Sutton Hoo - Interativa
21 Capitulo 20
Notas iniciais
– Bom dia, meu amor! — Alois simplesmente se jogou em cima de mim, me acordando sem muita delicadeza.
– Alois! — Tentei tirá-la de cima de mim, mas meus braços estavam presos em baixo das cobertas. — Está me matando!
– Obrigada por me chamar de gorda, capitão. Sempre tão gentil. — Ela me deu um beijo estalado na bochecha. Tinha quase certeza de que agora tinha uma marca vermelha no meu rosto e confirmei essa hipótese após ver o borrão nas costas de minha mão quando esfreguei.- Mas como você pediu com delicadeza, vou te liberar.
Respirei fundo quando seu peso saiu de cima de meu corpo, agradecendo aos céus por ela não pesar mais de 60 quilos.
– Por que está me acordando as nove da manhã, Alois? — Me sentei com certa dificuldade.
– Porque acabamos de atracar. — Ela empurrou as pequenas janelas, deixando o ar entrar no quarto abafado e pude ouvir com clareza o som de sinos, gaivotas e de falatório da população. — Vamos, ânimo! Te esperaremos no convés. Arkane está terminando de ancorar junto com a Carly.
– Certo. — Empurrei todo meu cabelo para trás e vi Alois me encarando, mordendo os lábios. — Pode ir agora, Alois! — Lhe joguei um travesseiro e ela saiu correndo e rindo. Estiquei os braços e torci o pescoço.
Não estava muito animado para ter que sair e fazer alguma coisa. Odeio admitir isso, mas desde que ela saiu, eu perdi toda essa vontade que antes eu tinha.
Puxei uma camiseta azul marinho simples e uma bermuda preta com dois bolsos. Estava calor demais para usar qualquer tipo de sobretudo, botas ou qualquer coisa assim, mas muitas pessoas ainda queriam me matar, por isso precisava me prevenir, então prendi a espada em minha cintura e fui descalço até onde me esperavam.
– Não, Trevor. — Marry segurava seu rebento com um dos braços e o outro ela tinha um papel. — Você fica.
– Por quê? Eu bem que poderia, sem querer, o esquecer em algum bordel. As mulheres pagariam bem por ele.
– Elliot! — Senti que por pouco não levava uma bofetada e fiz um esforço para sorrir.
– Certo. — Jun pegou o papel da mão de Marry e logo conclui ser a lista. — Alois e Arkane vão procurar pelos primeiros cinco itens da lista. São todos mantimentos, por isso não serão necessárias mais que duas moedas de prata. — Ele continuou lendo. — Já Shay e Luria vão ser responsáveis por buscar medicamentos.
– Yep. — Luria abraçou Shay pelos ombros.
Percebi que Neon revirou os olhos, mas eu mesmo ordenei que os dois não ficassem responsáveis por fazer algo juntos. Da última vez atrasamos quase uma hora para zarpar porque os dois estavam fazendo mais do que deviam na ilha de Sagis.
– Elliot e Drew vão ir ver as lâminas. Os outros cuidem do navio e do Trevor. Não quero que ele saia. — Jun iria buscar comida para o gato. — Nikki, fique de olho em quem atraca e quem zarpa.
– Ok. — Ela se levantou só barril onde antes estava sentada.
– Certo. — Fui até Andrew e passei um braço por sobre seus ombros.- Vamos nos divertir muito, hoje. — Lhe dei um tapinha no peito e me afastei. — Você está me assustando, capitão.
– Vamos logo. — Empurrei a prancha que agora conectava o Porto com o navio e logo Andrew estava atrás de mim.
– Creio que devemos procurar no sul, capitão. — Ele tentava observar por entre as pessoas algum lugar vendendo lâminas e espadas.
– Hm. — Cruzei os braços e apoiei um pé na minha outra perna, se me importar muito com os olhares que me eram direcionados por eu estar descalço e pela cor anormal de meu cabelo.
– O que foi?
– Sabe se temos guardas nessa ilha? — Sim. — Ele foi rápido em responder. — Mongol é uma ilha grande e existem muitos guardas espalhados. — Ele puxou um cartaz com meu rosto de um poste e o amaçou. — Por isso devemos ser rápidos.
– Ah. — Coloquei as mãos nos bolsos despreocupadamente. Virei o rosto e sorri ao perceber a grande construção tão próxima de nós dois. — Mas antes, Andrew, meu querido amigo, Temos outro lugar para ir.
– O quê?
– Vem. — Caminhei na direção oposta da qual deveríamos ir e Andrew estava ao meu lado me perguntando qualquer coisa sem muito sentido.
– Nem pensar. — Foi o que ele disse quando paramos Em frente do local. — Carly vai me matar se eu respirar o ar de dentro desse lugar.
– Vamos logo. Vai ser divertido. — Lhe empurrei pelo ombro porta adentro. — Além do mais, homem que é homem, se vem à mongol, entra em seu bordel.
O famoso bordel de Mongol era realmente grande, como diziam as más línguas. Grande e tinha uma ambientação de pura luxúria. As paredes eram tingidas em tons vermelhos e a pouca iluminação devido á ausência de quaisquer janelas no lugar te manteria ali sem qualquer noção de tempo. As únicas fontes de luzes estavam sempre sobre as dançarinas que se despiam sobre o palco rodeado de homens e de moedas douradas.
– Capitão. — Ele engoliu em seco quando uma garçonete semi-nua passou a mão por sua clavícula. — Isso não me parece correto.
– Relaxa, Andrew. Apenas aproveite o show.- Observei uma das stripers manobrando o corpo pelo poste. Muito dinheiro era jogado sobre o palco. Muito ouro, o qual fez meus olhos ambiciosos brilharem.- Você deveria virar striper, Andrew. Veja como ganham bem.
– Engraçado — Ele me respondeu irônico, desviando-se de uma das cortesãs que perambulavam por todo o local e fazendo o possível para não encostar em nenhuma delas. Provavelmente ele devia achar que Carly farejava putas.
– Muito bom... — Analisei o corpo de uma das dançarinas, mas desviei o olhar ao perceber a movimentação na porta. — O que está acontecendo? — Perguntei em toda minha inocência.
– Ahn... Capitão. Más notícias. — Andrew segurou um de meus ombros. — Acho que dois guardas já sabem de sua visita e estão te procurando.
– Merda... — Me esgueirei um pouco até a parede mais distante do movimento e Andrew tentava encobrir minha presença. — Ei. — Me agachei e o puxei com força pelo colarinho para que se agachasse também. — Encontre todos que estão fora do navio e veja se Jun já voltou. Caso não, diga para Nikki que eu ordenei ela a preparar para zarpar.
– Certo, capitão.
– Seja discreto. — Lhe dei um empurrão de leve para que fosse. Ele se levantou e começou a se distanciar.
Me coloquei de pé também e busquei uma maçaneta com uma das mãos enquanto observava se algum guarda estava por perto. Assim que senti a porta, a empurrei para que eu entrasse e a fechei sem nem mesmo ver onde eu estava, mas assim que ouvi o som da porta se fechando, o som ficou abafado e suspirei aliviado por um momento.
– Bater na porta as vezes é algo bom.
Todo o alívio que segundos antes eu sentia se esvaiu. Senti meu corpo paralisar e meu coração dar um nó em si mesmo. Já faziam quase três anos que eu não ouvia aquela voz, mas tinha certeza a quem lhe pertencia. Virei meu corpo com tamanha rapidez que quase tropecei para trás quando a vi saindo de outra sala proveniente daquela onde eu estava.
– Lucy...
– Elliot?! — Sua surpresa era quase tão grande como a minha. Seus olhos se arregalaram e precisou se apoiar na poltrona por um segundo.
Seu rosto era o mesmo de sempre. Seus olhos, sua boca, seu cabelo... Mas ela vestia um curto e justo vestido vermelho preso em sua cintura por um espartilho preto com fitas trançadas por seu abdome. Suas pernas estava quase totalmente expostas e o salto alto que cobria seus pés era capaz que quase a deixasse mais alta que eu. A maquiagem escura e provocante em torno de seus olhos e o batom vermelho que lhe tingia os lábios fez com que eu a desejasse ainda mais naquele momento.
– O que está fazendo aqui?! — Sua voz era incerta, embora quisesse expressar firmeza e irritação.
– Acho que sou eu quem deveria te perguntar isso. — Me virei e tranquei a porta. Precisava de um tempo com ela sem que ninguém me enterrompesse.
– Eu.... Eu... Eu trabalho aqui. — Estava tão na cara que era mentira... Lucy era boa em muitas coisas, mas mentir não fazia parte Des eus dotes.
– Engane-me melhor, Lucy. — Cruzei os braços. — Me conte logo o que está fazendo aqui.
– Trabalhando. — Ela realmente queria que eu acreditasse naquela história. Lucy tinha acima de tudo princípios. Nunca venderia o corpo nem que lhe fosse a última opção.
– Sério mesmo? — Suspirei e levantei os olhos para poder encará-la. Lucy mantinha os lábios pressionados um contra o outro e os braços cruzados sob o peito, nervosa.
– Sim. — Sua resposta foi firme. Se não a conhecesse, poderia facilmente acreditar naquilo.
– Então, se esse é realmente seu trabalho... — Apoiei minhas mãos no encosto do sofá e curvei meu corpo para frente, mais próximo dela. — Você terá que dormir comigo se eu te pagar, certo? — Sorri com sinismo.
A expressão em seu rosto era divertida ao meu ponto de vista, mas sabia que ela estava projetando uma resposta que pudesse sobrepor a minha.
– Vai me contar agora o que está fazendo aqui? — Arqueei uma sobrancelha e aguardei sua resposta.
Não sabia exatamente o que se passava pela mente de Lucy enquanto ela processava essa informação, mas ela descontraiu o rosto em um suspiro e veio caminhando em minha direção.
– Você está certo, não virei uma puta. — Parou àlguns centímetro de mim e abaixou a cabeça. — Mas ainda preciso de dinheiro pra comprar comida e sobrevirer.
– E isso nos leva onde...?
– Isso nos leva ao ponto em que eu sou paga para atrair homens aqui e assim os que me contratam podem matá-los. E para isso eu danço.
– Dança? No poste?
– Sim. — Ela sorriu um pouco tímida, mas desviou o olhar rapidamente. Não gostava muito de estar deixando-a nervosa.
– T-Tirando a roupa? Com caras pondo dinheiro no seu sutiã? — Eu estava sendo tão transparente. Que decepção, Pettil. A única coisa que eu queria esconder era meu incômodo com a ideia, mas nem isso consegui fazer.
– Eu não tiro a roupa, Elliot! — Ela parecia ofendida, mas o sorriso em seus lábios denunciava o fato dela ter achado graça. — E o dinheiro é jogado no palco, não no meio dos meus peitos.
– Oh... Certo. — Tentei olhar para qualquer coisa, menos para ela. Empurrei minha franja para trás e pendi uma mão sobre o punho da espada.
– Ahn, por que está descalço? — Como sempre, Lucy tinha o dom de fazer perguntas sem sentido e que eu provavelmente nunca entenderia.
– Ah, porque está muito quente e não tenho outro sapato além daquela bota. Além do mais, gosto de sentir que estou em terra firme de vez em quando.
– Elliot... — Ela segurou meu pulso com a mão fina, fazendo-me quase pular de susto e ansiedade. Aquele toque fora muito repentino. Eu com certeza não estava preparado, mas queria ouvir o que ela tinha a dizer mais que tudo.
Claro que, como sempre, o senhor todo poderoso não se importa com o que eu quero, por isso bateram na porta repetidas vezes.
Depois me julgam por minha total descrença em deus.
– É da guarda de Mongol, senhorita. Preciso que abra a porta.
(...)
– Guarda? — Perguntei para mim mesma, depois olhei para Elliot. Sua expressão tornou-se surpresa, como se tivesse lembrado de algo.
– Merda... Esqueci totalmente desses...
– Só um minuto. — Elevei o tom da voz para o homem do outro lado me ouvir e vi que Elliot ficara agitado próximo de mim.
– Como assim? Pretende entregar minha cabeça? — Ele sussurrava irritado. — O que está fazendo?
– Cale a boca. — Sussurrei de volta. — Vá para o quarto que tem logo ali. — Apontei para a porta dupla do outro lado da sala. — Você o mata quando eu o levar para lá.
– O que? Por que eu?
Revirei os olhos e desabotoei o espartilho enquanto Elliot murmurava coisas, irritado. Sua voz foi ficando mais baixa enquanto eu me livrava do vestido e se calou quando eu já não vestia nada mais que um sutiã e uma calcinha.
– Pare de ficar me olhando e vai logo para lá! — Apontei para o quarto, um pouco envergonhada e irritada.
– Hm... Ok...
Embora por todo esse tempo eu tenha tentado esquecer, Elliot ainda me perturbava em sonhos muitas vezes.
Não é fácil esquecer de alguém quando seu rosto está estampado em todos os postes junto de mais de sete números de recompensa. Eu podia ficar fica tão facilmente.
Empurrei o vestido e o espartilho para um canto e fui logo abrir a porta de Madeira que Elliot havia trancado enquanto este já estava onde o disse para esperar.
– Senhorita, procuro Elliot Pett.... — O homem alto e fardado tinha nas mãos um panfletos com o rosto de Elliot e duas pistolas na cintura.
Era jovem, não muito bonito, mas com o queixo quadrado e olhos verdes. Pouco se via de seu cabelo por debaixo do chapéu que usava.
– Desculpe... Não estou em meus melhores trajes. — Tentei sorrir sem parecer muito forçado.
– Com certeza está. — Ele dizia com tom maldoso.
Senti repulsa e muita raiva. Não sou boa em fingir-me de puta, afinal, esse não é meu trabalho.
– Uau... — Passei a mão por seus braços e subi até o ombro. — Você é bem forte. — O que não era totalmente mentira. Ele realmente tinha bons músculos. — Não quer entrar um pouco, Sr. Guarda? Realmente, eu sou uma ótima atriz, só pode.
O guarda não disse muita coisa, apenas entrou no quarto e segurou minha cintura com as duas mãos e começou a destribuir alguns beijos por meu pescoço enquanto eu fechava a porta novamente.
– Vamos para o quarto... — Sussurrei em seu ouvido, começando a puxá-lo até o outro cômodo.
Um pouco antes de estar próxima da porta me virei de frente para ele e o empurrei até o quarto enquanto ele deslizava as mãos por minha cintura e ainda teve a audácia de pegar na minha bunda. Oh, vida de puta deve ser uma merda.
Assim que ele entrou de costas no quarto, Elliot passou um braço por seu pescoço e manteve a ponta da lâmina de sua espada contra a cintura dele, o que fez o guarda me soltar abruptamente.
– Ok, cara. Pode ir soltando ela, agora.
– O que? — Ele tentava se soltar da chave de braço de Elliot. Fui rápida em pegar suas pistolas de sua cintura e as joguei em cima da cama. — Arg! Pettil!
– Vamos fazer rápido. — Elliot revirou os olhos e deu fim a vida daquele guarda com um corte muito profundo em sua cintura, fazendo muito sangue sujar o chão de Madeira. — Guarda desgraçado. — Ele deixou o corpo do homem cair e suspirou, puxando uma toalha de cima da mesa e limpando o sangue que sujou sua perna.
– O que fazer com esse corpo agora? — Cruzei os braços. — Pretendia ficar nessa ilha por pelo menos mais uma semana...
– Venha comigo. — Suas palavras foram simples, mas fizeram com que eu me arrepiasse por completo.
– O que?
– Vamos zarpar agora. — Ele largou a toalha e veio mais próximo de mim. Colocou uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha e encostou a testa na minha. — Por favor...
– Elliot, eu não posso.
– Marry sente sua falta. Não tem um dia que Alois não me pergunte de você. — Suas palavras foram cortantes. Era difícil dizer que ele, Elliot Pettil, sentia minha falta?
– E quanto a você? — Perguntei antes de fechar os olhos. Ele se afastou um pouco de mim.
– Eu?
– Sim, você. — O empurrei para mais longe de mim e comecei a caminhar irritada para o outro cômodo e o ouvi vindo atrás de mim. — Você sente, Elliot?
– Lucy, volta aqui. — Ele me seguia enquanto eu procurava alguma roupa descente no guarda roupa. — Você é um covarde.- Me virei abruptamente para ele, que deu um passo atrás por estar logo atrás de mim.
Ficamos em silencio por alguns momentos até ele suspirar e me olhar nos olhos.
– É, eu sou um medroso. Tenho medo de gatos, borboletas e macacos. Odeio crianças, mesmo me comportando como uma. Também detestava quando meu pai fumava perto de mim e agora sou eu quem fuma dois cigarros por dia. Tenho um vício estranho por pirulitos e gasto cerca de cinco moedas de prata para suprir isso todo mês. — Ele foi se aproximando de mim novamente. — Nunca sei o que fazer quando uma garota chora, por isso sempre prefiro que elas tenham raiva de mim e me batam. Quando eu era criança não gostava de escovar meus dentes, arrumar meus brinquedos ou estudar, por isso meio que escravizei Jun por quase cinco anos. Gosto de dormir sem camiseta e odeio que me acordem antes do meio dia, embora esses últimos três anos eu tenha feito isso sozinho... E isso porque... eu sinto sua falta.
–... Foi tão difícil assim? — Eu ainda estava surpresa por suas palavras. Elliot dificilmente se abria assim com os outros, e eu estava feliz por ter escutado aquilo.
– Um pouco...
– Baciami, Elliot. (*Me beije, Elliot) — Disse com um sorriso nos lábios. Ele pareceu surpreso tanto por meu pedido como pelo fato de estar em italiano. — Aprendi essa palavra tem um tempo.
– Perfetto! (*Perfeito) — Ele sorriu antes de me puxar para perto e finalmente unir seus lábios aos meus.
Fora um beijo desesperado e eufórico. Foram três anos que fiquei sonhando com isso, então a única coisa que eu conseguia fazer era puxá-lo cada vez mais perto de mim. Sentir seus cabelos entre meus dedos e seu corpo tão próximo de mim.
– Vais vir comigo agora? — Ele sussurrou, ofegante, contra meu rosto, ainda muito próximo.
– Acho que sim. — Ri um pouco, também com falta de ar.
– Que bom. Tem alguém que eu preciso te apresentar. — Completou antes de me dar outro beijo rápido. — Mas antes... Lhe imploro que ponha uma roupa, antes que eu perca totalmente a cabeça.
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