Survivor
11 Capítulo 11
Notas iniciais
“O homem é assombrado pela vastidão da eternidade, então perguntamos a nós mesmo: irão nossos atos ecoar através dos séculos? Estranhos ouvirão nossos nomes muito depois de termos partido? E imaginarão quem fomos? O quanto lutamos bravamente? O quanto amamos intensamente?” Troia.
ALFAMBRES
Ambos os exércitos estavam bem armados e eram numerosos, Mas claramente o exército de Montemor tinha grande vantagem em números de soldados, o que não intimidou o rei de Alfambres. Os generais em suas bigas guiavam suas tropas com cada rei a frente. Com um sinal, ambos os exércitos pararam, apenas as bigas que levavam seus reis e seus respectivos conselheiros seguiram viagem. Parando em meio ao campo. Afonso desceu e foi ao encontro do rei Robin.
A rei de Montemor olhou sorrindo para o céu e observou os corvos que por ali voavam.
“É um bom dia para os corvos.” Falou ironicamente, lembrando ao rei de Alfambres os homens que perdeu no dia anterior, quando seu exercito chegou e montou acampamento.
“Eu só tenho algo para lhe dizer, remova seu exército de minhas terras” o rei de Alfambres falou decidido, não estava disposto a ceder, nem mesmo para um rei como Afonso.
Afonso olhou ao redor, analisou cada pedaço de terra, os soldados inimigos e então voltou a encarar o rei, respondendo calmante.
“Gosto de suas terras, então acho que vamos ficar. E gosto de seus soldados. Ouvi falar muito sobre eles, são treinados desde a infância, sei que eles são ótimos soldados” As palavras desceram amargadas em Robin, encarando Afonso com descrença.
“Eles não lutaram por você!”
“Talvez esse fosse o pensamento dos outros reinos, Trácia, Artena, Arryn. Mas agora todos lutam por mim.” Falou saboreando cada palavra, e em breve teria Alfambres e por fim Swyty. Aí sim, declararia guerra contra Otávio.
“Não pode ter a Cália inteira Afonso, é grande demais. Mesmo para você!” Essas palavras apenas fizeram Afonso gargalhar, nada era grande demais para ele.
“Não quero ver um massacre. Vamos resolver isso poupando vidas Robin. Você pode ficar com o trono, mas Alfambres fica sob o meu comando. Para lutar sempre que eu convocar.” Falou firme, dando seu último ato de misericórdia.
MONTEMOR
CATARINA
Minhas mãos tremiam enquanto lia a carta, depois de cinco dias enfim recebi um recado do andamento da guerra.
“Majestade, informo que chegamos ao reino inimigo e montamos acampamento. Os soldados irão descansar por conta da viagem. A vigília já foi montada. Amanhã o rei Afonso vai se encontrar com rei Robin, o desfecho dessa conversa determinará o início ou não da guerra.
Conselheiro de Montemor
Virgílio.”
A carta chegou no início da manhã, o que quer dizer que a essa altura a guerra já teria começado, Alfambres nunca jurou lealdade a nenhum outro reino, e mesmo estando em grande desvantagem o rei e seu único herdeiro não iriam fazer isso agora, o Sul eram terras livres e eles se orgulhavam disso.
Estamos em guerra.
Segurei a carta contra meu peito enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto. Sabia que isso era apenas o início, todo o reino estava em luto, mulheres e crianças estavam com medo. Quantas viúvas e crianças órfãs teríamos no final disso?
Eu não podia oferecer nada aquelas pessoas para aliviar a dor em seus corações, quando o meu próprio estava da mesma maneira. O fato de estarmos com um exercito maior, não significava que não teríamos baixas, e se Afonso se ferisse em combate?
Não, não podia continuar com esses pensamentos, tinha que fazer algo. Fechei os olhos com força, tentando controlar as lágrimas. Senhor, por favor, proteja todos os soldados em batalha, traga aqueles homens, cada pai, filho, marido, traga todos com vida para suas casas. E por favor, traga Afonso para os meus braços novamente.
E como luz algo se acendeu em minha mente, tinha algo que eu poderia fazer. Uma novena. Poderia de alguma forma tentar confortar as pessoas.
Sequei as lágrimas rapidamente e sai do jardim, precisava fala com Delano e Lucíola. Respirei fundo para recompor-me. Precisava ser forte nesse momento. E com esse pensamento entrei no castelo, mandei alguns soldados acharem Lucíola e Delano para mim, enquanto seguia para os meus aposentos, mas antes de terminar o meu trajeto acabei esbarrando em uma pessoa. Ia desculpa-me pois sabia que a culpa tinha sido minha, mas ao ver quem era, mudei minha postura.
“Você” Falei, olhando aquela mulher. Como era mesmo seu nome? Amália? Acho que esse.
“Majestade, mil desculpas” Falou, fazendo uma pequena reverência, mas eu via claramente que ela não falava sério, pois mantinha no rosto um sorriso zombador.
“Essa é a terceira vez que nos esbarramos dentro do meu castelo. O que você faz aqui? Por acaso é alguma criada?” Falei de forma sarcástica, suas roupas deixavam claro que ela não era uma criada, mas se ela não trabalhava aqui, o que fazia no castelo? Senti seu rosto fechar com raiva, e ela tentou sorrir de uma forma polida, mas apenas uma careta se formou em seu rosto no processo.
“Não majestade, eu não trabalho aqui, eu estava apenas... bem eu” E antes que ela terminasse a frase Delano chamou minha atenção.
“Majestade?” Falou atrás de mim, baixando sua cabeça para depois olhar-me e em seguida direcionar o olhar para a mulher atrás de mim. “Um momento Delano.” Falei, precisava terminar essa conversa, mas quando voltei minha atenção para ela, a mesma já estava longe no corredor, seguindo pelo sentido contrário de onde eu estava.
“Sonsa petulante” resmunguei.
“Algum problema majestade?” Delano perguntou olhando na mesma direção. Suspirei frustrada, mais uma vez ela escapou sem que eu descobrisse quem de fato ela era e porque parecia está sempre no castelo. Todavia tinha algo mais importante, que requeria a minha total atenção.
“Não Delano, preciso de sua ajuda com outra coisa.” E com isso contei todo o meu plano.
No final do dia eu estava no meio da cidade, sorri mentalmente ao perceber que estava ocorrendo como o planejado, os moradores tinham parado seus afazeres e em sua grande maioria se encontram ali reunidos. O padre tinha dado início a cerimônia, fiquei no palanque em um lugar mais atrás, segurando com força a pulseira com um crucifixo na ponta, Lucíola estava ao meu lado e Delano do outro.
Quando o padre começou a rezar fechei meus olhos, orando mentalmente por todos que estavam na guerra. Trazendo um pouco de alivio para a minha alma, e para aqueles que estavam ali. Quando a cerimônia acabou, muitas pessoas estavam chorando emocionadas. Dei ordem para que os alimentos que tinha mandado preparar fossem distribuídos para o povo, pães frescos, frutas e sopa. Alguém no meio da multidão de repente gritou. “Deus salve a Rainha” e depois disso um coro de pessoas o seguiu “Deus salve a Rainha.” Seguido de “Vida longa à rainha de Montemor.” Sorri com aquilo, isso tinha dado esperança e ânimo para aquelas pessoas, e senti que enfim estava fazendo algo pelos moradores. Acenei em agradecimento e comecei a descer os degraus do palanque, com vários soldados ao meus redor.
“Pensei que não voltaria a lhe ver tão cedo Cat” Uma voz falou perto de onde eu estava, Delano deu passagem e Brice se aproximou me abraçando.
“Você não foi me visitar” Acusei quando nos separamos.
“Bem, o rei partiu para uma guerra, então o castelo está intransponível. Sua segurança foi reforçada, e não tive permissão para entrar, mas ao menos sei que assim você está segura.” Ela falou olhando para a quantidade de soldados que estavam próximos de mim.
“Majestade, é melhor voltarmos para o castelo. Não é sensato a senhora ficar muito tempo aqui fora.” Delano falou olhando atentamente ao redor, em busca de alguma possível ameaça. Suspirei cansada. Desde que Afonso partiu rumo a Alfambres eu me sentia uma prisioneira.
“Tenho que ir” Falei derrotada. Ela sorriu com total compreensão. “Mas deixarei ordem explicitas para que sua entrada seja permitida dentro do castelo.” Falei soltando suas mãos.
“Não gaste todo o dinheiro dos cofres até lá.” Falou sorrindo.
“Prometo me controlar.” E com isso fui escoltada rumo ao castelo, as pessoas por onde eu passava prestavam reverência e agradeciam o que eu tinha feito. Meu coração estava aquecido. Pelo menos por essa noite, as pessoas estariam em paz.
XXX
“Majestade, a guerra começou, rei Robin não aceitou jurar lealdade a Montemor. Não tivemos baixas no primeiro dia, apenas alguns feridos que estão recebendo tratamento médico, tudo seguiu da maneira que planejamos, os arqueiros estavam muito bem preparados e o exército de Alfambres teve que recuar. O cerco foi montado na cidade. Nada entra ou sai.
Afonso está bem.
Conselheiro de Montemor.
Virgílio.”
Reli a carta mais algumas vezes, sentido que enfim poderia respirar melhor. Afonso está bem, Afonso está bem. Repetia a frase mentalmente. Me atendei aos outros detalhes da carta, e sorri ao perceber que ele realmente era um ótimo estrategista, tinha conseguido formar o cerco sem que seus homens fossem abatidos. Mas sabia que isso era apenas o começo. A batalha corporal ainda não tinha de fato dado início, e quando isso acontecesse teríamos baixas, em ambos os lados.
“Pare de se preocupar com o que ainda não aconteceu, temos que comemorar Cat, estamos vencendo!” Brice tentou me animar, estávamos sentando mais uma vez no jardim do castelo. Aqui havia se tornado meu lugar preferido em Montemor, quando estava me sentindo sufocada, vinha até aqui. Sentia um pouco de paz, pois o jardim se assemelhava ao do castelo de Artena.
“Eu sei, mas não posso deixar de preocupar-me” falei cansada. “Eu preciso distrair minha mente com algo que não seja essa maldita guerra” Olhei esperançosa para ela, quando uma ideia surgiu em minha mente.
“Não, toda vez que você me olha assim sei que não vem coisa boa.” Brice falou, mas estava sorrindo e seus olhos brilhavam em antecipação.
“Vamos as plantações, tem uma área próximo a floresta que serve perfeitamente para fazermos uma refeição ao ar livre, estou me sentindo sufocada dentro desse castelo, com tantos guardas seguindo cada passo meu.”
“Isso é para sua segurança, você é a rainha, e em uma guerra você se torna alvo do inimigo.” Ela me repreendeu.
“Por favor Brice, que risco podemos correr? Eu já fui lá outras vezes.”
“Não estávamos em guerra Catarina e Delano estava observando!” Ela falou se levantando.
“Por favor.” Supliquei, precisava de um momento assim. Ela me encarou durante um tempo, para enfim concordar derrotada “Tudo bem, mas não podemos demorar. E como você pretende sair dos muros do castelo sem que os guardas notem?” Ela perguntou pensativa.
“Uma capa.” Falei como se fosse óbvio.
“Essa é a ideia mais ridícula que já ouvi.” Ela falou balançando a cabeça. Mas foi exatamente o que fizemos, pedi para a cozinheira preparar uma cesta com frutas, pães, uma garrafa de suco entre outras coisa. Peguei uma capa vermelha, que cobrisse minha cabeça, tirei meus braceletes, e assim conseguimos sair do castelo.
Seguimos caminho pela cidade até o local que tinha escolhido, ainda mantendo o capuz na cabeça para evitar ser reconhecida por alguém. Respirei aliviada quando conseguimos chegar. Olhei ao redor para ver se tinha sido descoberta, mas parecia que o plano tinha funcionado.
“Estou começando a duvidar da segurança do castelo assim” Brice falou sentando na toalha que estendeu no chão, tirei a capa e sentei ao seu lado, sentindo-me livre e em paz em meio a natureza.
“O problema é entrar, não sair.” Falei deitando e fechando os olhos.
Passamos cerca de uma hora apenas aproveitando o ar fresco, comendo e jogando conversa fora. Estava enfim tendo um momento de paz desde o dia que soube da guerra.
“Precisamos voltar.” Falei com pesar.
“Ainda bem, mais um pouco e acharia que teria que lhe arrastar de volta ao castelo” Ela falou rindo, ajudando-me a recolher as coisas do chão.
Foi então que ouvimos um barulho vindo da floresta, ela parou o que estava fazendo na hora, mas era tarde demais quando percebemos o que estava acontecendo.
“Ora, ora, se não é a rainha de Montemor, e como observei na última hora, sem nenhum guarda por perto... Ts ts ts, que pequeno deslize o seu Majestade.” Um homem falou, parando seu cavalo bem próximo de onde estávamos, junto com ele outros quatro homens. Pelas roupas e as facas em suas cinturas sabia muito bem de quem se tratavam. Mercenários. O homem que falou primeiro, desceu de seu cavalo e aproximou-se de onde estávamos. “Agora seja boazinha e venha conosco, não quero machucar um rosto tão lindo como o seu.”
“Não ouse se aproximar.” Brice falou com a voz séria, colocando-se entre o mercenário e eu. Meu corpo estava paralisado de medo, como pude ser tão estupida?
“Catarina corra, eu não sou o alvo, é você” Brice falou me olhando séria, mas antes que eu pudesse fazer algo o homem a nossa frente desferiu um forte murro no rosto dela.
Brice caiu violentamente no chão. Meu primeiro instinto foi correr em sua direção, pânico tomando conta de mim, mas o homem que a derrubou sorriu com escárnio e antes que pudesse alcançá-la ele agarrou-me pelo cintura. “Acho que ele não ficará com raiva se tiramos uma casquinha chefe, uma mulher tão bonita quanto ela” Falou um cara loiro, aproximando mais seu cavalo de mim. Ele, quem era ele?
“Me solte” Falei entredentes, para logo em seguida cuspir no rosto do capanga que ainda me agarrava. Ele enfim soltou meu corpo, apenas para virar-me e atingir um forte tapa como resposta, fazendo meu corpo ir de encontro ao chão, lágrimas grossas desciam pelo meu rosto. Olhei onde Brice estava, ela parecia inconsciente. Olhei mais uma vez ao redor, no que eu tinha nos metido?
ALERTA SPOILER
Próximo capítulo:
...Os gritos dos homens aumentaram e transformaram-se em pânico quando raízes brotavam e começaram a envolver suas pernas, quando ficou claro que eles não iriam conseguir se levantar, com a mesma velocidade que o furacão começou, ele cessou ao meu redor, mas as raízes continuavam a crescer. Olhei aterrorizada para aquilo, quando ouvi o primeiro crac, era o barulho de ossos quebrando, para logo em seguida os gritos, as raízes estavam engrossando e quebrando os seus ossos no processo...
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