Sweet Blood
21 Capítulo 21 - I remember
Notas iniciais
Capítulo 21 – I remember.

Isabella.
Quando tudo voltou a ter cores, eu me vi no mesmo corredor que a primeira vez, mas tudo estava completamente silencioso. Passei os olhos pelo imenso corredor e me deu vontade de entrar em cada porta, quase deixei-me levar por tal desejo, mas consegui sucumbi-lo.
Ouvi alguns barulhos estranhos vindos da cozinha, meu coração acelerou levemente com a hipótese de já saber o que iria acontecer ali.
Respirei fundo e entrei de uma vez por todas no quarto a minha frente, que mais uma vez calhara de ser o quarto que provavelmente era meu em Mystic Falls.
Ao contrário da primeira vez, a janela estava completamente fechada e apenas um abajur na mesa de cabeceira iluminava o ambiente, e fora somente por sua luz que eu pude determinar que a figura deitada na cama, coberta até o pescoço, era eu.
Cheguei perto de mim e parei na minha frente.
Eu dormia feito um anjo, o cobertor estava até meus ombros e se mexia conforme respirava, ao meus pés estava um livro, que eu facilmente determinei como sendo "O morro dos ventos uivantes", mas não fora isso que chamou minha atenção.
O que chamou minha atenção foram minhas mãos, enquanto uma se encontrava por debaixo do travesseiro, a outra agarrava algo, para ser mais sincera, um pingete de um colar que estava em meu pescoço.
Pelo modo ao qual eu me agarrava aquilo, parecia importante, tão importante quanto o nome que saiu de meus lábios durante o sono profundo.
– Damon...
Minha voz sussurrou e em poucos segundos, "eu" tinha me mexido na cama.
Me assustei com meu próprio movimento, o que me fez dar alguns passos para trás e bater as costas contra a parede. Assim que a dor passou, percebi que agora eu estava deitada de barriga para cima e ambas as mãos jogadas na cama. Aproximei-me novamente, a curiosidade de saber qual era o colar, me inundava de uma forma completamente interessante e irritante. Era quase como se eu dependesse daquele colar para viver, sei lá.
Quando finalmente cheguei perto o suficiente, levei um pequeno susto.
Era o mesmo colar que eu usava naquele instante. Por impulso, levei a mão direita até ele, como se me certificando de que ainda estava por lá. Meus ombros, antes tensos pelo simples pensamento de perder aquele colar, relaxaram e eu soltei um suspiro, ao perceber que ele permanecia ali, pendurado em meu pescoço.
Era interessante, aquele colar era tão importante para mim, mas eu não tinha a mínima noção do por que.
Mas ao vê-lo em meu pescoço, ali, significava que eu já o tinha muito antes de ir para Forks. E pelo modo com o qual eu estava apegada a ele, ele deveria significar o mundo para mim.
Minhas mãos coçaram e mais uma vez, cedendo aos impulsos, cheguei mais perto da minha figura, que continuava dormindo tranquilamente, e toquei o pingente que repousava em seu pescoço. Era como se eu quisesse me certificar de era real.
E ele era extremamente real. Percebi isso quando tanto o colar que eu usava, quanto o que eu tocava, começaram a brilhar levemente.
Aquela dor de cabeça de quando reconheci Klaus retornou com força total. Tentei soltar o colar, mas era como se ele estivesse colado em minha mão.
Assustei-me mais ainda, não conseguia soltar o colar, minha cabeça doía tanto que parecia querer explodir e então barulhos começaram a soar ao meu redor.
As janelas abriam e fechavam com força, enquanto o vento assoviava, tamanha era sua força, as gavetas da cômoda abriam e se fechavam com tamanha força que eram capazes de derrubar tudo o que havia em cima e dentro das mesmas.
Então vozes começaram a soar junto de todo o barulho que já se formava.
"Pedi para que Bonnie fizesse isso."
"Sabe que te amo."
"Nunca mais quero que aquela sensação se repita."
"Era de minha mãe."
"Te perder, seria pior do que qualquer coisa."
"Precisava de uma solução para pelo menos essa parte do problema."
"Viu o modo com o qual aquelas bruxas te controlaram?"
"Estou te devendo, desde o outro bracelete, então uni o útil ao agradável."
"Espero que use."
"Eu também te amo."
As vozes, aquelas vozes, eram apenas duas. Pude reconhecer a mais grossa como sendo de Damon e a outra... a outra era a minha?
Flashes passavam em minha mente, enquanto mais coisas continuavam a bater, desta vez fora a porta, que abria e fechava sem cerimônia alguma.
O mais estranho? "Eu" continuava dormindo tranquila e serenamente, como se nada estivesse acontecendo.
Fechei os olhos e uma imagem me veio a cabeça.
Duas pessoas, um homem e uma mulher, ambos estavam sentados no capô de um carro azul.
Era noite e estava frio, talvez esse fosse o motivo pelo qual ela mantinha a cabeça apoiada ao ombro dele.
Eles pareciam conversar, ele mais nervoso do que ela, entregou-a um colar.
Então eu abri os olhos.
Foi ai que finalmente consegui soltar-me do colar e caí sentada, próxima a janela. Pisquei e quando olhei ao redor, tudo parecia normal... Não fazia sentido...
Nada estava desarrumado, as gavetas estava fechadas e os quadros que antes tinham ido parar de encontro ao chão, agora pareciam normais, sem um arranhão sequer. A janela estava fechada e as cortinas presas, mostrando que parecia mais do que impossível que elas tivessem se soltado e a porta, a porta continuava fechada.
Porém havia algo de diferente em mim. Levei novamente a mão até o colar e subitamente sorri.
Era isso, esse colar, Damon que me dera e eu estava lembrando da noite em que o fizera! Só não entendi pra que tanto estardalhaço, se bem que esse colar é realmente importante, faz sentido que eu tenha me apegado a ele, mesmo sem lembrar-me de nada do que ocorreu em Mystic Falls.
Levantei-me com dificuldade, as costas ainda doíam pelo outro baque e este só as fizeram doer mais.
Então era isso, eu tinha vindo até aqui para lembrar-me do colar que Damon me dera?
Voltei meus olhares para a cama e percebi que eu havia me mexido, estava de bruços e o livro tinha sido jogado no chão.
Se era apenas isso, por que não havia acordado?
Peguei o livro, voltei a colocá-lo sobre a cama e então respirei fundo... Então um cheiro estranho atingiu meu nariz.
Caminhei rapidamente até a porta e abri, depois disso meu mundo caiu.
Assim que corri até a escada, tive a minha confirmação, o cheiro estranho que atingira meu nariz era o cheiro de queimado e havia fumaça por toda a escada, o que não permitia que eu visse nada além de alguns vestígios do fogo que, com certeza, áquela altura, já tivera atingido todo o térreo.
Não sabia o que fazer e em desespero andei até os quartos. Todos trancados.
Ainda assim tentei, sem nenhum sucesso, bater em todas as portas, gritar até ficar rouca e fazer todo o tipo de barulho possível, para acordar qualquer pessoa que pudesse estar ali.
Lembrei-me de quando eu tive aquela dor de cabeça, segundos atrás. O quarto quase demolira e ainda assim a "eu" não havia acordado. Tradução? Nada que eu fizesse ali adiantaria, só me restava observar.
Abracei-me e apoiei as costas contra a parede perto da porta do meu quarto, enquanto deslizava pelo mesmo vagarosamente.
Ri sem humor, isso tudo não foi para me lembrar do colar que Damon me dera, eu estava relembrando o momento mais horrível da minha vida.
O incêndio que me tirou da cidade.
Lágrimas começaram a brotar em meu rosto e eu comecei a tossir violentamente, em poucos segundos, na pior das hipóteses, a casa inteira seria tomada pelo fogo e nós duas morreríamos.
Então retomei a consciência, aquilo era um "flashback", eu estava relembrando, o que significava que eu havia sobrevivido.
Eu sobrevivi ao incêndio.
Com isso em mente, levantei-me e comecei a pensar: "Como?"
Andei de um lado ao outro do corredor, precisava me lembrar de como aquilo tinha acontecido, era como se a minha sanidade, naquele momento, dependesse daquela simples lembrança.
Repassei cada pequeno momento da minha vida, desde as memórias recém adquiridas, até as mais recentes, fossem com os Cullens, com Damon, Jeremy... Ou Bonnie...
Arregalei os olhos.
"Ele simplesmente ateou fogo na sua casa, Bella. Enquanto você e sua mãe dormiam. Damon correu até lá assim que recebeu uma mensagem sua..."
As palavras de Bonnie invadiram minha mente enquanto tudo ficava claro como água: Eu mandara uma mensagem a Damon e ele viera atrás de mim, para me salvar.
O alívio preencheu meu ser, enquanto eu começava a rir do quão tola tinha sido.
Uma vez mais calma e ciente de que eu iria viver, voltei ao meu quarto e percebi que a cama estava vazia.
Estava quase fechando a porta e entrando, quando "eu" passei por mim e voltei para o corredor.
Fechei a porta e fui atrás de mim.
Eu podia me ver de costas e ainda assim deduzi que estava desesperada, meus cabelos bagunçados, o casaco que eu usava estava sendo apertado contra meu corpo, como se ele de alguma forma fosse me proteger.
Me vi andando até o quarto de Renée e inutilmente tentando abrir a porta.
Tentei entender por que minha mãe não abria.
Lembrei-me com certo pesar de que, devido as crises de insônia constantes, Renée começara a tomar remédios para dormir, nada iria acordá-la naquele momento.
"Eu" repeti os mesmo passos dados mais cedo por mim quando descobri sobre o incêndio, desesperei-me, chorei, baguncei os cabelos, gritei e por fim escorreguei de costas contra a porta do quarto.
A diferença, porém, é que a outra eu possuía um aparelho celular em uma das mãos, a mão esquerda, para ser mais sincera.
Respirando fundo, me vi clicar no ícone dos contatos. Não precisava nem ser eu mesma ali para saber que estava tentando decidir para quem ligar, de quem eu iria me despedir.
A resposta foi óbvia quando eu cliquei na letra "D" e apertei o número de Damon, infelizmente eu não tive coragem o suficiente para ligar para seu número, sabia que a voz dele naquele instante destruiria qualquer barreira que eu estava tentando construir. Se eu estivesse tentando me passar por forte, ouvir a voz de Damon atravéz da linha telefônica não ajudaria em nada.
Então me vi apenas clicando na caixa de mensagens e começando a digitar.
– O que digitar... O que falar... — mordi o lábio inferior e fechei os olhos, deixando uma lágrima cair de minha bochecha.
Então decidi.
"Eu te amo, nunca se esqueça disso."
Vi que eu tinha digitado simplesmente aquilo e bloqueei o celular, colocando-o ao lado, enquanto encolhia o corpo e segurava ambas as pernas com as mãos, começando a chorar baixo alguns instantes depois.
Não demorou muito para que a minha tosse ficasse bem mais frequente e a fumaça invadisse o corredor inteiro, o cheiro de queimado era bem mais forte e enquanto isso eu apenas permanecia ao meu lado, observando tudo, me contendo, pois sabia que iria sobreviver.
Então ouvi passos, botas para ser mais sincera, e uma voz me chamava do fim do corredor, mas tudo já estava completamente coberto por fumaça e como consequência eu não conseguia ver quem era.
Depois disso não entendi mais nada, a voz e os passos foram se aproximando, eu sabia que era de Damon pois Bonnie me contara que ele tinha salvado minha vida, mas tirando isso, o resto era tudo confuso.
Minha cabeça voltou a doer, tudo ficou escuro rápido demais.
Podia ouvir sirenes ao meu redor, felizmente, depois de um tempo tudo isso virou eco.
Achei que desta vez acordaria, estava 100%¨certa de que sim, afinal, eu já me lembrava de boa parte das coisas que aconteceram comigo naquela cidade, certo?
Errado.
Eu estava completamente errada e só pecebi isso quando tudo ficou claro novamente.
Olhei ao redor. Estava em um hospital.
O quarto era simples, do lado esquerdo apenas uma janela pequena e um banco embaixo, contendo alguns ursos de pelúcia e buquês de flores.
Porém, ao lado direito, lá estava eu, em uma maca de hospital os olhos fechados e um aparelho em meu nariz, ajudando-me a respirar, junto dos 'bipes' que soavam da máquina ao lado, indicavam que eu estava bem, viva.
A porta do quarto foi aberta e eu pude ver Damon passar por ela, fechando-a logo depois.
Se ele fosse humano, tenho certeza que teria olheiras naquele instante, até por que, era bem fácil concluir que ele provavelmente passara a noite acordado, ao meu lado, naquele hospital.
Sorri de canto e suspirei.
Mas havia algo de estranho em Damon, ele estava nervoso, sua feição não era nada boa e ele agia como se estivesse fazendo algo que não quisesse, algo totalmente contra a sua vontade.
O Salvatore se aproximou lentamente e, com o indicador, acariciou minha bochecha.
Me vi sorrindo e abrindo os olhos logo depois.
– Damon... — murmurei. — Eu... eu estou bem?
– Eu nunca fui muito religioso, Isabella. — ele começou. — Mas acho que depois de hoje eu deveria dar algum crédito para o cara lá em cima, não sei se ele gosta muito de mim, já você... — riu fraco.
Eu o acompanhei.
– Damon, eu... Não sei o que dizer, salvou minha vida...
– Sim, não precisa dizer nada, eu fiz o que deveria, aliás, se não fosse por mim eu nem teria que ter salvo você. — colocando as duas mãos no bolso da calça, ele respondeu.
– Não, não é culpa sua, é culpa daquele... crápula do Klaus. — cuspi o nome, como se fosse o pior dos palavrões.
– Bella, preciso que me escute. — o Salvatore começou, depois de rir fraco pelo meu comentário. — A culpa foi sim totalmente minha, se eu não tivesse entrado em sua vida, a essa hora estaria em casa, não em uma maca no hospital, então, por favor, deixe-me concertar meu erro, sim? — ergueu as duas sobrancelhas.
A voz dele estava... cautelosa, era como se ele tentasse escolher as palavras certas.
E algo me dizia que eu já sabia o que aconteceria a partir dali.
– Eu nunca fiz a coisa certa, pergunte a Stefan quantas veses eu já não estraguei a vida dele nesses anos. — riu debochado. — Eu simplesmente aparecia, deixava meu estrago e sumia, deixando a bagunça para Stefan resolver... Não vai me ouvir dizer que me arrependo, mas talvez algumas vezes eu tenha ido longe demais, confesso. — sorriu de canto. — De qualquer forma, com você é diferente, não tem nem 18 anos, Isabella e já está tão terrivelmente envolvida nisso tudo... — bufou. — Queria ter o poder de tirar essa merda de cura de dentro de você num estalar de dedos, mas nem tudo são flores e eu não posso... Então vou tentar ao menos te tirar do centro dos problemas, te tirar de onde o seu alvo cresce consideravelmente.
Os meus olhos arregalaram e na hora soube o que Damon iria fazer...
Era isso, ele apagou minha memória no hospital! Por isso que quando me lembro da viagem que fiz com minha mãe algum tempo atrás, antes de ir para Forks, minha cabeça dói e a única coisa que me recordo é de ver algumas amigas de minha mãe e de que foi bom, mas durou pouco.
Porém, enquanto eu já tinha entendido o que aconteceria, a outra eu, na maca, continuava com o cenho franzido, tentando processar as palavras de Damon.
– Passei no quarto de Renée primeiro, tudo o que ela vai se lembrar assim que sair do hospital é de que a viagem de vocês foi boa, vocês foram visitar algumas amigas dela, mas não durou nem uma semana e logo decidiram voltar para Phoenix, eu sei que você vai me odiar por isso, Bella, mas é necessário, ao menos até conseguirmos tirar Klaus dessa cidade. — explicou. — Quando isso acontecer, você não dúvide de que eu serei a primeira pessoa a sair daqui e correr para onde quer que você esteja e te trazer de volta, em meus braços, por que ainda que eu precise fazer o certo por você, sou egoísta demais para te deixar.
Finalmente vi a compreensão me atingir e no segundo seguinte, implorava de todas as formas para que Damon não fizesse aquilo.
– Damon, por favor, nós vamos passar por essa juntos...
Ele apenas se aproximou de mim e beijou minha testa; uma lágrima rolou de meus olhos e caiu no cobertor.
– Então saia da cidade comigo, e se eu não ficar segura sem ninguém ao meu lado? Pode ser que não funcione e Klaus vá atrás de mim! — tentei.
O Salvatore pareceu ponderar por alguns segundos, mas depois meneou a cabeça.
– Até parece que eu irei deixar de te proteger, mesmo que se esqueça de mim.
E então percebi que eu tinha desistido, decidindo deixar as palavras de Damon entrarem em minha mente e apagarem cada singela lembrança de tudo o que aconteceu em Mystic Falls.
Interessante é que enquanto ele dizia que nada havia acontecido, um filme se passava em minha cabeça, cada palavra, cada momento e cada coisa vivida passava em meus olhos.
Era como se estivessem passando um filme preto e branco para mim, em uma sala vazia e de repente as cores começassem a surgir na tela.
–... Assim que eu sair deste quarto, você vai se esquecer de tudo... Seja feliz, Bella.
Com essas palavras, Damon deixou o quarto, fazendo com que cada memória da Isabella Swan deitada naquela cama fosse apagada, todo e qualquer vestígio de Mystic Falls, cura e qualquer outra coisa tinha sido completamente retirado de minha vida.
Ele só não sabia que o amor que eu nutria por ele não seria apagado tão fácil assim...
(...)
Quando eu abri os olhos novamente, me vi em casa, na minha cama, no meu quarto.
Passei as mãos pelo cabelo, enquanto processava o ocorrido. Estava tudo tão claro em minha mente, sentia como se o quebra-cabeças da minha vida tivesse sido completo pelas peças que faltavam.
Sorri, ri, quase gargalhei quando percebi que me lembrava de tudo, cada beijo que eu e Damon trocamos, cada abraço que Bonnie, Caroline e Elena me deram, cada conversa que tive com Matt, Tyler e Jeremy, os conselhos de Alaric, as festas, as bebidas, as ressacas, as risadas, os choros. Tudo, cada pequena coisinha estava devolta em seu lugar e eu não poderia estar mais feliz.
Tinha recuperado as memórias das pessoas mais importantes em minha vida e eu não aguentaria até o dia seguinte para contar isso a quem eu sinceramente achava que deveria saber.
Levantei-me da cama, a blusa do pijama fora rapidamente substituída por um moletom vermelho que eu havia comprado com Bonnie, joguei a calça no chão e peguei a primeira jeans que vi; estava com pressa demais para calçar um tênis.
Assim que peguei as chaves do carro e calcei o chinelo vermelho escuro que eu sempre deixava perto da porta, saí.
O relógio do celular indicavam que eram 3:40 da manhã, mas eu não ligava nem um pouco para isso, precisava fazer aquilo, algo dentro de mim gritava, clamava com todas as forças para que eu fosse fazê-lo.
A noite estava silênciosa, não tinha ninguém nas ruas, todas as lojas estavam fechadas, com exceção de alguns bares que mantinham suas portas abertas com seus clientes dançando ao som de músicas antigas e suas garrafas de bebidas.
Encontrei no máximo três ou quatro grupos de jovens deixando pubs, Forks não era uma cidade típica, pelo contrário, era átipica. Todos os adolescentes sempre iam para casa às 22 horas em ponto, querendo agradar seus pais para que eles não fossem alvo das fofocas da semana na cidade.
Eu provavelmente estava colocando o Chefe Swan na lista de assuntos da semana ao sair às 3 horas da manhã de casa, num carro, indo atrás dos novos moradores.
Sempre odiei ser o centro das atenções, sabia que esse ato traria essa consequência, mas tinha uma grande voz dentro de mim que gritava “Foda-se” para tudo isso, eu estava feliz, tinha recuperado minha memória e o que eu mais queria naquele instante era gritar aquilo com todas as letras para cada pessoa que eu visse na rua, mas como isso seria o cúmulo da loucura, dizer que eu lembrava de tudo para o cara que eu amava e abraçá-lo, sabendo que eu não tinha me apaixonado por ele há algumas semanas e sim há meses atrás já era bom o suficiente. Na verdade, era perfeito.
Pensei em ligar o rádio, mas minhas mãos tremiam demais e talvez eu levasse horas para achar uma estação que prestasse, então descartei a ideia.
Não demorou muito e eu cheguei na rua que queria.
Quando estacionei o carro em frente à casa enorme e branca, vi que todas as luzes estavam apagadas, exceto a da sala. Desci do veículo e permaneci perto dele, incerta sobre tocar a campainha ou não. Estava quase desistindo, dando meia volta, a idéia não parecia mais tão boa assim, quando eu vi uma imagem que nunca esqueceria na minha vida.
Tive a honra de ver a porta ser aberta por um Damon Salvatore com cara de sono, sem blusa, vestindo uma calça escura de moletom e os cabelos completamente bagunçados. Ele tinha o cenho franzido e as duas mãos estavam no bolço da calça.
Alguém poderia me responder como ele consegue ser lindo até quando está acordando no meio da madrugada?
– Bella, o que faz aqui, a essa hora da madrugada? – questionou. – Saudades? Eu sei que não pode viver sem mim, mas... nos vimos ainda hoje de manhã.
E então percebi que não sabia como contar que lembrava de tudo para ele.
Apenas um “Eu me lembro” seria muito simples e eu queria algo mais... a minha cara.
Respirei fundo e olhei para frente, sorrindo, já sabia o que fazer.
– Era noite e estava frio... – comecei e ele me olhou confuso, mas também não me interrompeu. – Nós estávamos sentados no capô do seu carro, minha cabeça apoiada no seu ombro, os seus braços ao redor da minha cintura. Faziam algumas horas, mas me lembro que naquele dia umas bruxas enfiaram na cabeça que iriam me sequestrar e me levar para Klaus com o intuíto de matá-lo, ele ainda não sabia de minha existência, então poderiam simplesmente me usarem como uma garota qualquer que ele fosse se alimentar, mas não estava nos seus planos deixar que isso acontecesse... – ri fraco. – Você, Stefan e Tyler apareceram naquela casa abandonada e conseguiram, com o auxílio de Bonnie, me tirar de lá, enquanto Caroline e Elena se encarregavam de distrair as bruxas ali perto. Quando tudo isso acabou, me levou para casa, mas pediu que eu não demorasse, então me trouxe para lá, pra fronteira de Mystic Falls... Depois de alguns minutos em silêncio, me deu isto. – segurei o pingente do colar e voltei a olhá-lo nos olhos. – Disse-me que havia pedido para Bonnie enfeitiçá-lo, algo haver com nenhuma bruxa má do oeste poder me controlar nunca mais. – ri, lembrando-me exatamente das palavras que ele usou. – Mas o ponto principal é que ele pertencia a sua mãe, você me contou que ela te dera um pouco depois de Stefan nascer, antes de morrer. – ela comentou com certo cuidado, sabendo sobre o que Damon verdadeiramente sentia pela mãe. — Ele era importante para ela, quase nunca tirava do pescoço, mas queria que se algo acontecesse com ela, queria que ficasse com você, tinha certeza de que você saberia o que fazer com ele. – então sorriu, olhando para baixo. – E você me deu. Acho que foi por isso que eu senti a importância dele quando me deu de aniversário. – tomou fôlego, esperava sinceramente que ele entendesse o que ela prentedia com aquele discurso inteiro. – Eu me lembro, Damon, de tudo. Desde o dia em que nos conhecemos, até o dia no hospital. Cada palavra, cada beijo, cada briga, cada vez que me salvou... Está tudo fresco na minha memória e eu sinceramente não quero perder de novo, por que eu, eu te amo, caso ainda haja alguma dúvida sobre isso. – voltei a olhar para cima e não me assustei quando vi Damon na minha frente.
Seus olhos azuis brilhavam, em um misto de felicidade e ansiedade. O sorriso em seus lábios parecia ir de uma ponta a outra de seu rosto.
Sem dizer uma palavra, Damon apenas tomou meu rosto em suas mãos, aproximou-me mais ainde de si, depois me beijou.
E então eu soube que não importava o que fosse acontecer dali para frente, desde que Damon e todos os meus amigos e pessoas com quem me importo estivessem ao meu lado, passando por cada barreira e cada dificuldade comigo, eu ficaria bem.
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