Sweet Epiphany
3 Epiphanic Certainties
Notas iniciais

Estava frio, tão absolutamente frio que sua carne era perfurada pouco a pouco por milhares de pequenas estalactites de gelo. Ela não lembrava de já ter sentido um frio assim em toda a sua vida...
Doía, o simples pensamento de mover um mínimo músculo era como tortura. Seus olhos vasculharam a imensidão vazia em busca de uma resposta, onde estava?
Seus passos incertos ecoaram, e o som fantasmagórico das solas de seu sapato atingindo o metal a fez se encolher em si mesma. Tudo ali era escuro, sombrio e gelado, o ar era tão denso e pesado que parecia opressor, porém nada disso foi tão terrível e assustador quanto o grito de pura agonia que cortou o ar.
A voz masculina vinha acompanhada de tanta dor, que era como se doesse dentro de si mesma... Ela correu pelo labirinto metálico até chegar a uma sala escura, não sabia se estava correndo em direção ao som ou fugindo dele, mas eventualmente chegou a um amplo cômodo cheio dos mais macabros equipamentos de tortura, no centro de lugar os gritos vinham de um homem, preso a uma cadeira elétrica...
Os cabelos castanhos e revoltos colavam na tez suada e cada micro feição daquele ser humano deixava evidente sua dor excruciante. As ondas elétricas continuavam vindo, ligadas a cabeça dele por aparelhos complexos, seu peitoral desnudo subia e descia sem controle. Foi quando ela notou as cicatrizes do lado esquerdo, que começavam ali e subiam para o ombro, conectando a pele a um braço metálico prateado enfeitado por uma estrela vermelha.
Ela sabia quem ele era...
— Pare! — Gritou para um dos soldados, que se aproximou trazendo um livro vermelho em sua mão.
Qualquer que fosse a tentativa de ser notada, foi em vão, ninguém ali lhe ouvia... Logo os gritos pararam, dando lugar a palavras em russo, uma língua que ela nunca havia estudado, mas que naquele momento entendeu completamente.
E então ela caiu, metros e metros de escuridão. Caiu por mais tempo do que parecia certo, por mais tempo do que parecia justo, por mais tempo do que parecia humanamente suportável. Até que seu corpo atingiu o chão e tudo que havia era dor.
Ainda deitada, ela podia ver a claridade vindo lá do topo, uma pequena abertura circular que parecia tão distante quanto a Lua está da Terra. Olhando ao redor notou onde estava... O fundo de um poço.
Ao se arrastar pelo chão, enquanto cada pequeno músculo e osso de seu corpo parecia dilacerado de dor, ela percebeu que as paredes eram compostas, não de tijolos comuns, mas de cubos de gelo. Quando seus dedos esfregaram um deles, notou que havia algo ali dentro, era como olhar um globo de neve que se coloca sobre a lareira no natal...
Cada cubo tinha sua pequena cena, alguns trincados, alguns manchados de sangue, alguns tão turvos que era difícil de ver através deles. Quando tentou tirar um deles do lugar, sentiu um leve puxão.
Não estava mais no poço, seu corpo inteiro foi sugado para esse lugar claro, havia neve sob seus pés e ela podia caminhar, pois seus ossos não estavam mais dilacerados. A geada a engolia, porém seus olhos foram capazes de captar a movimentação de algumas figuras ao longe, alguns soldados vestidos em fardas soviéticas arrastavam um homem na neve.
Um rastro carmesim manchava o branco, ela notou que o caminho vermelho passava ao seu lado e o seguiu com os olhos, ali perto, esquecido na neve, um braço humano separado de seu dono fora deixado para trás...
Um grito involuntário escapou de sua garganta e seu corpo deu um tranco violento para frente. Ela abriu os olhos e a imagem desapareceu, apenas um pesadelo cruel que ficaria gravado em sua mente de modo irreversível.
— Hey. Hey. Makayla... — Seu olhar azul escuro seguiu na direção das palavras apaziguadoras. — Tudo bem. Foi só um pesadelo...
Makayla reconheceu o homem que havia acabado de se levantar de uma poltrona no canto do cômodo parcialmente escuro, era o psicólogo que tinha conhecido mais cedo, Jackson Brooks. Ele acendeu a luz, e se aproximou dela, tentou tocá-la em um gesto reconfortante, mas a jovem recuou tão automaticamente que o doutor apenas se afastou.
Os olhos azuis analisaram o ambiente em um misto de confusão e surpresa, o quarto, agora claro demais, e com alguns aparelhos de monitoramento, indicava que estava em um hospital ou clínica, mas Makayla não se lembrava de como havia chegado ali.
— Onde eu estou? — Perguntou confusa, encarando o doutor por alguns segundos. — O que você está fazendo aqui?
Jackson Brooks a observou de forma analítica e caminhou até os pés da cama.
— Você não se lembra do que aconteceu? — Ele questionou em seu tom profissional.
Eu acabei de ter esse sonho muito estranho... ela pensou em dizer, mas engoliu suas próprias palavras. Exceto que não se parecia nada com um sonho, era mais como uma memória.
— Vou lembrar assim que você me falar... — Retrucou, escolhendo a neutralidade em suas palavras e se movendo na cama para ficar melhor posicionada.
— Aparentemente você desmaiou na rua, logo depois da nossa consulta. — O terapeuta revelou, sem tirar os olhos dela por um só instante. — A teoria diz que foram os remédios... Mas eu acredito que apenas você pode dizer a verdade. Então... o que aconteceu, Makayla?
O esforço para lembrar fez com que a jovem sentisse vertigens, porém tão rápida, repentina e ferozmente quanto um acidente de carro tudo invadiu sua mente de uma só vez... Ela estava rua tentando convencer Feltz a deixá-la em paz quando alguém puxou seu braço bruscamente.
Makayla lembrava do som de uma buzina, do toque firme em sua pele e de olhos azuis tão gélidos quanto uma nevasca, e então um milhão de pequenas cenas invadiu sua mente sem permissão, toda uma vida em cinco segundos. Uma vida muito longa...
Tudo se tornou gelo, sangue, violência e dor. A culpa esmagou seu peito de uma forma tão opressora que ela sequer conseguia respirar. Estava familiarizada com a sensação de ter a mente invadida, era exatamente isso que tinha levado Makayla ao psicólogo naquele dia, as “alucinações”. Mas daquela vez, com aquele homem, tinha sido totalmente diferente.
Mesmo que seu maior receio fosse verdade, e ela pudesse ler mentes ao tocar nas pessoas, nunca fora daquele jeito, nunca tão intenso ou tão revelador, nunca tão doloroso. Geralmente um par de cenas e nada mais, algo aleatório, um sopro e fim. Porém com aquele homem... Makayla viu tudo.
E era demais, demais para qualquer pessoa. A vaga lembrança a deixava tão apavorava que ela sequer conseguia se mover. Aquilo não podia ser real...
— Makayla? — A voz do doutor Brooks fez com que ela fosse puxada de volta para a realidade.
Alucinação ou não, era melhor que ninguém soubesse.
— Devem ter sido os remédios mesmo. — Deu de ombros de forma simples. — Quanto tempo eu dormi? Já posso ir embora? Me sinto ótima.
Era mentira, se sentia péssima, uma dor de cabeça insuportável martelava incessantemente em seu cérebro e todos os seus pensamentos estava um caos completos, confundindo realidade com alucinação. Ela precisava ficar sozinha pra processar tudo aquilo.
— Não, não pode. Você está em observação. Apagou por mais de vinte horas. — O terapeuta explicou e Makayla não conteve a reação surpresa. Era muito tempo. — Seu psiquiatra veio aqui, pedi que ele retirasse seus remédios porque obviamente estavam fazendo mais mal do que bem. Vamos prosseguiu seu tratamento, mas sem opioides dessa vez.
Makayla odiava o psiquiatra, mas ficar sem o remédio pareceu pior do que ter que olhar para a cara do velho idiota.
— Mas eu preciso dos remédios... — Protestou, ganhando um olhar desconfiado do doutor Brooks.
Não era de todo verdade, mas gostava da sensação de torpor que as pílulas causavam, era mais fácil se sentir meio aérea do que encarar a realidade, além disso, era por causa daqueles remédios que sua mãe havia acreditado quando Makayla disse que as alucinações haviam sumido. Era a desculpa perfeita.
— Por quê? Teve outra alucinação? — O doutor questionou desconfiado.
— Não. — Ela rebateu de imediato, e de fato soou como verdadeiro.
— Tem certeza? — Ele estreitou os olhos na direção dela, analítico como apenas um terapeuta poderia ser.
— Absoluta. — Makayla deu de ombros.
— Então vamos ver como você reage sem a medicação... — Brooks decretou. — Esse tipo de fármaco atua nas suas sinapses nervosas e é altamente viciante, se os efeitos colaterais são graves, como desmaio no meio da rua, então os riscos não valem a pena.
Makayla não gostou do que ouviu, mas fingiu não se importar. Mentira por mentira, ela continuaria negando as “alucinações” a qualquer custo, talvez pudesse até dizer que estava curada daquela “loucura”, quem sabe a mãe acreditasse e a deixasse pelo menos em paz, sem ter uma sombra troglodita em seu encalço o tempo todo.
— Se você diz... — Deu de ombros desinteressada. — Quando eu posso ir embora?
— Logo... — O doutor garantiu. — Quer falar sobre seu pesadelo?
— Que pesadelo? — Ela respondeu no impulso e logo notou que tinha sido burrice, ela gritou ao acordar, é claro que Brooks tinha ouvido. Resolveu mudar de tática então. — Foi só um pesadelo, eu sequer me lembro, pra ser honesta.
— Makayla... — O homem respirou fundo e por um instante pareceu mesmo preocupado. — Eu não posso te ajudar se você não falar comigo. Negar os pesadelos e alucinações não é producente.
— Eu não estou negando nada. — Ela retrucou com um movimentar casual dos ombros. — Simplesmente não lembro do pesadelo, e não tenho alucinações faz tempo. Então sinto muito, se você está aqui pra colocar no seu relatório que eu sou louca, vai ter que achar outros motivos, porque esses não são verídicos.
— Eu nunca disse que você é louca. — Ele devolveu de imediato.
— Não... você só disse que estou quebrada. — Makayla completou com um sorriso cínico.
— Não foi assim... — O terapeuta corrigiu, mas a jovem não deixou que ele prosseguisse.
— Não importa como foi, importa que você está aqui pra fazer um relatório sobre a minha loucura. — Ela não estava disposta a baixar a guarda.
Era uma boa mentirosa, verdade, mas se quisesse manter aquelas “alucinações” em segredo teria que fazer bem mais do que apenas mentir, manter qualquer um longe era primordial, afinal todo mundo sempre soube que duas pessoas só podem guardar um segredo se uma delas estiver morta.
— Eu estou aqui porque quero te ajudar. — Doutor Brooks tentou argumentar. — E eu não te acho louca...
Makayla sequer se deu ao trabalho de responder, deixou que o homem continuasse:
— Na verdade eu acredito que suas “alucinações” e pesadelos são o reflexo de algum tipo de habilidade. E talvez os remédios tenham potencializado tudo isso... Se seus “poderes” são baseados em habilidades mentais, faz sentido que fármacos desse tipo tenham influência sobre eles...
— Parece que você passou tempo demais com o Feltz, Doc. — Ela riu como se o psicólogo tivesse acabado de falar uma grande besteira, no entanto aquela explicação fazia total sentido.
Por isso tudo foi tão mais intenso com aquele homem... Ele era a primeira pessoa com quem Makayla tinha contato físico desde que havia começado a tomar os remédios.
Então, certamente era melhor ficar longe das pílulas, por mais que fosse agradável sair da realidade por causa delas...
— Não é tão impossível assim, Makayla. Suas moléculas foram destruídas e refeitas por um evento de proporções cósmicas que nós humanos sequer entendemos. Acha tão difícil de acreditar que o estalo que te trouxe de volta, realinhou seu DNA de uma forma diferente, ou apenas ativou algo adormecido nele? — Doutor Brooks prosseguiu e era bem claro que seria muito mais difícil mentir para ele do que para todo o resto. — Talvez seja algum estágio da evolução natural. Algum tipo de mutação...
— E eu que sou a louca... — Ela riu outra vez, como se desconsiderasse todas as palavras do homem, embora estivesse gravando cada uma delas pra entender mais de si mesma. — Pelo menos minha mãe adoraria isso, apenas um motivo a mais para ela me odiar.
Sua ironia de defesa fez com que Makayla falasse mais do que devia, e ela percebeu isso quando o doutor a encarou um tanto surpreso. Tinha acabado de dar material para que ele analisasse...
— Sua mãe não te odeia, Makayla. — Brooks afirmou categórico. — Por que pensaria isso?
A jovem respirou profundamente, não falava sobre seus sentimentos, sobre seus temores ou pensamentos mais melancólicos com ninguém, tinha dificuldade de se conectar com as pessoas, um bloqueio talvez. Desde a adolescência tinha mais amigos próximos, e a cada ano depois disso parecia mais distante do mundo no geral. Por mais que estivesse cercada de pessoas em muitos lugares, estava sempre sozinha. Compartilhar não era seu forte.
Estava acostumada a mentir para nunca atrair atenção para si mesma.
No entanto, como toda boa mentirosa, Makayla sabia melhor que ninguém que a forma mais eficaz de esconder uma mentira era revelar uma verdade que a acobertasse. Se queria esconder aquela loucura toda de alucinações ou habilidades, a melhor maneira era dizendo algo que captasse a atenção do terapeuta.
Sua situação mal resolvida com a própria mãe era a isca perfeita.
— Por que eu vejo nos olhos dela... Está crescendo com o tempo. É claro que ela se importa comigo, mas... lá no fundo.... ela não consegue esquecer. — Respondeu, movendo os ombros como se fosse nada demais. — Quando olho pra ela eu vejo a única pessoa que eu ainda tenho, mas quando ela olha pra mim, ela vê todas as pessoas que perdeu.
Preferiu não entrar em detalhes mais profundos, torcendo para que aquilo fosse o bastante e Jackson Brooks esquecesse do resto.
— É por isso que você prefere ser louca do que admitir que tem habilidades? — Ele fez a conexão rápido demais, passando através das mentiras com uma facilidade irritante.
Makayla decidiu que não gostava daquele Doutorzinho sabe-tudo.
— Não... Eu só não vejo motivos pra admitir algo que não é verdade. — Ela retrucou de forma simples. Negaria até a morte se preciso fosse.
— Olha, Makayla... — Brooks começou, mas suas palavras foram interrompidas quando um troglodita calvo entrou no cômodo.
Fetz estava o topo da lista de pessoas que Makayla não suportava, odiava ter aquele brutamontes no seu encalço dia e noite, mas naquele instante sua intromissão foi um certo alivio.
— Ah, você acordou... — Ele disse, assim que colocou os olhos nela, sem qualquer comoção na voz. — Já era hora. Vou avisar sua mãe.
Ele tirou o telefone do bolso e por um instante Makayla até imaginou que a mãe desejaria falar com ela, mas foi uma pretensão tola, porque assim que Feltz passou a atualização do estado da jovem, Emma desligou.
Makayla automaticamente voltou seus olhos para o Doutor Brooks, erguendo uma única sobrancelha como quem diz “viu só?”.
Sua própria mãe sequer conseguia falar com ela. Não era exatamente uma surpresa dado os últimos meses, mas no fundo Makayla imaginava que logo passaria...
Ela pensou que teria que ouvir o terapeuta falando por mais uma hora, porém felizmente Feltz e seu mau-humor rotineiro queriam sair daquele hospital logo, então tudo foi acelerado e o Doutor Brooks foi basicamente expulso dali de um jeito nada agradável.
Makayla se sentiu mal por ele, Feltz podia ser extremamente grosso e indelicado...
Ainda assim ela não podia dizer que desgostou de ter sido liberada logo; os exames não denunciavam nada de errado e a retirada dos remédios devia acabar com os desmaios, não haviam motivos para que ela fosse mantida no hospital.
Então menos de uma hora depois ela estava dentro do SUV preto, voltando para seu apartamento em Manhattan. Feltz dirigia, enquanto Makayla observava a movimentação caótica do banco de trás.
Seus pensamentos vagaram soltos, onde aquele homem dos olhos azuis gélidos estaria naquele momento? Se as imagens presas em sua mente estivessem certas ele era o Soldado Invernal, ou melhor, James Buchanan Barnes. Mas não podia ser real, certo?
Makayla se lembrava de ter encarado aqueles mesmos olhos na sala de espera da terapia, teve um estranho sentimento de familiaridade, mas qual era a probabilidade de encontrar um Vingador daquele jeito? Não. Devia ter sonhado tudo aquilo. Todas aquelas lembranças tão reais e cheias de detalhes tinham que ser apenas sua imaginação hiperestimulada pelos remédios.
Tinha que ser.
Ela lembrava de um ou outro detalhe da história do Capitão América; o melhor amigo perdido para sempre, o único membro o Comando Selvagem a dar a vida por seu país e etc. Também recordava do próprio pai falando sobre o Soldado Invernal, sobre sua história trágica e sua inocência. Certamente suas alucinações e pesadelos eram apenas um compilado louco e incrementado de seu próprio conhecimento sobre o homem. O cara de olhos azuis no consultório tinha feito com que se lembrasse do Soldado, apenas isso.
Nada mais.
— Quem era aquele homem com você na rua? — Feltz perguntou de repente, fazendo com que Makayla erguesse a cabeça para encontrar os olhos dele no retrovisor.
— Que homem? — Ela devolveu, mesmo sabendo exatamente qual era o assunto.
— Disseram que ele te salvou de ser atropelada, estava com você nos braços quando cheguei.
Makayla visualizou aquela cena e sentiu um arrepio cortar seu corpo. Que bobagem.
— Não me lembro. Não faço ideia de quem podia ser. — Respondeu apenas, dando o assunto por encerrado e ignorando totalmente o olhar desconfiado de Feltz.
Daquela vez nem a própria Makayla soube dizer se era ou não uma mentira, porque seu subconsciente parecia conhecer aquele homem melhor do que qualquer outra pessoa, porém seu consciente ainda negava a veracidade daquela informação.
Ao invés disso, ela preferiu focar no interesse de Feltz; se o salvador de olhos gélidos era mesmo o Soldado Invernal, será que o segurança poderia reconhecê-lo? Makayla achava que sim, Feltz tinha andado por várias partes do governo, forças especiais e exército para não reconhecer um homem que além de um Vingador tinha sido acusado de terrorismo alguns anos antes.
Mas ele era inocente, algo em sua mente fez questão de salientar, e a imagem de um homem com os mesmos olhos gélidos, porém com cabelos e barba bem mais cumpridos lhe veio à mente... Talvez Feltz não tenha sido capaz de reconhecer o Soldado Invernal por causa disso.
Bucky. A correção repentina vinda de sua própria mente fez com que Makayla franzisse as sobrancelhas. E se fosse mesmo real? E se tivesse trombado com um Vingador na rua e invadido a mente dele sem querer?
O curioso era que, embora Makayla se achasse uma verdadeira intrusa por — talvez — ter feito isso, era ela quem se sentia invadida, incapaz de abster das imagens de dor, sangue e gelo na sua mente, incapaz de se livrar de pensamentos que não eram seus...
Talvez fosse bem mais fácil estar louca.
Quando chegou em seu apartamento, Feltz deu a péssima notícia sobre o aparelho celular que fora destruído no incidente, então ditou uma porção de ordens, que Makayla sequer se deu ao trabalho de escutar, e saiu. O segurança tinha um apartamento próprio, alugado para ele no fim do corredor, porque a jovem jamais permitiria que ele ficasse na mesma residência que ela. Não confiava nele.
Além disso aquele lugar era quase sagrado para Makayla... Ela mesma não estaria ali se não fossem todas as circunstancias caóticas...
Procurando abster de tudo aquilo, ela trancou a porta e foi direto para o quarto, no entanto sua primeira atitude foi pegar o notebook e fazer algumas pesquisas sobre o Soldado Invernal. A única foto disponível era uma antiga, preto e branco, com o homem vestido de farda.
Era ele. Makayla não tinha a menor dúvida. Era o homem do consultório. E era ainda pior, porque todas as informações que encontrou eram perfeitamente completadas com imagens de sua mente. Ela sabia mais que a internet. Detalhes que não podia ter descoberto em lugar algum. Não podia ter inventado aquilo do nada.
Era real. Makayla tinha mesmo lido a mente daquele homem...
A certeza irrefutável de que não estava ficando louca não lhe deu qualquer conforto, assim como a verdade de que tinha habilidades sobrehumanas lhe assustou bem menos do que todas as memorias que se amontoavam por sua mente...
Já havia ouvido seu pai falar do Sargento Barnes algumas vezes, tanto no podcast, quanto em casa, estava familiarizada com algumas coisas da história do melhor amigo do Capitão América, porém, saber que ele tinha ficado em posse da Hydra, sendo usado como arma por anos, era muito diferente de ver isso acontecendo em sua mente.
Os terrores que aquele homem havia suportado eram inimagináveis.
Quando mais pensava no assunto, mais detalhes lhe vinham, mais lembranças eram reveladas, era como puxar um fio e com isso ir trazendo todas as coisas. Era apavorante. Makayla não queria saber de nada daquilo, não queria ver a violência e tortura, não queria sentir o sangue em seus próprios ossos e a dor excruciante de cada choque, ela não queria escutar os gritos desesperados enquanto sabia, com toda a convicção, que aquele homem estava lutando de todas as formas para se libertar de tudo aquilo.
Era aterrorizante, era como se tivesse acontecido com ela.
Fechou o notebook e passou a mão pelo rosto suado, nada daquilo lhe fazia bem, Makayla não queria saber, não queria sentir a angústia opressora em seu peito, era demais. Tinha seus próprios traumas, julgava que todas as pessoas possuíam sua própria cota deles, mas quando se tratava daquele Soldado... não haviam palavras para descrever.
Era desumano.
Makayla lavou o rosto com água gelada no banheiro da suíte e teve um alivio momentâneo, queria simplesmente tirar tudo aquilo de sua cabeça. Não queria saber, não era certo que soubesse.
Ele não gostaria disso.
Makayla sentiu na própria pele, ela soube com aquela certeza epifânica que James Buchanan Barnes não compartilhava os traumas mais íntimos nem com a própria terapeuta, nem com o melhor amigo.
Imagens de uma despedida lhe vieram à mente, e o sentimento de solidão e abandono se apossou dela com uma força esmagadora. Um coração partido e lágrimas secretas. Uma palavra que causava dor. Steve.
“Não faça nada estúpido até eu voltar.”
“Até o fim da linha...”
Makayla sentiu o próprio coração se partindo, aquele sentimento de não ser digna; de abrir mão; de deixar ir... Doía como se tivesse acontecido com ela. Teve que se apoiar na pia para não cair.
Surgiu em sua mente a certeza do que havia acontecido com Steve Rogers — o Capitão América — seu herói de infância não tinha morrido em uma batalha, não estava na lua como diziam as teorias na internet. Ele tinha partido. Partido para um lugar onde ela não poderia seguí-lo...
Ela? Não. Aqueles não eram sentimentos e pensamentos de Makayla. Ela nunca amou Steve Rogers daquele jeito.
Aquilo era o homem de olhos gélidos. Aquilo tudo era Bucky...
No entanto as lágrimas que rolavam livres caindo na cerâmica clara da pia eram as de Makayla, porque a dor parecia real, parecia dela.
Desesperada para fugir daquela sensação opressora em seu peito, ela encheu a banheira de água gelada e jogou as roupas em qualquer lugar, o choque térmico com seu corpo quente dissipou a tristeza esmagadora por alguns instantes, porém mesmo em seus segundos de clareza mental Makayla se recusou a analisar o que tudo aquilo significava.
Não queria colocar aqueles pensamentos em uma ordem coerente, não queria entender a história por trás das lembranças... Não, ela até queria, com certeza ela queria, mas acima disso Makayla temia pensar no assunto e isso trazer ainda mais terrores à tona.
Não estava preparada para lidar com a mente do Soldado. Submergiu na banheira gelada e absorveu a ausência de sons. Deus, como aquele homem lidava com tudo aquilo?
Pensamento solto e errado que desencadeou em sua mente uma sequência de informações e respostas... Ele estava fazendo reparações.
Três regras; nomes em uma lista; gente poderosa sendo entregue para a justiça. Makayla quase ficou aliviada com o que viu em sua mente, exceto pelo fato de que ela não tinha acesso apenas às memórias, não eram apenas imagens e sons, eram os pensamentos e convicções daquele homem...
Não era apenas uma lista de compensação, era uma lista de objetivos. Coisas que ele tinha que fazer antes de se permitir ter paz... Ele não estava tentando melhorar, se curar de seus traumas, seguir em frente com a vida, esse não era o objetivo. James Buchanan Barnes não acreditava que podia superar nada, ele só queria compensar o mal que tinha feito, para ter o direito à paz.
E paz não significava uma vida calma e plena. Paz não significava felicidade. Paz não significava redenção.
Paz significava morte.
James Buchanan Barnes queria morrer.
Essa verdade tão profunda e melancólica fez com que Makayla emergisse em busca de ar. Ela conhecia a sensação de pensar que a morte era a única solução; conhecia estar tão desesperada para que a dor parasse, que não era capaz de enxergar nenhuma outra saída, porém aquele sentimento de conformidade e certeza eram novos.
Barnes não estava pensando em morrer, ele já havia decidido isso. Era um objetivo, assim como as pessoas trabalham para comprar um carro ou uma casa, tudo que aquele homem fazia era em prol de ser digno da morte.
Era isso que ele queria...
Makayla teve que limpar as lágrimas que se misturavam as gotículas de água em seu rosto, sua visão nublada e a ansiedade latente em cada um de seus músculos não a ajudavam a pensar melhor.
Saiu da banheira e caçou as primeiras roupas em seu armário. Não queria saber de tudo aquilo. Não devia saber... Mas sabia, simplesmente sabia, e ela tinha a certeza desesperadora de que não conseguiria viver como se não soubesse...
Sem se dar conta agarrou um par de luvas, um instinto que não era dela. Tinha que sair dali, pouco importava que Feltz tivesse sido categórico sobre ela estar proibida de deixar o prédio sozinha. Pouco importava o que qualquer pessoa dizia.
Makayla precisava de ar...
E... ela precisava ver o homem de olhos gélidos, nem que fosse de longe.
★☆ • ★☆ • ★☆
Não era uma noite particularmente agradável para Bucky Barnes, — não que ele tivesse alguma — o dia anterior fora um total fracasso começando por uma sessão sufocante de terapia, indo para um encontro desastroso e terminando na prova de que ele era um covarde.
Precisava ter dito a verdade para o Senhor Nakajima e nem isso foi capaz de fazer...
Estava protelando fazer aquela reparação havia muito tempo, porque sabia, bem lá no fundo, que não havia como reparar toda a desgraça que tinha causado na vida do velhinho que acabou se tornando seu amigo.
Quando começou aquela lista Bucky não imaginava que seria tão difícil riscar cada um dos nomes. Estava cansado, exausto da vida no geral, era como se estivesse se arrastando pelos dias, mesmo que tivesse um objetivo.
Reparações.
Acordava e dormia pensando nisso, mesmo seus pesadelos tinham a ver com isso de certa forma... Às vezes queria desligar a própria mente por alguns segundos, mas era impossível.
Quando acordou naquela manhã o peso do mundo parecia esmagar seus pulmões, seu apartamento vazio era claustrofóbico e solitário. Talvez a Doutora Raynor estivesse certa, ele estava sozinho, preso em seu inferno pessoal...
O encontro com Leah, a garota do restaurante, na noite anterior, apenas provou o que Bucky já sabia, ele nunca seria normal. Mesmo algo simples como conhecer pessoas ou paquerar era impossível para ele, ficava dividido entre contar uma verdade que ninguém acreditaria ou que apavoraria qualquer um, e entre contar mentiras ridículas.
Bucky odiava mentiras. Estava velho demais pra isso.
Então ali estava, no meio da noite, depois de amargar sua própria vida por todo o dia, há quatro quarteirões de seu apartamento, parado no meio da rua, encarando uma loja de quinquilharias que um dia fora sua casa. O último lugar em que tinha sido feliz de verdade, antes que a guerra o arrebatasse e arrastasse pelas décadas, deixando um rastro de sangue e dor pelo caminho.
Quando estabeleceu residência no Brooklyn meses antes, Bucky foi diretamente ali, tentaria alugar sua antiga casa, no entanto o lugar tinha sido vencido pelo tempo, nada existia da construção original, era apenas uma loja de produtos baratos, ainda assim, ele tinha alugado o apartamento mais próximo, apenas para caminhar até ali, se sentar no ponto de ônibus do outro lado da rua e ficar observando o movimento.
Era como se pudesse ver Steve e ele andando pelas calçadas juntos. Fazia tempo demais.
Barnes respirou fundo, os pulmões cansados, o corpo exausto e a mente frenética, se sentia fraco, talvez não fisicamente, porque isso era um tanto impossível, mas de formas mais profundas que isso.
Queria desistir...
Sabia que estaria decepcionando Steve se o fizesse, sabia que seu melhor amigo tinha acreditado nele quando ninguém mais poderia ou deveria e por isso continuava tentando... porém Steve tinha partido, Steve não estava mais lá para ser decepcionado ou ver o fracasso do melhor amigo. Steve havia escolhido outra pessoa. E nos piores dias — dias como aquele — Bucky se questionava se realmente valia a pena se esforçar tanto para honrar as expectativas de alguém que sequer estava mais ali.
No entanto, embora Bucky estivesse pronto para desistir de si mesmo, ele não estava pronto para desistir de Steve, então ele continuava dizendo que era apenas mais um dia, mais um nome, mais uma reparação, e assim as semanas passavam e os meses vinham...
Nada mudava. Bucky continuava sendo Bucky. Cansado demais para viver. Covarde demais para desistir disso.
Ele se levantou, deixando o ponto de ônibus para trás, as lojas já estavam fechadas e denunciavam o tardar da hora, ele sabia que não podia ficar na rua fugindo dos próprios pensamentos para sempre. Não tinha como fugir de si mesmo afinal.
Enfiou as duas mãos enluvados nos bolsos e foi caminhando pelas ruas ainda movimentadas, Nova York era a cidade que nunca dorme e o Brooklyn tinha uma vida noturna agitada, os comércios fechavam e os bares e restaures abriam, os jovens iam todos para a ruas; risadas e música, como se os problemas não existissem, como se meio mundo não tivesse sumido e voltado cinco anos depois... Bucky os invejava, queria poder desassociar dos próprios problemas daquele jeito.
Tinha cruzado alguns muitos metros quando sentiu que alguém o acompanhava. Não era algo que tivesse visto, era apenas instinto, uma sensação vívida. Ao invés de olhar para trás, apenas apurou os ouvidos e passou a prestar atenção no som ritmado dos passos. Seu treinamento como Soldado Invernal não falhava e era, de um jeito amargo, útil para alguma coisa.
Trocou de calçada duas vezes e se certificou que era verdade, estava mesmo sendo seguido. A primeira coisa em sua mente era a Hydra, mesmo que tecnicamente a organização tivesse sido desmantelada, seu segundo pensamento era alguém do governo.
A única certeza era que não podia ser boa coisa.
Ainda sem olhar para trás, torcendo para que sua aparente alienação lhe servisse de vantagem, Bucky acelerou o passo, dobrou uma esquina e saiu de perto da via principal, se afastando das pessoas e dos sons, então entrou no beco escuro que ladeava um dos prédios daquela rua. Esperou. Segundos depois os mesmos passos ritmados ecoaram no asfalto, era uma mulher pequena, ele soube pela leveza do som, ela parou por um segundo alguns metros longe da entrada do beco, Bucky podia sentir a presença, sabia que estava sendo procurado.
Prendeu a respiração e esperou, encostado contra a parede do beco escuro, que sua perseguidora voltasse a se mover. Um passo. Dois passos. Três passos...
Como um predador selvagem ele se moveu agilmente e agarrou a pessoa, a puxando para 0 beco, enquanto o couro que lhe cobria a mão direta tampava a boca dela e o braço de vibranium imobilizava o corpo significativamente menor que o dele contra a parede.
— Quem é você e por que ele está me segundo? — A pergunta autoritária era tão fria quanto o sopro de uma nevasca.
Devagar, Bucky abaixou a mão para que obtivesse uma resposta, mas manteve o corpo bem menor imobilizado de frente para ele.
— Eu... eu não estava te seguindo... — A perseguidora respondeu, se enrolando em suas próprias palavras. — Quer dizer, eu estava, mas não exatamente assim... eu só...
Os olhares se encontraram na penumbra do beco por um instante, quando as palavras desapareceram. Bucky já tinha visto aquelas íris tempestuosas antes.
— Você é a garota do consultório... — A voz dele era um misto de surpresa e confusão.
— Oi... — Ela respondeu com um sorriso sem graça.
— Por que infernos você estava me segundo? — Bucky retrucou, sendo incapaz de formular uma resposta coerente em sua própria mente.
— Eu posso explicar... Será que você pode...? — A garota moveu a cabeça de forma a indicar que continuava imobilizada.
Por mais incrivelmente estupido que fosse, não havia uma só micro expressão de receio no olhar dela, nada de medo, ela estava sozinha em um beco com um homem bem maior que ela, presa repentinamente e ainda assim parecia à vontade com isso.
Bucky não conseguia entender. As pessoas costumavam ter medo, principalmente quando ele apresentava reações bruscas...
Só então ele se deu conta do quão perto estavam, do braço de vibranium apoiado sobre as clavículas dela transversalmente e, também, do peculiar perfume floral que ela emanava. Era silvestre, mas tinha um toque adocicado e algo de muito fresco. Como um jardim coberto de orvalho no meio da madrugada.
Como se tivesse levado um choque, ele afastou vários passos imediatamente.
— Desculpa. — Enfiou as duas mãos nos bolsos da jaqueta e encarou o chão. — Eu não gosto de ser seguido no meio da noite.
— Não, não. Eu que peço desculpas. — A garota gesticulou de forma rápida, avançando dois ou três passos na direção dele. — Não era minha intenção te seguir... bom, não exatamente...
Ela voltou um passo, parou por um segundo, respirou fundo e mordeu os lábios nervosamente enquanto parecia procurar pelas palavras certas. Bucky pôde jurar que viu a garota corar, mesmo na penumbra do beco.
— Eu queria te ver. — Ela soltou de repente. — Você salvou minha vida e eu queria agradecer. Eu estava indo até sua casa e te vi no caminho, eu só... não sabia muito bem como falar com você, e estava pensando em uma forma de fazer isso enquanto...
— Enquanto me seguia. — Barnes completou e focou os olhos nela.
— Andava atrás de você. — A correção veio de imediato.
— Isso é a mesma coisa que seguir alguém. — Ele rebateu da forma mais óbvia.
— Minha versão é menos sinistra. — Ela se defendeu.
— Espera... — Bucky ergueu o indicador em riste quando processou outro detalhe. — Como você sabe onde fica minha casa?
Viu a garota abrir e fechar a boca duas vezes sem que nenhum som fosse emitido, ela fez aquilo de morder os lábios de forma nervosa outra vez, então mudou o peso do corpo para a perna oposta e Barnes já não sabia mais se aquilo era apenas uma tentativa de ganhar tempo, ou se era um sinal claro de timidez.
— A recepcionista do consultório me contou. — Ela disse por fim, encolhendo os ombros.
— Fácil assim? — Bucky franziu as sobrancelhas um tanto desacreditado. Não devia existir sigilo médico?
— Por favor não fica bravo, Bu... senhor Barnes. — Ele teve a estranha impressão de que a garota diria “Bucky”, mas talvez tenha isso apenas isso. Uma impressão. — E não conta pra ninguém, ela pode perder o emprego. Ela só quis me ajudar, depois que eu contei o que aconteceu. A culpa foi minha.
Pensou se devia ficar bravo com aquela indiscrição toda, mas no fim apenas revelou, a julgar pelas coisas que se achava na internet era bem óbvio que os jovens daquele século não tinham muito amor à privacidade. E é claro que não contaria sobre a indiscrição da recepcionista, alguém ser demitido não era uma culpa que Bucky queria carregar nas costas.
— Tanto faz. — Moveu os ombros e fez um gesto displicente com as mãos. — Nos considere quites por causa do... — Ele apontou para a parede de forma constrangida e imitou o movimento de imobilização sutilmente. — Só não segue mais as pessoas por aí, isso é perigoso. Boa noite.
Caminhou para fora do beco, na intenção de dar toda aquela loucura por encerada de uma vez por todas.
— Espera... — O corpo feminino se colocou no caminho dele. — Você salvou minha vida. Me deixa te agradecer direito, por favor. Faço questão.
— Não foi nada. Qualquer um faria o mesmo. — Bucky deu um passo para trás, tentando desviar para a esquerda.
— Pode não ter sido nada pra você, mas pra mim foi meio que questão de vida ou morte, não é? — A garota retrucou em um tom divertido e perspicaz.
— Bom... — Os ombros de Barnes se encolheram enquanto ele procurava pelas palavras. Por que aquilo era tão estranho? — De nada...?
Foi mais rápido do que a jovem e desviou, dando alguns passos para a rua e a deixando para trás.
— Me deixa te pagar um drink... — A voz feminina cortou o ar e fez com que Bucky olhasse por cima do ombro. — Por favor.
— Você não... — Tentou dissuadi-la, mas foi interrompido
— Faço questão, senhor Barnes.
Com certeza não entende o empenho e perseverança, talvez fosse coisa de gente daquele século... Pelo menos ela não estava oferecendo dinheiro como se ele fosse um mercenário. Talvez fosse apenas uma pessoa com o senso de gratidão muito forte, e isso até que era uma qualidade, além disso, ficar longe do próprio apartamento por mais algumas horas não parecia tão ruim...
Bucky se deu por vencido então, tirando as mãos dos bolsos para erguê-las no ar em rendição. A garota pareceu satisfeita.
— Tem um restaurante japonês aqui perto, podemos...
— Não. Lá não. — Ele se apressou para rebater. A última coisa que precisava era voltar naquele restaurante depois de seu encontro desastroso. — Vamos em outro lugar, qualquer outro.
— Tudo bem. — Viu as sobrancelhas femininas se franzirem em confusão, mas logo os dois estavam caminhando lado a lado na calçada. — Eu sou a Makayla, a propósito.
Os olhos azuis gélidos focaram no rosto bonito e delicado dela.
— Bucky, você pode me chamar de Bucky. — Ele disse por fim, recebendo um sorriso que não estava esperando em resposta.
— Muito prazer, Bucky.
Conhecer pessoas naquele século era sempre estranho, mas aquela história com certeza estaria no topo da lista de aleatoriedades...
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