Os grunhidos são incessantes e o cheiro podre é totalmente desagradável quando se está tão perto. Busco uma salvação em meus passos apressados de uma corrida rápida e esforçada. Estou cansada, preciso parar, porém minha vida está em jogo.
Eventualmente, sou obrigada a parar ou diminuir o ritmo para me defender e se não fosse por isso, provavelmente já estaria longe desse bando, levando em conta a velocidade e o grande período de tempo desde que comecei a correr. Mas, por hora, aqueles seres repugnantes estão por toda a parte, se atirando sobre mim, famintos.
Os movimentos repetitivos de empurrar e cravar minha faca no crânio, estão fazendo meus braços doerem irracionalmente, não aguento mais. Uso toda a força que me resta para abrir uma pequena vantagem e então sou traída por meus joelhos, que cedem e eu vou ao chão. Ao mesmo tempo, ouço barulhos de tiro e ergo meus olhos. Graças a Deus, Jack.
Ele olha para mim e seus olhos se arregalam, ao que penso ser uma expressão involuntária de surpresa. Ele continua disparando e tudo o que consigo fazer é me levantar vagarosamente e ir cambaleando em sua direção.

— Pro carro, rápido! Não tenho munição o suficiente – ele diz, soando totalmente autoritário, assim que me aproximo. Eu brevemente o encaro, estranhando seu comportamento.
— Vou bem, obrigada – respondo ironicamente e então me viro e embarco na caminhonete 4x4, me recordo brevemente que essa costumava ser de meu uso. Antes de você sair estupidamente sozinha, em uma missão impossível. Meu subconsciente me lembra.
Ele me segue, entrando pelo lado do motorista, me olha brevemente e então acelera, zumbis se atiram no vidro de sua porta e ele não parece se importar ou se quer notar.

Fico feliz que ele tenha esperando alguns momentos antes de me bombardear com perguntas, usei esse tempo para recuperar o fôlego escasso e me acalmar. Meu coração batia incrivelmente rápido em meu peito.
— Quem diria que você ainda está viva… Por onde andou? – ele me pergunta, uma ameaça de sorriso surge em seu rosto.
Esfrego as palmas de minhas mãos em meu jeans, levemente nervosa. Ainda me lembro de uma certa manhã, em que Chris me disse que não deveria confiar em Jack.
— Por todo o lugar que puder imaginar. Foram dias quase insuportáveis – digo.
— Dias? Pelo visto sua modéstia continua intacta.
O observo, sem entender muito bem o que quer dizer.

Alguns minutos se passam em silêncio e eu começo a estranhar. Imaginava que ele me faria mais perguntas e… Por que diabos ele está sorrindo?!
De repente percebo que ele está parando no estacionamento de um supermercado, à margem da rodovia.
— Está em uma busca por suprimentos? – pergunto a ele.
— Sim, mas acabei por encontrar o meu suprimento – ele diz, olhando fixamente para mim e dando ênfase no adjetivo de posse.
— O que quer dizer? – indago, começando a me assustar de verdade. Tenho de estar errada, por favor.
— Desça do carro – diz simplesmente, abrindo sua porta e saindo. Ele se agacha levemente para se certificar de que estou fazendo o mesmo e então fecha a porta.

Do lado de fora, eu me surpreendo ao encontrá-lo tão perto assim que me viro. Noto uma pequena cicatriz em sua testa, mas esse pensamento logo me foge quando ele coloca suas mãos apoiadas no carro, em volta de meu corpo.
— O que está fazendo? Saía! – digo em tom bastante alto, a voz firme. O empurro e ele se afasta, imediatamente saco minha faca.
— Christopher é um rapaz de sorte. Porém, ele acredita que esteja morta e é exatamente o que vai acontecer com você, caso não faça o que eu lhe peça – ele saca sua arma.

Christopher.

— Uma bala é muito mais rápida que uma faca, achei que fosse mais esperta – ameaça ele, erguendo sua arma a apontando para minha cabeça. Não tenho chance alguma, isso é fato.
— Pois atire, não farei nada com você. Nunca.
— Ora… Vamos. Você é uma garota muito bonita para morrer assim.
— E também sou fiel. Independente do tempo que passei fora, meus sentimentos por ele são os mesmos.
— Ele acredita que esteja morta.
— Gosto de surpresas – sorrio.
— Pena que não terá tempo de fazê-la – ele engatilha a arma – Apenas um pouco de diversão, querida. Nada de mais.
Balanço a cabeça. Jack suspira.
— Prefere realmente morrer? – ele se aproxima, uma de suas mãos em meu quadril. Estremeço ao reprimir minha raiva. Gostaria de socar sua cara, mas quando se tem uma arma engatilhada encostada em sua cabeça, não é uma boa ideia.
— A fidelidade, é sempre uma boa recompensa.
Ele baixa a arma e se move rapidamente. Antes que eu tenha chance de me defender, estamos no chão e eu, dominada e imóvel sob seu peso. Ele fricciona seus lábios contra os meus, aos quais mantenho fortemente fechados, de forma extremamente grosseira. Então, ele desiste.
— E a morte sofrida, é sempre melhor.
Ele saca uma faca e eu grito dolorosamente quando ele me fere na coxa, sinto o sangue se esvaindo e a dor se tornando pior a cada nanosegundo. Jack se levanta e dá a volta no carro enquanto me contorço no chão. A dor é angustiante.
— Boa sorte – ele grita – Reze para que alguns amigos apareçam logo pra te devorar.
Entre meus gritos e o som incessante de meus batimentos cardíacos, aos quais ouço deliberadamente em meus ouvidos, ouço os pneus cantando e então, estou sozinha.

Aperto minhas mãos contra o ferimento, o mais forte que consigo. Volto a fechar minha boca com força, tentando conter meus gritos. Minha visão começa a escurecer e sinto o suor frio. Minhas forças se esvaem e tudo se escurece e silencia, no exato momento em que perco minha consciência.