Notas iniciais
Olá, leitores, é domingo e, como combinado, aqui está o capítulo. Espero que gostem e comentem. Boa leitura!

Os músculos rígidos e tensos dele finalmente me despertaram. Afastei-me imediatamente, total e definitivamente sem graça. Há oito anos que não me aproximava dele fisicamente e sentir seu perfume másculo tão perto, mesmo no estado de total euforia e alívio que eu me encontrava, mexeu com sentimentos há muito adormecidos, que eu fizera questão de evitar por todo o tempo que estive longe dele.

– Me perdoe, Sasuke, eu... – olho para todos os lados, menos para ele. Não quero encontrar aqueles olhos negros e frios, não agora. – Ino! – corro até ela que me observava o tempo todo e a abraço apertado. – Sasuke é compatível com Daisuke! Eles são compatíveis! Sua cretina, você tinha razão!

Ela pula e eu a acompanho. Somos duas idiotas gritando e sorrindo no corredor da ala pediátrica para crianças com câncer, sem ligar para o amanhã. O que importa é que eles são compatíveis.

– Eu disse, sua testuda teimosa! Devia me ouvir mais, sempre tenho razão, quando é que você vai aprender?

– Ah, cale a boca, sua porca convencida!

Não consigo parar de sorrir. Depois de tanto tempo no escuro, sem expectativas, finalmente, sinto esperança. E senti-la é incrível. É como uma chama, ela é pequena, mas intensa. Toma conta de todo o meu corpo e pensamentos.

Ás vezes, a vida é boa. Ás vezes, milagres acontecem.

Olho para Sasuke, pronta para explicar-lhe o procedimento para o transplante, porém, há algo em seu olhar que me deixa intrigada. Como sempre.

– Me deixe ver os exames.

Entrego-os para ele confusa. Vejo que minhas mãos ainda tremem.

Ele analisa os papéis, vejo o homem de negócios tomar sua face. Lembro das noites que o observava trabalhar até tarde, sem camisa, com a mesma expressão compenetrada. Ele lê o resultado dos exames com calma e há algo ali que, percebo, o faz arquear as sobrancelhas quase imperceptivelmente.

Ele termina e me entrega o envelope com os exames calmamente. Sinto um arrepio que percorre todo o meu corpo. Há mais.

– Sakura, Sakura. – os olhos negros são felinos, e, maldição, o sorrisinho, aquele que tanto temo contorna seus lábios sedutores. A voz rouca é letal. – Eu disse que faria o exame, não o transplante.

Meu corpo inteiro fica frio. Meu sorriso morre imediatamente. A rigidez costumeira retorna a minha face. A pequena chama padece, pergunto-me onde foi parar toda a esperança.

– O quê? – minha voz sai sufocada. Não posso admitir... Seria cruel demais, até para ele.

Ele sorri mais, deliciado com meu desespero. Começo a sentir um calor, é ainda mais forte que meu repentino sentimento de esperança soterrado pela crueldade de Uchiha Sasuke. É raiva e ela é acida e turva-me a visão.

Cretino, filho da puta prepotente!

Minha mente procura uma solução. Deus, vou amarrá-lo e tirar a medula óssea a força. Vou pedir para que façam o transplante ser doloroso. E depois que eu conseguir, eu vou matá-lo. Estou farta de Sasuke. Definitiva e permanentemente farta.

– Tenho uma condição. – ele volta a ficar sério.

– É claro que você tem, seu merdinha egoísta... – não consigo me controlar. Minha pulsação vibra em meus ouvidos e vou para cima dele. Dane-se que eu estou em um hospital , dane-se as crianças que me observam assustadas, quero quebrar aqueles dentes perfeitos e deformar aquela pele suave recém barbeada.

– Sakura! – sinto Ino me segurar. Mas ela não é páreo, anos de treinamento não foram feitos para eu ser impedida pelos braços frágeis da minha melhor amiga.

Estou pronta para socá-lo, entretanto, como sempre, Sasuke é mais rápido e me imobiliza imediatamente. Estou ofegante. Sinto seu peito forte pressionar as minhas costas e meus braços estão firmemente presos em um enlace intransponível.

– Seu cretino, ele é seu filho, como você pode ser tão cruel? – grito revoltada. Não me importo com a cena armada.

Sinto seus lábios aproximarem-se de minha orelha esquerda. Seu hálito quente me enoja. Quero socá-lo, quero muito socá-lo.

– Quero conhecê-lo. – sua voz rouca é baixa. Os cabelos próximos a minha nuca se eriçam. Paro de me debater. – É minha condição. Quero que ele saiba que eu sou o pai dele. Antes de eu começar os procedimentos para o transplante.

Estou surpresa. Onde foi parar o homem que não queria ouvir falar de filhos?

Nunca quis que Daisuke conhecesse Sasuke. Meu filho, para sua própria segurança, tinha que ficar longe da poderosa e maquiavélica família Uchiha. Aquele clã de criminosos farsantes dissimulados eram perigosos e influentes demais, não queria que ele se envolvesse com aquele bando de cobras venenosas de nariz empinado.

Mas ignorando meus desejos, eu tinha de apresentá-los um ao outro. Afinal, eu não podia tirar a medula óssea de Sasuke sem o seu consentimento.

– Tudo bem. – respiro fundo. – Agora me solte.

Ele o faz imediatamente, soltando-me tão rápido com se eu possuísse uma doença contagiosa.

Viro e, com força e perfeição, desfiro-lhe um tapa no rosto impassível. A cabeça dele movimenta-se um pouco com o meu golpe agressivo e, claramente, inesperado.

– Isso é para você não fazer mais joguinhos comigo para ver minha reação, Uchiha. – vejo a pele, antes pálida, avermelhar-se lentamente com os sinais dos meus dedos tatuados na superfície. – O bem estar do meu filho não está em jogo. A vida dele não é um recurso seu para chantagens. Esse transplante é essencial para o tratamento dele, não é mais um dos seus negócios de barganha. – suspiro, sentindo-me, de repente, muito cansada. – Achei que depois de tanto tempo você pudesse ter mudado. Me enganei. Você não é alguém merecedor de nenhuma esperança. – viro-me e começo a caminhar, ignorando todos os olhares direcionados a mim. – Você vai conhecê-lo, mas juro que se você o machucar eu vou até o inferno para fazer você aprender o que acontece quando mexem com as pessoas que eu amo.

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– Você vai permitir que ele conheça Daisuke, de verdade?

– Sim, Ino. – suspiro, estou tão infeliz com essa decisão quanto ela. – Eu terei que permitir. Foi a condição dele para fazer o transplante.

Ela levanta da cadeira contrariada. Está com raiva. Esse é apenas um dos efeitos de Uchiha Sasuke nas pessoas.

– Ele é um cretino, Sakura. Um cretino!

– Sim ele é.

Gaara se mexe no sofá onde está sentado com cuidado para não acordar a filha que está com a cabeça apoiada em sua perna. Estamos no quarto de Daisuke. Ele ainda dorme, mas sei que não tardará para ele despertar.

– Já parou para pensar em como Daisuke vai reagir ao conhecê-lo? – ele faz a pergunta para a qual eu não tenho a mínima ideia da resposta.

Balanço a cabeça negando.

– Não tenho ideia do que se passa nessa cabecinha. – respondo depois de um tempo olhando para o meu filho. – Ele só perguntou uma vez pelo pai, vocês sabem. Não sei como ele vai reagir, bem, ele pode ficar furioso.

– Fortes emoções não...

– Eu sei, Ino. Mas é ele conhecer Sasuke, corrermos o risco e termos um transplante que pode salvar a vida do nosso menino ou nada.

Certas vezes Ino me irrita. Sei que ela ama meu filho como se fosse dela também. Sei que ela se preocupa. Mas ás vezes... Ela acha que não sei de cor todo o tratamento de Daisuke. Ás vezes, ela acha que eu sou uma criança. O que é uma ironia, é claro, já que quem sempre teve que dar uma lição de moral nela fui eu.

Seguro a pequena mão de Daisuke. São as mãos de Sasuke em miniatura. Os dedos longos, magros e pálidos. Rezo todos os dias para que aquelas mãos cresçam e se transformem nas mãos de um homem forte e sadio.

Na verdade, meu filho por inteiro é um mini Uchiha Sasuke. Tento imaginar Sasuke criança, sem toda a malícia, luxúria, frieza e maldade. Mas parece impossível. Poucas vezes o vi sorrindo verdadeiramente, sem aquele sarcasmo característico de seus discretos sorrisos de segundas e terceiras intenções. Lembro-me que quando ele me mostrava aqueles raros sorrisos minhas pernas tremiam e eu tinha que conter o impulso insano de dizer que o amava. Nunca disse essas palavras. Eu te amo. Amo você. Para nenhum homem que me relacionei. Muito menos para Sasuke. Teve vezes que achei que ele esperasse algo assim de mim. Sasuke estava acostumado com as mulheres apaixonadas por ele se jogando aos seus pés. O fato de eu quase nunca demonstrar isso o deixava possesso para me fazer implorar. Deixava-o cheio de tesão. Para ele, eu havia me tornado um desafio. Ele apenas queria quebrar as barreiras impostas por mim mesma. O que, no fim, acabava em seções de sexo ardente, onde cada toque, cada estocada, era um bálsamo para aliviar o desejo que corroia a ambos. Um desejo simples e loucamente insaciável. O sexo era incrível e acabamos por ficar dependentes do corpo um do outro, dos toques um do outro. Nossa relação começou sendo unicamente física. Depois da primeira noite que transamos naquela mansão estranha, que depois descobri ser de Nara Shikamaru, nós definitivamente não conseguíamos nos controlar quando nos encontrávamos. Transávamos como dois coelhos. Aquela nossa estranha e excitante relação gerava piadas inapropriadas de Ino e um extremo sentimento desgostoso de Hinata. Ela não conseguia aceitar a presença de Sasuke em minha vida. Mas ela nunca dizia o por quê. O que me deixava extremamente irritada. Fiquei impressionada quando, certa vez, a delicada e tímida Hinata disse que aquela porra ia dar merda. Ino e eu quase deixamos nossos olhos cair de tão surpresas que ficamos com o novo linguajar da nossa amiga. Mas, infelizmente, Hinata tinha razão. No fim tudo virou merda. Depois que descobri quem realmente era Uchiha Sasuke, as coisas começaram a desandar, como sorvete em um dia quente de verão. O processo foi rápido. Desgastante. E ainda sinto raiva e saudade quando lembro de Hinata dizendo... Eu avisei!

Os dedos pequenos e frágeis que seguro entre meus dedos se fecham em torno da minha mão. Um sorriso automático se expande em meus lábios.

– Ei, dorminhoco, até que enfim acordou. – falo analisando seus olhos brilharem ao me ver. Encontro forças e seguro minhas lágrimas. Jamais conseguiria sobreviver sem ver aquele brilho. Aperto sua mão de volta. – E, aí, como você está, campeão?

Ele fecha os olhos se auto examinando.

Seus orbes negros mostram-se novamente para mim. Kami, como amo o brilho que encontro naquele olhar.

– Firme e forte.

Eu rio e Ino e Gaara me acompanham.

– Está se sentindo enjoado? – Ino pergunta casualmente.

– Não.

Suspiro. Sei que ele está mentindo. Ele acabou de fazer aquela coisa com a sobrancelha.

– Daisuke... Lembra o que falamos sobre você nos contar tudo o que está sentindo?

Olho para Ino e ela vai procurar a enfermeira. Ela sabe exatamente o que fazer. Somos uma equipe, ela, Gaara e eu. Sabemos do que Daisuke precisa mesmo sem ele dizer. Comunicamo-nos apenas com olhares diante dele, evitando assim que ele ouça ainda mais sobre os tratamentos desagradáveis.

Pego o controle que comanda seu leito e ajusto para que ele o deixe quase sentado. Arrumo seus travesseiros.

– Eu estava pensando... Gaara, Daisuke foi um bom menino enquanto estive ausente?

Os olhos verdes de Gaara são brincalhões.

– Não sei, Sakura, teve um episódio...

– É mentira, mãe. Eu não fiz nada de errado. – interrompe Daisuke. Ele está ansioso. – Você me conhece.

Gaara não consegue evitar e ri.

– Tudo bem, bom menino. Por que não fala logo o que trouxe para ele da sua viagem, Sakura, antes que o bom menino tenha um ataque de birra.

– Eu não faço birra. Isso é coisa de criancinhas.

– Claro, esqueci que você já é adulto, sabichão.

Daisuke olha feio para Gaara, porém, sei que os dois se adoram. Aquela implicância é apenas rotineira. Apenas uma forma de nos fazer rir um pouco e tentar esquecer, por alguns instantes, que estamos em um hospital e que meu filho tem câncer.

Pego o presente que trouxe para Daisuke. Na verdade, não comprei na viagem. Já havia comprado há algum tempo e estava apenas esperando ele chegar pelo correio.

Não estava embrulhado em uma caixa de presente. Sei que meu filho não é muito fã desse tipo de coisa. Ele gosta de ser objetivo.

Entrego a caixa transparente para ele e seu bico emburrado transforma-se em um sorriso enorme.

– Esse ainda não temos. É uma Alfa Romeo...

– Montreal 1970. – termina ele em júbilo.

Ele me abraça. Os braços finos e frágeis me fazem, naquele instante, sentir-me a pessoa mais feliz do mundo.

– Obrigado, mãe. – sussurra ele para Gaara não ouvir. Orgulhoso como o pai.

Ele volta para a posição inicial sentado na cama analisando o novo carro em miniatura da sua coleção. Seu olhar é técnico, procuram por defeitos. Sorrio. Não há, paguei um bom dinheiro para que não houvessem.

Ino entra no quarto e a enfermeira Hana injeta o medicamento intravenoso.

– Ei, garotão, belo carro!

– Minha mãe me deu.

– Legal! Um dia desses você me chama para darmos uma volta.

Daisuke olha para Hana revoltado, pensando que ela é certamente retardada, e ela sai do quarto rindo pela provocação.

Ino me olha e vejo sua aflição. Ela praticamente saltita de nervosa e não para de olhar para a porta.

De repente, entendo. Ah, meu Deus. É Sasuke. Ele já está ali esperando para conhecer Daisuke.

Filho da mãe impaciente!

Respirando fundo e tentando conter os meus temores vou até a porta e a abro. Os olhos negros frios me encaram. Ino e Gaara estão calados e ansiosos. Yume, a filha deles, ainda dorme no sofá. São 23:34h e o hospital está silencioso. Daisuke ainda está entretido com a nova aquisição para reparar no nosso visitante indesejado.

Viro-me e, nervosa, olho para meu filho.

– Ei, campeão, quero que você conheça uma pessoa. – minha voz é falsamente animada. Daisuke tira os olhos do Alfa Romeo em miniatura e deixa seu discreto sorriso desaparecer lentamente ao olhar para Sasuke que está atrás de mim entrando no quarto. – Ele é um...

– Ele é meu pai. – interrompe o meu menino de sete anos com um olhar sério chocando a todos nós.

Notas finais
O que acharam?