Sutton Hoo - Interativa
20 Capítulo 19
Notas iniciais
– Ew. Você é tão estranho, tio Elliot.– Não podia ser real. Isso não podia ser real. Por favor que não seja real... — Tio Elliot, seu cabelo é tão claro...
– Jun! — Bastou abrir os olhos que eu já via aquela criança em cima de mim e com seus brinquedos estúpidos espalhados na minha cama. Me levantei rapidamente e peguei ele, o jogando em cima de meu ombro.
– Não! — Trevor começou a gritar.
Fui abrindo todas as portas que eu encontrava. Precisava achar Jun o mais rápido possivel para controlar aquela criança.
Quando cheguei na cozinha, Jun comia seu café da manhã como se nada estivesse acontecendo. Como se não tivesse uma criatura pra vigiar.
– Pai! Pai! — Ele gritava no meu ombro enquanto se debatia e tentava me fazer soltá-lo. — Me põe no chão!
– Isso... — Puxei o garoto pela perna e o segurei de cabeça para baixo com uma mão. — Estava no meu quarto de novo.
– E que mal tem nisso? — Jun colocou outra torrada na boca. Trevor ficava balançando enquanto o sangue já descia para sua cabeça.
– Eu já disse: sem brinquedos ou crianças na minha cama, no meu quarto ou no corredor.
– Mãe!
– Elliot! — Marry tirou Trevor de mim. — Quantas vezes já disse para não segurar o Trevor assim? Parece que estou falando com outra criança!
– Marry, diga ao seu rebento para que não entre no meu quarto ou passe em frente do corredor do meu quarto.
– Elliot, em primeiro lugar, ponha uma camiseta. — Ela já tinha o menino em um dos braços.
– Eu teria feito isso, se não tivesse acordado com um garoto de três anos mexendo no meu cabelo e espalhando seus brinquedos na minha cama. Sabe quantas vezes eu já deitei em cima de um boneco ou pisei em um lego?
– Certo. — Ela pareceu mais convencida com meus argumentos. — Trevor, peça desculpas ao capitão Elliot.
– Desculpa, tio Elliot. — O garoto podia parecer inocente, mas eu sabia que apenas estava se fingindo de bom moço para com a mãe dele.
– Eu não sou seu tio. — Fiz careta para ele, puxando o canto de meus olhos para que parecessem com os dele. Não era o objetivo que ele achasse engraçado, mas Trevor riu.
Marry suspirou com um sorriso no rosto e se sentou ao lado de Jun. Deu-lhe um beijo rápido e começou a servir um pedaço de bolo para Trevor.
– Então, não vai comer? — Jun perguntou. — Andrew fez bolo.
– E onde ele está agora? — Me sentei de frente para os três.
– Voltou a dormir com a Carly. — Marry disse. — Estavam os dois no dormitório feminino.
– Hm. — Bocejei e passei dois dedos sobre a mesa. — Alguém tem limpar isso.
– Lucy costumava limpar todo dia.
– Todo dia não. Ela era uma preguiçosa. — Corrigi a frase de Marry. Ela me deu um sorriso triste, do qual eu desviei o olhar.
– Quem é Lucy? — Trevor perguntou antes de levar o garfo até a boca. Criança curiosa.
– Foi uma garota muito importante pro tio Elliot. — Jun passou o guardanapo no queixo do menino.
– Isso é uma mentira. — Me pronunciei em seguida.
– Você gostava dela? — Trevor tinha a péssima mania de persistir em assuntos desagradáveis.
– Você devia ser uma criança muda. — Me curvei sobre a mesa e fiquei próximo dele. — Sabia que durante a noite, o Kraken devora crianças chatas como você?
– Elliot... — Marry.
– Não é mentira. — Comecei a falar mais baixo, o fazendo prestar atenção em cada palavra. — Era uma noite de lua cheia, como será a de hoje, e meu pai tinha me posto na minha cama, mas eu era chato como você e não quis ir dormir.
– E então? — Trevor estava acreditando.
– Então o Kraken destruiu nosso navio atrás da criança chata, mas meu pai tentou me salvar. Ele lutou ao lado de seus cento e cinquenta marujos. Eles afastaram o Kraken, mas este levou como lembrança... A perna de meu pai. — Terminei a história e Trevor parecia totalmente surpreso.
– Não é verdade, o pai dele tinha as duas pernas. E se o Kraken levasse todos os chatos, Elliot não estaria mais aqui hoje. — Jun acariciou a cabeça do menino depois de ter estragado por completo minha história.
– Vem, vamos tomar banho? — Marry o pegou nos braços e o ergueu, dando beijos na barriga dele, que ria. — Vejo vocês depois, rapazes.
Ela saiu da cozinha e levou Trevor com ela. Pudemos ouvir ele rindo até descerem ao outro andar. Jun estava me olhando fixamente, o que estava me incomodando. Geralmente quando ele fazia isso era porque queria conversar sobre algo, e nesse momento eu já sabia do que se tratava. De quem se tratava.
– Então... Você está bem? — Ele perguntou.
– Sim. Por que não estaria?
– Hoje já tem quase três anos que a Lucy foi embora. — Chegamos ao ponto em que ele queria desde o começo daquele diálogo.
–...
– Você não sente falta dela?
– Foi decisão dela sair. — Impus sobre suas palavras.
– Nós dois sabemos que não é verdade. Você fez cagada, Elliot. Foi isso que afastou ela, não foi?
– Eu não fiz nada.
– Ela gostava de você, e pensou que você sentisse o mesmo.
– Eu sentia! — Disse sem pensar. Jun arqueou uma sobrancelha. — Realmente... Sentia.
– Elliot, o que aconteceu naquele dia...?
– Não quero falar sobre isso, Jun... — Já estava ficando estressado com aquele assunto incômodo.
– Mas...
– Chega! — Usei um tom que eu geralmente não fazia uso, o fazendo ficar quieto e abaixar o olhar. — Não quero falar sobre ela de novo. — Me levantei rapidamente, fazendo a cadeira quase cair para trás.
– Bom Di... — Arkane entrou no cômodo animada, mas logo sentiu a atmosfera pesada.
– Limpe essa cozinha. — Passei por ela após ordenar, sentindo o olhar dos dois em minha nuca, mas apenas ignorei e segui até meu quarto.
Bati a porta e apoiei as costas na Madeira, fechando os olhos enquanto suspirava.
Devastador. O nome "Lucy" era simplesmente devastador. Talvez essa não fosse a palavra exata, mas seria algo bem próximo disso.
Levei um susto ao ouvir batidas apressadas na porta. A esse ponto eu já sabia quem era e revirei os olhos antes de abrir apenas uma fresta da porta.
– Me deixe entrar. — Trevor estava parado em frente da porta com um sorriso animado, faltando um dos caninos.
– Não. Vaza. — Lhe disse, sério.
– Mas eu já tomei banho. — Tentou usar chantagem emocional, colocando as mãos atrás das costas, balançando o corpo. — Por que você não vai me deixar entrar? Eu não estou fedido.
– Vaza. — Fechei a porta e já ouvi seus passos apressados provavelmente indo contar aos seus pais. — Auch! — Senti uma dor aguda ao pisar em um carrinho de brinquedo.
Comecei a juntar os brinquedos do chão com o pé e os deixei amontoados em um cantinho. Talvez eu afogasse Trevor entre eles mais tarde.
Bati o edredom e mais alguns brinquedos rolaram para o chão, incluindo alguns ursos de pelúcia. Os juntei na montanha de brinquedos no canto e fui me vestir.
Foi tempo de por até a última peça para que eu ouvisse novamente os passos apressados pelo corredor. Parei de abotoar as abotoaduras de meu pulso, esperando, rezando para que o barulho dos passos diminuísse à medida em que Trevor desviasse, mas apenas aumentaram.
– Capitão. — Marry bateu em minha porta, me fazendo choramingar internamente. — Posso entrar?
– Se eu disser que não você vai embora? — Tentei arriscar, mas ela logo empurrou a porta e me encarou com uma sobrancelha erguida e Trevor em um dos braços.
– Jun, Shay e Neon estão te esperando em sua cabine. — Ela colocou a criatura no chão, que logo correu e se agarrou em minha perna.
– Certo. — Balancei minha perna, esperando que ele se afastasse, mas não surtiu efeito — Ô, grude. Me dá licença? — Fora mais uma ordem do que um pedido, mas o menino não pareceu se importar. — Marry.
– Filho.
– Tchau, tio Elliot! — Ele saiu correndo com Marry em seu encalço, já que da última vez que o deixaram sozinho por muito tempo ele quase se matou pensando que haviam golfinhos ao redor do navio.
Caminhei lentamente até minha cabine. Quando se reuniam assim para falar comigo, nunca era boa notícia, então era ingenuidade demais da minha parte pensar que iriam me dizer que abasteceram o estoque de pirulitos.
– Finalmente. — Neon suspirou quando entrei na sala. Lhe ergui os ombros, como quem diz "não posso fazer nada".
– Então... Qual é a novidade? — Perguntei irônico antes de bater a testa na luminária de pé ao lado de minha mesa.
– Bom... — Jun se levantou rapidamente e me esticou um mapa sobre minha mesa. O mapa continha as correntes de ventos e alguns transtornos marítimos. — Estamos aqui, certo?
– Sim... — O incentivei a continuar.
– Infelizmente o tempo vai mudar. — Shay se aproximou também, apontando para alguns pontos esbranquiçados no mapa. — Até semana passada essas nuvens iriam descarregar na corrente sul, mas acabaram na norte, que é a pela qual estamos seguindo.
– E por isso teremos que atracar antes do planejado. — Neon suspirou, deitado no sofá com os braços cruzados. — Isso se não quiser que seu navio sofra de um naufrágio.
– Certo... — Fiz um bico, pensando. — E isso? — perguntei para a marca no oceano que representava algo como agitação marítima. Jun começou a explicar.
– Provavelmente uma tempestade e possível maremoto. Talvez atinja A ilha de
Gargull.
– Hm. E em que ilha atracaremos?
– Mongol.
– Tá. Só isso? — Me levantei, pronto para ir até a cozinha.
– Não. Sente. — Jun me empurrou pelo ombro até eu me sentar na cadeira novamente. — Vamos precisar de algumas coisas quando atracarmos, o que será em um dia e 4 horas.
– O que?
– Lâminas, medicamentos e suprimentos, incluindo água, leite e ovos. Ah, e a comida do Dinky.
Dinky. Dinky era o gato que invadiu meu navio alguns anos atrás. Sim, ele ainda está aqui, aproveitando-se de minha tripulação, os enganando e iludindo até finalmente poder concretizar seu plano de dominação mundial. Trevor deu o nome dele de Dinky. Além do mais, minha vingança contra Dinky é essa, uma vez que o menino não pode ver o gato que já o quer agarrar, abraçar e brincar.
– Recuso-me a gastar dinheiro com esse animal.
– Qual é, capitão. Ele já faz parte da sua tripulação. — Shay deu risada de minha cara emburrada.
– Que seja. — Suspirei
– Ah, e Emily mandou uma carta. — Neon me lançou uma garrafa de vidro tapada por uma rolha. Dentro dela havia um papel enrolado em um tubinho e preso por uma fita rosa.
– Hm... — Comecei a puxar a rolha, tentando me livrar dela. — Que merda. — Desisti de forçar e parti logo para a pancadaria. Bati o vidro contra a mesa, fazendo a garrafa se despedaçar.
– Boa estratégia. — Neon disse, soando irônico. Lhe mandei um sorriso sarcástico e Shay se sentou ao lado de seu torso, começando a acariciar os cabelos dele.
Não posso dizer que eles finalmente decidiram ficar juntos, mas vira e mexe você encontra os dois se atracando pelos cantos, então não é um grande segredo.
Desenrolei o papel e comecei a ler rapidamente. Poucas palavras e objetividade, basicamente no papel estava escrito:
Me come, destraindo Billy Bond com sucesso, me come.
– Cosiderando? — Jun lia o papel logo por cima de meus ombros com os braços cruzados.
– Talvez. Emily não é de se jogar fora e eu não posso ficar sem sexo para sempre. — Amassei o papel e o lancei na lixeira.
– Podemos ir ao bordel de Mongol quando atracarmos. — Neon disse um tanto quanto animado. — É muito famoso por ter as mulheres mais bonitas e...
– Você não irá tirar os pés de dentro desse navio até sairmos da ilha de Mongol. Depois disso eu mesma farei questão de te jogar no mar para que os tubarões devorem cada parte do seu corpo. — Shay dizia tais palavras com um sorriso impecável no rosto feminino.
– Pelo visto vou ter que ir para lá com o Andrew.
– Não! — Shay novamente voltou a se pronunciar, livrando-se das mãos de Neon, que tentava se redimir abraçando sua cintura. — Ele tem namorada!
– E dai? — Cruzei os braços e sorri, achando graça e realmente considerando levá-lo comigo. — Só quero ver como é lá dentro. Jun não pode ir comigo porque já tem um filho.
– Elliot! — Ela grunhiu, irritada. — É bom que Andrew não aceite isso.
– Ele vai. — Pisquei para ela, que suspirou.
– Vamos parar de falar de bordeis, por favor? — Shay desviou o olhar. Percebi que o assunto realmente a incomodava e a fazia relembrar coisas que talvez não quisesse.
– Ahn... — Neon se levantou rapidamente, percebendo como ela havia ficado abatida. — Shay... Quer me ajudar consertando algumas prateleiras da dispensa? — Ele passou o braço em torno da cintura dela, que apenas acenou com a cabeça. — Até mais. — Ele levantou dois dedos e depois saiu com ela, puxando a cabeça dela de encontro com seu peito.
– Devíamos ter parado de falar sobre isso, não devíamos?
– Sim. — Jun concordou e ficou calado logo em seguida, enquanto eu brincava com os anéis em meus dedos.
– Onde você acha que ela está?
– Eu não sei. — Ele já sabia a quem eu me referia. — Improvável que tenha ficado em Sally.
– Será que ela está bem?
– Está.
– Como você sabe? Ela nunca foi muito esperta. — Me virei para ele, que erguia uma sobrancelha. — Me deu um chute no saco mesmo depois De ter perdido um combate de espadas comigo! Isso é pedir para morrer.
– E por que não a matou?
– Porque tinha uma bunda linda. — Minha resposta foi direta e fez Jun rir.
– Você é realmente inacreditável. — Ele se sentou na cadeira em frente de minha mesa. — O que mais você já viu que não deveria ter visto, Elliot?
– O sutiã dela. — Comecei a me lembrar da cena e de como não consegui tirar aquilo de minha cabeça por dias, mas percebi que Jun me encarava confuso. — Foi um acidente, não se preocupe. Não estuprei ninguém.
– Como um acidente te leva a ver o sutiã de alguém? — Ele tentava não achar graça, mas talvez a situação realmente fosse.
– Alois. — Apoiei o cotovelo na mesa e sustentei o peso de minha cabeça na mão.
– Essa é uma boa explicação.
– É, e foi uma cena linda. — Me levantei. — Me lembre de agradecer Alois por isso. — Caminhei até a porta e me virei para ele novamente. — O assunto Lucy morre aqui. — Disse sério. Não queria que ele tomasse a liberdade de voltar a falar sobre ela.
Seria mais fácil se ela sumisse de minhas memórias. — Já morreu. — Ele cruzou os braços e suspirou. Começou a falar antes que eu saísse. — Mas... Sabe, você não vai conseguir se censurar da mesma maneira que tem feito com os outros. Tenho certeza que pensa mais nela do que menciona.
– Obrigado pelo apoio. — Disse irônico, me retirando e o deixando por si só em minha cabine.
– Por que você está bravo com o papai? — Trevor cruzou os braços enquanto tentavas e equilibrar nas duas pequenas pernas. Não era uma surpresa que ele estivesse parado em frente da porta.
– Não estou. — Sai andando com ele atrás de mim. — Apenas estávamos falando de assuntos desagradáveis.
– A tia Lucy de novo? — Sua pergunta fez com que um arrepio percorresse toda minha espinha e me fizesse parar de andar.
– Que "Tia Lucy", moleque!- Me virei para ele com as mãos afundadas nos bolsos do sobretudo.
– Ela é má? — Perguntou com desdém no olhar infantil, então me agachei para falar com ele e suspirei, ficando em silêncio por um tempo.
– Não, ela não era má. Ela era uma sereia. — Comecei a contar com o antebraço sobre a perna dobrada. — Me enfeitiçou e depois foi embora. Só isso. É o que elas fazem.
– Mas ela te fez ficar triste.
– ... Foi só por um tempo, Trevy. — Baguncei seus cabelos com a mão, sentindo um pesar em meu coração. — Não de atenção para isso. Coisa de adultos.
– Minha mãe sempre fala que você não e adulto. — Ele me confrontou enquanto eu sorria para ele. — Que é infantil e mimado.
– Acho que sim. — Me levantei e coloquei os braços atrás da nuca. — Agora sai daqui e vai confirmar se seus pais não estão por acaso sozinhos no meu escritório fazendo brincadeiras duvidosas.
– Ta! — Ele saiu correndo com os braços esticados e imitando o som de um avião.
– Tomara que cheguemos logo em Mongol... — Suspirei após bagunçar meu cabelo todo com as mãos.
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