Tínhamos acabado de chegar ao aeroporto. Confesso que me permiti ficar ansiosa por esse dia, somente pelo fato de que nunca fui a um acampamento, a não ser que a imagem que tenho dos filmes sirva para alguma coisa.

Para mim, é praticamente isso: jovens loucos, bebedeira, sexo e aventura. Certo, se parar pra pensar talvez não seja bem assim.

Enfim, a frase que estava me segurando para que eu não desse meia volta era "Pense nas partes boas, Isadora, pense nos pontos positivos". Se não fosse por isso, eu já teria corrido para a minha coberta, minha cama quentinha, meu quarto bagunçado… E esse era exatamente o tipo de pensamento que eu não podia ter.

No caso da minha vó, a única coisa que estava mesmo faltando, era dar pulinhos de alegria. Tentei identificar se era porque ela iria se livrar de nós ou se era porque ela realmente estava feliz por tirar a gente de casa. Fiquei no meio termo. Acabei chegando à conclusão de que a única que não estava ligando mesmo para isso era eu porque até o retardado do meu irmão estava demonstrando ansiedade e alegria.

Finalmente fizemos o Check-In e me deparei com o primeiro ponto positivo: o voo não seria demorado e o avião sairia em 20 minutos.

Na verdade gosto de andar de avião. É bom ter a sensação de que você está voando e parece que o mundo não está tão nas suas costas como antes. Quem vê as nuvens e não fica imaginando a textura delas? Não é coisa de criança, sei lá. Acho que todo mundo já pensou nisso uma vez na vida.

Nos despedimos da nossa vó, entramos no avião e procuramos nossos assentos. Felizmente, ninguém sentou ao nosso lado. Já bastava o chato do meu irmão. Assim que o avião levantou voo, coloquei meus fones de ouvido para que meu irmão não ficasse me incomodando, mas acabou que ele também colocou os seus, então ficou tudo certo. Fomos assim praticamente a viagem inteira. Dei um sorriso pequeno, sem mostrar os dentes, enquanto olhava a janela com alguns pensamentos bobos rodando na minha cabeça.

Finalmente estava me sentindo bem, leve. Não chateada e com raiva como eu achei que estaria. Talvez essas férias fossem exatamente o que eu estava precisando e só agora eu conseguia ver isso.

Quase levei um susto quando a cabeça do Beto caiu no meu ombro. Sim, ele conseguia ser fofo nessas horas. Mas só nessas horas mesmo, porque acordado ele não é fofo nem pagando. Ok, talvez eu esteja sendo um pouco exagerada. De qualquer forma, depois desse acontecimento acabei encaixando minha cabeça na dele e peguei no sono, ali mesmo.

Acordei com meu irmão se mexendo na cadeira enquanto uma voz falava:

– Bem-vindos ao aeroporto Lowell, em Westmont. São 11:00 horas no horário local e a temperatura encontra-se a 7°C. Não se esqueçam de tirar suas bagagens do departamento acima de suas poltronas. Obrigada.

Saímos do avião e estávamos tão desorientados, sem saber pra onde ir, que as pessoas já começaram a nos olhar com indiferença. Sim, aquela cena deveria estar sendo engraçada. Era um aeroporto bem grande e bem bonito, por sinal. Talvez aquela fosse uma cidade turística ou algo assim porque eu via gente de todos os lugares andando pra lá e pra cá. Enfim encontramos as roletas que ficam com as bagagens. Segurei a vontade que eu sempre tive de subir em uma. Pegamos nossas malas e depois acabamos descobrindo que alguém iria nos buscar. Pelo menos esse tal acampamento era realmente organizado. Enquanto esperávamos, resolvemos ir ao Starbucks para tomar um café. Eu simplesmente amo Starbucks. Não consigo me contentar só com um café quando se tem aqueles cookies e muffins deliciosos. Isso quando eu não tomo um cappuccino. Balancei a cabeça negativamente rindo dos meus pensamentos de gorda e vi a cara do Beto sem entender nada. Em minha defesa, tinhamos que ter energia, porque o dia seria longo.

O motorista chegou e nos levou ao, para mim, terrível acampamento. Eu mal sabia que, esse acampamento que eu tanto odiava antes mesmo de conhecer, mudaria totalmente a minha vida.

(...)

Demoramos, mais ou menos, meia hora para chegar ao local. Saí do carro e observei o lugar com os olhos. Realmente estava surpresa.

Parecia mais a oitava maravilha do mundo ou algo assim. Para qualquer lugar que você olhasse, tinha uma paisagem diferente. Olhei para o meu irmão e seus olhos brilhavam assim como os meus. Aquilo era um sonho. Engraçado o fato de eu estar odiando tudo isso a minutos atrás, e agora, digamos que já estava começando a gostar um pouco. Mas só um pouco mesmo. Então me dei conta de que essa era a parte de fora, ou seja, eu não tinha ideia do que esperar da parte de dentro. O rapaz que nos trouxe mandou que o seguíssemos e passamos por uma placa que dizia: "Bem vindos ao acampamento Westmont".

Quando entrei, a única coisa que eu pensei foi em como isso estava parecido com os filmes que vi. Acabei sorrindo, porque se realmente fosse como nos filmes, aí sim seriam férias de verdade.

– Pronta para essa grande aventura, pirralha? — Beto disse me dando um soquinho de leve no ombro ao tentar entender se minha expressão era de felicidade ou tristeza.

– Na verdade, não...

– Para de ser chata, Isa ! Vem, vamos entrar.

Fomos andando até o local onde estavam todos os campistas. Uma das monitoras do acampamento estava dando instruções para os mesmos.

– … e agora nós iremos sortear os seus novos companheiros de quarto! — uma mulher com cara de durona falou pelo alto-falante.

Meu estômago começou a revirar só de pensar que teria que dividir um quarto com mais duas estranhas por três meses.

Então ela começou a chamar os nomes e dar as chaves e um dos primeiros a ser chamado foi o Beto. Fiquei observando quem ficaria com ele.

– Wesley Stromberg, Drew Chadwick e James Grant, quarto 187. — bem, os dois pareciam ser legais. Não consegui vê-los direito porque eles se encontravam do outro lado, mas pude enxergar um deles fazendo um toque com mais dois amigos, acho que se despedindo porque não ficariam no mesmo quarto.

– Aê maninha, vou lá conhecer meus companheiros de quarto. Fica calma e boa sorte. — então ele saiu, seguindo os outros.

Acabei sendo uma das últimas a ser chamada. Já estava meio que entrando em pânico quando ouvi meu nome.

– Luiza Campbell, Maria Miller e Isadora Beckham, quarto 204.

Fui até onde a monitora estava com as outras meninas que já tinham chegado também. Me senti um pouco inferior pelo fato das duas serem muito bonitas. Afastei esses pensamentos antes que pudesse ficar deprimida enquanto as meninas pegaram a chave do nosso dormitório. Seguimos para o nosso novo quarto.

Logo que entramos, demos de cara com um quarto gigante. Tinha uma salinha com televisão, livros, quadros e mais alguns enfeites. Fui explorando todo o local. Afinal, não seriam só quatro dias como nessas viagens de colegial. Seriam três meses. Me arrepiei com o pensamento. Aquilo era realmente muito tempo. Encontrei o quarto e havia três camas arrumadas igualmente. Coloquei minhas malas na cama que estava encostada na parede e as meninas fizeram o mesmo com as suas.

– Desculpa, mas qual é mesmo o seu nome? – uma delas perguntou para mim, sorrindo.

– Isadora. – sorri para ela, mas sem mostrar os dentes. – E o seu?

– Meu nome é Luiza. E você é....? – dirigiu-se a outra menina.

– Maria. – ela sorriu para nós duas.

– Quantos anos vocês tem?

– Eu tenho 16. – Maria respondeu. – E vocês?

– Eu tenho 18.

– E eu tenho 19. Vocês sempre vêm para esse acampamento? – Luiza perguntou. — Eu nunca vi vocês por aqui.

– É a segunda vez que eu venho aqui. A primeira vez que vim, eu tinha 13 anos. – Maria disse

– É a minha primeira vez. Nunca fui a um acampamento… – eu disse meio envergonhada

– Você vai amar aqui. Eu venho aqui desde os meus 15 anos. Isso aqui é a minha vida. — Luiza disse, animada.

Nossa conversa foi interrompida quando ouvimos um sinal tocar alto por todo o local. Luiza, que já sabia de tudo sobre esse acampamento, nos disse que era o sinal do café da manhã. Então fomos praticamente puxadas com animação por ela e acabamos por não segurar uma risada baixa. Segundo ponto positivo: minhas amigas de quarto pareciam legais. Acredite ou não, mas esse ponto é um dos mais importantes.

O refeitório era como o de minha escola: tinha várias mesas compridas com bancos e no fundo do refeitório tinha uma espécie de balcão onde as moças da cozinha serviam a comida. Quando chegamos, já estava cheio e quase não tinha mesa para nos sentarmos.

– Vão indo pegar o café da manhã de vocês que eu vou achar uma mesa para nós. – Luiza disse e saiu correndo. Agradeci mentalmente por ela já conhecer tudo por aqui.

Peguei o lanchinho mais mixuruca que eu já vi. Tinha ficado enjoada por conta da viagem. De repente, Luiza apareceu como um furacão chamando a gente. Essa garota era animada. Quase que a coitadinha da Maria não conseguiu pegar o seu café da manhã. Ficamos rindo desse acontecido e seguimos a louca da Luiza que já tinha pego seu lanche em questão de segundos. Quando percebi que ela estava levando a gente para um lugar fora do refeitório pensei alto:

– Agora sim minha teoria está comprovada: você é louca, garota! — falei rindo e as duas olharam para mim.

– Quem? Eu? — Luiza me olhou com cara de afetada. Afirmei com a cabeça gargalhando dela.

– Claro que é você, eu é que não seria! — Maria falou rindo mais ainda.

Quando chequei o lugar, encontrei algumas pessoas sentadas em toalhas grandes no chão. Parecia ser um lugar mais reservado, para os que realmente conheciam o local, ou algo assim. Seria mesmo bem mais legal comer aqui do que naquele refeitório sem graça. Enquanto andávamos, ouvimos alguém chamar a Luiza. Nós três nos viramos para procurar quem tinha sido. Dei de cara com um dos garotos que tinha ficado no mesmo quarto que o meu irmão. Na verdade, Beto estava bem ao lado dele, então fui andando em sua direção.

Roberto POV on

Meus novos companheiros de quarto eram demais. Eles tinham quase a mesma idade que eu e nós gostávamos das mesmas coisas. Fiquei pensando se Isadora tinha tido a mesma sorte.

Foi só pensar nela que a flor apareceu. Estava vindo com mais duas garotas ao mesmo lugar que eu estava com os caras.

Levantei para abraçá-la e perguntar como estava sobrevivendo sem mim. Todos olharam pra gente e eu percebi que ela ficou meio tímida, então resolvi apresentá-la logo ao pessoal:

– Então dudes, essa aqui é a minha irmã, Isadora, que eu falei pra vocês. Esses daqui são Wesley, Drew, Kyle, James e Keaton. — falei enquanto apontava para cada um deles.

Percebi que Wesley estava olhando diferente para ela. Como não sou muito ciumento, pensei ser qualquer coisa e deixei pra lá.

Todas as meninas resolveram sentar conosco e ficamos conversando sobre qualquer besteira.

Estávamos comentando sobre o fato do James ter trazido bebida escondido quando eu a vi. Não era possível. Não podia ser ela. Tinha que ser um sonho, ou melhor, um pesadelo. Por que ela estaria ali? Por que ela iria passar seus três meses de férias no meio do mato? Ela deveria estar na França ou qualquer outro lugar.

Bruna estava no mesmo lugar que eu. E ainda estava acompanhada. De repente, fui pro lado da Isa. Esses três meses nesse acampamento talvez não seriam tão bons como o esperado.

Quando virei para minha irmã, ela estava se levantando e indo abraçar o cara que estava ao lado da Bruna. Certo, agora era eu que não estava entendendo nada.

Isadora POV on

Estávamos conversando sobre qualquer coisa sem noção quando alguém chamou meu nome:

– Isadora! — eu me lembrava dessa voz, sabia que lembrava. Quando me virei, confirmei minha teoria: eu realmente conhecia a pessoa que estava me chamando.

– Kenny! Que coincidência, não acredito que você ainda se lembra de mim.

– Impossível esquecer, a Sophie só fala de você, dia e noite, noite e dia. Você foi realmente muito boa com ela. Acho que não tinha agradecido naquele dia, então obrigado.

– Que é isso…sua irmã é uma fofa mesmo. Mas então — virei para o pessoal — esse aqui é o Kenny. — ele já foi virando para alguns do meninos e falando algo como "você sumiu dude" "não acredito que estou te encontrando aqui… fez o que de errado pra mamãe querer se livrar de você?"

– Espera aí, vocês já se conhecem? – perguntei sem entender nada.

– Claro! Somos amigos de infância, só perdemos o contato. — dessa vez foi o Drew que se pronunciou na conversa. Olhei para o Beto e ele estava encarando, de forma estranha, a garota ao lado de Kenny. Como eu ainda não a tinha visto? Ela era muito bonita, típica beleza dessas garotas perfeitas que os homens babam. Magra, loira e com os olhos verdes. Cutuquei ele e falei baixinho:

– Cuidado pra não babar mano, e se liga que ela está acompanhada. — logo depois que eu falei isso, ele se levantou bufando e foi embora sem nenhuma explicação. Fiquei sem reação. O que tinha dado nele? Ninguém na mesa parecia ter prestado atenção, menos a própria garota que se levantou de onde estava sentada falando que ia ao banheiro e seguindo o mesmo caminho que ele. Aí tinha coisa e eu iria descobrir.

Quando me sentei no lugar do meu irmão percebi que praticamente todas as garotas que estavam naquele bendito lugar estavam olhando muito para o meu lado. Ou melhor, para a pessoa que se encontrava ao meu lado.

Sim, Wesley. Me lembrava de seu nome. Ele era realmente bonito. Já estava o olhando também como todas as outras, quando ele acabou virando para mim e olhando em meus olhos. Senti um arrepio na nuca e virei para a frente rapidamente. Não, Isadora, você não vai mesmo pensar nisso agora.

Terminamos de conversar e já estávamos voltando para os nossos quartos. Parece que teria alguma coisa diferente a noite. Algo como uma noite de boas-vindas, nomeado por Luiza como "noite mais chata" por ser a primeira noite e as pessoas ainda não se conhecerem muito bem. Chegamos no quarto e só pensei em me jogar na cama. Mandei uma mensagem para a minha avó falando que estava tudo bem e que qualquer coisa ela podia telefonar ou mandar mensagem. Estava pronta para dar um cochilo quando Maria falou:

– Podem ir levantando a bunda de vocês da cama. Quero as duas me ajudando a saber qual roupa vou usar hoje. Preciso, ou melhor, precisamos estar bem gatas para impressionar todo mundo, não acham?

– Uau! Quem é você e o que fez com a santinha que conhecemos há mais ou menos quatro horas atrás? — Luiza falou e nós gargalhamos.

– Aquela foi a Maria chata, essa aqui é a natural. — ela disse jogando o cabelo pra trás e indo atrás de sua mala. — Então, o que acham de um som alto pra animar um pouco as coisas por aqui? — agora sim eu estava me animando.

– Quem é você e o que… Ah, deixa pra lá! Gosto de vocês assim, vamos enlouquecer esse lugar, gatinhas! — Luiza disse.

A ocasião não pedia uma roupa chique e como eu acabei ficando ansiosa demais para a primeira noite, não quis ficar horas me arrumando. Escolhi um shorts branco básico, uma blusa com a bandeira da Inglaterra estampada, um chinelo e fiz uma maquiagem que não chamasse muito a atenção. Luiza colocou um vestido preto cheio de lantejoulas e uma sapatilha preta. Dava pra ver que ela era totalmente o contrário da minha pessoa. Maria também colocou um vestido, mas o dela era bem menos chamativo. Era um vestido bege, com um tipo de decote nas costas.

Na minha opinião, nós estávamos dignas de uma primeira noite, isso eu tinha certeza. Caminhamos até o local onde seria esse tal evento e nos deparamos com um palco enorme que eu, sinceramente, não tinha visto quando cheguei. Já estava começando a me perguntar se essa seria mesmo “a noite mais chata do acampamento”.

Avistei Beto, que estava com seus novos amigos, e resolvemos ficar com eles. Ficamos esperando até que todos os campistas chegassem para que começasse o que nem a Luiza sabia o que era.

Assim que todos chegaram, a monitora começou a falar:

– Bom noite pessoal, sejam todos bem-vindos. Espero que tenham gostado dos seus companheiros de quarto. Já posso ver amizades sendo formadas. Aos velhos campistas – Luiza me cutucou com o cotovelo, dando um sorrisinho – é um prazer ver todos vocês aqui novamente. Quanto aos novos campistas... eu prometo que vocês vão amar esse lugar. Além de três meses de diversão, você também pode encontrar amigos, explorar coisas novas e ter novas histórias para contar. Bom, chega de papo e vamos começar logo isso. Essa noite vai ser diferente. – ouvi várias pessoas sussurrando “aleluia” ou “obrigado” e dando alguns gritinhos, influênciando a monitora a continuar – Começaremos com um pequeno show de talentos, onde alguns campistas prepararam algumas coisas para mostrar à vocês.

Ouvimos mais alguns gritos de aprovação. Parece que estavam mesmo cansados da velha noite de boas-vindas.

– Se tivessem me avisado que ia ter esse show de talentos, eu me prepararia para chocar todos aqui com o meu talento. – Luiza falou com uma cara de brava, mas era óbvio que ela estava adorando tudo aquilo.

– E qual é o seu talento? – Maria perguntou, tentando parecer seria.

– Eu ainda não descobri, mas todos tem um talento, não tem? – nós rimos da cara que Luiza fez – Eu simplesmente adoro ser o centro das atenções, mesmo que seja por apenas alguns segundos.

– A gente meio que já percebeu isso, Luiza. – acho que pensei um pouco alto demais, mas ela levou na brincadeira e rimos novamente. Até os meninos, que não estavam na conversa, entraram com risadas.

Ouvimos a mulher no palco voltar a falar, anunciando o nome da primeira banda que subiria no palco. Para nossa surpresa, após alguns segundos, Wesley, Drew, Keaton, Kyle e até o Kenny foram andando em direção ao palco. Espera um pouco, então eles tinham uma banda?

– Whats up, acampamento Westmont? Eu sou o Drew e esses são Wesley, Keaton, Kenny e Kyle. É a nossa primeira vez nesse acampamento e posso dizer que já estou amando isso aqui. Bom, nós topamos cantar e tocar aqui pra vocês hoje porque isso é a nossa vida. Nós amamos fazer música e…

– E agora nós vamos tocar. – Wesley interrompeu- o, fazendo com que todos dessem risada da cara de decepção dele.

Os meninos fizeram o cover da música Santeria, que eu amava. Fiquei impressionada com o quão bom eles eram. As garotas gritavam e dava pra se entender o porquê só de olhar pra eles. Além do som, a beleza também contava muito. Para a minha surpresa, os garotos também estavam loucos. Eles realmente conseguiam agitar qualquer lugar e qualquer pessoa. Olhei para a Maria e para a Luiza e entramos na onda de todo mundo fazendo coração com as mãos e gritando muito. Os meninos chegaram a sorrir quando viram esses gestos e até gritaram algo como "E um eu te amo especial para as três meninas ali" quando o show acabou. Demos gritos como se já fossemos fãs a muito tempo e todos pareceram rir disso. Gritamos até nossas gargantas doerem. Beto olhava para a gente como se fossemos loucas, o que, pensando bem, nós éramos.

Os meninos terminaram de cantar e foram aplaudidos de pé pelos campistas, monitores, diretores e até os animais que pararam pra assistir. Eles agradeceram e saíram do palco.

– Caramba, vocês detonaram! – Luiza falou, dando pulinhos de alegria.

– Vocês são demais, ponto final. – eu disse, fazendo uma cara de metida.

– Vocês deviam ir para algum programa de talentos! – Maria disse.

– Dudes, porque vocês não me contaram que tinham uma banda? Vocês são fodas! – até Beto os elogiou.

Eles nos agradeceram, sentaram no mesmo banco em que nós estávamos e mais algumas pessoas se apresentaram. Algumas tinham talentos normais como dançar, cantar ou tocar algum instrumento. Outros tinham alguns talentos bem bizarros, o que deixou a noite mais divertida ainda. O tal show acabou, mais ou menos, duas horas da manhã, mas eu nem liguei, estava me divertindo como nunca. Eu não ria de verdade há algumas semanas, mas hoje, eu não estava querendo me preocupar com nada, queria mais era me divertir, eu merecia isso.

Eu e as garotas voltamos para o quarto falando tanta besteira que, se alguém nos visse, diria que estávamos bêbadas. Realmente tinha sido uma noite e tanto. Já fui tirando os chinelos, prendendo o cabelo e ligando o ar-condicionado. Quando deitamos, percebi que seria a hora do "vamos conversar sobre a noite". Ri com meu pensamento.

– Hoje foi mesmo ótimo! — Luiza falou caindo na cama teatralmente.

– Então precisamos mudar o termo "noite mais chata"?

– Com certeza temos! — Maria falou e foi pro banheiro tomar banho.

– Mas então, me diz …o que você achou dos meninos? — Luiza perguntou. Pronto, vai começar o assunto que eu, particularmente, não queria chegar.

– Ah, eles são muito bons! Adorei a música e…

– Não estou perguntando isso, você sabe.

– O que você quer que eu diga então? Não os conheci direito… — eu disse, enfiando a cara no travesseiro.

– E você não consegue me dizer que sente alguma atração por algum deles?

– Na verdade…

– MENINAS! Não tem água, o que eu faço agora? — Maria apareceu interrompendo a conversa.

– Não acredito nisso…só pode ser brincadeira viu! Vamos sortear quem vai atrás de algum monitor, certo? — Luiza falou e concordamos.

(...)

É óbvio que a sorteada fui eu. Bufei, saindo do quarto enquanto ouvia a risada das meninas. Quando cheguei no meio do caminho, me toquei que eu não tinha ideia de onde procurar por um monitor. Enquanto andava, ficava olhando para os lados pra ver se tinha alguém fora do quarto que poderia me ajudar. Foi só olhar para frente novamente que levei um susto. Não foi um susto ruim, daqueles que você grita e quer correr. Foi um susto do tipo "me acorda porque acho que um dos deuses veio falar comigo pessoalmente".

Menos, Isadora, menos.

Quando olhei para frente, a única pessoa que se encontrava naquele lugar, além de mim, era o Wesley. Me senti constrangida quando ouvi a voz dele.

– O que está fazendo, a essa hora, fora da cama, Beckham? — ele disse com um tom brincalhão. Quase não acreditei quando ele falou meu sobrenome.

– Está faltando água lá no meu dormitório, então eu ia…

– Você pode tomar banho lá no meu dormitório, se quiser. — ele falou e nós rimos do fato dele ter me interrompido para falar uma coisa dessas.

– Na verdade, seria bom se você me ajudasse a encontrar algum monitor nesse lugar.

– Sinto lhe informar senhorita, mas se você quiser mesmo tomar banho, vai ter que andar um pouco comigo porque o quarto mais próximo dos monitores é um pouco longe de onde estamos. — ele disse já começando a andar e me chamando com a mão. Eu já estava feliz por ter a chance de conversar e conhecê-lo melhor quando uns dos diretores apareceu e perguntou porque estávamos fora dos quartos. Droga, esse cara brotou do chão ou o que?

Depois de explicar o que tinha acontecido, ele falou que resolveria tudo e que Wesley poderia voltar para o lado dos meninos. Ele deu um suspiro e se despediu de mim com um beijo na bochecha. Me arrepiei com seu toque e se eu pudesse, tinha me fuzilado com os olhos por ter feito isso. Fiquei olhando-o ir embora e decidi que eu não queria sofrer por amor, já bastava. Tentei tirá-lo da minha cabeça e guiei o diretor até nosso dormitório.

(...)

O sinal tocou super cedo. Já acordei xingando alguma coisa e Luiza nem pareceu ligar, por ter acordado de muito bom humor.

– Bom dia, sol! Bom dia, quarto! Bom dia, meninas! Aconselho vocês a se levantarem logo porque hoje começa a diversão por aqui. — talvez essa animação dela fosse contagiante porque cheguei a ver a Maria abrindo um sorriso. Esse “poder” ainda não tinha chegado em mim porque o que eu queria não incluía sair da cama.

Ainda estávamos nos arrumando quando bateram na porta. Luiza, que incrivelmente já estava pronta, abriu a porta e logo entendemos o sorriso que estava estampado em seu rosto.

– Meninos! Já tão cedo por aqui?