O apartamento de Riku não cheirava a lar.

Cheirava a noites em claro, a café frio e a silêncios longos demais. Aiko percebeu isso no instante em que entrou, o eco dos próprios passos a denunciar a ausência de algo vivo naquele espaço.

— Desculpa — disse Riku, pousando as chaves. — Não é… muito acolhedor.

Aiko pousou a mala no chão devagar.

— Não precisa de ser — respondeu. — Só precisa de ser honesto.

Riku olhou para ela, surpreendido.

— Honesto?

— Como tu — disse ela, com um pequeno sorriso cansado. — Imperfeito, mas real.

Ele soltou uma gargalhada breve, nervosa.

— Nunca pensei ouvir isso de ti… especialmente depois de tudo.

O silêncio voltou a instalar-se entre eles, mas era diferente. Já não era carregado de dúvida, mas de expectativa. De medo também.

Aiko caminhou até à janela. A cidade estendia-se lá em baixo, cheia de luzes e vidas que continuavam indiferentes ao turbilhão que lhe habitava o peito.

— Haruto vai embora amanhã — disse ela, de repente.

Riku ficou imóvel.

— Ele disse-te?

— Não — respondeu ela. — Mas eu sei.

Riku aproximou-se lentamente.

— Arrepender-te-ás?

Aiko virou-se para ele.

— Todos nos arrependemos de algo — disse. — Mas hoje… não.

Ele assentiu, mas o olhar denunciava algo mais profundo.

— Não sou como ele — confessou. — Não sei ser gentil o tempo todo. Não sei prometer estabilidade.

— Eu não te escolhi pela estabilidade — respondeu ela. — Escolhi-te pela verdade.

Riku engoliu em seco.

— Então deixa-me ser honesto — disse. — Tenho medo.

— De quê?

— De te magoar — respondeu ele. — De um dia acordares e perceberes que isto… — fez um gesto vago entre os dois — foi apenas intensidade passageira.

Aiko aproximou-se mais.

— O amor não é seguro — disse. — Nunca foi.

Ela estendeu a mão, tocando-lhe no rosto com cuidado, como se temesse que ele se partisse.

— Mas estou aqui — acrescentou. — Isso tem de significar alguma coisa.

Riku fechou os olhos por um instante, apoiando a testa na dela.

— Significa tudo para mim.

O beijo que se seguiu não foi urgente. Foi contido. Carregado de receios, de promessas silenciosas, de um acordo não verbalizado: tentar, mesmo sabendo que podia doer.

Os dias seguintes foram estranhamente calmos.

Demasiado calmos.

Aiko voltou ao trabalho, mas sentia os olhares a seguirem-na. Sussurros que se calavam quando ela passava. O nome de Haruto surgia em conversas interrompidas.

Riku esperava-a à porta todos os dias, como se temesse que ela mudasse de ideias se não estivesse ali.

— Não tens de vir sempre — disse-lhe ela, uma tarde.

— Quero vir — respondeu ele. — Enquanto quiseres que eu fique.

Aiko sorriu, mas algo dentro dela apertou.

À noite, deitada ao lado dele, sentia o corpo de Riku tenso mesmo quando dormia. Como se estivesse sempre à espera de perder algo.

— Estás aqui — murmurou ela, numa dessas noites, acariciando-lhe o braço.

— Estou — respondeu ele, mas a voz não soou convencida.

Os fantasmas não desaparecem só porque escolhemos amar. Eles esperam.

Uma semana depois, Aiko encontrou Haruto por acaso.

Foi numa livraria pequena, escondida entre ruas antigas. Quando levantou os olhos, ele estava ali, um livro na mão, como se o destino tivesse decidido testar a sua resolução.

— Aiko — disse ele, com um sorriso contido.

— Haruto…

O coração dela acelerou.

— Pensei que já tinhas ido — confessou ela.

— Vou hoje à noite — respondeu ele. — Vim despedir-me da cidade.

Houve um silêncio estranho entre eles.

— Estás bem? — perguntou ele.

— Estou a aprender — respondeu ela. — E tu?

— Também — disse ele. — Aprendi que amar alguém não nos dá o direito de ficar.

As palavras dele ficaram-lhe cravadas no peito.

— Espero que sejas feliz — disse Aiko, com sinceridade.

— Espero que ele esteja à altura — respondeu Haruto, antes de se afastar.

Aiko ficou ali, imóvel, sentindo o peso definitivo do que deixara para trás.

Nessa noite, Riku chegou tarde. Demasiado tarde.

Aiko estava sentada no sofá, o telemóvel nas mãos, quando ouviu a porta abrir.

— Onde estiveste? — perguntou, tentando manter a voz calma.

Riku largou o casaco com força.

— A resolver coisas.

— Que coisas?

Ele hesitou.

— Do passado.

Aiko levantou-se.

— Riku… o passado não desaparece só porque o ignoras.

— E tu encontraste-o hoje? — perguntou ele, de repente, o olhar afiado.

O silêncio respondeu por ela.

— Estou a ver. — afirmou.

— Foi um acaso — disse Aiko. — Não escondi nada.

Riku passou a mão pelo cabelo, frustrado.

— Eu avisei-te — disse. — Disse-te que isto seria difícil.

— Difícil não significa desconfiar — respondeu ela, magoada.

— Não confio no mundo — respondeu ele. — Nem nas despedidas bonitas.

As palavras dele feriram-na mais do que ela esperava.

— Não sou um campo de batalha — disse Aiko, com a voz a tremer. — Não tens de lutar comigo.

Riku olhou-a, finalmente percebendo.

— Tenho medo de te perder — confessou.

— Então não me empurres para longe — respondeu ela, onde as lágrimas começaram a caír.

Ele aproximou-se, abraçando-a com força.

— Fica — murmurou. — Por favor.

Aiko encostou-se a ele, mas o coração estava inquieto. Porque amar Riku não era apenas escolher alguém.

Era escolher caminhar sobre terreno instável. E, naquela noite, enquanto o abraçava, uma pergunta ecoava-lhe na mente:

Será o amor suficiente quando os fantasmas decidem regressar?