Surface
5 Capítulo 5
Notas iniciais
No final das contas, acho que foi bom ela ter sumido, de verdade, dessa vez. Parece uma grande bobagem, mas pra mim é preferível que as coisas não aconteçam, nem comecem, eu não gosto dessas emoções. Você sabe, sempre, sempre dá merda. Toda essa mistura, alfabeto, sociedade, ambições, mídia, instintos e desejos, tudo isso me sobrecarrega. Eu gosto de imaginar como as coisas seriam se nossas memórias fossem deletadas, simplesmente sumissem. Depois do caos, poderia surgir um novo sentimento? Ou será que apenas desvendaríamos nossos passados e voltaríamos ao vazio-seguro?
Viver tem sido essa coisa dolorosa. Podem me chamar de fraco ou pessimista, podem me achar ridículo, mas há muita gente que se sente como eu. É só que você olha em volta, você procura desesperadamente um motivo pra te sustentar, você procura um corrimão quando escorrega, mas sua mão afunda no ar e você está caindo, caindo, todos os dias vocês está caindo. Eu digo que existe muita gente como eu, mas eu nunca conheci ninguém. É verdade. Eu imagino como seria se conhecesse... e sempre me vem a imagem de duas pessoas caladas e muito chapadas deitadas de lado com o pensamento distante. Duas pessoas sentadas sentindo a mesma dor, o mesmo vazio, e ao mesmo tempo, pessoas sem saber o que dizer uma pra outra ou como ajudar. Prevalece o silêncio. E se uma ou outra dessas pessoas tenta fingir aguentar firme é apenas questão de tempo pra que ela comece a cair outra vez. Sobretudo, o que existe entre esses dois corpos é a esperança que um deposita no outro. Eu não posso dizer que essas pessoas conseguirão se ajudar, mas eu sei que uma pessoa que se sente assim nunca será feliz com quem não entende essa dor, porque todo mundo te deixa mais cedo ou mais tarde quando descobre. Você se assiste sendo insuportável e patético e não consegue parar. Você se vê sendo odiável e continua. Você está prestes a estragar tudo e vai em frente. Até que você finalmente consegue que te deixem.
Como alguém já me deixou.
São duas dores que não podem existir na mesma pessoa. Então você para em uma linha no 30º andar, senta na janela e acende um cigarro. Você começa a chorar sua covardia. E você fica ali.
Foi realmente bom que Evelynn sumisse, foi realmente bom que nada começasse. Porque no final a vida se torna ainda mais impossível. E foi naquele dia que ela teve a overdose.
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