Sweet And Bitter.
2 Adeus Pessoas Encarregadas das Torturas Diárias!
Notas iniciais
–Jonah, acorda! Vamos querida! – Ouvi a voz irritante da minha madrasta irritante brincando de ser irritante. – Vai se atrasar!
–Dane-se se eu me atrasar. Por que não me deixa em paz? – Resmunguei e me virei na cama.
–Por que você precisa ir pra escola, querida! – Ela abriu as cortinas do quarto e eu quase morri. Mas que droga, ela quer me cegar? – Olha que dia lindo!
–Dia lindo o caramba! Fecha essa merda! – Cobri a cabeça com o travesseiro.
–Jonah, vamos lá! Deixa esse mau humor! – Ela puxou o travesseiro e o lençol.
–Mas que droga! – Me levantei bufando e fui para o banheiro.
Tomei um banho rápido e abri meu guarda roupa a procura de alguma coisa vestível. Escolhi uma calça jeans desbotada, uma blusa azul escura, uma jaqueta de couro preta e o meu velho All Star, só pra variar.
Desci as escadas e fui pra cozinha, abri a geladeira e peguei uma caixa de cereal. Eu sei. Quem guarda cereal na geladeira? Resposta: Meu pai. É, ele é estranho assim.
Sentei no balcão ao lado da pia e fiquei lá comendo o cereal direto da caixa. Sim, devo ter puxado a estranheza do meu pai. Eu tava bem, até que Erin apareceu na escada.
–Bom dia! – Ele pegou uma maçã, todo sorridente.
–Só se for pra você. – Murmurei. – Anda logo, se não vou chegar atrasada.
–Ok. Vamos. – Ele pegou a chave do carro e eu sai atrás dele.
Cheguei na escola no momento em que o sinal tocou. Era uma vitória para mim. Eu sempre chegava atrasada. Entrei na sala correndo.
–Ah, Srta. Halles. Resolveu nos agraciar com a sua ilustre presença hoje? – O professor de Química sorriu sadicamente para mim. Sempre odiei química. O professor não ajudava muito.
–Oh, sim. – Devolvi o sorriso e fui me direcionando para a minha carteira, no fim da sala. – Senti saudades, você não?
–Obviamente. Sem suas piadinhas infames e seus comentários ridículos a aula fica mais fácil. Não tem tanta graça.
–Não se preocupe, Sr. Blanchard. Pode ter certeza de que sua aula vai ser mais animadinha hoje. – Pisquei pra ele e observei o cara ficar vermelho de tanta raiva.
Tinha um motivo pra ele me odiar tanto. Eu não tinha medo dele. Esse era o motivo. Todos os alunos tinham medo de serem ridicularizados e humilhados na frente de todo mundo. Milhares de mães já chegaram aqui dizendo que o professor de química pratica bulling com os alunos. Minha opnião?
Isso é uma grande frescura. Só isso. Humilhação é o que a criatura sofre quando a mamãe vem no colégio só por que o bebezinho ta ouvindo algumas coisas não muito carinhosas do professor de química. Como eu disse: Frescura.
Mas se quer saber, o professor adorava tudo isso. Ele adorava que tivessem medo dele. Mas ele ainda sofria com uma pequeniníssima pedrinha no sapatinho de cristal dele. Eu.
–Entrada triunfal, hein? – Belly me cutucou e piscou pra mim, debochando.
–Ah, vai se ferrar. – Mandei língua pra ela. – Deveriam fazer uma festa só porque cheguei cedo. Ainda reclamam?!
–Jon, querida. Sua presença não é assim tão requisitada. – Ela me deu um cutucão só pra implicar comigo.
–Eu sei. Mas as vezes gosto de pensar que sou um pouco importante. – Dei de ombros. – Então, o que era tão urgente que queria me falar ontem? Espero que seja mesmo uma coisa muito séria. Eu quase morri.
–Deixa de ser exagerada. – Ela revirou os olhos.
–Se você diz que um King Kong de costeleta e fumando charuto roubar meu celular e me ameaçar com um pedaço de madeira, ser chamada de louca e ser traída pelo próprio irmão é exagero... Ok, talvez eu deixe de ser exagerada. – Dei de ombros fingindo desdém enquanto Belly me fitava com seus olhos castanhos arregalados.
–Isso é sério?! – Ela perguntou de boca aberta.
–Claro que é serio. – Revirei os olhos. – Agora me diz logo a droga do que queria me dizer ontem.
–Ta bom, ta bom. É que... – Ela fez suspense eu quase gritei com ela pra que falasse logo. – NÓS CONSEGUIMOS A BOLSA PRA COLUMBIA!
–Srta. Svenn, deseja compartilhar algo com a turma? – O Sr. Blanchard disse com a sua típica entonação irônica.
Nós somente o ignoramos. Eu estava chocada demais pra falar qualquer coisa. Ai. Meu. Deus. NOVA IORQUE! A cidade que nunca dorme, das pessoas que passam sem olhar na sua cara, dos caras de terno e maletas pretas, dos taxistas mal humorados, da poluição, dos prédios altos, da moda, do hambúrguer e da batata frita, da Apple, do transito e o lugar em que todos vão em busca dos seus sonhos. Praticamente a capital do mundo em minha opinião. E agora, eu iria pra lá. Morar lá. Estudar em uma das melhores universidades do mundo. CARACA ISSO NÃO TA ACONTECENDO!
–Jon, você ta bem? – Belly me tirou do meu transe. – A aula já acabou e você ainda ta com essa cara de jaca amassada!
–BELLY! NÓS VAMOS PRA NOVA IORQUE! COLUMBIA! AI MEU DEUS! EU VOU MORRER! NÃO TO ACREDITANDO NISSO! SOMOS AS PESSOAS MAIS SORTUDAS DO MUNDO! – Comecei a berrar e extravasar toda a minha alegria. Eu não ia parar tão cedo, acredite.
Cheguei em casa pra almoçar e todos já estavam na mesa.
–ATENÇÃO PESSOAS ENCARREGADAS DAS MINHAS TORTURAS DIÁRIAS! – Comecei gritando e todos me olharam assustados. – É COMPLETAMENTE OFICIAL! VOCÊS ESTÃO DISPENSADOS!
–Jonah? Você aceitou de novo um bombom de algum estranho na rua? – George (ou pai, como você preferir) falou me olhando assustado.
–Há-há. Nossa George, to me cagando de rir aqui. – Rebati sarcástica. – Só que não. Só to avisando que finalmente vocês vão se ver livres de mim.
–Como assim Jonah? – Emily (ou vaca ruiva, como você preferir – de novo) me fitou como se eu estivesse pirado de vez e provavelmente se perguntando se ela ainda tinha o número do manicômio.
–Eu vou pra Nova Iorque queridos. – Expliquei sorrindo largamente. – Eu e Belly ganhamos uma bolsa pra Columbia. Vou fazer jornalismo lá, bem longe de vocês. Se verão livres de mim em um mês!
–Jon, querida, não quer explicar isso melhor? – George falou carinhosamente. Ou tentou. Que seja.
–Não. Estou bem assim, obrigada. – Devolvi um sorriso irônico. – Agora se me dão licença – e se não derem, tanto faz – eu vou arrumar minhas coisas.
Subi as escadas sem me importar se estava fazendo barulho ou não. Na verdade, eu queria fazer barulho. Entrei no meu quarto batendo a porta com força desnecessária e joguei minha mochila em algum canto desconhecido. Meu quarto tava realmente uma bagunça. Mas quem liga? Eu é que não ia arrumar. Liguei meu som e coloquei o CD que Belly tinha me dado uma vez de aniversário. Um dos melhores presentes que eu já tinha ganhado. Todas as minhas musicas preferidas estavam ali. Big Cheese do Nirvana começou a tocar. Aumentei a musica e fui pro banheiro tomar um banho.
Eu pulava e cantava no box acompanhando as musicas que se seguiam enquanto a agua fria envolvia meu corpo. Um hora depois, mais ou menos, saio do banho. Visto um short jeans desbotado, uma regata preta com “SISTEM OF A DOWN” escrito em branco na frente, um all star preto de cano curto e pego meu skate. Saio correndo escada abaixo me concentrando para não cair.
-Querida, já vai sair? – A vaca ruiva pergunta da cozinha e eu reviro os olhos. – Nem sequer almoçou!
-Eu já comi. E sim, vou sair. – Respondi e bati a porta de casa.
Sim, eu já tinha almoçado. Belly e eu fomos em uma pizzaria pra comemorar a nossa conquista. As rodas do skate ruíam abaixo dos meus pés com o atrito com o chão e eu dava cada vez mais impulso. Adorava aquela sensação de liberdade que me era proporcionada. Virei na rua tão conhecida por mim e parei em frente a grande casa bege com um jardim bem cuidado na frente.
Toquei a campainha e alguns minutos depois, quando eu já estava quase desistindo, Luke abre a porta. Engoli em seco ao ver que ele usava apenas uma calça jeans folgada, deixando seus músculos do peito e do abdômen tentadoramente a mostra.
-Hey Jon, meus olhos estão aqui em cima. – Disse sarcástico e eu revirei os olhos e o empurrei, adentrando a casa. – Claro, pode entrar.
-Vai se ferrar Luke. – Rebati.
-Nossa, por que o mau humor? – E lá estava novamente o tom sarcástico. Isso me dava nos nervos.
-Na verdade, estou de bom humor. – Sorri de lado e ele ergueu uma sobrancelha duvidando. – É sim! Tenho uma novidade!
-Qual? – Se jogou no sofá da sala e eu me joguei ao seu lado, virada pra ele.
-Eu e Belly conseguimos a bolsa pra Columbia! – Disse animada com um sorriso largo e ele forçou um sorriso sem graça. – Ah, vamos lá Luke. Fique feliz pela gente!
-Eu to feliz! – Retrucou e eu revirei os olhos. Era obvio que não estava.
-Para com isso. Sei quando está mentindo. – Disse e ele bufou.
-Tá bom! Mas como quer que eu fique? – Se levantou irritado me deixando sozinho no sofá o encarando de baixo. – Você vai passar um ano pra lá Jonah! E provavelmente nem vai querer voltar!
-Eu vou voltar! – Rebati.
-Duvido! – Gritou de volta e eu bufei.
Fiquei em silencio enquanto ele andava de um lado para o outro na sala, tentando se acalmar. Até que finalmente suspirou profundamente e se sentou ao meu lado, virado pra mim, com seus olhos castanhos confusos.
– Eu não quero ficar longe de você Jon.
-Luke, serão só 365 dias. 12 meses, 1 ano! Depois eu volto e termino a faculdade aqui! – Respondi pacientemente.
-Eu sei. Mas isso parece uma eternidade pra mim. – Ele abaixou a cabeça triste e eu suspirei. – Já basta eu não poder ficar com você do jeito que gostaria.
Eu fiquei calada. Luke sempre teve uma paixonite por mim, mas eu nunca correspondi. Nós ficávamos de vez em quando, mas eu sempre fiz questão de deixar bem claro pra ele que era só por diversão. Ele não ligava. Dizia que se o fizesse ficar mais próximo de mim estava tudo bem. Mas agora me arrependo de ter feito isso. Por que de qualquer forma, estava o iludindo, fazendo- o achar que talvez algum dia tivesse uma chance. Quando na verdade, essa chance nunca existiria.
-Um ultimo beijo. – Ele sussurrou suplicante. – Por favor. Uma despedida. Eu sei que você não vai querer voltar de lá. Aliás, quem iria querer? Então por favor, só mais um beijo.
Metade de mim dizia que ele estava certo. Que eu deveria beijá-lo. Apenas como uma despedida. Um ultimo beijo. A outra parte dizia que eu apenas estaria o iludindo mais.
-Luke, por favor... – Sussurrei de volta. – Você sabe que eu não...
-Eu sei. – Me cortou. – Eu sei disso. Mas eu preciso sentir você mais uma vez.
O encarei. Seus olhos imploravam silenciosamente. Transbordavam com a dor de um amor não correspondido. Eu odiava vê-lo sofrer. Odiava mais ainda ser o motivo do seu sofrimento. Aproximei nossos lábios e o beijei. Ele pareceu surpreso no inicio, como se pensasse que eu não fosse aceitar, mas logo voltou ao normal e seus lábios passaram a se mover sobre os meus. Sua língua invadiu a minha boca e minhas mãos rumaram para a sua nuca segurando seus cabelos negros enquanto as suas foram para a minha cintura, me apertando carinhosamente, como se quisesse ter certeza de que eu era mesmo real.
Logo o beijo se tornou mais quente, suas mãos passeavam pela minha costa e as minhas apertavam seus ombros musculosos. O ar se fez necessário e nos separamos ofegantes. Ele sorria largamente, completamente feliz, e eu dei um sorriso de lado. Depositei um selinho em sua boca, sugando e em seguida mordendo seu lábio inferior e depois me levantei.
-Tenho que ir. – Disse, pegando meu skate ao lado do sofá e fitando sua expressão meio triste e meio radiante.
-Por que tão cedo? – Ele se levantou também e se aproximou de mim.
-Por que ainda tenho que resolver algumas coisas. – Respondi simplesmente.
Ele se aproximou mais um pouco me puxando pela cintura e depositou um beijo calmo em meus lábios. Nos separamos e eu logo tratei de ir embora. Deixando-o com um sorriso triste e minha consciência pesada.
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