Sure, Why Not?
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Digo-vos já que este capitulo é, provavelmente, bastante aborrecido.
De facto, acho que toda a história é aborrecida XD
No sexy times yet.
Provavelmente tem erros e frases esquisitas. Acabei de o escrever mas sei que se começar a editar, devo demorar mais um mês até o postar.
So yeah.
Depois faço isso.
Enjoy.
Capitulo 2
Quando Arthur entrara no escritório, ficara horrorizado ao ver que o seu cliente já se encontrava lá, o que queria dizer que ele não podia discutir o projeto com o seu pai e irmão e tinha que passar logo para a apresentação.
Acabou por simplesmente colocar o seu trabalho em cima da mesa e encostou-se de forma discreta a Brody enquanto o seu projeto era analisado.
O seu cliente era um homem alto, louro e algo intimidante. Estava sentado ao lado de Albert, o patriarca da família Kirkland e Arthur ficou algo chocado ao ver que o seu pai, que era um homem grande e forte, parecia um lingrinhas quando comparado com o outro.
Tinham ambos os olhos postos nos projetos que Arthur levara noites e dias a confecionar. Horas e horas de trabalho árduo em frente da sua secretária, embrenhado em papéis e várias canecas de café (coisa que ele nem gostava, mas mantinha-o acordado.).
O homem levantou a cabeça e Arthur, ao sentir-se analisado até ao fundo da alma por olhos frios e azuis, foi envolto por uma necessidade imensa de se esconder atrás de Brody.
Ludwig Qualquer coisa, pois o nosso jovem inglês já se esquecera do apelido do outro, enrolou as largas folhas de papel, umas dentro das outras. A sua expressão mostrava uma vaga onda de satisfação, mas, com toda a sinceridade, era difícil dizer ao certo o que ele estava de facto a sentir. Virou-se para Albert, que sorriu, vacilante.
_ Quando me disse que o seu filho conseguia desenhar o projeto, eu fiquei com diversas dúvidas quanto às suas capacidades. – Rugiu, porque aquilo não era falar, Ludwig. As palavras rolavam num sotaque alemão ferrado e por vezes era difícil compreendê-lo – Mas posso dizer que estou positivamente impressionado. – Fixou os seus gélidos olhos azuis novamente em Arthur – Parabéns. Tem muito talento.
_ Obrigado. – Murmurou o arquiteto, lançando-lhe um sorriso indeciso.
_ Se não se importar, levarei os desenhos comigo para mostrar ao meu parceiro. Apesar de ter a certeza que ele adorará as suas ideias, tenho que obter a sua aprovação. – Enquanto falava, Ludwig guardava os rolos num compartimento cilíndrico – Prometo que nada acontecerá ao seu trabalho.
_ N-não há problema! Eu tiro sempre cópias das minhas coisas para o caso de algo acontecer aos originais.
_ Muito bem. Senhor Kirkland… — Ludwig virou-se para Albert – Voltarei para a semana. Se tudo correr como combinado e o meu parceiro aprovar o projeto do seu filho, poderemos começar a estudar o orçamento para as obras.
_ Tudo como quiser! Fico contente que tenha escolhido a nossa pequena empresa para uma obra tão importante! – Bramou Albert alegremente, erguendo-se da sua cadeira.
_ Com as coisas boas que ouço sobre vocês, era difícil não escolher. Dizem que vocês fazem tudo.
Albert riu-se sonoramente, atirando a cabeça para trás com a força da sua gargalhada. Os seus dois filhos presentes, por outro lado, não mostraram uma única ponta de bom humor.
_ Esse é o nosso lema! Gosto de acreditar que lhe fazemos justiça! – Albert aproximou-se de Arthur e colocou a sua mão grande no ombro ossudo do filho – Fico feliz por ter gostado dos projetos daqui do meu Arthur. Ele é o primeiro arquiteto da família, sabe?
_ E que sorte a sua família teve. Rapaz talentoso, o seu filho. Fiquei chocado ainda há pouco quando ele me mostrou os projetos. Não esperaria tais talentos em alguém tão novo.
Alguém tão novo? Alguém tão novo?! Arthur não era nenhuma criança, nem tão pouco adolescente! Ele tinha vinte e sete anos, já a caminho dos vinte e oito, já não era nenhum rapazinho inexperiente que acabara de tirar o curso de arquitetura!
Mas manteve-se calado, apesar da indignação. Ludwig estava interessado em levar o contracto com os Kirkland a avante e Arthur não iria fazer com que a sua família perdesse um negócio assim tão bom só porque se sentia vagamente ofendido por um comentário que provavelmente nem tinha malicia nenhuma.
_ Tenho de ir agora. É quase meio-dia e o meu parceiro fica algo histérico se eu me atraso para o almoço. – Desculpou-se o grande Alemão, com um pequeno aceno com a cabeça.
_ Ah, coisas da vida. É melhor você ir, se é assim.
_ Muito obrigado, senhor Kirkland. Como já referi, voltarei para a semana para discutir o trabalho do seu filho.
_ Com certeza! Tenha um bom dia!
Ludwig desejou o mesmo e foi retribuído com murmúrios baixos pela parte de Arthur e Brody e um sorriso vindo de Albert. O germânico, então, retirou-se do escritório, com o compartimento cilíndrico que continha o trabalho de Arthur debaixo do braço.
Houve um leve silêncio confortável na divisão. Brody levou a sua mão larga aos cabelos do irmão e massajou-lhe levemente o escalpe num gesto de conforto. Era algo que ele fazia a Arthur desde que eram crianças, já que o mais novo procurava Brody sempre que Scott e/ou William o atormentavam com as suas partidas idiotas.
Arthur lançou um suspiro de alívio e foi invadido por uma maravilhosa sensação de orgulho.
_ Ele gostou do meu projeto! – Exclamou com um sorriso altivo – Ele gostou!
_ É claro que gostou, Arthur. – Disse Albert num tom calmo, também orgulhoso pelo sucesso do filho – Eu disse-te que ele iria gostar. Não sei de onde veio aquela tua insegurança toda.
_ Estamos a falar de uma casa! Geralmente querem que eu faça desenhos de divisões e que decore os seus quartos, mas pela primeira vez na minha vida deram-me a oportunidade de projetar uma casa! De raiz!
Atrás dele, Brody sorriu.
_ Bem, estás bastante excitado com isto. – Comentou com doçura, desalinhado o cabelo do irmão.
_ É claro que estou! E para com isso. – Arthur enxotou a mão de Brody e passou a sua pela nuca, tentando domar a curta juba dourada – Estou excitado, estou aterrorizado, estou muita coisa ao mesmo tempo. Céus! Tenho que pensar nos materiais certos! Oh não, e se ele não gostar das minhas sugestões! Ainda me despede!
_ Arthur, Arthur! – Tentou Albert acalmar o filho – Tem calma. Os materiais são algo que apuraremos todos juntos! Ninguém te vai despedir. Por todos os deuses, rapaz, nunca te vi assim tão nervoso.
_ É que… é uma casa!
_ Exatamente. Uma casa. Não é como se estivesses a desenhar um prédio inteiro. Para de ser tão dramático. Não te iremos deixar sozinho para resolver questões difíceis. Agora, rapaz, diz aqui ao papá porque é que chegaste tão tarde?
_ O Alfred tinha os canos do lavatório a pingar.
_ Porque é que o William não foi lá? É a sua especialidade.
_ Ele estava ocupado a entrar em pânico, por isso fui lá eu. E vocês já sabem que não posso ir a casa do Alfred e vir-me embora sem uma conversa e uma fatia de bolo.
Tanto o seu pai como o seu irmão mostraram um total descontentamento ao ouvirem as palavras “Alfred” e “bolo” na mesma frase. Não era segredo nenhum que todos os homens da família Kirkland apreciavam os doces confecionados pela cria primogénita do velho Frank Jones. De facto, Peter, o irmão mais novo de Arthur, era tal fã que tinha na parede do quarto uma fotografia de um bolo de iogurte que Alfred lhe fizera quando o rapazinho partiu uma perna ao tentar não atropelar o cão da Elizaveta com a sua bicicleta.
_ Bem… — Fez Arthur num tom de despedida – Eu gosto muito de vocês, mas vou a casa tomar um banho. Só esta hora foi stressante o suficiente para a semana toda.
_ A tua mãe quer-te à uma e meia lá em casa para almoçar. – Avisou Albert num tom suave.
_ Sim, sim, eu sei. – Arthur dirigiu-se á porta. As suas mãos sentiam a falta da sua pasta com os trabalhos e uma vaga sensação de nudez inconsciente invadiu o seu corpo. Ele estremeceu com leveza e saiu, acenando mais uma vez ao seu pai e irmão.
Scott não estava presente na oficina. A julgar pela arrumação e a vaga limpeza, Arthur concluiu que o outro tinha acabado o trabalho e provavelmente tinha ido tomar um duche antes da hora de almoço. A mãe de ambos nunca gostara que os filhos e marido se sentassem á mesa cobertos de óleo, poeira ou cerradura, sem falar do cheiro intenso a suor macho trabalhador, que Arthur não possuía com muita frequência pois o trabalho físico duro não era o seu forte… e ele não apreciava cheirar mal.
Entrou na sua adorada carrinha que recebera aos dezoito anos após ter adquirido a licença de condução. Era um veículo velho, ferrugento, lento e feio, mas era a sua menina e Arthur não queria livrar-se dela, apesar de já a ter há quase dez anos. Era uma relação estranha que levava Scott quase à loucura visto que era ele a quem Arthur sempre ia de cada vez que a carrinha dava o berro. O seu irmão mais velho resmungava e resmungava, dizendo que ele já deveria ter mandado aquela “porcaria” para a sucateira e comprado algo mais recente e menos decadente.
Mas Arthur nunca prestava atenção às resmunguices do irmão mais velho. Porque o faria, se Scott conseguia sempre consertar a carrinha? Para quê gastar dinheiro numa coisa nova, quando a velha ainda funcionava?
Ao ligar o seu modo de deslocação, Arthur ouviu o longo e leve rugido estafado do motor. Com um pequeno som satisfeito, fez-se à estrada, a caminho do seu apartamento para um longo e relaxado banho.
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No dia seguinte, por volta das quatro da tarde, mal Arthur colocou um pé no restaurante dos Jones, levou com uma Elizaveta histérica em cima e nunca mais se livrou dela.
A jovem Hungria limpava as mesas com fervor quando o viu e os seus olhos verdes faiscaram ameaçadoramente.
_ Eu pensava que te tinha dito para apareceres às três e meia! – Rosnou ela enquanto se aproximava. Manejou o seu borrifador como se fosse uma arma e Arthur viu-se a afastar-se ligeiramente.
_ Disseste-me para aparecer durante a tarde. Não especificaste a hora. – Retorquiu num tom sabichão e colocou as mãos na cintura – E nem sequer está aqui gente, qual é a pressa? – Perguntou enquanto gesticulava para o estabelecimento vazio.
_ És cego? Não viste o sinal “Estamos fechados” lá fora? Só vamos abrir por volta das sete. Não teríamos tempo para arranjar tudo se estivéssemos a aturar os bêbados habituais.
_ Eu pensava que gostavas dos bêbedos habituais. – Disse Arthur um bocado magoado, visto que alguns desses “Bêbedos” eram o seu pai e irmãos.
_ E gosto. Adoro-os com todo o meu coração. Mas eles iriam estorvar. E tu também estás a estorvar ao estares aí especado feito inútil!
_ Não me disseste o que fazer! – Queixou-se ele enquanto era empurrado em direção da cozinha.
_ Podes começar por ver se o Alfred não está a dormir à frente do fogão. Ele esteve praticamente a noite inteira a fazer doces e parece um morto-vivo. Mas não há tempo para descansos! Depois vem ajudar-me com as decorações.
_ Está bem, está bem. – Resmungou Arthur enquanto se livrava das mãozinhas dela. Lançou-lhe uma careta e entrou na cozinha.
Alfred, realmente, tinha um aspeto exausto. Quase não parecia o mesmo homem que alimentara Arthur com bolo de chocolate no dia anterior. Tinha um ar extremamente ensonado, olhos vermelhos e húmidos (provavelmente de tanto os esfregar numa tentativa de se manter em alerta), cabelo que parecia um ninho de ratos dourado, e já se notava os pelos da barba a espreitarem pela pele da face.
_ Por todos os Deuses, estás uma merda. – Comentou Arthur secamente ao aproximar-se.
“Mesmo assim queres que ele te atire para cima do balcão e te faça coisas inapropriadas para criancinhas” respondeu-lhe o seu cérebro maldito e Arthur deu-lhe um pontapé imaginário.
Alfred virou-se na sua direção e sorriu docemente. O seu rosto iluminou-se um pouquinho ao vê-lo e o americano pareceu um pouco mais vivo. Voltou-se mais uma vez para a carne que estava a fritar e mexeu no conteúdo da frigideira com uma espátula.
_ Viva Artie. – Saudou o americano num tom suave e extenuado.
_ Hei. – Hesitantemente, Arthur colocou uma mão no braço de Alfred – Se ficas assim só por ficares uma noite sem dormir, nem sei o que seria de ti se houvesse um apocalipse de zombies. – Brincou ele só mesmo para disfarçar a preocupação que sentia de momento pelo amigo.
Alfred franziu o sobrolho claro e lançou um grunhido indignado.
_ Fica sabendo, seu inglês de merda, que eu seria glorioso num desses. De facto, salvaria o teu rabinho lingrinhas de umas quantas dentadas.
_ Pff, eu sou um Kirkland. Nós fazemos tudo, incluído matar zombies. É porque raio é que iriam morder-me o rabo? – Perguntou Arthur, ignorando o insulto de “Inglês de merda” que Alfred usava quando fingia estar ofendido.
_ Hum? – Fez Alfred, distraído – Bem provavelmente achavam que era a parte mais saborosa do teu corpo. E além disso as tuas nádegas são a única parte de ti que tem alguma carne, o resto é só pele e osso. Se eu fosse um zombie, ia instintivamente em direção do teu rabo.
_ Esta conversa está a ficar muito estranha. – Disse Arthur. As suas faces aqueceram e ele teve uma vontade imensa de cobrir o traseiro com as mãos para evitar danos dolorosos. – E eu não sou só pele e osso. Lá porque não sou um gorila como tu, não quer dizer que seja anorético.
_ Se eu sou um gorila, o que é que o Ivan Braginsky é? – Perguntou Alfred com uma sobrancelha erguida.
_ Uma baleia azul?
_ Parece-me bem. – Alfred sorriu docemente com a resposta do amigo. Pegou na espátula e começou a retirar a carne frita do óleo a ferver, colocando de seguida num tabuleiro metálico já repleto de comida da mesa espécie. – Então, Artie-kins do meu coração, como é que foi a discução do teu projeto?
_ Foi bem. Afinal o cliente já lá estava. É alemão, sabes? Um Ludwig qualquer coisa. Ele gostou do meu trabalho, mas vai mostrar o projeto ao parceiro dele para ver se este também gosta.
_ Parceiro? – Perguntou Alfred curioso.
_ Sim. Não sei se é sócio, amigo ou namorado, mas o homem também não nos deu pormenores da sua vida pessoal. Talvez tinha medo que o meu pai fosse um homem extremamente homofóbico e se recusasse a trabalhar para ele.
_ Então devias contar a esse Ludwig que também jogas para a equipa dele.
_ Como é que o facto do conhecimento da minha homossexualidade ajuda alguém, Alfred?
_ Ajuda outros meninos a saberem que o teu rabo está disponível.
_ Outra vez com conversas do meu rabo! Por Zeus, até pareces obcecado! Devo ficar preocupado com a segurança da minha porta de trás?
_ Não pela minha parte. Mas nunca se sabe, existe tarados por aí. Não te preocupes, Artie-kins, eu protejo o teu rabiosque de potenciais tarados. Podes sempre contar comigo para isso. – Disse Alfred com um sorriso brilhante e encorajador.
_ Quem bom saber isso. É um alívio. – Fez Arthur sarcasticamente e rolou os olhos – Se não te importas, agora que já vi que estás vivo, vou ajudar a Elizaveta com as decorações, antes que ela me decida dar-me um excerto de porrada.
_ Vai lá, meu amigo, salva o teu corpo lingrinhas da dor dos murros mortais da nossa queria Lizzie.
_ O meu corpo não é lingrinhas! – Resmungou Arthur ao dirigir-se para a porta. Ouviu o riso cansado de Alfred enquanto saia da cozinha e enfrentou o mau humor de uma Elizaveta stressada.
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Como eram uma comunidade relativamente pequena, a maior parte das festas faziam-se no Bar/Restaurante dos Jones. Naquela noite fresca de lua nova celebrava-se o décimo sexto aniversário de Lily Zwingli, irmã de Vash Zwingli, um homem rezingão que vendia materiais de caça.
Toda a vila apareceu. Elizaveta teve que obrigar Matthew a servir à mesa com ela e Arthur, ainda que o gémeo de Alfred fosse um bocado desastrado com os tabuleiros. Derramou cerveja para cima de uma data de gente, mas, passado um bocado, já estavam todos demasiado alegres para se importarem.
Katyusha, a mulher de Matthew, tinha invadido a cozinha, apesar dos esforços de Elizaveta para a manterem sentada. Alfred deu-lhe tarefas simples para que ela não se esforçasse demasiado ou levantasse pesos. Não queria que a sua cunhada pensasse que era inútil, mas também não queria levar uma mulher grávida de sete meses á exaustão.
_ Kat. – Chamou Alfred com suavidade. – Podes levar este tabuleiro lá para dentro? – Pediu enquanto gesticulava para o tabuleiro cheio de taças de pudim que já solidificaram.
Katyusha anuiu, largou a sua tarefa de descascar batatas e levantou-se, afagando carinhosamente a sua barriga dilatada enquanto o fazia. O tabuleiro com os pudins não era muito pesado, graças aos céus, ou Alfred nunca lho punha nas mãos.
Alfred observou-a a ir para o bar, toda contente por ser mais útil do que só descascar batatas, e sorriu levemente. Ele gostava da sua cunhada. Ela era amável e simpática, bastante parecida em personalidade com Matthew. Juntos faziam um casal amável e simpático, sempre todos românticos no entanto um pouco tímidos em público. Mostravam o seu carinho em beijos castos e mãos entrelaçadas, mas era óbvio que sua intimidade não parava ali por de trás de quatro paredes, ou a barriga de Katyusha continuaria lisinha e perfeita.
_ Eles dizem que os piores são os calados. – Murmurou Alfred para ninguém e começou a grelhar hambúrgueres pois, conhecendo os clientes como conhecia, por volta da meia-noite durante uma festa, toda a gente ficava com fome.
Ouviu risadas estridentes vindos do outro lado da porta e a voz grossa de Scott Kirkland ecoar pelas paredes. Não consegui entender o que se era dito, mas parecia divertido.
Alfred suspirou, cansado e ligeiramente deprimido. Ele adorava cozinhar e adorava ver os outros felizes, mas estava cansado de ter que ficar a trabalhar sempre que havia uma festa. Por uma vez, só por uma vez ele gostava de puder relaxar com o resto da população da vila, rir-se de piadas e beber cerveja. Queria fazer aqueles jogos que fazia quando era adolescente, embebedar Arthur e ser insultado de forma ridícula pelo amigo.
Começou a virar os hambúrgueres para estes não se queimarem num só lado quando a porta se abriu. Pestanejou ao virar a cabeça na direção do barulho e sorriu docemente ao ver a única rapariga da ninhada dos Kirkland, Eireen, entrar timidamente na cozinha, com o seu rosto branco estranhamente colorido por um rubor de embaraço.
_ Viva Eireen. – Cumprimentou Alfred com bom gosto – O teu irmão está a dizer piadas demasiado porcas?
A jovem de dezanove anos franziu as suas sobrancelhas ruivas enquanto outra onda de gargalhadas quase explodia com o estabelecimento. Com os seus dedinhos finos, colocou uma madeixa escarlate atrás da orelha e fungou baixinho.
_ Não sei como é que ele consegue dizer aquelas coisas à frente da nossa mãe. E ela deixa! Se fosse eu, já estava de castigo durante três meses. – Queixou-se ela, aproximando-se do grelhador onde Alfred trabalhava. – Mas não foi para fugir dele que eu vim aqui. Eu… — Corou mais uma vez -… Eu vim dizer “olá”.
Alfred inclinou a cabeça.
_ Olá?
_ Sim, olá. – Confirmou Eireen ainda toda corada – Eu… hum… queria saber como estavas. Nunca tivemos muito tempo para conversar, e eu agora entrei na faculdade e quando nos vemos estás sempre com o Arthur, por isso… olá.
_ Oh… — Fez Alfred estupidamente, sem saber bem o que dizer – Olá. Como… como vão as aulas?
_ Vão bem, obrigado. Vida de universitária é mais complexa do que eu pensava que iria ser. – Admitiu ela com um pequeno sorriso.
_ Estou a ver. E rapazes? Algum namorado que eu tenha que ameaçar para ter a certeza que ele não te magoa? – Perguntou Alfred na brincadeira, retirando os hambúrgueres cozinhados do grelhador.
Eireen manteve um rosto sereno, mas Alfred conseguiu ver o seu descontentamento pela forma como ela curvava ligeiramente as sobrancelhas. Era algo que ela e Arthur tinham em comum.
_ Não. Existem uns que estão bastante interessados. – Respondeu ela e olhou-o intensamente, como se esperasse algum tipo de reação profunda. Alfred limitou-se a anuir – Mas espero ganhar um namorado em breve. – Murmurou Eireen baixinho enquanto se aproximava – Já tenho os meus olhos em alguém muito… específico. – E colocou a sua mão no braço de Alfred.
De repente aquilo começou a ficar tudo muito desconfortável para o nosso americano, que não sabia bem como reagir. Ali estava Eireen Kirkland, a rapariga que ele, quando a conheceu, mal tinha saído das fraldas, de momento a encostar o seu corpo curvilíneo ao dele enquanto o olhava sedutoramente.
Deus do céu, ela tinha dezanove anos! Ainda era uma criança! Deveria andar a pensar nessas coisas?! Ela mal era legal! Nem tinha idade para beber!
Felizmente, ou infelizmente, dependendo do ponto de vista, foram interrompidos por Arthur, que abriu a porta da cozinha de repente com o pé, visto que as suas mãos estavam ocupadas com pratos vazios e talheres imundos.
Arthur parou como uma estátua ao ver a sua irmã toda grudada ao seu melhor amigo. O seu olhar de jade dissolveu o choque para dar lugar à raiva e Alfred de repente desejou imenso que tivesse sido Elizaveta a entrar em vez do inglês.
_ O que é que se passa aqui? – Rosnou Arthur num tom feroz. Colocou os pratos na bancada com um cuidado impressionante para alguém que parecia estar furioso.
_ Nada. – Respondeu Eireen calmamente, mas também ela mostrava irritação pelo aparecimento do irmão – Graças a ti. – Sussurrou entre dentes, mas Alfred ouviu-a e sentiu-se deveras desconfortável.
_ Eireen, não podes estar aqui. A cozinha é só para funcionários e tu estás a incomodar o Alfred.
_ Oh eu não me importo que ela esteja aqui. – Disse Alfred num tom mais calmo do que se sentia. Arrependeu-se logo de ter dito o que quer que seja ao ver a expressão extasiada de Eireen e o olhar mortífero de Arthur.
_ Vês! Ele não se importa. – Fez Eireen toda vitoriosa – E não sei qual é o problema, só estamos a conversar.
Arthur pareceu hesitar, como se quisesse dizer algo, mas não tivesse coragem para o fazer. Mordeu o lábio repetidamente, desviando os olhos para o chão até se dicidir e encarar a irmã.
_ Vai tomar conta do Peter. Ele está com ideias de ir brincar para o lago a esta hora.
_ Ugh! Ele tem mais quatro irmãos! Porque é que eles não tomam conta dele? – Perguntou Eireen num tom indignado.
_ Eu estou a trabalhar, o William já foi para casa com a mulher dele e os outros dois estão mais bêbados que um barril.
_ Meu Deus! Estou amaldiçoada com esta família de idiotas e alcoólicos! – Queixou-se ela num tom extremamente infeliz. Virou-se para Alfred, abrindo muito os olhos e puxando os lábios um pouquinho mais para fora, numa tentativa de se tornar apelativamente fofa – Adeus, Alfred. Gostava de falar mais, mas o Peter tem menos neurónios do que uma criança normal.
Quando ela se colocou em bico dos pés para lhe dar um beijo na face, Alfred soube, pelo olhar bravo de Arthur, que estava completamente fodido.
E não da boa maneira.
Eireen deslizou pela cozinha, lançou um grunhido de desprezo a Arthur e desapareceu pela porta.
Houve um silêncio desconfortável entre os dois amigos. Era algo que não acontecia desde que Arthur saíra do armário e já lá tinham passado dez anos. Alfred ocupou-se de colocar mais hambúrgueres no grelhador e a quietude pesada foi cordada pelo estalar da carne a aquecer.
_ Afasta-te dela. – Disse Arthur baixinho.
_ Hum?
_ Afasta-te da Eireen, ou eu juro que vai-te arrepender!
Alfred ergueu a sobrancelha e rapidamente começou a virar a carne.
_ Porque é que estás tão defensivo quanto a isto? – Perguntou, genuinamente curioso. Arthur nunca mostrara qualquer interesse na vida sexual dos irmãos mais velhos, não havia razão para estar tão zangado pela amostra de interesse vinda da irmã.
Céus, dos dois presentes na cozinha, Alfred é que deveria estar chocado. E estava, só conseguia disfarçar bem.
_ Porquê?! Ela é a minha irmã!
_ E daí?
_ E da… Alfred F. Jones, tu nem penses em tocar com um dedo que seja na Eireen, ou eu juro que não vais conseguir utilizar as mãos por muito tempo! Eu não quero que ela se envolva com homens com tu.
Aquilo estava a tornar-se desagradável. Alfred sentiu que havia algo mais do que instinto protetor fraternal naquela raiva toda, mas não conseguia ver bem o que era exatamente.
Além disso, ele tinha a certeza que Arthur acabara de o insultar.
_ Homens como eu?
_ Sim. – Arthur colocou as mãos na cintura – Homens como tu.
_ O como são os homens como eu? Parece-me estar a escapar qualquer coisa.
_ Homens que seduzem mulheres, dormem com elas e depois vão-se embora sem mais nem menos.
_ Admito que já seduzi muitas mulheres e dormi com todas elas, mas digo-te já que tanto eu como elas deixamos muito claro que a única coisa que queríamos era uns bons momentos de sexo. – Disse Alfred friamente. Ele raramente falava em tal tom mas não estava a apreciar o facto do seu melhor amigo estar a acusá-lo de ser um sacana garanhão que só pensa com a pila.
_ Ela é a minha irmã!
_ Eu não quero dormir com a tua irmã, raios! E mesmo que quisesse, não era da tua conta! – Alfred estava quase a desesperar. Ele raramente tinha discussões graves com Arthur. Se ralhavam um com outro? Claro, até com frequência, mas geralmente eram sobre coisas estupidas e nenhum deles as levava a sério.
_ Não é da minha conta? Ela é a minha irmã! – Retorquiu Arthur indignado.
_ Vou repetir: E daí? Ela é adulta, não é? Vais andar a perseguir todos os seus pretendentes, sem qualquer motivo aparente a não ser: Ela é a minha irmã? O que ela faz e com quem dorme ou deixa de dormir não é da tua conta. Se eu quiser dormir com ela, então durmo. E se o fizer, é um assunto meu e dela e tu não terás nada a dizer ou fazer quanto a isso.
Alfred observou a cara do amigo a ficar gradualmente vermelha até chegar a um ponto em que parecia que ia entrar em combustão espontânea.
_ Se tu puseres um dedo sequer em cima dela…!
_ Tu dás-me uma sova, já percebi. E eu não quero dormir com ela. Só queria que soubesses que acho muito errado andares por aí a armar-te ditador da sua vagina como se ela não fosse senhora de si mesma.
_ Ela tem dezanove anos, ainda é uma criança!
_ Quando tínhamos dezanove anos eramos muito concorridos. – Retorquiu Alfred com uma sobrancelha erguida – Pelo menos eu era. Não sei quanto a ti, sempre foste mais reservado quando a isso.
_ Não me interessa o que é que fazíamos quando tínhamos dezanove anos ou não! Tu não vais dormir com ela e se o fizeres, vou fazer com que não tenhas sexo com mais ninguém!
_ Arthur, eu realmente não estou com paciência para continuar esta discussão. Eu já te disse que não quero dormir com ela. Podes continuar a ralhar e ralhar, como um chiwawa nervoso, mas a partir de agora vou deixar de te responder. Tenho pessoas para alimentar.
Virou-se para os seus hambúrgueres, que estavam mais torrados do que o habitual, graças à distração. Retirou-os rapidamente do grelhador a fim de evitar mais estragos e começou a preparar o pão e os outros acompanhamentos.
O silêncio do inglês encheu-o de culpa, pois Alfred poderia falar com frieza para muita gente e até ser bastante mauzinho, mas não com Arthur, nunca com Arthur. As suas mãos pararam em cima de um pedaço redondo de carne, pronto a levar alface por cima, quando ele olhou por cima do ombro.
Arthur estava ao lado do lavatório e envergava uma expressão extremamente descontente. Alfred conhecia-o bem o suficiente para saber que ele estava zangado com tudo, incluindo a si mesmo.
Largou os hambúrgueres com um suspiro e virou-se para o amigo.
_ Olha, eu não quero ficar chateado contigo, mas… mas essa tua falta de confiança para comigo estava-me a irritar profundamente. Achas mesmo que eu magoaria a Eireen?
Arthur ergueu a cabeça. Tinha os olhos muito abertos e Alfred viu-se mais uma vez a admirar a cor de jade que eles mostravam.
_ Não. É claro que não. É só… eu não quero que durmas com ela. – Fez o inglês baixinho.
_ E eu já disse que não vou dormir. Tens de confiar em mim. Além disso, ela é como uma irmã para mim, e eu não tenho fetiches por incesto. – Brincou ele, tentando animar o ambiente.
Mas Arthur pareceu ainda mais miserável ao ouvir as palavras dele, só mesmo por um segundo, até forçar um sorriso para acompanhar Alfred na sua busca por paz naquela relação.
_ Pois… ainda bem. A Elizaveta provavelmente precisa de mim lá dentro, eu… eu vou até lá. – Disse Arthur desajeitadamente.
_ Está bem. – Mas Alfred não podia deixar as coisas assim, tão tensas e complexas, entre ele e o melhor amigo – Hei!
Ele agarrou no braço de Arthur antes que este pudesse escapar e puxou-o para o seu peito. A sua mãe sempre lhe disse que abraços resolviam tudo e com o inglês ainda não tinham falhado.
Arthur pareceu paralisar nos seus braços por alguns segundos, antes de relaxar e retribuir o abraço.
Ele era quente, pensou Alfred enquanto enterrava o rosto nos cabelos desalinhados de Arthur. Era quente e cabia perfeitamente nos seus braços. Era um abraço confortável, sem ser forçado, sem magoar braços por estarem muito em cima ou muito em baixo.
Era perfeito.
_ Eu tenho a certeza que é gay se dois homens que não tem qualquer laço de sangue se abraçarem por mais de cinco segundos. – Murmurou Arthur. A sua voz era abafada pelo peito de Alfred.
_ Ah, não sejas assim, tu sabes que gostas.
Arthur grunhiu qualquer coisa, mas não deu resposta positiva ou negativa.
Alfred sentiu-se mais reconfortado do que deveria. Ele estava exausto, já não dormia à tanto tempo e tinha passado horas e horas a trabalhar. Aquela discussão toda tinha contribuído para um cansaço ainda maior e mais intenso. Abraçar Arthur acalmava-o. Dava-lhe uma sensação de nostalgia e memórias de rapazinho, de quando os dois corriam pelo mato ou tentavam apanhar peixes com as próprias mãos no lago.
Era agradável.
_ Estamos bem? – Perguntou Alfred num sussurro cauteloso.
Ouviu Arthur suspirar pesadamente e sentiu as mãos dele percorrerem um trilho algures perto das suas omoplatas.
_ Estamos.
E o inglês afastou-se. Alfred sentiu de imediato a falta do calor e conforto do outro, mas deixou-o ir.
Ainda tinham que trabalhar.
Não disseram nada. Trocaram um olhar de entendimento e cada um foi á sua vida. Arthur saiu pela porta e Alfred virou-se de novo para os seus hambúrgueres.
Mas ainda sentia o peso, culpa e ressentimento da discussão no seu peito enquanto mais gargalhadas explodiam pelo edifício.
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