Surpresas da vida

25 Nem tudo é o que parece


Sasuke

– Você é um cretino.

Foi o que ela disse antes de sair do apartamento batendo a porta com força. Com os olhos verdes magoados e raivosos, com aquele vinco na testa que sempre aparece quando ela fica extremamente irritada.

Pego mais um cigarro e o trago profundamente, tentando relaxar. Segurando-me para não correr atrás daquela doida e dizer a verdade. Toda ela. Eu gostaria, realmente, de dizer qual era a verdadeira história. Eu também faria qualquer coisa para salvar o menino. Qualquer coisa para livrá-lo daquele maldito hospital. Qualquer coisa para curá-lo daquele câncer que estava não só acabando com a vida de Daisuke, como também com a vida de Sakura e a minha. Quando se tem alguém com câncer na família, todos são atingidos. Não é como se restassem sobreviventes.

Eu mentira para Sakura. Descaradamente. Não pense que as palavras foram fáceis de serem ditas. É difícil e extremamente trabalhoso negar algo que, na verdade, você deseja muito. Ainda mais negar isso para a mulher que você ama. Menti quando disse que não queria mais ter filhos com ela. Desde que descobri, há muito tempo, que ela seria a mulher com quem eu me casaria, eu decidi que seria pai dos filhos dela. Simples assim. E, quando conheci Daisuke e descobri que tudo o que me atormentou durante oito anos não passara de uma mentira, eu tive a certeza de que formar uma família com ela seria não só normal como perfeito. Perfeito para alguém como eu que há muito tempo não sabia qual era o real significado de pertencer a uma. Portanto, eu queria mais filhos com Sakura. Logicamente, eu não dissera a verdade há minutos atrás. Eu não podia. Não é como se eu já não soubesse o que ela sugeriu tão fervorosa e apaixonadamente. Eu só soubera antes da possibilidade pelos lábios de outra pessoa. Infelizmente, a mesma pessoa que me fez ver que ter outro filho geneticamente compatível com Daisuke era uma possibilidade de tratamento, também disse que no caso de meu filho, já era tarde demais.

– Sasuke... – a médica de cabelos curtos e olhos cansados me chama. – Posso te chamar assim, certo?

Eu observo meu filho dormir. Sua respiração é lenta e frágil, assim como ele todo. Olhando-o dormir eu percebo como ele está doente. Quando vejo seus olhos negros, tão fiéis aos meus, me fitando com tanta curiosidade e uma inexplicável devoção, ele não parece nenhum pouco com esse menino enfermo diante dos meus olhos.

Eu aceno que sim com a cabeça, sem tirar os olhos do menino a minha frente. Parece que a qualquer momento ele vai sumir.

Shizune, acho que é este o nome dela, pega uma cadeira e senta-se ao meu lado, perto da cama de Daisuke.

– Sasuke, nós precisamos conversar.

Eu a encaro, estranhando ela vir se dirigir a mim.

– Sakura está bem? – pergunto tentando não demonstrar o quão preocupado estou com a sanidade de Sakura. Assim que entrei no quarto e tentei tirar ela de cima de Daisuke ela enlouqueceu. Foi logo após ela descobrir o resultado dos exames. Começou a chorar desesperadamente, falando em como tudo era injusto e em como o filho dela não devia estar naquela cama de hospital, logo chamando a atenção das enfermeiras que, não havendo outra alternativa, a sedaram e levaram-na para um quarto para repousar. Eu logo a levaria para o meu apartamento para que ela melhor descansasse. Mas, nesse momento, eu apenas queria olhar um pouco mais para o meu filho, que adormecera há poucos minutos, depois de eu lhe prometer que cuidaria de sua mãe e que a faria feliz. Para sempre. Foi o nosso trato.

– Sim, ela está. – ela suspira. – Você já deve saber do resultado dos exames, certo? – eu concordo e ela continua. Parece apreensiva. – Bem, Sasuke, você precisa saber que agora Sakura procurará alternativas de tratamento para salvar Daisuke. Ela está ficando desesperada, ela contava com esse transplante. – ela suspira. – Bem, nós também contávamos. Porém, não demorará muito para ela descobrir uma outra alternativa que eu não propus para o tratamento de Daisuke. Em alguns casos, pais de crianças com esse tipo de câncer resolvem ter outro filho para que as células tronco presentes no cordão umbilical do filho que acabou de nascer possa ajudar o outro filho que está com câncer. Ás vezes funciona, às vezes não.

Eu a olho confuso, não entendendo onde ela quer chegar.

– Acho que você deve estar se perguntando porque não propus isso para vocês. O que vocês precisam saber, que Sakura ignorará porque não consegue ver nada com clareza devido a dor, é que esse não é o caso de Daisuke. Não é uma alternativa que possa curá-lo. Porque não irá. Seu filho está morrendo, Sasuke, não há nada mais a ser feito. O câncer que Daisuke possuiu mostrou-se muito agressivo, evoluiu rápido demais. Nós tentamos de tudo, acredite. Todos aqui nesse hospital procuraram casos semelhantes ao dele para ver se assim encontravam um tratamento que desse certo e o salvasse. Mas, às vezes, o maior de nossos esforços pode não ser o suficiente. Às vezes o câncer leva a melhor. Infelizmente, ele venceu Daisuke mesmo com todos lutando contra isso.

Ela tenta segurar minha mão para oferecer algum conforto, mas eu me afasto.

Ela suspira, porém, parece entender. Cada um lida com a dor de uma forma.

– Entenda, não é culpa de ninguém. Sei que você acabou de conhecê-lo. É uma história realmente triste. – ela sorri. Um sorriso tristonho que não alcança seus olhos. – Mas Daisuke nos surpreende, não é mesmo? Ele é um menino muito inteligente, Sasuke. Ele já entendeu que lhe resta pouco tempo. – eu quase grito com ela, eu sei, ele me disse, tento dizer, mas meus lábios parecem mortos. – Quem está em negação é a Sakura. Acho que você será o único que conseguirá fazê-la compreender. Ela é doida por esse menino, Sasuke. Ele é a vida dela. Todos esses anos que trabalhei com ela e nos tornamos amigas, esse menino foi o centro do seu mundo. – ela fecha os olhos. Eu a admiro por dedicar-se tanto ao nosso caso. Também não deve ser fácil para ela admitir que não conseguiu salvar Daisuke. – Em algum momento, não demorará muito, Sakura irá lhe pedir para terem mais um filho na esperança de salvar Daisuke. Você tem que dizer não a ela, Sasuke. Seja duro, é a única maneira de ela cair em si. Negue esse pedido. Não há mais alternativas para o filho de vocês. Não há mais tratamentos. Agora resta muito pouco a Daisuke. Ele apresentou uma pequena melhora, mas não se iludam, não tardará para que os estágios finais da doença o atinjam. Aproveitem esse tempo com ele. Aproveitem para se despedir.

Ela levanta e me oferece um lenço de papel. Percebo, confuso, que comecei a chorar. A médica bondosa e derrotada atravessa a soleira da porta, mas para, por um momento, e me fita. Acho que nunca vi olhos tão cansados.

– E, Sasuke... Sakura está se acabando desde que descobriu sobre a doença de Daisuke. Quando ele partir... Sobrará pouco dela. Abrace-a e a faça sorrir novamente. – ela puxa a porta lentamente, está quase fechando-a. – Não o conheço, Sasuke, mas se existe alguém no mundo capaz de juntar os pedaços de Sakura e concertá-la, esse alguém é você! Faça a minha amiga feliz.

E ela parte, sem saber que fora exatamente isso que eu prometera ao meu filho.

Notas finais
E aí? O que acharam?