Surface

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Perfect Void

E então depois de tanto tempo visitando aquela casa abandonada e mantendo uma segura distância daquela piscina imunda, lá estávamos nós, nadando no tóxico. Você sabia, quanto mais tempo se passava, mais você sabia, havia mais alguém, ou coisas, havia mais do que você ali. Mais do que nós dois. Rondando, ou por baixo dos nossos pés, mas perto. Era como se a qualquer momento algo fosse acontecer. Uma mensagem apitava em nossa cabeça gritando perigo, corre daqui, é grande e está cada vez mais próximo. E eu quase corria, daí eu olhava pra ela, ali, ela estava ali, comigo, eu olhava pra ela, nadando na minha frente, tão perto, tão quente, tão sombria. Eu olhava pra ela e eu quase esquecia ... de tudo. Evelynn trouxe seu rosto pra tão junto do meu eu pude sentir que uma mensagem importante se precipitava em sua boca, mas quando quase seus lábios escreviam na água, ela calava. Confusa. E sorria aquele sorriso louco. Ela me puxou pra cima e começamos a nadar para a superfície. Aos poucos fui lembrando de que precisava realmente subir e respirar. Quanto mais fundo ficava abaixo dos nossos pés, mais sombras se moviam sob eles. Assustador assim. E quando finalmente a linha fina da beira estava a menos de um palmo do meu rosto, eu já estava aterrorizado e desesperado pra sair da água. Lancei os braços na borda e puxei meu corpo com tudo pra fora, enchendo os pulmões de ar. Ao meu lado, a garota invisível estava vestindo sua blusa e me olhando. Me encarando com aquela grande quantidade de pele exposta. Como se eu conseguisse olhar em seus olhos ou pensar em qualquer outra coisa que não na terrível vontade de marcar sua carne branca.

Nunca havia pensado nela desse jeito. Mas agora nada fazia sentido mesmo! De repente eu queria que ela me encontrasse na rua. De repente eu queria saber mais sobre aquela garota. De repente algo realmente importava. Porque na minha vida não era nunca 'eu e os outros', ou 'eu e o que achavam de mim'.

Já fazia um tempo até, eu tinha largado a faculdade. Muita gente achando que sabia de muita coisa. E agora eu passava mais tempo no meu sofá do que em qualquer outro lugar. De vez em quando eu arranjava um emprego pra pagar as contas. Nada acabava durando muito, até porque nem era a intenção. E eu acreditava terrivelmente que o sentido da minha vida ou a minha grande ambição, meu sonho, era ter um sonho, algo pelo que viver. Um motivo pelo qual valesse a pena aquela loucura humana/social, aquela rotina sem sentido e desinteressante com momentos pseudo-satisfatórios, onde grandes bobagens representavam grandes valores. E isso costumava me afetar muito negativamente. Por que insistir numa coisa que não te dá prazer nenhum, afinal? E agora ela estava constantemente na minha cabeça. Eu sabia que isso ainda não havia adquirido grande importância ou emergência, mas era bastante inquietante e curioso também. É só que eu não conseguia nunca não ligá-la ao vazio. Era meio que isso que ela representava pra mim. O vazio. Talvez por alguma espécia de indetificação, não sei. Eu acho que precisava saber como ela lidava com isso, como eram as coisas pra ela, era como se eu sentisse que nós podíamos nos salvar, um ao outro. Da vida.

Mas no dia seguinte ela não apareceu. E nem depois, ou depois, ou depois. Nunca havia sumido por tanto tempo. Experimentei até procurar por seu avental manchado de mostarda em alguma lanchonete por ali. Mas ela continuava invisível pra mim.