Sure, Why Not?
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A névoa da manha ainda pairava com suavidade entre as árvores, escondendo-as parcialmente num manto esbranquiçado e leitoso. As ervas que cobriam o chão enchiam-se de geladas gotículas de água que, dali a algumas horas, iriam brilhar como pequenos diamantes assim que o sol conseguisse vencer a espessura do nevoeiro.
Ao observar toda aquela beleza através da janela, Alfred podia calcular que estaria um gelo lá fora. Arrepiou-se um pouco e apertou com mais força a sua caneca de café. Inspirou profundamente, inalando o aroma amargo da sua bebida favorita e lançou um leve som de apreciação.
Não havia nada melhor do que observar a beleza gelada da natureza por detrás da sua janela da cozinha, onde estaria um calor agradável e aconchegante.
Colocou a chávena no balcão da cozinha e, ao olhar para a máquina de café, descobriu que a tinha deixado novamente ligada, como era habitual na sua pessoa. Carregou no botão que desligava o aparelho com um suspiro, sentindo-se ligeiramente irritado pela sua falta de atenção.
Alfred F. Jones tinha muitos defeitos. Diziam quase todos os habitantes da pequena cidade norte americana onde ele vivia. Defeitos irritantes mas inofensivos. Já tinham desistido de o tentar mudar, visto que um desses defeitos era uma teimosia enorme e inquebrável.
Mas o nosso Alfred não queria mudar. Ele gostava da sua vida como estava naquele momento. Tinha uma casa, pequena mas confortável, um emprego que adorava e um sobrinho a caminho, pois Matthew, o seu querido irmão, tinha herdado os bons dotes da família. Engravidara a sua recém-esposa em menos de um mês de casamento.
Aquilo era material de qualidade.
Um leve “ping!” avisou-o de que o bolo que ele tinha metido a cozer no forno estava pronto. Com um pequeno sorriso, Alfred atravessou a cozinha, pegou num pano que estava ao pé do lavatório e abriu a porta metálica do forno.
O aroma doce de um bolo acabado de cozer pairou pela divisão, deixando Alfred deliciado. Mais uma vez agradeceu silenciosamente ao seu primo mais velho, filho do seu tio e de uma francesa, Francis, que lhe ensinara tudo o que tinha que saber para ser um bom cozinheiro.
Isso, e lidar com as senhoras.
Cuidadosamente, protegendo as suas mãos com o pano velho, pegou na forma metálica e retirou-a do forno.
Houve subitamente o som da campainha e Alfred, com o susto, quase deixou cair o seu precioso bolo. Com o palavrão que deixaria a sua mãe chocada, o jovem de vinte e sete anos posou o doce na banca da cozinha e apressou-se a caminhar para a porta de entrada.
Enquanto se deslocava a campainha tocou mais três vezes. Alguém estava com pressa.
Algo ligeiramente irritado, Alfred abriu a porta de repente, dando caras com os grandes e bastante expressivos olhos verdes de Arthur Kirkland.
A irritação sumiu-se por completo, como se tivesse sido sugada por um aspirador invisível. Um sorriso caloroso apareceu-lhe nos lábios e um leve som de apreciação escapou pela sua garganta.
_ Viva, Arthie. – Disse ele animadamente e encostou-se à ombreira da porta – Não és o Kirkland que eu estava à espera esta manhã.
Se o olhar matasse, Alfred já estaria estendido no chão. Arthur podia não ser muito grande ou impressionante se falássemos do seu físico, como o seu pai e irmãos, na verdade, quando era visto a uma certa distancia, até parecia ser bastante inofensivo. Mas havia algo nos seus olhos de jade que faziam os homens mais viris estremecerem como varas verdes.
Alfred, por outro lado, já estava imune a tal olhar mortal. Depois de uma vida inteira a conviver com ele, era de esperar que se criasse alguma resistência.
_ O que quer que seja que os meus irmãos façam, eu também posso fazer. — Disse Arthur com frieza – Posso entrar?
Alfred afastou-se para o lado para lhe dar passagem e Arthur dirigiu-se de imediato para a cozinha, com uma caixa metálica na sua mão esquerda. O jovem americano fechou a porta com um suspiro, porem continuava a sorrir, animado pela companhia do outro.
Quando voltou para a cozinha viu Arthur debruçado pelo seu bolo, de olhos fechados, a inalar o aroma doce e convidativo.
_ Cheira bem, não cheira? – Perguntou Alfred de bom humor – Não lhe toques, está quente. Acabei de o tirar do forno.
_ É um bolo de quê? – Indagou o outro enquanto colocava a sua caixa metálica em cima da mesa.
_ Chocolate. Se fores um bom menino, dou-te uma fatia.
Arthur rolou os olhos e abriu a caixa. Retirou de lá duas luvas espessas, que utilizava para não magoar as suas mãos estranhamente delicadas para a vida que levava.
_ Muito bem, Jones. Qual é o problema? – Perguntou ele, sotaque inglês a enrolar-lhe a língua.
_ Os canos do meu lavatório pingam cada vez que eu o utilizo. – Respondeu Alfred calmamente – É muito irritante.
_ Hum. – Arthur abriu as portas do armário onde o lavatório se encontrava e analisou os canos por alguns momentos. Levantou-se momentaneamente para abrir a torneira e voltou a colocar-se de cocaras enquanto observava os pingos de água caírem na madeira do armário.
Alfred deixou-o fazer o seu trabalho, concentrando-se em retirar o bolo da sua forma de metal. Como não gostava de estar acompanhado e não dizer nada, decidiu começar uma conversa.
_ Como vai a família? – Perguntou casualmente.
_ Vai bem. – Arthur dirigira-se novamente para a sua caixa de metal e de lá retirou inúmeras ferramentas – Não me parece muito grave. – Disse enquanto apontava para o lavatório – Ainda bem que não te armaste em herói e tentaste arranjar aquilo sozinho. Ainda fazias pior.
E, sem dizer mais nada, fechou a torneira, colocou-se de gatas e enfiou-se parcialmente dentro do armário.
Alfred franziu o sobrolho.
_ Eu sei usar uma chave de fendas, Arthie. – Disse enquanto olhava para dentro da caixa que Arthur tinha trazido.
_ Eu também sei usar um forno. – Respondeu Arthur por dentro do armário num tom aborrecido – No entanto o que sai de lá é uma valente merda.
Não conseguindo evitar um sorriso com as palavras do outro, Alfred lançou um pequeno olhar na sua direção. Não ficou chocado por ver o rabo do seu amigo espetado no ar, a abanar ligeiramente enquanto Arthur trabalhava nos canos do lavatório.
Alfred agradeceu a todas as entidades divinas que poderiam existir por ter sido Arthur a vir arranjar o seu lavatório e não um dos seus irmãos ou o seu pai, pois a vista não seria tão agradável se fosse o caso. Apesar de ele não se sentir atraído pelo pequeno e rabugento Arthur Kirkland, também não podia negar que o inglês tinha um rabo jeitoso.
Decidindo que estava a ser rude por observar demasiado o traseiro do seu querido amigo de infância (e porque Arthur, se o apanhasse a fazê-lo, iria arrancar-lhe os tomates), Alfred decidiu que era melhor ocupar-se com outra coisa qualquer.
_ Queres que te faça um chá, Arthie-kins? – Perguntou docemente.
O grunhido primitivo que veio de dentro do armário parecia uma resposta positiva.
Utilizou água de um garrafão, pois se abrisse a torneira era capaz de levar um murro na cara pela parte de Arthur. Verteu o líquido para um tacho e colocou-o a aquecer ao lume do fogão. Enquanto esperava que a água fervesse, foi buscar uma das saquetas de Earl Grey que tinha sempre na prateleira ao lado janela. Chá era algo que Alfred não apreciava, mas sabia que pessoas como Arthur quase não podiam viver sem tal coisa e como gostava de manter os seus convidados satisfeitos, tinha sempre uma reserva de chá algures na cozinha.
Após mais uns grunhidos e uns quantos palavrões, Arthur saiu de dentro do armário e ergueu-se. Abriu a torneira, verificou se estava tudo operacional e sorriu vitorioso.
Virou-se para Alfred e fechou a porta do armário com o pé.
_ Está tudo pronto. E se bem me lembro, foi-me prometida uma fatia de bolo.
_ Eu disse que te dava bolo se fosses um bom menino. Como tens a boca de um marinheiro, acho que não mereces nada.
_ Eu volto a partir-te o nariz.
Alfred torceu o órgão mencionado, lembrando-se da estupida ideia que tivera anos antes em ensinar Arthur a jogar basebol. Tinham ambos quinze anos e o americano subestimara a força do outro (Arthur não tinha sido o adolescente mais desenvolvido naquelas bandas). Depois de insultar rudemente o inglês, Alfred nem sequer tivera tempo de se desviar da bola que foi disparada em direção da sua cara.
Foi uma viagem direta ao hospital.
_ Nós não queremos isso, pois não? – Perguntou Alfred retoricamente e cortou uma fatia do seu bolo acabado de fazer. – Ainda está quentinho. Vais buscar-me dois pratos, por favor?
Arthur anuiu, retirou as luvas e foi em direção do móvel onde Alfred tinha a sua loiça. Quando regressou trazia nas suas mãos dois pratos simples. Alfred distribuiu duas fatias a cada um e fez menção a Arthur para este se sentar.
_ Vou buscar o teu chá. – Disse ele ao inglês, que já se instalara numa cadeira.
Alfred gostava de todos os membros da numerosa família Kirkland. Eram quase como uma segunda família. Mas de todos eles, Arthur era o seu favorito. Talvez fosse o facto de estarem ambos na mesma faixa etária, ou de já serem amigos desde que eram rapazinhos inocentes, mas Alfred sentia-se mais livre e relaxado quando Arthur estava presente.
Colocou uma chávena fumegante em frente de Arthur, já preparada com Earl Grey, duas colheres de açúcar e um pouquinho de leite. Alfred já sabia o que o outro gostava.
_ Estás sempre a mimar-me. – Disse Arthur num tom constrangido e as suas bochechas pálidas tomaram uma cor rosada. Ele ficava assim sempre que Alfred lhe fazia alguma coisa atenciosa, fosse chá ou entregar-lhe um ramo de flores pelo dia de S. Valentim.
_ Eu mimo quem merece. – Respondeu Alfred animadamente – Agora toca a papar o meu bolo. É uma receita nova e eu preciso de alguém para ser minha cobaia.
Arthur lançou-lhe um ar desconfiado.
_ Foi por isso que o fizeste hoje? Porque sabias que eu ou um dos meus irmãos vinha cá para arranjar o teu lavatório?
_ Claro! – E lançou-lhe o seu maior e mais brilhante sorriso.
Com um rolar de olhos aborrecido, Arthur arrancou um pouco de bolo com os dedos e levou-os à boca. Mastigou com cuidado, testando a textura e o sabor enquanto Alfred o observava com algum nervosismo.
_ Está diferente do que é habitual vindo de ti. – Disse o inglês por fim – Mas é agradável.
_ Essa é a tua maneira de me dizer que está fantástico, mas que o teu orgulho te impede de o fazer?
Arthur fez um ar embaraçado e enfiou outro pedaço de bolo na boca.
Ficaram os dois em silêncio por um bocado, apreciando a companhia de um do outro enquanto se empanturravam com bolo de chocolate acabado de fazer.
_ A minha mãe vai fazer scones amanhã. – Informou Arthur de repente – Queres aparecer por lá? Ela tem saudades tuas.
_ Huuum… Scones da Helen Kirkland? – Alfred já se estava a babar só de pensar nas delícias inglesas — Os melhores de sempre. Conta com a minha presença. Ninguém bate aquela mulher. Ainda não consegui fazer um bolo que fosse tão bom e bonito como os que a tua mãe faz.
_ Os teus bolos são ótimos em termos de sabor. O problema é que escolhes as cores mais berrantes para a cobertura. Parecem radiativos, Alfred, ninguém quer comer algo que se assemelhe a uma fonte de tumores.
_ Ou uma fonte de superpoderes.
_ O mundo não é um livro de banda desenhada. – Soltou Arthur num tom seco e deu um gole no seu chá.
_ Mas era bom se fosse, não? – Alfred lançou um olhar sonhador para a janela e suspirou – Fazer a vida a salvar o mundo, combater o crime, revelar a nossa identidade secreta à miúda que está sempre a ser raptada pelos nosso inimigos porque eles sabem que ela é importante para nós e depois salvamo-la uma ultima vez e ela dá-nos aquele beijo que fica para a história. E depois comemo-la no capô do carro.
_ Eu nunca vi essa parte num livro de banda desenhada de super-heróis. – Comentou Arthur, obviamente desagradado pela última frase do outro.
_ Ora, seria a minha versão, como era evidente. Não há nada melhor do que comer alguém no capô do carro.
Arthur fez um olhar estranho, como se estivesse indeciso se queria continuar a conversa ou não.
_ Falas nisso por experiencia própria, ou…?
_ É claro que falo por experiencia própria, Arthie. – Respondeu Alfred com uma sobrancelha erguida – Como é que eu haveria de saber se fosse de outra forma?
_ Com quem…? Sabes que mais, esquece, não quero saber. – O rosto de Arthur mostrou todo o seu descontentamento pelo tema de conversa.
_ Mas eu posso dizer-te com quem foi, Arthie, não tenho vergonha.
_ Eu disse que não quero saber.
_ Mas tu conhece-la! Andou na escola connosco!
_ Alfred, tem dó.
_ Está bem, está bem – Disse Alfred com um sorriso no rosto – Eu mudo de conversa se esta te faz assim tão desconfortável. – Engoliu mais um pedaço de bolo – Vais à festa de amanhã?
_ A Elizaveta matava-me se não fosse. Ela quer a minha ajuda para servir mesas. – Lançou um olhar curioso a Alfred – Vais precisar de ajuda na cozinha? A minha mãe ofereceu-se para te ajudar.
_ Nah, eu safo-me bem sozinho. E nem te atrevas a tentar ajudar-me, sabe-se lá que horror é que de lá saía.
_ Eu não cozinho assim tão mal. – Defendeu-se Arthur com o rosto a arder. Era mentira, ele era horrível na cozinha. Já pegara fogo aos cortinados floridos da sua mãe a preparar um simples ovo frito.
_ Ainda há pouco me disseste que tudo o que cozinhavas era uma merda.
_ Estava a exagerar!
_ É claro que estavas. – Concordou Alfred com um sorriso que mostrava que ele pensava o contrário.
Arthur grunhiu e acabou com a sua fatia de bolo. Arrumou as suas coisas e colocou o prato no lavatório.
_ Já te vais embora? – Perguntou Alfred, desanimado. Ele sentia que não passava tempo suficiente com o seu rabugento amigo. Estavam ambos ocupados com as suas próprias vidas e trabalhos e mesmo quando Arthur ia ao restaurante não tinham tempo para conversar.
_ Tenho que discutir um projeto com o meu pai e o Brody antes de o entregarmos ao nosso cliente. – Respondeu Arthur num tom calmo, antes de acabar o seu chá, mesmo em pé.
_ Estou a ver. – Murmurou o americano antes de também se levantar – Bem, não iremos atrasar um potencial negócio para os rapazes da família Kirkland, não é? Anda, Artie-kins, eu levo-te à porta.
Guiou Arthur pelo corredor, até chegar à entrada da sua casa. O inglês abriu a porta e saiu, ficando parado no jardim enquanto estendia a mão na direção de Alfred, à espera que este a apertasse num gesto de despedida.
Mas Alfred simplesmente ergueu o braço e apertou a bochecha pálida de Arthur, enquanto este lhe lançava o olhar mais ameaçador que alguma vez existira.
_Porque é que não passas cá mais vezes para beber um chá comigo? Pode ser mesmo a esta hora, antes do trabalho. – Pediu Alfred suavemente.
_ Não sei. Se tudo correr bem, vou ficar bastante ocupado nas próximas semanas. – Ao ver o olhar triste do americano, Arthur apressou-se a acrescentar – Mas vou tentar vir de vez em quando! Eu telefono-te mais tarde. Se não o fizer, digo à Elizaveta e ela depois fala contigo.
_ Muito bem, Artie! – Alfred passou a mão nos cabelos do amigo num gesto fraternal, desalinhando ainda mais o penteado rebelde do inglês – Vemo-nos amanhã na festa, está bem.
_ Está bem, está bem. – Resmungou Arthur enquanto tentava futilmente alinhar os seus cabelos – Até amanhã. – E virou costas.
Alfred ficou a observa-lo durante algum tempo, admirando a maneira como as suas ancas oscilavam quando Arthur caminhava. Mas depois apercebeu-se do quão perturbador estava a ser e voltou a entrar dentro de casa.
---------------------------------------
Arthur sentia o rosto a arder enquanto entrava na sua carrinha. Arrancou de imediato, ficar ali em frente da casa de Alfred parado durante muito tempo não iria parecia algo normal para os vizinhos.
Havia um desejo dentro dele, algo quente e apaixonante, uma ansia que não deveria existir, não por um amigo tão querido como Alfred.
Conheciam-se á tanto tempo, quase vinte anos. Estiveram sempre juntos para tudo, mesmo nos horrendos anos da adolescência onde as barreiras da vida social geralmente cortavam amizades de infância. Mas Alfred sempre fizera questão de manter contacto com Arthur ainda que este tivesse sido um punk gay rebelde que só fazia esterco e o outro um atleta mulherengo que também tinha no seu currículo uma quantidade razoável de partidas a alunos inocentes.
Parecia errado ter tal interesse por Alfred, que provavelmente o via como uma espécie de irmão estranho britânico que de vez em quando servia à mesa no restaurante/bar de família. Os dois tinham uma amizade boa e um carinho especial, e Arthur não queria manchar tal coisa com impulsos sexuais incómodos.
Mas também não conseguia impedir-se de sentir vontades menos puras para com o seu amigo. Alfred tinha-se tornado num bom homem; atencioso, brincalhão, atraente e bom cozinheiro. E Arthur nem gostava muito de cozinheiros, especialmente quando passara tantos anos a ser humilhado pelo grandioso e absolutamente nojento Francis Bonnefoy.
Os rumores e fofoqueiras que Arthur ouvia pela parte das jovens senhoras solteiras também o deixavam extremamente curioso. Alfred era um amante apaixonado, diziam elas com risadinhas estridentes, cheio de genica e atento às necessidades do parceiro. Tais coisas não fizeram nada bem à imaginação hipercativa de Arthur e também lhe causaram um estranho ataque de ciumeira inexplicável. Por alguma razão ele não gostava de pensar em Alfred envolvido com outras pessoas.
Ora, se Arthur soubesse que Alfred era totalmente hétero, já tinha deixado de pensar tais coisas, mas as aventuras que o seu amigo tivera com Ivan Braginsky não lhe passaram despercebidas. Até tinha sido bastante falado pela comunidade, pois os dois pareciam odiar-se tanto. Arthur, por sua vez, naquela altura não dera a sua opinião. Alfred era um homem grandinho e sabia cuidar de si, mesmo quando estavam a falar de uma relação com o gigante e perturbador russo.
Ao saber que Alfred tinha um historial homossexual na lista de parceiros, o cérebro de Arthur continuava a obriga-lo a pensar constantemente no seu amigo. Era desconcertante, porque a sua mente trazia-lhe os pensamentos picantes nos momentos mais inoportunos, como ainda uns minutos atrás, na cozinha de Alfred, Arthur só queria que o americano o atirasse para cima da mesa, rasgasse as suas roupas com aquelas mãos fortes e… e…!
_ Para com isso! – Ralhou Arthur para si mesmo. O seu rosto fervia com embaraço e ele começava a sentir-se demasiado contente por entre as pernas. – Céus! Ultimamente andas insuportável, Arthur! Precisas de uma queca.
Uma queca com o Alfred seria o melhor. Era o que dizia aquela vozinha irritante no seu cérebro que, por alguma razão, tinha um valente sotaque francês.
_ Não! Não vou dormir com nenhum Alfred! Gáh! – Abanou a cabeça para retirar os pensamentos impuros da sua mente, quase atropelando um gato vadio pelo caminho.
Estacionou no passeio ao lado da oficina da sua família e retirou-se da carrinha com grunhidos mal-humorados. Às vezes conseguia ficar demasiado irritado consigo mesmo, coisa que o deixava amuado durante vários longos períodos de tempo e ele tinha a certeza que tais sentimentos para consigo mesmo não eram muito saudáveis,
Mal atravessou o portão, avistou as pernas de Scott, que espreitavam por debaixo de um carro preto. Arthur não sabia a sua marca. Ele não tinha grandes talentos para carros, era por isso que tinha ido para arquitetura e deixara a mecânica para o irmão mais velho.
_ Hei minorca! – Chamou Scott por debaixo do veículo. A cria mais velha de Albert e Helen Kirkland sabia sempre quando Arthur estava a dez metros de distância, mesmo sem o ver, ouvir ou cheirar. Era um talento estranho e algo perturbador. – O que é que o Alfred queria?
_ Bom dia para ti também. – Fez Arthur secamente e agarrou-se ao lado das pernas do irmão a fim de espreitar para debaixo do carro – Os canos do lavatório dele pingavam. Nada de mais. Podias ter mandado o William, ele sabe mais disso do que eu. Se calhar até fazia um melhor trabalho.
_ Ele estava ocupado. – Disse Scott num tom restringido, pois naquele momento fazia força a puxar uma peça qualquer. – A mulher dele pensava que as águas tinham rebentado e entraram os dois em pânico. Telefonou-me aos berros a dizer-me: “Ele vem aí! Oh meu Deus, ele vem aí!”. Mas afinal tinha sido ela que adormeceu com uma chávena de chá frio na mão e entornou-o para cima das pernas.
_ Então ainda não temos um mini Kirkland para se juntar ao bando? – Perguntou Arthur, meio divertido, meio desapontado por ainda ter que esperar mais umas semanas até o seu sobrinho vir ao mundo.
_ Nah. E porque é que te estás a queixar? Pensava que gostavas de passar tempo com o Alfred, visto que ele é o teu amigo de infância e isso tudo.
Arthur sentiu-se corar e ficou contente por estar um carro entre ele e o irmão. Passou uma mão pelo rosto, numa tentativa desesperada de o arrefecer.
_ E-e gosto! Mas isto era trabalho, não lazer! E o William gosta mais dos bolos dele do que eu.
_ Aw, ele fez um bolo!? Se eu soubesse tinha-te mandado cagar e ia lá eu mesmo. – Scott finalmente saiu de baixo do carro, deslizando pelo chão e relevando o seu rosto sardento e manchado de óleo. – Ele faz as melhores sobremesas do mundo.
_ Não são assim tão boas. – Comentou Arthur, aborrecido. Era mentira. Ele adorava as sobremesas de Alfred. Se não houvesse a hipótese de morrer jovem com altos diabetes, Arthur passaria a vida a comer os doces que o seu amigo americano confecionava.
_ São melhores do que qualquer merda que tu cozinhes. – Atirou Scott com uma sobrancelha erguida.
_ Não é como se tu fosses muito melhor que eu! – Defendeu-se Arthur, erguendo-se.
_ Talvez não, mas o meu melhor amigo não é chefe de culinária. Podias fazer algo produtivo e aprender algumas coisas com ele. E depois cozinhavas para mim.
_ Eu não sou teu escravo!
_ É claro que és, sua coisinha fofa. Agora sê um bom menino e arruma as ferramentas no armário, está bem? Tenho que ir arrear o calhau.
_ Ugh! Arruma tu! E espero que cagues as cuecas todas enquanto o fazes!
_ Hei! – Gritou alguém. Ambos olharam para cima e viram Brody a espreitar pela janela do escritório – Já ouvi a carrinha do Arthur chegar há vinte minutos, porque é que ele ainda está aí em baixo?
_ Ele estava a dar-me amor e carinho, para de ser invejoso. – Berrou Scott de volta enquanto se levantava e tirava as luvas nojentas.
Brody lançou-lhe um ar mal-humorado.
_ Estamos em trabalho. Para de o distrair. – Virou-se para o irmão mais novo – Anda, Arthur, temos que discutir o teu projeto.
Num ato infantil que geralmente só acontecia quando estava ao pé dos irmãos, Arthur mostrou a língua a Scott, numa careta vitoriosa. Subiu as escadas que davam ao escritório, sorrindo com os grunhidos incompreensíveis do mecânico que vinham atrás de si.
Notas finais
Bjs,
Evil.
Fale com o autor