Surface
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Ela no escuro. Não posso vê-la, mas sei onde ela está.
Deixa eu te contar o que eu sei dessa garota. Ela é uma garota louca. Mas isso você sempre soube. Talvez até tenha notado antes de mim. E ela também, ela também sempre soube disso. Algumas vezes a encontro na rua. Encostada em qualquer muro, fumando qualquer cigarro. Não é comum andar e vê-la parada por aí. Mas acontece. Tem dias que ela usa um uniforme de garçonete. Bom, não é bem um uniforme desses significativamente sexys. Vou chamá-lo de avental, ela usa um avental. Um pouco sujo, um pouco velho, e não deve cheirar muito bem. Então ela fuma seu cigarro e o apaga no avental.
Não é isso que me chama atenção. O que me deixa totalmente confuso é que ela não me reconhece. Simplesmente: não acena, não sorri, não me alcança pra dar um oi. E mesmo que eu encontre o centro dos seus olhos, eles não me cumprimentam. Sou um estranho. Daí eu sigo andando e xingando mentalmente a garota de maluca e de outras coisas um tanto mais ofensivas. E de noite, depois, quando eu saio na rua, ela aparece do meu lado, falando e falando, com sua cabeça pirada, like always. Já sem avental. É, eu já pensei: será que ela tem uma irmã gêmea ou algo do tipo? Parece bobagem, parece bobagem. Eu sei. Contudo, segui-la não pareceu uma ideia tão estúpida a princípio. Não faz muito meu estilo. Normalmente eu balanço a cabeça e deixo pra lá. Funcionaria se se tratasse de outro alguém, acredite. Mas não havia outro alguém na minha vida. Tive certeza que era bobagem quando cheguei. Ou pouco antes disso, quando reconheci o caminho, e a rua e o apartamento escondido e escuro onde eu mesmo já fui deixá-la dezenas de vezes. Onde ela mora sozinha. Onde ela se tranca e esquece do mundo, até sair e me procurar pelas ruas. E quando eu entro é tudo sempre igual. Do quarto dela sai um som meio pesado e ela bebe coisas um pouco fortes demais, enquanto pensa nos caras, ou nos caras da vez, ou enquanto pensa nas meninas. Ela se olha no espelho por longos minutos, longas vezes, talvez tentando enxergar em algum lugar do seu rosto aquilo que os outros não enxergam, e depois ela deita na cama, e se enrola nos lençóis, entediada, entusiasmada, já não sabe mais se está dormindo ou acordada. São suas horas mais longas do dia, a noite que não acaba nunca. Está presa no tempo que não se divide em rotinas (maiores) e foi viciada nisso pela ignorância, que trancou a porta do quarto. Pronto. Abro os olhos com o sangue tão quente e a cabeça tão suja... pensando nela "fazendo amor com outra pessoa quando não está por perto" . Ela olha em volta, procura um gole. Sem lógica para seguir, segue qualquer uma. Levanta ainda sem saber se acordou ou se acabou de adormecer, só a janela pode responder, porque na verdade, tanto faz. E isso era o nosso tchau. Então de novo e sempre ela aparecia com aquele rosto frio e fundo. As olheiras tão perfeitamente marcadas como cicatrizes feitas com gilete. Os lábios rachados, mas de um modo que eu sei que ela gosta, arde quando a bebida encosta, e ela se sente viva. Porque se você olhar no fundo dos olhos dela não vai encontrar nada. Nada além do seu reflexo fraco num espelho negro. Por isso ela precisa se sentir viva. Não é mesmo um saco? É, de novo ela aparece com aquela cara doente, com fones gigantes na cabeça pra se sentir protegida do mundo. Ela diz. Já não é interessante, você fala com ela e percebe que ela está tentando te impressionar, mas não consegue, não sabe o que dizer, de modo que tudo se torna um diálogo estranho e cansativo. Um café com uma morta. E percebe que ela precisa de você. E que você pode tê-la quando quiser e por quanto tempo quiser. Você percebe o quanto ela se esforça pra passar alguma confiança, certeza ou decisão. Ela até se segura no corrimão. E é patético. Mas experimente olhar quando ela estiver de costas, com seus fones gigantes e o rock no máximo, sem saber que você existe, experimente vê-la dançando sozinha no quarto, e você vai querer saber de tudo. Seu telefone, tudo. Cada palavra confusa que ela quiser dizer. Porque quando ela não te vê, ela é aquela ela tão fascinante. Uma pequena amante com boas cartas na mão e um bom plano embaixo da mesa. E se você olhar embaixo da cama dela, vai encontrar várias garrafas secas distribuídas de qualquer maneira entre os sapatos, e alguns copos também, mas estes estão por todo o quarto. As garrafas pela metade ela guarda junto das roupas no armário, e ela faz um silêncio terrível e é o que mais odeio nela, essa capacidade de fazer parecer que nada acontece, enquanto tudo acontece, nós sabemos.
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