Survivor

2 Capítulo Um Khyara


Notas iniciais
Olá! Não se esqueçam que o nome entre parenteses indica quem está narrando o capítulo =) Espero que gostem!!

Acordei em meio a uma fria madrugada, ouvindo resmungos no quarto ao lado. Sentei-me na beirada da cama e liguei a luminária. Pisquei algumas vezes, tentando espantar o sono e então um garotinho surgiu em minha porta, com carinha de medo e cabelos desgrenhados.
— Posso entrar? – pergunta ele, com voz de sono.
— Claro. O que foi?
— Pesadelos – responde, fechando a porta.
— Oh. Está tudo bem?
— Não – ele se senta ao meu lado – isso vem se repetindo a dias. Me assusta.
— Por quê? É apenas um sonho, Nicolas – sorrio, de modo a tentar acalmá-lo.
— Eu sei, mas… É tão assustador. Sangue por toda a parte e frio. Não gosto disso.
Ele de repente me abraça e isso deixa claro que ele está realmente assustado. Afago suas costas e então ouvimos um grito, alto e angustiante. Nos separamos, encarando um ao outro. O medo em seu rosto cresce e então eu me levanto e estendo a mão.
— Venha!
Assim que ele agarra minha mão, eu o puxo para fora do quarto, encontramos mamãe assim que fecho a porta atrás de mim.
— Mãe, o que está acontecendo? – pergunto a ela, relembrando todas as notícias que venho escutando durante os últimos dias.
— Eu não sei – ela está amarrando seu roupão e indo para a sala. A pessoa que gritou, ainda o faz, mas agora está fraco, abafado e de repente, cessa. A figura loira e esbelta de minha mãe está parada no meio da sala, olhando para o teto, de onde agora reparo, estava vindo os gritos.
— Era no apartamento da Sra. Dawes – digo.
— Sim – ela murmura – Vou telefonar para a polícia.

Enquanto mamãe se ocupa com seu celular, um rebuliço começa no edifício.
Os apartamentos de Seattle, tem as paredes finas e tudo o que acontece nos andares próximos pode ser ouvido a noite. Principalmente nos andares mais altos, como no nosso caso, décimo quinto andar.
Muitos passos são ouvidos no corredor, murmúrios e bater de portas.
— Olivia acordou o prédio todo – comenta Nicolas.
— Parece que sim – volto minha atenção para a voz de minha mãe no telefone.

— Não, creio que esteja errado. Ela era uma idosa, pode ter acontecido qualquer coisa.
Resta o barulho dos curiosos enquanto ela ouve o que o policial diz do outro lado da linha.
— Sim, eu estou acompanhando os noticiários. Mas essa epidemia está do outro lado do mundo, como chegaria aqui tão rápido?
Epidemia. Minha respiração para.
— Quais são os protocolos?
Aperto a mão de Nicolas, uma pequena parte do meu cérebro capta sua reclamação.
— Vá para seu quarto e coloque algumas roupas na mochila de acampar – ordeno a ele, sem olhá-lo.
— O que? – o estranhamento domina sua voz.
— Apenas faça, por favor – desta vez eu o encaro com uma expressão séria e ele assente, suspirando, mas se dirige para o quarto.
Vou para perto de minha mãe e então consigo ouvir a voz masculina do policial:

— … Alimentos não perecíveis, sua família e vá para a base militar mais próxima de sua residência.
Pela primeira vez na vida, vejo a confiante Emma Myller engolir em seco.
— Está bem.
E o policial completa:
— O mais rápido possível, senhora – a ligação cai.

Eu a encaro. Seus olhos estão arregalados e as bochechas levemente molhadas.
— O que foi? – inutilmente pergunto.
— Lembra-se dos noticiários?
Balanço a cabeça.
— Ao que parece, o vírus chegou aqui através das importações vindas do Japão.
Eu arquejo.
— O que diabos eles tem na cabeça? É um problema de âmbito mundial e eles não suspendem as importações?
— A humanidade encontra sua própria desgraça em sua ganancia. Isso é fato. Mas, ao que parece, desta vez a coisa é séria.
— A ganancia fodeu o mundo, mãe. Sejamos racionais – eu me viro, fincando meus dedos em meu cabelo e jogando a franja para trás.
Ela suspira e não reclama do meu vocabulário.
— O que faremos? – pergunto.
— Segundo o policial da emergência, os protocolos adotados pelo governo no momento são que a população junte itens de sobrevivência e defesa básica, mire a cabeça e procure a base militar mais próxima.
— Mirar a cabeça? – olha-a, confusa.
— Sim, ao que parece eles só são parados assim.
— Lesões cerebrais?
— Sim.
— O que? – pergunta Nicolas, surgindo na porta do corredor.
Estávamos nos esforçando para mantê–lo alheio aos acontecimentos, não queríamos assustá-lo. Não deixamos que ele visse nenhum noticiário. Por tanto, ele não sabe de nada, não faz ideia do que está acontecendo.
— É uma longa história, querido. Vamos te contar no caminho, agora mamãe quer que você faça uma coisa, está bem? – diz ela, já ao seu lado e agachada para ficar na altura dele. Seus olhos estavam marejados.
“Droga!” Penso comigo mesma, assim que lágrimas também começam a brotar em meus olhos. Limpo-as rápida e disfarçadamente.
— Está bem, mamãe. Por que está chorando?
Ela olha para mim, silenciosamente implorando por socorro. Então, se levanta.
— Fique com sua irmã, por favor. Não saía de perto dela – diz a ele, enxuga suas lágrimas com as costas das mãos e volta seu olhar para mim – Arrume as coisas, vou cuidar do resto.
Balanço a cabeça e volto a agarrar a mão de Nicolas.
— Fez o que lhe pedi? – pergunto a ele, assim que entramos em meu quarto.
Ele levanta a mochila de náilon que sempre usa nos acampamentos de férias.
— Ótimo, colocou roupas de frio?
— Sim. Não se preocupe, aqui só tem roupas adequadas para sobreviver.
Fico imediatamente paralisada, deixando minha mochila cair.
— O que? Vocês realmente acharam que poderiam me esconder uma notícia nessas? Está em todo lugar. Todas as redes sociais só falam disso, não sou tão ingênuo.
Suspiro. Sempre me esqueço que Nicolas é um garoto nota A em tudo. Um menino inteligente de mais para a idade.

— Por que não nos contou?
— Vocês não pareciam dispostas a comentar sobre o assunto.
Confirmo com a cabeça.
— Realmente não estávamos, achamos que seria demais para sua cabeça.
— Não sou mais criança. Já tenho dez anos.
— É… Parece que não – sussurro, sorrindo levemente.
— Você não vai avisar a Jullie?
Olho para ele, ainda com uma pilha de roupas na mão.
— Obrigada.
Ele sorri e eu pego meu celular, só então percebo que estou tremendo.

“Khyara, isso são horas?” Jullie diz ao atender, com voz de quem acabou de acordar.
“Jullie. Onde você tá?”
“Como assim? Oras, em casa, é claro”
“Acorde seus pais, arrumem as suas coisas e venham pra cá. Rápido”
“O que? O que aconteceu?”
“A epidemia, chegou aqui. Depois eu te explico. Roupas, material de higiene e o que vocês tiverem pra se defender”
“Mas, como assim? Quer dizer que… Ah meu Deus!”
“Mirem na cabeça. Te vejo em uma hora?”
“MÃE, ACORDA!! Em meia hora estaremos aí” e ela desliga.

— Esclarecedor.
— O que?
— Sua ligação – ele ri.
— Não enche – digo de brincadeira – Deixa eu terminar isso aqui, precisamos ajudar a mamãe.
— O fim do mundo começa e você ainda não aprende a ser rápida.
— Não enche – digo, agora de verdade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.