Sweet Epiphany
12 Beautiful Mess
Notas iniciais

Bucky observou Sam e Zemo entrarem no carro da frente, antes de também entrar no próprio veículo. Ficou aliviado que Wilson havia entendido sua necessidade de ficar sozinho com Makayla, mesmo antes que tivesse que dizer algo nesse sentido.
Não queria explicar aquilo para ninguém.
Sabia que, dado o caos completo em que estava mergulhado, talvez não tivesse outra oportunidade de falar com a garota, ainda devia encontrar o cientista e ir atrás dos Apátridas, mas antes precisava garantir que Makayla ficasse segura, principalmente depois de tudo que havia acontecido naquela última hora. Era o mínimo...
Devia isso a ela.
Assim que se acomodou no banco do motorista Bucky olhou para Makayla. Os olhos tempestuosos estavam nele, em expectativa. Ele hesitou, procurando algo para dizer e não sabendo por onde começar, queria que seu coração não batesse daquele jeito estúpido e desconexo, mas estava assim desde que havia dado de cara com a garota justo ali naquela maldita de ilha.
A irresponsabilidade de Makayla era revoltante.
E ainda assim, mesmo irritado com a garota de formas que nem o próprio Bucky entendia por completo, seu único instinto a todo segundo era tocar nela, desde o primeiro instante. Barnes quase mandou o disfarce para o inferno por ela, só não fez isso por causa da segurança de Sam...
E depois, quando ouviu o grito feminino e entrou naquela sala derrubando qualquer coisa no caminho, tudo foi ficando progressivamente pior. Porque, quando se tratava de Makayla Devinne, qualquer sentimento era extremo e inexplicavelmente intenso. Foi assim quando a viu ali no chão segura e o alivio dominou seus pulmões, mas também foi assim quando Bucky ficou bravo por ela estar metida naquela situação.
Mas esses dois extremos não eram a pior parte... o pior era o desejo absurdo de tocá-la, envolvê-la em seus braços e sorver o perfume de jardim noturno como se apenas isso fosse lhe trazer paz. E isso progrediu junto com sua raiva por causa das respostas atravessadas da garota, nesse ponto Barnes não queria apenas um abraço, queria agarrar Makayla pelos cabelos e tomar lhe os lábios, enquanto checava se cada parte do corpo dela estava mesmo inteira.
A tensão sexual era tão absurda que Bucky teve que se afastar quando ela se aproximou demais. Não tinha certeza se aqueles eram impulsos que ele podia controlar.
Porém de uma coisa ele tinha certeza: era o momento completamente errado para sentir aquilo...
Sequer sabia de onde havia surgido o ciúme repentino quando Makayla e Sam trocaram uma palavra. Mas o sentimento foi tão corrosivo que fez queimar nele um desejo ainda mais intenso, por um instante realmente cogitou beijá-la bem ali.
Só pra provar que Makayla era dele...
Mais não era, e Bucky sabia disso, aqueles instintos primitivos eram descabidos e ridículos, além disso Sam não tinha culpa e, no fim, acabou agradecendo por Wilson estar ali, porque, quando o pior aconteceu, foi ele quem lidou com tudo.
Sam tinha tato com as pessoas, sabia como agir e o que dizer. Bucky não teria conseguido lidar com o choque de Makayla, porque ele também estava do mesmo jeito...
Graças a Deus que Sam estava lá.
Não foi apenas o fato de uma garota ter matado alguém pra salvar a vida dele, foi a forma como Makayla fez aquilo; exatamente como o Soldado Invernal teria feito.
E Bucky soube, com uma certeza angustiante, que tudo aquilo era culpa dele. Era por causa dele.
E agora estava ali, dentro do caro com Makayla, mergulhando nas tempestades acinzentadas e procurando algo bom o bastante para dizer... Sabia que teriam que conversar sobre o motivo pelo qual ela estava em Madripoor, mas talvez essa não fosse a forma certa de começar.
A verdade é que Bucky estava confuso, porque aquela garota tinha o estranho poder de deixá-lo tenso como nenhuma arma carregada ou super soldado jamais haviam deixado. Mesmo naquele instante, apenas ali sentado ao lado dela, todo o ar ao redor deles parecia mais denso.
Barnes focou em fazer uma ligação direta e dar a partida para seguir o carro de Sharon, pelo menos, enquanto guiava, ele teria que manter os olhos longe de Makayla, e talvez isso fosse bom. Podia tirar um par de minutos para respirar fundo e pensar na coisa certa a se dizer.
Makayla se moveu no banco, abrindo o porta-luvas e checando o compartimento na porta e os brancos de trás, como se procurasse algo, Bucky pensou em perguntar, mas logo a viu encontrar lenços de papel e passar a limpar os vestígios de sangue que haviam restado em seu rosto e mãos. Ela tinha um corte no supercilio e esse ainda sangrava um pouco.
— Você está bem? — Ele perguntou, finalmente quebrando o silêncio entre eles.
Makayla esfregava os dedos com o lenço de papel, assentiu brevemente e então pousou os olhos em Bucky.
— Você? — Devolveu a pergunta, mas ele não sabia se havia acreditado na resposta não verbalizada dela.
Respirou fundo, apertando um pouco mais as mãos no volante e olhando para o carro de Sharon alguns metros a frente. Bucky não sabia se estava bem, mas ele estava vivo, e isso era o bastante naquele momento.
— Você salvou minha vida. — Declarou, como se isso fosse a resposta certa.
Makayla ainda tinha os olhos nele, nada disse até que Bucky ficasse tão tenso a ponto de tirar a atenção da estrada pra focar nela por um instante curto e, como se estivesse esperando exatamente por isso, a garota sorriu.
— Você também salvou a minha. — Ela encolheu os ombros como se fosse nada demais. — E nem foi uma vez só.
Bucky voltou os olhos para a estrada de novo, sem saber bem como devia prosseguir com aquela conversa, haviam muitas coisas a serem ditas, era difícil escolher por onde começar...
— Quando me falou que viu todas as minhas memórias, você realmente estava falando sério, não é? — Assim que a frase saiu de sua boca, ele percebeu o quanto era tonta. Devia ter pensado em outra coisa para dizer...
— Achou que eu estava brincando? — Makayla questionou um tanto confusa, focando os olhos nele, até que pareceu entender alguma coisa e assentiu, soltando um riso seco. — Não. Você achou que eu estava mentindo. Faz sentido, eu faço muito isso...
Merda. Bucky soube que tinha mesmo começado pelo tópico errado.
— Achei que você estava exagerando. — Ele esclareceu, torcendo para que isso desfizesse o mal entendido. — Ou que você simplesmente acreditava que tinha visto, mas não viu.
— Acredite. Eu vi. — A garota respondeu neutra, voltando seus olhos para a estrada parcialmente escura que ligava as duas cidades de Madripoor.
— Pois é, eu sei disso agora. — Bucky meneou a cabeça, enquanto se perdia em alguns pensamentos.
Ainda era difícil entender ou acreditar que Makayla tenha ficado sozinha com ele, trancada em um apartamento. depois de tudo que tinha visto... Ela não teve medo, nem no beco, nem quando Barnes invadiu sua casa, nem quando ele basicamente a atacou. Talvez ela simplesmente não tivesse qualquer amor à vida.
— E por que mudou de ideia? — A pergunta curiosa de Makayla fez com que Bucky alternasse o olhar entre ela e a estrada por um instante.
— A forma como você usou aquela lâmina, o ponto que você atingiu... É exatamente o que eu faria. — Ele respondeu um tanto amargo, odiava saber que toda aquela merda em sua cabeça tinha poder de influenciar as atitudes de qualquer pessoa. Principalmente quando essa pessoa era Makayla.
— Não. — A jovem devolveu convicta. — Aquilo é o que o Soldado Invernal faria. Não você.
A distinção tão clara fez com que Bucky pousasse os olhos nela rapidamente.
— E você acha que tem diferença?
— Eu sei que tem diferença. — Makayla respondeu como se fosse a coisa mais óbvia de todo o universo. — O Soldado Invernal é direto, prático, letal, tem esse instinto de violência o tempo todo. Ele é vazio, ele não sentia nada. Mas você... você pensa demais, em tudo, você luta contra esse instinto de violência todo o tempo. Você é desconfiado e ponderado, e para todas as ações você sempre coloca a palavra “não-letal” como prioridade. Você não é como ele, porque você sente demais...
Os olhos azuis de Barnes focaram na garota, não esperava nada como aquilo, ele próprio nunca se descreveria daquela forma. E era surreal ver outra pessoa fazendo isso. Queria poder dizer que Makayla não sabia nada sobre ele, mas aparentemente sabia sim. Talvez ela o conhecesse muito melhor do que qualquer outra pessoa.
— Me desculpa, isso é estranho, não é? — A risada feminina sem-graça se espalhou pelo carro e a jovem focou seus olhos através da janela.
Bucky respirou fundo e encolheu os ombros.
— Não posso dizer que é normal ou confortável. Eu até poderia mentir, mas não acho que você acreditaria. Não é? — Ele franziu as sobrancelhas, ainda confuso com como tudo aquilo devia funcionar. — Quer dizer, você pode ler mentes... Ninguém pode mentir pra você.
— Não é bem assim. Eu poderia prever algumas verdades e mentiras baseado no que eu sei de você, eu acho, assim como faria com um amigo que conheço há anos, mas como não estou na sua cabeça agora, nem eu teria certeza de certas coisas. — Ela explicou simples, sem voltar os olhos na direção dele. — Não posso ler a mente das pessoas baseado na minha vontade, é um lance de toque. Sem contato a conexão acaba, simples assim, nunca foi uma conexão em tempo real.
Bucky absorveu aquelas informações com calma, aos poucos entendia um pouco melhor toda a situação. Ainda era um tanto difícil digerir que uma garota tinha todas as suas memórias, que sabia de tudo sobre ele, que conhecia toda a sua vida e, ainda por cima, era capaz de entender tudo isso de forma coerente, melhor do que ele próprio podia...
E mesmo naquele momento, talvez ele ainda não fosse capaz de compreender totalmente a extensão daquilo tudo, os verdadeiros significados de ter toda sua vida na cabeça de outra pessoa, toda ela, até as partes íntimas... Barnes com certeza não havia ponderado as implicações com questão à sua privacidade e, mesmo assim, ele apenas se conformou com isso. Ainda se sentia um tanto culpado, responsável por Makayla de alguma forma, porém aceitou que as coisas eram como eram. Já havia acontecido, ela já tinha visto tudo que podia, não podiam desfazer aquilo.
E houve um certo conforto nisso, em saber que tinha alguém no mundo que sabia de tudo que havia para saber sobre ele, alguém que ainda estava ali, que não tinha corrido dele na primeira oportunidade. Bucky se sentiu um pouco menos solitário por causa disso.
Ele respirou fundo, os pulmões um pouco mais leves, tudo menos complicado por um instante. Podiam lidar com aquilo. Seus olhos pousaram em Makayla e ela estava com a atenção nele, como se esperasse aquele pequeno momento.
— Sinto muito, Bucky, de verdade. — Ela declarou, a culpa em sua voz era tão evidente quanto o azul nos olhos de Barnes. — Eu juro que se soubesse, eu...
— Eu sei. — Ele a cortou para tranquilizá-la, voltando a atenção para a estrada logo em seguida. — Ninguém entraria dentro da minha mente por livre e espontânea vontade. Não é um lugar muito legal pra estar. Além disso, não foi sua culpa. Você não sabia o que estava fazendo.
— Não é meu lance ser invasiva com as pessoas, esses... poderes... são o contrário de tudo que eu sou ou acredito. — Ela afirmou constrita, e era muito evidente que tudo aquilo pesava demais em seus ombros.
Bucky devia ter notado isso naquela fatídica noite...
— Por isso as luvas? — Ele adivinhou, mesmo que naquele instante ela não usasse o acessório.
— Vi que funcionava pra você e minha mente assumiu como verdade. — Makayla explicou, com os olhos perdidos na paisagem urbana. — Você usa luvas pra proteger as pessoas, era exatamente isso que eu queria fazer.
No entanto Barnes sabia que as luvas eram também uma forma de se esconder, e não queria que Makayla tivesse vergonha de quem era...
— Pode até ser... Mas talvez eu esteja errado. — Ele declarou e aproveitou para dar o ponta pé inicial em outro assunto. — Não seria a primeira vez. Faço muita merda, sabe? Digo muita merda também.
Seus olhares se encontraram por um fragmento de segundo. Se Bucky tivesse que escolher ficaria naquela exata posição, preso nas íris tempestuosas para sempre, porém estava dirigindo e, mesmo sendo um super soldado, ainda tinha que ver para onde estava indo.
Makayla pareceu entender exatamente qual era o assunto, mesmo que ele não tenha sido citado diretamente.
— Eu menti pra você. Tinha o direito de ficar bravo com isso. — Ela declarou em um tom compreensivo, depois de respirar profundamente. — Não te culpo por ter reagido daquele jeito.
Bucky sabia que não estava completamente errado, porém ele entendia que também não estava certo. E era isso, essa pequena ambiguidade, que lhe corroeu por dentro pouco a pouco no decorrer daqueles dias.
— Mesmo assim, sinto muito. — Ele disse finalmente. — E, eu sei que você tem o direito de ficar brava comigo também, eu só...
— Não estou brava com você. — Makayla cortou, e Barnes pousou os olhos nela porque aquilo foi dito tão rápida e honestamente que ele não tinha como duvidar.
Ela devia estar brava, mas não era só isso...
— Então por que não atendeu o telefone ou respondeu minhas mensagens? — Ele questionou.
Makayla franziu as sobrancelhas de forma confusa e surpresa.
— Você ligou? — Ela parecia desacreditada. — Eu quebrei aquele aparelho, então... — Parou de repente, como se tivesse percebido algo importante. — Espera, então eu sou a garota do celular?
Bucky fez uma careta de desgosto, junto com uma nota mental sobre quebrar o nariz de Sam Wilson assim que tivesse oportunidade, então respirou fundo e agiu como se aquela pergunta nunca tivesse sido feita.
— Eu fui atrás de você... — Assim que as palavras saíram de sua boca ele se arrependeu delas. — Mas não invadi seu apartamento dessa vez. O porteiro disse que você saiu pra viajar.
— Sério? — Makayla ainda tinha aquela expressão desacreditada no rosto, mesmo que houvesse um sorriso discreto em seus lábios.
— Nem sempre eu invado a casa das pessoas. Foi uma medida desesperada... E eu sinto muito. — Bucky se explicou, pensando que estavam falando daquela fatídica noite.
— Eu estava me referindo a você ter ido atrás de mim. — A garota esclareceu e o interesse em sua voz era palpável. — Você foi mesmo?
— Fui. — Barnes respondeu, mas quando seus olhos cruzaram com os de Makayla viu algo parecido com dúvida ali. — Acha que eu estou mentindo?
Ela não respondeu, Bucky não entendia a surpresa e a incredulidade nas íris tempestuosas dela, então acabou fazendo a primeira coisa que lhe veio à mente.
— Você pode ver se quiser. — Ele simplesmente tirou a mão direita do volante e a estendeu na direção de Makayla, mas dado a forma como a jovem reagiu, de forma assustada até, Bucky recuou um pouco. — Se não for doloroso pra você, é claro.
Os olhos de Makayla permaneceram na mão de Bucky enquanto ela remexia seus dedos desconfortavelmente. Barnes não conseguiu vislumbrar o que ele tinha feito de errado, mas soube que com certeza fizera alguma coisa. Dava pra notar pela postura da jovem, havia algo de trêmulo nela, no modo como ela respirava talvez.
— Você falou que eu não devia tocar em você... — Makayla disse enfim, mas não ergueu o olhar para encarar Bucky.
Ele entendeu qual era o problema; claro que lembrava do que tinha dito naquela noite, só não imaginou que, dentre todas as outras coisas, justamente aquilo seria o que magoaria Makayla.
— E eu sinto muito por isso, eu estava bravo e descontrolado. O idiota na televisão não ajudou muito também. — Tentou explicar, sem saber ao certo se aquilo adiantaria de alguma coisa. — Me desculpa se eu te ofendi ou magoei. Você não mereceu aquilo.
Observou enquanto Makayla se perdia em si mesma, como se tivesse passando por algum tipo de análise mental. Tudo que Bucky conseguiu pensar naquele momento foi que havia magoado a jovem muito mais do que palavras seriam capazes de explicar.
Para alguém com o tipo de habilidade que ela possuía, toques deviam ser um assunto delicado... Bucky não pensou antes de falar, porque estava nervoso e um tanto descontrolado, mas quando disse aquelas palavras não teve intenção de rejeitar a jovem. Não era sobre ela e as habilidades dela, era sobre ele precisar de espaço, sobre ter que ficar sozinho pra entender os próprios pensamentos e a fúria descontrolada que nasceu dentro de si, assim que viu Walker com aquele escudo.
Se pudesse voltar atrás, faria isso.
No entanto, não havia como voltar atrás, e talvez Makayla não estivesses disposta a esquecer aquilo...
— Mas, se você não quiser ou puder perdoar...
— Não. — Ela o cortou, piscando algumas vezes como se estivesse espantando os próprios pensamentos. — Eu entendo. Realmente entendo. — Os olhos tempestuosos encontraram os gélidos por um instante. — Mas não tenho nada pra perdoar, porque nunca culpei você.
Makayla ofereceu a Bucky um sorriso compassivo, no entanto para ele aquele gesto pareceu tão triste e melancólico que só fez com que ele se sentisse ainda mais responsável por tudo.
— Só porque você não me culpava, não quer dizer que não ficou magoada com isso. — Declarou, pousando os olhos nela, quando teve que parar o carro no cruzamento, enquanto outros veículos cruzavam a avenida.
Logo as íris tempestuosas se voltaram para Barnes, o silêncio dizendo muito mais do que qualquer palavra poderia.
Ele havia quebrado a regra número dois...
Sem pensar muito nas implicações daquilo, agindo pelo impulso que aquele magnetismo dos dois causava em si, Bucky moveu a mão direita e tocou o rosto de Makayla, os dedos deslisando suavemente pelas bochechas dela em uma carícia sutil, até que alcançassem os fios castanhos, como se essa fosse a intenção todo o tempo. Ela tinha a pele delicada e macia, estava um pouco gelada naquele momento, provavelmente por causa do vento frio que circulava pelo carro através dos vidros abertos.
Enquanto seu toque contornava a orelha dela, Barnes notou que o acessório em forma de gato estava ali... Mais prateado e brilhante do que quando o deu a ela no parque, porém evidentemente a mesma peça.
Algo dentro de Bucky gostou muito de imaginar que Makayla não havia tirado aquele brinco desde que o colocara pela primeira vez. Porque isso foi como pensar que tinha algo palpável que realmente os conectava. Como uma prova secreta de que ela era sua garota...
— Sinto muito, princesa, de verdade. — Barnes soprou, sem tirar os olhos da jovem. — Eu realmente sinto muito, por tudo.
Makayla moveu a cabeça sutilmente de forma positiva, mas nada disse, era como se estivesse mergulhada nos olhos de Bucky, ou talvez esse fosse ele naquele momento, preso nela, hipnotizado, rendido. Quando os lábios femininos se curvaram lentamente, ele sentiu um desejo surreal de beijar aquele sorriso...
Na verdade, talvez tenha até se movido naquela direção, mas tudo isso se perdeu quando uma buzina cortou o ar e ambos levaram um susto, voltando imediatamente a olhar para a rua.
Os carros haviam voltado a andar e alguns deles não tinham muita paciência para esperar Bucky fazer o mesmo, só então ele notou que o veiculo que Sharon dirigia já estava pelo menos cem metros a frente.
Tinha esquecido completamente de onde estavam, não podia fazer aquilo de novo, não era seguro.
Enquanto acelerava e cortava a distância até Sharon, Makayla respirou fundo, quebrando o silêncio com uma pergunta inesperada.
— Por que você me deixaria ler sua mente de novo?
Só então Bucky se deu conta que provavelmente aquilo havia acontecido naquele exato momento, mas não importava...
— Porque você já leu. A minha vida toda não é mais segredo pra você. Alguns dias a mais ou menos não farão tanta diferença assim. — Devolveu com um mover de ombros simples, porém só então reparou na real amplitude da coisa.
Makayla não via apenas lembranças, ela lia pensamentos. E Bucky com certeza tinha um compilado nada apropriado de pensamentos sobre ela em sua mente, que agora não eram mais secretos.
Merda!
— Claro que você tem que ter em mente que eu não controlo meus sonhos e também que as vezes meus pensamentos falam umas coisas meio... — Ele gesticulou constrangido, sem saber como terminar. — Melhor desconsiderar essas partes...
Riu sem-graça, porém Makayla não fez o mesmo, os olhos dela estavam presos em algum ponto lá fora.
— Eu não posso mais ler sua mente, Bucky. — Ela disse de repente — Nem a sua nem a de ninguém.
— Você descobriu como controlar suas habilidades? — Ele franziu as sobrancelhas, sem entender o real significado daquele comentário.
— Eu descobri como... me livrar delas. — Makayla revelou, ainda sem encará-lo. — Foi isso que eu vim fazer em Madripoor.
— O que? — Foi a única coisa que Bucky conseguiu dizer, enquanto sua mente se enchia de todos os significados e problemas daquilo.
Ela não podia estar falando sério.
— Inclusive, acho que conheço o homem que você está procurando, eu estava com ele todos esses dias. Te levo lá, é caminho. — A jovem revelou, como se estivessem falando de algo casual.
— Está dizendo pra mim que deixou um cientista louco brincar de Deus no seu corpo? — O tom indignado e irritado na voz de Barnes era perceptível.
— Isso soou muito mais pornográfico do que foi de verdade. — Makayla riu, e isso deixou Bucky ainda mais nervoso.
— Não tem graça, Makayla! — Repreendeu, segurando o volante com mais força que o necessário. — Você tem as minhas memórias na sua cabeça, isso quer dizer um monte de momentos de merda com cientistas e, mesmo assim, realmente não considerou o que podia acontecer com você?
Ela respirou fundo, claramente frustrada ao ver a reação dele.
— Eu decidi pagar o preço. — Devolveu naquele tom irônico que tinha quando fazia piadas sarcásticas. — O que de pior podia acontecer? Morrer? Não era tão ruim assim.
Bucky tremeu de puro descontrole, todos os cenários em que aquilo podia ter dado muito errado passando por sua mente como um filme de terror. Teve que tirar a mão de vibranium do volante, antes que o objeto se partisse sob a tensão de seus dedos.
— Mas seria bem ruim ser feita prisioneira e ter suas vontades arrancadas de você, pra te transformarem em uma arma. Você pensou nisso? — Rebateu, mal conseguindo controlar seu tom ou o peso de suas próprias palavras. — Não. Não pensou. Tem certeza que tem minhas lembranças?
— Eu não sou um super soldado, eu... — Makayla tentou argumentar, porém Bucky a cortou.
— Não, você não é! Esse é o ponto. Você não sofreu experiências pra ter qualquer habilidade, elas vieram naturalmente. — Ele mal conseguia ver a rua naquele momento, embora seus olhos estivessem focados ali. Pensar em Makayla presa em um laboratório enquanto era estudada despertava algo primitivo e amargo dentro de si. — As pessoas vão querer saber como isso aconteceu...
— Acha que eu não sei disso? — Ela rebateu por cima das palavras de Bucky de forma enérgica, porém ainda bem mais calma que ele. — Foi exatamente o motivo pra eu não querer essas habilidades. Elas machucavam, eram inoportunas e a minha própria mãe me odiaria se soubesse. Eram as minhas habilidades, no meu corpo, eu tinha o direito de decidir o que fazer com elas. Goste você ou não.
Bucky respirou fundo, mal conseguia processar a própria indignação naquele momento, os sentimentos se misturavam dentro dele de forma desconexa, preocupação, medo, raiva e um desespero estranho que ele era incapaz de decifrar realmente. Mesmo assim tentou controlar seu tom de voz e ser sensato, embora talvez não tenha dado tão certo:
— Olha, Makayla... eu sei disso, porém você devia ter feito as coisas com responsabilidade e segurança. Mas você não fez, você correu para o primeiro cientista louco no caminho, que provavelmente colheu dezenas de amostras do seu DNA e vai fazer sabe se lá o que com elas.
Eles não se olhavam, o clima do carro era frenético e tenso ao mesmo tempo.
— Ah entendi! — Ela riu sem qualquer traço de humor, com a voz carregada de sarcasmo. — Esse é o problema...
Algo na forma como Makayla disse aquela uma frase, com deboche talvez, fez com que Bucky perdesse parte do controle.
— O problema é que você não liga para a própria segurança! — Sua mão direita bateu contra o volante e o carro tremeu na estrada, mas continuou em seu rumo, sem maiores problemas. — Olha onde você está, Makayla! É a merda do lugar mais perigoso do mundo, não é uma ilha paradisíaca onde as pessoas fazem turismo, caramba! Você foi sequestrada e disse pra uma criminosa atirar em você! O que infernos você estava pensando?! Acha que não estou vendo seus braços? — Ele apontou para os hematomas visíveis na pele clara dela, que eram tão assustadores para Bucky que ele sequer conseguia colocar aquilo em palavras. — Você deixou um desconhecido te drogar, furar e cortar. E isso é só o que eu consigo imaginar, sabe se lá o que mais aconteceu com você nesses dias. — O simples pensamento, tinha efeitos drásticos dentro do peito dele. — Que merda, Makayla! O que você vai fazer depois? Se jogar de uma ponte?
Barnes pousou os olhos na jovem e por um instante ela também o encarou, pareceu que diria alguma coisa, mas não fez isso, apenas engoliu as próprias palavras e voltou a encarar a rua com uma expressão totalmente vazia.
Bucky soube que tinha ido longe demais...
— Olha, eu só quero que você fique segura. Não quero que se machuque. — Argumentou, depois de respirar muito fundo e controlar o tom de voz. — Eu me importo com você.
Aquela era a única verdade, era isso que fazia o coração de Barnes bater tão desesperado no momento, ele se importava demais com ela.
— É claro que você se importa. Você se importa com o mundo todo, é isso que um herói faz. — Makayla devolveu, havia um misto de ressentimento e tristeza em sua voz, mas no geral ela estava vazia e distante. — Já entendi que coisas horríveis podem ser feitas com o meu DNA e eu devia ter pensado nisso, devia ter pensado em todo mundo antes de pensar em mim. Eu fui egoísta, me desculpa.
Bucky passou os dedos de vibranium por seus fios de cabelo castanhos frustrado.
— Eu não disse isso, Makayla... — Tentou explicar, mas era evidente que havia naquele instante uma distância invisível e intransponível entre os dois.
— O prédio é aquele ali, Bucky. — A jovem apontou apenas, indicando que a conversa estava finalizada.
Barnes deu uma buzinada sutil para que o carro de Sharon fosse alertado, então assumiu a dianteira, sabia que seria seguido, no entanto seu rumo ou a missão em si pouco importavam, porque sua atenção ainda estava em Makayla.
Ela tinha se movido um pouco para o lado oposto, não só os olhos focados lá fora, ou o rosto virado na direção da janela, todo o corpo dela parecia posicionado para afastar os dois.
Quando o carro parou em frente ao prédio indicado, Makayla automaticamente abriu a porta, mas Bucky não deixou que ela saísse, segurando-lhe a mão antes disso. Seus olhos se encontraram então.
— Não faz isso... Por favor. — Ele pediu, apertando os dedos dela entre os seus.
Não queria que as coisas ficassem mal resolvidas entre eles outra vez.
— Eu já entendi seu ponto, já pedi desculpas. — Makayla devolveu e embora não fosse dura nem tivesse erguido o tom de voz, era evidente que estava distante, ofendia talvez. — O que mais você quer que eu faça?
Ela não esperou que Bucky respondesse, apenas escapou de seu toque e desceu do carro, e muito embora ele tenha feito o mesmo imediatamente, o momento da conversa havia acabado, porque Sharon estacionou seu carro ali ao lado e logo Sam estava caminhando na direção de Barnes.
— O que estamos fazendo aqui, Buck? — Ele questionou olhando a fachada do lugar. — Sharon não ficou feliz de parar, tem pessoas tentando matar a gente, lembra?
Era hora de voltar para a missão, Barnes teve que lembrar a si mesmo que ainda haviam super soldados soltos por aí, além de um cientista maluco capaz de recriar o soro.
— Wilfred Nagel tem um laboratório nesse prédio. — Informou, ganhando a atenção de Zemo que também havia acabado de descer do veículo.
— Como você sabe disso? — O Barão questionou curioso.
— Eu contei pra ele. — Makayla respondeu e se virou caminhando em direção a entrada.
— Eu não acho que isso é uma boa ideia. — Sharon opinou, se juntando a eles com uma expressão nada satisfeita.
— Ultimamente nada tem sido uma boa ideia. — Bucky disse apenas, respirando fundo e adiantando seus passos, antes que a irresponsabilidade de Makayla a fizesse levar um tiro.
É claro que não puderam entrar por bem, os homens na portaria estavam prontos para impedi-los, mas sequer duraram dois minutos contra Bucky...
Logo todos eles estavam dentro do prédio, arrumando suas armas, parados na frente do elevador que Makayla tinha acabado de chamar, já que era a única sem nada nas mãos.
— Então você veio até aqui pra receber o soro do super soldado? — Zemo perguntou de repente, analisando a garota de cima a baixo e focando nos braços machucados.
Estava desconfiado dela, claramente.
— É, foi isso aí. — A jovem respondeu, agindo tão casual que nem parecia mentira. — Vai me matar agora?
— Makayla! — Bucky repreendeu, enquanto as portas metálicas se abriam.
Ela tinha que parar com a manina de desafiar assassinos com armas em punho... Barnes tinha certeza que Zemo não hesitaria em matar um super soldado.
— Não foi por isso que eu vim. — A garota corrigiu, enquanto eles entravam no elevador e ela apertava o botão que os levaria ao decimo terceiro andar. — Eu vim porque tinha uma habilidade e não queria ter mais.
Bucky não tinha muita certeza se achava certo revelar aquilo para todo mundo tão fácil daquele jeito. Ela não contou pra ele logo de cara, porque estava contando para justo para o Zemo?
— Uma habilidade dada por outro cientista? — É claro que o Barão se interessou.
— Não, uma natural. — Makayla respondeu neutra, no entanto seu tom não era exatamente amigável. — Se é que você considera natural ser desintegrada por joias intergalácticas e depois refeita do pó pelas mesmas joias.
— E que habilidades você tinha? — Sam questionou, e Bucky reparou que Sharon era a única ali, além dele próprio, que não parecia surpresa com a revelação.
— Eu podia ler a mente das pessoas quando tocava nelas. — Makayla explicou, encarando Wilson e se apressou em completar: — Não se preocupe, não faço mais isso.
Sam assentiu devagar, processando aquilo por vários segundos, Zemo por outro lado tinha um olhar intrigado.
— Então você tinha habilidade sobre-humanas e veio até um lugar como esse só pra abrir mão delas? — Ele perguntou movendo a cabeça daquele jeito educado demais. — Isso é...
Makayla cortou o Barão com um revirar de olhos irritado.
— Pois é, bem estúpido, irresponsável e egoísta, já me disseram.
Embora ela sequer tenha focado em Bucky, claro que era uma indireta para a conversa do carro...
— Na verdade eu ia dizer admirável. — Zemo respondeu de forma polida.
Os olhos tempestuosos pousaram no Barão, Bucky pôde identificar a surpresa no franzir das sobrancelhas de Makayla, segundos antes que o rosto dela suavizasse e o esboço de um sorriso surgisse em seus lábios. Algo dentro dele se revoltou em uma raiva corrosiva, seu maxilar ficou tenso de modo que ele foi capaz de ouvir o ranger dos próprios dentes.
— Em um mundo onde todos querem ser melhores que os outros e anseiam pelo poder, é raro encontrar alguém que não se importe com isso e que, mesmo com a oportunidade em suas mãos, decida se desfazer de tudo isso por convicções próprias. — O tom de Zemo era um elogio cavaleiresco. Ambos os punhos de Barnes se fecharam, contendo um golpe que ele queria muito ter dado. — E, se o desejo de se tornar um super soldado aproxima o ser humano de um ideal supremacista, então a obstinação em não ser “super” faz de você alguém digna de respeito e admiração.
— Ela podia estar morta por causa dessa tal obstinação! — Barnes não conseguiu ficar calado, começou a cogitar que quebrar uns cinco ossos daquele idiota não comprometeria a missão tanto assim.
— As coisas pelas quais estamos dispostos a morrer são o que nos definem, não é? — Zemo devolveu educadamente. — Alguns morrem em busca do poder, outros...
— Ah, cala a boca! — Bucky cortou irritado, agradecendo pelas malditas portas do elevador se abrirem finalmente.
Saiu primeiro, porque se ficasse mais tempo naquele cubículo não sabia se o nariz empinado daquele Barão sobreviveria pra contar a história...
Sam passou depois, um misto de crítica e divertimento em seu olhar, enquanto ele meneava a cabeça sutilmente. Depois veio o idiota do Zemo, ou melhor, ele apenas parou na porta cedendo passagem para as duas mulheres como faria um lorde inglês.
Makayla passou por ele normalmente, mas Sharon revirou os olhos de forma tão exagerada que no fundo Bucky torceu para que ela desse um tiro no homem. Quem a culparia afinal?
Enquanto seguiam pelo corredor, Sam ficou um pouco para trás, caminhando ao lado de Makayla de forma descontraída.
— Não liga pra nenhum desses dois, eles são loucos. — Comentou casual e compassivo. — Você fez o melhor que podia com o que você sabia no momento. Algumas vezes é a coisa certa, mas do jeito errado. Só que agora já foi. — Bucky olhou para trás a tempo de ver Wilson pousar a mão no ombro da jovem de forma terna. — Você vai ficar bem, é isso que importa agora.
Barnes se arrependeu de não ter pensado em dizer alguma coisa reconfortante para a garota, antes de se irritar tanto... Mas pelo visto era Sam quem realmente tinha jeito com as palavras.
A viu sorrir para Sam de forma agradecida e sentiu um tanto de inveja, porém admitiu para si mesmo que pelo menos Wilson era muito melhor que Zemo...
Então não lhe restou mais nada a fazer a não ser engolir seus sentimentos conflitantes e focar na missão. Makayla apontou a porta no fim o corredor e eles se preparam para entrar com armas em punho.
— Fica atrás de mim. — Bucky ordenou para a garota, segundos antes de arrombar a porta.
Mas aquele cuidado foi um tanto inútil, porque eles até encontraram o laboratório, mas não havia absolutamente ninguém ali...
Bucky notou que Makayla entrou no lugar já procurando por algo especifico, direto na refrigeradora com portas de vidro, mas naquele lugar haviam apenas algumas amostras de sangue e coisas assim. Seja lá o que a garota buscava ela não encontrou ali.
— Acham que ele vai voltar aqui? — Sam perguntou, também olhando tudo ao redor.
O laboratório estava montado, com certeza o cientista fora retirado dali as pressas...
— Dificilmente. — Sharon opinou, guardando sua arma. — Nagel trabalha para o Mercador, deve estar muito bem escondido agora, talvez até fora da ilha.
— O Mercador não mandaria alguém tão importante para fora de seus domínios. — Zemo rebateu, ganhando um olhar nada amigável da loira.
Os quatro se entreolharam, Makayla por sua vez parecia muito compenetrada nos próprios pensamentos enquanto ainda analisava o laboratório.
— Devíamos checar o perímetro, ver se tem alguém com informações ainda por aqui — Sharon sugeriu e Sam concordou.
— Vou esperar aqui... — Makayla se sentou em uma das cadeiras do lugar, ganhando um olhar de Bucky. — É mais seguro, não é?
Ele concordou, talvez fosse melhor daquele jeito. Pelo menos sabiam que o lugar estava vazio, e o mesmo não podia ser dito dos outros cantos do prédio.
— Posso ficar também... — Zemo sequer tinha terminado de falar quando Barnes o agarrou pelo casaco e o puxou para fora do laboratório. De jeito nenhum deixaria aquele homem perto de Makayla.
No entanto aquela pequena empreitada se provou totalmente inútil, não acham ninguém ali, mesmo os homens na portaria já tinham fugido quando Bucky e os outros voltaram para o térreo.
— O prédio está vazio. — Sam lamentou, jogando as mãos em um gesto de frustração.
— É claro que está, o Mercador do poder não deixaria pistas pra trás. — Sharon comentou conformada. Talvez já tivesse lidado com o rei de Madripoor antes.
— Pelo jeito esse homem tem bem mais poder e influência do que imaginamos... — Sam devolveu se encostando na recepção.
Sharon riu de um jeito meio estranho, ganhando um olhar confuso de Bucky. Pareceu que ela tinha achado uma grande bobagem o que Wilson disse...
— De quê você está rindo?
— Não é nada. — Ela encolheu os ombros displicente. — Estou rindo de nervoso porque claramente isso foi uma total perda de tempo. Um tempo preciso já quem tem gente atrás da cabeça de vocês. Melhor voltarmos para o lugar seguro que eu falei.
— Sharon está certa, melhor irmos. — Sam concordou, porque afinal o que mais poderiam fazer ali? Teriam que encontrar Nagel de outra forma.
— Estão sentindo esse cheiro? — Zemo questionou, com as sobrancelhas franzidas e as narinas puxando o ar. — É fumaça...
O coração de Bucky saiu totalmente do prumo, o cheiro veio de um dos andares superiores e logo uma explosão de pequeno porte foi ouvida e alguns vidros, fumaça e destroço atingiram o chão lado de fora, enquanto o alarme disparava e os sprinklers presos ao teto disparavam água por toda a parte.
— Vão, eu encontro vocês lá fora! — Barnes apontou, correndo para as escadas, dispensando totalmente o elevador.
Não devia ter deixado Makayla sozinha lá em cima, claramente o prédio não estava tão vazio quanto eles imaginaram...
Bucky subiu os degraus de três em três, antes de pegar impulso e pular de um lance de escadas para outro com uma facilidade irrisória, a água continuava vindo dos sprinklers initerruptamente, mas ele ignorou isso e continuou a correr pelos andares. Estava passando pelo sexto quando ouviu os passos no lance superior, ele se preparou para a ofensiva contra o inimigo, apenas para dar de cara com Makayla, calmamente descendo as escadas.
— O que aconteceu? — Questionou, analisando o rosto dela com desespero, vendo que a garota sequer parecia assustada, não fosse pelos cabelos e roupa encharcados, ela estaria exatamente igual a momentos antes, quando se separaram no laboratório.
Os olhos azuis-cinzentos encararam Bucky por um curto instante, enquanto Makayla continuou a descer os degraus calmamente.
— Você disse que era um problema meu DNA espalhado por aí... — Ela disse vazia de emoções. — Eu resolvi o problema.
Bucky continuou parado no mesmo lugar, absolutamente incrédulo e um tanto em choque.
— Você colocou fogo em um laboratório químico? — Ele teve que perguntar, porque soava totalmente irreal.
— Você tinha uma solução melhor? — Makayla já estava no pequeno platô entre os lances da escada, dez degraus abaixo dele, quando olhou por sobre o ombro.
Era como se estivessem falando em colocar papel no triturador, mas as explosões andares acima e a água caindo initerruptamente provavam o quão grave tudo aquilo era.
— Puta merda, Makayla! — Bucky explodiu, incapaz de controlar sua raiva. — Viu?! Era disso que eu estava falando! Você não dá a mínima para a sua própria segurança!
Ele tremia, o coração ainda disparado do desespero que tinha lhe abatido naqueles infinitos seis andares, que havia cortado muito mais rápido do que qualquer ser humano comum poderia.
— Você reclamou das implicações das minhas atitudes para a segurança do mundo. Eu dei um jeito. — Makayla retrucou de forma simples e prática.
— Você só pode estar brincando! — Barnes desceu os degraus, enquanto balançava a cabeça em negativa totalmente incrédulo. — Qual é a porra do seu problema, Makayla? Você não vê que vai acabar morta desse jeito?!
Ela o encarou com seus olhos tempestuosos por alguns segundos, havia um vazio tão absolutamente calmo neles que isso só fez com que cada emoção de Bucky ficasse ainda mais descontrolada.
— E daí? — Makayla encolheu os ombros e franziu os lábios em desdém.
Simplesmente se virou, então, para continuar a descer, porém Barnes foi mais rápido e a segurou pelo braço, logo acima do cotovelo, fazendo com que a garota lhe encarasse.
— Como assim “e daí”? — Ele questionou irritado, sentia que tremia, ou talvez fossem as paredes por causa das explosões seis andares acima.
Sabia que precisavam sair dali, ainda assim, lá estavam, parados, se enfrentando com o olhar, enquanto os sprinklers espalhavam água por todo o lado.
— E daí, Bucky? — Makayla repetiu, sua voz um misto de sarcasmo, desdém e algo mais que ele com certeza não foi capaz de decifrar. — Quem se importa? Se eu não voltar pra casa, porque morri em uma ilha maluca cheia de criminosos; se uma droga experimental me causar uma overdose; se uma louca atirar na minha cabeça; se eu não conseguir fugir de um incêndio que eu mesma causei, e daí? Ninguém se importa comigo.
— Eu me importo com você. — Bucky rebateu no mesmo instante, antes que a garota escapasse das suas mãos.
— Claro, comigo e com o resto do mundo, já falamos disso. — Ela devolveu, neutra, sem metade da urgência que Barnes tinha na voz e nas veias. — Você se importa demais com tudo e com todo mundo, é isso que faz de você o herói, Bucky.
Ela não estava brava, talvez esse fosse o problema, porque aquela reação tão absolutamente conformada era muito mais assustadora para Bucky do que se a garota estivesse no meio de um rompante emocional...
Makayla interrompeu o contado entre eles, mas não chegou a dar muitos passos, porque a voz de Bucky lhe impediu.
— Você está errada, é diferente com você. É por isso que me tira do sério saber que você se coloca em perigo constante... — Ela o encarou por sobre o ombro e Barnes se moveu um passo, deixando que as palavras apenas saíssem, sem controle ou planejamento. — Você entrou na minha mente, Makayla, desde o primeiro dia, e eu não sei se foram as suas habilidades, ou se foi apenas você, sendo você. Eu só sei que você está aqui... — Ele apontou para a própria cabeça com a mão de vibranium. — o tempo todo... eu penso em você o dia inteiro; quando eu acordo ou no meio da noite; até enquanto eu estou lutando com super soldados ou criminosos idiotas... é sempre você. Nada mais. Ninguém mais.
Mais três passos, os olhos azuis cinzentos eram um misto de sentimentos indecifráveis, enquanto Bucky simplesmente sabia que não seria capaz de engolir as próprias palavras, até que terminasse de dizer tudo que precisava.
— E eu não queria lidar com isso, com nada disso. Acredite em mim, eu realmente não queria. Mas eu tenho. Não posso mudar o fato de que agora eu te conheço... Não posso ignorar tudo que você causa em mim. E eu não sei como aconteceu, não sei explicar, na maior parte do tempo eu nem entendo. Só que não tenho como fingir que não está acontecendo... — Menos de um passo os separava agora, Bucky não sabia mais se o tremular nos olhos tempestuosos eram lágrimas ou apenas um reflexo de toda água caindo como chuva ao redor deles. — Você bagunçou a minha cabeça, Makayla. E o problema é que eu gosto dessa bagunça muito mais do que eu deveria...
Ele ergueu a mão direita e tocou o rosto feminino, deslizando os dedos das bochechas até a nuca um centímetro mais perto a cada pequeno instante. Havia algo que os atraia em direção um ao outro, e embora isso não fosse palpável como a água que continuava a cair do teto, era como se fosse a única coisa real naquele momento, porque o restante do mundo tinha deixado de existir, Barnes sequer conseguia lembrar mais de como ou porque estavam ali.... Makayla roubava seu foco, seu ar, seus pensamentos... Ou talvez Bucky simplesmente desse tudo isso a ela totalmente de boa vontade.
Seus dedos se infiltraram nos fios castanhos molhados, as testas se tocaram, as respirações se misturaram através dos lábios entreabertos de ambos. Makayla piscou devagar, a expectativa ela perceptível em cada microexpressão, seu olhar outrora tão vazio continha um universo inteiro de sentimentos...
— Então me diz, princesa, o que eu devia fazer com tudo isso? — Bucky questionou em um sussurro rouco, cada palavra fazendo com que a boca dele roçasse nos lábios femininos.
Makayla fechou os olhos, soltando um suspiro que soou como o convite que Barnes tanto ansiava em corresponder, ele praticamente podia sentir o gosto dela na ponta da língua quando a construção toda tremeu com outra explosão.
— Bucky! — Uma voz masculina gritou alguns andares abaixo e olhos gélidos piscaram assustados, se afastando de Makayla imediatamente, apenas para puxá-la, para que continuassem a descer.
O que estava fazendo?
Bucky descia as escadas ainda desnorteado, uma parte de si submersa no momento de segundos antes, enquanto a outra xingava todos os palavrões possíveis. Ele tinha acabado de esquecer de todo o perigo ao redor, apenas por um instante com Makayla.
O que diabos estava pensando?
Ela podia ter se machucado, o prédio podia ter desabado... Enquanto listava todas as tragedias que podiam ter acontecido, Bucky ouviu seu nome ser chamado de novo e dessa vez reconheceu a voz de Sam.
— Estamos aqui. Estamos bem. — Ele respondeu, logo dando de cara com Wilson na altura do quarto andar. — Eu não disse pra vocês saírem daqui?
— Eu não ouvi. — O outro disse com um mover de ombros que queria dizer “ouvi, mas não liguei”. — O que aconteceu?
Bucky viu o olhar de Sam pousar em Makayla, que até aquele momento não tinha dito absolutamente uma única palavra.
Será que havia assustado a garota com aquele monte de coisa que disse sem pensar? Era verdade, tudo aquilo, porém talvez não fosse o momento certo para essa conversa.
— Laboratórios são instáveis, eles pegam fogo por nada. — A garota respondeu, passando por Sam e continuando a descer as escadas como se nunca tivesse parado.
Quando Wilson voltou seus olhos para Barnes procurando por uma resposta o mais velho apenas encolheu os ombros, como se não houvesse nada a ser dito.
Logo estavam em frente aos carros, Sharon e Zemo encostados nos veículos, a loira com a pior expressão no rosto e o Barão olhando as chamas que consumiam os andares superiores. Carter reclamou sobre alguma coisa, mas Bucky sequer prestou atenção nela. Seus olhos estavam em Makayla.
Não podia continuar a se distrair daquele jeito, seja lá o que sentia quanto estava com ela, Madripoor com certeza não era o lugar para descobrir.
— Melhor irmos juntos pra repassar o plano. — Bucky apontou Sam e Zemo.
Ficar preso dentro do carro com Makayla seria a pior escolha naquele momento. Então apenas entrou no veículo ignorando qualquer olhar.
— Então vem, Kayla, melhor sairmos logo daqui antes que o prédio caia na nossa cabeça... — Barnes viu Sharon acenar para a jovem.
Os olhos tempestuosos pousaram nele por um segundo, absolutamente indecifráveis, então Makayla deu meia volta e simplesmente sentou no carro com Sharon...
Bucky logo deu a partida, sua mente longe demais para ouvir a falação paralela de Zemo sobre o cientista, embora talvez fosse um assunto importante. Esse era o ponto, com super soldados soltos por aí e alguém recriando o soro, era absolutamente irresponsável que Barnes estivesse tão desfocado. Alguém poderia acabar se machucando por causa disso.
— O que foi que aconteceu, cara? — Sam perguntou de repente, batendo com as costas da mão no braço de Bucky para lhe chamar a atenção.
— O laboratório explodiu só isso. — Ele preferiu apenas reproduzir a mentira de Makayla.
Era muita coisa pra explicar e, de toda forma, a verdade não ajudaria em nada naquele momento.
— Isso eu percebi... — Sam rebateu, mas não parecia muito satisfeito com a resposta. — Então... de onde conhece a Makayla?
Os olhos azuis não saíram da pista, mas Bucky notou que Zemo estava totalmente atento à conversa ali do banco de trás.
— Nova York. — Respondeu simples, afinal não havia motivo para esconder esse fato.
Podia ter dito que a conhecia da terapia, mas o idiota do Barão estava bem ali e não queria entrar em fatos privados de sua vida na frente daquele homem.
— E qual o lance com ela? — Wilson perguntou com um leve tom de divertimento na voz.
— Não tem lance nenhum. — Bucky apertou um pouco mais o volante entre os dedos e percebeu os olhos de Zemo totalmente presos nele através do retrovisor. — Podemos focar no cientista louco que está desaparecido?
Se sentiu hipócrita ao exigir aquilo, afinal ele próprio era incapaz de fazer isso naquele momento... Makayla Devinne com certeza tinha algum tipo de feitiço.
— James? — O Barão chamou, esperando que os olhos azuis lhe encontrassem no retrovisor central. Bucky imaginou que falariam algo sobre o cientista que estavam procurando, por isso tirou a atenção das ruas por um instante. — Você está apaixonado por essa garota?
A pergunta tão invasiva fez com que o maxilar de Barnes tensionasse no mesmo instante.
— Se você gosta dos seus ossos, sugiro que não se meta onde não é chamado, Zemo! — Ameaçou irritado, voltando seus olhos para a rua e apertando um pouco mais o volante para conter a vontade de quebrar os dentes do Sokoviano.
— É... você com certeza tá apaixonado pela garota. — Sam desatou a rir, depois de analisar Bucky por pouco mais de dois segundos.
O rosto de Barnes se fechou ainda mais em uma expressão assassina, porém, lá no fundo, ele se deu conta que, talvez... estivesse mesmo apaixonado.
Isso explicaria tudo afinal... A atração inexplicável, os pensamentos constantes, a preocupação, a química inegável e o poder que Makayla tinha sobre ele. Mas será que era mesmo possível se apaixonar por alguém tão rápido e intensamente daquele jeito?
Bucky se pegou preocupado com o assunto, aquilo com certeza não estava nos seus planos...
Ainda assim, quando tudo se encaixou como um quebra-cabeças perfeito, ele respirou fundo. Com certeza estava velho demais pra isso, mas não era exatamente ruim, certo?
Já tinha passado por coisas muito piores do que se apaixonar por uma garota bonita. Mesmo que a garota em questão tivesse a mania problemática de flertar com a morte...
★☆ • ★☆ • ★☆
O caminho até o prédio mais luxuoso de Cidade Alta foi silencioso, Makayla quase agradeceu por Sharon sequer ter tentado manter uma conversa. A loira parecia um tanto irritada, porém a mais jovem julgou que dar de cara com o criminoso internacional que fora a causa de todos os problemas da agente fosse o motivo daquele mau-humor...
E mesmo que não fosse esse o problema, Makayla estava perdida demais em seus próprios pensamentos para se importar em criar outra teoria. Tanta coisa havia acontecido naqueles últimos momentos que ela sequer conseguia processar.
As palavras de Bucky — todas elas — ficavam revirando em sua mente, de novo e de novo. O homem era uma contradição completa. Mesmo tendo lido os pensamentos dele, Makayla era incapaz de acompanhar as mudanças de posicionamento que ele apresentou naquele curto espaço de tempo.
Pra começar, sabia que ele pensaria melhor na briga que tiveram, mas não imaginou que Bucky a procuraria, isso era inesperado e encheu o coração dela de uma coisa boa e quente. Mas mesmo naquele instante ela jamais esperaria que Barnes estendesse a mão e dissesse “leia a minha mente então”, não depois de tudo...
Aquele simples gesto fez com que Makayla repensasse todas as suas atitudes; se tivesse se resolvido com Bucky antes, ela ainda teria ido até Madripoor? Ela não sabia... A verdade é que já não queria aquelas habilidades antes de Barnes, ele não era um fator chave em sua decisão, embora tenha sido a gota que vez tudo transbordar.
E, no fim, não importava, porque Makayla não estava arrependida de ter aberto mão daqueles “poderes”. Pode ser que tivesse feito diferente, se tivesse pensado em tudo aquilo de cabeça vazia, porém não podia mudar o que já havia acontecido. Ela ainda queria a segunda dose.
No entanto o frasco não estava no laboratório, procurou por toda a parte antes de decidir destruir o lugar, algo que precisou fazer porque Bucky estava certo, Makayla não havia pensado nas consequências de nada, nem no uso que fariam de seu DNA. Não podia permitir que aquilo fosse usado de formas impróprias...
Talvez devesse ter ficado irritada com a postura de Barnes, porém no fundo ela sabia que ele não entenderia, era um homem com suas próprias convicções afinal, Makayla não o culpava por isso. Claro que por vezes quis responder a altura, mas jamais seria capaz de usar algo intimo que havia roubado da mente de Bucky contra ele.
Não seria certo.
Deixou que ele falasse o que precisava dentro do carro, por mais que na hora tenha doído, e depois fez o que era necessário com o laboratório. Mesmo sabendo que ele não entenderia isso também, que ficaria ainda mais irritado. Makayla já estava preparada para o que viria a seguir.
Teve que fazer uma escolha, porque, era melhor arrumar a bagunça que ela mesmo havia criado, antes que aquele DNA maldito virasse um problema que Bucky teria que resolver, mesmo que isso custasse qualquer possibilidade de se entender com ele.
Era preferível que Barnes lhe odiasse por ser imprudente, do que se machucasse por isso no futuro... Estava em paz com essa decisão.
Mas é claro que doeu ser confrontada com palavras tão duras... Makayla não percebeu o quão exausta estava de carregar o peso da própria vida até estar naquela escada com Bucky. Não pretendia jogar tantas verdades melancólicas nos ombros de um homem que já tinha problemas piores, mas as palavras lhe escaparam sem controle.
Ela realmente não tinha ninguém...
Porém, tudo que aconteceu depois disso simplesmente apagou o restante do dia, cada palavra, gesto ou olhar de Bucky tomou conta da mente de Makayla e só havia isso. Aquilo era real?
Mesmo no instante em que estava acontecendo ela não acreditou, pensou que era um sonho, talvez estivesse morta e aquilo fosse uma versão do céu. Seria poético porque isso provaria que seu paraíso era Bucky Barnes e apenas ele...
Ela estava na cabeça dele tão frequentemente quanto ele estava na mente dela, isso a confortou de formas que palavras não seriam capazes de descrever. Suas pernas tremeram, seu coração virou nada mais que um bater frenético. Makayla poderia viver naquele momento.
E então acabou, simples assim, não por causa de uma explosão ou por que tiveram que fugir. Acabou porque Bucky entrou naquele carro sem dar um único olhar na direção dela. Makayla caiu de seu paraíso particular direto na incerteza da terra árida. Ela duvidou de tudo, de cada palavra, de cada toque, de cada olhar...
Não fosse a sensação do roçar dos lábios de Barnes em sua boca, ainda tão presente e tão real, a jovem pensaria que alucinou tudo aquilo.
Ela não entendia.
Talvez ele tivesse mudado de ideia, se arrependido, talvez tivesse dito tudo da boca pra fora porque queria desesperadamente que ela parasse de fazer uma loucura atrás da outra...
A julgar por toda a história do “não me toque”, Bucky tinha um histórico de dizer coisas sem pensar. Talvez tivesse feito de novo.
Quanto mais Makayla pensava nisso mais confusa ela ficava. Era evidente que havia uma atração sexual surreal entre os dois, isso era fácil de entender, mas as palavras na escada... aquilo era diferente.
E ela queria acreditar, porém, quanto mais pensava no assunto, mais fácil era ver que talvez fosse tudo uma coisa de momento.... Ou talvez fosse mais natural para Makayla aceitar que ninguém seria capaz de se importar verdadeiramente com ela.
Quando finalmente chegaram ao luxuoso prédio de Sharon, a jovem respirou fundo. Fora um dia cheio e exaustivo, para todos. Ela decidiu que deixaria Bucky em paz, ele estava ali por um propósito nobre e tinha uma missão. Por isso Makayla foi direto para o próprio apartamento, mesmo que tenha sido convidada para a cobertura por Carter.
Era evidente que Bucky precisava de espaço, então daria espaço a ele...
Quando entrou no apartamento provisoriamente locado, ela se encostou na porta, encarou os sofás espaçosos sem qualquer emoção no olhar. Tudo ali era um tanto exagerado em tamanho, talvez para ostentar um luxo que não necessariamente queria dizer bom-gosto.
Antes que seus pensamentos voassem pra longe Makayla foi direto para o banheiro, não queria repassar o dia, não queria ponderar suas atitudes e escolhas, não queria reviver cada momento com Bucky. Queria esquecer.
Encheu a banheira e deixou que a água morna acalmasse seu corpo, tentou não pensar no que Barnes estaria fazendo naquele exato momento, talvez tendo uma conversa importante com Sharon sobre o possível paradeiro de Nagel, talvez tomando um banho também... Era um tanto estranho saber que estavam tão perto.
Provavelmente ele estaria na festa que Carter daria, e talvez fosse o lugar certo pra distrair a mente, mas Makayla não se sentia nada no clima de festividades. Pareceu uma boa ideia no começo, porém naquele instante ela não tinha mais certeza de nada.
Ficou na banheira até que a água ficasse fria, depois colocou a primeira roupa em sua mala e se jogou no sofá, se sentia sufocantemente solitária ali... Pensou em ligar para a mãe, faria isso antigamente, mesmo que ela lhe dispensasse por sempre estar ocupada, porém, depois do CRG algo havia morrido dentro de Makayla quando se tratava de Emma. Não queria falar com ela.
Mesmo assim achou que sufocaria naquele silêncio incômodo do apartamento pouco familiar, por isso acabou fazendo uma ligação para outra pessoa.
— Alô? — A voz masculina atendeu no segundo toque.
— Oi, Doc... — A jovem colocou um pouco de casualidade na voz.
— Makayla? — Jackson Brooks estava claramente surpreso. — Makayla onde você está? Você está bem?
Ela riu da preocupação que notou na voz dele, mesmo que naquele instante isso tenha soado muito reconfortante.
— Eu disse, Doc, vim fazer um trabalho voluntário... — Manteve sua mentira.
— E você achou que eu ia acreditar nisso? — O homem devolveu com um toque de humor. — Como você está?
— Cansada... — Ela confidenciou, soltando todo o ar de seus pulmões. — Podemos conversar?
— Sempre. — O terapeuta respondeu de imediato.
Makayla ainda não sabia muito bem o motivo real de ter ligado, nem o assunto que queria conversar, mas escolheu o ponto chave de sua ida a Madripoor, porque parecia a coisa óbvia a ser discutida.
— Eu resolvi meu problema... Quer dizer não totalmente ainda, mas é uma solução.
— Está falando sobre seus poderes? — Brooks adivinhou de imediato e Makayla concordou com um som inteligível.
Esperou que a bronca e decepção viessem, mas nada aconteceu
— Não vai me dar um sermão? — Ela estranhou o silêncio momentâneo.
— Isso não cabe a mim, Makayla... — O terapeuta respondeu em seu costumeiro tom calmo. — Você tem que fazer suas escolhas, eu posso aconselhar as vezes, mas meu trabalho não é decidir sua vida por você, é apenas estar aqui pra te ajudar a processar as consequências. — Ele respirou fundo por um instante. — Se eu acho imprudente e me preocupo com os meios que você usou? Com certeza. Mas não cabe a mim julgar você, era uma situação fora de qualquer apostila. Só me diga que está bem e segura.
Por algum motivo aquela resposta foi totalmente reconfortante, quase como a de Zemo no elevador. No entanto ele era um criminoso internacional assassino de reis, um homem nada confiável... Jackson Brooks, por outro lado, era alguém neutro, talvez pudesse confiar nele.
— Eu estou, Doc. Talvez eu não estivesse muito antes, mas agora eu estou, tem pessoas por perto que não vão me deixar fazer mais besteira... — Ela respondeu a última preocupação do terapeuta.
— “Mais”? — Ele repetiu, deixando em aberto para que Makayla continuasse.
— Eu fiz umas coisas estúpidas, fora o lance dos poderes. — Ela confidenciou, porque é claro que sabia muito bem o peso de suas decisões.
— E você quer falar sobre isso? — O terapeuta questionou. — Como se sente agora que conseguiu o que queria?
Foi a primeira vez que Makayla realmente pensou naquele assunto desde que havia tomado a primeira dose do inibidor. Sua vida não tinha sido resolvida magicamente por causa disso.
— Eu ainda não sei... Parte de mim está feliz, mas eu acho que tinha esquecido que isso não era a causa de todos os meus problemas. — Ela soltou um riso seco. — Eu era uma garota quebrada, problemática, amaldiçoada, meio louca e com poderes. Eu resolvi o lance dos poderes, mas o resto ainda está aqui... Eu ainda sou eu. A diferença é que agora eu posso tocar nas pessoas sem ser uma invasora de mentes.
Não estava arrependida, sabia disso, porém quando pegou um avião para estar ali, quando deixou que Nagel lhe furasse, cortasse e estudasse, sua mente acreditava com todas as forças que aquilo era a única coisa que resolveria todos os seus problemas, a única coisa que poderia fazer sua vida voltar a valer a pena. Talvez tivesse culpado aquelas habilidades por coisas que não fazia sentido culpar. Sua relação com a mãe, por exemplo, já estava quebrada antes disso, antes mesmo do blip se fosse honesta.
Só que Makayla não era capaz de ver nada disso antes de ter poderes, ou melhor, antes de ter o ponto de vista de Bucky em sua mente...
— Você tem sim um longo caminho pela frente, Makayla, mas eu garanto que vai chegar lá. Se parar de falar essas coisas de si mesma já é um começo sabe? Você não é louca, quebrada, problemática ou amaldiçoada, é apenas uma pessoa em processo de cura, que tem questões emocionais, psicológicas e familiares para lidar, mas que está indo na direção certa. — Jackson usou aquele tom profissional e muito calmo. — Falando nisso, andei pensando; tenho uma clínica de reabilitação. Sou um dos membros fundadores na verdade, eu gostaria que você passasse um tempo por lá em terapia intensiva.
— Quer me internar no manicômio, Doc? — Makayla riu ao imaginar a cena.
— Não tem nada a ver com isso, não tem ninguém louco por lá, só gente que precisa lidar com os traumas severos que a vida trouxe, acho que seria benéfico pra você. — O doutor explicou. — Pense sobre isso. Um tempo longe de tudo, não pra fugir de você mesma, como você faz sempre, mas pra se encontrar, se entender, aparar as arestas que podem machucar outras pessoas....
— Se eu disser “não”, você vai parar de falar comigo? — A jovem questionou, e talvez algo em si tenha temido isso.
Era confortável ter alguém pra quem ligar quando não conseguia entender o fluxo dos próprios pensamentos.
— É claro que não, Makayla. — Ele tinha um tom um tanto paternal talvez. — Se você disser não, vamos pensar em formas diferentes de continuar o tratamento, até encontrarmos uma que se encaixe melhor com as suas necessidades e rotinas.
— Você é bom nisso, Doc. — Ela elogiou. Era como se ele sempre soubesse a coisa certa a dizer.
— Quer me contar por que ligou? — Brooks questionou com cautela, depois de um breve momento de silêncio. — Não acho que foi pra me atualizar sobre seu bem estar...
Nem a própria Makayla sabia de verdade o motivo de ter pensado em ligar justo para o terapeuta, e só ao ouvir aquela pergunta foi que a jovem se deu conta que não era a primeira vez naquele dia que Jackson lhe vinha à mente. E talvez por esse exato motivo estivesse ligando pra ele.
— Eu só queria agradecer, Doc. — Respondeu ao lembrar exatamente do instante em que as palavras do terapeuta haviam feito diferença. — Hoje eu podia ter ficado no fogo, mas escolhi ser uma abelha e descer as escadas.
— Isso é uma metáfora? — É claro que Brooks não entendeu.
Como ele entenderia afinal? Ninguém além de Makayla sabia que, quando ela derrubou todos os químicos daquele laboratório no chão e riscou um fósforo, enquanto o fogo se espalhava, ela cogitou ficar ali, parada, esperando que as chamas tocassem seu corpo, porém foi a conversa que teve com Jackson uma semana antes que a fez dar meia volta e escolher a vida...
— Eu só liguei pra falar que estou bem e pra agradecer pelas coisas que me disse, elas fizeram diferença hoje, falo sério. — Declarou sendo honesta e se dando ao luxo de dar um sorriso.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era uma vitória afinal.
— Fico feliz em ajudar, mas foi você quem escolheu escutar o que eu disse, então o mérito é seu. — O terapeuta respondeu e havia algo de orgulho em seu tom, talvez ele soubesse. — Espero te ver em breve, Makayla.
— Eu também, Doc. — A jovem respondeu e logo desligou o telefone.
Encostou no sofá e respirou fundo, talvez, apesar de tudo, também estivesse orgulhosa de si mesmo, ainda estava viva, não tinha desistido, ainda estava tentando... E isso era o suficiente naquele dia.
Parte de si até queria ir à festa que estava rolando na cobertura, mas talvez fosse a escolha errada... Ainda não sabia muito bem como lidaria com Bucky depois de tudo que havia acontecido. Então Makayla apenas ficou ali, deslizando o dedo pela tela do celular, procrastinando em uma rede social qualquer.
Convencendo a si mesma que nada de Bucky Barnes pelo resto da noite...
★☆ • ★☆ • ★☆
Naqueles cinco anos e meio como Mercador do Poder, Sharon Carter havia aprendido a resolver seus problemas de duas principais formas; com dinheiro ou com armas. Subornar, ameaçar, comprar, assassinar... Tudo sempre acabava girando ao redor daqueles dois pontos, porém naquele instante tinha um problema em mãos que não queria ou poderia resolver dessas formas.
Sam Wilson e Bucky Barnes não eram pessoas que o Mercador poderia comprar. Talvez pudesse matá-los, verdade, mas Sharon não queria isso, pelo menos não ainda. No entanto era inoportuno ter a dupla na cidade...
Estava claro que eles não iriam embora antes de encontrar Nagel e obter uma pista sobre o soro, isso tinha ficado bem explícito na conversa que eles haviam acabado de ter, logo depois que Sharon forneceu roupas limpas e um local para um banho. Estavam obstinados em seu propósito, o que era bastante inoportuno para o Mercador.
Enquanto se preparava para o início da festa, Sharon tinha apenas alguns poucos momentos para planejar tudo que faria a seguir. Teve que estabelecer prioridades e decidiu que a mais importante de todas elas era manter sua identidade em segredo, nesse caso Wilson, Barnes e Zemo tinham que ir embora, e se só fariam isso depois de ver o doutor, ela teria que permitir esse encontro.
No entanto receberia pessoas importantes aquela noite, não podia simplesmente sair da própria festa para pajear o trio de curiosos, ou seja, precisava de tempo...
Infelizmente “tempo” também seria um fator chave para que algum deles acabasse descobrindo o que não devia, talvez não Sam, que realmente confiava em Sharon e estava disposto a seguir o plano dela. Porém Zemo e Barnes podiam se tornar um problema.
Embora o sokoviano fosse um risco baixo, porque não tinha moral e nem o fator de intimidação para fazer as pessoas certas falarem, Barnes era um problema maior, desconfiado e instável, se usasse a abordagem certa ou pensasse demais ele poderia ligar os pontos. E isso era absolutamente contraproducente.
Com essas coisas em mente Sharon soube exatamente o que devia fazer então, primeiro enrolar o trio durante a noite, para lidar com seus negócios inadiáveis, enquanto havia instruído Nagel a guardar sua pesquisa em um servidor online...
Sharon sabia que a explosão no laboratório do centro causara um grande prejuízo, todas as amostras de sangue da garota com poderes estavam perdidas e muita da pesquisa guardada nos computadores do lugar também. E apenas de estar furiosa, Carter não podia se dar ao luxo de surtar por isso, tinha que manter o controle e lidar com os danos; Salvar o restante da pesquisa em nuvem antes do encontro do trio com o doutor, e se preparar para um ataque naquele laboratório também, afinal uma legião de Cidade Baixa ainda estava atrás da recompensa pela cabeça dos assassinos de Shelby, nem mesmo o Mercador poderia deter isso. Assim que o trio fosse avistado, fora dos domínios seguros de Cidade Alta, haveria diversos homens atras deles. Mas Sharon lidaria com isso quando chegasse a hora...
Não estava muito satisfeita com o encontro de Nagel com os rapazes, porém era o necessário e talvez pudesse ser útil, o Mercador não precisaria gastar recursos procurando por Karli em todo o globo se Wilson e Barnes encontrassem a garota primeiro. Eles recuperariam o soro e Sharon daria um jeito de roubar de volta depois.
Com essa parte do plano elaborada, a última ponta solta seria Kayla. A garota havia se tornado um problema, ainda era fonte de dons desconhecidos e seria interessante permitir que Nagel a estudasse mais, porém Sharon já havia aprendido que lidar com habilidades sobre-humanas era arriscar desnecessariamente seu império. Ainda mais quando se tratava de uma telepata, nesse caso era melhor manter a menina longe de Madripoor e sem poderes. Era mais seguro para o Mercador assim.
Na verdade, Sharon nem precisava mais da garota para o perdão que queria, porque Sam havia prometido isso e era bastante evidente que a loira preferia confiar em um acordo com Wilson do que em uma possibilidade com uma estranha.
Talvez outra pessoa teria julgado Kayla completamente inútil naquele ponto, um risco até, e decidiria matar a garota para conter os danos antes que tudo saísse do controle. Curtiss teria feito algo assim. Porém Sharon era mais esperta que isso, ela sabia que matar Makayla Devinne era a pior coisa que poderia fazer por Madripoor. Não pelo governo ou pela garota em si, mas por causa de Bucky Barnes.
Era evidente que ele se importava com a menina, Sharon podia ver isso nos olhos dele, na forma como olhou Kayla quando ela decidiu ir direto para o próprio apartamento, ou na maneira como ele ficou aéreo o tempo todo depois disso. Carter o chamou de “Mister América” e “Psicopata de estimação” e Barnes sequer se importou. Era óbvio que estava apaixonado por Makayla...
E, a última coisa que o Mercador do Poder precisava, era que aquela garota se machucasse e um Super Soldados centenário treinado pela Hydra resolvesse buscar vingança em Madripoor. Makayla Devinne era bem mais útil viva.
Na verdade, a jovem era exatamente a peça principal para que aquela noite corresse bem, e para que Sharon tivesse todo o tempo que precisava para terminar seus negócios...
Por esse motivo a loira tinha deixado o trio de rapazes na festa que se iniciava e descido para o apartamento da garota, com alguns itens escolhidos a dedo guardados em uma bolsa. Bateu na porta e logo foi atendida.
— Oi... — Makayla usava shorts de dormir e moletom.
Sharon ficou feliz em ter decidido ir até ali, porque era bem óbvio que a garota precisaria de um empurrãozinho para seguir o plano.
— Pelo visto eu acertei e você não tem nada pra usar na festa... — Ela estendeu a bolsa para a mais nova e entrou no apartamento mesmo sem ser convidada.
— Na verdade eu devo ter, só não vou. — Makayla encolheu os ombros sem grande ânimo.
— Por que? — Sharon questionou, mas sua preocupação era apenas fingimento.
— Não estou muito no clima de comemorações. — A jovem declarou neutra, se jogando em um dos sofás do lugar.
— Mas você estava tão animada de manhã... — Sharon colocou a bolsa sobre a mesa de jantar.
Se queria que seu plano desse certo teria que se empenhar um pouco mais.
— Pois é... — Foi tudo que Makayla disse, puxando os pés para cima do estofado.
— É por causa do Barnes? — A loira perguntou casual, contornando o sofá e parando na janela.
— Por que seria? — O interesse na voz da garota foi óbvio.
Sharon soube naquele instante o quão fácil aquilo seria, se dissesse as coisas certas Makayla faria exatamente o que ela precisava...
— Sei lá, ele também não estava no melhor dos humores, então presumo que vocês brigaram. — Carter ainda tinha um tom absolutamente casual. — Mas casais passam por esses momentos, logo vai estar tudo bem de novo.
— Não sei se dá pra chamar de briga... — Makayla encolheu os ombros. — Além disso, não somos um casal.
— Sério? — Sharon fingiu surpresa, claro que não eram e, se Bucky fosse tão lerdo quanto Steve, eles sequer chegariam a ser... — Mas ele claramente gosta de você.
— Você acha? — As sobrancelhas da mais jovem se franziram em interesse.
Minha nossa, era tão óbvio. Se Sharon não tivesse tão preocupada com seus próprios negócios e problemas, provavelmente teria achado fofo.
— Com certeza. — Ela se sentou ao lado de Makayla com um sorriso amigável. — Você não gosta dele?
A jovem não respondeu, embora fosse evidente que estava pensando nisso. Sharon já havia percebido que Makayla era um tanto tímida no geral e que não era dada a longas conversas, o que era bom, porque estava ali pra ser o mais objetiva possível e não pra ficar papeando.
— Olha só, posso te dar um conselho de amiga? — Abriu caminho para dizer o que precisava. Kayla assentiu brevemente, erguendo os olhos em expectativa. — Caras não são tão complicados quanto parecem, na verdade eles são bem óbvios, e se tem algo que eu apreendi sobre homens na minha vida é que eles só dão valor quando perdem.
— Não entendi... — A jovem franziu as sobrancelhas.
— Você é uma garota bonita e o Barnes obviamente tem ciúmes de você, devia usar isso a seu favor. — Sharon abriu um sorriso travesso. — Um vestido sexy, uns drinks e sorrisos com outras pessoas, alguém de quem ele já tem um pouquinho de raiva, por exemplo, seria perfeito, sabe? — Piscou como se estivesse compartilhando uma dica muito útil, e não esqueceu de deixar subentendido que Zemo tinha que ser o alvo. — Desça lá e seja uma garota de vinte anos, ele vai comer na sua mão em dois tempos.
Foi perceptível que Makayla ponderou aquilo por alguns instantes, porém teve uma reação que Sharon não havia previsto:
— Não parece o momento certo pra fazer esse tipo de coisa. Ele está no meio de uma missão...
Para alguém que havia se infiltrado em uma ilha de criminosos para alcançar seus objetivos, Makayla muito pouco impulsiva quando se tratava de Bucky. O que significava que ela realmente se importava com ele. Não era apenas atração.
Sharon soube que teria que se esforçar um pouco mais.
— Hoje à noite eles vão ter que colocar essa missão em pausa. — Argumentou, usando um tom calmo e despreocupado. — Por enquanto Wilson, Barnes e Zemo terão que esperar que eu descubra algo sobre o novo paradeiro do Nagel. Além disso é extremamente perigoso deixar que eles saiam por aí de madrugada com uma recompensa tão grande por suas cabeças. Eles têm que ficar aqui quietinhos por hoje, então você pode aproveitar essa oportunidade. — Sharon se esforçou para dar a Makayla um bom motivo. — Além disso, com certeza é sua última noite em Madripoor, alguma coisa boa você tem que levar daqui.
Ela se colocou de pé, enquanto a garota ainda absorvia suas palavras. Sabia que havia plantado uma sementinha ali, mas resolveu atiçar um pouco mais, se debruçando no encosto e baixando um pouco o tom de voz, como se estivesse prestes a contar um segredo.
— Sabe o que dizem sobre ciúmes, certo? Ele é como pimenta, demais é péssimo, porém um pouquinho torna tudo mais quente... Além disso, é sempre divertido levar um homem ao limite.
Sorriu inocente ao caminhar em direção a saída, enquanto deixava Makayla ali absorvendo as possibilidades. A jovem gostava de Barnes, e tinha apenas vinte anos, sua imaginação e seus hormônios cuidariam de fazer todo o resto.
— Mas você que sabe, é claro. Se estiver muito cansada, melhor ficar aqui. Tenho certeza que Barnes também não vai ficar muito, é a primeira festa dele depois de décadas, talvez a ousadia das garotas desse século assuste. Porque aqui é Madripoor afinal, as mulheres não tem medo de dar o primeiro passo... — Comentou como se não se importasse realmente, usando um tantinho de psicologia reversa. — De toda forma, se mudar de ideia, eu acho que a roupa que escolhi vai ser perfeita... — Apontou para a bolsa sobre a mesa. — Eu tenho que ir agora, tem clientes me esperando.
Puxou a maçaneta e estava prestes a sair quando a voz de Makayla lhe interrompeu.
— Obrigada, Sharon.
— Não precisa agradecer, Kayla. A gente se ajuda, não é mesmo?
Assim que fechou a porta Sharon sorriu, era bastante óbvio, pelo brilho de interesse no olhar azul-acinzentado, que Makayla apareceria na festa.
Tudo de acordo com o plano...
Afinal Barnes nunca pensaria em fazer perguntas inoportunas se estivesse distraído morrendo de ciúmes de uma linda garota em um vestido de matar. Era perfeito.
Tudo que Sharon queria era poder fazer suas negociações em paz, se a noite de Bucky e Makayla acabaria em briga ou em pegação, isso já não faria a menor diferença e dependia exclusivamente deles...
Fale com o autor