Surrender
6 Faces da verdade
Notas iniciais
Há horas que estou acordada. Tentei dormir, mas todas as vezes em que fechei os olhos, a imagem da minha mãe me vinha à cabeça. Eu estou esparramada na cama de casal, enquanto Thomas dorme no chão – ele insistira que eu devia dormir na cama, já que estava exausta. O problema é que os pesadelos são uma ameaça à minha paz. Pude ver, no relógio de cabeceira, as horas: três da manhã. Droga, vou estar um caco quando acordar. Me viro para o outro lado e posso ver Thomas dormindo. Seu rosto estava sereno e, como sempre, muito bonito.
Meu olhar se prende em seus lábios, um tanto tentadores. Fico tentada a tocá-los, mas decido que é melhor não. Para que eu não acabe fazendo uma besteira, desvio o olhar e fito a parede, lembrando de quando nós entramos no quarto e vimos a forma como ele estava arrumado. Eu fiquei em choque, mas Thomas caiu na gargalhada.
– Definitivamente, uma suíte nupcial – ele dissera, rindo.
O quarto tem paredes vermelhas, já um tanto desbotadas, contrastando com a cama de lençóis brancos, que têm bordado em vermelho os dizeres: "Seu primeiro ninho do amor". A coisa toda podia ser mais brega? O constrangimento foi ainda maior quando abri a gaveta do móvel de cabeceira e encontrei uma Bíblia ao lado de uma lingerie velha. Que nojo!
– Não podíamos ter ficado em algum outro quarto? – eu tinha perguntado, examinando a peça de roupa íntima com uma careta.
– Qual é, Diana? Não é assim tão ruim – ele tinha dito, ligando a TV.
Suspiro. Ele ainda não me contou o que está acontecendo, e isso me deixa frustrada. Bufo e decido ler uma revista de viagens que achei em uma outra gaveta. Ligo o abajur e fico folheando as páginas, vendo as fotos das paisagens e admirando o trabalho dos fotógrafos. Em algum momento, me rendo ao sono. E, pela primeira vez depois de muito tempo, não tenho pesadelos.
*****
Acordo com o barulho do rádio do despertador tocando "Heat of the Moment". Por um momento, penso que estou em casa, e que meu pai em breve vai vir se certificar que eu acordei. Afinal, o sr. Geller não aceita atrasos. Mas então sinto que o travesseiro e a cama são duros demais, diferente do que estava acostumada. É claro que não estou em casa e sei que não voltarei lá nem tão cedo. Esse pensamento me deprime.
Quando abro os olhos e vejo a hora no relógio, afundo o rosto no travesseiro. 7:30 da manhã! Argh! Isso não é hora de acordar uma pessoa.
Escuto a porta abrir e levanto a cabeça, assustada.
– Calma, princesa, sou só eu – disse Thomas, enquanto entrava no quarto com duas sacolas nas mãos, sendo uma delas, como reconheço, a que carrega as roupas que ele levou para lavar.
– Primeiro, meu nome não é princesa. É Diana. Segundo, o que é isso que você tem aí nessa sacola? – pergunto, já levantando da cama. Definitivamente acordar cedo não ajuda no meu humor.
Quando já estou de pé, me lembro que não estou usando calças, e puxo o lençol para me cobrir.
– Belas pernas, princesa – ele diz com um sorriso sarcástico que me faz corar – Mas, voltando ao que interessa, o que tem aqui é comida.
– Ainda bem! Estou faminta. Passa essa sacola para cá – falo, estendendo a mão.
Thomas senta-se na cadeira que está encostada na parede oposta da cama e fala com um sorrisinho:
– Eu estou muito cansado. Acho melhor você vir aqui buscar.
– Ridículo – levanto, enrolada no lençol, e vou atrás da sacola.
Sento do outro lado da mesinha, esperando que ele me passe a comida. Enquanto Thomas coloca as coisas sobre ela, decido fazer a mesma pergunta pela milésima vez.
– Quando você pretende me explicar o que está acontecendo?
– Assim que a gente terminar de comer – ele responde, sem desviar os olhos do que está fazendo.
Quando ele me entrega a minha parte do café da manhã, começo a comer o mais rápido que consigo. Antes de ele terminar metade de sua refeição, eu termino com a minha e fico encarando-o.
– Ficar me olhando, parecendo com uma louca, não vai me fazer comer mais rápido – ele avisa – Relaxe aí.
Reviro os olhos. Percebo que Thomas pode ser bastante irritante quando quer. Ele faz o tipo de garoto que gosta de fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis, tudo para seu divertimento. Esse é o tipo de cara que faz Chelsea se derreter toda por ele. Já eu sempre mantive distância de garotos assim. Mas Thomas é gato. Bem gato. Isso eu não poderia deixar passar. Estava vestindo um blusa branca, jeans e tênis. Seus cabelos escuros estavam um pouco desgrenhados e seus olhos estavam brilhantes. Não aparentava estar cansado, e isso me faz sentir mal, porque não devo estar com metade da boa aparência que ele está. Eu não havia olhado meu reflexo ainda, mas também nem precisava, tenho certeza que meus olhos estão inchados e que meu cabelo deve estar um ninho de ratos.
– Você está dormindo com os olhos abertos? – ele pergunta, balançando a mão em frente a meu rosto.
Isso só faz confirmar minhas suspeitas de que eu estava com uma aparência horrível. Faço uma careta, e então percebo que ele já tinha acabado de comer.
– E então... – eu comecei.
– Vamos lá – resmunga – Pode começar com o interrogatório.
– Quem é você? De onde você veio? – decido começar pelas perguntas mais simples.
– Thomas Walden. Pensei que eu tinha deixado isso claro há um tempo atrás. Sou da Escócia, mas atualmente moro na Inglaterra.
Então ele é escocês. Isso explicava seu sotaque pesado. Percebo que ele conseguiu escondê-lo perfeitamente enquanto eu estive em cativeiro.
– Certo. E por que você está tão longe de casa?
– Sua mãe biológica me enviou – diz, sem rodeios.
O ar foge de mim. Minha mãe biológica? Meus pensamentos começam a ficar confusos e tudo começa a girar a meu redor.
– P-por que ela faria isso? – consigo dizer, depois de superar o choque.
– Para se certificar que pessoas como Benjamin e Max não levassem você para ele.
– Era por isso que eles estavam atrás de mim? Quem é esse ele, afinal? E por que ele iria me querer?
– Sim, era por isso que eles lhe queriam. Seu dom aparentemente é de grande utilidade para Viktor Graham, o ele que mandou seus homens para pegá-la. Viktor, pelo que se sabe, tem planos para você. Tive que fingir ser Aaron, um dos empregados de um dos seus aliados que vive aqui na América, para que pudesse saber um pouco mais sobre seus planos e me infiltrar nessa missão.
Dom? Ele realmente acha que o que eu tenho é um dom? Thomas realmente não bate bem da cabeça. Decido não gastar minha saliva com essa questão no momento. Então rumo para outra, que me deixava ainda mais confusa:
– Eu não entendo. Por que ela iria querer me proteger, se me abandonou?
– Elizabeth fez isso numa tentativa de te proteger. Fugiu da Inglaterra grávida, com o objetivo de terminar sua gestação longe de Viktor. Ela veio mais especificamente para...
– Chicago – eu o interrompo, com um tom azedo. Fora lá que fui deixada em um orfanato, com poucos dias de vida.
– Se te consola, foi bastante difícil para ela. Mas o medo pelo que podia acontecer a você era maior. Elizabeth te ama demais para deixar que Viktor te pegue. Ela não teve escolha. Ficou em Chicago até se certificar que você fosse adotada por uma família decente. Ao voltar para casa, falou que você não tinha resistido e sofreu muito durante meses por ter te perdido. Na verdade, ela sofre por isso até hoje. Mas, recentemente, a verdade foi descoberta e Viktor começou a te procurar.
– Ela se chama Elizabeth? – pergunto devagar, ainda absorvendo tudo que ele me disse. E Thomas balança a cabeça em concordância.
Por muito tempo eu quis saber sobre minha progenitora, sempre imaginando mil coisas sobre o motivo de ela ter me deixado. Gravidez indesejada? Gravidez na adolescência? Falta de condições financeiras? Esses eram os meus palpites, e sempre fui ávida para saber a verdade. Agora que descobri, não sei como lidar com todo esse conhecimento e desconhecimento ao mesmo tempo.
– Como esse tal Viktor sabia da minha habilidade, se eu não tinha sequer nascido?
– Todos sabiam que você tinha um dom – ele fala de um jeito que deixa claro que eu não devia perguntar mais sobre essa questão.
– E por que minha mãe mandou apenas você? – tento mudar de assunto.
– Porque sou bom. Mais que o suficiente para lidar com aqueles idiotas – responde, com orgulho estampado em sua voz.
Lá vem Thomas com sua humildade.
– Você não é muito velho – observo.
Uma expressão de indignação surge em seu rosto.
– Tenho vinte anos. Já é o suficiente – diz, secamente.
– Só isso? – indago, um tanto surpresa. Tudo bem que vinte anos é uma idade maior que a minha... Mas eu imaginava, pelo modo como ele se comporta, que ele devia ter, no mínimo, uns vinte e três.
– É, só isso – ele diz, sem expressar muito o que sente. Como sempre. De verdade, esse cara não é dos mais fáceis de interpretar – Na profissão que sigo, nós começamos a nos preparar muito cedo, com uns dez anos. Embora eu realmente seja mais novo que meus colegas.
– Que profissão? – pergunto, aproveitando a minha chance de saber mais sobre ele.
– Proteger as pessoas de algo que, se eu tentar explicar agora, vai te enlouquecer. É muita informação para um dia só. Então o interrogatório acabou por hoje. Vá se arrumar, porque temos que ir embora – ele disse, já se levantando e indo em direção a porta.
– Espera, eu tenho uma última pergunta – falo, alcançando seu braço para tentar pará-lo.
No momento em que o toco, sinto algo percorrer meu braço, algo que se assemelha com um choque. Mas não dói, muito pelo contrário: é uma sensação boa. Arregalo os olhos, encarando minha mão em seu braço, e logo o soltando.
– Você também sentiu isso? – pergunto, já me arrependendo por ter aberto a boca.
– Isso o quê?
– Essa coisa, como se fosse um choque.
– Não. Era isso que você queria perguntar? – ele indaga, franzindo o cenho.
Claro que ele não sentiu. Argh, como sou estúpida! Não é porque eu sou atraída por Thomas, que ele necessariamente vai ser atraído por mim. Decido deixar o que aconteceu há poucos segundos de lado.
– Não, não – me apresso a dizer, antes que ele saia – Eu só queria saber para onde nós estamos indo agora.
– Ah! Certo, estamos indo para a costa leste, o mais longe possível de Max e Benjamin. Por mais que eu seja melhor que eles, vão acabar conseguindo nos achar se ficarmos aqui – fala, sentando na cama, aparentemente desistindo de sair do quarto.
Ainda enrolada no lençol, pego roupas limpas que Thomas tinha providenciado – roupas íntimas, uma regata simples e jeans. Me arrasto até o banheiro e ao trancar a porta, viro para o espelho. Um gemido escapa da minha boca. Grandes bolsas arroxeadas se encontravam abaixo dos meus olhos. Eu realmente preciso pôr meu sono em dia.
Tomo um banho quente e demorado. Minha mente está um caos, por isso tento esvaziá-la, evitando pensar muito. Depois de me vestir e escovar os dentes, saio do banheiro e encontro Thomas assistindo alguma novela mexicana. Como não sei falar espanhol, não entendo o que está acontecendo. Só sei que os atores estão berrando.
– Mas que merda é essa? – pergunto, colocando o tênis.
– Ah, a mulher invadiu o quarto da menina e a empurrou da cadeira de rodas. E ainda bateu na empregada – ele explica com naturalidade, como se visse isso todo dia.
– Não acredito que você gosta de assistir isso – resmungo, e ele sorri.
– Eu não gosto. Apenas não acredito... – o barulho do telefone tocando o interrompe – Você pode atender? – pede, sem olhar para mim.
Tiro o telefone do gancho.
– Alô?
– Sra. Pierce? – no momento em que ouço esse nome, estranho. Mas logo lembro que foi esse nome que Thomas deu na recepção.
– Sim?
– Bom dia, querida – posso reconhecer a voz simpática da senhora que nos atendeu quando chegamos – Estou ligando para avisar que vocês têm visitas.
– Visitas?! – quando falo isso, Thomas vira-se de costas para a TV, me encarando, e murmura "viva-voz" baixinho. Eu o obedeço e a mulher responde:
– Sim, eles disseram ser seu pai e tio, e que vieram trazer uns documentos importantes que vocês esqueceram. Eu disse para eles esperarem, já que sei que vocês podiam estar desfrutando da sua... privacidade – meus olhos se encontram com os de Thomas e eu coro – Mas vocês querem que eu mande eles irem até aí?
Sem me dar tempo de responder, Thomas fala:
– Não! Diga a eles que já descemos. Muito obrigado – sem esperar uma resposta, ele desliga o telefone e começa a juntar as coisas – Precisamos arrumar tudo depressa. Droga! Eles estão aqui.
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