Notas iniciais
Voltei pra postar outro porque sou dessas (levemente descontrolada e sem equilíbrio mental para segurar capítulos prontos, mas enfim...) Esse capitulo se passa basicamente no episódio 01 dá série, mas eu resolvi prolongar mais a passagem de tempo, então veremos pelos menos alguns capítulos aqui, antes de rolar "aquele" evento do final do episódio. Boa leitura!

Ele cortou a rua em passos certeiros, as mãos cobertas com couro dentro dos bolsos da jaqueta daquele mesmo tecido. Era ágil e silencioso, mesmo quando não pretendia, já fizera aquele exato caminho tantas vezes naqueles últimos meses que era quase automático.

Mas isso não significava que seguia para seu destino de bom grado...

Ao redor, o abandono ainda manchava as ruas de Nova York. Cinco anos sem metade da população mundial havia causado danos que meia dúzia de meses eram incapazes de consertar, todos estavam de volta, porém nem tudo estava bem, as dezenas de construções e reformas não escondiam isso. Ainda assim as pessoas iam e vinham, cada uma presa em tentar resolver as próprias merdas. O blip tinha deixado marcas em todos, porém nem todas elas eram físicas.

Todavia o homem de olhos azuis gélidos não se importava com isso, as merdas que tinha para resolver consigo mesmo eram bem piores e mais antigas do que as causadas pelo estralar de dedos de um alienígena roxo megalomaníaco...

Parou em frente ao prédio conhecido, a fachada de vidro bem cuidada destoava do restante da cidade como apenas um prédio financiado pelo governo poderia. Odiava aquele lugar.

Mas era um pequeno mal necessário.

Cumprimentou o porteiro na entrada, já estivera ali tantas vezes que o homenzinho franzino sempre lhe reconhecia, o que poupava identificações. Entrou no elevador e apertou o número do andar correspondente.

Quando a caixa metálica começou a se mover para cima, ele encarou o próprio reflexo no espelho que envolvia todas as paredes. Usou os dedos enluvados para ajeitar o cabelo castanho bem cortado, que mal lembrava os fios desgrenhados de meses antes. Fora instruído a cortar; um passo na direção da cura, uma forma de se encaixar; mas a verdade é que se sentia uma imagem vazia, uma fraude; o rosto de traços viris não denunciava sua idade; o porte ereto e másculo quase não combinava com o peso que ele carregava nos ombros e que sentia oprimir seu peito constantemente. Quem visse aquele rapaz bonito no reflexo jamais imaginaria todo o sangue que ele tinha nas mãos...

Tentou abster desse pensamento mórbido fechando os olhos por um segundo e respirando fundo, quando as portas finalmente se abriram ele vestiu o sorriso que já estava acostumado a fingir e deu um passo para dentro da recepção daquele andar.

O ambiente amplo e bem iluminado, decorado com tons neutros, quadros de paisagem, além dos sofás e poltronas aconchegantes, não lhe trouxe qualquer conforto, apenas apatia. Do lado direito a recepcionista lhe sorriu com muito mais empenho que o necessário.

— Boa tarde, senhor Barnes. Que bom que veio! — Ela tinha a animação de quem ganhou um presente.

— Eu sempre venho, não é? — Ele forçou um sorriso enquanto se aproximava.

— Um dos pacientes mais frequentes. — A recepcionista aumentou o sorriso, colocando sobre a mesa uma ficha médica. — Só assinar aqui, como sempre.

Os olhos azuis pousaram no papel onde haviam vários dados básicos sobre si mesmo, e sobre todas as consultas que fizera naqueles últimos meses. “James Buchanan Barnes”, podia ser lido no topo. Bucky, ele corrigiu mentalmente enquanto assinava.

— Já vou avisar à Doutora Raynor que você chegou. — A moça gracejou, pegando o papel e passando a digitar algo em seu computador. — Se quiser sentar enquanto espera...

Bucky agradeceu com um quase-sorriso educado e caminhou até um dos sofás. Só uma chatice necessária, disse a si mesmo enquanto apoiava as mãos enluvadas sobre as coxas para aguardar.

Depois dos últimos anos, do tratado de Sokovia, de Wakanda e de Thanos, o perdão do governo viera com algumas condições, uma delas era o acompanhamento psicológico. As consultas semanais vinham como “ajuda”, mas Bucky entendia que eram mais que isso. Eram um jeito que os políticos engravatados tinham de saber se ele estava andando na linha, sem precisarem dizer abertamente que o estavam monitorando.

Era um preço que tinha que pagar. Não era tão ruim... Além disso, não era como se odiasse sua terapeuta; a condescendência passivo-agressiva da mulher podia irritar um pouco, e por diversas vezes ela confrontava Bucky com verdades dolorosas ou fazia perguntas para as quais ele não desejava formular respostas, porém ela também fornecia técnicas e conselhos úteis.

Não era agradável falar sobre coisas que sequer queria pensar, não confiava nela ou em ninguém pra isso, mas ainda assim, era o preço. Um custo bem abaixo de tudo que ele tinha feito.

Então Bucky estava... conformado.

Era só não pensar demais nisso.

Respirou fundo, sabia que a terapia era exatamente o oposto de seu novo mantra diário, ele sempre saía dali pensando demais em tudo, porém não era como se tivesse escolha.

Ouviu o elevador apitar naquele andar e sequer precisou virar para sentir que alguém havia entrado no ambiente. Talvez duas pessoas pelos sons dos passos. Sabia que aquele instinto de monitorar seu entorno era desnecessário, contudo, era automático, não havia um botão de desligar.

— Posso fazer isso sozinha, não preciso de babá. — Uma voz feminina se espalhou pelo silêncio do ambiente, ainda assim Bucky não se preocupou em olhar.

— O fato de você estar fugindo disso há semanas diz o completo oposto disso. — A voz masculina dura e irônica rebateu.

— Bom, mas eu estou aqui, não é? O que mais posso fazer agora? Pular pela janela do décimo terceiro andar? — Bucky deu um sorriso mínimo com a resposta afiada.

Ele com certeza havia pensado nessa exata solução da primeira vez que estivera ali.

— Vou te esperar lá embaixo. — O homem sentenciou. — Não faça nenhuma besteira.

As portas do elevador se fecharam depois de alguns segundos e Bucky foi capaz de ouvir a garota bufar e estralar a língua no céu da boca.

— “Não faça nenhuma besteira”. — Ela imitou baixinho em tom de desdém. — Eu nasci, isso já é besteira o bastante pra vida toda...

Bucky não podia dizer que desconhecia aquela sensação...

Permaneceu onde estava, ainda encarando o nada a sua frente, enquanto podia ouvir o botão do elevador ser pressionado freneticamente logo ali ao lado.

— Oi... — A recepcionista levantou e se aproximou um pouco da recém-chegada. — Você é a Makayla Devinne, certo?

— Se eu disser que não, vai me deixar ir embora? — A voz feminina respondeu.

Bucky podia sentir a presença atrás de si, enquanto tinha apenas a recepcionista em seu campo de visão.

— O escritório da sua mãe ligou avisando que você vinha. — A funcionária informou, desconsiderando a pergunta da moça chamada Makayla. — Por que não se senta? Eu vou preparar sua ficha.

O único som na sala foi o dos saltos da recepcionista voltando para seu lugar. Demorou alguns longos segundos até que a pessoa atrás de Bucky finalmente se movesse.

— Como se eu tivesse outra escolha... — Ele a ouviu murmurar no tom de um xingamento, para então ver a figura feminina surgir em seu campo de visão.

Era muito mais jovem do que alguém teria adivinhado apenas pela voz... Se bem que comparado com os 106 anos que Bucky tinha, qualquer um seria muito jovem. Ele não foi capaz de estabelecer uma idade baseado no que via, a julgar pelas feições delicadas e pela pouca altura, apostaria em algo por volta dos dezessete. Se focasse na expressão irritadiça ou nas curvas marcadas pela calça extremamente justa, ele diria uns vinte e um, não mais que isso.

O que alguém tão jovem estava fazendo naquele lugar deprimente?

Enquanto a garota caminhava em direção ao sofá bem na frente dele, Bucky se deu conta que as pessoas deviam ir para a terapia por motivos que não envolviam assassinado, lavagem cerebral e ter cem anos em um corpo de trinta.

As coisas deviam ser mais simples pra gente normal...

Porém, seja qual fosse o motivo, a garota claramente não estava ali por vontade própria...

Ela praticamente se jogou no sofá, arrumou os longos fios castanhos iluminados por finas mechas mais claras aqui e ali, então cruzou os braços, foi quando o olhar dela finalmente se encontrou com o de Bucky.

Uma tempestade cinzenta com toques de azul e verde.

Se observaram por um instante que pareceu longo demais, aos poucos Bucky notou que a pele clara das bochechas da garota começou a apresentar tons rosados mais quentes, ele só não estava muito certo se aquilo era timidez ou irritação...

Ela desviou os olhos de repente, para então prestar atenção nas mãos enluvadas de Bucky, fazendo com que ele se movesse desconfortável. As sobrancelhas femininas se franziram levemente e os olhos tempestuosos encontraram as íris azuis gélidas outra vez, nesse momento os lábios fartos e perfeitamente desenhados se abriram no esboço de uma palavra qualquer, no entanto, o som que se espalhou pela sala não foi a voz da garota na frente de Bucky.

— Senhor Barnes? — Ele ergueu a cabeça. A Doutora Raynor lhe esperava na porta do consultório.

Se levantou de imediato, e mesmo que não tenha olhado para trás por nenhum segundo, ele pôde sentir aqueles olhos de tempestade lhe acompanharem por todo o caminho...

Assim que entrou, a porta se fechou atrás de si, Bucky encarou a pintura ridícula de floresta cobrindo uma das paredes e então o maldito sofá cinzento onde passaria a próxima hora.

Sessenta minutos que sempre pareciam longos demais...

★☆ • ★☆ • ★☆

Ela esperava entrar na sala e encontrar um branquelo gordo e careca de meia idade, escondido em um terno barato e usando uma gravata feia, no entanto, o homem que a atendeu na porta era quase o oposto completo disso... Ele de fato estava ali perto da meia idade, mas era um homem negro, alto e magro, com um rosto comprido, uma barba bem feita e um cabelo cortado à perfeição, trajando roupas sóbrias de tons neutros, mas nenhuma gravata. Ao invés disso, do pescoço dele pendia pequenas placas de identificação, típicas de quem esteve no exército.

— Como vai? — Ele sorriu simpático e casual. — Makayla Devinne, não é?

Ela teria correspondido ao sorriso, se não soubesse que aquele homem era apenas alguém que o gabinete de sua mãe havia pago para analisá-la. Por isso, apenas confirmou seu nome com um movimento curto de cabeça.

— Eu sou o Doutor Jackson Brooks... — Ele se apresentou, apontando o grande sofá do consultório para que ela se sentasse. — Como você está se sentindo hoje?

Makayla cruzou aquele espaço e se jogou no sofá, apoiando seu all star surrado no assento, sem se preocupar com boas maneiras.

— Bem, e você? — Sua voz veio casualmente e um tanto irônica.

Ela e o Doutor se encararam. Makayla sorriu em desafio, não estava disposta a cooperar.

Já havia gastado sua cota de paciência com o psiquiatra e os exames exaustivos dos últimos meses, com certeza não queria um terapeuta comprado mexendo em sua mente. Nem ela própria sabia exatamente o que estava acontecendo ali dentro.

— Então você não gosta muito de falar, certo? — Doutor Brooks percebeu logo, provando que era bom no que fazia.

— Ah não, eu adoro falar. Mas sabe como é, a gente é ensinado desde pequeno a não falar com estranhos. — Makayla deu um sorrisinho irônico.

No geral era uma garota mais tímida e introvertida, mas isso tendia a mudar um pouco quando ela se sentia pressionada ou ameaçada.

— Eu não sou estranho. Sou um profissional. — O Doutor respondeu com uma calmaria invejável. — Só quero te ajudar, Makayla.

— Quer mesmo? — A pergunta dela era quase uma acusação. — Ou você só quer o gordo pagamento em sua conta bancária?

Ele riu, o que pareceu um ultraje para Makayla.

— Vivemos em um mundo capitalista. Vendemos nossos talentos para sobreviver. Não sou eu que faço as regras, mas eu tenho que segui-las até que mudem. — Ele parecia um cara legal em sua descontração simpática, mas ela não estava muito disposta a facilitar...

— E você as faria diferente se pudesse? As regras, sabe? — Se curvou um pouco para frente no sofá, em uma postura interessada, exibindo um sorriso amigável. Se tinha que ficar uma hora inteira presa naquela sala, então deixaria o Doutor falar de si mesmo...

Porque pessoas adoravam falar de si mesmas.

— Eu sei o que está fazendo... — Ele riu apontando para ela, como quem desvenda uma charada. — Mas não estamos aqui pra falar de mim.

Makayla voltou para a mesma postura desleixada de antes, enquanto revirava os olhos.

— Não, não estamos. — O desgosto dela era evidente em cada sílaba. — Estamos aqui porque todo mundo pensa que eu sou louca e temem que eu surte a qualquer momento.

— Isso não é verdade. — Doutor Brooks rebateu, cheio de paciência.

— Eu ‘tô toda fodida. Não é isso que está escrito na sua ficha? — Ela apontou para os papeis na mesinha ao lado da poltrona dele. — Esquizofrênica e dopada de remédios.

— Não. — A resposta veio simples. — Na sua ficha diz que você passou por um grande baque e isso teve sequelas. Você está sendo medicada e deve ser acompanhada.

— É a mesma coisa com palavras bonitas. — A garota deu de ombros com desdém, desviando os olhos para a grande janela de vidro.

Será que o bonitão estranhamente familiar, que tinha visto na recepção há alguns minutos, estava passando pela mesma porcaria na sala ao lado?

— Sua mãe se preocupa com você, Makayla. É por isso que você está aqui. — O terapeuta fez com que ela fosse obrigada a voltar para a realidade. — Quer falar sobre o que aconteceu quando você voltou do blip?

Makayla riu de forma irônica.

— Quer dizer, quando eu reapareci no mundo do nada depois de cinco anos e surtei totalmente, alucinando que podia ler a mente das pessoas? Não, eu não quero falar disso.

Ela ainda se lembrava da sensação repentina de sentir o corpo flutuar de volta para si mesmo. Se lembrava de estar parada no meio da estrada e do caos ao redor... Mas essa não foi a pior parte.

— Eu estava me referindo ao seu pai... — Doutor Brooks explicou com cautela e Makayla sentiu o coração arder dentro do peito. — Você perdeu alguém muito importante pra você, Makayla. Tudo que você está vivendo agora, o blip, seu pai... Talvez isso tenha te feito entrar em choque e causado alucinações.

É, claro. Era tudo sobre as malditas alucinações... Makayla respirou fundo, se lembrava de tocar a primeira pessoa e ser atingida por uma dezena de pensamentos que não eram dela, imagens de um filme que ela nunca tinha assistido. Memórias de outra pessoa.

Era mesmo real? Era loucura? As dezenas de testes que se seguiram, quando ela fez a besteira de confidenciar isso para sua mãe, não foram capazes de responder essas perguntas com clareza. Continuou acontecendo cada vez que Makayla tocava alguém, um pequeno fragmento de pensamento alheio lhe invadia a mente...

Era diferente com cada um, às vezes uma imagem solta, às vezes uma voz, às vezes uma memória inteira. Só acontecia quando havia pele e pele se tocando. Era como levar um choque dentro do cérebro, um segundo e lá estava aquele pensamento intruso que não pertencia a ela. Makayla odiava.

Não era apenas a dor, aquilo era errado, invasivo demais, ilegal até...

Então ela parou de tocar as pessoas. Nada de pele com pele. Quando os remédios pra esquizofrenia vieram teve a desculpa para acabar com tudo. Os médicos enluvados não tinham como testar, porque Makayla nunca disse como funcionava, ninguém tinha como saber que ela estava mentindo.

Os remédios eram um problema, no entanto, a deixavam estranha e frenética, e ela não tinha muita certeza se isso causaria algum efeito colateral naquela maluquice toda. Talvez nada daquilo fosse real, sequer havia explicação afinal... Ela voltou do blip e de repente ganhou um tipo de poder? Era ridículo.

Muito mais fácil acreditar que estava ficando louca mesmo.

Ainda assim, pareceu certo não encher a cabeça de sua mãe com tudo aquilo. Emma Kennedy já tinha problemas o bastante. Makayla não queria fazer nada que fosse destruir o único laço familiar que ainda possuía.

Se aquilo fosse mesmo algum tipo de habilidade e não uma simples loucura de uma mente perturbada, então Makayla teria se tornado tudo que Emma mais odiava... Por isso, era melhor guardar segredo.

— Sua mãe relatou, no e-mail que me enviou, que os empregados têm uma teoria sobre você ter adquirido... habilidades especiais. — Doutor Brooks interrompeu os pensamentos da jovem com cautela.

— É uma teoria do Feltz... — Ela deu de ombros.

Emma havia deixado seu homem de mais alta confiança em Nova York, junto com Makayla, quando teve que voltar para Washington a trabalho. Scott Feltz era um ex-fuzileiro, ex-CIA, ex-qualquer-coisa-perigosa que a garota Devinne não tinha se importado em perguntar, porque não suportava aquele brutamontes que atualmente era uma sombra em sua vida.

Às vezes aquela recente preocupação superprotetora de Emma parecia até desconfiança. Antes ela raramente se importava com o que a garota fazia da vida, desde que isso não causasse refluxo em sua reputação. Depois do blip tudo tinha mudado. Porém Makayla sabia que a mãe só queria o melhor para ela. Havia sumido por cinco anos, claro que Emma estava preocupada, era só isso. Era bom. Era cuidado materno.

— E você acredita nele? — Doutor Brooks exigiu sua atenção. — Acha que as alucinações são algum tipo de habilidade?

Mesmo que fossem, ela nunca diria....

— Não, eu acho que essas alucinações são apenas mais uma das merdas que a vida jogou na minha cabeça. — Deu de ombros uma vez mais e sorriu em um conformismo mórbido. — Eu sou amaldiçoada, doutor, não superpoderosa.

Jackson Brooks franziu as sobrancelhas em claro interesse.

— Fale sobre isso. Por que pensa assim?

Makayla soube que seu desejo de esconder toda aquela coisa de “pensamentos intrusos causado por toques” tinha feito com que falasse demais sobre suas outras convicções, vistas como problemáticas pelo mundo. Mas talvez falar meia dúzia de verdades antigas deixasse aquele terapeuta bem longe de problemas recentes.

— Uma vez é aleatório. Duas vezes é coincidência. Três vezes é um padrão. — Ela explicou, ilustrando com os dedos. — Emma não é minha mãe de verdade, sabia? Minha mãe morreu no dia que eu nasci, a única sexta-feira 13 daquele ano.... Bem aleatório. Em 2012, eu queria muito tomar sorvete no centro de Nova York, no mesmo dia aconteceu uma invasão alienígena, meu irmão morreu por causa disso... só coincidência. Cinco anos atrás eu estava dirigindo meu carro na rodovia quando desapareci no ar, mas meu pai estava no banco do passageiro, e, advinha só? Ele morreu quando o carro capotou sem motorista... Um padrão. — Terminou com um longo suspiro pesado. — E eu nem estou contando o primeiro amor e os melhores amigos mortos...

O terapeuta encarou a jovem fixamente por alguns segundos, então se curvou um pouco para frente em sua poltrona, quase como se quisesse se aproximar dela.

— Você não pode se considerar responsável por coisas que não tem controle, Makayla. — Falou naquele tom calmo que lhe parecia tão natural.

— Eu não me sinto responsável, eu me sinto amaldiçoada, é diferente. Eu não controlo as circunstâncias, elas só acontecem. — Makayla gesticulou como se fosse apenas um fato da vida, mas então seus olhos se encheram de lágrimas sem que ela pudesse controlar. — E é um fato irrefutável que as pessoas que eu amo, e que me amam de volta, acabam mortas. — Ela desviou o olhar para a janela. — Ficar louca parece o final perfeito pra essa história.

— Você não está amaldiçoada, Makayla, nem louca. — Doutor Brooks afirmou e a empatia em seu olhar acabou por desarmar a garota. — Você é só uma moça comum de vinte anos, com quem muitas coisas ruins aconteceram. Mas você pode passar por isso. Eu garanto. Apenas me deixe ajudar você...

Makayla quis confiar nisso, mas estava acostumada demais com a própria vida para acreditar em pequenos milagres. Merdas aconteciam com ela o tempo todo.

★☆ • ★☆ • ★☆

Bucky deixou aquele prédio com o familiar sentimento de opressão no peito, a mente trabalhando a mil, revirando todas as memórias que ele queria ser capaz de esquecer, repetindo todas as duras verdades que a Doutora Raynor insistia em reforçar. Às vezes era como se ela fizesse questão de atacá-lo com aquelas coisas...

E aquele caderno? O maldito caderno que era como um gatilho, lhe recordava do livro vermelho infernal que escondia todas as palavras capazes de lhe tirar qualquer gota de livre arbítrio. Ele não tinha noção se Raynor sabia disso... talvez não. Ou talvez ela soubesse e fizesse de propósito.

Bucky odiava as malditas sessões.

A verdade é que estava cansado.

Cansado das três regras, das listas de nomes, dos conselhos nem sempre producentes. Às vezes só queria jogar tudo aquilo para o alto e desaparecer, porém continuava ali, dando passos de tartaruga, e sequer sabia o porquê. A Doutora dizia que um dia ele teria que se abrir, mas Bucky sabia muito bem que se contasse a qualquer pessoa um terço do que tinha vivido, do que tinha feito, ninguém permaneceria, o afastamento era certo. Se contasse para a própria terapeuta ela certamente escreveria naquele caderno que ele devia estar na cadeia perpetuamente.

E Bucky concordaria.

Então ele não falava, ele próprio se afastava... Barnes dizia que queria paz, mas no fundo sabia que só poderia alcança-la de um único jeito.

Talvez estivesse perdido dentro da própria mente perturbada. Sem esperança de salvação.

Ganhou as ruas em passos apressados, fugindo de algo que o seguiria em qualquer lugar. Os olhos ardiam, os pulmões pareciam obstruídos, a cabeça rodava... Parou por um segundo no primeiro carrinho de rua ali na esquina, o calor de Nova York se tornando insuportável naquele momento, era quase como se não respirasse. Comprou uma água gelada e deu um longo gole, se aproximando do meio fio, enquanto tentava capturar e soltar o ar controladamente.

Sempre acabava daquele jeito depois de algumas sessões, mas sabia que passaria, logo ele assumira o controle de novo e desligaria os próprios pensamentos frenéticos. Então voltaria a focar em sua lista, se empenharia em reparar todo o mal que havia feito. Ele voltaria a tentar.

Porque isso era tudo que havia restado.

Parado no meio fio, enquanto esperava o sinal para atravessar, Bucky tirou a luva da mão direita e a colocou no bolso, então molhou a palma com a água da garrava e lavou o próprio rosto, como se isso pudesse lhe trazer alguma clareza. Às vezes era incapaz de ordenar ou entender os próprios pensamentos, sentia que se afogava em tudo aquilo.

Mas logo passaria. Tinha que passar...

A primeira leva de pedestres atravessou, porém Bucky não se moveu, ele atirou a garrava de água já vazia em uma das lixeiras e se preparou para vestir a luva de novo, não tinha que esconder a mão de carne e osso, no entanto parecia menos estranho usar duas luvas do que uma só. Tinha acabado de tirar a peça do bolso quando uma voz familiar se destacou de todo o burburinho dos que iam e vinham.

— Não Feltz, já disse que não preciso de uma sombra! — Ele virou o rosto e percebeu a garota do consultório vindo naquela direção em passos pesados.

Makayla, ele recordou o nome dito pela recepcionista.

Ela seguia em sua discussão, desatenta a tudo ao redor por causa de sua irritação evidente. Um novo grupo de pedestres atravessava a avenida, o farol ficou verde para os carros no instante em que a garota colocou o pé na faixa, ela provavelmente conseguiria atravessar em segurança na pequena janela de tempo em que os carros tinham que acelerar e engatar a marcha, no entanto a atenção de Bucky captou a moto em alta velocidade que cortava por entre os veículos.

Aquilo não acabaria bem...

Em um ato totalmente instintivo, Bucky se moveu na direção da garota e a segurou pelo antebraço, a puxando de volta para a calçada. O tranco que o movimento causou fez o celular voar para o meio da faixa de pedestres e, meio segundo depois, ser atropelado pela moto que passou direto. Os carros voltaram a seu fluxo enquanto o barulho de diversas buzinas ficava no ar.

— Você está bem? — Bucky questionou, procurando a garota com o olhar e notando que ela era ainda mais baixa, ali praticamente colada no corpo dele, do que parecia no consultório.

Ele encontrou os olhos tempestuosos, mas não obteve resposta alguma, Makayla parecia catatônica, suas íris totalmente focadas no rosto de Bucky. A primeira reação dele foi abaixar o rosto, imaginando que tinha usado a mão de vibranium para agarrar o braço da garota, isso explicaria o choque dela, mas não, a mão que ainda se mantinha firme na altura do pulso feminino era a mão de carne e osso de Bucky, pele na pele, nada de vibranium ou luvas.

Olhou para ela outra vez e repetiu a pergunta, mas novamente não obteve resposta, no entanto algo naquele olhar o fez parar também, porque as tempestades cinzentas, naquele instante enfeitadas de um azul bem mais escuro, pareciam olhar através de Bucky, diretamente na alma dele. Uma centena de micro expressões tomaram conta do rosto jovem: surpresa, confusão, dor... então medo, puro e simples, o pavor alagou as íris dela, culminando em uma tristeza tão pesada e profunda que Bucky sentiu-se refletido ali, por algum motivo que nem ele saberia explicar...

As orbes transbordaram de lágrimas, que aos poucos foram descendo pesadas pelo rosto feminino, Bucky quis dizer alguma coisa, mas nenhuma única palavra se formou em sua boca semi-aberta. De repente ele notou um filete mínimo de sangue escorrer do nariz dela, enquanto todo o corpo feminino ficava mole e desfalecia em segundos, sendo prontamente amparado pelo braço de vibranium.

— Makayla! — Alguém gritou e Bucky ergueu a cabeça ainda atônito, vendo um homem largar o carro em fila dupla para atravessar a avenida até eles.

A julgar pela idade talvez fosse o pai, era calvo e se vestia inteiro de preto, roupas sociais que em nada combinavam com o porte atlético ou com o rosto obstinado e pouco elegante.

— O que caralhos aconteceu? — Ele perguntou irritado, olhando para a garota desacordada.

Bucky queria perguntar exatamente a mesma coisa...

— Ele salvou a moça. — A voz veio de trás deles. — Eu vi tudo, a moto quase passou por cima dela, se não fosse o moço aí, já era. Depois ela desmaiou do nada.

— Valeu. — Foi tudo que o homem de preto falou quando o olhar dele se encontrou com o de Bucky. — Ela está tomando uns remédios fortes, deve ser isso. Vou levar direto para o médico.

Ele fez menção de pegar a garota, mas Bucky foi mais rápido e a ajeitou totalmente em seus braços.

— Vou colocá-la no seu carro. — Disse, já se movendo em direção ao veículo parado em fila dupla, antes que uma multidão curiosa os cercasse.

O homem de preto não pareceu satisfeito, mas seguiu Bucky de perto. Logo o corpo desacordado de Makayla estava sendo acomodado no banco de trás do veículo.

— Valeu outra vez. — O agradecimento veio de forma um tanto rude. — Talvez essa teimosa aprenda a me ouvir agora.

Barnes não respondeu, sua mente ainda estava lutando para entender exatamente o que tinha acontecido. Remédios fortes se encaixavam como uma explicação lógica, ainda mais se levasse em conta o lugar onde havia conhecido a garota, porém... isso não explicava aquele olhar.

— Eu não te conheço de algum lugar? — O homem de preto perguntou, analisando Bucky com atenção.

— Tenho um rosto comum... — A resposta veio acompanhada de um dar de ombros.

Era hora de ir embora. Tudo que Bucky não queria era ser reconhecido no meio da rua, gostava do anonimato.

— Aqui. Deixa eu te recompensar, amigo. — O cara agarrou a bolsa da garota sem qualquer cerimônia, tirou algumas notas de cem de dentro de uma carteira feminina e as esticou para Barnes, antes que ele pudesse se afastar.

Os olhos azuis gélidos focaram no dinheiro por dois segundos, depois no rosto do homem calvo e, por fim, pousaram na garota dentro do carro.

— Tenha um bom dia. — Foi tudo que Bucky disse, antes de dar as costas sem sequer cogitar pegar aquele dinheiro.

Dobrou a próxima esquina em passos firmes e logo viu o carro passar por ele e sumir na avenida.

Dia estranho.

Deixou tudo aquilo para trás, voltou a viver sua vida de reparações, focar em sua lista, planejar formas de riscar nomes, ainda assim aquele olhar tempestuoso ficou grudado dentro de sua mente feito tatuagem.

Makayla... A garota que Bucky certamente não veria outra vez, mas que, ainda assim, ele não seria capaz de esquecer.

Notas finais
E foi dada a largada... Eu disse que eles se esbarravam nas esquinas na vida kkkkkkk Acho que esse deu pra ver mais ou menos como eu pretendo seguir, criando em paralelo com a série, mostrando coisas que ficaram "fora de tela", e escolhendo não narrar o que já vimos pra não ficar repetitivo. As cenas que vimos diretamente na série só serão mostradas quando houverem modificações nelas ou quando forem essenciais para o enredo. De resto, a gente sabe que aconteceram (como a terapia do Bucky por exemplo), então segue sendo canon. Por enquanto isso, espero que tenham gostado do primeiro encontro do futuro casalzinho... E só pra referencia, eu imagino o Feltz (o segurança da Makayla) como o Jason Statham, mas ele é um personagem de pouca relevância por isso não ganhou um cast. Beijos e até breve!