Sussurros de além
5 A noite estrelada
Era a primeira noite que eu passava no apartamento, depois da roda de conversa sobre a mensagem todos se dirigiram para seus quartos, exceto Joe. Com uma expressão tranqüila, ele sorriu:
—Você precisa ver uma coisa. –Segurou minha mão e saímos do apartamento, subindo as escadas até o terraço. —
—O que tem lá? –Perguntei enquanto ainda estávamos nas escadas. —
—Você vai ver...
Chegando lá, fiquei surpresa. Era a visão mais bonita do céu que eu já tinha tido em toda a minha vida. Parecia que o céu até ontem era normal, mas naquele momento por algum motivo, ele estava extremamente estrelado.
—Nossa...
—Incrível né? Eu venho aqui praticamente quase todas as noites. Parece que fica cada vez mais brilhante e bonito.
—Eu nunca vi o céu desse jeito.
—Eu também tive essa impressão na primeira vez que vi depois de morrer.
—Será mais um daqueles “fenômenos”?
—Não sei te dizer, até agora ninguém olhou para o céu antes de morrer e depois de morrer para saber se tem diferença ou não. –Ele riu. –
Naquele momento, Joe parecia nunca ter passado por nenhum problema. Ele sorria com tanta pureza que a única coisa que eu sabia fazer era apreciar aquele sorriso tão belo quanto o céu estrelado. Fiquei um tempo olhando aquela cena. Estávamos na beirada no prédio um tanto alto, ele se sentou na beirada e me convidou.
—Vem! Acho que você vai gostar disso também.
Sentei-me ao lado dele e tive mais uma vista maravilhosa. Era possível ver quase toda a cidade dali de cima, além do céu, as luzes dos postes e casas faziam daquela vista uma obra de arte.
—Parece com aqueles filmes não é? –Perguntou ele próximo a mim. -
—Parece sim... Não sabia que isso realmente existia. Nunca parei para observar o quanto o mundo pode ser belo.
—Chega a ser engraçado o quanto nós valorizamos a vida e o mundo depois que morremos, talvez o mau do ser humano seja isso, saber apreciar algo depois que se perde.
—Agora que você disse... faz todo o sentido.
—O que acha de dar uma volta pela cidade?
—Não me parece muito divertido, aqui é tão parado.
—O que? –Ele disse surpreso com um ar caçoador. – Isso é porque você nunca olhou ao seu redor com outros olhos.
—Olhos de morto você quer dizer. – Rimos juntos. – Tudo bem então “guia”. Mostre-me o que mais tem de belo.
—Quero que feche os olhos e segure minha mão, ok?
—Ok.
Assim que fechei os olhos, senti a brisa noturna que pairava ali. Ouvi o som dos carros e das pessoas conversando. Após ter percebido isso, abri os olhos e me surpreendi novamente. Estávamos sentados no mesmo banco de quando nos conhecemos, a cidade parecia muito movimentada e iluminada.
—Como... –Fiquei sem palavras, tentando me expressar com sorrisos surpresos. —
—Bem vinda à mágica dos falecidos. –Ele riu e olhou ao redor. – E você disse que era quieto não é mesmo? Acho que não.
—Me ensina a fazer isso? Como faz? Por favor, me ensina!
—Calma... Tudo no seu tempo.
—Como posso ter calma? Acabamos de nos teletransportar!
—É, quase isso. Prometo que mais tarde te mostro como faz. Vamos dar uma volta.
Ele se levantou e eu o segui. As ruas estavam agitadas naquela noite, atravessávamos as pessoas a cada segundo, coincidência ou não, os sentimentos que eu sentia ao atravessar cada alma, eram os melhores do mundo. Joe segurava minha mão com firmeza e sempre olhava para meu rosto enquanto explicava algo sobre as pessoas. Ele estava tão empolgado.
—Está vendo aquela barbearia ali? –Ele disse apontando com o dedo para a esquina. -
—Sim, o que tem?
—Eu costumava ir lá com meu pai. Ficava lendo história em quadrinhos enquanto ele fazia a barba. –Ele apontou um pouco mais ao lado. – E ali era onde sempre comprávamos sorvete depois de sair da barbearia.
—Eu amo sorvete! Vamos lá.
O puxei rapidamente até a direção da sorveteria. Atravessamos a rua que estava com o sinal aberto, era mais uma experiência para mim ser atravessada por carros em alta velocidade. Achei engraçado e comecei a rir, parando no meio da rua.
—Isso é tão legal!
—E você não queria ter vindo, hein. –Ele disse rindo da minha pose de braços abertos. —
—Como vocês podem não gostar dessa sensação? Isso é incrível!
—Estar morto tem suas vantagens, vamos. –Ele me levou até a sorveteria e passamos pela porta. -
—Qual sabor você quer?
—Não precisamos comer, sabe disso não é?
—Vamos fingir estar vivos pelo menos um minuto ok? Ok.
—Chocolate.
—Flocos!
Naquela noite fomos á vários lugares, até mesmo os que eu nem sabia que existiam mesmo morando na cidade á anos. Já estava tarde demais e a movimentação cessou, resolvemos ir embora.
—Acho que é o momento perfeito. –Ele disse ficando bem próximo de mim, corei na hora. —
—Momento perfeito para o que?
—Para você aprender a mudar de lugar.
—Oba! Como faz?
—Primeiro você tem que imaginar o lugar que você quer ir. Depois tente sentir a energia correr em você e feche os olhos. Quando se fica experiente, um piscar de olhos é o suficiente. Quando se quiser ir com alguém, você precisa ter contato físico, por isso eu segurei sua mão. Vamos para casa, pode tentar.
Segui os passos exatamente como ele havia me dito, cinco segundos depois abri os olhos estávamos na frente do meu quarto no apartamento.
—Consegui? Não acredito!
—Viu só. Mas isso é porque o apartamento estava perto da onde á gente estava, com um pouco de prática podemos ir para qualquer lugar.
—Bom, acho que termina aqui. -Me virei para ele. – Obrigada pela noite Joe, eu gostei muito!
—Ah que isso, sempre que quiser passear é só me chamar. Tenho muito a te ensinar ainda. –Ele sorriu. —
—Estou ansiosa para seus ensinamentos meu mestre! –Brinquei. -
—“Meu”?
—Ah... você entendeu. –Dei um leve empurrão em seu ombro, e o silêncio constrangedor tomou conta, só ficamos nos olhando. – Você... Não quer ficar aqui hoje?
—Como assim?
—Me fazer companhia enquanto descanso.
—Acho que você vai me fazer companhia. –Ele apontou para a porta do quarto que estava rabiscado com gis escrito “Joe”. -
—Aqui é seu quarto? Por que não me disse antes?
—Você não perguntou, então não achei necessário.
—Haha, você é muito hilário.
—Vamos?
—Vamos...
Ele fez uma pose referente á “primeiro as damas” e atravessei a porta, ele veio atrás. Deitamos na cama, virados um para o outro fechando os olhos.
Fale com o autor