Notas iniciais
Capitulo de superação e crises. Comentem quem está acompanhando, ou não.

Capitulo 2

Meus olhos se abriram antes que eu pudesse ordena-los a se fechar. Acordei antes que o meu corpo e mente pudesse se recuperar do choque da noite passada. Antes também, de me sentir preparada para encarar Lorenzo. Eu estava uma confusão, não tinha rumo nem certeza de nada, um pedaço de mim, me foi arrancado com a afirmação de meu irmão. E a minha reação me causava vergonha e culpa. Culpa por ter sido fraca e não conseguir segurar meus sentimentos, quando o que meu irmão precisava era de alguém forte com ele, não a garotinha que ele tinha que cuidar e proteger. Vergonha por não conseguir fazer mais nada do que chorar.

Ambos nos excedemos. Ambos fraquejamos. Ambos queríamos acreditar que aquilo era um pesadelo, e que a qualquer momento iriamos acordar. Mas não era. Aquilo, a notícia, era a realidade. Dura, fria, mas a realidade dos fatos, não tinha como esconder ou fugir. Ela estava lá nos encarando.

Lorenzo chorava copiosamente, e eu também. Eram tantas lágrimas, soluços, cacos, que nos misturávamos. No meio de tudo aquilo, uma dor e uma certeza, seria desumano mais alguém saber. – “Por favor, Megan! Eu te imploro! Não fale pra eles!” – Eu não conseguia responder, doía demais tudo aquilo, doía muito. Ele segurou minhas mãos geladas e vermelhas – “Me prometa! Jure por tudo que é mais sagrado, que não vai contar!” – Soluços o atrapalhavam enquanto falava, mas ele ainda conseguia alguma coisa, diferente de mim – “Por favor, me prometa!” – Enxugou suas lagrimas e me puxou para o chão, nos pés da cama. – “Você sabe como a mamãe ficaria?! E como o papai reagiria?! Prometa-me!” – Me apegando na ultima força que eu tinha, eu disse dificultosamente – “Eu prometo!” – E cai ao seu lado novamente em prantos. Então ele se levantou e correu porta a fora sem rumo, fugindo de mim ou de tudo aquilo.

Mesmo não sabendo como continuar a minha vida a partir dali. Levantei-me e fui lavar o rosto. No fundo eu ainda tinha esperança de tudo aquilo ter sido fruto da minha imaginação, mas o reflexo do espelho me dizia o contrario. Olhos inchados e vermelhos, cabelos armados e com frizz. Nem mesmo isso, refletia como eu estava por dentro.

Acredito que nem um ataque nuclear conseguiria ser parecido com o que estava dentro de mim, ou com o que aconteceu na noite passada.

Já que estava no banheiro, tomei um banho e lavei os cabelos, tudo o que eu menos queria agora era apressar o encontro que eu teria com minha família. Depois que Lorenzo foi embora, eu tranquei a porta do meu quarto, e destruí tudo que tinha na minha frente. Não vi meus pais ou Lorenzo chegando, adormeci no chão, dormindo por cima de tudo que quebrei.

Eu não queria me lembrar de nada, nem de ninguém, então decidi arrumar o furacão da noite passada, penteei os cabelos e fiz um coque frouxo. No meio da bagunça escutei uma chave girando, e logo depois Lorenzo apareceu. Sem nem olhar pra mim e nenhuma palavra, pegou algumas roupas, entrou no chuveiro.

Quando saiu eu estava arrumando os livros na estante, ele chegou perto de mim e pegou minha mão. Olhei em seus olhos negros, e vi remorso e culpa. Ele me abraçou antes que eu pudesse ver a lagrima que estava em seu olho direito cair. Involuntariamente também chorei, mas ao contrario da noite passada, foi silencioso, aonde ambos escutávamos nossos corações e respirações. – “Me desculpe. Eu não deveria ter feito aquilo.” – Ele me disse ainda me abraçando, eu não respondi apenas o abracei mais forte, se alguém era a culpada ali era eu e não ele.

Talvez tenham se passado alguns segundos, ou horas quando nos separamos do abraço, e mesmo com a minha falta de palavras queria que ele sentisse que eu estava com ele e que nunca iria deixa-lo ir. Eu não perguntei onde ele passou a noite, ele não perguntou do por que eu estar arrumando o quarto, ambos imaginávamos que não foi nada tranquilo, depois que ele foi embora, nem pra mim, nem pra ele. Ele me ajudou a arrumar o resto do quarto e quando terminamos, caímos no mesmo chão da noite passada, mas agora ele me acalentando e falando que ia ficar tudo bem e que ele me amava.

Ainda abraçada com ele, eu quebrei o silencio, — “Eles não perguntaram nada?” – Disse me referindo aos nossos pais. Ele se sentou, apoiando as costas no pé da cama, levando minha cabeça para suas pernas, não me olhou, mas disse – “Não. Acharam estranho, você estar tão quieta quando chegaram. Mas acreditam que estava cansada. Também não me perguntaram nada.”- Eu me sentei e olhei para ele, eu precisava falar o que não consegui, por fraqueza. – “Eu prometo por tudo que é mais sagrado, que mais ninguém vai saber. E também que eu estarei sempre do seu lado aconteça o que acontecer.” – Ele beijou minha testa e sussurrou um “eu sei” e muitos “tambéns”. Depois disso o silencio tomou conta do cômodo.
Quando finalmente tomei a decisão de descer pra tomar café, mesmo não estando com um pingo de fome, já era 9h45. Aquilo era muito mais que um café da manhã, era um enfrentamento da verdade. Mas eu precisava fazer aquilo. Lorenzo também. – “Vamos. Nós não podermos nos esconder aqui pra sempre.” – Ele me ajudou a levantar e me deu um abraço, murmurando o quanto aquilo ia ser difícil.

Quando eu já passava pela porta, atingindo o primeiro degrau da escada, ele me parou. – “Eu quero que saiba que eu sempre vou estar com você, mesmo que você decida contar pra eles. Eu te amo, minha irmã.” – Eu virei, o encarando. – “A decisão de não contar foi sua e vou respeitar. Mas quando achar que não der mais, eu também vou estar com você.” – Ele deu um sorriso que não atingiu os olhos, e entrelaçamos as mãos, como prova de que um daria força ao outro.

No fim da escada, já avistamos nosso pai com um jornal na mão, sentado na poltrona. Nos entreolhamos esperando que a coragem viesse, mas ela não tinha nem aparecido quando resolvemos descer, se alguma vez ela existiu nas ultimas horas, morreu quando reprisamos tudo que aconteceu. –“Achei que não fosse mais acordar, Megan.” Eu não estava pronta pra responder, não agora. Mas Lorenzo fez por mim terminando de descer as escadas – “Eu também achei, mas quando entrei no quarto ela já estava pronta pra descer.”

Minha mãe que escutava tudo da cozinha, apareceu sorrindo. Mas o sorriso só fez a culpa me consumir ainda mais. O que ela faria quando descobrisse a verdade? Será que ela aguentaria? Era tão injusto tudo isso. Quando me dei conta todos estavam me olhando. – “Não é minha filha?”- Qual era a pergunta? Não prestei atenção, agora não sabia o que responder.

Olhei para Lorenzo que havia se sentado, esperando ajuda. – “A mamãe perguntou se estávamos conversando e perdemos a noção do tempo, assim como fazíamos quando éramos crianças.” – A infância estava tão longe. Assim como a alegria que nós tínhamos nessa época. – “É mãe. Nós acabamos conversando um pouco demais.” – Minha primeira mentira do dia. Minha primeira mentira para que eles não sofressem, eu sabia o quanto eles odiavam mentira, mas era pra o bem deles, e para o meu também, não iria suportar.

Me sentei ao lado de Lorenzo no pequeno sofá, procurando suas mãos pra tentar esconder o tremor que atingiu as minhas. Quando ele percebeu, entrelaçou nossas mãos e beijou os nós dos meus dedos. Ele não parecia demonstrar nervosismo. Quando se tratava do meu irmão, ele era uma pedra de gelo quando se tratava de esconder emoções. O que deve ter contribuído também, quando não consegui esconder a minha fraqueza. Ver meu irmão, o cara mais forte que eu conheço chorando, devastado, foi um baque muito forte. O pedido de desculpas essa manhã também deve ser por isso. Ele odeia envolver nossa família em seus problemas, mesmo quando ele precisa de ajuda.- “Eu e seu pai estamos tão felizes em ver que vocês estão se dando bem de novo! Nós achamos que íamos ter que nós envolver pra resolver, mas graças a Deus, vocês se resolveram!”- Nosso pai nos olhava ternamente, nossa mãe estava sorrindo como sempre. Se eles estavam felizes, não seria eu, que iria estragar. –“Nós acabamos nos resolvendo. Eu nunca ia deixar meu irmão mais velho sozinho por aí, sem mim.”- Ele me olhou entendendo que aquilo ia muito além da nossa briga.- “Eu também nunca ia deixar minha irmãzinha, que eu amo tanto, sozinha.” – Eu sorri triste.

Minha mãe foi pra cozinha depois de se despedir do nosso pai, dizendo para esperarmos um pouco para tomar café. Nós protestamos dizendo que não tínhamos fome, mas ela não quis saber. Dez minutos depois nos obrigou a comer e tomar um copo de suco. – “Eu não quero minhas crianças franzinas! Se chegar alguém vai achar que eu sou uma péssima mãe! E vocês sabem que eu não sou!” – Desde quando eu era pequena, que ela fazia essa “chantagem” com a gente. Nós não entendíamos muito bem até que, em um final de semana, nossa avó paterna veio nos visitar, e colocou defeito até no jeito em que nossa mãe caminhava. À noite eu e Lorenzo flagramos nossa mãe aos prantos na cozinha, nós tentamos consolá-la, ela tentou disfarçar dizendo que era um cisco que entrou no olho, mas nós sabíamos que não era. – “Já comi mãe! Vou trocar de roupa pra ir pra escola!” – Eu disse me levantando da mesa, mas Lorenzo me segurou pedindo pra esperar por ele. – “Vá se arrumar que eu te levo.” – Quando já estávamos longe o suficiente para ninguém escutar, ele disse – “Eu irei médico hoje. Marquei alguns exames, pretendo faze-los essa tarde.” – Foi mais um susto. Ontem eu descobri que meu irmão tinha câncer, hoje ele já vai fazer exames. Eu não queria deixa-lo sozinho, mas também não entendia a rapidez, então falei – “Mas já? Quando você descobriu o câncer?” – Ele colocou a mão na minha boca, sinalizando que falei um pouco alto demais. Puxando-me escada a cima, entramos no meu quarto, ele olhou para verificar se ninguém nos seguia, fato pouco provável, já que nosso pai havia ido trabalhar, e nossa mãe estava concentrada lá na cozinha, separada por um andar e muitos degraus. Fechou a porta em seguida. – “Faz pouco tempo. Há algumas semanas, se for um mês é muito.” – Um mês. Um mês que ele esconde isso. Um mês que ele enfrenta isso sozinho, por que é orgulhoso demais para pedir ajuda. Um mês que ele sabe que tem câncer. – “Como você descobriu?” – Eu sei que eu fui imprudente em perguntar isso, mas já que ele me contou, acredito pelo menos poder saber como ele descobriu. Eu já esperava o silencio que recebi em troca da pergunta, ele não ia me falar de graça, quer dizer, isso se for me falar.
Com o silencio da resposta, ele saiu do quarto. Eu troquei de roupa, peguei os livros e desci.

Lorenzo me esperava no carro. Sem uma palavra esperou eu colocar o sinto, e ligou o motor. O caminho até a escola não era longo, e eu praticamente já conhecia todas as arvores, praças e pessoas que estavam no caminho. Mas não era com isso que me preocupava. Era com meu irmão. Ele continuou quieto a maior parte do caminho, o que me deixou mais aflita, eu podia ter colocado tudo a perder? Ele perdeu a confiança em mim? Eu não podia/queria deixa-lo sozinho e agora ele enfrentaria, por minha culpa. – “Eu descobri, enquanto ainda estava na faculdade. Por isso resolvi voltar pra casa, aquele curso não estava me agradando mesmo.” – Me pegou de surpresa, mas ele continuou não se importando – “Um dia eu estava fazendo EF, quando senti uma dor de cabeça muito forte. Não dei muita importância, até por que, eu tinha extrapolado na vodca na noite anterior, achei que fosse a ressaca.” – Olhando o retrovisor, fez uma curva e parou na Old’s street. Fechou os vidros e desligou o Cruze. – “Mas não era. Senti-me tonto e fraco, comecei a passar mal. O professor me tirou do jogo, ordenando que procurasse a enfermaria. Eu não queria, pois iam descobrir da bebedeira na noite anterior, mas o mal-estar só piorava, me vi obrigado a ir, mesmo que a detenção viesse como castigo.” – Ele massageou as têmporas, apoiando logo em seguida à cabeça no volante. Estava nervoso por estar voltando ao que aconteceu. – “O que era pra ser só um engov, se transformou em fortes analgésicos. Dois dias. Dois dias internado na enfermaria.” – Ele tirou o cinto de segurança, e começou a abrir os compartimentos do carro, tirando vários recibos, papéis, embalagens de doce. Deu uma rápida olhada em mim, que estava prestando atenção aos seus movimentos, continuando a mexer nos compartimentos, se deteve numa embalagem de doce-de-amendoim, destacando-a após uma analisada.

“As enfermeiras começaram a achar que eu estava com alguma coisa mais grave, então pediram para que um dos professores me levasse ao hospital. Depois de uma ressonância, algumas tomografias e perguntas de praxe. O resultado. Uma lesão em forma de anel, no cérebro.” – Ele finalmente manteve seu olhar em mim. – “Eu fiquei desesperado, um tumor no cérebro? Fiquei pensando em como seria depois, eu perderia cabelos? Ficaria feio? Como contaria pra vocês?” – Segurando minha mão, vi o quanto estava abalado por estar me contando isso. – “Fiquei pensando como seria quando toda a faculdade, professores, diretores soubessem.

Teriam pena de mim, eu seria o pobre ‘coitadinho’ com câncer. Não que eu me importasse com que os outros pensassem, mas me dava medo que vocês soubessem do jeito errado, com um bilhete da faculdade dizendo: ‘Eu sinto muito, mas seu filho tem câncer no cérebro e pode morrer a qualquer momento’. Eu não queria que fosse assim, até hoje me culpo por como te dei a noticia.” – Eu apertei suas mãos, levantando seu rosto para que prestasse atenção. – “Ei, você deu a noticia como poderia dar, como tinha condições. Não se culpe, eu também tive culpa quanto a minha reação.” – Ele acenou que não com a cabeça e continuou. – “Quanto aquele professor que me levou ao hospital, e recebeu a noticia comigo, implorei para que não contasse a ninguém, nem mesmo a faculdade, ou a algum responsável. De inicio ele não concordou, mas acabou aceitando minha decisão, me dando cobertura. Eu sai do hospital com um diagnostico de virose.” – Abriu a porta e saiu do carro. Eu ainda estava estática, quando Lorenzo bateu no vidro do meu lado acenando pra eu ir caminhar com ele, para espairecer. Talvez eu precisasse mesmo de ar, tirei o cinto de segurança e o segui rua abaixo.

Nós sentamos numa praça entre a Old’s street e a Califórnia. O tempo estava gelado e ele me emprestou seu casaco. Nós não falamos mais de doença, apenas sorrimos de algumas besteiras que fizemos quando éramos crianças. Nossa infância era o refugio feliz da realidade. – “Lembra Megan, daquela vez que Ryan te jogou as folhas que recolhemos do quintal? Você ficou uma fera!” – Eu sorri, Ryan era o melhor amigo de Lorenzo, na infância. Eram na verdade parceiros de crime, e adivinha quem era a vitima? Eu. A irmã mais nova. – “Claro que lembro! Lembro também que dei um castigo em vocês dois!” – Ele fez que não se lembrava, mas era clara a expressão de deboche. – “Me deixa refrescar sua memoria. Eu enganei Ryan, planejando atacar você. E enganei você planejando atacar Ryan. E o que aconteceu? Enganei os dois, por que joguei tinta rosa em vocês. E sem sujar as mãos.”- Eu sorri vitoriosa acenando com as mãos um tchauzinho de miss, ele bagunçou meus cabelos. – “Você sempre foi persuasiva. E maligna!” – Fingi me ofender, beliscando seus braços desnudos, já que eu estava com sua blusa.
Fomos atrapalhados da nossa infantilidade, pelo meu celular. Mensagem de Mariah perguntando se ia pra escola. Mostrei pra Lorenzo. – “Vou ou não, maninho? Estou as suas ordens!” – Fiz continência. Ele se levantou e me puxou pelo braço, rua acima, assim como fazíamos quando éramos crianças. Quando avistamos o carro, ele disse – “Você vai, sim. Mas vai dirigir, estou sem vontade.” – Jogou a chave do carro pra mim. Eu vou fazer dezesseis em junho, então já vou poder ter o carro dos sonhos. Meu irmão não se importava que eu dirigisse, mas as piadinhas também faziam parte. – “Só não bata no primeiro poste que aparecer!”- disse deitado no banco de trás.

Quinze minutos depois cheguei á escola, o movimento de alunos estava grande, mas era um dia comum. Fechei os vidros do carro, e me virei pra Lorenzo que estava olhando para o teto. – “Você não quer que eu vá com você?”- Disse me referindo aos exames. Ele discordou com a cabeça. – “Vá estudar pelo menos você se distrai, eu te conto tudo a noite.” – Meio a contragosto desci do carro, ele foi para o banco do motorista. Eu tentei novamente, mas a resposta foi à mesma. Nós despedimos e vi o Cruze preto desaparecer avenida abaixo.

Notas finais
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