Surpresas da vida

20 Hora de por pontos nos is.


Notas iniciais
Esta aí, como prometido. Espero que gostem, porque eu gostei. Podem recomendar se quiserem, eu não irei reclamar. kkkkk Boa leitura. Surpresas nos próximos capítulos.

Bato na porta. É um toque hesitante e discreto, assim como a coragem que tive que reunir para vir até aqui. Mas acho que é a coisa certa a se fazer. Chega de fugir e deixar pontas soltas. Minha perna balança freneticamente, um tic nervoso que desenvolvi no decorrer dos anos. Estou impaciente também. Passei dias pensando no que diria, porém, agora, não sei se conseguirei falar tudo o que é preciso. Estou nervosa. Nem sei como ele vai me receber, ou, se irá fazê-lo. Provavelmente baterá a porta na minha cara. O que seria ótimo, pois estaria livre desse sufoco. Ninguém me culparia por não ter tentado, não é?

Certo, Sakura, não seja uma covarde. E pare de tentar achar desculpas. Vocês dois precisam conversar. Conversar, não quebrar um a cara do outro. Conversar, como dois adultos. E colocar, de uma vez por todas, os pingos nos is.

Estou tão dispersa que acabo levando um susto quando a porta escura se abre. Os olhos escuros não parecem surpresos ao me ver. São indiferentes. Provavelmente já fora avisado por um de seus seguranças que eu estava aqui. Bem, pelo menos ele não parece irritado. Ainda.

– O que você está fazendo aqui? – a voz rouca e fria dele me desperta.

Claro, porque supostamente eu não deveria saber onde ele está hospedado. Nem ninguém, aliás.

Pigarreio e tento encontrar minha voz.

– Naruto me disse onde você estava.

Ele arqueia uma sobrancelha, não esperava, pelo visto, que o amigo o entregasse.

Ele está encostado no batente da porta. Usa uma calça social escura e a camisa cinza de botões está com as mangas dobradas até a metade de seu braço marcado por veias proeminentes. Lembro em como eu costumava passar o dedo sobre elas, criando desenhos invisíveis sobre aquela característica do seu corpo, que na minha opinião, só era mais um acréscimo ao seu charme natural. Faz tanto tempo...

Sei que ele não me convidará para entrar. Posso ver isso em sua atitude nada receptiva. Então passo por ele e adentro o apartamento, não me prendendo a detalhes e sento-me no sofá mais próximo que encontro. Ele ainda está na porta, com um vinco na testa, com certeza, já irritado agora. Suspira, um suspiro fundo que parece durar horas, e resolve fechar a porta.

– Precisamos conversar, Sasuke.

O sorriso sarcástico e mesquinho está lá em sua face assim que ele ouve as minhas palavras.

– Sobre o que, exatamente?

Ele ainda está de pé. Reparo que está descalço, dando um ar relaxado a seu visual.

– Sobre o passado. Sobre coisas que eu soube só agora.

Como é típico de sua atitude, ele vai até o pequeno bar que tem no canto do cômodo e se serve com uma dose de uísque. Não me oferece.

Espero até que ele se sente, daquela maneira sexy que já me acostumei, mas ele não o faz. Se encosta na parede oposta ao sofá em que estou e passa a me observar. O olhar dele é penetrante e a raiva que possui quase é palpável.

– Não temos nada para falar sobre o passado. Já passou, afinal de contas.

Fecho os olhos. Respiro fundo e penso que seria bem mais fácil se eu não me importasse realmente com o que ele pensa sobre mim. Assim eu poderia passar por aquela porta sem culpa, sem arrependimentos. Mas não. Ainda sinto que preciso provar a ele. Mostrar, fazê-lo acreditar, que jamais dormi com o irmão dele. Porque não suporto mentiras. E odeio injustiças. Fui desleal sim com ele, mas não infiel.

– Não, Sasuke. Não passou. – seus olhos me perscrutam, mas continuo a falar, agora que consegui começar, não creio que vá parar tão cedo. – Temos um filho. E, apesar de eu ainda não acreditar nisso, você parece se importar com ele. Então acredito que precisamos resolver sim algumas coisas sobre o passado. Como o fato de você crer que eu transei com o seu irmão.

Vejo sua mão que segura o copo ficar branca com a força com que ele o aperta, entretanto, seu rosto se mostra impassível.

– Você não quer falar comigo sobre isso. Acredite.

Respiro fundo mais uma vez, e procuro achar argumentos que consigam fazê-lo, pelo menos, escutar-me.

– Por que você acha que Naruto me disse onde você estava? – ele não se manifesta. Apenas toma mais um gole da bebida. – Sabe, me surpreendi em como ele me tratou quando o encontrei no hospital. Você realmente tem amigos leais, Sasuke.

– Diferente de você.

– Acho que eu mereço essa. Mas, sabe, nem tudo foi como vocês acreditam. Até mesmo Gaara e Ino me surpreenderam. Vocês durante todos esses anos acreditaram em uma mentira e nunca me questionaram sobre. Quando eu era a única acusada. – eu rio, mas não há humor em meu sorriso. É um riso triste, de uma história triste. – Eu só soube agora. E você não tem ideia do quanto eu fiquei com raiva quando soube, Sasuke. Porque se tem uma coisa que eu detesto é ser acusada de algo que eu não fiz.

Sasuke se transforma com minhas últimas palavras. Ele larga o copo que ainda continha um pouco da bebida e vem ao meu encontro. Tudo acontece tão rápido que me surpreendo por nem ouvir o som do vidro se quebrando. Ele me tira do sofá e segura meus ombros com força, muita força. O suficiente para doer e deixar marcas. Meus dentes batem um nos outros com a intensidade com que ele chacoalha meu corpo.

– Você trepou com o meu irmão, Sakura! O Itachi! Logo aquele filho da puta! Por quê, hein? – sua fúria é intensa, anos de orgulho ferido reprimido. Ele me encara com os olhos vermelhos de ira. – Por quê? Eu não era o suficiente? Não te fodia o suficiente? Meu pau não era bom o bastante para você, sua vadia mesquinha? Tinha que trepar logo com o cara que fodeu com a minha vida? Hein?

– Eu nunca transei com ele, Sasuke, não sou como você que trepa com qualquer uma! – grito, tão exaltada quanto ele, enquanto tento me soltar de seu aperto sufocante.

Mas minhas palavras parecem ter o efeito contrário e o deixam ainda com mais raiva. O tapa no meu rosto é certeiro e ele quase treme de tanto ódio.

– Não minta para mim. – sua voz sai quase em um sibilo, entre dentes.

Coloco a palma de minha mão fria sob o rosto, tentando aliviar um pouco a ardência. Penso em revidar, em dar um soco naquele rosto másculo perfeito e quebrar aqueles dentes alinhados. Mas não quero mais brigar. Estou cansada de dar murros em ponta de faca.

– Não estou mentindo. – falo com a voz baixa. – Nunca transei com Itachi, merda! Eu jamais faria isso... Ele sempre foi um cretino, eu jamais transaria com ele porque eu sabia tudo o que ele fez para você! Eu só me aliei a ele porque ele era o único que iria impedir você de cometer aquele plano insano! Eu nunca dormi com ele!

Sasuke volta a segurar meus braços, tão exaltado quanto eu. Nossas respirações se mesclam e nossos olhos não desgrudam um do outro. Há tanta raiva, tanta dor. Tanta... mágoa.

– Cale a boca, Sakura! Só cale a sua maldita boca!

– Não! Já chega! Eu não fiz isso. Danem-se essas malditas fotos! Eu não fiz, porra! Não fiz e jamais faria porque...

– Por que o quê? – ele grita, tão alto quanto eu, chacoalhando novamente meus braços.

– Porque eu amava você, seu cretino estúpido! – minha voz sai sufocada, em agonia. Contrariando todas as minhas vontades e crenças.

Mas falar, dizer que o amava, é libertador. É como se um peso imenso, depois de anos de reprimenda, finalmente, saísse de cima de meus ombros já muito cansados.

Sasuke parece tão surpreso quanto eu. Seu corpo parece levar um choque e ele imediatamente solta os meus braços e se afasta de mim.

Esfrego com as mãos a pele irritada pelos seus puxões bruscos e baixo os olhos. Um silêncio sagrado se instala na sala. Nenhum de nós diz nada.

Tudo saíra fora do controle. Eu sabia que tínhamos que conversar e também sabia que Sasuke tinha que saber como eu me sentia, porque eu jamais o trairia daquela forma. Porque eu nunca disse. Nunca deixei ele perceber o quão louca e apaixonada eu era por ele. E o único jeito de ele acreditar em mim e não em fotos idiotas que eu desconhecia, era contar a verdade. Libertar todas as amarras e admitir, depois de tanto tempo de recusa, que eu o amava. Deixar meu orgulho de lado e admitir para o homem revoltado e em choque em minha frente que eu o amava. E talvez ainda amasse. Porque um amor como aquele que nos corroía as entranhas quando jovens, não se apagava tão fácil, não se esquecia tão fácil. Tudo tinha começado com uma atração física louca, um desejo carnal forte demais para segurar, e, sem ao menos perceber, fui tragada por seus sorrisos discretos e até mesmo as grosserias. E então, bam! Eu estava amando. Loucamente. Simplesmente. Até mesmo depois que fui embora, eu sentia falta de sua presença e me culpava, porque sabia que não podia voltar. Quando Daisuke nasceu, já no quarto com meu pequeno menino de cabelos negros em meus braços, com Ino e Gaara felizes pelo acontecimento me fazendo companhia, a única coisa que me faria completa era ter Sasuke ali comigo, com seus olhos frios, e seu sorriso sarcástico. Porque nos momentos mais felizes de nossas vidas queremos que as pessoas que amamos estejam ali para compartilharmos nossas alegrias. Mas era mais que isso. Queria que Sasuke soubesse que tínhamos um filho, que o pegasse nos braços e se sentisse pleno e necessário para aquele serzinho pequeno e frágil que era o nosso bebê como eu me sentia. Mas tudo dera tão errado. Seguimos caminhos contrários e tão inesperados. No fim, sei que nos perdemos. Em algum momento, nos perdemos. E dói saber que fomos nós mesmos os responsáveis. Eu fugi. Sasuke resolveu acreditar em fotos e palavras vazias. E aqui estamos nós. Dois estranhos, e, ainda assim, conhecidos que compartilham boas e más memórias. Bons e maus sentimentos. E que tem um filho. Uma criança que não teve culpa de nada e que foi o motivo de nosso reencontro.

Percebo, depois de finalmente dizer a verdade a Sasuke, que quando fui ao seu encontro para salvar meu filho, na verdade, também fui para me salvar. Não apenas porque a ideia de perder meu filho me causaria uma dor forte demais para um dia eu tentar levantar, mas também porque precisava de minha redenção. Nossa história não tivera um fim, ela fora interrompida de forma abrupta, e se Naruto falara a verdade, machucou de forma dura a nós dois. E ao meu filho, mesmo que indiretamente. Por causa de acontecimentos que nem mesmo tivemos o controle, fomos vitimados e neguei a presença de um pai para Daisuke, tempo que agora nem sei se pode ser reparado, ou se ainda temos. Porque o destino é imprevisível, a vida não é da maneira como planejamos. E a história minha e de Sasuke também é assim. Fui orgulhosa demais para admitir que o amava na época, talvez, se tivesse dito antes, ele tivesse acreditado em mim e hoje seríamos uma família lá, com alguns problemas, é verdade, mas quem não tem, em Tóquio. Ou em algum outro lugar do mundo. Mas estaríamos juntos e não tão machucados.

– Você está sangrando? – desperto quanto vejo sangue no mármore claro.

Sasuke olha para seus pés e pragueja. Percebo que ele pisou nos cacos de vidro do copo que jogou no chão em seu momento de fúria.

Vou até ele e pego a sua mão, tentando ignorar a corrente elétrica que passa em meu corpo, fazendo-o se sentar no sofá bege de estofamento caro.

– Deixe-me ver isso. – mas não espero ele me dar permissão e pego seu pé direito para dar uma olhada no corte. Contente por poder fazer alguma coisa.

Não é muito profundo, mas há alguns cacos de vidro no ferimento, de modo que é preciso tirá-los.

Pego minha bolsa e procuro meu kit de primeiro socorros encontrando rapidamente o que procuro.

Sasuke me observa com um olhar inquisidor, afinal quem carrega instrumentos médicos e luvas de látex na bolsa, mesmo sendo médica.

– Há uns dois anos, peguei um acidente bem feio em uma rodovia estadual. – resolvi me explicar enquanto punha as luvas e começava a retirar os cacos de vidro. — Tinha muitos feridos e tentei ajudar como podia. Fiquei furiosa comigo por não ter um kit de primeiros socorros em mãos. Teria realmente ajudado muito naquele dia. Desde então, sempre tenho instrumentos básicos na bolsa para poder clinicar.

Termino de retirar os cacos de vidro e limpo o ferimento. Estranhamente, o silêncio não me incomoda.

– Vai incomodar um pouco para andar nos primeiros dias.

– Hum.

Eu rio. Um riso leve. Bem diferente dos anteriores. Depois ter dito o que tinha para dizer, sinto-me tranquila. Uma sensação diferente e gostosa de sentir.

– Você continua o mesmo monossilábico de sempre. – falo ainda sorrindo, enquanto termino o curativo. – Pronto. Você vai sobreviver.

Ergo os olhos e vejo que o tempo todo ele me observou. Não está mais com raiva. Os olhos enigmáticos profundo me encaram e sinto um arrepio de expectativa. E lembranças de como aquele olhar já me deixara subindo pelas paredes. De repente, sinto que está quente demais naquela sala, que, aliás, é pequena demais. Não sei o que fazer, não sei se devo fazer alguma coisa.

Desvio os olhos, sentindo-me incomodada. Tiro as luvas, deixando-as na mesinha a minha frente e esfrego minhas mãos frias na calça jeans clara que uso.

– Bem, acho que é isso. – digo enquanto me levanto e pego a minha bolsa. – Quando você aparecer lá no hospital te receito um medicamento para ajudar a cicatrizar a ferida. – suspiro, pois ele ainda me desnuda com aqueles olhos profundos e frios. – É... Bem... Certo. Eu finalmente disse o que precisava... Agora você sabe a verdade. Tchau, Sasuke.

E vou até a porta praticamente correndo, não ousando encarar novamente aqueles olhos. Sem contar que a partir de um tempo em sua presença também passei a sentir seu perfume maravilhoso que tem um efeito devastador em meus sentidos. Só respirei novamente quando estava dentro do elevador com suas portas já fechadas. Olho-me no espelho e percebo que estou suando. E me amaldiçoo por mais uma vez estar morrendo de vontade de beijar Sasuke Uchiha.

Notas finais
E aí??? Comentem, comentem, preciso saber o que vocês acharam!!!