhor com o impacto que essas coisas imprevisíveis tem sobre nós. A dor não tem que ser mais destrutiva do que o necessário.
— Palavras bonitas, mas honestamente não significam nada pra mim. — A jovem deu um sorriso triste, seus pulmões se encheram de ar para então se esvaziarem de uma só vez. — Estou cansada, Doc. Mais cansada do que já estive em qualquer outro momento da minha vida. E eu fiz uma promessa, mas está tão difícil mantê-la...
Brooks a analisou por um longo momento e, por um instante, mesmo que Makayla nada houvesse dito com palavras diretas, ela acreditou que ele realmente havia entendido o significado de tudo.
— Sabe, Makayla, acho que seria benéfico para você passar um tempo longe de tudo isso... — Ele sugeriu com seu tom pacífico, mas era possível sentir a preocupação genuína por trás de cada palavra.
— Deixa eu adivinhar, no seu manicômio particular? — Ela forçou um pouco de humor na voz, como se esse pequeno traço de personalidade quase irônico fosse uma fuga da dor que lhe massacrava o peito. — Não, muito obrigada, já estive em um manicômio hoje, não quero repetir a dose.
— Não é um manicômio, é mais um centro de reabilitação. — O terapeuta explicou, usando o mesmo tom bem humorado que a jovem. — Espaço aberto, muito verde, nada de quartos brancos, apenas uma casa grande com muitos jovens em terapias conjuntas e sessões particulares diárias. Não indicamos medicamentos controlados a menos que seja estritamente necessário, e quase nunca é. A única coisa é que, não permitimos visitas ou tecnologia no tempo de estádia.
— Tipo aqueles spas para viciados em álcool ou sexo? — Makayla forçou uma risada.
Brooks moveu a cabeça de um lado para o outro e comprimiu os lábios como quem diz “mais ou menos”.
Por um instante Makayla se imaginou em um lugar longe de tudo, focando apenas em resolver aquilo que parecia amontoado dentro de si. Estava acostumada a fugir quando tudo desmoronava, mas sua fuga nunca foi apenas física, era também emocional e mental, se jogava de cabeça em situações que a faziam esquecer da dor, dos problemas e das tragédias, nunca tinha dado uma pausa do mundo para na verdade se encontrar com todas essas tais coisas enterradas e mal resolvidas. Nunca tinha enfrentado aquilo sem distrações, de frente, de modo consciente, na esperança de tratar os ferimentos que sangravam por dentro, sempre foi mais sobre ignora-los até que sumissem sozinhos.
Mas esses ferimentos nunca sumiram.
Eles ficaram lá, mal cicatrizados, cobertos por uma casca frágil que se abria e sangrava a cada pequeno gatilho, E no fim cada evento trágico se tornava então uma nova hemorragia, cada vez pior. Deixando Makayla gradativamente mais destruída, enquanto ela rezava para que fosse a última vez, seja porque as tragedias cessariam ou porque a tal hemorragia interna e simbólica finalmente lhe tirasse a vida.
Porém ela continuava a sobreviver, as tragédias continuavam a vir e os ferimentos continuavam a amontoar dentro de si. E, naquele ponto, quando Makayla olhava para trás, ela já não se lembrava mais de quem era sem todo o peso dos cortes mal cicatrizados...
O trauma havia se acumulado nela, como mofo que se infiltra em uma parede, penetrando em suas entranhas, modificando sua cor verdadeira, e por mais que ela tentasse esconder tudo com novas camadas de tinta fresca, o mofo continuava lá, prejudicando suas estruturas, corroendo por dentro...
Makayla não sabia se havia alguma parte de sua personalidade que não tivesse se moldado a mercê dos traumas que ela escondia dentro de si...
Então, por um instante, soou realmente tentador fugir do mundo para, pela primeira vez, realmente lidar com tudo isso. Seria como interditar uma casa para obras, tirar todos os moveis, fazer uma boa limpeza, raspar todas as paredes, tirar a tinta acumulada e finalmente lidar com o mofo, tratá-lo de forma apropriada, reparar as estruturas, para só então abrir aquela casa para circulação outra vez. Soava realmente tentador e até esperançoso...
Porém Makayla sabia que era a proprietária de uma casa que não estava mais vazia, ela tinha deixado alguém entrar em seu coração e, como dizia aquele escritor famoso de um livro infantil: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”... Sendo assim, ela sabia muito bem o quanto custaria tirar o teto daquele que havia cativado.
Não se abandona alguém cujo coração já está partido por outro abandono.
— 'Tô fora. — Ela riu ao dispensar a ideia, porém focou em Brooks de forma mais séria, seus dedos brincando distraidamente com as plaquetas de identificação penduradas em seu próprio pescoço. — Não posso. Tem alguém que não é certo simplesmente abandonar agora, não quero fazer isso com ele e não vou fazer. Ele já teve abandono o bastante na vida. Não posso magoá-lo assim.
O terapeuta a encarou por alguns instantes em completo silêncio, antes de assentir e perguntar:
— Devo supor que esse seja aquele seu amigo que você quer ajudar?
— Talvez... — Makayla escolheu dar uma resposta vaga.
— Já pensou que você não pode ajudar ninguém, se não ajudar a si mesma primeiro? — Brooks retrucou, mas seu tom ainda era pacifico e afável.
— Disse que podia me ajudar de outras formas. — A jovem rebateu com um mover casual de ombros. — E eu ainda quero ajuda...
— Sim, eu disse. — Ele concordou de pronto. — E nós vamos trabalhar nisso. Mas estar em um ambiente controlado seria mais eficiente e mais rápido, seria melhor pra você, principalmente agora.
Makayla moveu a cabeça para cima e para baixo algumas vezes ilustrando que havia entendido, mesmo assim permanecia irredutível.
— Eu não vou deixá-lo, Doc. — Ela declarou de forma direta. — Eu entendo que está na hora de realmente lidar com tudo isso do qual eu fugi a minha vida toda, mas vamos ter que equilibrar essa reforma sem incomodar o inquilino que já está aqui dentro. — Apontou o próprio peito.
Brooks franziu as sobrancelhas para a curiosa metáfora, mas por fim concordou.
— Tudo bem, vamos pensar em outra coisa. — Garantiu, pousando a mão no ombro da jovem. — Não se preocupe com isso, vamos fazer do seu jeito.
Makayla assentiu devagar, estava prestes a murmurar um agradecimento aliviado quando a porta se abriu em um rompante e uma figura muito bem vestida, com os cabelos grisalhos perfeitamente lisos, entrou no quarto com passos duros e o semblante severo.
Emma Kennedy...
Por um instante Makayla foi invadida por um repentino sentimento de conforto, aquele mesmo que uma criança muito pequena tem quando está caída no chão do parqunho com o joelho ensanguentado e vê a mãe se aproximar correndo.
Porque é assim que as crianças tem se sentir perto de suas mães, amparadas, seguras, protegidas...
Porém, ao olhar nos olhos de Emma, Makayla se lembrou de tudo que tinha vivido nos últimos dias, de tudo que tinha ouvido e, pela primeira vez, ela viu aquilo que se recusou a ver sua vida toda... Emma Kennedy não era sua mãe, e isso nada tinha a ver com o vínculo sanguíneo que elas não compartilhavam, porque famílias não dependiam de sangue, elas dependiam de amor, preocupação, carinho... três sentimentos inexistentes naqueles olhos frívolos.
Em resumo era bem simples até: Emma Kennedy não era a mãe de Makayla, porque não queria nem nunca quis ser.
A diretora do CRG olhou da jovem para o doutor por um instante, atrás dela, parado na porta Feltz observava tudo com seu semblante apático de sempre.
— Quero ficar sozinha com ela. — Emma apontou para Brooks em uma ordem dura. Nenhuma palavra de agradecimento, conforto ou no mínimo respeito, ela apenas se virou para Feltz em seguida e completou: — Saiam todos vocês.
O terapeuta se colocou de pé, mas não se moveu em direção a porta.
— Senhora Kennedy, eu não acho que... — Ele tentou argumentar, porém foi rudemente cortado.
— Eu te mandei sair! — Suas palavras secas vieram acompanhadas de um sorriso nada honesto. — Por favor.
— Vamos doutor... — Feltz fez um gesto com a mão para incentivar Jackson Brooks.
Makayla apenas assentiu para seu médico e murmurou que estava bem, agradecendo da forma mais honesta que podia, ele não tinha que ficar ali sendo tratado daquela forma tão desrespeitoso.
Enquanto o terapeuta caminhava para a porta, a jovem se perguntava como tinha sido tão cega por toda a vida, a simples forma como Emma Kennedy tratava seus subordinados e todos a volta dela que eram de prestadores de serviço direta ou indiretamente dizia muito sobre ela...
Danniel Kennedy sempre tinha ensinado a filha que a forma como as pessoas tratam aqueles considerados em degraus mais baixos da sociedade revelava a índole delas. Se alguém não é capaz de ser educado com o garçom, o porteiro, a vendedora de roupas e sapatos ou a diarista, então não é uma pessoa educada de verdade. Uma boa pessoa não considera ninguém inferior ou menos digno de respeito...
E Makayla tinha falhado em identificar todos esses sinais na mulher que a criou. Aos seus olhos Emma sempre foi perfeita. O título “mãe” a havia colocado acima de qualquer suspeita. Todavia nenhum título jamais seria capaz de transformar uma pessoa de caráter duvidoso em uma boa pessoa.
— Sério?! — A acusação foi a primeira coisa na voz da Diretora Kennedy, assim que a porta se fechou. — Se metendo em assuntos oficiais do CRG agora? O que você está fazendo aqui, Kayla? Você devia estar em uma daquelas estúpidas viagens de serviço voluntário. Você mentiu pra mim.
Makayla respirou fundo, um sorriso quase cínico surgindo em seus lábios.
— Acho que é de família, não é? — Encolheu os ombros com desdém.
— Do que você está falando? — A postura politica treinada de Emma sequer se moveu, mas alguém que a conhecia por toda a vida veria que seus olhos vacilaram.
— Lemar me contou toda a verdade. — Makayla rebateu, se colocando de pé.
— Que verdade? — As sobrancelhas da mais velha se franziram por um instante.
— Sobre você ter impedido ele de ficar com o Cam. — A acusação da jovem veio carregada de revolta, no entanto suas palavras causaram um tipo de reação estranha em Emma Kennedy...
Por um microssegundo ela pareceu aliviada...?
— Ah, pelo amor de Deus! — Moveu a mão no ar com desdém e, talvez, se Makayla não estivesse tão perturbada por tudo que tinha acontecido e tão nervosa com aquele conforto iminente, ela tivesse prestado um pouco mais de atenção para essa reação pouco proporcional.
Quase como se, de todos os segredos que aquela mulher escondia, aquele fosse o que ela considerava menos importante...
— Impressionante como você está sempre manipulando as pessoas ao seu redor... — Outra acusação de Makayla foi jogada no ar, ela sentia que podia explodir de raiva, decepção, revolta e outras dez emoções diferentes que não conseguiria expressar ou nomear naquele momento.
— Manipulando? — Emma repetiu, com uma risada irônica presa no fundo da garganta. — Dizer a verdade é manipular agora? Eu apenas fui honesta com ele, protegendo os interesses do meu filho.
Foi ainda mais ultrajante para Makayla que a mulher sequer tentou negar, na verdade ela era incapaz de ver o próprio erro... Como isso era possível?
— Os interesses do seu filho? Pelo amor de Deus, só pode ser brincadeira! — A jovem gesticulou de forma enérgica. — O único interesse do seu filho era ficar com o homem que ele amava.
— Amor? Essa é a sua indignação? Cresce, Kayla! Amor é pra crianças! — Emma rebateu de forma dura e levemente debochada. — Soldados vivem aventuras estúpidas na solidão da guerra o tempo todo. Aquilo não era amor, era só coisa de momento. Eu só abri os olhos do Hoskins para que acabasse antes que isso prejudicasse o seu irmão. Aliás, eu ajudei até o Lemar também, aquele garoto jogaria a própria carreira promissora no lixo pra assumir essa aventura.
— Você é impressionante... A pior parte é que, antigamente eu acreditaria nas suas palavras bonitas... — A mais nova moveu a cabeça de um lado para o outro de forma decepcionada, então deu um passo decidido na direção da mais velha. — Cam e Lemar não eram uma aventura de guerra, eles se amavam, e mesmo que fossem apenas algo passageiro, mesmo que o relacionamento deles nunca fosse durar mais que uma semana, eles tinham o direito de viver isso. Eles tinham o direito de decidir se diriam para o mundo a verdade deles, mesmo que isso custasse uma carreira e alguns amigos. A escolha era deles, não sua.
Emma respirou fundo, sua postura ainda ereta, mas seus olhos denunciando sua irritação crescente com aquela conversa.
— Acha que eu queria ver o meu filho na boca do povo por causa de uma... — Ela não terminou a frase, primeiro porque pareceu não encontrar a palavra adequada para isso e depois porque Makayla não permitiu.
— Porque ele era gay. — A jovem declarou de forma direta. — Você pode dizer isso em voz alta, sabia? Cameron não tinha medo de dizer. Ele amava outro homem e mesmo que o relacionamento com o Lemar acabasse um dia, ele continuaria gostando de homens, porque era quem ele era. Não era uma fase, não era coisa de guerra. — Ela parou por um instante e enfrentou Emma com o olhar. — Seu filho era gay e você não aguentava isso, não é? Você pelo menos pensou no bem dele em algum momento, ou só no impacto que uma noticia dessas teria na sua carreira política?
Como era possível que tivesse ignorado esse lado preconceituoso, manipulador e egocêntrico da própria mãe por tanto tempo?
— Você não sabe o que você está falando. — A Diretora Kennedy rebateu com sua postura ereta e fala polida, quase como se estivesse debatendo com um oponente em campanha. — A opção sexual do seu irmão não fazia a menor dif... — Ela não teve chance de terminar, Makayla a cortou abruptamente...
— Orientação. — A correção foi seca. — O certo é orientação, porque não é uma escolha, não é uma “opção”. Sua equipe de relações públicas nunca se preocupou em te ensinar isso pra você fazer bonito na frente nas câmeras?
Emma respirou fundo, seu olhar dizendo muito mais que sua postura.
— Você está sendo injusta, Makayla Devinne, sabe muito bem que eu não ligo pra — ela fez aspas com os dedos — “orientação” sexual de ninguém, eu até...
— Tem vários amigos gays? — Makayla completou de forma cínica, no limite para o deboche. — É, eu sei, é isso que todo homofóbico diz. Que engraçado, não é?
— Não diga bobagens, você sabe muito bem que eu amava o Cameron. — A impaciência de Emma começou a transbordar por suas palavras.
Makayla sentia a revolta consumir seu corpo de dentro pra fora, seu sangue fervia.
— Você amava a idealização que tinha dele dentro da sua cabeça. Podia até amar uma parte dele, mas se não aceitava quem ele era, então não o amava de verda... — A palavra ficou cortada no meio quando um tapa certeiro de Emma atingiu o rosto da jovem com um estralado agudo.
Os olhos azuis cinzentos de Makayla encaram a mãe em evidente surpresa, sua mão esquerda tocando a bochecha que ardia. Todo aquele tempo a mulher nunca havia agido com nenhuma violência física... Piscou algumas vezes, talvez tivesse ido longe demais, ou talvez aquela fosse quem Emma realmente era.
— Não ouse questionar meu amor pelo meu filho, sua fedelha! — A mulher tinha o dedo em riste e o tom quase descontrolado. — Eu amava meu filho mais que tudo! E eu tive que ver você e seus caprichos estúpidos e egocêntricos de garota mimada levarem ele direto para a morte!
Makayla deu um passo para trás, as palavras tão duras e cruéis sendo um golpe bem mais violento que o tapa de segundos antes. Seus olhos arderam, se enchendo de lágrimas, assim como o sangue rubro brota de um corte recém aberto.
— Se o Cameron não está aqui hoje comigo é por sua culpa! Porque você nunca foi capaz de aceitar um não como resposta de ninguém! Lembra da sua birrinha pra ficar em Nova York com ele naquele fim de semana? Aposto que foi a mesma que você fez pra levar o meu filho para aquela sorveteria estúpida naquele dia! Meu filho está morto por sua causa! Devia ter sido você! — A acusação tão clara e direta jogou Makayla de cabeça em todas as lembranças. — Você adora apontar o dedo, mas é incapaz de ver que ele está manchado com o sangue de tudo mundo que já ficou ao seu lado. Nunca parou pra pensar porquê as pessoas ao seu redor morrem? Acha que é só coincidência?
A jovem tentou conter as lágrimas, uma parte de si buscando argumentos para rebater cada palavra, no entanto e se Emma estivesse certa? Sim, ela era uma mulher horrível e manipuladora, mas os erros mudavam alguma coisa? Quer dizer, todas aquelas acusações, todas as palavras tão cruéis ditas daquela forma tão direta... Nada daquilo era muito diferente de tudo que Makayla já pensava sobre si mesma, na verdade, se fosse honesta, ela já havia dito coisas bem piores para seu reflexo no espelho...
— É sempre assim, alguém me liga e eu venho correndo pra encontrar os cadáveres que caem ao seu redor. E advinha só, aconteceu de novo, não é mesmo? — Emma soltou outra acusação. Mas era apenas outra que a própria jovem já havia feito a si mesma naquela última hora.
Porém, algo no fundo de sua mente fez questão de lembrar que, pelo menos daquela vez, ela havia avisado a diretora Kennedy sobre os efeitos colaterais...
— Não fui eu quem colocou aquele escudo nas mãos erradas. — Juntou toda força que ainda tinha para rebater.
No entanto aquelas palavras não tiveram impacto algum em Emma, pelo contrário, seus lábios se moveram minimamente, no esboço de um sorriso quase cruel.
— Mas você era a civil intrometida e inconsequente no meio de uma operação oficial do CRG, não é mesmo? — A Diretora Kennedy rebateu de forma superior. — Você enche tanto a boca pra falar do Lemar, mas aposto que ele está morto, porque entrou em confronto com a cabeça quente pensando na sua segurança.
Aquela acusação atingiu Makayla como um tiro certeiro no peito, ela sentiu que tudo estava lentamente desabando ao seu redor. E se Emma estivesse certa? Sua cabeça rodou, o peso da culpa oprimindo seus pulmões, fazendo com que o ar se tornasse rarefeito, quase como se ainda estivesse presa naquele mesmo cubículo de horas antes.
— E aliás, foi a morte do parceiro que levou Walker ao descontrole, pelo que foi apurado, sendo assim, pelo que eu posso ver, é você a raiz de todo o problema, de novo, certo? — Emma prosseguiu, fazendo com que as lembranças se amontoassem na cabeça de Makayla de uma só vez, um quebra-cabeças macabro onde a culpada era ela mesma. Sempre ela.
Suas pernas cederam, fazendo com que Makayla caísse sentada na maca atrás de si... Realmente estava na hora e lugar errado, de um jeito ou de outro, sempre estava.
— Honestamente... — Emma respirou fundo enquanto movia a cabeça de forma negativa, seu tom de voz mudando para algo mais brando. — Eu cancelei todos os meus compromissos e voei até aqui apenas pra te dar apoio, mesmo diante de toda a sua inconsequência e sou recebida com mais das suas acusações infundadas. O que tem acontecido com você, Kayla? Você não era assim... — Ela caminhou até a jovem e sentou-se ao lado dela, tocando-lhe os fios castanhos de forma terna, mesmo que o carinho parecesse mecânico e não transmitisse nenhum pouco daquilo que o tom indicava. — Poxa, eu sou a sua mãe, só quero o seu bem. Mas você me obriga a extremos pra conter essa sua instabilidade. Você está completamente descontrolada, Kayla.
A garota respirou fundo, seus pulmões pesando muito mais do que deveriam, no fundo ela só queria que tudo aquilo acabasse de uma vez. Uma lágrima pesada escorreu de seu rosto. E se Emma estivesse certa, e se ela estivesse completamente descontrolada?
Começou a duvidar de si mesma, da própria capacidade de interpretação das coisas, do discernimento, do senso de certo e errado... E se estivesse fazendo um julgamento precipitado da própria mãe? E se Emma realmente só estivesse querendo ajudar e houvesse errado de forma bem intencionada?
Sua mente entrou em duelo, as coisas que Emma fizera com Lemar, com Sam e com o próprio Cameron não pareciam apenas um erro bem intencionado, por outro lado Emma era mãe, e as mães sempre fazem o que é melhor e certo, não é? Era o que o mundo dizia...
Mesmo assim sua consciência continuava a acusar as coisas horríveis que aquela mulher havia feito. Uma pessoa boa de verdade não agiria daquele jeito...
Porém, quem era Makayla para julgar alguém bom de verdade? Ela tinha moral para isso? Sua vida era uma sucessão nada moderada de mentiras que magoavam quem ela amava e erros que acabavam por matar pessoas ao seu redor. Suas mãos estavam sujas de sangue inocente, tal qual as mãos de Emma Kennedy, não é?
Makayla estava confusa, estabelecer parâmetros de bom e mau, quando ela tinha uma tonelada de culpa nas costas e o outro lado da balança era a mulher que, para todos os efeitos, foi sua mãe por vinte anos, não era tão fácil assim.
Ela não queria pensar nisso. Não queria pensar em nada. Queria fechar os olhos e esquecer do mundo, nem que fosse por alguns minutos... Mas não havia pausa ou fuga na vida real.
Ainda calada, ela observou Emma se colocar de pé e caminhar até a porta, chamando por Feltz, logo o homem estava a postos e a ordem foi dada:
— Chame o Doutor Brooks.
Não demorou muito mais que alguns minutos para que o terapeuta entrasse no quarto, Feltz veio logo atrás, dando alguns passos para dentro, mas parando ali próximo a porta aberta.
— Está tudo bem, Makayla? — Foi a primeira coisa que perguntou, analisando a jovem com cautela.
Emma se colocou na linha de visão, com as mãos apoiadas em frente ao corpo de forma distinta.
— Acho que está na hora de encararmos a verdade, Doutor Brooks, minha filha não está mais em pleno domínio de suas faculdades. Ela sempre teve a mente extremamente frágil e acho que todos os acontecimentos desde o falecimento do pai dela foram demais para a pobrezinha. — Havia um tom maternal ali, mas não havia o calor reconfortante que as palavras de uma mãe deveriam carregar. — É hora de falarmos sobre a internação dela em um hospital psiquiátrico.
Makayla ergue o olhar, Brooks franziu as sobrancelhas.
— Uma clinica de reabilitação pra tratamento intensivo, você quer dizer, certo? — Ele corrigiu de forma profissional. — Eu tenho um projeto assim e comentei com a Makayla que talvez uma estadia de algumas semanas seria benéfica para ela, mas nós dois juntos concordamos que formas alternativas de tratamento são melhores por enquanto.
A jovem sorriu, era bom saber que apesar de tudo suas vontades seriam levadas em conta. Não soava ruim fazer o que Brooks sugeria, talvez Makayla até aceitasse alguns meses antes, quando seu coração não tinha vínculos inexplicáveis e tão fortes com um certo ex-sargento e herói em tempo integral.
Emma Kennedy, no entanto, não pareceu satisfeita com aquela resposta e retrucou:
— Não, eu falava sobre um hospital psiquiátrico de verdade, já ouvi falar de sua clínica, ela é mais um spa de luxo do que qualquer outra coisa, minha filha não precisa de algumas semanas de férias, ela precisa de uma infraestrutura profissional, com psiquiatras a disposição, onde ela possa ser medicada e melhor atendida de forma permanente.
Um arrepio gelado de mau-agouro correu o corpo de Makayla. Seus olhos encontraram os de Jackson Brooks e naquele instante ele já parecia entender plenamente o que a mente da jovem ainda estava apenas delineando de forma lenta.
— A senhora está descrevendo o que é vulgarmente conhecido como um manicômio... — havia uma crítica implícita no tom de voz do Doutor.
— Chame como preferir, não faz diferença desde que ela seja bem atendida, certo? — Emma tinha um tom prático e um sorriso cordial nos lábios. — Pode cuidar disso pra mim? Vou ficar mais tranquila sabendo que minha filha está segura sendo monitorada por uma equipe de bons profissionais o tempo todo. O governo tem ótimas instalações, sei que alguma delas vai ser apropriada.
Makayla franziu as sobrancelhas, dividida entre o choque e a confusão, porque enquanto falava parecia que Emma queria o bem da filha, porém o sentimento urgente no peito da garota indicava que aquilo era apenas uma forma de mantê-la sob controle absoluto. De prendê-la em algum lugar onde fosse fácil comprar funcionários que cumprissem apenas as ordens da Diretora do CRG...
— Senhora Kennedy, uma instituição dessa categoria é destinada a pacientes com distúrbios psiquiátricos severos que os impedem de conviver em sociedade ou que os tornam um risco para a própria segurança, esse está bem longe de ser o caso da Makayla. — O Doutor Brooks retrucou e apesar de seu tom profissional era possível sentir a indignação no fundo de sua voz. Ele não aprovava o que Emma estava fazendo. — Diferente do que a senhora falou, ela está em pleno controle de suas faculdades mentais, o que sua filha tem são traumas severos, muitos deles enraizados na infância, tudo isso tratável e que em nada afetam na capacidade dela de decidir por si mesma sobre a própria liberdade. Makayla é perfeitamente sã, ela não precisa de um hospital psiquiátrico.
Makayla respirou aliviada, um pouco agradecida até, sempre que estava com Emma era como se aos poucos afundasse em algo que nublava sua capacidade de raciocino. Talvez, lidar com a mãe fosse algo além de suas capacidades, isso porque os filhos eram instruídos a respeitar e acreditar nos pais, era uma vida toda aceitando que eles faziam e sabiam o que era melhor, isso era perpetuado desde o inicio dos tempos... Embora Makayla soubesse de forma consciente que ela e Emma não compartilhassem o mesmo sangue e que a mulher tinha uma índole questionável, além de ser altamente manipuladora, na prática não era tão fácil assim escapar da influência maternal que Emma Kennedy tinha sobre si.
Não era um botãozinho que simplesmente se desligava de uma hora para outra.
— Bom, eu sou a mãe dela, acho que sei muito bem o que é melhor para a minha filha. Uma pena que o senhor tenha feito seu trabalho tão parcamente que foi incapaz de notar que ela carece de supervisão e não tem mais saúde para decidir esse tipo de pormenor por si mesma. — A Diretora retrucou impaciente, mas mantendo o tom maternal na voz. — Mas não se preocupe, encontrarei um profissional mais competente. O senhor está demitido.
— Brooks é o meu médico, você não pode demiti-lo. — A jovem finalmente se colocou de pé.
Sim, era muito difícil enxergar todas as coisas ruins que Emma fazia consigo, algo dentro de Makayla ainda dizia em looping “mas ela é sua mãe, ela só quer seu melhor” como um mantra centenário que não pode ser desligado. Porém, quando se tratava daquilo que Emma Kennedy fazia com outras pessoas Makayla sabia muito bem o que era certo e errado.
Ela não podia tratar Brooks daquele jeito. Ela não podia tratar Lemar daquele jeito. Ela não podia tratar Sam daquele jeito.
Se a índole maternal de Emma era ambígua, a forma como ela tratava todas as outras pessoas não era. Makayla entendeu que as coisas que sabia de forma consciente eram mais do que o bastante para decidir que, — mãe ou não, última pessoa viva da família ou não, — Emma Kennedy não era alguém que ela queria em sua vida.
E, se não podia controlar seus sentimentos quanto àquela mulher então teria que ser muito mais firme em controlar suas ações...
— Minha filha... Emma se aproximou dela dois passos de forma carinhosa e com a fala mansa. — Eu sou a sua mãe, só quero o melhor para você e nós duas concordamos que você não está mais...
— Você não é minha mãe! — Makayla cortou de forma firme e dizer aquelas palavras em voz alta foi um tanto libertador. — Você é apenas a ex-mulher do meu pai, mãe do meu falecido irmão. Eu sou maior de idade e você não tem qualquer poder sobre mim. — Decretou erguendo a cabeça. — E você não vai me internar em lugar nenhum contra a minha vontade, nem demitir o meu médico. Fim.
Emma respirou fundo, sua postura se mantendo controlada e maternal até, seus olhos contando uma história muito diferente. Feltz ainda permanecia ali, cerca de cinco passos longe da porta aberta, do lado de dentro do quarto.
— Estão vendo, ela está falando uma sandice atrás da outra. — Emma gesticulou para todos ali, quase como se estivesse dando um discurso público, em seguida deu um passo na direção de Makayla. — Meu amor... Você vai ver que com o tratamento correto tudo isso vai passar. Vem comigo, vamos cuidar disso em casa.
A jovem se esquivou antes que pudesse ser tocada.
— Eu não vou com você pra lugar nenhum! — Declarou de cabeça erguida. — Nunca mais.
Emma encarou Makayla por alguns instantes, uma veia em sua testa estava mais evidente, sua raiva emanando dela como se pudesse ser tocada no ar, ainda assim um sorriso complacente se mantinha em seu rosto. De fato uma politica acostumada a manter as aparências a todo custo...
— Você vai sim, meu amor. — Ela foi ainda mais firme que a filha, movendo a mão no ar, sem de fato olhar naquela direção. — Feltz, por obséquio, chame o plantonista responsável, minha filha está muito nervosa e precisa ser sedada.
Naquele curto segundo Makayla questionou se os médicos daquele lugar realmente ignorariam suas próprias vontades e as recomendações do Doutor Brooks apenas para fazer o que Emma estava ordenando, e ela soube que sim, ninguém dentro daquele lugar se negaria a fazer o que a diretora do CRG estava dizendo, e mesmo que se negassem, ela com certeza arrumaria alguém que fizesse.
O que significa que não havia uma forma pacífica de acabar com aquilo.
Enquanto ela ainda encarava a mulher que um dia chamou de Mãe, Feltz se virou para seguir as ordens de sua chefe, foi apenas quando uma voz grossa e rouca tomou conta do quarto que Makayla moveu os olhos naquela direção...
— Eu não faria isso se eu fosse, cara. — Bucky Barnes estava parado na porta, sua mão de vibranium impedindo a passagem de Feltz. — Se ela disse que não vai pra lugar nenhum com vocês, então ela não vai.
O coração de Makayla deu um salto se enchendo de alivio, embora sua mente tinha disparado sinais de alerta imediato, porque o rosto de Bucky tinha ferimentos recentes não cicatrizados que pareciam ter sido limpos de qualquer forma, com a manga da roupa talvez, impossível ter certeza já que toda a jaqueta de couro azul estava suja de sangue.
— Você... — O reconhecimento tomou conta da voz de Feltz. — Eu sabia.
Makayla recordou que os dois já haviam se visto antes, e desde aquela ocasião o segurança particular estava desconfiado que o salvador misterioso da jovem fosse o Soldado Invernal... Bom, agora ele tinha certeza.
Um silêncio pesado tomou conta do quarto, a jovem não saberia dizer a quanto tempo Bucky estava ali, mas pela postura defensiva dele estavam bem claro que era o bastante para entender o que estava acontecendo...
Feltz olhou para Emma, provavelmente procurando por instruções, não que Makayla estivesse preocupada com isso, porque foi nesse momento que as íris azuis gélidas alcançaram as suas finalmente. Ela tentou se mover na direção dele, mas a mão direita de Emma lhe impediu, segurando seu braço de forma nada delicada, as unhas pontudas o bastante para incomodar mesmo através do tecido da blusa.
— Então é isso... — Ela olhou da garota para Barnes de forma irritada. — Era isso que você estava fazendo aqui?
Makayla não respondeu, apenas puxou seu braço de volta, seu olhar cruzando com o de Bucky uma vez mais. O silêncio cumplice que os dois compartilharam naquele micro segundo foi tudo que Emma precisou para tirar suas próprias conclusões...
— Eu sempre soube do seu péssimo gosto e do seu critério duvidável para escolha de parceiros sexuais, mas dessa vez você realmente chegou no fundo do poço. Esse homem é um criminoso. — A mulher apontou irritada, sua acusação cruel fez com que Bucky encarasse os próprios coturnos, esses também manchados de sangue naquele instante.
Makayla sentiu um ódio genuíno correr suas veias, jamais permitirá que alguém falasse com Bucky daquela forma. Se virou na direção de Emma com uma resposta nada educada na ponta da língua, no entanto suas palavras nunca chegaram a escapar de seus lábios, pois o tom educado de Jackson Brooks preencheu o ambiente.
— Na verdade esse homem é um herói, Senhora Kennedy. — Ele tinha uma certa postura de afronta quando deu um passo na direção dela, embora sua entonação demostrasse apenas cordialidade. — E eu não estou falando apenas dos Vingadores, pelo que me consta o Sargento Barnes é também o herói de guerra mais velho vivo.
Bucky ergueu o olhar, certamente não esperava ser defendido por um estranho, a surpresa estava explícita em sua fisionomia. Makayla por sua vez sorriu de em um misto de orgulho e agradecimento.
— Pelo que me consta ele é um assassino. — Emma, no entanto, não deu o braço a torcer.
Qualquer pingo de amor que Makayla ainda pudesse nutrir por aquela mulher evaporou totalmente. Todavia ela novamente foi impedida de responder:
— Não sabia que culpávamos vítimas... — Doutor Brooks tinha um autocontrole invejável, porque continuava com o tom calmo, mesmo diante daquela situação ultrajante. — Ou melhor, a senhora culpa vítimas, porque segundos as leis que regem nossas alianças internacionais o Sargento Barnes tem anistia completa em todos os países, é um cidadão norte-americano sem qualquer dívida com a justiça. A senhora, que já foi uma Senadora muito bem votada, discorda das leis?
Makayla foi capaz de ver Emma contrair o maxilar, uma veia visível pulsava em suas têmporas, indicando o ódio latente da diretora do CRG.
— Eu não estou falando com o senhor. Isso é um assunto de mãe e filha e uma mãe tem direito de permitir ou não esse tipo de... relacionamento. — Ela tirou os olhos de Jackson Brooks e os pousou em Makayla, continuando a falar de Bucky como se ele não estivesse ali, ou fosse insignificante demais para merecer o mínimo de respeito. — Ele é o assassino do seu tio avó, sabia disso?
— Acho que você quer dizer que a Hydra é responsável pelo assassinato de JFK, certo? E o falecido presidente não era nada meu, assim como você não é nada minha. — A jovem retrucou finalmente, sem titubear ou baixar a cabeça. — E mesmo que fosse, você não manda em mim, você não decide com quem eu me relaciono ou não. Esse é o século vinte e um, e eu sou maior de idade. Mas não preciso falar de leis com você, sei que é perita nelas, certo?
— Makayla, tudo bem... — Bucky tentou argumentar, como se quisesse impedir uma briga.
Porém a jovem estava cansada de evitar brigas com Emma Kennedy, não toleraria mais os comportamentos ofensivos e abusivos daquela mulher. Não devia nada a ela...
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— Escuta aqui.... — Emma tentou falar, mas foi bruscamente interrompida.
— Não. Escuta aqui você. — Makayla ergueu um dedo em riste. — Você não vai mais destratar meus amigos, nenhum deles. Acabou. Você não é minha mãe. Não é minha amiga. Eu não preciso e nem quero nada que venha de você, apenas me deixe em paz e não teremos problemas.
— Está me ameaçando, garota? — A mais velha questionou ultrajada.
Lançou um olhar para Feltz porém o segurança não se moveu, impossível dizer se foi porque não entendeu a ordem muda, ou porque simplesmente decidiu não se envolver naquela briga.
— Não. Eu estou te avisando. — Makayla corrigiu de forma firme. — Deixa a gente em paz, só isso.
— Senão o que? — Emma desafiou com um riso de pura ironia. — Vai mandar seu amigo assassino lidar comigo? É isso que faz agora? Comete crimes?
Bucky se remexeu desconfortável, Makayla não recuou um único passo.
— Eu? — Ela apontou pra si mesma, copiando o tom da mais velha com ainda mais ironia. — Não, eu não. Eu não sou nem homofóbica, nem racista, nem tenho uma organização não-governamental financiada por verba nacional norte-americana e atuando ativamente para os interesses de um só país.
Emma vacilou por um instante, olhou ao redor, analisando os presentes.
— Ela é louca, está vendo? — Apontou, argumentando com Brooks, como se ainda procurasse manter alguma dignidade na frente do médico. Em seguida focou na jovem, tentando um tom falsamente carinhoso. — Não banque a insana, Kayla. Não fique falando essas coisas que não pode provar sobre mim só poque está brava por eu desaprovar seu namorico.
— Mas aí é que está, Emma... — Makayla deu um passo para mais perto e abriu um sorriso vitorioso. — Eu nem preciso provar nada. Graças a criação excelente que você me deu sendo uma mãe extremamente ausente, eu sei muito bem que a vida e a carreira de uma pessoa como você é baseada na opinião pública. Eu não preciso de provas, só preciso falar uma dessas coisinhas pra alguém na internet e “booom” eles vão vir atrás de você como tubarões, e tudo que você lutou tanto para construir vai para o chão. Depois disso é só questão de tempo até que alguém poderoso da oposição cave essa história toda e ache as provas das quais você tanto fala. Eu só preciso acender o fosforo, mais nada. — A jovem deu de ombros de forma despreocupada. — Então me diz... o que é pior hoje em dia, um processo ou um cancelamento em massa na internet?
— Não ouse... — Emma advertiu com o dedo em riste.
— Ou o que? — Makayla a enfrentou com um sorriso de deboche. — O que você vai fazer comigo? Eu sequer dependo do seu dinheiro. Não tem nada que você possa tirar de mim Emma. A menos que você decida cometer alguns crimes pra acabar comigo... O que no fim, vai ter o exato mesmo resultado. — Ela deu outro passo, ficando cara a cara com a mais velha e abaixando o tom de voz baixo, como quem está prestes a contar um segredo. — Me deixa em paz, deixa os meus amigos em paz, porque caso o contrário, de um jeito ou de outro, eu vou acender o fogo que vai queimar seu império e trazer o inferno pra sua vida.
— Pelo visto eu criei uma cobra. — A mulher tinha um olhar de puro ódio, quando respondeu naquele mesmo tom baixo.
— Tal mãe, tal filha... — Makayla retrucou, dando um passo para trás, as mãos se erguendo de forma displicente e um sorriso debochado no rosto.
— Você não é minha filha, sua bastardinha. — Emma jogou, erguendo a cabeça em superioridade.
— Que bom que chegamos a um consenso. — A jovem rebateu em um misto perfeito de satisfação e deboche.
Por um instante a diretora Kennedy pareceu dar tudo aquilo por encerrado, deu um passo em direção a porta, mas olhou Makayla por sobre o ombro, com o sorriso mais venenoso possível nos lábios.
— Seu pai teria vergonha de você. — Acusou, olhando para a garota como quem olha um pedaço de lixo.
Talvez aquilo tivesse abalado Makayla em qualquer outro momento da vida, ela sabia muito bem que não era perfeita e que muitas vezes suas atitudes eram o completo oposto daquilo que um pai desejaria para uma filha, porém, daquela vez, ela tinha certeza que Danniel estaria orgulhoso. Porque ele teria feito exatamente a mesma coisa... talvez com um pouco menos de deboche e ameaça, mas ainda assim. A mesma coisa.
— Não. — Ela rebateu convicta. — Ele teria vergonha é de você. Tanto é que ele assinou o divórcio faz muitos anos.
A mais velha deu meia volta, sua postura mudando para algo um tanto mais agressivo e extremamente irritado. As palavras de Makayla a tinham atingido em cheio pelo visto. No entanto, Emma sequer teve oportunidade de abrir a boca antes de ser interrompida.
— Diretora Kennedy, sua presença está sendo requisitada na sala de reuniões do hospital. — Feltz declarou em alto e bom som, fazendo com que Makayla presumisse que ele tinha ouvido algo pelo comunicador.
— Pelo visto eu tenho a bagunça de vocês pra arrumar. — É claro que Emma não sairia sem ter a última palavra.
Com o nariz em pé ela passou por Barnes como se ele jamais fosse digno de pisar no mesmo chão que ela. No entanto o sargento sequer deu atenção para a mulher, sua postura permaneceu firme e seus olhos longe dela.
Assim que ficaram sozinhos, Makayla se aproximou dele, as íris cautelosas, procurando por qualquer sinal de que aquela confusão toda o tinha ofendido ou afetado de alguma forma.
— Desculpa por isso... — Ela pediu sem-jeito, analisando o rosto dele para se certificar que embora houvesse sangue seco por toda parte, os ferimentos já estavam parcialmente fechados por causa da eficácia do soro. — Você está bem?
Quando a distância entre eles acabou por completo, Makayla ergueu a mão direita para tocar o rosto dele, no entanto não chegou a fazê-lo de fato, porque Bucky envolveu os dedos dela e os levou aos lábios em um gesto carinhoso.
— Não é nada. — Ele garantiu de forma simples.
Os dois trocaram um olhar que podia significar um milhão de pequenas coisas, e que dizia exatamente o quanto ambos estavam exaustos de formas que não eram de todo físicas, mas sim emocionais.
— Sam? — Makayla perguntou, preocupada de não ter visto Wilson desde que Bucky havia chegado ali.
— Ele está bem, resolvemos o que tínhamos que resolver. Ele foi se trocar e eu voltei direto pra cá. — Ele explicou apenas, sem entrar em outros detalhes.
Makayla entendeu que a briga não fora fácil, conseguia sentir que aquela situação tinha levado todos eles a extremos. Mas, se o assunto estava resolvido, então certamente o Escudo se encontrava nas mãos de quem o merecia por direito. Isso causou uma sensação de alivio, porém, para o espanto da própria jovem, essa sensação foi um tanto agridoce, claro que estava feliz por Sam e Bucky terem vencido, era justo e certo que o Escudo estivesse com quem realmente pertencia e que o honraria acima de tudo, todavia, ainda assim, toda aquela situação, todas as tragédias daquele dia... ela estava preocupada com outra pessoa também...
— John? — Questionou, porque mesmo sendo um idiota presunçoso, descontrolado e nada digno daquele manto, no fim do dia Walker ainda era o melhor amigo de Lemar. E aquela perda pesaria para sempre na consciência dele.
Makayla sabia exatamente como era isso.
— Ele está vivo. — Bucky declarou, e talvez, diante de toda a situação catastrófica, aquilo fosse a melhor coisa que se podia dizer de Walker.
— Obrigada. — Ela agradeceu, mesmo que no fundo soubesse que John estar vivo não tinha a ver com ela, era sobre Bucky apenas. Ele não era um assassino.
Ela respirou fundo e deu um passo para trás, lembrando que os dois não estava totalmente sozinhos naquele quarto de hospital.
— Ah, esse é o Doutor Brooks, meu terapeuta. — Apresentou, apontando para Jackson que estava sendo educado o bastante fingindo que mexia no celular enquanto o casal conversava.
— É um enorme prazer, Sargento Barnes. — Ele colocou o aparelho no bolso e estendeu a mão direita para Bucky, dando alguns passos na direção do herói. — Muito obrigada por seus serviços.
Barnes aceitou o cumprimento de forma natural, mas Makayla o conhecia o bastante para ver que ele ficou sem-jeito.
— Eu que agradeço pelos seus. — O sargento apontou, indicando a plaqueta de identificação metálica, típica do exército, que pendia do pescoço de Brooks.
— A gente faz o que pode. — O doutor desconversou com um gesto displicente da mão direita e então pousou os olhos em Makayla. — Vou deixar os dois conversarem.
Se despediu educadamente e saiu em seguida, fechando a porta atrás de si.
Makayla e Bucky se comtemplaram por um instante, o silêncio confortável tomando conta do ambiente, enquanto ele se aproximava dela em passos lentos.
— Me desculpa mesmo por tudo isso. — A jovem pediu novamente, sentindo o polegar direito de Barnes deslizar por sua bochecha. — Emma é...
— Não importa. Você não tem culpa de quem ela é ou do que ela faz. — Ele a cortou, puxando o corpo feminino para um abraço.
Makayla sentiu cada terminação nervosa sua relaxar, sequer haveriam palavras para descrever o quanto aquele simples abraço foi reconfortante. Era como voltar pra casa depois de dias de uma viagem cansativa e finalmente poder dormir na própria cama, com o próprio travesseiro, enrolada no cobertor preferido... Bucky era a definição de lar.
Vai ver a canção estava certa quando dia que lar é onde o coração está...
Ela pôde sentir quando ele respirou fundo, o rosto enterrado nos cabelos dela, como se a saudade acumulada fosse a de alguns anos e não algumas horas. E, mesmo sendo presunção, Makayla gostou de pensar que talvez, só talvez mesmo, ela também fosse o lar de Bucky...
— Você está bem mesmo? — Perguntou baixinho, envolvendo o corpo dele com os braços, enquanto sentia os dedos masculinos se perderem entre seus fios castanhos.
— Agora eu vou ficar... — Bucky garantiu, beijando o topo da cabeça dela e a apertando um pouco mais em seus braços.
Eles não precisavam falar nada pra entenderem que aquele dia extremamente longo estava sendo muito mais difícil do que ambos esperavam ou queriam...
★☆ • ★☆ • ★☆
Os saltos ecoavam no piso frio do hospital, Emma Kennedy pisava duro, a irritação dela era uma onda elétrica sutil, que podia passar despercebida por aqueles preocupados demais com suas próprias vidas para ligarem para as oscilações de uma mulher de meia idade. Para o Agente Feltz, no entanto, cada pequena mudança na postura, comportamento ou mesmo nas microfeições da Diretora do CRG era assunto de extrema importância.
Era seu trabalho conhecer aquela mulher melhor do que qualquer outra pessoa...
— Eu estava no meio de algo importante lá. — Emma apontou irritada, assim que colocou os pés em uma das salas de reuniões que o Hospital tinha gentilmente cedido para o CRG.
Era evidente que ninguém estava requisitando a presença da Diretora, e saber disso serviu apenas para deixar a mulher mais contrariada.
Feltz fechou a porta, o ambiente era limpo, com uma mesa de reunião oval, cadeiras, janelas de vidro com vista para o corredor e alguns armários de documento, simples e limpo, mas sem nenhum dos luxos que qualquer uma das salas do CRG ostentava. No extremo oposto havia outra porta, essa conectada a uma sala menor, mas estava fechada naquele momento e apenas os dois estavam ali.
Ele deu dois passos para perto da mulher, calmo, controlado, qualquer um que olhasse de fora diria até que o homem estava preocupado. Mas ele de fato estava?
Certamente. Porém não pelos motivos que pareciam óbvios...
— Não. Você estava no meio de uma discussão inútil com uma garota mimada que tem informação o bastante pra te prejudicar e que, se cavar um pouquinho só pode acabar descobrindo muito mais. — Ele respondeu ponderado, usando uma entonação de subordinação que não ofenderia o ego de Emma Kennedy. — Te tirei da sala antes que fizesse algo prejudicial a longo prazo.
Porém, mesmo a postura aparentemente mansa do homem de terno não acalmou a Diretora do CRG.
— Você está aqui para seguir as minhas ordens. — Ela rebateu com a superioridade de quem não aceita conselhos de subordinados.
Feltz recuou um passo, estava ao lado de Emma por tempo o bastante para entender que o comportamento contido, educado e polido da ex-Senadora era apenas uma linda máscara para o eleitorado, longe do grande público ela era implacável, arrogante, explosiva e dada a grosseiras gratuitas, principalmente em se tratando do convívio com pessoas que de alguma forma eram subordinadas a ela.
— Eu sei. Peço desculpas. Estava pensando no seu melhor. — Ele ergueu as mãos em rendição, dando outro passo para trás.
— Eu não dou a mínima para o que você pensa. — Emma deixou claro de forma seca.
Caminhou até a mesa de reunião no centro da sala onde alguns relatórios, documentos e outros papeis importante estavam dispostos, já fornecidos pelo pessoal do hospital, que havia se tornado basicamente um campo sitiado pelo CRG.
— Mas de fato, tenho uma dúzia de problemas nas mãos agora, não posso lidar com as birras daquela garota. — Comentou, sem se dar ao trabalho de olhar para Feltz.
O homem sabia que, em se tratando de Makayla Devinne, Emma tinha apenas dois “modus operanti”, ou estava extremamente irritada, querendo subjugar e controlar todos os passos da garota, ou simplesmente agia como se ela não existisse...
Às vezes Feltz perguntava a si mesmo se, mesmo depois de anos e anos criando a menina, Emma realmente não havia cultivado nenhuma gota de amor por ela... Sempre foi da natureza humana criar laços emocionais com aqueles ao seu redor, no entanto, ele já estivera na cama daquela mulher e a ouvira reclamar por noites o bastante para entender que, aos olhos dela, Makayla valia menos que um vira-latas de rua.
Mulheres como a Diretora Kennedy não admitiam perder, e a garota era de todas as formas a prova concreta de que Emma havia perdido... Pouco importava que a mãe da menina tivesse morrido, pouco importava que na ocasião do nascimento dela Emma e o marido estivessem separados...
Quer dizer, ela sequer admitia que era de fato uma separação. Não. Emma jamais permitiria que qualquer pessoa dissesse em voz alta que Danniel Devinne a deixaria. Mas Feltz sabia que era exatamente isso que teria acontecido se a mãe de Makayla não tivesse morrido.
Aquele era um casamento em ruínas desde sempre, nem mesmo o filho que eles já tinham mudaria isso, Devinne deixou Emma, foram dois anos longe dela. Dois anos em que ela dificultou a vida dele de todas as formas possíveis, principalmente no que dizia respeito ao filho deles.
Emma dizia para todos que era apenas um tempo, uma crise que todo casal tem, mas a verdade é que, se não fosse por Makayla o casal sequer teria se reconciliado. Feltz tinha conseguido tirar a verdade da Diretora em uma noite regada a vinho.
Ela havia usado a garota para voltar com Danniel.
Persuasiva como era, argumentou que a uma menininha não podia crescer sem uma mãe. E assim, usando da dor do luto, ela trouxe o marido para suas garras outra vez.
Feltz duvidava muito que houvesse alguém na vida de Emma Kennedy que ela não tivesse manipulado de alguma forma....
Mas isso não importava, ele não estava ali para julgar o caráter da Diretora. Tinha um trabalho a fazer e o faria com exímio, como sempre.
Sendo assim, tinha que deixar suas conjecturas sobre o passado daquela família para trás e focar no presente. Um presente que parecia muito problemático e que podia colocar muitas coisas importantes em risco.
Enquanto seus olhos se perdiam nos corredores movimentados do hospital através das persianas que cobriam os vidros da sala de reunião, Feltz deixou que sua mente trabalhasse em todas as novas informações que tinha. Uma delas era a que mais o preocupava no momento...
Makayla era uma garota obstinada e de temperamento forte, porém era só uma garota, sozinha ela não representava uma ameaça real, porém, acompanhada de seu novo amigo as coisas se tornavam bem diferentes...
— Acha que o envolvimento dela com o Soldado Invernal tem a ver com o Danniel? — Perguntou em voz alta, fazendo com que Emma tirasse os olhos dos papeis que examinava.
Feltz conhecia a reputação do Soldado Invernal, sabia que um homem com aquelas habilidades era uma ameaça, ainda mais considerando que Bucky Barnes não era apenas o Soldado Invernal, ele não podia ser controlado ou colocado no gelo, ele era um herói e, se tivesse metade da índole e coragem do seu amigo de infância, Steve Rogers, então ele certamente se tornaria um problema dos grandes caso descobrisse qualquer um dos segredos que Feltz estava incumbido de proteger.
— Com certeza as ideias liberais do pai dela ajudaram nessa aproximação, mas não acho que eles estão juntos fazendo alguma investigação. — Emma respondeu, de forma prática. — Se Kayla tivesse suspeitas sobre o que aconteceu com Danniel, já teria dito, ela não é o tipo de garota que fica calada.
Feltz apenas assentiu, embora não tenha gostado do que escutou, era evidente que a Diretora havia entrado em seu modo “não dou a mínima para a bastardinha”, e esse era o pior posicionamento dela quando se tratava de Makayla Devinne. Subestimar a garota daquele jeito parecia o jeito errado de agir...
A praticidade do Agente pedia que ele tratasse mesmo as “improváveis ameaças” como problemas que precisavam de solução rápida. No entanto não era ele quem dava as ordens ali.
— Kayla é inútil para nossos planos de toda forma, e, enquanto estiver envolvida com aquele homem vai estar distraída demais para pensar em atrapalhar minha vida. — Emma declarou pouco preocupada.
— Se eles descobrirem alguma coisa... — Feltz tentou alertar, porém foi cortado antes que pudesse terminar.
— Não vão. Meu plano é perfeito. — Ela rebateu convicta. — E falando nisso...
A Diretora se aproximou do Agente com um arquivo médico em mãos, batendo a papelada no peito do homem para que ele pegasse.
Os olhos de Feltz correram pelo documento rapidamente para ver do que se tratava...
— Por que está me dando isso? — Perguntou confuso, lendo o nome “Lemar Hoskins” no topo do arquivo. — Não é o prontuário do soldado morto?
— Exatamente. — Emma respondeu prática, como se estivessem falando de algo inanimado. — Eu quero que o leve para A Forja.
— Por que? — Feltz franziu as sobrancelhas. “A Forja”, era uma instalação ultrassecreta e pouquíssimas pessoas tinham o privilegio de saber sua localização.
— Você sabe porquê... — A mulher tinha um sorriso cheio de significados.
Sim, ele soube e não gostou nada.
— Senhora, eu não acho que... — Tentou argumentar, já calculando os riscos e todas as probabilidade de dar errado de alguma forma.
— Você não tem que achar nada. — Emma cortou irritada. — Você só tem que seguir minhas ordens.
Feltz respirou fundo, contendo suas reações para algo mais ponderado.
— Ele é um soldado, tem família, amigos, não vai ser um velório vazio como o...
— Não me importo. — Foi interrompido outra vez.
Se calou então, discutir com Emma Kennedy não era aconselhável, ainda mais quando se tratava dos caprichos que ela inventava.
— Antes do velório, depois do velório, tanto faz, apenas leve o corpo para A Forja. — A Diretora decretou. — Os cientistas responsáveis pelo Projeto Resurface saberão o que fazer.
Ela sequer esperou que Feltz respondesse, dando por certo que ele faria o que foi ordenado.
— Agora vou indo, esse país me dá gastura e eu com certeza não quero estar aqui pra ver a cara de peixe-morto fracassado do Walker quando finalmente encontrarem aquele idiota. — Deu alguns passos em direção a porta, mas parou antes de girar a maçaneta, olhando para o agente por cima do ombro. — Faça o que eu mandei e não demore, preciso de uma daquelas suas massagens para espantar o estresse desse dia maldito.
— Sim, senhora. — Ele disse apenas, antes que ela desse as costas e saísse da sala.
Assim que ficou sozinho Feltz respirou fundo, encostando o corpo na mesa de reuniões, enquanto olhava o prontuário de Lemar Hoskins. Agora eles raptavam mortos também...
A pior parte era saber que com certeza Hoskins fora escolhido por um capricho mesquinho.
Deus, eu odeio essa mulher... Feltz pensou, enquanto esfregava a fronte, se preparando para o que teria que fazer. Sabia que seu trabalho era importante, mas gostaria que outra pessoa tivesse ficado com a missão de atender aos desejos de Emma Kennedy.
Ouviu a porta da sala conjugada e ergueu a cabeça assustado, se alguém tivesse ouvido aquele conversa seria outro problema para ele resolver.
No entanto, a figura que saiu da sala ao lado sorriu para Feltz como faria um velho conhecido. Trajava vestes médicas, e arrumou seu pequeno óculos redondo com o indicador, seus olhos naturalmente arregalados quase maiores que a lente.
— Parece que você vai ter um dia bem cheio, caro Feltz. — Ele disse enquanto se aproximava.
O Agente desencostou da mesa imediatamente, arrumando a postura enquanto o recém-chegado tirava o jaleco e colocava a peça sobre a mesa, ali, bordado sobre o bolso superior o nome “Dr. Adrians Ozola” estava perfeitamente visível.
Mas não era assim que aquele homem se chamava, é claro.
— Senhor. Não sabia que estava aqui. — Feltz saudou respeitosamente.
Era evidente que o homem disfarçado de médico tinha ouvido toda a conversa, mas isso em nada incomodava o Agente, muito pelo contrário, era quase um alivio, afinal se alguém tinha poder para acabar com os caprichos de Emma Kennedy esse alguém era Bolivar Trask...
— Soube o que aconteceu. — Ele explicou de forma pacifica. — Achei que era uma ótima oportunidade de vir ver a garota com meus próprios olhos. — Ele encarou Feltz por alguns instantes e sorriu. — E fazer alguns exames, é claro.
O Agente sentiu a satisfação lhe dominar, Emma havia ignorado todas as suas suspeitas sobre Makayla Devinne, porém Trask sim ficara intrigado com o caso da garota.
— Eu estava certo sobre ela? — Feltz questionou curioso.
Sabia que o homem em sua frente não desperdiçava tempo e, se estava ali e tinha colhido material genético de Makayla, com certeza ele já tinha conseguido os resultados que precisava.
Bolivar Trask tirou os óculos e se encostou na mesa.
— Provavelmente. — Admitiu, mas sua voz não tinha o tom de vitória que Feltz esperava. — Sua teoria de que a equipe não sabia o que estava procurando da primeira vez que a examinou, era excelente. A partir da sua suposição tão simples eu achei uma nova evidencia no Objeto Zero que me deu um norte.
O Agente se aproximou alguns passos, as sobrancelhas franzidas em interesse.
— O que isso significa?
— Como sabe, estabelecemos o Objeto Zero como o protótipo de um caçador perfeito e levamos anos de pesquisa para entender que eles estavam caçando indivíduos com habilidades. — Trask começou a explicar, com a fluência de um ótimo professor. — Mas depois do que você me disse, eu descobri que ele não está caçando todos os indivíduos com habilidades, apenas alguns, aqueles que tem um gene especifico. Uma mutação, por assim dizer.
Feltz tentou não sorrir de orgulho, era bom saber que alguém naquela equipe o escutava, já que Emma Kennedy ignorava qualquer coisa que ele dizia...
— Achei relatos desse gene em documentos da Hydra sobre Wanda e Pietro Maximoff. No caso de Wanda o gene parece mesclado com algo mais, algo que nossa ciência não é capaz de explicar ainda. Pietro, no entanto, tinha uma versão muito mais pura do gene em seu organismo... Mas como sabe, ele está morto. — O homem ajeitou os óculos uma vez mais e se afastou da mesa enquanto ainda falava. — E só com esses documentos pouco precisos e dados corrompidos do Objeto Zero é muito difícil decifrar o gene a ponto de ativarmos todas as funções do OZ... Preciso de uma amostra física recente do gene ativado. Isso seria crucial para entendermos a verdadeira programação do OZ e assim termos sucesso em reconstruí-lo.
— E você achou esse gene na garota. — Feltz presumiu satisfeito.
— Vestígios apenas. — Trask respondeu com um suspiro decepcionado. — O que me leva a crer que ela fez algo para suprimir ou destruir esse gene. Ela tem marcas nos braços muito especificas e, já que não parece o tipo de garota viciada em drogas, devo presumir que as marcas indicam intervenção médica recente.
Aquilo era terrível.
Pessoas brilhantes estavam trabalhando em torno daquela cabeça gigante e metálica, chamada de Objeto Zero, há duas décadas, e mesmo assim nenhum avanço considerável fora feito em decifrar sua programação, por vezes a tal coisa parecia mais que o pedaço de um robô gigante, embora também não parecesse algo inteiramente vivo. Suas linhas de código não batiam com nada projetado antes, e os dados haviam sido cruzados até mesmo com os do corpo do Androide Visão, quando este ficou em posse da SWORD.
Por anos o OZ foi enterrado em burocracia e confidencialidade, relatórios assinados pela Senadora Emma Kennedy tratavam aquilo como sucata espacial experimental, foi assim que ela tirou o Objeto Zero do radar de organizações como SHIELD e montou ao redor dele seu próprio grupo de pesquisa.
Batizado de “Orquídea”, esse grupo secreto — composto por mentes geniais, magnatas de algumas áreas, agentes decaídos e políticos da confiança de Emma — estudou o OZ por quase uma década a mando da Senadora, tratando o Objeto como alienígena por todo esse tempo, até que alguém foi capaz de encontrar uma assinatura em seu código. Era como se um artista tivesse deixado uma marca em sua obra prima...
Bolivar Trask.
Antropólogo, cientista, engenheiro. Trask era um figurão da tecnologia com uma indústria muito bem colocada na área. Foi quando Feltz entrou na Orquídea convocado por Emma Kennedy, seu trabalho era descobrir tudo que podia sobre Bolivar, inclusive o motivo pelo qual ele havia projetado o Objeto Zero e todos os seus objetivos com isso.
Não demorou muito para que Feltz percebesse que Emma tinha um interesse exagerado no OZ, como se aquilo escondesse um segredo que ela era incapaz de desvendar sozinha, algo para além do óbvio, algo pessoal. O Agente não tinha certeza da conexão, mas ela com certeza existia...
O enigma do OZ se tornou ainda mais intrigante quando nenhuma única prova conseguiu ligar Bolivar Trask à construção do Objeto Zero. Eventualmente o próprio cientista foi convocado pela Orquídea e o interesse e surpresa dele deixou bem claro que, embora sua assinatura estivesse no código, ele não tinha programado nada daquilo.
Se tornou um assunto de extremo interesse para ele então. Existia algo que aquele cientista havia construído, mas que ele não se lembrava de ter feito e que estava claramente muito acima de suas capacidades projetar.
Enquanto o mistério apenas crescia no decorrer dos anos, ficou bem claro que Emma estava subestimando seu poder sobre a Orquídea, pouco a pouco Trask ganhava a confiança dos envolvidos, na surdina angariava seguidores fieis, sendo o Agente Feltz apenas mais um deles.
Emma achava que estava no comando, enquanto na verdade, literalmente, dormia com o inimigo...
Foi na cama que Feltz conseguiu um nome que mudou o rumo das pesquisas de Trask. Elizabeth Braddock, uma mulher sem qualquer registro, alguém que, para todos os efeitos, sequer havia existido.
Mas ela havia existido sim, sua filha era prova viva disso.
E tudo se conectava com o motivo do ódio de Emma, o fato dela ser tão aficionada no Objeto Zero... No fim, tudo aquilo acabava em Makayla Devinne, a garota que para todos os efeitos havia nascido em um hospital dos Estados Unidos, mas que na verdade tinha respirado o ar do mundo pela primeira vez em uma cabana nas montanhas geladas da suíça. Uma propriedade que posteriormente foi comprada por Danniel Devinne. O lugar onde Elizabeth Braddock morrera depois de dar à luz.
A mesma localização onde o Objeto Zero fora encontrado.
Para Feltz ficou tudo um pouco mais claro então. Emma queria entender de onde viera a mulher que roubou seu marido e, já que o próprio Danniel nunca dera explicações concretas sobre isso, dizendo repetidas vezes que não sabia de nada, então o Objeto Zero se tornou a única fonte de respostas.
As motivações de Emma eram, como sempre, mesquinhas e egoístas. Escondeu um artefato misterioso do mundo e do próprio Governo, apenas porque seu ego de mulher “traída” queria respostas, no entanto, quando Bolivar Trask entrou na Orquídea, estudar e entender o Objeto Zero se tornou mais que uma questão egocentrada...
Isso porque Trask era um bom homem, alguém que acreditava em sustentabilidade e evolução, e que construíra suas Industrias focadas nisso. Suas tecnologias estavam por toda a parte, ajudando e facilitando a vida das pessoas. Suas Industrias eram exemplo de desenvolvimento sustentável e já tinham até sido premiadas por isso. Até lembrava um certo bilionário que tinha feito fortuna vendendo armamento militar e depois se tornou uma arma viva para salvar o mundo.
A diferença entre Trask e Stark estava na forma de lidar com o mundo, Stark estampava revistas, Trask fugia delas, preferia uma vida discreta longe da fama e das badalações, deixando seus CEOs a frente de toda a publicidade, sendo assim, poucas pessoas tinham visto seu rosto, o que dava a ele um anonimato muito proveitoso.
O que realmente importava é que: Bolivar Trask nunca construiria algo para prejudicar a humanidade.
Então, se sua assinatura estava no Objeto Zero, aquilo certamente tinha um nobre propósito... Por isso, e por todas as coisas que eles tinham descoberto. Havia apenas uma teoria provável, a única que Trask aceitava e acreditava totalmente como verdadeira.
Ele não havia construído o Objeto Zero... ainda.
Aquela tecnologia avançada certamente vinha do futuro, algo que Bolivar construíra para proteger e ajudar a humanidade. Uma solução. E, se o Objeto Zero estava programado para caçar seres superpoderosos, então certamente esses mesmos seres eram o problema. Tinham que ser.
Trask acreditava que sua versão do futuro havia enviado o Objeto Zero para seu eu do passado, afim de acelerar a produção daquela tecnologia e assim salvar a humanidade. Porém, outra coisa também viera ao passado junto com o OZ, Elizabeth Braddock, uma superpoderosa incumbida de destruir a única coisa capaz de derrotar sua espécie.
Ela era a ameaça. Atrapalhou um plano perfeito. Foi nisso que a Orquídea passou a acreditar.
Mas Trask estava empenhado em reativar o Objeto Zero e fazer o que fosse necessário para cumprir a missão que sua versão futura havia designado para ele.
Salvar a humanidade.
Era incerto o motivo de Elizabeth ter desviado de seu propósito para ter uma filha com um homem qualquer, e haviam pequenos furos microscópicos que ainda precisavam de respostas, mas Feltz acreditava na teoria de Bolivar e, sendo assim, tudo levava a crer que talvez Makayla Devinne carregasse no sangue a chave para reativar o Objeto Zero.
Claro que, quando finalmente descobriram tudo isso, os anos já tinham avançado e muito. Eles decidiram trazer Makayla para estudos no mesmo dia que a Terra foi invadida por exércitos de Thanos. A garota deveria ter ido para um abrigo seguro com a mãe, de onde finalmente seria transportada para os testes necessários, porém ela decidiu seguir outro rumo, o que no fim não fez tanta diferença, já que a jovem desapareceu no ar com o estalar de Thanos.
Ela e metade do Orquídea...
Sem Trask, Feltz teve que aguentar os caprichos, estratégias e planos infundados de Emma por cinco anos, fazendo o que ela mandava em busca de respostas mesquinhas, mesmo que isso parecesse idiota e sem sentido. Nesses anos que se passaram ele a ajudou a fazer de tudo, incluindo montar o império que se tornou o CRG. Uma forma real de ajudar o mundo, ou apenas mais um artificio para que a agora Diretora Kennedy manipulasse pessoas e massageasse o próprio ego?
Quando todos enfim retornaram e Bolivar retomou seus planos, Makayla Devinne foi testada por médicos do governo a mando de Emma, que já estava a par de parte da teoria, embora não acreditasse em todos os detalhes dela e não desconfiasse seu poder dentro do grupo era frágil e falso...
Os exames foram feitos facilmente, já que a própria Makayla estava dizendo que tinha algo errado com ela, mas eles teriam acontecido com ou sem a permissão da garota, exatamente como estava planejado. No entanto os testes em nada resultaram... E foi quando Feltz cogitou que aqueles médicos e cientistas não sabiam o que estavam procurando.
Sua linha de raciocínio foi ignorada pela Diretora Kennedy, mas felizmente Trask abraçou essa teoria e resolveu lidar com tudo pessoalmente, no entanto Makayla desapareceu do mapa por alguns dias e, agora que aquele encontro finalmente havia acontecido... tudo fora em vão?
Feltz não podia acreditar, anos e anos esperando pela informação que resolveria de vez todo aquele enigma e finalmente ativaria o OZ, para chegar tarde demais? Era quase revoltante ver a calma de Bolivar diante de tudo aquilo....
— E agora? — Ele questionou impaciente.
Durante a vida já estivera em diversas missões, mas nenhuma delas foi tão longa e exigiu tanta paciência e espera quanto aquela. Era frustrante que tivessem chegado tão perto e tudo tivesse dado errado porque Emma não acreditou que a garota era especial.
Certamente Makayla havia dado um jeito de se livrar daqueles poderes nesses dias em que sumiu. Ela era muito mais esperta do que parecia.
— Agora a garota é praticamente inútil para o nosso propósito. — Bolivar respondeu, ajeitando os óculos com o indicador. — Esses vestígios quase inexistentes não seriam o bastante para ativar o Objeto Zero.
— Anos de trabalho e continuamos sem nada, sem respostas. — Feltz expressou sua frustração, enquanto Trask se mantinha calmo.
Era a aura que aquele homem sempre exalava, ele costumava dizer que ciência e progresso levavam tempo, mas entendia que esse era um conceito difícil de assimilar para alguém como Feltz. Levava apenas um segundo para puxar um gatilho afinal.
— E o prisioneiro da Forja, nenhum progresso? — O Agente questionou, procurando por uma saída alternativa.
Trask negou algumas vezes, olhando através da persiana e vendo Makayla Devinne deixar o quarto de hospital ao lado do Soldado Invernal.
— O prisioneiro da Forja sabe de alguma coisa, eu tenho certeza disso. Mas qualquer método de extrair essa informação tem falhado até agora. — Explicou, enquanto seus olhos acompanhavam o casal. — Acredite, Emma tentou de tudo, eu mesmo não teria escolhido os métodos que ela escolhe, mas é como se a mente dele estivesse trancada...
— Então continuamos sem nada? — Feltz respirou fundo. Queria passar de uma vez para uma próxima fase daquela missão, uma que o colocasse longe da cama e dos caprichos de Emma Kennedy. Mas pelo visto isso não aconteceria tão cedo.
— Tem minha assinatura naquele objeto, Feltz. Eu sei que é uma criação minha. — Bolivar se afastou das janelas e caminhou pela sala. — Se eu estiver certo, e eu sei que estou, o Objeto Zero é uma forma de proteger o mundo de ameaças como Wanda Maximoff. Então é imperativo que eu encontre uma forma de ativá-lo... Mas agora tenho que voltar para a Forja. Se já fiz aquele robô uma vez, então farei novamente. — Ele deu a conversa por encerrada, pegando o jaleco que compunha seu disfarce e fazendo menção de sair.
— E quanto a Emma Kennedy e a garota? — Feltz questionou, torcendo para que houvesse qualquer mudança em sua missão.
No fundo ele queria mesmo é ver a cara daquela mulher depressível quando a tirassem do poder. Seria uma satisfação pessoal.
— Continue fazendo seu bom trabalho com a Diretora. — Trask ordenou, para o desgosto do Agente. — Nossa aliança com ela é proveitosa de muitas formas.
Feltz apontou o prontuário de Lemar Hoskins, esperando que isso causasse alguma revolta em Bolivar.
— Ela quer que eu leve o soldado morto para A Forja.
O cientista assentiu de modo conformado.
— Bom, cedo ou tarde ela começaria a trazer cobaias para o Projeto Resurface dela, não teria gastado tanto tempo remodelando o Projeto TAHITI para nada. Não é? — Declarou apenas. — Os caprichos dela são um preço justo a se pagar pelo apoio e influência política que ela tem, e pelo bom trabalho em manter o Objeto Zero em segurança e montar a Orquídea em torno dele. Se a descoberta do OZ tivesse sido revelada ao mundo, seria a SHEILD no comando das pesquisas, ou seja, teríamos a Hydra com as mãos em algo muito importante. Emma foi extremamente útil até aqui e, enquanto ela for útil, continuaremos com essa aliança. — Focou seus olhos em Feltz por um instante. — Mulheres como Emma Kennedy gostam de pensar que estão no controle. Deixemos que ela acredite nisso enquanto nos for mais proveitoso.
Não era o que o Agente queria ouvir, mas devia saber que seria assim.
— Entendido. — Respondeu apenas, sem qualquer comoção. Estava sendo duplamente bem pago para permanecer naquela missão afinal.
— Quando a garota... — Trask continuou. — Gostaria que ela fosse exatamente o que precisamos, peguei amostras do sangue dela para tentar reativar o gene suprimido, mas por enquanto ela é apenas inútil para nossos propósitos. Ela não sabe nada sobre a mãe biológica, então não sabe nada sobre o Objeto Zero. Não vamos perder nosso tempo com ela, por enquanto.
— Ela está andando por aí com o Soldado Invernal. — Feltz meio informou meio alertou, porque algo dizia que aquilo podia ser um grande problema a longo prazo.
— Mais um motivo para ficarmos longe, não queremos os Vingadores metendo o nariz nos nossos segredos. — Bolivar declarou de forma prática. — Principalmente depois do que Emma fez...
O homem não era contra os heróis abertamente, como Emma, porém também não os amava como Danniel Devinne, apenas preferia se manter neutro, aceitando o melhor deles e preparando-se para o pior.
— E se eles não ficarem longe da gente? — O Agente questionou.
— Acho improvável. O grupo mal se fala, Soldado Invernal e Falcão são os únicos que permanecem trabalhando juntos, mas toda essa coisa de Apátridas e “quem vai ficar com o escudo?” está consumindo o tempo deles. E quando acabarem vão estar felizes comemorando e, sabemos que gente feliz ou ocupada não atrapalha. — Trask comentou em sua praticidade lógica. — Emma só tem que deixar a garota em paz e tudo vai ficar bem, eles não serão um problema, se não nos verem como ameaça. Então, use seu charme para fazê-la ver que uma interferência direta pode ser prejudicial para sua carreira.
— Entendido. — Feltz assentiu de forma profissional, mesmo que por dentro fizesse uma careta de profundo desgosto.
Convencer Emma Kennedy de qualquer coisa exigia muitos encontros íntimos e tórridos que eram quase o inferno particular do homem.
Trask se preparou para deixar a sala, mas parou antes de puxar a maçaneta.
— Mas Feltz.... — Os dois homens se encaram por um instante. — Fique preparado. Se eu encontrar uma forma de ativar os genes da garota novamente, ela se torna peça chave para entendermos como o Objeto Zero funciona, nesse caso, nem mesmo a ligação dela com esses Vingadores, vai ficar entre mim e a salvação da humanidade.
— Sim, senhor Trask. — O Agente concordou imediatamente.
No fundo, no fundo, ele queria mesmo que tudo acabasse em uma luta. Era sempre mais divertido assim...
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