Sweet Epiphany
4 Little Bridges
Notas iniciais

Makayla Devinne se lembrava o exato momento em que havia contado a primeira mentira de sua vida. Um presente de natal horrível; a família toda na sala; e um “Muito obrigada, adorei”, que fez surgirem muitos sorrisos. Mentiras faziam pessoas felizes, esse conceito grudou na mente da pequena garota.
Posteriormente ela aprendeu todas as outras utilidades de uma mentira, aprendeu que podia usar palavras inverídicas para se livrar de problemas.
No entanto, quando as mortes e desgraças começaram a cercá-la de todas as formas, Makayla entendeu a característica mais útil de uma mentira, ela servia para aliviar o peso nos ombros de outras pessoas, além de se tornar uma proteção quando necessário.
“Eu estou bem” se tornou o escudo de Makayla, uma mentira que ela repetia com alarmante frequência e que mesmo assim não se tornou verdade. Desde os doze anos ela não tinha ideia do que era estar bem...
Por conveniência, comodidade ou compaixão, Makayla se tornou uma mentirosa talentosa, não era algo do qual alguém devia se gabar, mas era uma característica dela.
Makayla Devinne mentia com mesma facilidade que um comediante conta piadas.
E ela estava mentindo naquele momento.
Não sobre seguir James Buchanan Barnes, isso ela realmente não teve pretensão de fazer, foi automático, também não mentiu sobre querer vê-lo, tinha mesmo essa necessidade urgente no peito, no entanto aquilo nada tinha a ver com gratidão, da mesma forma que ela não sabia o endereço dele por causa de uma recepcionista pouco profissional...
Ela sabia porque tinha estado dentro da mente dele... Ou era ele quem estava dentro da mente dela?
Makayla não tinha respostas, porém possuía algumas certezas, e uma delas era que Barnes não gostaria de saber que seus segredos mais íntimos eram conhecidos por uma garota qualquer que ele salvou por impulso na rua.
As mentiras eram por isso. Compaixão e comodidade. Afinal seria estranho contar para um desconhecido, que ela era conhecedora de todos os cantos da mente dele.
E quando mais ela pensava naquele homem, mais ela sabia sobre ele...
Apesar das pequenas mentiras, os dois caminharam pela rua lado a lado e entraram em um bar qualquer, com Makayla dando continuidade àquela pose de menina-grata, mesmo que ela se encontrasse em um momento da própria vida em que não tinha tanta certeza se devia ser grata por alguém salvá-la da morte.
Morte...
Era tudo sobre isso, certo? Era por isso que estava ali?
Makayla se importava com Barnes, como se importaria com um amigo de anos... Mesmo que sequer o conhecesse de verdade.
Era um efeito daquela loucura mental toda, certo?
Sua cabeça tinha todo aquele conhecimento sobre James Buchanan Barnes, como se de fato o conhecesse por toda uma vida. E seus sentimentos não sabiam que isso não era verdade.
E então lá estava Makayla, sentada na frente de um entranho conhecido, preocupada com a vida dele, se sentido uma verdadeira hipócrita, porque afinal, ela não se importava o suficiente nem com a própria vida...
Se eles fossem um grupo de amigos, Makayla seria aquela falando de seu grande desejo de roubar um banco para ficar bilionária, mas Barnes seria aquele que já se decidiu por cometer o crime, e está fazendo planos sólidos que o levem ao dinheiro.
Makayla apenas queria. Bucky já havia decidido. Essa era a diferença entre eles.
Mas o objetivo final nada tinha a ver com bancos ou dinheiro, era mais melancólico e sombrio que isso...
E era ali que residia a ironia, ambos estavam se afogando, mas Barnes estava na água há mais tempo, por isso Makayla tinha aquele estranho instinto de mandá-lo aguentar um pouco mais e nadar até a praia.
Talvez fosse esse o ponto, era assim que amizades funcionavam, certo? Você ampara e apoia seus amigos, mesmo quando não tem forças para fazer o mesmo por si mesma.
Exceto que eles eram amigos apenas na mente de Makayla... o que não diminuía a necessidade de fazer alguma coisa, porém certamente dificultava sua tarefa...
— Você está bem? — A voz masculina a puxou de volta.
— É... Claro. — Makayla respondeu tão rápido que de fato soou verdadeiro. Mas era apenas outra de suas pequenas mentiras...
Ela não costumava se culpar por esse tipo de coisa, dizia o que tinha que dizer e pronto, no entanto, ali, sentada em uma mesa discreta em um bar-restaurante de luzes aconchegantes, ela se sentiu mal por mentir para Bucky.
Não parecia justo. Mas a vida raramente era...
Decidiu compartilhar uma pequena verdade sobre si mesma com ele, talvez isso equilibrasse um pouco a balança. Havia mesmo uma forma de equilibrar qualquer coisa, sendo que sabia de toda a vida dele?
— É só que... eu não sou exatamente muito extrovertida, estou mais pra tímida. — Ela confidenciou com um mover de ombros.
— Sério? — Barnes devolveu com seus olhos gélidos presos nela, de um jeito divertido. — É meio surpreendente, considerando que você me seguiu e me convidou descaradamente pra um drink.
Makayla riu, a percepção de que ele era um homem engraçado lhe trouxe outras centenas de memórias de um Bucky descontraído, feliz e piadista. Um Bucky que vivia nos anos 40.
— Eu não estava te seguindo. Já falamos sobre isso. — Ela devolveu no mesmo tom, tentando não se deixar levar por lembranças que não lhe pertenciam. — Além disso, eu meio que te devia uma.
Pessoas mentalmente saudáveis agradeceriam pela vida, Makayla sabia disso, ela estava fazendo o possível para agir como alguém assim, ao invés de ser ela mesmo. Uma louca quebrada cheia de merda para lidar.
— Besteira. — Bucky moveu a mão enluvada no ar. — Qualquer um faria o mesmo.
— Pode até ser... — A jovem concordou. — Mas não foi qualquer um, foi você, é por isso que é você sentado aqui comigo agora...
O homem de olhos azuis tão gélidos deu um sorriso constrangido e desviou o olhar, Makayla soube com aquela certeza epifânica, que já estava se tornando usual quando se tratava de Barnes, que ele não tinha qualquer pretensão de ser um herói.
Era quase irônico que ele sequer se considerasse um, sendo que havia lutado por seu país na guerra e depois pelo mundo todo contra Thanos...
E era também, melancolicamente poético que ele se esforçasse tanto para fazer o certo, não por heroísmo ou ego, e sim para compensar toda a vilania pela qual ele se achava responsável.
A culpa que James Buchanan Barnes carregava consigo era esmagadora.
Makayla se perdeu nas nevascas das íris dele e, ao tentar não se afogar na neve de lembranças intrusas, ela acabou presa nos traços do rosto masculino. Sua primeira impressão de Bucky permanecia, aquela mesma que tivera quando o viu pela primeira vez na recepção daquele consultório. Ele era um homem muito bonito.
Estava lá nos traços viris, na barba por fazer, no ângulo da mandíbula, na expressão intensa. Ele era gostoso, qualquer um com olhos admitiria isso.
O pensamento atrevido de Makayla — que a fez se sentir muito mais como ela mesma do que como uma sugadora de lembranças — foi invadido pela certeza de que o próprio Bucky não achava isso. Não mais.
Houve uma época em que ele achava, se beneficiava disso e tinha orgulho até, mas agora a sensação de beleza vinha conectada a cicatrizes espalhadas pelo tronco e a um braço de metal, qualquer conceito de sensualidade estava manchado de sangue, vergonha e dor.
Makayla odiou saber disso...
Ter a mente de Barnes infiltrada na sua estava se provando um desafio enorme, era como uma guerra entre suas próprias ideias e as convicções dele. E, ao mesmo tempo, pontes imaginarias iam sendo construídas em pensamentos pares, a conectando àquele estranho que ela inevitavelmente conhecia bem demais.
Só percebeu que estava calada e olhando por mais tempo que o socialmente aceito, quando Bucky franziu as sobrancelhas, felizmente o constrangimento da situação foi dissipado pela chegada do garçom.
— Boa noite, gostariam de fazer o pedido? — O rapaz questionou, lançando um olhar nada discreto para Barnes.
O coitado parecia admirar Apolo nu no topo do Olimpo. Makayla prendeu o sorriso com os dentes, se fosse honesta conseguia até entender o fascínio que Bucky exercia... Aquela visão simples engatilhou uma memória intrusa na mente da jovem, um Sargento Barnes fardado, aos beijos com um outro soldado, e então outro e mais um, uma sequência deles, que deu espaço para mulheres diversas.
Um conquistador e tanto. Fazia sucesso.
Quando as lembranças começaram a ficar apimentadas demais, Makayla agarrou um dos cardápios sobre a mesa, tentando dissipar as imagens inapropriadas da mente, focando nas letras e opções do menu, torcendo para que seu rosto não ficasse vermelho. Aquilo não era o tipo de coisa que ela devia saber, com certeza não era.
— Uma cerveja, por favor. E... — Bucky pediu, em seguida pousando os olhos em Makayla, aguardando por uma resposta que não veio de imediato, fazendo com que ele mesmo respondesse em tom incerto. — Um refrigerante...?
Makayla sorriu no primeiro momento, teve a certeza de que Barnes gostava de mandar, principalmente em situações como aquela, mas essa certeza também trouxe a convicção mórbida de que essa parte dele tinha sido destruída pela parte que foi criada para obedecer. O sorriso morreu, ela encarou o garçom e disse apenas:
— Uma margarita com limão extra e uma porção de camarões empanados, por favor.
Precisava de álcool pra lidar com suas próprias dores, e precisava de mais ainda se pretendia lidar com aquelas que não eram suas.
O rapaz não estava muito interessado nela, mesmo assim assentiu profissionalmente e deixou a mesa, antes lançando um último olhar para seu novo fascínio.
Bucky por sua vez tinha os olhos focados em Makayla, as sobrancelhas franzidas de quem estava fazendo uma conta que simplesmente não bate.
Ela notou que não sabia o que ele estava pensando naquele momento, assim como não soube qual o motivo de não irem ao restaurante japonês, que estava bem vivo nas memorias recentes que ela possuía de Barnes. Se deu conta então que a conexão deles tinha findado junto com o contado, não incluía pensamentos presentes ou futuros.
Graças a Deus! Não estava em seus planos saber tudo que outra pessoa pensava o tempo todo.
— Tequila? — Bucky questionou de repente, citando o ingrediente principal do drink dela, quase como se não pudesse conter as próprias palavras. — Você pode beber isso?
Makayla franziu as sobrancelhas, mas foi impossível não sorrir. Adorava a sensação de finalmente não saber todos os detalhes que desvendavam aquele homem.
— Por que eu não poderia? — Ela se moveu um pouco na cadeira, em uma postura interessada.
Ele titubeou, olhou para os lados primeiro, abriu e fechou a boca, então disse de uma vez só:
— Remédios. Seu pai disse que você estava tomando remédios fortes.
Não soou como algo totalmente verídico, mas Makayla focou apenas em um ponto:
— Meu pai?
Automaticamente a mente dela começou a buscar por Danniel Devinne entre lembranças que não a pertenciam realmente. Não havia nada.
— O cara que te pegou depois do... você sabe. — Barnes gesticulou casualmente. — Careca, alto, mal encarado...
Makayla entendeu finalmente.
— Ah pelo amor de deus, não! — Ela retrucou franzindo o nariz. — Ele definitivamente não é meu pai.
A confusão no semblante de Bucky ficou ainda mais evidente que da primeira vez.
— Então ele é seu namorado? — A pergunta um tanto surpresa causou refluxo imediato em Makayla.
— Eca, não! — Ela rebateu com uma careta enojada no mesmo instante, a simples possibilidade lhe causava asco.
— Graças a Deus! — O alivio dele foi tão espontâneo que Makayla desconfiou que os dois tinham a mesma sensação de nojo por aquela situação hipotética.
No entanto, assim que as palavras saíram, Barnes pareceu arrependido. Seu constrangimento ficou claro quando os olhos azuis vagaram pelo salão e ele se mexeu desconfortável na cadeira, dando um sorrisinho sem graça.
Makayla por sua vez estava se divertindo muito com a cena toda, porque suavemente sua cabeça havia encontrado uma resposta para as reações de Bucky entre os próprios pensamentos dele, porém ela queria ver como ele se sairia tendo que explicar.
— É só que... — As mãos masculinas cobertas por luvas de couro se moveram displicentes. — Você parece nova demais pra namorar um cara daqueles.
Makayla reprimiu um sorriso e fingiu que não sabia exatamente tudo que ele tinha pensado quando a viu pela primeira vez naquela recepção. Será que iria direto para o inferno por se divertir com aquilo?
Bom, considerando que ela já sabia que iria para o inferno por tantas outras coisas, não fazia diferença...
— Okay. Vou tomar isso como um elogio. — Jogou, apoiando os cotovelos na mesa e o queixo nas costas das mãos cruzadas. — Quantos anos acha que eu tenho?
— Algo entre “nova demais” e “alguém para quem é contra lei vender tequila... ou qualquer outra bebida alcoólica”. — Bucky foi muito mais honesto do que ela esperava.
Ele não gostava de mentiras. Ela foi agraciada com essa epifania.
— Bom, idade é só um número e cadeia é só um lugar, além disso, ele não pediu minha identidade, não é? — Moveu os ombros displicente e divertida, podia simplesmente dizer a verdade, mas que graça teria?
Barnes era um homem bastante expressivo, por isso não foi nada difícil ver o quão ultrajante aquilo pareceu aos olhos dele. Makayla caiu na gargalhada.
— Você tinha que ver sua cara... — Ela comentou divertida, notando o quão confortável estava com um cara que na prática era um completo estranho.
Era inevitável, porque não conseguia se impedir de sentir que o conhecia por toda a vida.
— Feltz, o idiota calvo, trabalha pra minha mãe, ele é minha sombra desde o blip. — Resolveu explicar, mantendo o mistério com sua idade, mas dando alguma informação relevante sobre si mesma.
— Isso torna ainda mais estranho ele ter tirado dinheiro da sua bolsa pra me oferecer... — Bucky ponderou pensativo e Makayla se surpreendeu com a revelação.
— Ele te ofereceu dinheiro por salvar minha vida? — Mesmo quando a pergunta saiu de seus lábios, a jovem já sabia que jamais precisaria questionar se Barnes aceitou ou não aquele dinheiro.
Ela sabia que não.
Sabia, da mesma forma que um amigo de uma vida toda sabe exatamente as comidas preferidas do outro.
— Quatrocentos dólares. — A resposta de Bucky veio com um encolher de ombros.
— Que ultraje, eu devia valer bem mais que isso! — Makayla se fez de ofendida e sua descontração divertida arrancou um sorriso mínimo de Barnes.
Era um começo...
O garçom retornou enfim, trazendo consigo uma bandeja com o pedido que quase foi parar no chão quando o rapaz se aproximou demais da mesa. Se Makayla tivesse que apostar no motivo do desequilibro momentâneo daquele profissional acostumado a carregar bandejas bem mais cheias, ela apostaria no meio sorriso ladino de Bucky Barnes.
Pelo menos o coitado do rapaz tinha um bom motivo.
— Aqui está. — Ele disse, quando colocou a cerveja bem na frente de Barnes, com um sorriso tão grande no rosto que parecia até natal.
Em seguida colocou o camarão no centro da mesa e a margarita em qualquer lugar perto de Makayla, sem realmente se dar ao trabalho de olhar pra ela.
Era óbvio que o garçom tinha coisas muito mais importantes pra fazer, ou seja, comer Bucky com os olhos, enquanto Bucky por sua vez estava mais preocupado com a taça de margarita enfeitada com sal e limão tão perto das mãos de Makayla.
E quanto a jovem? Bom, naquele instante em particular ela estava apenas se divertindo com a dinâmica da coisa toda...
— Você não acha que devia pedir a identidade dela antes de servir essa bebida? — Barnes declarou um tanto impaciente e por um micro instante Makayla pensou que veria o pobre garçom sofrer um infarto.
Ele foi obrigado a tirar os olhos de Bucky para pedir a tal identidade para a menina, mas sequer bateu os olhos ali e já encontrou a informação que precisava, depois agradeceu constrangido e saiu em um misto de confusão e desapontamento.
Coitado...
— Acho que ele gostou de você... — Makayla lançou quando o rapaz sumiu de sua vista, voltando o olhar para Bucky que ainda parecia injuriado com a taça de margarita no meio da mesa.
Enquanto processava aquelas palavras as sobrancelhas dele se franziram, até que o entendimento passou por suas íris gélidas e ele acabou em choque completo, incapaz de esboçar uma reação coerente. Por fim apenas virou sua cerveja como se não tivesse entendido do que se tratava.
Makayla se deu conta que nos anos 40 ninguém falava abertamente sobre um homem interessado em outro. Era um mundo novo para Bucky. Além disso, ela não devia saber que ele também gostava de rapazes, tanto quanto gostava de moças, mas ela sabia...
— Então... Isso é uma identidade falsa? — Ele apontou por fim, preenchendo o silêncio com palavras, provavelmente para não ter que se afogar em álcool.
— Não que eu saiba. — Makayla riu, lembrando que ainda estavam orbitando sobre a idade dela e coisas ilegais para menores. Ela resolveu facilitar daquela vez. — Eu tenho vinte.
Bucky estreitou o olhar desconfiado.
— Isso significa que você tem quinze e foi blipada?
Makayla riu, pegando um camarão com um garfo e o mergulhando no molho. Fazia muito tempo que não saía para algo tão casual quanto se sentar em um bar com uma boa companhia, apenas para se divertir jogando conversa fora.
— Não, isso significa que eu fui blipada quando tinha vinte, e voltei cinco anos depois, ainda tendo vinte. — Ela explicou, rindo da confusão e incredulidade de Bucky. — Em resumo, não se preocupe, você não está cometendo nenhum crime por me achar gostosa nos meus jeans super apertados.
Que?
Assim que as palavras saíram dos lábios de Makayla ela se arrependeu, disse aquilo como uma piada interna entre velhos amigos, porque o fato estava ali rondando sua mente, era um fragmento perdido de um pensamento do próprio Bucky quando a viu pela primeira vez, e apenas saiu casual e inesperado, ainda mais enfatizado pelo vocabulário jovem que ela tinha.
Mas Bucky e Makayla não eram velhos amigos.
Então clima constrangedor foi a única coisa que continuou pairando entre eles.
Makayla agarrou sua taça e deu um longo gole na margarita, torcendo para que o calor e provável rubor em sua face fosse justificado pelo álcool e, principalmente, desejando que seu dialeto jovem ao verbalizar os pensamentos de Bucky fosse o bastante para que ele não se tocasse que ela sabia demais.
As sobrancelhas dele se franziram e seus olhos azuis gélidos pareceram capazes de queimar. Makayla parou de respirar por um segundo. Então ele simplesmente piscou algumas vezes, puxou a garrafa de cerveja, deu um gole e jogou um assunto qualquer na mesa, como se tivesse decidiu desconsiderar as palavras que ouviu.
Provavelmente pensou que era apenas coisa de gente jovem demais.
— Então... — Ele limpou a garganta. — Você foi blipada...
Makayla agradeceu por poderem fingir que nada de constrangedor tinha acontecido.
— Isso aí. Você? — Claro que ela já sabia a resposta, porém, dentre todas as perguntas que pessoas normais faziam umas às outras quando se conheciam, aquela era a única que não culminaria em um assunto que Barnes preferia evitar.
Não era como se pudessem falar de trabalho, família ou amigos. Todos esses seriam tópicos dolorosos para ele, e Makayla sabia disso.
— Blipado. — Barnes respondeu com um suspiro profundo. — Cinco anos de paz, pena que só durou um segundo.
Makayla conhecia aquela sensação, ela e Bucky compartilhavam de um pensamento bem parecido. Era melhor não ter voltado.
— É, eu sei como é... — Disse apenas, empurrando um pouco a bandeja de camarão na direção dele e apontando para que se servisse. — A pessoa que disse “o inferno é aqui” estava completamente certa.
Barnes concordou com um movimento curto de cabeça, mas seus olhos seguiram as mãos de femininas atentamente, ele focou ali por longos segundos até que finalmente perguntou:
— Por que as luvas?
Makayla encarou as peças de tecido fino e preto que cobriam sua pele, estava com elas desde que saiu de casa, uma escolha instintiva que fora baseada em um pensamento do próprio Bucky; ele via luvas como uma solução prática para seu problema de vibranium. Se não vissem suas mãos, não fariam perguntas, não o reconheceriam e acima de tudo, ficariam seguros.
De forma inconsciente Makayla havia absorvido essa convicção e a adaptado para os próprios problemas, com as mãos cobertas por luvas a probabilidade de encostar na pele de alguém era menor, ou seja, era mais seguro. Tanto para ela quanto para as pessoas ao redor.
A última coisa que ela queria era ser invadida pelas lembranças de mais alguém acidentalmente, já estava sendo muito difícil lidar com a mente de Bucky dentro da sua cabeça.
— É estilo... — Ela encolheu os ombros em sua mentira convincente. — Esse não é o motivo para as suas?
Bucky ergueu sua mão esquerda e encarou a luva de couro, Makayla sabia que ali embaixo estava escondida uma prótese de vibranium altamente tecnológica, podia vê-la em sua mente, mesmo que nunca tivesse colocado os olhos nela...
— Isso. Exatamente isso. — Ele concordou, fechando os dedos, antes de colocar a mão abaixo da mesa no mesmo lugar de antes.
Era uma mentira confortável para ambos, e Makayla não se importou com isso, mesmo que os olhos azuis gélidos a sua frente expressassem uma frustração clara.
Bucky não gostava de mentir, ela soube claramente, mas ele também não gostava de falar sobre suas verdades...
Isso deixava complicada qualquer interação com outras pessoas... Makayla sentiu o peso daquilo nos próprios ombros e uma melancolia sem igual a invadiu, vinda de lugar nenhum. Ela bebericou sua margarita enquanto Bucky dava um gole na cerveja, ambos presos nos pensamentos dele, cada um de sua própria forma...
Quando as bebidas voltaram para a mesa os olhos se encontraram, e assim ficaram, silenciosos, analíticos, imersos em um mundo a parte onde as palavras eram inexistentes. Makayla notou algo quase mágico naquele instante; quando estava daquele jeito, mergulhada na geada dos olhos de Bucky, a desordem completa e constante de sua mente se tornava calmaria. Cada pensamento se dissipava, os próprios e os intrusos, e não havia mais nada além do gélido azul no qual ela se afogaria com prazer... Bem ali, naquele fragmento de tempo fora do tempo, a dor era amortecida pela neve, e tudo que restava era a sensação inédita e utópica de que... tudo podia ficar bem.
Algo lá no fundo sussurrou que era cedo demais para isso... Isso o que?
E, o mais importante, o conceito de “cedo”, era aplicável quando havia uma vida inteira de outra pessoa dentro de sua mente?
Makayla não sabia. E tudo bem... enquanto ela continuasse mergulhada no azul gélido, as perguntas sem resposta não poderiam alcançá-la.
— O que você está fazendo? — A voz de Bucky quebrou o encanto, mas o sorriso confuso dele fez com que isso até valesse a pena.
“Me afogando na sua geada aconchegante”, seria a resposta mais adequada, mas Makayla sabia que algumas verdades jamais poderiam ser ditas...
— Exatamente a mesma coisa que você... encarando. — Respondeu com um sorriso desafiador.
Bucky riu de canto e negou algumas vezes, arrancando a luva da mão direita e escolhendo dispensar o garfo para pegar um camarão com os dedos. Por algum motivo Makayla ficou presa naquele movimento, seu olhar deslizou pelas veias salientes no dorso da mão masculina, que acabavam se perdendo dentro da manga da jaqueta. Quando ele mordeu o camarão e suavemente limpou a ponta dos dedos com os lábios, a mente dela entrou em um micro curto que espalhou ondas elétricas por todo seu corpo e povoou sua mente com vários fragmentos de lembranças intrusas.
Bucky podia fazer coisas extraordinárias com aqueles dedos.
Makayla gritou consigo mesma internamente, lutando para parar o fluxo inapropriado de seus pensamentos e virando sua taça de margarita de uma só vez, no mesmo instante em que Barnes voltava casualmente os olhos na direção dela.
O álcool era conhecido por nublar os problemas da mente das pessoas, talvez, se ela bebesse o bastante, as memórias intrusas silenciariam... Infelizmente, álcool também despertava as partes mais maliciosas da personalidade de Makayla, no entanto, ela estava certa que podia lidar com as próprias piadas de duplo sentido e com o tesão inoportuno, desde que não tivesse que lidar também com memórias explicitas vindas da mente de um soldado dos anos 40 com uma vida sexual dez vezes mais agitada do que a dela seria um dia.
Claro que mergulhar nos olhos gélidos de Bucky soava tentadoramente mais fácil, porém não era exatamente uma coisa normal a se fazer. Então teria que apostar no álcool.
— Você não é do tipo que fala muito, não é? — Ele comentou de repente, fazendo um gesto para pedir outra cerveja.
— Sou mais do tipo observadora. E você? — Makayla aproveitou para pedir outra margarita também.
— Depende. — Bucky respondeu de forma neutra e ambos se encararam de novo, por um momento longo demais para ser socialmente aceito.
Makayla soube que, se queria que aquilo funcionasse, teria que se esforçar para compensar o silêncio entre eles. Ainda não tinha certeza do que devia fazer, se era certo ou não, mas ela tinha essa necessidade estranha de ajudar aquele homem que só conhecia em sua mente, e entendia que pra que houvesse qualquer chance de sucesso teria que estabelecer uma conexão mutua com ele.
Bucky tinha que conhecê-la também... Era assim que as amizades funcionavam, certo?
Claro que podia ficar pra sempre mergulhada no inverno enclausurado nas íris azuis, até queria isso, mas Makayla sabia que não se veriam nunca mais se ela não criasse uma razão pra isso. E naquele momento, ela se importava com Bucky o suficiente para querer vê-lo outra vez. Mesmo que não entendesse realmente nada do que estava acontecendo com ela, com sua mente e com seus sentimentos...
— Meu pai costumava dizer que eu gastei todo meu estoque de palavras falando com meu irmão quando era mais nova. — Comentou, dando um detalhe de sua vida, que provavelmente não daria para mais ninguém.
— Seu irmão deve sentir falta disso então. — Bucky devolveu na neutralidade de uma conversa casual.
— Não. — Makayla sorriu de forma triste, não imaginou que tudo ficaria tão pesado em um só segundo. Pensou que podia dar conta... Talvez estivesse errada. — Sou eu que sinto... Ele morreu.
Não era algo que falava para as pessoas, não gostava de se sentir vulnerável daquele jeito, mas parecia justo, conhecia todas as dores de Bucky, ele podia conhecer algumas das dela. Para Makayla era uma forma de compensar o que ela tinha feito.
Sabia coisas que Barnes nunca contaria por vontade própria para ninguém, era uma intrusa, e se sentia culpada por isso. Então dizer a ele coisas que também não diria a ninguém por vontade própria, era a única forma que ela conhecia de equilibrar as coisas.
— Eu... eu sinto muito. — Bucky ficou visivelmente surpreso com a revelação.
— Eu também. — Makayla assentiu.
Encarou as próprias mãos enluvadas sobre a mesa. Droga, o que estava fazendo? Estava tentando salvar alguém de coisas que era incapaz de salvar a si mesma. Era uma garota estúpida com a mente ferrada, só isso. Tudo aquilo era um claro erro.
Não podia criar uma conexão baseada em nada, não podia compensar a invasão mental dizendo meia dúzia de palavras. Não havia um jeito de consertar nada daquilo.
Não devia estar ali...
— Eu sei como isso é... — Makayla não esperava que Bucky fosse responder. — Perdi alguém importante também, perdi muita gente na verdade, mas essa pessoa... — Ele respirou bem fundo e encarou o nada. — A gente cresceu como irmãos, mas ele era muito mais que isso pra mim... Eu podia falar com ele sem parar, por horas. Sobre as coisas mais tontas possíveis. Mas depois que ele partiu, eu só...
A palavra ficou lá, perdida no ar no meio de um suspiro pesado, mas a tentativa de Barnes de fazer com que Makayla não se sentisse sozinha em sua dor foi bem óbvia. Ela entendia porque a mente dele lhe era tão relacionável, entendia porque se importava com ele e com a dor nos ombros dele, mas não imaginou que o caminho oposto fosse possível.
O sofrimento dos dois, mesmo que tão distinto, podia construir uma ponte entre eles. Dor e perda era uma língua que ambos entendiam bem.
— Você sente que não faz mais sentido falar com ninguém... — Ela completou a frase que ficou no ar. — Porque ninguém nunca vai ser capaz de ocupar aquele lugar.
Embora falasse do irmão, ela sabia que Bucky falava de Steve.
— Exatamente... — Ele concordou, franzindo levemente as sobrancelhas em surpresa.
— O fato é que talvez a gente nunca encontre outra pessoa com quem falar como antes. — Makayla continuou, procurando uma luz de esperança para dar a Bucky, mesmo que nunca tivesse sido capaz de achar essa mesma luz para si própria. — Mas isso não significa que não podemos encontrar alguém com quem seja confortável ficar em silêncio.
Bucky sorriu, não o tipo de sorriso aberto e feliz que alguém dá espontaneamente quando sente a alegria invadir seu peito, algo mais discreto, melancólico talvez, definitivamente conformado, como se ele pudesse de fato ver a luz que Makayla se esforçou tanto para encontrar, mas essa mesma luz estivesse tão longe que o cansaço já lhe abatia antes mesmo de começar o caminho.
Porém esperança fraca, distante e difícil de alcançar, ainda era esperança, certo? Makayla queria acreditar que sim, por ele, mesmo que dentro dela não houvesse restado mais convicção alguma...
Os olhares deles se encontraram no meio do caminho novamente, porém havia algo mais daquela vez, um tipo de entendimento mutuo, que não pedia por uma palavra ou uma explicação. Eles entendiam algo um sobre o outro, algo profundo, algo que a maior parte das pessoas não eram capazes de mensurar.
Ou ao menos foi isso que Makayla pensou, mas podia só impressão, só outro detalhe que existia apenas em sua mente...
O fato é que, mesmo quando foram interrompidos pelo garçom e agradeceram pela nova rodada de bebidas, seus permaneceram conectados, incapazes de se soltarem, por mais que a situação ao redor pedisse por isso.
— Silêncio confortável parece muito melhor que conversas forçadas. — Bucky disse por fim, assim que voltaram a ficar sozinhos.
— Com a sua terapeuta? — Makayla questionou pegando sua taça de margarita.
— A própria.
— “Eu só posso te ajudar se você falar comigo”. — Ela fez uma boa imitação de Brooks.
Bucky riu um tanto surpreso:
— A sua também faz isso?
— Ele. Na verdade, é um cara legal até, mas... Eu meio que não tenho nenhuma pretensão de derramar minha vida triste na sala de ninguém. — Makayla encolheu os ombros em displicência.
— Acredite, eu sei como é... — Bucky assentiu em um misto de diversão e desgosto, segurando a garrafa de cerveja com a mão que permanecia enluvada.
— Um brinde aos nossos terapeutas e sua incrível capacidade de nos deixar desconfortáveis. — A taça de margarita foi erguida no ar.
— Saúde. — O tintilar do vidro se chocando com suavidade foi ofuscado pelo som da risada um tanto irônica que os dois compartilharam.
Era claro que tinham muito mais em comum do que Makayla havia pensado. Coisas que a mente dela não era capaz de prever, porque afinal, ler a mente de alguém e de fato interagir com essa pessoa eram duas coisas diferentes.
Bucky Barnes podia surpreender. E essa foi apenas uma das coisas agradáveis que Makayla começou a descobrir sobre ele naquela noite.
Talvez não tivesse sido uma escolha tão errada assim estar ali...
Quem sabe a luz não estivesse tão longe assim afinal.
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