Susan of Narnia
1 A Vida Completa de Susana Pevensie
Notas iniciais
Susana maquiava-se em sua penteadeira. O simples, porém bem decorado quarto estava iluminado para que ela pudesse terminar sua maquiagem perfeitamente. A ocasião mais que especial de jantar com a família de Dick merecia sua produção completa. Havia mais de um mês que ela havia marcado e não perderia o mesmo de jeito nenhum.
A primeira vez em que marcaram o jantar houve a horrível tragédia na família Pevensie, pouco antes da data marcada. Susana passou três meses em uma depressão profunda e isolou-se completamente de tudo e todos. Ficou até mesmo surpresa de Dick chamá-la para sair novamente quando eles cruzaram caminhos na rua.
— Baby? – a voz de Dick vinha do outro lado da porta.
— Só um minuto. – disse Susana passando o batom vermelho nos lábios.
— Susana, se você não se apressar meus pais vão achar que você não se importa com eles.
— E se eu não estiver apresentável eles vão pensar que sou descuidada.
Dick riu e desistiu de apressá-la. Para ele não havia nada a ser feito. E Susana já estava quase pronta, de qualquer maneira. Colocou sua meia calça e calçou seus sapatos. Olhou rapidamente pela janela do seu quarto e viu que a neve já começara a cair.
Neve... pensou ela. Muita neve.
Neve era algo nostálgico para Susana, porém, de maneira um tanto distante. Como se ela tentasse se lembrar de um sonho ou algo similar que não ficava muito claro.
Susana sacudiu a cabeça tentando tirar aquelas ideias triviais da mente. Passou seu perfume e saiu pela porta. Lá estava Dick com um sorriso estampado no rosto, com seu terno impecável, barba bem feita e cabelo castanho claro arrumado.
— Vamos, baby? – ele estendeu a mão para ela.
— Claro.
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A noite passara rápido, o jantar já havia terminado e Dick conversava com o pai e irmão enquanto Susana conversava com Ethel, a irmã de Dick, e Gertrude, sua mãe.
— Susana, eu devo dizer, você tem vestidos bonitos. – Ethel disse tentando esconder a inveja.
— Richard sempre se importou em escolher meninas com bom gosto. É bom ver que isso não mudou. – disse Gertrude.
O vestido justo preto, com um cinto extremamente apertado na cintura, os sapatos de salto, também pretos, deixavam Susana extremamente elegante. Ela sentia-se até mesmo um tanto superior. Ethel era um tanto desengonçada e sem estilo, sem curvas para exibir. Os cabelos da irmã de seu noivo eram sem brilho e ruivos. Seus vestidos eram sem vida, tediosos. Gertrude era uma senhora bonita, olhos tão azuis quanto o céu e cabelos tingidos de loiros. Ela estava sempre bem vestida e arrumada. Porém ainda era uma senhora, enquanto Susana brilhava em seus 23 anos.
— Ethel, por que você não aceita a sugestão de fazer compras com Susana algum dia?
— Eu... Tenho que me esforçar para passar em Literatura. Não tenho tempo para sair. – Ethel respondeu franzindo o cenho.
— Querida, é importante estar sempre apresentável. Se você planeja arrumar um marido cedo, por exemplo. – Susana disse, brincando com o seu martini.
Ethel não respondeu. Gertrude, por outro lado concordou.
— Como vão as meninas mais lindas desse mundo? – Dick disse quando se aproximou com seu pai e irmão.
— Richard! – Gertrude deixou seu Martini de lado para segurar as mãos do filho. – Querido, eu estou tão orgulhosa de você. Em breve você e Susana começarão sua própria família e a cada conversa que tenho com essa jovem, mais eu gosto dela.
— Ela é única. – Dick pegou na mão de Susana.
— Um brinde! A Susana e Dick! – Bob, o pai de Dick levantou seu copo de whisky.
Todos levantaram suas bebidas, Ethel os seguiu relutante, e depois de brindarem Dick beijou a bochecha de Susana de maneira orgulhosa.
—-
A manhã seguinte era uma daquelas que Susana odiava. Estava completamente sozinha e não tinha planos para o dia inteiro. Dick ia viajar a trabalho por dois dias, seus amigos estavam quase todos ainda na casa de seus pais em suas cidades natais. Por causa do Natal, claro.
Susana levantou-se e abriu as cortinas para ver muita neve na janela e sobre o pequeno jardim em frente a sua casa também. Aquilo era um tanto irritante. A neve a lembrava de algo de sua infância, mas ela não sabia dizer o que.
Fechou as cortinas tentando fazer o frio diminuir. Foi para cozinha preparar seu chá. A casa de Susana era pequena, mas bonita. A decoração era elegante e calma. Havia várias janelas pela casa e quase todas cobertas por cortinas brancas com detalhes bege. Os móveis eram espaçados e todos muito bonitos. Alguns eram até mesmo antiguidades.
Enquanto a água fervia Susana lia a revista Vogue procurando por alguma inspiração para o evento beneficente de natal dos Showell, a família de Dick. De repente a imagem de um leão na revista chamou a atenção dela. Algo sobre o zoológico de Nova York, mas era a foto de um leão majestoso e enorme. Susana não conseguia parar de olhar até se surpreender com o apito da chaleira.
— Droga... – ela disse deixando a revista de lado e preparando seu chá.
Depois do café-da-manhã Susana começou a preparar sua roupa para o evento beneficente. Abriu seu guarda-roupa de mogno (presente de noivado de Dick) e tirou um casaco de pele de raposa branco que ela adorava. Aquele era presente do editor-chefe da revista para qual Susana trabalhava. Ela jogou o casaco luxuoso na cama e procurou por um vestido que fosse apropriado.
Outro casaco de pele foi retirado para facilitar a procura por mais roupas e então Susana não pode evitar se lembrar...
Neve. Muita, mas muita neve. Logo ela notou que era uma floresta coberta por neve. Havia também um lampião, um que lhe parecia tão familiar que ela não conseguia se fazer esquecer. Logo quatro crianças passaram em frente a ela. Todas com casacos de pele luxuosos e grandes demais para elas. Um loiro, outro menino bem mais novo com cabelos escuros e duas meninas com cabelo castanho. A menor delas com o cabelo bem curtinho.
Susana voltou de repente para seu quarto. Não havia mais floresta, lampião, nem crianças, nem neve, além da que estava do lado de fora. Mas havia algo em sua mente: Nárnia. A brincadeira da qual ela e seus irmãos não se cansavam. A mesma brincadeira em que os irmãos morreram acreditando.
— Não seja boba, Susana. – ela disse para si mesma. – Essa história já está se tornando antiquada. Meus irmãos não sabiam que estavam sendo tolos, mas para mim chega.
Terminando de falar ela colocou as roupas que não usaria de volta em seu guarda-roupa e o fechou, trancando em seguida. Pendurou um cabide com a roupa para o evento num gancho na parede.
— Chega de fantasias para mim.
Susana tentou se convencer que não havia motivos para nem mesmo tirar aquelas memórias do baú. Claro, ela sentia falta de seus irmãos e família, porém pensar neles não os traria de volta. Muito menos pensar em Nárnia... Até a palavra soava estranha e ao mesmo tempo familiar.
Com a vida que levava, Susana realmente não precisava de mais nada para ser feliz. Era noiva de Richard Showell, o herdeiro da empresa Metais Showell; editora de uma revista nacional conhecida; uma das mulheres mais bonitas do seu círculo social e tinha muitos amigos. A vida estava completa só com aquilo. Ela não precisava de brincadeiras sem sentido. Ela não precisava de Nárnia.
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