Surrounded
2 Decision
Diversos pensamentos passaram pela minha cabeça enquanto eu lembrava daqueles momentos. As batalhas, as dificuldades, a realização e, mais profundamente, a dor. Tudo ainda vivo em minha memória.
Suspirei, sabia que todos que passaram por essa situação pensavam da mesma maneira. Só que é algo inevitável, apenas depois de receber o título de heroína eu percebi.
Não que no meu reino tivesse muitas garotas que realizaram feitos heroicos, mas eu também não era a primeira. Salvei o meu povo, recuperei a pedra sagrada, mas paguei um preço muito alto, alguém muito importante.
Fazendo um ano após aquele fatídico dia, eu ainda me martirizava. Sei que não havia nada a se fazer da forma como os fatos se desenvolveram. Contudo, a dúvida agoniava-me, pois eu poderia mudar isso tudo. Tudo.
Eu poderia voltar no tempo, tentar evitar isso, sacrificar-me se fosse o caso, mas o problema era muito pior. Não existiam garantias de que eu conseguiria realizar a mesma façanha, afinal, foi por pouco que tudo não deu errado. Chame-me de covarde se quiser.
Não aguentando mais a situação, resolvi ir a um curandeiro. Ele poderia ter a resposta para o meu problema. Por isso, respirei fundo e bati na porta a minha frente.
—Com licença — disse receosa, esperando uma resposta.
Depois de um tempo escutei uma voz resmungando e pés sendo arrastados, seguido do barulho de chave destrancando a porta.
— Desculpe o inco... — comecei, mas fui interrompida.
— Entre, entre. Você demorou demais — falou o velho curandeiro da vila.
Confusa, adentrei a pequena moradia sem dizer uma palavra. O cheiro de ervas rapidamente dominou o meu olfato e me senti afetada, zonza.
—Sente-se aqui — ele disse apontando para uma cadeira de fibras.
Ainda sobre o efeito das ervas, encaminhei-me ao referido lugar.
Enquanto eu analisava a pequena choupana em que eu me encontrava, ele mexia em vidros com conteúdos estranhos em uma prateleira próxima.
—Vamos pular a parte que eu já sei – disse sem olhar para mim — Então, o que decidiu? O que quer de mim?
— Como assim? — perguntei sem entender.
— Acha que não venho acompanhando suas preocupações desde a sua nomeação? — ele se virou, encarando-me com uma sobrancelha grossa levantada.
—Impossível — soltei, incrédula.
Ele largou o que estava fazendo e veio mancando em minha direção. Aproximou-se e, apontando ameaçadoramente um dedo enrugado em meu rosto, disse:
—Ainda dúvida depois de tudo o que fiz? Já não provei as minhas habilidades antes da sua missão suicida? Surpreende-me saber que só aquele moleque morreu.
Ao escutar aquilo, uma tristeza invadiu-me. Ele realmente se fora.
O curandeiro suspirou:
—Aquele garoto... Ele me irritava, mas era uma boa pessoa.
E após dizer isso, voltou a sua tarefa anterior.
— A poção estará pronta em um minuto. Já estava me preparando há um tempo, por isso não irá demorar. Vai querer voltar antes da batalha final ou para o início da jornada?
Diante dessa pergunta, apenas fixei meu olhar em um ponto e respondi, determinada:
— Não, só quero vê-lo e falar com ele mais uma vez.
Ele parou e virou-se, com uma expressão estupefata em seu rosto:
— Sabia que me surpreenderia, mas não esperava por isso — diminuindo a voz e com um brilho de curiosidade em seus olhos, perguntou: — No que está pensando?
—Não sei— admiti — Só queria algo que me permitisse conversar com ele novamente. Quero dizer, o espírito ou seja lá no que ele se transformou.
—Provavelmente numa mosca, já que incomodava como uma — o curandeiro sorriu com o próprio comentário — Mas o que pretende com isso ? Aliviar a sua culpa?
— Acho que sim — confessei.
— Não quer mesmo voltar ao passado?
—É muito perigoso. Tenho medo de não conseguir fazer tudo novamente.
—Mas era o seu melhor amigo — disse desafiadoramente, divertindo-se ao esperar uma vacilação minha.
— Já expressei a minha opinião. Caso não haja nada adequado ao meu pedido, vou me retirar — e fiz menção de me levantar, levantando minha voz devido a irritação.
O velho riu, batendo palmas mais surpreso ainda:
— Entendi, entendi. Não se preocupe, tenho algo perfeito para você.
— O que é? — questionei, ajeitando-me desconfortavelmente na cadeira novamente.
—Acho que irá gostar — ele disse enquanto jogava diversas substâncias em um caldeirão — Darei um pouco menos de um dia para você, sem precisar de muitos sacrifícios.
— Eu irei me comunicar com ele? — indaguei, não acreditando.
— Quem você pensa que eu sou? Um curandeiro amador? — falou sem olhar para mim, jogando mais coisas no caldeirão — Irá encontrar ele pessoalmente durante quase um dia.
Fiquei chocada:
—I-I-Isso é possível? Mesmo?
— Pare de me subestimar, mocinha.
— Mas as pessoas ficarão alvoroçadas se virem ele!
— É por isso que vocês não se encontrarão nesse mundo.
Fiquei mais confusa.
— Tecnicamente parecerá um sonho — completou — Nem sei ao certo como chegará lá, mas ele será convocado e irá se quiser. Seu corpo ficará aqui.
— Só a minha alma vai encontra-lo? — perguntei.
— Alma, consciência, chame do que quiser — ele deu de ombros.
Depois disso, esperei ansiosa enquanto o velho homem suava para fazer a poção, pronunciando algumas palavras estranhas de vez em quando.
Após um período que pareceu muito longo, o curandeiro exclamou feliz, colocando um pouco do líquido do caldeirão em um copo para mim.
— Obrigada — agradeci, pegando o copo — E me desculpe pelo inconveniente.
— Tudo bem — respondeu — Foi mais fácil que a fazer voltar no tempo. Agora beba, beba.
Observei o líquido azul petróleo que se encontrava no recipiente em minhas mãos; estava com medo.
—Se está com receio do meu trabalho, não há necessidade, sei o que faço.
—Não é isso. É que... — mas não completei.
Vendo a minha insegurança, ele respirou fundo e disse:
— O único conselho que dou é que fale tudo o que precisa, pois não terá uma segunda chance. Quando ele aceitar o convite, nada ficará em seu caminho.
Engoli em seco.
—Boa sorte —foi a última coisa que escutei antes tomar em um só gole aquele liquido viscoso, mergulhando em uma inconsciência profunda, sentindo um gosto amargo que eu não sabia ser da poção ou do meu medo.
Fale com o autor