Sure, Why Not?
9 Capitulo 9
Notas iniciais
_ Olhe para a minha menininha! Não é a coisinha mais fofa que já viu? – Perguntou Albert enquanto quase espetava o seu telemóvel na cara de Ludwig, que deu um passo atrás para não ser agredido. No ecrã do utensilio de comunicação estava revelada a fotografia de um minúsculo vulto de tecido cor-de-rosa e uma carinha rechonchuda, vermelhas e frágil de um bebé recém-nascido.
_ Oh, é tão adorável! – Bramou Feliciano, empurrando Ludwig para o lado para ter melhor acesso à fotografia. – Tão pequenina! E já tem uma boa quantidade de cabelo!
_ Tem pois! – Concordou Albert com orgulho – E pelos visto herdou os meus genes! Vai ser uma coisinha ruiva, tal como o vovô!
_ Como se chama?
_ Emma. A pequena e adorável Emma! A minha netinha!
_ Pai. – Descontinuou Arthur sem grande tolerância – Estamos em trabalho.
Albert e Feliciano mostraram-se melancólicos pelo chamamento à realidade, mas Ludwig, que parecera meio desnorteado pelo ruído, anuiu e aproximou-se de Arthur como se este fosse a única criatura com uma réstia de sanidade restante no escritório da empresa dos Kirkland.
_ Claro, claro. – Murmurou Albert, acompanhando suavemente Feliciano em direção da mesa. Guardou o telemóvel no bolso posterior das suas calças – Senhor Ludwig, tenho aqui as licenças de construção e tudo o que necessita para a legalização da sua casa. Falei com o nosso advogado e depois de umas análises parece que está tudo de acordo com o seu visto e passaporte. Precisa de assinar aqui – Pousou diversos papéis em frente de Ludwig – E aqui. E também ali. Ah, e a folha da prova de compra do terreno.
Enquanto Albert e Ludwig tratavam das coisas oficiais e papelada, Feliciano sentou-se ao lado de Arthur, envergando um sorriso enorme que parecia que lhe iria rasgar o rosto num futuro próximo.
_ Mais uma vez, adorei as mudanças no seu projeto! Acho que o vou atormentar para o resto da vida só para me desenhar coisas.
_ Tem a minha permissão para o fazer.
_ Ainda bem! Eu gostaria… — Mostrou-se vacilante, sentimento que não ficava bem no seu rosto geralmente tão entusiasmado – Gostaria muito de poder considera-vos nossos amigos no futuro.
_ Bem, se vão passar aqui o resto dos vossos dias, tenho a certeza que ficaremos mais que conhecidos. – Replicou Arthur calmamente.
_ Ainda bem! O Ludy estava preocupado, pois não sabia se a sua família aceitaria o nosso relacionamento, mas depois o rapaz do restaurante informou-nos que você é como nós, e ficamos muito mais descansados.
_ Como vocês? De que está a fa… ah! Sim… isso. – Arthur sentiu as bochechas enrubescer e passou a mão pela face – M-mesmo, mesmo que eu não fosse o que sou, o meu pai nunca renegaria um bom negócio. E não somos muito preconceituosos, sabe? Temos um tio que se tornou uma tia e é a nossa tia favorita.
Deve ter sido difícil para Ludwig e Feliciano, pensou Arthur ao girar uma caneta pela superfície da mesa. Sozinhos numa terra desconhecida, onde a língua falada não era a deles, e ainda com a incerteza que o seu relacionamento trazia. Vieram parar à cidade certa. Não que toda a gente fosse completamente aceite, ainda havia uns quantos que lançavam uns olhares e comentários desagradáveis na direção de Arthur, mas maior parte deles eram quase inofensivos.
Bem, se alguém maltratasse o casal, ainda que Arthur duvidava que alguém teria tomates o suficiente para afrontar um homem tão grande e intimidante como Ludwig, os Kirkland não deixariam o caso levar avante.
Arthur ainda se lembrara da forma como Scott, anos antes, tinha esmurraçado a cara do filho dos Perkins quando este soltou uma anedota ofensiva que insinuava que Arthur tinha as belas notas escolares que tinha porque chupara a pila dos professores.
Poderia ter sido Arthur a esmurraçar a cara do Perkins, mas Scott tinha estado mais perto e, sinceramente, as suas mãos gigantes fizeram mais estragos do que as do mais novo fariam.
E o Perkins teve sorte que Brody e William não estavam presentes na altura.
Por isso era bastante provável que se alguém ofendesse Ludwig e Feliciano, poderia não ficar muito bem de saúde.
_ O rapaz do restaurante? – Inquiriu Arthur depois de refletir bem nas palavras do seu cliente.
_ Sim. Um homem bem-parecido, louro e usava óculos. Faz os muffins mais deliciosos que alguma vez comi. – Feliciano fez uma expressão pensativa – Como era o nome dele… era o dono e tudo…
_ O Alfred?
_ Alfred, exatamente! Ele disse-nos que era seu amigo. E contou-nos algumas aventuras de quando você… saiu do armário. Espero que não haja problema.
_ Se houvesse, seria o Alfred a sofrer, não vocês os dois.
_ Estou mais descansado.
Mas ia ter uma palavrinha ou outra com Alfred sobre divulgar a sua vida privada a estranhos. Não que Arthur tivesse problemas em mostrar ao mundo que tinha renegado as vaginas em favor dos pénis, mas não queria dizer que gostava que andassem por aí a contar pormenores que não interessam a ninguém.
O resto da manhã foi passado a discutir os materiais que usariam e por onde começaria a futura obra, assim como orçamentos e a estimativa da data para a conclusão da casa. Brody e Scott juntaram-se ao debate, com o mais velho a dar sugestões quanto aos ladrilhos que poderiam usar na casa de banho e o terceiro filho da ninhada dos Kirkland punha listas de materiais e os seus respetivos preços em cima da mesa. William não estava presente, ainda a banhar-se na alegria de ser pai, mas já todos sabiam que seria ele a tratar das ligações elétricas da casa e discutiria o projeto mais tarde com a família.
Feliciano pareceu ter-se afeiçoado a Arthur mais do que qualquer outro membro da sua família, o que era confuso para o inglês, porque Brody, por exemplo, podia ser mais simpático para estranhos do que ele. O sol ia alto no céu, anunciando a chegada do meio-dia, e Arthur viu-se ser arrastado por o pequeno Italiano e enfiado num belo mercedes de um ano qualquer que não lhe interessava muito. Encolheu-se contra o banco de cabedal ao observar Ludwig entrar no lugar do condutor e Feliciano ocupar-se do lugar do passageiro.
Tinha, de alguma forma, sido convencido a almoçar com o casal.
Depois de uns vinte minutos de silêncio constrangedor, Arthur viu-se sentado em frente do casal, os três alojados numa mesa posta num canto do restaurante dos Jones, à espera de serem servidos.
O inglês estava mais habituado a entrar naquele estabelecimento para beber umas cervejas com os irmãos ou para ajudar Elizaveta a servir as mesas, por isso era um pouco estranho para si estar para almoçar.
_ Ainda estou fascinado com o aspeto acolhedor deste sítio. – Comentou Feliciano ao olhar em volta.
_ Antes era mais frio, mais impessoal. – Proferiu Arthur enquanto pegava no menu das refeições – Mas quando o senhor Jones entregou o restaurante aos filhos, estes contrataram-nos para fazer umas mudanças.
_ Onde estão os pais deles? Do Alfred e do irmão, quero eu dizer.
_ Decidiram reformar-se e viajar pelo mundo. São consideravelmente mais velhos que os meus pais, que casaram muito novos. Acho que a senhora Jones já tinha quase quarenta anos quando teve os gémeos. Ouvi dizer que foi uma gravidez muito arriscada. Também foram sempre um bocado distantes, sabe? Pelo menos eram-no quando eu lá ia a casa na minha adolescência. Viviam muito para o trabalho e para os clientes.
_ E eles… eles aceitaram-te bem? Quando saíste do armário? – Indagou Feliciano cautelosamente, como se não soubesse se aquelas eram boas águas para serem tocadas.
Arthur encolheu os ombros.
_ Não sei. Deve ter acontecido algo que o Alfred nunca me disse, porque ele não falou para o pai durante três meses depois disso e recusava-me a ir a casa dele estudar, fazia-mos isso sempre na minha. Quando finalmente deixou-me voltar a visitar a sua residência, o pai dele não me olhava nos olhos nem me dizia mais que uma palavra, mas a mãe dele foi mais carinhosa.
Tinha sido deveras desconfortável, na altura, aturar os olhares frios e enojados de Mr. Jones, tal como os desapropriados comentários que este fazia à sua mulher sobre o melhor amigo do filho. E suportar a frieza com que Alfred tratara o pai também não tinha sido pera doce. Mas tudo passou, depois daqueles anos em que esteve fora para frequentar a Universidade, ainda que visitasse em certos fim de semanas e férias, e quando regressara definitivamente, os pais de Alfred já tinham partido para as Caraíbas.
Arthur nem queria saber que treco teria Mr. Jones se soubesse que Alfred já se tinha envolvido com Ivan Brangisky e num futuro próximo iria envolver-se fisicamente com o quarto filho dos Kirkland.
_ Seus pobrezinhos! – Disse Feliciano tristemente e levou a sua mão até à de Arthur num gesto de conforto – Terem que lidar com tais coisas. Pelo menos ele continuou a ser seu amigo. Eu perdi muitas amizades quando comecei a namorar o Ludy. – Segredou tristemente.
Arthur não conhecia muitos homossexuais. Pelo menos, não os conhecia o suficiente para ter conversas profundas com eles. Geralmente só se comiam e ia cada um para a sua vida. Era estranho e reconfortante de uma forma esquisita, ouvir alguém que tivera semelhantes problemas aos dele e, quem sabe, poderiam um dia ser bastante amigos.
_ Isso é cruel da parte deles. Mas, suponho, que se não mantiveram a amizade, então não eram verdadeiramente seus amigos. – Criticou Arthur.
_ Talvez, mas não deixou de ser extremamente doloroso. Você ainda tem a sua família a apoiá-lo… a minha nem me fala.
Ao lado do italiano, Ludwig estacou e franziu as sobrancelhas áureas numa cólera mal escondida. Parecia ser um sentimento envelhecido, que já o remoía há anos por dentro, à espera da detonação.
_ Boa tarde, já escolheram? – Elizaveta materializou-se, então, com o seu frequente bloco de notas na mão e lápis suspenso por detrás da orelha – Hei, olá Arthur. – Ainda soava um pouco gélida, ressentida pelo estrilho que o inglês provocara semanas antes no encontro que ela arranjara com Kiku e Yao.
Por falar em Yao, Arthur ainda não lhe telefonara, apesar de ter o cartão com o número do empresário rico algures na sua carteira, misturado com outra papelada.
Era melhor assim, não valia a pena dar falsas esperanças ao pobre homem.
_ Eu quero um belo prato de massa à bolonhesa. – Sorriu Feliciano, inclinando-se para a frente – Com queijo extra! E pode-me trazer uma Coca Cola para beber.
_ Um bife com batatas assadas. – Murmurou Ludwig, fechando o menu e pousando-o em cima da mesa – E uma àgua.
_ Muito bem, muito bem. – Elizaveta escreveu os pedidos do casal e voltou-se para Arthur – E tu?
_ Bah, o Alfred que me surpreenda.
_ Hmm, vocês os dois já estão amiguinhos outra vez, hein? – Pronunciou ela num tom descarado e as suas ancas moveram-se para dar mais entoação aos seus sentimentos – Deve ser por isso que ele tem estado relativamente com um bom humor. Anda também um bocado frustrado, sabes por quê?
_ Não faço a mais mínima ideia. – Mentiu Arthur com um sorriso maldoso – Não é como se eu fosse a fonte de todos os seus problemas.
_ É claro que és, o mundo dele gira à tua volta. – Objetou Elizaveta exasperada. Virou-se para o casal – Vou já entregar os vossos pedidos ao cozinheiro. – Lançou um olhar irritado a Arthur – O teu também, senhor “surpreende-me”.
E saltitou até à cozinha, colocando o lápis novamente em cima da orelha.
_ Hmm… ela parecia um pouco irritada consigo. – Disse Ludwig. Tal frase surpreendeu Arthur, pois o gigantesco alemão ainda não te tinha dirigido a palavra naquele dia a não ser um breve “bom dia” de manhã antes de começarem o negócio.
_ Ela ainda está chateada porque eu arruinei um encontro duplo que ela tinha arranjado com o namorado dela e um amigo gay que ele tinha. Não foi assim tão mau, o homem pareceu bastante interessado em mim. Pena que o sentimento não seja retribuído.
_ Era feio? – Perguntou Feliciano com curiosidade.
_ Não, nem por isso. Era bastante bonito. Mas não era o meu género. Demasiado Twink para mim, acho eu.
_ T… Twink? O que é um Twink? – Feliciano virou-se para Ludwig em busca de conhecimento e puxou-lhe a manga do casaco – Ludy?
_ Humm, se não me engano, Twinks são rapazes elegantes, magros, bem cuidados e geralmente depilados.
_ Oh. Hei, eu sou um Twink!? – A alegria e realização na cara do italiano divertia tanto Ludwig como Arthur – As coisas que descobrimos todos os dias. E você, Arthur? O que é?
_ Bem… eu…. sou… não faço ideia.
_ É passivo ou ativo?
_ Aaaah…
_ Não sabe? Nunca fez sexo?
_ Feliciano, não faças perguntas dessas! – Pediu Ludwig com um rubor na cara, colocando a sua manzorra por cima da boca do seu companheiro para o calar – É embaraçoso e demasiado pessoal!
_ N-não há problema! – Replicou Arthur rapidamente. Não queria ser fonte de desentendimento entre os dois. Além disso, raramente encontrava alguém com quem podia falar sobre aquelas coisas, a não ser a Elizaveta e ocasionalmente Matthew, só para o irritar, e ter a perspetiva de ter amigos gays ficava cada vez mais animadora – Eu não me importo de responder. – Tanto ele como o Alemão ignoraram o olhar vitorioso de Feliciano, que retirou com gentileza a mão de Ludwig da sua cara.
_ Então? É passivo ou ativo? Eu e o Ludy vamos mudando, sabe? Depende realmente do estado de espirito de cada um.
_ Oh… bem… eu sou passivo.
_ Só passivo? Tem a certeza? Pode se sentir obrigado a ser passivo porque os seus antigos parceiros o pressionaram a tal. – Disse Feliciano numa entoação preocupada – Tive um amigo que gostava mais de ficar por cima, mas sentia-se obrigado a adquirir uma posição que não gostava, porque se sentia pressionado a satisfazer o seu namorado.
_ Ninguém me obrigou a nada. – Ladrou Arthur com irritação – Na minha adolescência era ativo, um dia senti-me curioso, fui comido, adorei e agora ficar por cima é um aborrecimento.
Era uma história engraçada… ou não, dependendo de quem a ouvisse, mas quando Arthur perdeu a virgindade, e nos dois anos que se seguiram, sempre ficara por cima. Não era que tivesse preconceitos com virilidade nem parvoíces dessas, ele já sabia muito bem que não era nenhum exemplo de macho alfa, era mais um medo bastante racional, muito obrigado, de que aquilo provavelmente ia doer. E ia doer pra catano.
Arthur não era assim muito fã de dor.
Foi explorando sozinho, em momentos da vida sem nenhum parceiro, e por vezes até se satisfazia com os dedos dentro do seu corpo, mas ter dois dedos enfiados no rabo não era a mesma coisa que meter lá um pénis.
E então, quando entrou na Universidade e saiu daquela pequena cidade para enfrentar o mundo lá fora, encontrando uns quantos rapazes jeitosos pelo caminho, fez-se forte e decidiu abrir as pernas para o mundo.
E quando eu digo “mundo”, era na verdade um australiano chamado Jack barulhento que só falava de Coalas, e Arthur sentiu-se à vontade com ele (talvez porque ele, em termos de personalidade, era parecido com Alfred) e, depois de lhe informar, com toda a gentileza, que nunca levara no cu, Jack sorriu-lhe e pronto, lá se foi a sua virgindade da porta traseira.
Teve sorte, pois Jack era um sacana provocador e fez tudo para reduzir Arthur a uma pobre massa trémula e incoerente. Utilizou os dedos, a boca (o que chocara o inglês na altura, porque nunca na sua vida alguma vez iria por a boca perto de um lugar daqueles), pequenos vibradores que apareceram do meio do nada, até Arthur achar que ia morrer de prazer e só depois de ter os tomates ameaçados, é que Jack decidiu parar de torturar o então estudante de arquitetura e fodeu-o até o sol nascer.
Foi como acordar para a vida, pois Arthur não queria acreditar que perdera dois anos daquilo e, foda-se, tinha sido o melhor orgasmo que já tivera… na altura. Já fizera muito mais bom sexo depois de Jack, mas ficar por cima começou a parecer-lhe extremamente aborrecido. Primeiro achou que havia algum problema consigo, pois todos os homens gostavam de enfiar o pénis em buracos, mas sentia sempre que faltava qualquer coisa e nunca ficava inteiramente satisfeito.
Então, durante o resto dos seus anos de estudante Universitário, Arthur foi sujeito a muitos estudos, miolos estoirados e vitima de umas quantas valentes fodas.
E não se arrependeu de nenhuma delas.
É claro que, uma vez regressado à sua querida e minúscula cidade, rodeado de família e amigos, Arthur teve imensa dificuldade em encontrar um homem para dormir e tinha que percorrer quilómetros de carro só para frequentar o bar gay mais próximo, por isso adquiriu o seu vibrador e dildo, que ele batizou Jonathan e Ian, e ia-se entretendo com eles nas noites solitárias.
_ Oh! – Soltou Feliciano, admirado com o tom do outro, mas rapidamente retomou o seu sorriso brilhante –Bem, talvez alguma vez encontre um homem que goste tanto de foder como você gosta de ser fodido.
_ Feliciano, por amor de Deus, tem atenção à linguagem! – Bradou Ludwig, que tinha o rosto tão enrubesço como uma malagueta.
_ Ugh, Ludy, vou começar a almoçar com o Arthur sem ti. – Acusou Feliciano, com uma expressão vagamente irritada – Sempre tão púdico. Não és assim quando estamos sozinhos, no quarto.
Arthur não conseguiu impedir o sorriso de lhe rasgar o rosto ao ouvir o grunhido de frustração e embaraço que escapou pelos lábios de Ludwig.
Depois de mais uns momentos de conversa mundana, como filmes e livros, pois queriam poupar Ludwig de morrer de vergonha, Feliciano obrigou Arthur a dizer umas quantas palavras em italiano, que soaram esquisitíssimas pela boca do inglês, mas depois de uns dez minutos a praticar, lá conseguiu dizer “buongiorno” sem grandes problemas, para grande orgulho do pequeno italiano sentado à sua frente.
Elizaveta apareceu, então, com os braços habilmente repletos de pratos, que se equilibravam de forma espantosa. Pousou a massa à bolonhesa em frente de Feliciano, o bife para Ludwig e, com um sorriso malfazejo, assentou em frente do inglês o hambúrguer mais sebento e nauseabundo que Arthur alguma vez vira.
_ O… o que é isto? – Perguntou, horrorizado, enquanto mirava o queijo derretido escoar para cima de uma camada grossa de cebola frita.
Elizaveta arqueou uma sobrancelha e colocou as mãos nas ancas.
_ O teu prato surpresa. O nosso Alfie acho que era o mais indicado para ti. – Ela nem sequer escondia o deleite sádico que sentia de momento, a cabra – Acho que aquela vossa pequena briga ainda o irrita.
Não era da briga. Arthur sabia muito bem que a briga não tinha nada a ver com aquela afronta. Aquilo era Alfred a vingar-se do sexo que lhe fora negado dias antes, no dia do nascimento da sua adorável sobrinha.
Bem, Arthur não iria comer aquilo. Preferia beber chá de peúga usada do Scott do que meter a boca naquele enxovalho da natureza. Pegou no prato e ergueu-se.
_ Desculpem. – Suplicou a Felicano e Ludwig, que o observavam com curiosidade – Tenho um cozinheiro para matar.
E marchou para a cozinha, apanhando vagamente a introdução que Elizaveta fazia ao casal. Reteu a náusea ao sentir o aroma pestilento do hambúrguer e susteve a respiração momentaneamente, antes de passar pela porta.
Alfred estava em frente do fogão a trautear uma música qualquer enquanto grelhava salsichas e camarão. Ainda não tinha reparado na entrada do inglês, demasiado ocupado com o seu trabalho e com a música na sua mente.
Arthur colocou o prato em cima do lavatório com um estrondo e, satisfeito, viu Alfred saltar com o susto.
_ Deus do céu! – Urrou o americano e levou uma mão ao peito para atenuar o coração.
_ Que merda é esta? – Perguntou Arthur com a delicadeza de um marinheiro, e apontou para o hambúrguer com uma expressão de desdém.
Alfred sorriu de lado, mostrando malicia e virou uma salsicha para que esta não queimasse.
_ Boa tarde para ti também. – Disse ele, ainda de sorriso irritante estampado no seu rosto demasiado bonito. Sinceramente, ninguém deveria ter uma cara daquelas, Arthur sentia-se dividido entre beijá-lo ou enfiar-lhe o punho pelo nariz –É o prato que escolhi para ti, Arthie-kins, pensei que fosses gostar.
_ Faz-me algo decente antes que te enfie aquela porra pelo cu a cima.
Com uma gargalhada divertida, Alfred retirou as salsichas e os camarões do grelhador e colocou-os numa travessa. Esfregou as mãos ao avental branco que usava de momento e atravessou a cozinha, segurou o rosto de Arthur e beijou-o.
Arthur tentou ao máximo continuar irritado com o outro, mas era muito difícil. Decidiu ensartar as mãos no cabelo de Alfred e aprofundar o beijo, derretendo contra o corpo do amigo.
_ Como vai a família. – Perguntou Alfred ao quebrar o contato de bocas, mas não se afastou. Rodeou Arthur com os braços e aproximou-o mais contra si, para grande gozo do inglês.
_ Vai bem, está tudo muito eufórico com a pequena Emma. Não os culpo, ela é tão fofa que os meus olhos quase derretem. – Encostou os lábios contra os de Alfred outra vez – Até me apeteceu pegar nela e levá-la para casa.
_ Hmm, não faças isso, pode causar tenção entre almoços de domingo.
_ De facto. Agora alimenta-me, seu inútil, estou esfomeado. – Deu duas palmadas com ambas as mãos no peito de Alfred como incentivo para este trabalhar. Recebeu um olhar desagradado em troca.
_ Chamas-me inútil e ainda queres favores?
_ Ambos sabemos que por muito que te insulte, tu fazes sempre o que eu quero. – Disse Arthur com uma doçura exagerada e passou a mão pelo cabelo dourado do americano, despenteando-o sem misericórdia.
_ Quem me dera que não fosse verdade. – Suspirou Alfred dramaticamente – Mas as tuas sobrancelhas malignas enfeitiçaram-me desde o primeiro dia em que olhei para elas. – E inclinou a cabeça, depositando um beijo numa das ditas sobrancelhas malignas.
_ Realmente sabes seduzir uma pessoa com as palavras. – Grunhiu o arquiteto com sarcasmo – Ainda tenho fome e não estás a fazer nada quando a isso.
_ Hmm, deixa-me abusar de ti só mais um bocadinho, já te arranjo qualquer coisa.
Os “abusos” de Alfred eram constituídos por beijos, mordidelas no pescoço e uns quantos apalpões no traseiro. Se fosse sempre assim, Arthur não se importaria de ser abusado mais vezes.
Ainda que cautelosos para que nenhum dos dois ficasse muito “alegre” dentro das calças, embrenharam-se numa corrente de beijos molhados e profundos, onde lábios e línguas dançavam desesperadamente e mãos exploravam com suavidade curvas e ângulos de corpos desprovidos de prazer, algo pelo qual o americano culpava o seu amigo inglês por ser uma coisinha irritante e provocadora.
– Os meus clientes estão à minha espera. – Arquejou Arthur entre beijos — e os teus também.
_ Tenho coisas mais interessantes para fazer.
_ O Matthew ainda te despede.
_ Ele não me pode despedir, metade do restaurante está em meu nome.- Alfred mordiscou-lhe o lábio inferior – A culpa é tua por seres tão fofinho. – Apertou-lhe a bochecha, já corada pela atividade de ambos. Alfred mostrou-se subitamente nervoso e afagou os braços de Arthur – Hei… hmmm… — Ruburizou – Queres passar lá esta noite?
_ Na tua casa?
Alfred anuiu, sem o fitar nos olhos.
_ Queres foder? – Perguntou Arthur estupidamente.
_ E ainda dizes que tenho falta de tato. – Grazinou Alfred, cuja face ficou ainda mais quente e vermelha – Mas sim, era esse o plano. Já… já comprei lubrificante e… outras coisas.
_ Outras coisas? Que outras coisas? – Inquiriu Arthur cm uma tímida curiosidade, ainda que com vago tom tentador na voz.
_ É surpresa.
_ Hmm, não sei se quero, não és lá muito agradável com surpresas. – Disse o arquiteto enquanto apontava para o hambúrguer horrendo que estava ao pé do lavatório.
_ Isso foi um castigo por me obrigares a pensar enquanto trabalho. Então? – Alfred passou as mãos pelo cabelo, nervoso – Queres ir lá a casa esta noite, ou não.
_ Eu… — Ugh, porque é que era tão difícil e embaraçoso? Nas vezes em que conseguia meter um homem na sua cama, nunca tivera grandes problemas na parte de sedução e conversas. Mas era tudo mais complicado com Alfred – Está bem. Mas vou querer ir tomar banho antes de fazermos o que quer que seja. E em consequência vou roubar-te roupa.
_ Por mim tudo bem. – Após depositar mais um pequeno beijo no nariz de Arthur, Alfred afastou-se, virando-se para o fogão – Queres que te faça o quê? Temos arroz e massa já cozinhados e prontos a servir à multidão, posso grelhar-te qualquer coisa para acompanhar.
_ Grelha-me umas salsichas e uns camarões como estavas a fazer há bocado.
Alfred franziu o sobrolho.
_ Queres salsichas com camarões? Isso é uma combinação estranha.
_ Como se tivesses direito a falar, senhor que junta empadas de pato com gelado de baunilha. E já que estás aí, enrola tiras de bacon nas salsichas.
_ Tão calórico da tua parte. – Alfred fez o que o outro lhe pediu e colocou os alimentos no grelhador. A carne do bacon e das salsichas começou de imediato a silvar mal entrou em contacto com a superfície a escaldar da chapa metálica.
_ Não és tu que andas sempre a dizer que sou um lingrinhas e que preciso de ganhar uns quilos?
_ Aw, eu digo isso na brincadeira, eu gosto de tu como és, lingrinhas ou não.
_ Acho bem, não ia mudar por tua causa. Hei, não tens batatas? Preferia batatas a acompanhar as minhas salchichas com bacon e camarão do que arroz. – Pediu Arthur com um olhar curioso.
_ Tenho meia dúzia de batatas cozidas à espera de serem comidas.
_ São minhas.
_ Alfred! – Bramou Elizaveta ao entrar na cozinha, de mãos nas ancas e ar carrancudo – Estás a demorar tanto porquê? E tu! – Apontou para Arthur, que deu um passo atrás – Para de o distrair, ele tem que trabalhar! Os teus amigos estão quase a acabar a refeição e tu nem a começaste!
_ A culpa é dele! – Queixou-se Arthur num tom indignado.
_ A culpa é de vocês os dois por serem idiotas. Alfred, dois hambúrgueres com extra queijo e uma pizza vegetariana. – Lançou um olhar arrogante a ambos e pegou na travessa que continha os camarões e salsichas que Alfred estivera a grelhar antes de Arthur aparecer – E despacha-te.
_ Ela está tão… cabra, hoje. – Comentou Alfred quando Elizaveta se removeu da cozinha – Mais do que o habitual. – Virou a comida que grelhava na chapa e colocou lá duas rodelas de carne de vaca.
_ Ainda não me perdoou por ter estragado o encontro duplo. Ainda que não perceba o problema dela, não é como se tivesse sido totalmente inútil, afinal de contas, o Yao deu-me o número dele.
_ Deu? – Fez Alfred num tom contido e focou toda a sua atenção na carne que cozinhava de momento. Havia uma breve nota de raiva na sua voz, mas passou despercebida. – E já lhe ligas-te?
_ Não. Não sei se reparaste, mas tenho andado ocupado a aturar noventa quilos de massa americana.
_ Noven… noventa quilos!? Eu não peso noventa quilos!
_ É claro que não, amor. – Disse Arthur naquele tom irritante que algumas mães usavam para tentarem convencer os filhos de que estes não possuíam um defeito que obviamente estava lá.
Com um grunhido descontente, Alfred retirou a comida de Arthur da chapa do grelhador e colocou-a num prato. Abriu uma panela solitária num canto do fogão e retirou de lá meia dúzia de batatas cozidas.
Entregou o prato ao inglês com as sobrancelhas franzidas.
_ Tempera isso como quiseres. – Resmungou.
_ És tão profissional. – Comentou o inglês sarcasticamente, mas sorriu e esticou-se todo para depositar um beijo nos lábios rezingões de Alfred. – Bem, se não te importas, o meu estômago está a comer-se a si mesmo.
_ Hum… é melhor ires alimentar-te, então.
_ Irei, irei. – Arthur preparou-se para se retirar da cozinha – Até logo, então.
_ Adeus. – Disse Alfred enquanto o observava a sair pelas grandes portas que separavam o seu espaço de trabalho do da Elizaveta. Ficou ali parado durante muito tempo, sentindo o nervosismo vir ao de cima ao pensar no que aconteceria nessa noite.
E se não fosse bom?
E se ficasse todo atrapalhado e fizesse figura de imbecil?
E se magoasse Arthur?
Oh, céus, ele não queria magoar Arthur!
Um leve cheiro a queimado invadiu-lhe as narinas e o seu pânico dissipou-se para o descontentamento de ter os seus hambúrgueres em chamas.
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