Notas iniciais
Desculpe a demora, pessoal. Estávamos em época de prova...

A estrada se estende pela minha frente, não muito movimentada. Eu tinha ligado o rádio para me distrair um pouco, porém não funcionou muito bem. Penso em Aaron, que não queria que eu fosse reconhecida – o que implica não chamar a atenção e nem cometer deslizes. E aqui estou eu, no carro de um homem que eu tinha acabado de matar. O pior é que eu me senti bem ao matá-lo. No calor do momento, pelo menos, e isso vem martelando em minha cabeça. Era como se algo ruim tomasse conta de mim. Antes eu não era capaz de matar uma mosca, e agora eu mato pessoas? O que vai acontecer da próxima vez? Vou sair matando as pessoas que nem uma louca sádica? A possibilidade de ter uma próxima vez faz meu estômago dar voltas, e começo a ficar enjoada. Aperto mais ainda o volante, em uma tentativa de me manter firme. Tenho que esvaziar a cabeça, ou vou enlouquecer – se é que eu não enlouqueci ainda.

Depois de fugir do cativeiro, eu fiquei vagando pela floresta, buscando me esconder e relaxar um pouco, deixar a mente vazia. Foi um erro. Tudo que fiz foi me atrasar e tirar a vida de um homem. Argh, como sou burra! Eu quero chorar, mas eu já chorei tanto, que não há mais nenhuma lágrima para sair.

Desde que eu saí do cativeiro, há três dias, venho me segurando para não voltar para casa. Essa ideia vem me tentando a cada dia que passa e o buraco em meu peito, bem como a solidão, só aumenta.

Me deparo com uma estação de ônibus. Decido parar aqui e buscar por informações. Estaciono o carro e antes de sair, abro o porta-luvas a procura de algo útil. Acho um par de óculos escuros estilo aviador, a carteira do morto e alguns papéis de contas para pagar. Coloco os óculos, pego a carteira, levanto o capuz e saio do veículo. Ando de cabeça baixa, tentando ignorar o fato de eu estar usando o óculos de um defunto. Passo por uma lixeira e jogo a carteira de Joe Smith nela.

Decido comprar comida, então retiro algum dinheiro do bolso e vou até a lanchonete do outro lado da estrada. Compro água, sanduíches e bombons. Aproveito e peço informações ao simpático dono do lugar, que me fala sobre uma estação de trem na cidade de Salinas, que fica a mais ou menos uma hora de distância. Agradeço e corro de volta para o carro. Com toda a fome que estou sentindo, como os sanduíches e, em seguida, sigo pela estrada novamente.

*****

Finalmente chego em Salinas e descubro que é uma cidade bem pequena. Para chegar até a estação, vou seguindo as placas. Como não parei nenhuma vez para abastecer o tanque da caminhonete, quase que não consigo chegar a meu destino. Ao sair do carro, pego a mochila e, me certificando de que não esqueci de nada, fecho a porta. Como tinha anoitecido e a noite estava sem Lua, dispenso os óculos.

Para meu alívio, a estação não está cheia, já que passa das oito da noite. Compro a passagem para o trem que sai daqui a meia hora, sem ao menos olhar o destino direito. Me dirijo até o banheiro, que, como eu esperava, está vazio. Depois de fazer minhas necessidades e de ter trocado de roupa, jogo a chave do carro no balcão da pia e pondero sobre como me livrar dele. Como nenhuma ideia vem, lavo o rosto, na esperança que minha lucidez volte. Enxugo-o com um papel toalha e quando olho meu reflexo no espelho, vejo que tem um par de olhos azuis me encarando.

Solto um som esquisito, que devia ser um grito. Recuperando o fôlego, guincho:

– Você está louco? Quase me matou de susto!

– Por que está tão surpresa? Eu não disse que ia te achar? – Aaron diz, em um tom irritado. Noto um sotaque pesado o qual nunca tinha ouvido em sua voz antes, que provavelmente é do Reino Unido.

– Não em um banheiro feminino – falo, em um tom igualmente irritado.

– Bem, só tem você aqui, então não tem problema – rebate.

Minhas suspeitas de que ele é um louco acabam de ser confirmadas.

– Claro que tem problema! E se eu estivesse trocando de roupa?

– Isso não importa. O que realmente importa é que você não fez o que eu disse para fazer! Por que você não podia fazer uma coisa simples como passar despercebida e não fazer bagunça para eu arrumar?

– Bagunça pra você arrumar? Como assim? – fico confusa.

– Você matou um civil e ainda roubou o automóvel dele. Isso faz de você uma criminosa. Sua sorte é que a polícia pensa que é apenas algum ladrão miserável que furtou a caminhonete do pobre homem, que morreu na estrada devido a complicações de saúde – ele explica de modo ríspido.

Minha irritação só aumenta.

– Você acha que eu fiz de propósito? Que eu quis matá-lo por puro prazer? Sinto muito por te desapontar, Aaron, mas não faço o tipo psicopata.

– Thomas – ele diz, e minha irritação é vencida pelo quão mais confusa estou ficando.

– Ahn... O quê?

Ele deve perceber a confusão em meu rosto, porque sua postura relaxa um pouco e ele suspira.

– Thomas Walden. É meu nome. Aaron é o nome do infeliz que eu fingi ser – ele explica, com uma voz um pouco mais suave.

– Oh. Thomas, então – digo, abobalhada com seu belo sotaque – Eu não tive escolha. Aquele homem avançou em mim, e a coisa aconteceu. E eu não podia ficar parada lá naquele atalho com um cadáver!

Ele espreme os olhos, mas então fala:

– Faz parte do processo. Você já tem dezessete, certo?

– Sim, não faz muito tempo. Por quê? – franzo a testa.

– Parte do processo – ele reafirma, mais pra si mesmo do que pra mim.

Um calafrio percorre meu corpo. Não estou gostando nada disso. Afinal, que processo seria esse? Mas antes que eu possa perguntar qualquer coisa, ele pega a chave da caminhonete e a joga na lixeira, seguindo para fora do banheiro.

– Siga-me – ele exige por cima do ombro, quando percebe que permaneço parada.

E é isso que eu faço. Noto que ele está indo para o estacionamento.

– A gente tem que pegar o trem, por que você está indo para o estacionamento? – pergunto, correndo atrás dele para poder alcançar seu passo.

– Nós não vamos pegar o trem. A propósito, você também não fez o que eu te pedi quanto a que direção você deve seguir.

– Fiz, sim.

– Não fez não. Eu te disse para seguir para o sul e depois para o leste. E você comprou uma passagem para Seattle, que fica no norte. Esta estação só tem uma linha.

– Ah. Eu não vi qual era o destino do trem, só pedi pelo próximo que sairia. Desculpe, não me lembrei dessas suas instruções.

– Tudo bem. Agora, vamos. Precisamos nos afastar o máximo daqui antes do amanhecer.

– Por que antes do amanhecer?

– Porque Max e Benjamin estão atrás de você. Mas não se preocupe, eles ainda estão bem distantes de nós. E eles não são tão bons caçadores quanto eu. Mas não vamos arriscar.

– Você é realmente bem humilde – resmungo e ele sorri.

Chegamos a um carro: uma BMW X1 preta. Pude reconhecer o modelo logo que bati meus olhos nela – meu pai era um amante de carros, e sempre levava David e eu para feiras de automóveis. De repente, uma pensamento me faz parar antes de entrar no carro.

– Que foi? – Aaron... Quer dizer, Thomas pergunta, com olhos curiosos.

– A caminhonete de Joe Smith. Está do outro lado do estacionamento e... – eu a busco com o olhar e não a acho, enquanto ele me observa com um olhar confuso.

– Ah! O carro do defunto. Relaxe, eu já cuidei dele – diz ele, impaciente – Agora, vamos logo, entre no carro.

Ao invés de entrar, fico parada onde estou.

– Quando você planeja me contar o que diabos está acontecendo? Eu sei que você me ajudou e tudo mais, mas não vou segui-lo às cegas.

– Vai sim, se quiser continuar livre daqueles loucos. Aposto que você não comeu e nem dormiu muita coisa desde que fugiu. Então, depois de encontrarmos um lugar para você descansar e comer algo... Quem sabe eu não te conto?

Apesar de não estar cem porcento satisfeita com sua resposta, sento-me no confortável banco de carona e ele dá partida no carro.

*****

Depois de algumas horas na rodovia e de um silêncio estranho, eu não me aguento e decido perguntar:

– Onde você arrumou esse carro?

– Eu roubei – ele fala isso tão naturalmente que acho que é brincadeira.

– É sério, como você o conseguiu?

– Eu estou falando sério. Eu o roubei.

Decido não fazer, no momento, as outras perguntas que estão martelando em minha cabeça e me aconchego no banco para tentar dormir.

*****

Eu estou de novo na entrada do bosque onde tudo começou a dar errado. Mas, dessa vez, o corpo no chão não era o de David ou o de Josh, mas o da minha mãe. Outra coisa também estava diferente: alguém estava ajoelhado ao lado dela.

Me aproximo para ver quem é e a pessoa levanta a cabeça. Thomas me olha como ninguém antes tinha me olhado, um olhar cheio de nojo e ódio.

– Você é um monstro. Olha só que fez com sua mãe!

Lágrimas brotam em meus olhos, e o nó em minha garganta me impede de gritar.

– Quem já se viu fazer isso com a própria mãe? Repudio pessoas que nem você. Não é à toa que sua mãe biológica te abandonou. Pobre Sra. Geller. Ela não sabia que você era um monstro, e olhe só o que aconteceu com ela...

Ele aponta para o corpo sem vida da minha mãe.

– Por favor, Thomas, não diga isso!

– Você é uma aberração, um mostro, Diana, e deve ser contida – ele fala e puxa uma arma, apontando-a para mim.

O gatilho é apertado, mas antes que a bala me atinja, alguém me sacode e eu acordo ofegante e suada. Thomas está com as mãos firmes em meus ombros, e seu olhar varre meu rosto, preocupado.

– Está tudo bem agora – ele fala calmamente, e então percebo que lágrimas escorrem pelo meu rosto – Foi apenas um pesadelo.

Não consigo controlar o rio de lágrimas e choro de tal forma que começo a soluçar. Ele suspira e coloca meu rosto em seu peito e dá tapinhas em minhas costas, ficando com o queixo apoiado em minha cabeça.

– Foi apenas um sonho, tudo vai ficar bem – ele repete em um tom baixo, como se eu fosse um animal selvagem que ele não quisesse espantar.

Me censuro mentalmente por agir como uma chorona. Eu nunca fui assim, o que está acontecendo comigo? Noto sua posição, que é estranha e provavelmente meio desconfortável – visto que ele estava no banco do motorista e eu no de carona – e ele tem que se esticar para poder me alcançar, então me afasto. Logo que levanto a cabeça, percebo que o carro está parado em um posto. Ele segue o meu olhar e explica:

– Eu parei para comprar comida. Você estava num sono tão pesado que não quis acordá-la. Não imaginei que fosse ter pesadelos. Mas, e aí? Você está com fome? – ele estende uma sacola para mim, que exala um cheiro maravilhoso.

– Estou faminta! – arranco a sacola de suas mãos e a abro.

O creme de legumes com frango estava delicioso, assim como a lasanha. Bebo o suco de laranja em um gole só. Thomas me observava, com uma expressão divertida.

– Puxa, parece até que você passou meses sem se alimentar – ele debocha

– A comida que vocês faziam para mim não era exatamente das melhores – digo, na defensiva. Percebendo que ele não comeu nada, pergunto – Você não vai comer?

Ele nega com a cabeça, com um sorriso nos lábios.

– Vamos indo – diz, depois de algum tempo – Temos que providenciar um local decente para você dormir – e então volta para a estrada.

Depois de um tempo, ele para em um hotel na beira de estrada chamado Orwell Motel. Descemos do carro e eu o sigo até a recepção, onde uma senhora de cabelos grisalhos lê um livro, atrás do balcão. Ao nos ver, fecha o livro e abre um sorriso.

– Boa noite. Em que posso ajudá-los?

– Boa noite. Eu queria saber se seu melhor quarto está vago – Thomas responde.

Espera aí. Um quarto? Pensei que seriam dois! A ideia de dividir um quarto com ele faz meu estômago dar voltas. Ele provavelmente não quer arriscar que alguém me leve no meio da noite, mas mesmo assim...

– Ah, deixe-me ver... – depois de digitar algo no computador, o sorriso dela amplia – Está, sim.

Ela entrega a chave do quarto de número 221 e alguns papéis, que Thomas preenche. Ela se vira para mim e pergunta:

– Faz quanto tempo que vocês estão juntos?

Quê? Essa senhora pensa que somos um casal? Coro violentamente com a ideia. Caras como ele não saem com garotas como eu. Estou prestes a gaguejar uma resposta quando, na maior cara de pau, ele responde:

– Um ano e sete meses. Nos casamos no fim de semana passado – ele dá um sorriso brilhante e envolve minha cintura com o braço.

– Ah! Que lindo. Vocês estão com muita sorte, então, porque essa suíte que acabei de lhe dar é coincidentemente a nossa suíte nupcial.

– Mas que sorte a nossa. Vamos, querida, eu quero aproveitar essa sorte – assim que ele fala isso, mostrando um sorriso malicioso para a senhora, sinto minhas bochechas queimarem mais ainda, de tanta vergonha.

Quando nos afastamos do balcão de atendimento e chegamos a um corredor vazio, me recomponho e crio coragem para finalmente falar algo.

– Recém-casados? E querida? – pergunto, arqueando uma sobrancelha.

– Sabe, Diana, existe algo chamado de senso de humor. Você devia experimentá-lo algum dia – o jeito como ele diz meu nome e o sorriso convencido em seus lábios fazem um arrepio percorrer meu corpo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! :D Não sejam leitores fantasmas, comentem!