Notas iniciais
Obrigada pelos comentários. Boa leitura e comentem!

Estou no país dele. Na cidade dele. Não digo cidade dele por ser onde ele mora. Quando falo que esta cidade é dele, é exatamente ao sentido posse que me refiro. Uchiha Sasuke controla este lugar, aqui é território dele. As leis daqui são as leis dele. Parece meio exagerado, porém, eu não estava brincando quando disse que Sasuke era poderoso. Sei que no aeroporto aonde me encontro há homens dele em todos os lugares. Pessoas que trabalham para ele, que conhecem ele, são fiéis a ele, e podem ser tão perigosas quanto ele.

Quando sai desta cidade, sabia que nunca mais poderia voltar. Bom, pelo menos viva.

O banheiro está vazio, o que, claramente, é um milagre. Pego o novo celular que comprei antes de sair de casa e disco os números que foram rabiscados no papel a minha frente. Logo em seguida, o rasgo e dou a descarga. Sem vestígios, ninguém pode saber que estou aqui até a hora certa.

Alguém atende a chamada. Sei quem é. Sei que posso confiar nessa pessoa.

– Tenten, sou eu, Haruno Sakura. – minha voz é firme, preciso ser direta, não tenho muito tempo.

Posso ouvir a exclamação do outro lado da linha. Ela está horrorizada. Posso imaginar por quê.

– Kami! Sua louca! – ela sussurra e ouço o som de uma porta fechando. – Por favor, me diga que você não está em Tokyo!

Olho para minhas mãos. Minhas unhas estão horríveis. Bem, pelo menos meus dedos não estão tremendo. Não há sinais físicos no meu corpo que mostrem a minha tensão.

– Você olhou no identificador de chamadas, Tenten. Sabe exatamente onde estou.

Ouço-a suspirar.

– Você é suicida agora? Ele vai te matar! Ele jurou isso. Neji me disse que se você pisasse em Tokyo sua vida já era!

Olho para a mulher no espelho. Os cabelos longos, sedosos e extremamente negros. Nem parece uma peruca. Os olhos azuis me encaram, são lindos, felizmente não se pode perceber que são lentes, mas estão determinados. Não há nenhum sinal da garota assustada que fugiu de Uchiha Sasuke há oito anos.

– Estou bem ciente do que pode acontecer comigo. – suspiro. Essa ligação não era para Tenten ficar me avisando do quanto sou tola em voltar. – Preciso de uma arma. Uma de pequeno calibre. Preciso dela o mais rápido possível. O preço não importa, pode conseguir isso para mim?

– Kami! É pior do que eu pensava! Você vai tentar matá-lo? – ela está muito preocupada.

– Não sou idiota, Tenten! Estou na cidade dele, não posso ficar desprotegida. Não vou matá-lo. Preciso dele. A arma é só uma garantia para que isso aconteça. – estou começando a me irritar, mas não a culpo. Éramos amigas, sei que ela se preocupa. – Pode arrumar ou não?

Sinto ela hesitar. Está ponderando sobre o que é certo.

– Claro. Me passe o local de entrega.

Enquanto digo para ela onde estou hospedada uma senhora entra no banheiro. É pequena e parece inofensiva, mas todo cuidado é pouco. Saio andando normalmente, observando discretamente o aeroporto. Por enquanto nada.

– Sakura?

– Sim?

– Foi um erro você ter vindo.

Penso em meu filho, em seu corpo frágil, sua cabeça livre dos belos cabelos cor de ébano, os olhos negros tão lindos e fundos. Lembro dos violentos vômitos, resultado do tratamento com a quimioterapia. O corpo magro e pequeno se curvando ao máximo, o olhar envergonhado.

– Não, não foi.

_____________________________________________________________

Acabei de receber a arma. Sei que foi Tenten mesma que a trouxe. Ela não daria esta tarefa a mais ninguém. Não é seguro. Depois de duas leves batidas ritmadas na porta, eu sabia que minha encomenda havia chegado.

Quando abro a porta não há ninguém no corredor. Pego o embrulho e fecho a porta. A arma é perfeita, fácil de manusear. Junto com ela há um bilhete. Sorrio. Tenten não muda nunca.

Isso é a porra de uma loucura. Por favor, não deixe que ele a mate.

Sim, era uma loucura. Mas uma loucura necessária. Naruto mantém contato com Gaara. Foi assim que soube que Sasuke estava me caçando. Ele jurou me achar e meter uma bala na minha cabeça. Naruto é o braço direito de Sasuke e seu melhor amigo. Ele costumava ser o meu também. Nunca mais falei com ele desde que fugi. Não era seguro. Mas sou grata aquele loiro idiota e estúpido, foi por insistência dele que Sasuke desistiu de me procurar, eu, Gaara e Ino. Entretanto a promessa de me matar se me encontrasse fora irrevogável. Se eu pisasse em Tokyo, se ele avistasse um fio de cabelo rosa, já era.

Respiro fundo e termino de arrumar tudo que fora preparado para o grande encontro. Eu não posso simplesmente chegar na sede da organização de Sasuke, onde sei que ele se encontra nesse exato momento, e dizer “Oi, tivemos um filho, ele está doente. Você é o único que pode salvá-lo”. Eu viraria queijo suíço antes mesmo de dizer “oi”. Os subordinados dele tinham ordens claras, se me vissem, podiam me dar uma surra e me entregar para ele terminar o serviço. Eu não teria chances de julgamento. Não teria uma ínfima oportunidade de dizer para ele o que era necessário. Também não podia envolver Naruto, ele tinha uma família com Hinata, e mesmo sendo o melhor amigo de Sasuke, ninguém o impediria de acabar com a minha raça, nem mesmo Naruto.

Por isso estou me infiltrando dentro da Sede Uchiha. Conheço o lugar melhor do que ninguém, ou pelo menos, tanto quanto Sasuke. Sei exatamente onde as câmeras estão posicionadas e conheço todas as passagens secretas daquela fortaleza. Se eu for rápida e silenciosa, não precisarei entrar em confronto com ninguém até encontrar Sasuke.

Sei que não sou fraca. Desde que conheci Sasuke tenho recebido aulas exaustivas de defesa pessoal e ataque. Sei como empunhar uma arma e, logicamente, sei acertar o alvo. Mesmo depois de tê-lo deixado, Gaara não me permitiu parar com o treinamento. Sempre disse que todo cuidado era pouco. Então sei que não estou enferrujada ou algo do tipo. Passei anos dividida entre Daisuke, o hospital, e o treinamento. Tudo era uma medida de segurança. Exaustiva, mas muito útil. Já tinha me salvado algumas vezes.

É extremamente nostálgico estar na mansão novamente. Estou no porão e o cheiro de coisas guardadas irrita meu nariz. Ainda não fui detectada. A fortaleza é extremamente segura contra os inimigos. Sei que ela nunca foi invadida. Pelo menos, ninguém sobreviveu para contar tal feito.

São 10:04h e, conhecendo Sasuke, sei exatamente onde ele está. Afinal, ontem foi sexta-feira em Tokyo. É estranho, mas estou extremamente calma. Passo pelos corredores com agilidade. Já deixei três guardas desacordados. Eles nem viram o que os atingiu. Preciso ser rápida. Já me encontro no primeiro andar, o quarto de Sasuke fica no segundo. Bem, pela escada principal é que não poderei ir.

Mas conheço esta maldita casa. Há outros meios de chegar ao quarto do Uchiha. Vou até a biblioteca, sei que lá não terá ninguém a essa hora. As únicas pessoas que a frequentam são duas. Uma está dormindo, e Shikamaru está em missão.

Ao abrir a porta e entrar rapidamente, sou envolvida pelas memórias daquele aposento elegante. Há muito livros. O sofá cinza escuro ainda está ali. A mesa de madeira escura também. Flashes de corpos suados e consumidos de desejo passam pelos meus olhos. Memórias de um outro tempo. De quando eu ainda não sabia de nada. Sussurros e gemidos. O som resultante de dois corpos movendo-se em sincronia. Eu e o Sasuke pelo qual havia me apaixonado. Seu olhar cheio de luxúria sob o meu corpo. Minhas unhas arranhando suas costas e minha voz rouca pedindo por mais. E ele atendendo minhas vontades, me fazendo delirar, me fazendo sua.

Abandono as memórias e evito olhar para aqueles móveis que parecem gritar de saudades de uma vida que não foi. Fora tudo uma farsa. Tudo uma mentira.

Vou até a última estante encostada em uma parede e a puxo para frente. Ela cede e atrás dela há uma porta. Nada mudou. E ao mesmo tempo, tudo é diferente. Estou subindo a estreita escada que leva ao quarto de Sasuke por motivos totalmente diferentes. Sei que quando entrar naquele quarto, não será mais para ter o melhor orgasmo da minha vida. A única maneira de ter uma chance de Sasuke me ouvir é o surpreendendo. Tenho certeza que ele nunca pensou que eu poderia fazer isso. Invadi sua casa, inabilitei alguns de seus melhores homens e estou entrando em seu closet. Certamente, ele nunca imaginou que seria eu a vir ao seu encontro.

O perfume de Sasuke predomina o cômodo. É viril, másculo. As roupas estão em completa ordem. Os ternos caros. Os sapatos de couro italiano. Tudo é extremamente organizado. Um contraste e tanto com a minha vida, que é definitivamente uma bagunça.

Respiro fundo. Estou tão perto. Meus pés movem-se com cuidado para não bater em nada. Sasuke tem sono leve. O silêncio é completo. Apesar de o quarto estar um pouco escuro, posso visualizar que Sasuke não está sozinho. Uma mulher de cabelos possivelmente castanhos curtos está à sua direita. Outra ruiva, o cabelo é tão vermelho que mesmo na falta de luz suficiente posso identificá-los, esta à sua esquerda. Estão todos nus, todos dormindo.

Com agilidade e uma leveza absurda subo na cama. Já estou sem aquelas malditas lentes. Apenas a peruca ainda faz parte do meu disfarce. Posiciono-me em pé, com as pernas abertas e o tronco esculpido de Sasuke entre elas. Com as mãos livres puxo o cabelo daquelas duas desconhecidas e as jogo para fora da cama. Saco a arma e aponto para aquele homem entre minhas pernas, que mesmo com cara de quem acabou de acordar continua belo e ameaçador e está me encarando com aqueles olhos escuros. Os mesmos olhos de Daisuke. Porém neles não vejo aquele brilho de bondade, o brilho de alguém que sonha, o brilho sempre presente nos olhos do meu filho. Aqueles olhos que me fitam transmitem um ódio silencioso, corrosivo, que mesmo com uma arma apontada para sua cabeça, não mostram uma fagulha de medo.

Antes mesmo de tirar a peruca, sei que ele já sabe quem sou.

Libero meus cabelos da prisão da peruca, deixando-os soltos e livres. Não perco o olhar de Sasuke em nenhum momento.

Solto devagar o ar de meus pulmões.

– Olá, Sasuke.