Sussurros de além

4 O sinal significativo


Depois que ouvi a trágica história de Sophie, não sabia se demonstrava pena ou alivio, não possuía tantos sentimentos assim. No final ela sorriu:

—Acontece né, todos nós temos algo pra contar.
—Todo mundo morreu por conta de um acidente?
—Não, cada um ali tem uma vida pra contar, é isso que torna ela tão emocionante.
—Você sente falta de estar viva? –Percebi a pergunta estúpida- Quer dizer, eu quis dizer que... Eu só...
—Tudo bem, não se preocupe. Eu costumo pensar muito no Mac e passo o tempo inteiro me perguntando se eu estivesse viva, eu estaria com ele.
—Por que não vai atrás dele?
—Eu já fiz isso uma vez, mas não deu muito certo.
—O que aconteceu?
—Quando duas almas estão conectadas, quando uma morre, elas continuam conectadas. Quando eu fui à casa do Mac, eu senti o peso e a culpa que ele estava carregando, eu fiquei desesperada e fiz uma enorme bagunça na casa dele, ele ficou mais perturbado ainda. Eu quase perdi o controle.
—O que tem demais em perder o controle?
—Você vira uma espécie de solitário. Existem muitas almas ruins presas nesse mundo ainda Clarice, se tornar uma não é impossível.

Saímos da loja e continuamos a conversar sobre as coisas da “vida”, durante essas conversas pude perceber que Sophie fazia o máximo para ser uma alma melhor, por mais que ela tenha sofrido tanto, sabia que se continuasse a guardar mágoas, poderia ter um destino muito cruel. Seus cabelos castanhos presos em uma longa trança possuíam um cheiro de rosas do campo:
—Não é estranho? –Perguntei a ela. -
— O que?
—Não conseguimos ter sentido com os vivos, exceto aqueles que temos conexão ou com os próprios espíritos.
—Isso já foi observado há muito tempo atrás. Desenvolvemos inúmeras teorias sobre esses fenômenos estranhos, o que podemos fazer no momento é vivenciar todos eles, mesmo sem ter respostas.
—É engraçado como temos sentimentos em relação a os outros de “nós” e com os vivos não.
—É como interagir somente com a sua própria espécie.
—Exatamente.
—Você ainda vai se acostumar com isso, não se questione tanto. –Ela riu. –

Naquele mesmo instante, paramos no meio de um parque, não eram ações voluntárias. Em nossas mentes as seguintes palavras ecoaram:

“É a linha que tece o mundo. Quem é quem?”

Quando voltamos ao normal, olhei para Sophie que não parecia assustada como eu, e sim muito pensativa. Ela pegou meu pulso e correu:
—O que foi isso? –Perguntei em tom ofegante enquanto corríamos. —
—Mais uma pista. –Ela respondeu fazendo o caminho para o prédio. –

Chegando ao apartamento, todos estavam ao redor de uma mesa no canto da sala coberta de papeis com escrituras, Sophie se juntou a eles com uma expressão séria:

—Conseguiu alguma coisa? –Disse ela á Joe. -
—Ainda não, é mais uma frase cheia de possibilidades. –Ele respondeu olhando para os papeis. -
—Quais você acha que é?
—Olha... Eu tinha duas teorias em relação a frase passada, mas depois dessa, só aumentou as chances. Pode ser qualquer coisa.
—Tem duas questões na frase. –Disse Bea. – A linha, e quem.
—Pessoal... –Me intrometi totalmente perdida. – O que está havendo?
—Ah sim Clarice, é a primeira vez que isso acontece com você né. –Respondeu Joe amigavelmente. – Bom, estamos aqui a muito tempo, e de tempos em tempos esse fenômeno acontece. Todos nós ficamos imóveis e recebemos uma voz similar a um sopro, sussurro, ecoado, o que for. Não sabemos como e nem da onde vem, mas é o temos para tentar descobrir algo sobre estarmos aqui.
—Teve outras frases dessas antes?
—Teve. –Respondeu Corry. – Mas parece que tudo que criamos com base nela, com a chegada dessa nova, quebra tudo.
—Quais eram?
— “A vida é como uma história. Inicio, meio e fim.” e “O planeta gira sem parar”. –Respondeu Joe lendo os papeis. –
—Mas... Quais são as teorias?
—É como um paradoxo, primeiro diz que tem um fim, mas depois fala que é infinito. Achamos que tem algo haver com o ciclo da vida, mas não faz sentido então estarmos presos aqui. E agora me vêm com essa de linha que tece o mundo. O que seria essa linha?
—Talvez não seja “o que” e sim “quem”.
—“Quem é quem?” – Recitou Sophie.
—Vamos esperar e ver o que acontece, não tem muito que fazer agora. –Disse Joe guardando os papeis na gaveta. -