Sussurros do Destino

7 O Momento da Escolha


Aiko ficou imóvel, o telemóvel ainda aceso na mão.

Duas vidas possíveis. Dois homens que a tinham amado de formas tão diferentes que quase pareciam incompatíveis. O silêncio da rua parecia pressioná-la, como se o próprio mundo aguardasse a decisão que ela adiara vezes demais.

Riku observava-a sem dizer nada. Pela primeira vez desde que o conhecera, não havia provocação no olhar. Apenas uma espera tensa, quase vulnerável.

— Não me peças isto assim — murmurou Aiko, a voz embargada. — Não desta forma.

— Não te pedi nada — respondeu ele. — Apenas disse a verdade.

Ela olhou para o ecrã outra vez. A mensagem de Haruto era simples. Gentil. Tão fiel a quem ele sempre fora. Não havia acusações. Nem exigências. Apenas uma despedida que parecia aceitar tudo… mesmo a dor.

— Ele não merecia isto — disse Aiko, finalmente, as lágrimas a escorrerem. — Nenhum de nós merecia.

Riku fechou os olhos por um instante.

— Eu sei.

— Então porque o fizeste? — perguntou ela, com a voz a falhar. — Porque nos empurraste para este ponto?

Riku respirou fundo.

— Porque tive medo — admitiu. — Medo de seres feliz sem mim. Medo de voltar a ser aquele que fica para trás.

Aiko sentiu o peso daquelas palavras cair-lhe no peito.

— O amor não devia ser uma guerra — disse ela.

— Não, não devia — concordou ele. — Mas às vezes é.

O telemóvel vibrou novamente na mão dela. Uma chamada. Haruto.

O coração de Aiko acelerou de tal forma que lhe doeu.

Riku viu o nome no ecrã.

— Atende — disse ele, num tom calmo demais para o caos que lhe atravessava o olhar.

— Se atender… — começou Aiko.

— Então saberei a tua resposta — completou ele.

Ela sentiu as pernas tremerem.

— E se for tarde demais para todos nós?

— Então pelo menos não será uma mentira — respondeu Riku.

Aiko levou o telemóvel ao ouvido.

— Haruto…

A voz dele surgiu do outro lado, cansada, mas quente.

— Aiko. Desculpa ligar assim. Sei que talvez não queiras falar comigo.

— Quero — respondeu ela de imediato. — Nunca deixei de querer.

Houve um breve silêncio.

— Eu não te liguei para mudar nada — disse ele. — Só… precisava de ouvir a tua voz antes de seguir em frente.

Aiko fechou os olhos.

— Haruto, eu—

— Espera — interrompeu ele, com suavidade. — Deixa-me dizer isto primeiro. Eu amei-te sem reservas. E, mesmo que não me escolhas, isso não desaparece, apenas… transforma-se.

As lágrimas correram livremente.

— Eu magoei-te — disse ela.

— Eu sei — respondeu ele, sem negar. — Mas não te culpo. Amar não é simples. E tu nunca fingiste.

Ela apertou o telemóvel com força.

— Onde estás agora?

— Ainda na estação — respondeu ele. — O comboio atrasou-se.

O mundo pareceu parar. Aiko abriu os olhos de repente. Olhou para Riku.

— Ele ainda está aqui.

Algo passou pelo olhar de Riku. Surpresa. Depois, resignação.

— Então vai — disse ele. — Se for essa a tua escolha.

— Não sabes qual é — respondeu ela, a voz firme pela primeira vez.

Aiko voltou a falar para o telemóvel.

— Haruto… se eu te pedir para esperares mais um pouco… consegues?

Houve um silêncio longo do outro lado da linha.

— Sempre esperei por ti — respondeu ele. — Mais um pouco não me assusta.

Aiko desligou. O ar parecia pesado demais para respirar.

— Vou ter de o ver — disse ela a Riku. — Não posso decidir sem olhar para ele.

Riku assentiu lentamente.

— Eu sei.

— Vens comigo? — perguntou ela, surpreendendo-se a si própria.

Riku hesitou.

— Tens a certeza?

— Tenho — respondeu ela. — Seja qual for a escolha… tem de ser feita com verdade.

A estação estava quase vazia quando chegaram. Haruto estava junto à plataforma, a mala aos pés, o olhar perdido nos carris. Quando a viu, endireitou-se de imediato.

— Aiko…

Ela aproximou-se devagar. O coração batia-lhe tão forte que mal ouvia os sons à sua volta.

— Desculpa ter chegado tarde — disse ela. — Não só hoje,mas a tudo.

Haruto sorriu, triste.

— Estás aqui agora.

Riku manteve-se alguns passos atrás, em silêncio.

— Haruto — começou Aiko — eu preciso de ser honesta contigo. Eu amo-te. Mas não da forma que mereces ser amado.

As palavras doeram-lhe ao sair. Haruto fechou os olhos por um instante, respirou fundo.

— Então é ele.

Aiko assentiu, as lágrimas a caírem.

— Não porque seja mais fácil — continuou ela. — Mas porque me obriga a enfrentar partes de mim que sempre evitei.

Haruto olhou para Riku, depois voltou-se para ela.

— Espero que ele saiba o que tem nas mãos.

Riku deu um passo em frente.

— Sei — disse, com firmeza. — E não vou desperdiçar.

Haruto pegou na mala.

— Então é isto — disse ele, olhando uma última vez para Aiko. — Cuida de ti e obrigada Aiko.

— De nada Haruto. Desejo boa sorte na tua nova jornada que se segue. — respondeu ela, num sussurro.

Quando Haruto se afastou em direcção ao comboio, Aiko sentiu uma dor profunda… mas também uma estranha paz.

O comboio partiu. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.

Riku aproximou-se lentamente.

— Tens a certeza? — perguntou ele, com uma vulnerabilidade que nunca mostrara antes.

Aiko olhou-o nos olhos.

— Não tenho certezas absolutas — respondeu. — Mas tenho coragem suficiente para tentar.

Riku puxou-a para um abraço apertado, como se tivesse medo que ela desaparecesse.

— Prometo não fugir — murmurou ele. — Mesmo quando for difícil.

Aiko fechou os olhos, encostando o rosto ao peito dele.

— Então fica.

E, pela primeira vez desde que tudo começara, a escolha estava feita.

Mas, no fundo do coração, ambos sabiam: escolher não era o fim.

Era apenas o início.