Sweet Epiphany
5 Little Flirting
Notas iniciais

Se ele tivesse feito uma aposta sobre a forma como a sua noite acabaria, certamente teria perdido. Porque, mesmo suas loucuras mais aleatórias, não teriam imaginado aquilo.
Estava sentado no bar com uma garota levemente bêbada, que tinha passado a última hora comparando O Hobbit e Senhor dos Anéis com as Crônicas de Gelo e Fogo, apenas para convencer Bucky que ele tinha que ler a segunda saga citada.
Quando estava em Wakanda, Shuri fora amável o bastante para lhe arranjar exemplares da saga inteira de Senhor dos Anéis, já que Bucky só lera o primeiro livro de todos, “O Hobbit”, logo quando foi lançado. Ele costumava contar a história de Bilbo Bolseiro para Rebecca todas as noites antes de dormir...
Os livros foram como uma pequena conexão com seu eu do passado, ao mesmo tempo em que fizeram uma ponte com o presente. Posteriormente, já em seu apartamento do Brooklyn, Bucky teve tempo de sobra para ver os filmes, que divergiam dos livros em vários detalhes.
No entanto, aquela outra saga medieval, sobre dragões, caminhantes brancos e um trono feito de espadas derretidas, Bucky não conhecia. Ele preferiu seguir a lista de Steve naqueles últimos meses do que consumir qualquer coisa “da moda” por conta própria.
Porém, Makayla tinha sido tão absolutamente categórica sobre a qualidade da obra que Bucky estava considerando a recomendação. Mesmo que, segundo ela, os livros ainda não estivessem finalizados, porque “o autor, apesar de brilhante, estava mais preocupado em brincar dentro de uma bola gigante no quintal”; e mesmo que a série tivesse “um final de merda, pior que todos os finais da história das séries”. Bucky com certeza não entendeu muito tudo aquilo, mas acabou se divertindo com a conversa.
Makayla era engraçada.
Não tradicionalmente engraçada, na verdade o humor dela era mórbido e autocritico, e talvez fosse exatamente por isso que Bucky se identificava.
Muito mais do que ele esperava.
Jamais pensou que teria qualquer coisa em comum com uma garota tão nova, mas algo em Makayla a tornava uma companhia estranhamente confortável. Talvez fosse porque ela falava e agia como se o conhecesse há décadas...
Naquele instante, eles estavam parados encarando um ao outro, uma mania que ambos pareciam compartilhar e que acabava gerando longos momentos de silêncio confortável entre eles... Makayla parecia enxergar dentro de Bucky, cada segredo, cada canto escuro. Isso devia intimidar, no entanto ele estranhamente não se importava, porque havia algo mais nela; as tempestades turbulentas nas íris acinzentadas inundavam a alma dele, transbordavam, Bucky se afogava, sem ar, sem saída, incapaz de fugir dela, ainda assim, pela primeira vez em décadas, ele se sentia... limpo. Como se todos os seus pecados tivessem sido afastados dele pela correnteza causada por aquela tempestade.
E mesmo tendo essa nítida sensação, Bucky ainda achava tudo isso um absurdo irrisório, não só por ser abstrato e irreal, mas também por terem acabado de se conhecer e, porque, acima de tudo, ele sabia que nada nem ninguém seria capaz de lavar seus pecados, muito menos uma garota de vinte anos...
Ele tentou afastar aqueles pensamentos tolos e puxou a comanda contendo o consumo da mesa, que o garçom deixara ali sobre uma bandeja alguns momentos antes.
— O que você pensa que está fazendo? — Makayla questionou exasperada, no instante em que Bucky tirou a carteira do bolso traseiro.
As cinco margaritas da noite a tinham deixado muito mais falante e bem menos tímida.
— Vou pagar a conta. — Ele respondeu de forma óbvia.
— Não vai não. — Makayla puxou a comanda para o lado dela. — Todo o propósito dessa noite era eu te pagar um drink pra te agradecer por salvar minha deprimente vida de merda, lembra?
Bucky riu do jeito absurdo que ela tinha de falar, mas não deu o braço a torcer.
— Falou bem. Um drink. Eu pago todos os outros. — Foi prático, tinha perdido a conta das cervejas que havia tomado, não era justo que deixasse a garota pagar.
Sua tolerância ao álcool era elevada demais, e qualquer indicio de embriaguez acabava em um piscar de olhos, ainda assim, Bucky gostava de tentar, vai que um dia o álcool realmente afastasse seus problemas...
Makayla sorriu de canto, apoiando o queixo na palma da mão para observar Bucky.
— Tão bonito e tão antiquado, que combo perigoso... — Pelo tom era impossível adivinhar se era um deboche ou um flerte. E não era a primeira vez que Bucky ficava confuso sobre isso naquela noite. — Mas eu discordo, então vamos resolver isso como duas pessoas adultas e sensatas. — Enquanto falava, ela mudou de posição para levar a mão ao bolso e logo havia uma moeda sobre a mesa. — Cara ou coroa?
Dessa vez foi Bucky quem riu.
— Esse é seu jeito adulto e sensato de resolver as coisas?
— Tem uma alternativa melhor? — Makayla encolheu os ombros.
Por que não?
— Cara. — Ele se deu por vencido.
A moeda foi lançada no ar e Makayla a segurou, olhando o resultado por um segundo antes de fechar a mão.
— Deu coroa. Eu pago. — Disse de forma simples e decidida.
— Mentira. — Bucky rebateu com indignação. Era bem claro que a garota estava escondendo o resultado verdadeiro.
— Que ultraje, você não confia em mim? — Makayla devolveu, claramente se fazendo de ofendida, o que não funcionou muito já que ela estava rindo sem motivo.
— Eu acabei de te conhecer, você me seguiu no meio da rua e agora está bêbada... é claro que não confio em você. — A resposta foi prática, ninguém confiava tão fácil assim, mesmo se Bucky não fosse ele mesmo e não tivesse passado por tudo que passou, ele não confiaria...
— Uau. Doeu. — O drama de Makayla era uma tragicomédia. — Além disso, já concordamos que eu não estava te seguindo, só andando atrás de você.
— Não concordamos não. — Bucky estava tentando não rir da situação.
Se alguém perguntasse ele não admitiria, mas talvez estivesse se divertindo um pouquinho.
— Tudo bem então, joga você a moeda. — Makayla empurrou o objeto sobre a mesa, afastando a mão em seguida. — Quero coroa.
Bucky lançou a moeda no ar e a aparou sobre a luva de couro, vendo que tinha perdido.
— Deu cara. — Mentiu de propósito, fazendo o mesmo movimento anterior de Makayla para esconder a moeda.
Ela o observou por meio segundo antes de respirar fundo e jogar as mãos para o alto em um gesto displicente de rendição.
— Tudo bem, você ganhou.
Bucky franziu as sobrancelhas, era bem óbvio que ele estava escondendo o jogo. Ela não estava tão bêbada assim pra não reparar.
— Não vai desconfiar? — Ele questionou, estranhando a reação.
— Não tenho um só motivo pra desconfiar de você, Bucky. — Makayla rebateu simples, séria e direta.
Os olhos azuis piscaram em completa confusão. As pessoas não costumavam confiar nele. E mesmo que a garota não soubesse o que ele era, eles tinham acabado de se conhecer...
— Então você é do tipo que confia em todo mundo? — Presumiu, tentando encontrar uma resposta coerente.
— Não, eu geralmente não confio em quase ninguém. — Ela respondeu neutra, parando os olhos nele e simplesmente deixando o silêncio reinar.
Bucky perdeu qualquer reação ou linha de raciocínio. Se afogou na tempestade turbulenta das íris dela por alguns segundos, até que enfim colocou a moeda sobre a mesa.
— Deu coroa, você paga. — Ele escolheu dizer a verdade, já tinha que mentir sobre tanto, não precisava mentir sobre aquilo.
— Viu? — Makayla abriu um sorriso suave. — Como eu disse. Não tenho um só motivo pra desconfiar de você.
Bucky quase acreditou que ela sabia que ele não levaria a mentira a diante... Mas isso só seria possível se eles se conhecessem de verdade. Era o tipo de coisa que apenas um amigo de anos saberia...
Makayla pegou a comanda e se colocou de pé, seguindo até o caixa com um equilibro impressionante para a quantidade de margaritas que havia tomado. Bucky foi logo atrás, sua mente ainda examinando a mesma incógnita. Se suas memórias não estivessem completas ele pensaria que os dois já se conheciam de algum lugar.
Fez uma última tentativa de pagar a conta sozinho, mas Makayla o ignorou totalmente, então Bucky apenas se encostou no balcão enquanto esperava, fingindo que não estava notando o olhar nada discreto do mesmo garçom de antes em sua direção.
O rapaz empurrou um doce embrulhado em papel colorido na direção de Makayla.
— Quer incluir uma trufa pra dividir com o namorado? — Ele abriu um sorriso que tinha a intenção de ser inocente, mas pareceu muito suspeito.
Bucky franziu as sobrancelhas desconfiado, mas antes que pudesse ter qualquer reação Makayla respondeu.
— Não somos namorados. — A casualidade e rapidez com que ela disse aquilo fez com que os olhos azuis de Barnes se prendessem nela.
Sim, eles não eram namorados. Mas precisava responder tão depressa?
— Ah, desculpe. Erro meu. — A felicidade óbvia no rosto do garçom não condizia com suas palavras.
Bucky teve que piscar algumas vezes para acompanhar a velocidade dos microdetalhes. Aquilo era o que ele estava pensando?
A risada de Makayla enquanto eles deixavam o lugar provou que sim, o garçom queria confirmar se os dois eram namorados.
— Se ele tivesse escrito na testa “me come bonitão da jaqueta de couro” teria sido mais sutil. — Ela debochou como se estivessem falando de qualquer coisa casual que não fosse um homem interessado em outro.
Bucky não estava nada acostumado a tudo ser tão claro e simples. Ele ainda conseguia se lembrar do choque que foi descobrir que naquele século os homens ficavam plenamente confortáveis em dizer na internet que queriam se relacionar com outros homens. Ele só não entendia a necessidade das fotos com tigres... talvez fosse algum código secreto.
— Você está bêbada... — Ele devolveu apenas.
Nos anos 40 a simples menção de algo assim seria um escândalo, mesmo no exército, onde só haviam outros homens para aplacar o desejo e a solidão, eles negariam até a morte.
Apenas mais um punhado de mentiras que Bucky tinha que contar para se encaixar e sobreviver... Talvez por isso não gostasse mais de mentir sobre nada.
— Estou mesmo, fazia muito tempo que eu não colocava uma gota de álcool na boca. — Makayla riu, virando para caminhar de costas, enquanto encarava Bucky. — Mas isso não muda o fato de que estou certa.
Ela tirou a nota do bolso da jaqueta e mostrou um telefone anotado no verso.
— Pelo menos ele era bonitinho. — Estendeu o papel para Bucky e voltou a caminhar na direção normal. — Devia ligar.
Ele levou um segundo para decidir como agiria, devia negar? Makayla sequer havia perguntado se ele gostava ou não de rapazes, ela apenas presumiu isso com a naturalidade de quem olha um céu com nuvens e diz que vai chover. Como se ela realmente o conhecesse a vida toda.
Bucky colocou o papel no bolso, não porque realmente pretendia ligar para o rapaz, mas havia algo de libertador e muito confortável em não ter que negar verdades sobre si mesmo. Além disso Makayla não lhe olhou diferente em momento algum, não haviam julgamentos ali, ele era como era, e tudo bem pra ela.
Uma coisinha tão boba e tão aleatória que por alguma razão estranha a deixou ainda mais atraente aos olhos de Barnes. Ele tentou reprimir esse pensamento assim que nasceu em sua mente. Ela era muito nova, só porque não seria criminoso, não significava que não seria errado.
Ainda assim, o pensamento já estava lá, impossível de negar, assim como é impossível negar que a grama é verde... Makayla era atraente.
Caminharam em silêncio até o fim do quarteirão, o vento gelado soprando os fios castanhos de Makayla por toda a parte, e inebriando o olfato de Bucky, com o perfume de jardim noturno, mais do que qualquer dose de álcool era capaz. Quando pararam na esquina, os olhares se encontraram antevendo uma despedida que não parecia de fato desejada por nenhum deles.
Makayla deu um sorriso indecifrável que era um misto de melancolia e contentamento.
— Eu me diverti hoje... Obrigada por isso. — Ela soprou, alguns centímetros mais longe do que o espaço pessoal dos dois pediria.
Bucky respirou fundo, enchendo os pulmões com aquele perfume peculiar que o vento trazia, então sorriu quase da mesma forma que Makayla havia feito segundos antes.
— Eu me diverti também. — Confidenciou, surpreso com o fato de ainda conseguir fazer isso.
Com cento e seis anos ninguém mais tem estado de espirito para se divertir e, com essa idade e todo o histórico que ele tinha, diversão era uma palavra que sequer fazia sentido...
Ainda assim lá estava ele, parado na calçada com uma garota bonita depois de uma noite agradável. Milagres aconteciam às vezes.
— Então... eu vou pra lá. — Ele apontou para a direção que teria que seguir, mesmo que não tivesse movido um só músculo para dar o primeiro passo. — Aquele cara não vai vir te buscar?
— Eu saí escondida. — Makayla riu, levando o indicador enluvado até os lábios como quem pede silêncio ou segredo. — Shhh. Não conta pra ninguém.
Ela riu de novo pra própria piada sem sentido, mas Bucky franziu as sobrancelhas em preocupação.
— E como você vai voltar pra casa? — Questionou, dando uma olhada rápida no relógio que carregava em seu pulso de carne e osso. Eram quase duas da manhã.
— Com os meus pés...? — A garota respondeu com outra risada, encarando os próprios tênis surrados e movendo o corpo pra frente e para trás, ignorando os cadarços desamarrados.
— Não é melhor chamar um daqueles carros de aluguel? — Bucky sugeriu, porque sabia que a internet tinha uma centena de serviços que estavam a um toque de distância.
— Você quer dizer um Uber? — Makayla devolveu, claramente debochando do termo antiquado usado.
— Isso aí. — Barnes deu de ombros displicente.
— Eu chamaria, mas fiquei sabendo que uma moto destruiu meu celular. — A resposta veio com uma cópia do movimento dele.
Bucky respirou em frustação, olhando o relógio uma vez mais como se magicamente isso fosse lhe dar um cenário melhor. Enquanto isso Makayla chutava o próprio cadarço desamarrado despreocupadamente, sem nenhum intuído de lidar com aquele microproblema.
— Eu te acompanho até sua casa, então. — Ele decidiu por fim, sem sequer precisar pensar muito sobre isso. Era a coisa certa.
— Sério? Por que? — Makayla pareceu surpresa, uma reação que Bucky já havia constatado não ser muito usual da garota. Era como se qualquer coisa vinda dele fosse esperada por ela, mas aquilo não foi...
— Por que está tarde, escuro e você está bêbada, não é seguro. — Explicou, fazendo um gesto para que a garota começasse a andar. — Vou te levar até a porta da sua casa, depois eu volto.
— Uau... — Makayla esticou as vogais exageradamente, enquanto ambos atravessavam a rua lado a lado.
— O que? — Bucky perguntou, mas na verdade sua atenção estava presa nos pés dela, que a cada passo ficavam a um triz de pisar naquele cadarço solto, enquanto a própria Makayla mal se preocupava com isso.
— Isso é a coisa mais sexy que um homem já me disse desde... sempre. — Ela lançou de repente, assim que os dois alcançaram o outro lado da rua e Bucky acabou se virando em completa surpresa.
De novo ele não sabia se era um tipo de piada irônica ou um flerte, mas dada a situação preferiu pensar que era apenas o álcool falando mais alto.
— Você acabou de provar meu ponto; você está bêbada, não é seguro andar por aí sozinha uma hora dessas. — Declarou, decidido a desconsiderar as palavras dela.
Makayla apenas riu, enquanto eles caminhavam em direção a entrada do metrô. Cada passo que ela dava era um chute no cadarço, sempre um centímetro de distância antes de um acidente bobo, aos poucos aquela besteira começou a irritar Bucky mais do que ele conseguia controlar. Mesmo quando desceram a escada rolante para a plataforma subterrânea, a garota não se importou em amarrar os tênis.
Lá embaixo, uma das luzes piscava e o silêncio fantasmagórico pairava, a madrugada fazia com que a estação de metrô fosse um local um tanto abandonado. Bucky e Makayla pararam lado a lado próximo a faixa amarela de segurança e ele encarou os tênis femininos por dois segundos antes de dar alguns passos e invadir o espaço pessoal dela.
Makayla franziu minimamente as sobrancelhas, um misto de confusão e curiosidade no olhar tempestuoso. Bucky só pensou naquilo depois que já tinha se aproximado, e ele com certeza não esperava encontrar aquela atração pairando ao redor deles. Eram dois pólos magnéticos que exerciam ainda mais fascínio um sobre o outro conforme ficavam mais perto.
Bucky piscou algumas vezes, afastando para longe aqueles pensamentos tolos e se abaixando aos pés de Makayla sob o atento olhar azul cinzento. Com um pouco menos de destreza do que gostaria, por causa das luvas e da mão de vibranium, ele finalmente atou os cadarços de modo aceitável.
Quando se colocou de pé, eles ficaram ainda mais perto, presos por algo imaterial e intenso que Bucky estava tentando negar que existia, no entanto estava lá. Se fosse honesto já havia beijado garotas e caras por muito menos que aquilo...
Mas isso era antes, antes do gelo, do sangue e de todo o abuso mental, quando Bucky ainda possuía uma chama acesa dentro do peito e acreditava que podia conquistar o mundo todo. Esse não era mais ele.
E talvez aquela atração repentina e precipitada viesse da estranha mania de Makayla de agir como se o conhecesse há décadas. Mas ela não conhecia. Esse era o ponto.
O metrô chegou em fim, parando ali ao lado e fazendo com que os dois fossem finalmente obrigados a se afastar sem dizer uma só palavra. Makayla se jogou em um dos bancos do vagão e Bucky preferiu ficar de pé, apoiado em uma das barras de ferro verticais, embora não precisasse dela para manter o equilibro. O lugar estava vazio, não fosse por um homem de uniforme cinza que dormia com uma revista sobre o rosto em um dos opostos e um casal aos beijos do outro lado.
Beijos nada discretos.
Bucky se colocou de costas para eles por educação e encontrou os olhos de Makayla fixos em si.
— Então você é um herói, um cavalheiro e um ótimo amarrador de sapatos? — Ela fez aquilo da piada que mais parecia um flerte outra vez. — Está dificultando muito para todos os outros homens do planeta.
— Eu sou só um cara. — Bucky revirou os olhos e desconversou.
— A parte triste é que você realmente acredita nisso. — Makayla pareceu repentinamente melancólica, suas íris tempestuosas mergulhando tão fundo na alma de Barnes que ele podia jurar que ela era capaz de ver seus segredos mais ocultos, mesmo que isso soasse uma completa besteira.
— Você sempre faz isso? — Ele tentou não se perder nos olhos dela. — Fica encarando as pessoas por tanto tempo assim?
— Nem todo mundo vale o meu tempo, então... — Ela apenas deu de ombros casualmente, como se estivesse conformada com o fato de Bucky ser uma exceção para suas regras.
Nada daquilo fazia sentido.
— Você é uma garota muito peculiar, Makayla... — Barnes constatou com uma leve pontada de admiração na voz.
— Isso é um jeito muito educado de dizer que eu sou louca. — Ela devolveu com um sorriso perspicaz.
— Eu não disse isso. — Ele retrucou de imediato.
— Ninguém diz, não em voz alta. — Ela se ajeitou melhor no banco e encarou o nada através das janelas por uma infinidade de segundos. — Mas tem esse olhar que as pessoas dão, quando pensam que você não está vendo... Um olhar que diz tudo. Você me olha como se eu fosse louca, mas pelo menos é de um jeito bom. A maior parte das pessoas me olha assim de um jeito ruim... Elas me olham e veem apenas algo quebrado, que não tem conserto.
Não era o que Bucky pensava dela, no entanto ele conhecia esse sentimento, porque era o que pensava de si mesmo, era o que ele imaginava que passava na cabeça de todas as outras pessoas que olhavam para ele...
Droga... mesmo Steve tinha aquele olhar. Bucky conseguia se lembrar com dolorosa riqueza de detalhes de todas as vezes em que pegara Steve lhe olhando daquela forma... Havia pena no fundo de seus olhos azuis e um mundo inteiro de dor e culpa também.
Às vezes, nas piores noites, sozinho em seu apartamento, Bucky tinha aquela certeza dolorosa que Steve havia partido para o único lugar em que ele não poderia segui-lo, porque não conseguia mais olhar para o amigo e ver apenas um assassino, alguém quebrado demais para ser salvo.
Tentava se apegar a ideia de que Steve acreditava e confiava nele, mas, bem lá no fundo, Barnes tinha a convicção intima que seu melhor amigo apenas confiava e acreditava na lembrança daquilo que Bucky tinha sido um dia... No fim, Steve o julgava uma causa perdida, por isso tinha ido embora.
E se o próprio Steve Rogers havia desistido dele, quem não iria?
No fim, Bucky não sofria a perda do grande amor de sua vida, porque isso era algo que ele se conformara décadas antes que jamais encontraria reciprocidade em Steve. Bucky sofria com a ausência do melhor amigo, do irmão, daquele que tinha prometido ficar ao lado até o fim da linha...
Mas do fim de qual linha eles estavam falando?
Ainda assim, Bucky não guardava rancor, Steve fez o que tinha que fazer, correu atrás de uma felicidade merecida. Teve o fim digno e pacífico que heróis deviam ter. Teve uma família e uma vida plena. Se a felicidade de Steve era voltar ao passado para estar com Peggy Carter, Bucky também ficava feliz por ele.
E, não havia porque mentir afinal, ele próprio se abandonaria caso fosse possível...
— Desculpa... — A voz de Makayla lhe puxou de um lugar muito escuro da sua mente. — Eu fico bastante mórbida as vezes. Não se deixe levar por esse meu lado.
Só então Bucky notou que ela havia levantado e se aproximado dele, e os dois estavam apoiados na mesma barra de ferro, que subia verticalmente do chão ao teto do vagão. Ela encostou a cabeça ali e, não fosse pela luva de couro em sua mão, Bucky poderia esticar um dedo e sentir a textura dos fios de cabelo dela.
Mas isso não era algo que ele desejava, era?
— Se vale de alguma coisa, eu não acho que você está quebrada. — Declarou com convicção, não queria que alguém como Makayla tivesse aquela sensação opressora no peito.
— Então você é heroico, cavalheiro, gostoso e... meio burro. — A garota retrucou, causando em Barnes uma reação imediata de surpresa. Será que devia se ofender? — Porque meu nome do meio é ferrada. Eu sou mais quebrada que uma bicicleta que foi atropelada por um trem.
Ela riu da própria frase, enquanto Bucky ainda não sabia muito bem como reagir. A habilidade de Makayla em fazer piada com a própria tragédia era um traço muito marcante de sua personalidade, será que ele devia se preocupar?
— Amanhã você vai me fazer companhia enquanto compro um celular novo. — Ela decretou absolutamente do nada.
— Eu vou? — Bucky franziu as sobrancelhas. Aquilo não era um convite, era uma intimação.
— Sim, porque você me deve isso. — Makayla respondeu simples. — Você salvou minha vida, mas não salvou meu celular, logo, me deve companhia para comprar outro.
Barnes acabou rindo da forma prática como ela apresentava os fatos. Era realmente como se eles fossem amigos a vida toda.
— Oh, falha minha. — Ele se fez de culpado, negando algumas vezes enquanto ainda sorria de canto.
— Concordo, por isso você vai comigo, e eu estou dizendo agora, porque amanhã eu vou estar muito sóbria pra ser tão cara de pau. — Makayla abriu um sorriso inocente e travesso.
— Entendi... — Bucky respondeu apenas, sem nenhuma vontade de realmente pensar sobre esse “convite” naquele momento.
— E liga para o bonitinho do bar. — A garota ergueu o dedo em riste e causou um franzir de sobrancelhas automático em Barnes.
— Por quê?
— Por que você precisa de um namorado, ou namorada, ou os dois se você preferir. — Makayla se moveu para mais perto dele, de modo que os corpos ficaram quase colados, já que ambos ainda seguravam na mesma barra de ferro. — A palavra “comprometido” tem que estar entre a gente.
— Por quê? — Bucky repetiu, confuso com o rumo inesperado que as coisas estavam tomando.
— Por que eu sou muito irresistível e não queremos que você se apaixone por mim. — A resposta veio prática e travessa, mas a proximidade excessiva que eles compartilhavam desencadeou uma pequena sequência elétrica no corpo masculino, que despertou algo em sua mente que jazia adormecido há décadas.
— Ou talvez isso seja só você querendo uma desculpa pra não se apaixonar por mim... — As palavras saíram dos lábios de Bucky em um tom rouco aveludado, salpicadas com uma malicia despretensiosa que ele havia esquecido totalmente que possuía.
Deus, o que estava fazendo? Estava flertando com ela? Por que? O que tinha errado consigo?
Não foi algo que planejou fazer, apenas aconteceu, um instinto quase involuntário, como quando se sobe em uma bicicleta depois de anos sem andar e o seu corpo simplesmente sabe que tem que pedalar para não cair.
Bucky ainda sabia flertar... e isso era por si uma grande surpresa. Ele quase riu, era um tanto ridículo até, mas esse pequeno detalhe o fez sentir-se mais como ele mesmo do que qualquer outra coisa desde que havia fugido da Hydra.
— Talvez... — Makayla soprou ainda mais perto. — Mas nunca saberemos...
Ela ofereceu a Bucky um sorriso cheio de significados, então, antes que Barnes fosse capaz de tocar a cintura feminina em um gesto quase involuntário, ela apenas se afastou, seguindo para as portas do vagão, que se abriram quando uma voz robótica anunciou a estação.
— E por que sou eu quem tem que fazer o trabalho duro? — Bucky perguntou, enquanto seguia Makayla para fora do metrô. Mas nem ele saberia dizer porque continuava com aquela conversa. — Por que você não coloca a palavra “comprometida” entre a gente?
— Porque não sou eu com o telefone de um carinha no bolso. — Ela respondeu daquela forma simples e prática. — E eu sequer tenho um telefone nesse instante, então... Você vai ter que fazer isso pelo time.
— Você é engraçada... — Bucky constatou com um sorriso preso no canto dos lábios.
— Obrigada, é um mecanismo que eu desenvolvi pra camuflar meus traumas. — Makayla sorriu inocente e isso fez com que os dois acabassem compartilhando uma risada que se espalhou pelo lugar vazio.
Ao saírem da estação, voltando a caminhar naquele silêncio confortável que pairava entre eles, não tiveram que percorrer sequer duas quadras, para que Makayla parasse em frente a um grande prédio luxuoso da avenida.
— Lar doce lar... — Ela apontou sem muito entusiasmo.
Bucky se deu conta que estava em Manhattan, uma das partes mais nobres de Nova York. Makayla era rica.
— Você mora ali? — Ele ainda teve que duvidar.
Ela não se vestia, falava ou andava como uma garotinha rica... Embora, a verdade até estivesse bem na cara, por causa do idiota calvo que trabalhava para a mãe dela.
Apenas pessoas ricas tinham motoristas, seguranças ou seja lá o que aquele cara fosse.
— Era o apartamento do meu irmão na verdade... — Makayla encolheu os ombros, então deu um longo suspiro. — Eu não vinha aqui desde... — A frase ficou sem fim, mas Bucky entendeu completamente. — Parecia o momento certo agora.
— Eu sei o que quer dizer... — Ele comentou, pensando no quando isso se encaixava com o próprio comportamento e com o fato de ter voltado para o Brooklyn. — Às vezes nós precisamos conectar com um passado feliz, por mais que isso seja dolorido.
Os lábios de Makayla se curvaram em um sorriso triste, o vento frio soprou seus fios castanhos em direção à noite e os olhos azuis cinzentos dela focaram em Bucky de um jeito quase íntimo. Por algum motivo ele guardou aquela imagem na mente, era uma garota muito bonita... Makayla Devinne era como ler uma poesia melancólica cujos versos eram capazes de tocar a alma de qualquer pessoa, talvez fosse isso, ela havia tocado a alma de Bucky.
Ele quase riu daquele pensamento solto, porque isso seria algo trágico, não havia nada de bonito em sua alma para ser tocado, apenas dor, sangue e terrores noturnos. Ainda assim, ali estava Bucky Barnes, mergulhado em íris tempestuosas, como se isso fosse todo o conforto que sua alma cansada estava buscando...
Abstrato e imaterial, todavia, verdadeiro, como se uma ponte tivesse sido criada entre os dois.
Mas era uma estupidez absurda pensar assim, afinal só conhecia aquela menina há algumas horas, quase dois dias, se levasse em conta a primeira vez que haviam se visto....
— Melhor você entrar, está tarde. — Declarou, quebrando o magnetismo que os mantinha cativos.
Makayla assentiu em um gesto lento, então seu rosto se iluminou com um sorriso travesso.
— Sete e meia, na praça de alimentação do shopping central, vamos jantar juntos, então esteja com fome. — Ela decretou com o dedo em riste. — E não ouse não aparecer, eu sei onde é sua casa e encher a cara de margarita pra ir te buscar seria ruim pra minha saúde de merda.
Bucky riu, meneando a cabeça, sem duvidar por um segundo que Makayla era mesmo capaz de fazer uma coisa daquelas.
— Você é uma garota muito pequena pra ser tão mandona, sabia? — Comentou enquanto ela se afastava em direção ao portão do prédio.
— Eu sou uma caixinha de surpresas... Algumas delas bem ruins, mas ainda assim... surpresas. — Makayla abriu os braços para ilustrar suas palavras, então deu de ombros e o portão atrás dela foi aberto pelo funcionário de plantão na guarita.
Os dois se encaram uma vez mais, Makayla deu um passo, abriu o portão, mas voltou a pousar seus olhos em Bucky, mordendo os lábios daquele jeito nervoso, antes de lançar com uma mesura exagerada:
— Obrigada por me acompanhar até em casa, oh digníssimo Cavalheiro.
Bucky riu da encenação, mas a resposta perfeita já estava ali na ponta de sua língua.
— Boa noite, Princesa.
Makayla franziu as sobrancelhas em clara confusão, enquanto todo seu rosto corava de forma adorável.
— Você escolheu coroa e vive em um castelo, não é? — Bucky explicou com um encolher casual de ombros. — E você é bonita feito uma princesa, então...
Que merda ele estava fazendo?
Ainda assim, ele foi incapaz de se arrepender do flerte descarado quando, a última coisa que ele viu antes de finalmente dar meia volta e seguir seu caminho, foi um sorriso iluminar as tempestades cinzentas de Makayla.
Estava bem claro que Bucky não fazia a menor ideia do que os dois estavam fazendo, ou de onde chegariam com aquilo... mas talvez valesse a pena descobrir.
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