Sutton Hoo - Interativa
17 Capitulo 16
Notas iniciais
No dia seguinte eu acordei, como sempre, as seis da manhã. Estava muito frio naquela manhã, mais do que o normal. Estava tão frio a ponto de criarem fantasmas da minha boca quando ousava falar.
– Bom dia. — Virei o rosto para ver Darkane. Ela estava sentada no chão com a coberta até o pescoço, enrolada como em um casulo.
– Bom dia. Por que acordou tão cedo? — Perguntei. Geralmente apenas eu e Andrew estávamos de pé naquele horário. Algumas vezes, nem Andrew.
– Não consegui dormir direito. Durante a noite ficou bem mais frio. — Ela respondeu apertando mais os braços contra si mesma, buscando mais calor.
– Tenta dormir agora. Caso não consiga, eu vou estar limpando a proa. — Apontei com um dedo para cima. Apenas alguns raios de luz entravam pela janela, considerando que ainda estava um pouco escuro. Pude ver que Marry, Carly, Shay, Nikki, Luria e Alois dormiam bem.
– É. Não se esforce muito. Está frio lá fora.
– Não se preocupe. Tenho uma saúde de ferro. — Mostrei meu muque não muito desenvolvido. Ela riu. — Até mais. — Me levantei e acenei para ela antes de sair do quarto.
Como em todas as manhãs, abri a porta do dormitório masculino e confirmei que tudo estava bem. Depois disso caminhei até o quarto de Elliot. Ele estava coberto até o topo da cabeça, literalmente, e o gato dormia sobre o baú ao pé de sua cama extremamente grande.
Na mesinha de cabeceira ao lado de sua cama, um cigarro ainda emitia alguma fumaça sobre o cinzeiro.
"Deve ter ido dormir tarde."
Apertei contra o aço do cinzeiro e a fumaça logo fora cessada. Me dei ao trabalho de jogar o resto das cinzas e talos de cigarro na lixeira, que vivia cheia de papéis amassados que algum dia foram cartas ou mapas.
A janela do quarto estava aberta e por ela entrava um vento forte e frio, por isso a encostei com cuidado para não fazer barulho.
Cumprido meu dever ali, saí do quarto e subi as escadas até a proa e segui até a cozinha. Me surpreendi quando vi que Andrew não estava lá e eu provavelmente estava sozinha.
– Escravidão... — Resmunguei indo até o depósito e peguei alguns panos, um rodo e um balde.
Queria terminar a cozinha bem cedo, por isso passei pano em todo o chão, mesas e bancadas. Não necessariamente nessa ordem. Para tudo isso levei apenas uma meia hora.
Sempre fui boa com limpeza. Minha mãe e eu vivíamos bem em Illea Bella até meus 13 anos. Nessa idade eu a perdi para a morte, a qual vinha quando não pagávamos nossas dívidas. Fora por causa delas também que meu pai nos abandonou quando eu era ainda menor. Hoje está vivendo como guarda em alguma ilha distante a qual eu espero nunca visitar.
Fico feliz porque penso que Elliot poderia ter matado minha família quando atacou a ilha, mas como não fez isso, mesmo que sem querer, ele me privou de odiá-lo e culpá-lo muito mais.
Saí em proa aberta, ato do qual eu me arrependi assim que senti o vento frio batendo contra minha pele. Meus trajes eram mais para ocasiões quentes, já que não esperava essa baixa temperatura repentina. Nem ao menos coloquei um sapato. Eu era como um camelo no ártico.
"Nossa. Que bela comparação."
Comecei a varrer o chão da proa que estava um pouco úmido e coberto por pequenos cristais de sal. Pelo visto choveu noite passada e o mar se agitou, jogando água sobre a Madeira da proa.
– Ah! — O vento começou a ficar mais forte, forçando meu cabelo a ir todo para trás e a vassoura caiu de minha mão. — Obrigada, São Pedro. Muito obriga. — Murmurei revoltada enquanto voltava até minha vassoura e a punha de pé.
Conferi se dentro dos caixotes ainda havia Madeira suficiente para caso de reposição e se também contínhamos vinho e água potável nos barris.
– Você é louca? — Ouvi uma voz um pouco mais longe do que meu alcance podia captar. Virei o rosto, fazendo meu cabelo ir todo para frente seguindo a direção do vento forte. A mais rara visão se concretizou assim que vi Elliot de pé, já vestido e isso ás sete e meia da manhã.
– Uau. Isso é inesperado. — Disse mais para mim mesma, mas ele pareceu ouvir, uma vez que revirou os olhos antes de caminhar até mim com uma mão sobre os olhos, protegendo-os do sal que poderia vir a entrar neles. — Caiu da cama?
– Algo assim. — Ele mantinha os olhos semi-abertos como se a claridade, nem tão clara assim, o incomodasse muito. Ele olhou para o céu e encarou as nuvens carregadas que passavam sobre nós. — Aqui. Ponha isso. — Ele tirou o sobretudo que cobria seu corpo, o empurrando com os ombros. Passou os braços em volta de mim e pousou a peça sobre meus ombros, me fazendo perceber que não era tão pesada como parecia.
– Eu estou bem. Não precisa. — Eu não sabia direito como agir diante daquela situação. Apenas percebia o quão bem cheirava meu capitão e o quão grande aquela roupa ficara em mim.
– Não quer morrer congelada, quer? — Ele arqueou a sobrancelha com um sorriso, mas olhou novamente para cima quando começou a sentir gotas pesadas e continuas começarem a cair sobre a proa. — Vem, vamos. — Ele me guiou com uma mão em minhas costas até chegarmos na cabine dele, que encontrou algumas dificuldades em fechar a porta por causa do vento forte que soprava na outra direção.
Corri até a janela e fiquei sobre os joelhos no sofá em baixo desta, olhando a chuva molhar toda a proa a qual eu havia varrido e limpado tão bonitinho. Agora estava coberta de água e, com o balançar do barco e as ondas fortes, algumas algas, trazidas pela água salgada.
– Eu acabei de limpar isso! — Choraminguei com os dedos sobre o vidro que era pouco a pouco coberto por gotas de água que raspavam contra este seguindo a direção da ventania.
– A última vez que choveu assim, o navio quase virou. — Elliot soltou o comentário enquanto sentado em sua cadeira giratória de couro. Me virei apavorada para ele, realmente acreditando em suas palavras. — Estou brincando! — Sua risada se misturou com o barulho da chuva contra a Madeira.
– Idiota. — Cruzei os braços. — Mas... Não tem chances de isso acontecer, tem? — Queria apenas confirmar, já que sou um pouco medrosa quando falamos sobre perdidos em mar aberto.
– Tem? — Ele retrucou com outra pergunta e um sorriso de deboche.
– Elliot! — Bati o pé no chão, irritada.
– Lucy! — Ele arqueou a sobrancelhas, tirando sarro de mim. Grunhi para ele, que apoiou os pés sobre a mesa de Madeira arcaica.
– Você deu comida pro gato? — Lembrei repentinamente do animal que se tornou algo como um mascote da tripulação.
– Não. Será mais fácil se ele morrer de fome. — Ele cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos.
Suspirei e revirei os olhos.
– Você não conseguirá matar ele, uma vez que nós o alimentamos sempre.
– Então por que perguntou pra mim?
– Porque ele estava dormindo com você. — Começamos a responder rapidamente sem pensar muito.
– Comigo? Ew!
– Então simplesmente poderia da água para ele algumas vezes. Não te vai cair os braços e ele não vai te comer.
– Como você sabe?
– Porque ele é um gato! Um inofensivo e fofo gato!
– Você leu a carta, não leu?
– Sim! — A resposta saiu totalmente automática no meio de nossa discrição e só fui me dar conta quando ele já me olhava com uma sobrancelha arqueada e as feições tediosas. — Ahn? Como você sabe...?
– Você simplesmente enfiou o papel dentro do envelope. Até um mamute seria mais delicado que você.
– Desculpe... Só fiquei curiosa. — Virei para a janela, sem realmente querer encarar Elliot agora. Eu geralmente não faço esse tipo de coisa e não gostava de ser pega no flagra.
– Tudo bem.
– Sério? — Franzi o cenho. Ele aceitou rápido demais e não fez o escândalo que pensei que faria. Se era pra estar tão calmo assim, podia ter me mostrado antes sem nenhum problema.
– É. É só uma carta, de qualquer forma.
– Então... Quem é Emily? — Perguntei um pouco receosa. Não queria parecer interessada demais.
– Os pais de Emily foram piratas perigosos. Eram amigos do meu pai. — Ele suspirou, mas não parecia incomodado em contar a história. — Ela e eu nós conhecemos bem pequenos, mas não crescemos juntos ou algo assim. Nos vimos novamente apenas depois de meu pai ter morrido, quando eu ainda tinha meus 16 anos. Ela era bonita, mas criou algo como uma obsessão por mim depois que dormimos juntos.
– Uau. Me poupe dos detalhe.
– Certo, certo. Eu meio que dispensei ela e esqueci de sua existência por um tempo. Ela é rude com as palavras e não se sente incômoda em me jogar na cara que minha mãe era uma puta. Uma pessoa desagradável, por isso não queria mais sua companhia. — Ele rabiscava um papel com a ponta seca da caneta de tinteiro. — Mas quando Billy Bond levou você... Eu enviei uma carta para ela. Quero que Emily meio que... Distraia ele. Billy Bond está com os holofotes sobre nós agora, o que definitivamente não é bom.
– E o que ela pode fazer?
– Atacá-lo. — Ele disse ao jogar a caneta sobre a mesa sem muita delicadeza.
– Assim? Sem mais nem menos?
– Sim. Ela também não gosta muito dele.
– Ah... Falando em Billy Bond... — Queria algum pretexto para falar de Harry e talvez abordar o assunto.
– Bom dia! — Alois entrou na cabine com um sorriso enorme. — Eu não estou interrompendo nada, pelo visto. Que bom! Odiaria ter feito isso. — Ela fechou a porta com a mesma dificuldade da qual Elliot passou.
– Não teríamos nada pra ser interrompido. — Cruzei os braços.
– Não parece, já que a roupa que você está usando diz o contrário. — Ela me lembrou, da pior maneira possível, que eu estava ainda com o casaco de Elliot.
– Alois, o que te animou tanto nessa manhã? — O capitão mudou de assunto sem se afetar muito com os comentários.
– Sei lá! — Ela caminhou até mim e se sentou ao meu lado. — Eu só acordei feliz.
– São oito da manhã. — Arqueei uma sobrancelha. — Você não acorda as oito da manhã.
– E o capitão também não. — Ela retrucou rapidamente. — Gente, hoje é um dia frio. Eu dormi no chão. Óbvio que não consigo dormir muito. — Ela se levantou com as mãos na cintura.
– E vai continuar dormindo. — Elliot sorriu abertamente. — Essa é a última noite. Aposto que depois disso não vão brincar com meus problemas com álcool.
– Mas eu não fiz nada! — Ela bateu na mesa com força. — Capitão...!
– Somos uma equipe. Se um sofre, todos sofrem juntos. — Ele acendeu um cigarro, o qual nem vi de onde tirou.
– Então por que você não está sofrendo junto com a... "Equipe"? — Perguntei, seguindo a lógica.
– Minha querida Lucy, isso é a vida. A pessoa com maior autoridade tem seus privilégios. — Ele soprou a fumaça para cima. — Além de que... Eu que sofri com isso. Pelo fato de ter sido abandonado no chão, fiquei com dor nas costas por umas boas horas.
– Não seja dramático. — Revirei os olhos.
– Ahn... Ok, ok. Gente, que tal se déssemos as mãos e sejamos todos amigos? — Alois
– Ahn? — Elliot arqueou uma sobrancelha — Você está bêbada?
– Não. Só que vocês parecem duas crianças que vivem brigando! — Ela suspirou. — Uma hora estão se pegando e outra gritando.
– Alois! — Eu e Elliot dissemos ao mesmo tempo com a voz firme.
– Uiui. Desculpe se falo a verdade. — Ela cruzou os braços e revirou os olhos. — Por que não dizem logo que se gostam?!
–...
Ninguém falou nada naquela cabine, mantendo um silêncio totalmente incomodo e tenso.
– Alois, cale a boca. — Elliot resolveu a discussão com essas palavras. Alois simplesmente abaixou a Cabeça, afinal, Elliot era o capitão.
Depois disso, o único barulho que conseguíamos ouvir era das gotas batendo com força contra o vidro. Elliot continuava fumando seu maldito cigarro enquanto olhava a janela no outro extremo da cabine, Alois cruzara os braços e mantinha o rosto emburrado enquanto sentada ao meu lado e eu apenas apoiei os braços cruzados sobre o parapeito da janela e observei a chuva caindo.
O silencio fora quebrado única e exclusivamente pelo som de um trovão que viera logo depois de um clarão no céu nublado.
– Temos o controle do navio? — Elliot perguntou um pouco tenso depois do estrondo do trovão.
– Não tenho ideia. — Alois se levantou rapidamente e eu logo fiz o mesmo. — Mas as ondas estão agitadas e algumas já ultrapassam até a proa.
– Preciso que uma de vocês confirme os dormitórios.
– É pra já. — Alois correu até a porta. Fora suficiente ela abaixar a maçaneta para que o vento forte empurrasse a porta com força, fazendo diversos papeis voarem e até mesmo nós estávamos buscando apoio e cobrindo os olhos.
Alois saiu com pressa, tentando não se molhar tanto. Ela podia contornar para chegar nas escadas, por isso não chegou ao ponto do encharcada.
– Eu confirmo os nós das velas. — Tirei o casaco de Elliot e joguei sobre ele. — O senhor verifica o leme.
– Você vai ficar doente. — Ele disse como se minha sugestão fosse um absurdo. — E se você morrer, quem irá limpar esse navio?
– Você encontra alguém. — Estremeci quando percebi que o casaco de antes me mantinha aquecida.
– Lucy... Arg. Ok. — Ele analisou a distância que eu percorreria. Teria que cruzar a proa toda e checar todos os nós. — Faça rápido.
– Como quiser. — Fiz uma pequena reverência como gozaçao. Parei em frente da porta e senti o vento empurrar tanto meu cabelo como o tecido de minha roupa para trás.
Tomei coragem e corri até o lado já descoberto da proa, sem um teto. Em menos de um minuto eu estava totalmente molhada e com os dentes batendo de frio. Comecei a apertar mais os nós, sendo que dois deles estavam já se afrouxando e quase soltando-se.
Se isso acontecesse, não conseguiríamos tomar o controle do navio novamente e perderíamos horas arrumando.
Senti a água embaixo de meus pés descalços e vi que uma onda quebrou na parede do navio, fazendo grande parte da água entrar.
– Deus... — Corri até a borda e vi que a água estava agitada. Agradeci por poucas ondas conseguirem atingir altura suficiente para invadir a proa.
Olhei para o céu, deixando a chuva molhar mais meu rosto. As nuvens estavam escuras e iriam descarregar sobre nós.
– Hey! Lucy! — Ouvia já Alois me chamando e acenando para que eu voltasse. Ela estava em frente da porta da cozinha e Elliot ao seu lado, de braços cruzados e apoiado na parede.
Olhei para cima mais uma vez, sem saber exatamente porque, e corri até eles.
– Oh my god, Lucyzinha! — Ela me segurou os ombros. — Você está parecendo um peixe que saiu da água.
– Obrigada... — Disse irônica.
– Rápido, você tem que tirar isso antes que fique doente. — Ela começou a desabotoar minha camisa, deixando já meu sutiã exposto.
– Ahn... Desculpe interromper, mas eu ainda estou aqui. — Elliot parecia um pouco tenso com a situação.
– Ah! Elliot, saia daqui! — Gritei com ele, que virou de costas rapidamente.
– Desculpe, mas não posso simplesmente atravessar o navio nessa chuva! — Gritou na mesma intensidade enquanto eu continuava agarrando o tecido contra mim, como se ele ainda pudesse ver algo.
– Você viu alguma coisa?! — Perguntei irritada.
– Eu acho que sim, já que a Alois começou a te dispir bem na minha frente!
– Esqueça agora o que você viu!!
– Sinto muito, mas não é tão fácil como parece! — Ele segurou a cabeça com as duas mãos.
– Arg! Morra, Elliot! — Voltei para o quarto bem rápido porque, afinal de contas estava bem frio e eu estava toda molhada. Tive que atravessar a proa novamente, mas eu já não podia ficar mais encharcada. Entrei no quarto, pingando e com Alois atrás de mim.
– Eu não acredito que você fez isso! — Eu sussurrava com raiva, uma vez que as outras dormiam ali.
– Desculpa! — Ela também não aumentou o tom de voz. — Mas você tem um corpão, por que está brava? Ele só viu como você é gostosa! — Ela dizia como se fosse tudo super normal.
– Alois! — Me virei para ela, já trocando de roupa. — Não diga essas coisas.
– Querida, se você pelo menos estivesse com um sutiãzinho capenga eu até entenderia seu drama, mas esse está muito bom. Preto realça e aumenta os peitos! Eu sei disso.
– Ew! — Tentei não imaginar nada e apenas coloquei uma roupa seca enquanto ela dizia coisas constrangedoras e me forçava a escutar. Apenas parou de falar quando eu espirrei. E espirrei de novo.
– Eu sabia! — Ela puxou os próprios cabelos. — Se tivesse tirado naquela hora, não estaria gripada agora.
– Claro, eu ia tirar minha roupa com o Elliot ali. — Revirei os olhos. — Não é nada sério, de qualquer maneira, o resfriado.
– Sei. — Ela torceu a blusa, que estava molhada também. — Bom, é melhor você esquecer e seguir em frente! — Ela sorria como se fosse a coisa mais simples do mundo.
– Toma — Lhe joguei uma roupa seca e ela vestiu-se rapidamente, mas não deixou de falar.
– E se eu tirasse minha roupa lá fora?
– Antes você do que eu. — Cruzei os braços e vi Arkane se mexendo. — Abaixe o tom. — Sussurrei mais baixo e Alois revirou os olhos, como sempre.
– O ponto no qual eu queria chegar é... — Ela se calou assim que saímos do quarto. — Oh! Oi, capitão! — Ela acenou para Elliot, que vinha de seu quarto. Ele olhou para nós e se virou rapidamente.
– O que foi? — Perguntei enquanto ele estava de costas e com o antebraço sobre o rosto.
– Não posso olhar pra você agora. — Fora sua simples resposta que me fez ranger os dentes.
– Está pensando coisas sujas?
– Você não quer saber o que está passando na minha mente agora.
– Elliot! Seu pervertido!
– Hey! Isso não é minha culpa! — Ele se virou e tentou-se em olhar um pouco mais abaixo de meus olhos. — Ahn... Enfim! A culpa é sua, que fica tirando a roupa na minha frente! Você é a pervertida! — Apontou o dedo para mim, acusador.
– Foi ela! — Apontei para Alois, que parecia totalmente perdida. — Arg! Esqueça isso e continue seu trabalho.
– Meu trabalho? Eu estava fazendo meu trabalho. — Ele puxou o tampo e cobriu os degraus, fazendo com que a água deixasse de molhar o andar inferior da proa. — Viu só?
– Nossa, realmente. Grande trabalho. — Comentei irônica, mas recuei de imediato quando ele tirou a espada da bainha e apontou para meu pescoço, com a ponta da lâmina contra minha pele.
– Eu estou dia e noite pensando no melhor para esse navio e essa tripulação. Passei a noite passada todinha lendo e interpretando mapas, pensando em como chegar com segurança na ilha mais próxima. Não me diga que não faço meu trabalho.
– Pensando no melhor para a tripulação? — Segurei a lâmina prateada com uma mão e a tentei afastar, mas ele a mantinha apontada com determinação. — Se para você o melhor para a tripulação é nos obrigar a dormir no chão, acho que precisa mudar um pouco seu conceito de "melhor para a tripulação". Tudo que vejo é você buscando o melhor para si mesmo. — Apertei com mais força, sentindo o corte da espada começar a penetrar em minha mão com a força que eu impunha sobre ela.
– Melhor para mim? Você não sabe o que diz! — Ele colocou um pouco mais de força contra meu pescoço. — Se eu apenas buscasse meu próprio conforto e segurança, não teria nem ao menos me arriscado em ir te salvar no navio de Billy Bond.
– Você está certo, capitão. — Pronunciei a última palavra com certa raiva. — Mas ainda assim, pense mais nos outros. Marry está grávida, Elliot. Você acabou de colocá-la para dormir no chão. Ainda por cima está frio. Deixe de lado seu orgulho um pouco e pense no que é melhor diante da situação atual. — Comecei a sentir o sangue rubro e viscoso escorrer pela minha mão e pingar no chão.
– Lucy, sua mão! — Alois, que observou nossa briga de perto e calada, puxou meu braço. Assim que Elliot viu meu ferimento, soltou a espada de imediato, criando grande ruído quando caio no chão.
– Lucy, por favor me perdoe! — Elliot parecia com medo. Ele pensava que fora ele que me cortara.
– É minha culpa. — Puxei o braço das mãos de Alois e deixei pingar no chão. — Não foi nada. — Suspirei. — Vou lavar isso, se me dão licença.
Saí do corredor um pouco irritada e também me sentindo culpada. Não fora proposital o corte, mas não queria que ele se sentisse mal por isso.
Entrei no banheiro do dormitório feminino e me fechei lá. Liguei a torneira e deixei a água levar o sangue que escorria pelos dedos e pela palma da mão. Não fora um corte profundo, mas fora extenso. Bastou apenas uma faixa em volta da mão para que tudo ficasse sob controle, mas ainda estava doente.
(...)
Eram nove da noite quando finalmente atracamos. O Porto de Sally já era convidativo e animado. Estava cheio de luzes por toda a cidade, que se mostrava muito alegre. Iríamos esperar a tripulação de Emily até o entardecer. Por meio do meio dia do dia seguinte ela irá atracar, então iremos resolver o que temos para resolver com a princesinha.
Arkane fez questão de vir comigo e com Elliot para procurarmos algum medicamento para meu resfriado, que aos poucos me deixava cansada, exausta.
Caminhamos em silencio pelas ruas, que oq contrário de nós, eram bem barulhentas.
Haviam músicos com seus instrumentos, cortesãs expondo o corpo, senhoras estendendo os tapetes nas janelas e crianças correndo animadas, brincando.
Procurávamos alguma casa medicinal que vendesse ervas ou algo assim.
– Aqui! — Arkane apontou animada para uma das lojas. Assim como toda construção em Sally, as paredes eram coloridas e de pedra. O letreiro todo iluminado, mas dentro da loja havia uma atmosfera sombria e tudo estava muito quieto, tirando o som de uma faca esculpindo algum tipo de Madeira. Vimos que ao fundo da loja, depois de algumas estantes com ervas, algas e plantas, havia um senhor esculpindo um tronco fino.
– Como posso ajudá-los? — A voz dele era tremula e rouca, mas parecia hospitaleira. Não pareceu se importar com nossas armas.
– Oi! — Arkane me forneceu apoio para caminhar até a bancada. Elliot tentava não mostrar muito seu rosto, sendo que desde que pisamos em Sally já havíamos visto mais de 12 panfletos com seu rosto. — Minha amiga está bem doente. Pegou uma chuva muito forte essa manhã.
– Você parece cansada, minha jovem. — Ele me olhou com calma exalando de seus poros. Deixou seu trabalho sobre a bancada e se levantou, indo buscar um frasco com algumas ervas. — Isso vai te fazer se sentir melhor. Amasse e tome o suco.
– Obrigada... — Apertei o vidro com força. — Capitão... O dinheiro.
– Ah... Claro. — Elliot se apressou em vir até a bancada. Buscou algumas moedas no bolso e deixou sobre a bancada.
– Isso é o suficiente. — o senhor devolveu uma das moedas de prata das quais Elliot havia dado.
– O que é isso? — O capitão apontou para um frasco de vidro tampado com uma rolha. Tinha um preço muito alto e uma quantidade muito pequena.
– Veneno, meu jovem. — O senhor pegou o frasco e balançou o conteúdo. — Um dos mais fortes. O último homem que comprou um desses de mim pagou o dobro. Zarpou tem uma semana...
– Como ele era?
– Grande, com uma barba grossa e expressões cansada e já com idade, mas tinha cheiro de...
– Morte. — Elliot concluiu, engolindo em seco. — Sei quem é... — Ele se referia á Billy Bond, com certeza.
– Alguém que te quer morto, rapaz?
– infelizmente, sim. — Elliot passou as mãos pelo rosto e algo em suas mãos cobertas de anéis e pelas luvas chamou a atenção do vendedor.
– Esse anel... — Segurou a mão de Elliot, que se assustou com tal ato. — Foi Ellie quem te deu, certo?
– Como conhece essa mulher? — Ele puxou a mão contra si, pousando os dedos sobre o rubi em seu indicador direito. Mantinha-se sério e parecia curioso, ao mesmo tempo que tinha nojo ao pensar em sua mãe.
– Ela mora aqui, meu jovem. — Disse ele, sentando-se em seu branquinho. Vi o rosto de Elliot empalidecer. — Uma doce mulher.
– N-Não... Ela não é! — Elliot recuou, apavorado. — Precisamos ir embora daqui! Vamos agora!!!
Fale com o autor