Survival Camp
2 Capítulo 2
– O QUE? — eu e meu irmão falamos em uníssono.
– Isso mesmo que vocês ouviram. É um acampamento de férias e vocês já estão cadastrados, não tem volta. — nossa vó disse, animada.
– A senhora não pode fazer isso, eu tenho 18 anos! — gritei. Quem disse que eu ia ficar me divertindo enquanto meus pais estão no hospital? Nem pensar.
– E eu tenho 20 anos! Tenho meus direitos! — meu irmão falou no mesmo tom que eu. Nenhum dos dois parecia queria aquilo.
– Vou repet…
– Não precisa repetir porque a gente não vai. Bom, pelo menos eu não vou! — interrompi-a e fui correndo para o meu quarto. Eu posso muito bem passar meus três meses de férias sem fazer nada em casa.
Meu irmão ficou lá em baixo. Fiquei até com pena do coitado. Dava para ouvir um pouco da conversa de dentro do meu quarto. Se eles ainda estavam conversando… bom, ia sobrar para mim. Aquele cabeça oca é super influenciável.
Então, como esperado, não demorou muito para que ele batesse na minha porta.
– Já sei o que você vai falar e nada vai me fazer mudar de ideia!
– Deixa de ser criança e abre essa porta, quero conversar com você de verdade. — ele terminou de falar. Levantei-me da cama e fui abrir a porta. Quando ele está sério assim, nem pense em provocá-lo. Encarei-o por alguns segundos e voltei para a minha cama.
Sentei na cama e ouvi o barulho da porta sendo fechada. Beto pegou uma cadeira e sentou-se perto de mim. Dava para sentir que estava para vir um discurso…
– Olha maninha, eu sei que você é cabeça dura, mas pensa comigo: a gente não tem nada para fazer e ficar aqui só vai nos deixar mais tensos em relação ao que está acontecendo no momento.
– Então você quer ir se divertir enquanto os nossos pais lutam pela vida? Francamente, Beto…
– Você não tá falando coisa com coisa. Você ainda não percebeu que nós não podemos fazer nada? Nada, entendeu? Isso tudo depende do tempo. Você acha que a mamãe, por exemplo, ia querer te ver trancada dentro do quarto, tendo férias terríveis? — balancei negativamente a cabeça e ele continuou. — Então, são apenas três meses, dê uma chance! A vovó falou que vai nos avisar de qualquer coisa que acontecer por aqui. Não está sendo fácil para mim também, Isa. Eu sei como você está se sentindo… — a lágrima que tanto queria sair escorreu pelas minhas bochechas. Beto se aproximou e sentou-se ao meu lado na cama.
– Ei, não chora. Vai dar tudo certo, você não está sozinha. — ele falou enquanto enxugava minhas lágrimas.
– Não parece que vai dar tudo certo…
– É porque, às vezes, não fica tão visível, mas nós vamos conseguir passar por isso. Eu sei que você é forte e eu confio nisso. Agora eu vou sair para fazer algumas coisas, mas fica bem, maninha. — ele beijou minha testa e foi andando até a porta, fazendo com que eu me sentisse sozinha novamente.
– E pra onde você vai? — perguntei antes de a porta ser fechada. Ou ele não escutou, ou não quis falar, porque no final fiquei sem resposta alguma.
Já tinha rolado bastante na cama pensado sobre o que meu irmão disse, sobre a possibilidade de ir para o acampamento e tudo o mais.
Realmente, ia ser uma boa distração, mas não sei se eu conseguiria. Depois do que aconteceu, eu me sentia frágil demais, sensível demais. Por isso não deixava as pessoas se aproximarem. Eu não queria me machucar e sofrer mais do que já estava sofrendo. E se isso fizesse com que eu ficasse sozinha lá no acampamento? Meu irmão consegue fazer amizade em um segundo, mas e eu? Eu não sou assim.
Minha cabeça estava uma loucura. Precisava organizar meus pensamentos o quanto antes e só tinha um lugar em que eu conseguiria fazer isso direito.
Corri para a escada às pressas, passei pela cozinha e avisei à minha avó que iria sair para caminhar. Ela resmungou algo como “cuidado” e “não volte muito tarde".
Botar os pés para fora de casa já era um alívio e tanto. Ainda estava fazendo muito frio em Los Angeles e quase não tinha gente na rua.
Fui andando devagar até o parque que tinha perto de onde morávamos. O vento forte estava fazendo meus olhos lacrimejarem, e, pela primeira vez em dias, não foi porque eu estava chorando.
Sentei no banco em que eu sempre sentava e olhei o perímetro. Tudo em seu lugar, nada tinha mudado.
Talvez fosse só uma brincadeira e minha vida não estivesse tão desajeitada como parecia. Talvez eu quisesse tanto acreditar nisso que não conseguia ver o que estava bem de baixo do meu nariz. Eu tinha que acordar. Isso é o presente e eu ainda estava pensando no passado.
Estava tudo calmo e silencioso. O ar estava denso e pesado, por isso não acreditei quando vi uma criança correndo de um lado para o outro um pouco à minha frente, olhando para cima como se procurasse alguma coisa. Chequei se havia alguém com ela e não achei o que procurava. Só que, em uma fração de segundos, ela caiu. Quando percebi, eu já tinha me levantado num pulo.
Fui até ela e estendi minha mão. Mesmo com o olhos se enchendo de lágrimas, ela segurou minha mão e sorriu sem mostrar os dentes.
– Machucou? — perguntei tentando transmitir um pouco de segurança para aquela pequena garotinha.
– Um pouquinho… — então ela virou a palma da outra mão e me mostrou um pequeno arranhão.
– Ah, vai sarar rapidinho. Você parece ser uma garotinha forte, já já vai esquecer isso. Qual é o seu nome, meu amor?
– Sophie, e o seu? — posso dizer que estou apaixonada por essa pequena garotinha na minha frente? Que criança mais fofa!
– Eu me chamo Isadora. — sorri e os olhos dela brilharam — Você está sozinha, Sophie?
– Não, meu primo está comigo. Ele falou que ia comprar pipoca para mim e mandou eu ficar parada, esperando por ele, mas aí eu vi um pombo e…
– E saiu correndo atrás dele, não foi? — completei com a voz risonha.
– Sim! Ele era lindo e eu pensei que podia levá-lo para casa. — sorri, enquanto ela fazia uma carinha de tristeza. Já ia pegar meu celular para que ela ligasse para seu primo quando Sophie saiu correndo e pulou nos braços de um garoto alto e bem magro. Sophie o puxou para perto de mim.
– Oi! Minha prima estava te incomodando? — o garoto disse, sorrindo para Sophie.
– Ei, eu não estava incomodando a Isa. — ri baixinho com o tapa que o tal primo levou da pequena Sophie.
– De maneira alguma. Adorei conhecê-la! — falei, sorrindo.
– Ainda bem! Ah, meu nome é Kenny, à propósito. Você sempre aparece por aqui? — a expressão dele mudou com a pergunta e imaginei que ele tinha percebido o quão estranho aquilo tinha soado. Não podemos confundir com uma cantada, afinal.
– Meu nome é Isadora. E sim, eu costumava aparecer por aqui há um tempo atrás. — forcei um sorriso e olhei o relógio — Nossa, tenho que ir. Sophie, cuidado para não se machucar de novo viu, pequena? — dei um beijo nela, que já estava no chão e olhei para seu primo – Kenny, foi um prazer conhecê-lo. — acenei com a mão e segui meu rumo, chegando à conclusão de que não tinha o que pensar. Eu realmente precisava me distrair.
Ao chegar em casa, fui recebida por uma mesa enorme e o cheiro de comida da minha vó pairava no local. Senti minha barriga roncar na mesma hora.
Fui me sentando assim que entrei na sala de jantar e aproveitando para dar um peteleco no meu irmão enquanto piscava para minha avó. Ouvi uma risada e não foi a do meu irmão.
– Tá animadinha, né? O que aconteceu dessa vez? — Beto falou enquanto colocava batata palha no seu prato.
– Nada que seja da sua conta… Mas se a vovó quiser saber, eu posso contar. — fui respondida com silêncio da parte dele e entendi como um "não vou discutir porque estou com muita fome".
– Vou adorar saber das suas aventuras minha querida, só que terá que ser mais tarde porque eu quero saber se os mocinhos já se resolveram sobre a minha proposta. — ouvi a voz da velhinha pela primeira vez na conversa.
– Então… a senhora já sabe qual é o nome do lugar? — perguntei, buscando entusiasmo e recebi o olhar acolhedor do meu irmão.
– Sim. Chama-se Westmont e fica bem perto de Los Angeles. É em uma cidade muito bonita, vocês vão gostar de lá.
– Aham… — "Até parece que vou gostar", completei mentalmente.
– Nós vamos amar! — Beto completou com uma voz fina.
– Deixa de ser gay, menino. — recebi uma cotovelada e começamos uma pequena briguinha ali mesmo. Às vezes eu esquecia das idades que tínhamos.
– Chega, podem ir terminando de comer. — fomos repreendidos e voltamos a comer enquanto dávamos risada da cara de nossa vó.
(...)
Sabe o que é acordar, receber uma notícia e querer voltar para a cama no mesmo instante? Então, era exatamente assim que eu estava me sentindo.
Depois de ter feito minha higiene matinal, desci para tomar café. Assim que desci, escutei minha vó falando com alguém ao telefone:
– Amanhã? Eles vão adorar, George, obrigada por estar cuidando das passagens. Até mais! — certo. Amanhã. Passagens. Já ia dando meia volta quando ouvi a voz da velhinha pairar pelo local.
– Bom dia, Bela Adormecida! Tenho uma novidade incrível para você. — e já foi me puxando para a cozinha. Logo, não tive escolha a não ser pensar no quanto meu quarto estava sugestivo naquele momento.
Depois de toda aquela conversa, eu queria sair logo dali, então a melhor desculpa foi dizer que eu precisava arrumar as minhas malas porque tinha sido pega de surpresa. Claro que ela não recusaria. Jogada de mestre, isso sim.
– Não se esqueça de avisar ao seu irmão. Estou indo ao mercado! — foi a última coisa que ela disse antes da porta ser fechada.
Corri para o quarto de Beto e bati na porta. Não queria me deparar com alguma cena… hm… diferente. Imaginei que ele ainda estava dormindo, já que ninguém abriu a porta ou falou algo do tipo "me deixa em paz!". Decidi entrar.
Quando entrei, ele estava dormindo como um anjinho. Que mal seria se eu o acordasse, não é mesmo?
Já estava preparada para pular em cima dele quando o ouvi resmungar, sonolento, como se estivesse sonhando:
– Bruna… Bruna, eu te quero… fica comigo… — caí no chão de tanto rir daquela cena. Terei que me lembrar de colocar isso na mesa quando fizer alguma chantagem.
– Beto, acorda! A Bruna está lá embaixo querendo falar com você! — eu disse, enquanto o sacudia e tentava parecer séria. Bastou isso para o menino acordar num pulo.
– BRUNA? AQUI? COMO ELA… MEU DEUS, TENHO QUE ME ARRUMAR! — nessa hora eu já me encontrava com dor muscular e sem ar de tanto rir. Meu irmão estava apaixonado! Loucamente apaixonado!
Quando ele viu que eu não parava de rir, começou a me xingar. Provavelmente percebeu que não tinha Bruna nenhuma lá embaixo…
– Isadora, vai procurar o que fazer, vai. — ele disse e entrou no banheiro com a maior cara feia.
– Uau, estou até com medo agora. Pra sua informação, a vovó que me mandou vir aqui para avisar que viajaremos amanhã e temos que estar com as malas prontas, querido.
– Então você já deveria estar no seu quarto cuidando das suas malas, pirralha chata.
– Menos grosseria e mais ação, mano. Quando vai chamar a Bruninha pra sair? Quero conhecer minha cunhada, hein.
– Vai. Pastar.
– Nossa, esse assunto mexe mesmo com você… Vou pro quarto. Se precisar, não me chame. — mandei um beijo no ar quando ele abriu uma brecha da porta pra me mandar o dedo. Uma hora ele ia me contar essa história. Ah, se ia.
Depois disso, com todas as coisas que eu tinha pra arrumar, o dia passou correndo e, quando me deparei, o despertador já estava tocando ao meu lado. Era hoje a tal viagem. O tal acampamento.
Arrumei-me sem muito entusiasmo. Fui levando as malas para o carro e parecia que só faltavam as minhas, ou seja, eu era a atrasada nessa história.
A última imagem que tive antes de entrar no carro, foi a de uma Los Angeles ensolarada, como se dissesse "não vá, nós podemos fazer você feliz aqui".
Bem, tarde demais. Eu já estava no carro a caminho dos três meses mais sem graça que já tive. Ou pelo menos era o que eu pensava.
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