Surface
2 Capítulo 2
"Acho que podemos ir agora, parece que vai chover." Digo, evitando o assunto que ela começou. Esse assunto sempre tem um gosto meio estranho.
"Não seria o máximo?"
"O que? O que seria o máximo?" Eu a olho.
"Não seria o máximo que chovesse? Há muito tempo não chove, você sabe. Você não acha que seria o máximo ver a chuva? E mais do que isso, não seria o máximo ver a chuva na piscina? Suas águas se misturando, e a borda! Não seria o máximo vê-la finalmente transbordando? Trazendo seus mistérios à superfície, à beira, aos nossos pés? Nos pouparia muita coragem." Ela diz, com os olhos fixos na piscina. Eu não tinha pensado nisso. Praticamente nunca chove nessa cidade. E nunca quando estamos aqui, depois do muro.
"Não sei, já ta tarde, meio que vai escurecer também, além da chuva. Não te assusta? Essa ideia da piscina, da chuva, e da estrada escura?"
Seu rosto vira e me encara. "Não me assusta. Me excita. Não te excita? Essa ideia da piscina, da chuva, e da estrada escura comigo?" Não sabendo o que dizer, apenas olhei seus olhos. Não havia resposta pra isso em qualquer universo. "De qualquer modo..." Ela continua, "se formos agora, também pegaremos a chuva, é inevitável, não vê? Se formos agora apenas perderemos a chuva na piscina. Não posso perder o mais importante. Me arriscaria até a ficar sozinha se você preferir voltar logo. Mas não será preciso, não é mesmo? Você não me deixaria sozinha aqui." Não há riso em sua voz. Ou qualquer sinal de sarcasmo. Ela fala sério. E ela tem razão.
Me volto para cima. As nuvens se misturam com a noite. E posso sentir o vento mais forte, mais frio. Ela senta mais perto de mim e encosta sem braço no meu. Seus olhos excitados nem miram o céu. É com o pântano artificial a nossa frente que se chocam e nele se mantêm. Eu me levanto e puxo seu braço para trazê-la comigo. Eu digo "Ok, então vamos porcurar onde sentar. Não quer ser devorada ou puxada pro fundo, quer?".
"Devorada, não. Pelo menos não antes de ver você mergulhar. Mas lá dentro deve ser escuro e opaco, de qualquer modo. Precisaríamos estar suficientemente perto para reconhecer um ao outro. Ou nos confundiríamos facilmente com um tentáculo mutante." E seu sorriso é divertido.
"Brincadeiras à parte, não desrespeite o espírito da piscina. Ele pode ficar bravo com suas lendas urbanas e te atrair para cá sozinha com alguma espécie de canto de seria demoníaco." Ela quase ri, mas fica séria. Então eu lembro que brincadeiras à parte, realmente acreditamos que algo vive ali no fundo, e provavelmente não é algo folclórico, mas suficientemente misterioso.
Então começa. Os pingos caem aos poucos e tocam o lodo, podemos ver pontinhos de água limpa na quase casca que se forma na superfície. E bolhas sobem suavemente à medida que a chuva fica mais grossa, é quase como ver uma panela com água entrando em ebulição. Alguns dos objetos que boiam, afundam vagarozamente e somem a poucos centímetros de profundidade. E Eve parece petrificada ou hipnotizada com a experiência. Ela assiste a seu espetáculo particular particularmente concentrada. E eu me concentro nela. Nada poderia chamar mais minha atenção do que ela. Estamos em pé e bons 2 metros nos separam da beira. Não é simplesmente vê-la como vejo todo dia. A chuva pesa em seu cabelo e ela o prende em um nó, pra tirar do campo de visão, fazendo um coque alto que já quase cede à agua. Seu rosto molhado é um novo rosto. Pingos gotejam de seu queixo, de seu lábio e nariz, e sua roupa está cada vez mais úmida e justa. De seus olhos escorre maquiagem preta e sua boca está tão vermelha agora!
Eu me lembro claramente da primeira vez que a vi, foi exatamente aqui, no quintal de uma casa esquecida. Sem dúvidas, me apaixonei naquele momento, "ela é tão misteriosa e linda", eu pensava, "ela é tão interessante". Desde então, passei a vê-la todos os dias, sem nunca precisar procurá-la. Ela sempre te acha, sempre, sempre surge ao seu lado quando você menos espera. E enquanto está com ela, ela te enlouquece parceladamente. Então seus assuntos confusos e depressivos aos poucos começaram a me cansar. A atenção que ela exigia, eu não me importava mais em garantir. Foi quando comecei a fazer caminhos diferentes pra casa, na esperança de um momento sozinho sem a garota sufocantemente confusa por perto. Mas ela sempre chegava exatamente como se soubesse ou se houvéssemos combinado previamente a nova rota. E eu parei de me surpreender. Não que eu a achasse insuportável. Eu só precisava de um tempo, ora. Enfim, percebendo inútil qualquer tentativa de solidão, desisti. E estamos sempre por perto, mesmo quando nos separamos, sua silhueta flutua insistentemente na minha cabeça.
A escudirão tomou conta do céu e não há lua. A chuva está muito forte agora, e Evelynn continua parada olhando as bolhas na água subirem e explodirem no contato com o oxigênio da superfície.
"Ei, que tal então?" pergunto quebrando sua concentração. "A água está quente o suficiente para seu banho, madame? Está do seu agrado?" Seu rosto manchado se vira e posso ver que ela ri. Seus lábios vermelhos respondem desafiadores:
"Nós precisamos fazer isso".
Antes que eu possa perguntar o que nós precisamos tanto fazer, ela vira novamente de costas e tira a blusa molhada enquanto caminha em direção à agua. Que tipo de brincadeira babaca é essa? Quase na borda, Eve para e se desfaz da calça apertada, com um pouco de dificuldade e então a joga de lado. Sua pele branca quase nua parada na beira da piscina. Ela só pode ser louca. Mas eu sempre soube disso.
"Em que você ta apostando agora? Que eu vou pular imediatamente no ácido pra trazer seu corpo de volta? Como tem tanta certeza de que acho isso meu dever?"
"Mas você vem. E não porque é seu dever nem nada do tipo. Você quer vir, não é mesmo? É tudo o que você quer." Eu não posso responder, porque antes que eu consiga, Evelynn pula na água, num daqueles mergulhos que levam você ao fundo em 2 segundos.
E mais segundos passam. Muito segundos. Longos segundos.
Sua roupa no chão e seu corpo lá dentro. Por longos segundos. Não sei qual dessas coisas me fez mudar de ideia. Mas tiro minha camisa e pulo também.
Ela tinha razão, a água era tão opaca quanto tinta preta. Não conseguia vê-la, aliás, não conseguia manter meus olhos abertos por mais de 3 segundos sem senti-los queimar. O único modo de encontrá-la seria seguir as ondas que seus movimentos faziam, mas eu juro, os movimentos vinham de todos os lados. E se eu, que pulei tão depois, já estava precisando voltar e respirar, como ela estava sobrevivendo? Talvez tenha prendido o pé em alguma rede ou bicicleta velha, talvez precise absurdamente de mim. Nado e esbarro em muitos obstáculos, nada vivo, é só o que sei. E é o suficiente para continuar. É quando eu lembro que não é você que procura por ela, que você não precisa. Ela sempre te encontra, não é? Mas estou tão no fundo agora. Que diabo de piscina infinita. E estou sem ar. Nossa, como preciso subir, so fucking much! Movo meus braços em direção à superfície, e em seguida tento lançar meu corpo para cima. O líquido ao meu redor, tão denso quanto mingau, resiste a minha passagem, tornando tudo muito mais difícil. E sinto que se não chegar nos próximos segundos, não chegarei mais. Então algo se move muito rápido e demoro a perceber quem é. Evelynn passando do meu lado, nadando tão suavemente como um balé. Ela toca meu braço e me puxa consigo. E em um instante conseguimos chegar e posso respirar novamente. Nado até a borda e tento limpar o meu rosto, tento voltar a enxergar. A imagem embaçada a minha frente aos poucos entra em foco, posso notar que Evelynn ri de tudo aquilo.
"O que foi, surgiu um terceiro olho no meu rosto?".
"Não, é só que você parece tão desperado. Deveria ter dito que não sabia nadar".
"Eu sei nadar. Em água. Isso é tudo menos água. Mas você não deveria rir. Seu aspecto também não está muito saudável". Seu rosto está quase verde, olheiras fundas aparecem estampadas onde antes havia pele muito branca. E sua boca está roxa de frio. "Ou é só que você está sem maquiagem agora?". Ela mergulha e some. Isso não é nada divertido. Então sinto-a chegar nadando e ela sobe a minha frente. Com um sorrio.
"Não precisa ser medroso, Tim. Nada vai puxar o seu pé. Vem, nada comigo".
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