Notas iniciais
So... perdoem o meu atraso, estive enterrada em trabalhos para a Universidade e só nesta semana natalicia é que tive um tempinho para acabar o capitulo, que ia escrevendo aos poucos, mais ou menos um ou dois paragrafos por dia desde que postei o ultimo capitulo. Então aqui está a minha prenda de natal, I guess. Não é o meu capitulo favorito, mas pronto, foi o melhor que eu consegui de momento. Escrevi-o no ponto de vista de Alfred, porque à dois capitulos que só vemos os pensamentos de Arthur e nesta história o Alfie consegue perceber melhor o que o nosso Arthie-kins pensa do que o contrário. Anyways, lembram-se de como no primeiro capitulo o Arthur e o Scott falam sobre o irmão deles William e de como este ia ser pai brevemente? Isso é relevante neste capitulo. E para o próximo. Enjoy.

Alfred não estava a entrar em pânico. Não estava! A sério! Acreditem! Ele estava totalmente calmo e relaxado, ali sentado no seu próprio sofá, ao escuro, com Arthur Kirkland ao seu lado todo enrolado numa manta enquanto viam um filme de terror.

Não era como se nunca tivessem partilhado noites de cinema antes. Desde pequeninos que se aninhavam num sofá com uma grande tigela de pipocas ou guloseimas e ficavam com os olhos presos num filme qualquer.

O problema de Alfred era que aquela situação era idêntica a todas as outras da sua vida. Arthur entrara na sua casa com um DVD na mão, ainda com as roupas de trabalho, agindo como se tudo continuasse normal entre eles, como se a proposta, as semanas em silêncio, a luta na casa de banho e o beijo no balcão da cozinha nunca tivessem acontecido.

O americano não sabia como agir. Sentira-se confiante naquela sexta, quando encurralara Arthur para conseguir o que queria, e tal desejo era manter o amigo longe daquele chinês cujo cabelo parecia ter saído de um anúncio de champô. Também se sentira o senhor do mundo quando esborrachou o inglês contra o balcão da cozinha e o beijou como se a sua vida dependesse disso. O seu cérebro também não registou qualquer erro quando ambos combinaram ter relações sexuais num futuro incerto, mas próximo.

Só quando Arthur se foi embora, depois de um abraço e um beijinho tímido, é que Alfred tomou realmente a consciência das suas ações.

E quis atirar-se pela janela fora. Coisa que não faria grande sentido, porque ele encontrara-se na altura no rés-do-chão. E mesmo que estivesse no primeiro andar, provavelmente só partiria uma perna ou um braço, por isso o ato não teria o mesmo nível de drama.

E como agir perto do seu melhor amigo, quando tais acontecimentos se tinham passado entre eles? Fingir que estava tudo bem, como Arthur fazia naquele momento? Poderiam voltar a ter as suas conversas idiotas? Podiam-se beijar? O acordo era só sexo, mas Arthur dera-lhe aquele pequeno ósculo na porta da entrada naquela sexta-feira. Mas se beijos eram permitidos, como o fazer sem ser esquisito?

Estava em total alerta sobre a presença do seu amigo. Cada movimento que o braço do inglês fazia em direção da tigela de pipocas, cada abanar de cabeça, cada esgar com uma cena particularmente sangrenta, Alfred detetava tudo, mesmo sem o observar diretamente.

Era estranho, pois era habitual estar cagadinho de medo durante um filme de terror, mas sentia-se mais aterrorizado com a ideia de não saber o como interagir com Arthur, do que com o monstro sanguinário que estava representado no ecrã.

_ Pff, aquele palerma nem sequer tentou ser realista. Nunca vi uma expressão tão ridícula para quem está a ser comido por um alien. – Comentou Arthur secamente, com os seus grandes olhos verdes de jade fixos no personagem secundário que gritava enquanto era devorado. Levou outro punhado de pipocas à boca e mastigou distraidamente.

Parecia concentrado no filme. Demasiado concentrado. Arthur geralmente adormecia em filmes de terror e ficava todo estendido no sofá a ressonar baixinho enquanto Alfred tremia como varas verdes num canto, abraçado a uma das pernas do melhor amigo numa busca de conforto.

Mas agora estava ali, em alerta, de olhos bem abertos a absorverem todo o horror e violência que acontecia na grande televisão de Alfred. Também estava sempre a ir buscar pipocas, outra coisa que não fazia com frequência quando estas eram doces e não salgadas, como preferia. Os dedos da sua mão livre estavam sempre a brincar com os fios soltos da manta de lã, num gesto repetitivo e nervoso.

Tudo indicava que Arthur provavelmente estava tão inquieto como Alfred.

Tudo aparentava estar igual, mas não passava de uma farsa. Nenhum deles se sentia confortável o suficiente ao lado dum do outro para voltar à normalidade. A tensão entre os dois era tal que se poderia cortar com uma faca.

Arthur pegou na garrafa de água que se encontrava em cima de uma mesinha em frente do sofá e levou-a à boca em busca de saciar a sua sede. Alfred observou-o pelo canto do olho, admirando a forma de como a sua maçã-de-adão subia e descia com cada gole.

Quando o inglês pousou a garrafa no lugar de onde a tinha tirado, Alfred agiu, debruçando-se pelo sofá fora. Apanhou Arthur de surpresa, e este lançou um pequeno som admirado ao ter a boca tomada por um beijo inesperado.

Não foi propriamente sexy, graças ao nervosismo e à repentinidade da ação. Alfred quase falhou a boca de Arthur e até chegou a tocar no queixo do outro com o seu lábio inferior. Posicionou mal as mãos e caiu sem qualquer ponta de graciosidade em cima do amigo, quase o esmagando no processo.

Arthur soltou uma gargalhada divertida e algo chocada com o comportamento de Alfred, que ficou vermelho como um tomate. Apoiou-se nos braços para não colocar todo o seu peso em cima do inglês e lançou um olhar mortífero ao imbecil que ainda se ria debaixo de si.

Arthur lançou-lhe um sorriso de lado e abriu as pernas para o acomodar melhor. Levou as mãos ao rosto do americano e trouxe-o para baixo, colocando um beijo suave nos seus lábios.

_ Isso foi ridículo. – Murmurou ele ainda com o riso a contagiar-lhe a voz.

_ Cala o bico, eu não sabia o que fazer!

_ Podias avisar-me antes de te atirares para cima de mim. Quase tive um ataque cardíaco.

_ Hump! – Alfred abraçou o troco do outro e espetou a cara no seu peito, inalando o cheiro do perfume leve que Arthur usava. Estavam numa posição esquisita, com o inglês todo estendido no sofá, de pernas abertas, e Alfred deitado em cima dele, com maior parte do corpo quase fora do sofá para não pôr o amigo desconfortável.

Arthur levou uma mão aos cabelos dourados de Alfred, afagando-os com ternura. O americano soltou um som apreciativo pela garganta e fechou os olhos, relaxando contra o corpo do inglês.

_ Quem diria que podias ser meigo quando querias. – Comentou Alfred num tom calmo.

_ Não puxes a sorte, ou a meiguice vai-se embora.

_ Não sejas mau.

_ Não devias estar aí todo mijado de medo? – Perguntou Arthur naquele seu tom irritantemente superior – Estamos a ver um filme de terror, afinal.

_ Humm… não consigo dar atenção ao filme. Não sei como agir contigo.

Arthur mostrou-se desconfortável com as suas palavras e voltou o seu olhar para a televisão, onde a protagonista, uma mulher com o cabelo louro platinado e seios falsos, conseguia fugir do extraterrestre horrendo que a queria capturar.

_ Eu preferia que agisses normalmente.

_ Nada é normal, agora.

_ Eu sei.

Um silêncio desconfortável caiu entre eles, apenas cortado pelos choros exagerados que vinham do filme.

Alfred ergueu o rosto do peito do amigo e observou o seu rosto. Arthur tinha a cabeça virada para a televisão e os olhos fixos no ecrã, mas estes não estavam completamente focados nas imagens violentas, mostrando que a mente do inglês estava noutro lugar.

_ Posso beijar-te?

Arthur olhou-o com uma sobrancelha erguida.

_ Já o fizeste.

_ Aquilo foi uma tentativa falhada, estou particularmente envergonhado por tal falta de proeza. – Comentou Alfred, irritado – Posso beijar-te a sério? É permitido, não é?

_ Acho que sim. Se vais dormir comigo, é melhor que aprendas a beijar como se deve ser.

_ Desculpa?! – Fez Alfred, indignado, e apoiou-se novamente pelos braços – Eu sou muito bom no que faço.

_ Pff, ainda não vi nada.

Alfred grunhiu alguma coisa não muito compreensível antes de provar a Arthur que era realmente dotado na arte de trocar saliva.

Começou lentamente. Alternava entre beijos castos e mordidelas suaves no lábio inferior, e percorreu com uma das mãos um trilho entre o pescoço e a cintura. Arthur estremeceu e lançou um pequeno arquejo. Alfred sentiu o seu ego vibrar com excitação.

Ele arranjava sempre metáforas românticas quando beijava uma jovem dama e a encantava até ela se tornar gelatina nos seus braços. Comparava as bocas frágeis delas com flores delicadas que se abriam tímida mas seguramente para ele.

A boca de Arthur não era uma flor. E sem dúvida que não se abria com timidez. Mal Alfred fez menção que queria explorar o que havia para lá dos lábios do inglês, este abriu-os de imediato, levou novamente as mãos aos cabelos de Alfred e aprofundou o beijo.

E deixou-se explorar aquela boca, resistindo à vontade de fazer o mesmo com o corpo delgado que se começava a mexer contra o seu lentamente, como uma maré. Sentia-se como se estivesse a ser consumido, mesmo tendo maior parte do controlo daquela ação em conjunto.

Talvez estivesse mesmo a ser consumido. Arthur tinha um poder imenso sobre ele, mesmo sem saber. O inglês trazia o melhor e o pior de Alfred, provocava uma corrente de sentimentos que nunca ninguém conseguira trazer e toda a gente sabia que, fosse alguma coisa terrível acontecer ao quarto filho dos Kirkland, Alfred provavelmente não ficaria muito estável.

Tais realizações assustavam-no um pouco, pois nunca ouvira falar de uma amizade com sentimentos tão fortes como os que ele tinha por Arthur. Ele conhecia outros homens que partilhavam amizades tão duradoras como ele e o inglês, mas nenhum dos outros eram tão próximos. Alfred tinha outros amigos, mas nenhum deles trazia aqueles instintos estranho como jovem arquiteto fazia.

Talvez Arthur fosse simplesmente especial. Alfred foi invadido por uma onda de possessividade desde que conhecera o inglês, anos antes, quando mal tinham onze anos. Lembrava-se claramente do franzino rapazinho com sotaque estranho que apareceu na vila com uma família cheia de rapazes altos, barulhentos e ruivos. Arthur falara primeiro com Matthew, que na altura ainda era mais calado e tímido do que a atualidade, e andava maior parte do tempo escondido atrás de Francis.

Alfred tinha sido um rapazinho curioso. Mal viu o seu irmão gémeo a socializar e a sorrir para o miúdo novo da escola e da vila, foi de imediato investigar o caso.

Não foi o começo mais bonito de uma relação, visto que a primeira coisa que Alfred disse a Arthur foi: “Meu Deus, tens umas coisas horrendas e peludas coladas à tua testa!”.

E no momento em que Arthur se atirou para cima dele com um berro e começou a tentar espetar murros na sua cara com aquelas mãozinhas pequeninas, Alfred soube que tinha encontrado a sua alma gémea das amizades.

Arthur gemeu baixinho contra si e Alfred separou as bocas de ambos para se ocupar com o pescoço alvo do arquiteto. Sugou a pele leitosa com avidez, o objetivo de a marcar encravado na sua mente. Serpenteou as mãos pelo corpo quente do inglês e acabou por enfiar uma delas pela camisola larga e suja que Arthur usava.

_ Não puxes a sorte. – Suspirou o arquiteto baixinho, mas não fez qualquer gesto para o impedir – Ainda estou zangado contigo.

Alfred descolou os lábios do pescoço dele e sorriu de forma matreira.

_ Não me pareces particularmente relutante. – Retorquiu num tom arrogante. Começou a erguer a camisola do amigo, revelando um peito pálido e elegante.

_ Não. – Impediu o inglês com calma e voltou a puxar a sua camisola para baixo – Nem penses em fazer mais nada. Enquanto o meu nariz me doer, não tens direito a mais do que meia dúzia de beijos.

_ És mau! Ainda tenho um olho negro! Não deveria merecer uma compensação?

_ Não. E se não parares quieto, ficas com outro.

_ Eu pensava que gostavas de mim.

_ Pensaste mal.

_ Hump! – Alfred beijou-o novamente, desta vez de forma mais casta e inocente. Arthur sorriu contra os seus lábios e acariciou-lhe a face com as mãos.

_ Eu nem sequer tomei um banho. – Fez Arthur num murmúrio abafado – O Scott decidiu limpar as mãos à minha camisola depois de ter arranjado o motor do carro do senhor Perkins.

_ Até podias ter sido borrifado por uma doninha que eu iria querer “brincar” contigo na mesma. – Alfred distribuiu uma série de beijinhos pelo maxilar de Arthur.

_ Tu és muito estranho e isso parece-me nojento.

_ Aceita um elogio.

_ Esse foi um elogio ridículo!

_ Tu é que és um elogio ridículo.

_ Alfred, isso nem sequer fez sentido.

Discutiram sobre inutilidades durante mais algum tempo, antes de se embrenharem noutra série de curtição e amassos.

Os créditos do filme de terror já estavam quase a acabar quando Alfred se enroscou atrás de Arthur e enfiou o rosto nos cabelos desalinhados dele. As suas tentativas de tirar a camisola suja do inglês foram absolutamente falhadas, mas pelo menos conseguiu apalpar aquelas nádegas firmes e redondas uma vez ou duas.

_ O teu Alfredzinho está feliz por me ver. – Comentou Arthur no mesmo tom casual de quem comenta sobre o tempo.

Alfred sentiu o rosto ruborizar e tentou afastar as ancas do corpo do outro.

_ Desculpa.

_ Não há problema. Eu também estou “feliz” por te ver.

_ É claro que estás. Eu sou super sexy.

_ Ugh.

_ Então? Mostrei que sou bom no que faço, não mostrei? – Perguntou Alfred animadamente e abraçou Arthur, não se sentido mais embaraçado pelo seu… problema no meio das pernas.

_ Hummm. Claro. Se assim o achas, não te vou dizer o contrário.

_ Seu pequeno…!

E decidiu torturar Arthur com cócegas.

Eram umas onze da noite quando Alfred decidiu que tinha fome e arrastou Arthur até à cozinha. Comeram os restos do jantar que o americano tinha preparado para si nessa noite antes inglês aparecer sem ser convidado, e ainda juntaram mais umas sandes de queijo, pois a o guisado não era assim tanto para satisfazer ambos.

_ Vi a mãe do Matthias ontem na mercearia. – Comentou Arthur num tom ameno, já que conversavam sobre a vida em geral.

_ Deve ter sido agradável. – Disse Alfred sarcasticamente.

_ Mais uns olhares de cabra e uns quantos comentários desagradáveis, mas nada de mais. – Enfiou outro pedaço de pão na boca – Já estou habituado.

_ Ela não tem o direito de te tratar dessa maneira.

_ É um país livre, ela tem todo o direito de não gostar de mim. Além disso, não é como se estivesse a tentar humilhar-me publicamente, ou coisa parecida. – E lançou um olhar acusador ao amigo – E quem és tu para falar? Trataste-me como merda nas últimas semanas.

_ Eu já pedi desculpa milhões de vezes, quando é que vou ser perdoado?!

_ Quando tivermos num lar da terceira idade a ficar lentamente senis, talvez até te perdoe.

_ Yay, estou tão feliz. – Soltou Alfred secamente e Arthur lançou-lhe um pequeno sorriso matreiro – Estou a ver que tenho que te fazer mais muffins.

_ Eu nunca disse que deverias ter parado.

_ Estavam bons, não estavam?

_ Era agradáveis.

_ Só “agradáveis”? Admite, ias tendo um orgasmo mental quando puseste um deles na boca.

Sentiu uma satisfação imensa ao ver o escarlate tingir o rosto e orelhas de Arthur, que semicerrou os seus olhos verdes na sua direção.

_ Não sejas ridículo. E não digas tais coisas!

_ Pff, ainda há pouco estávamos a curtir que nem adolescentes no meu sofá. Eu não te percebo, és capaz de fazer e dizer coisas que fazem um marinheiro corar, mas eu digo algo quase sem nexo e tu pareces uma virgem Maria.

_ Eu só… ainda não em habituei, está bem? – Respondeu Arthur com alguma frieza – Ainda não está bem metido na minha mente que tu e eu andamos… a fazer estas coisas juntos.

_ Eu sei. – Admitiu o americano. Olhou para o prato vazio à sua frente e suspirou – Hás vezes pergunto-me o que teria acontecido se eu tivesse dito que sim à tua proposta naquele dia. Teríamos feito sexo logo de seguida, depois de levares o Peter para casa dos teus pais? Talvez até tínhamos, mas depois penso como seria estranho o ambiente depois do ato.

_ Talvez. Nunca dei muito pensamento a isso.

_ Humm. Talvez até ficaria tudo bem, mas e se não ficasse? Talvez seja melhor assim. Agora preparamo-nos psicologicamente para o que vem, e enfrentaremos as consequências das nossas ações com as cabeças erguidas.

_ Estás outra vez a fazer uma tempestade num copo de água. – Comentou Arthur num tom monótono – Vamos só fazer sexo. Não vai mudar o destino do Universo.

_ Mas vai mudar o nosso Universo, Arthur. Somos amigos, os melhores até, mas no momento em que cairmos na minha cama, e vai ser na minha cama, porque a tua é minúscula, nem sei como é que cabes naquilo…

_ Hei! A minha cama é muito boa, muito obrigada!

_ Mal cairmos na minha cama, — Repetiu Alfred, ignorando a exclamação do inglês – Vamos conhecer facetas um do outro que desconhecíamos até à altura. Como as expressões de orgasmo.

_ As quê?

_ As expressões de orgasmo. Sabes? Aquela cara que fazemos quando ejaculamos?

_ Ugh.

_ Como eu estava a dizer, vamos descobrir certas coisas de um do outro que até há altura desconhecíamos. Vamos conhecermo-nos intimamente. E eu vou ver-te sem roupa. Vai ser uma imagem que me irá marcar para todo o sempre.

_ Já me viste nu antes.

_ Mas não perdi grande tempo a analisar a cena. Não tinha de costume observar os meus colegas no balneário.

Arthur sorriu com mesquinhez e começou a bater com os dedos em cima da mesa.

_ Fala por ti, eu observei muita gente nessas alturas.

_ Seu tarado! Andavas a observar o meu material sem autorização!

_ Na verdade, eu não olhava muito para ti, por respeito. Tinha um particular gosto em para o Jonathan Smith. Nunca vi uma pila tão grande como a dele, era assustadora e hipnótica. – Arthur fez um olhar sonhador e nostálgico.

_ Pois, bem, não me apetece discutir o tamanho do amiguinho do Smith.

_ “Amiguinho”? Acho que “amigão” seria o mais indicado.

_ Eu não vou participar mais nesta conversa. – Retorquiu Alfred, desagradado. Levantou-se e retirou os pratos da mesa, colocando-os no lavatório.

Arthur estava ao seu lado num ápice, de sobrolho franzido.

_ Eu posso lavar a louça. – Disse o inglês calmamente, e tentou enfiar as mãos no lavatório.

Alfred impediu-o. Afastou-o dos pratos e talheres sujos e obrigou-o a sentar-se novamente na cadeira.

_ És o meu convidado, não te vou obrigar a lavar nada.

_ Eu não fui convidado. – Retorquiu Arthur com o sobrolho franzido – convidei-me a mim mesmo a entrar e tu não tiveste qualquer opinião a dar quanto a isso.

_ Ainda assim, sinto-me mal por te obrigar a trabalhar na minha casa. Que tipo de cavalheiro seria eu?

Arthur ergueu uma sobrancelha e adquiriu uma expressão cínica. Provavelmente tentava lembrar-se de algum ato cavalheiresco que Alfred alguma vez tivesse cometido na vida. Pelo rosto inexpressivo, poder-se-ia calcular que ele não se lembrava de nada.

_ Não faças essa cara, sou mais cavalheiro que tu. – Comentou Alfred. Ligou a torneira e esperou que a água aquecesse antes de pegar na esponja e começar a lavar os pratos.

_ Alfred, quando te poem comida do MacDonalds à frente, pareces um desalmado a comer. – O inglês levantou-se na mesma, foi até ao armário e retirou um pano de cozinha. Queria lá saber se Alfred achava que os “convidados” não podiam levantar um dedo que seja na sua casa, ele não ia ficar ali a olhar para o nada enquanto o americano lavava a louça que ele próprio sujara.

Alfred observou-o pelo canto do olho e sorriu com doçura. Aquilo era de família, nenhum Kirkland gostava de ficar sentado a ver os outros trabalharem por eles. Tinham sempre que ajudar de alguma forma.

Então fizeram um acordo sem palavras. Alfred lavou a louça e Arthur limpou-a e arrumou-a nos seus respetivos sítios. Conversaram sobre o passado, sobre quando tinham encontrado aquele esquilo morto no quintal do senhor Miller e de como Alfred traumatizara Matthew ao correr atrás do irmão com o cadáver do bicho pendurado da mão.

_ Conseguias ser tão mauzinho, quando querias. – Sorriu Arthur ao arrumar o último copo.

Alfred sorriu-lhe de volta e limpou as mãos a um pano lavado.

_ Era por isso que andava sempre comigo. Eramos a dupla mais famosa dos arredores.

_ Lembras-te num Halloween, acho que tínhamos catorze anos, e o Andrew Hall não nos deu doces porque achava que eramos demasiado velhos?

_ Desenhas-te um pénis na porta dele. – Disse Alfred enquanto se recordava de tais proezas com carinho – Ficou glorioso.

_ Só sei que aquele pénis ficou lá durante meses até ele finalmente o conseguir remover. Mas… – Arthur tomou um tom secreto. – Se te aproximares da porta dele, a um certo angulo, ainda consegues ver as marcas.

_ És um diabo.

Arthur riu-se baixinho, obviamente orgulhoso de si mesmo.

_ Tenho saudades desses tempos. – Comentou o Inglês quando parou de rir.

_ Tenho a certeza que se tentar-mos fazer metade das merdas que fazíamos, ia-mos presos.

_ É uma pena. Lembras-te quando depilamos o gato da tua tia?

_ Ela ainda me manda olhares de puro ódio e o bicho já nem está vivo.

_ Isso é que é rancor.

_ Hum-hum. Gosta tanto de mim que já me ofereceu bolas de cotão pelo natal.

_ Ew.

_ A minha mãe também não gostou. – Riu-se Alfred com a memória da expressão horrorizada que a sua querida e adorada mãe fizera quando ele, nos seus traquinas quinze anos, abrira uma caixa cheia de bolas de cotão.

Arthur acompanhou-o nas gargalhadas e encostou a cabeça ao seu ombro. Alfred enroscou o rosto no ninho de cabelo louro e inalou o aroma a champô e óleo de oficina que este emanava.

_ Nós eramos mesmo uns terrores. – Disse Arthur ainda com riso na voz – E quando metemos pó picante nos boxers do Scott quando ele estava a tomar banho.

_ Agora que falamos disso, reparo que maior parte da merda que fazíamos vinha das tuas ideias. – Respondeu Alfred. Rodeou os ombros ossudos de Arthur com o seu braço – Seu rapaz depravado, adoravas fazer os outros sofrer, não era? – E depositou um beijo no cabelo do dito rapaz depravado.

Arthur sorriu maliciosamente e os seus olhos mostraram aquele brilho perigoso que aparecia sempre que ele tinha uma ideia particularmente traquina. Com a vantagem de ter sido o sócio do inglês no que se diz respeito a todos os delitos que aconteceram em ambas as infâncias e adolescência, Alfred apressou-se a encurralar o amigo contra o balcão da cozinha, antes que este fizesse alguma coisa dolorosa.

_ Aw… — Fez Arthur num falso desapontamento. Levou os braços até ao pescoço de Alfred e roçou o seu corpo esguio contra o do americano – Acho que és a única pessoa nesta terra que nunca foi minha vítima.

_ Tenho quase a certeza que levei com farinha molhada quando tínhamos dezasseis anos. Foi uma porra para tirar do cabelo.

_ Isso foi o Scott a vingar-se do pó picante.

_ Foi!? Mas eu tenho-te culpado estes anos todos!

_ Ai sim? Então foi por isso que não me falaste durante uma semana.

_ Mas se não foste tu, porque é que me pediste desculpa?

_ Como não falavas para mim, assumi que tinha feito alguma coisa que te tivesse ofendido, por isso pedi desculpa. – Depositou um beijo nos lábios do outro – Mas não, nunca te preguei nenhuma partida. No entanto ainda vou a tempo… — O sorriso matreiro e o brilho perigoso no olhar voltaram e Alfred sentiu-se subitamente na presença de um predador – Pergunto-me o que poderia fazer… já não ando nessas vidas faz alguns anos.

Alfred empurrou-o mais contra o balcão da cozinha e mordiscou-lhe o pescoço.

_ E que tal não fazeres nada? – Perguntou contra a pele alva – Não há coisas mais interessantes para fazer do que me fazeres sofrer dessa forma?

_ Hummm. – Fez Arthur em deleite e inclinou a cabeça para dar mais acesso ao outro. Fechou os olhos e embrenhou as mãos nos cabelos de Alfred – Acho que estás a tentar seduzir-me para não levares com alguma coisa em cima.

_ Está a resultar?

_ Talvez. – O inglês colocou as mãos na face do amigo e embrenharam-se mais uma série de beijos quentes e excitados. Alfred acabou por pegar em Arthur e o sentar em cima do balcão com o fim de ficarem ao mesmo nível. Era uma luta desesperada entre línguas e lábios, como se aquelas brigas a brincar que eles partilharam em crianças tivessem voltado e transfigurado em algo completamente diferente.

Tudo aquilo ainda era estranho para Alfred, como se Arthur fosse um território desconhecido. Contudo, terras desconhecidas poderiam ser exploradas até à exaustão, e o Americano tinha todas as intenções de o fazer. Só tinha que levar o inglês lá para cima, deitá-lo na sua cama e explorar aquele corpo deliciosamente pálido até reduzir Arthur a uma criaturinha indefesa a implorar por mais prazer.

Ainda que fosse esquisito pensar em “Arthur”, “indefeso” e “implorar” na mesma frase. Nem mesmo quando estava à completa mercê de outra pessoa, Arthur alguma vez parecera indefeso, com os seus insultos cortantes e as suas tentativas de morder. E Alfred também nunca o vira a implorar por nada a não naquelas alturas em que falava muito e Arthur pedia por favor para ele se calar.

E talvez era por isso que Alfred sempre gostara tanto dele. Arthur fora um rapazinho baixo, magrinho e frágil, mas nunca se rendia numa luta, utilizava a mente para superar os obstáculos quando o seu corpo era incapaz de o fazer, não se importara muito do que os outros pensavam dele. Arthur nunca mostrara respeito por ninguém que não tivesse feito algo para o merecer, por isso Alfred calculava que para o inglês se entregar de corpo e alma a algum homem, esse teria que trabalhar muito até ter direito a tal dádiva.

Alfred já tinha o carinho de Arthur. Pelo menos tanto carinho quanto um melhor amigo dava a outro. Deduzia que deveria ser mais importante para o jovem arquiteto do que qualquer marmelo com quem este dormira em toda a vida e tal facto enchia-o de orgulho. Tudo o que tinha que fazer, agora, era mostrar que merecia dormir com Arthur, e que tinha mais direito de o fazer do que o tal Ying ou Yao ou lá como é o tipo se chamava.

A memória da cara delicada do homem asiático a lançar olhares de luxúria em direção de Arthur, que parecera irritantemente aéreo naquela noite, trouxe o familiar e corrosivo ciúme ao peito de Alfred. Na sua súbita raiva quase irracional, afundou o beijo e dominou a boca de Arthur, que petrificou momentaneamente com a brutidão dos gestos do outro, mas lá relaxou, rodeou as ancas do americano com as suas pernas delgadas e puxou com alguma força os cabelos dourados de Alfred, tanto como aviso, como para retomar algum controlo naquela situação.

Fazendo a vontade ao amigo, Alfred diminuiu a violência dos seus atos, descolou a sua boca da do inglês e voltou a ocupar-se do seu pescoço. Diabos que o levassem se Arthur saísse dali sem qualquer marca na pele.

Mordiscou e sugou até ficar satisfeito, pois Arthur não parecia ter vontade de o impedir e até lançava pequenos sons encorajadores e a sua garganta vibrava contra os lábios de Alfred a cada grunhido.

Após um trilho de beijos do ombro até à face, Alfred afastou-se e fitou o amigo, que o encarou de volta. A cara de Arthur estava levemente corada, de lábios vermelhos e olhos enevoados pelo desejo. Parte do seu cérebro chamava-lhe “adorável” enquanto a outra parte gritava-lhe que se proferisse tal palavra para descrever o arquiteto, era provável que não fosse capaz de fazer sexo com quem quer que seja nas semanas seguintes.

E finalmente, como se as graças divinas finalmente tivessem caído em si, Alfred conseguiu remover a camisola de Arthur sem que este o tentasse impedir. Sentiu-o estremecer com frio por debaixo das suas mãos exploradoras e rapidamente colou-se a ele para o aquecer… e para outras razões. Tateou as costas suaves do inglês, percorreu a coluna vertebral do outro com os dedos, saboreando cada alto e baixo como se um tesouro se tratasse. Ia depositando beijos delicados nos ombros, pescoço e peito, até chegar a um mamilo, que também era adorável, já agora, e mordicou-o levemente.

Arthur gemeu baixinho e curvou as costas num gesto de oferenda, presenteando Alfred com mais acesso ao seu corpo. A cozinha estava a ficar demasiado quente, e ambos tinham consciência que tal calor não provinha da lareira.

Alfred sentia o seu sexo latejar, confinado dentro das calças e roupa interior. O seu sangue ardia-lhe nas veias, pulsando de luxúria pura e encostou-se mais a Arthur, se ainda era possível. Tudo o que conseguia pensar de momento era no corpo deliciosamente pálido do seu melhor amigo e na cama que gritava por eles lá em cima, no seu quarto, pois sem qualquer dúvida que não iria foder o Arthur Kirkland pela primeira vez na sua vida encostado ao balcão da cozinha. Talvez mais para a frente, quando estivessem mais habituados aos corpos um do outro e já soubessem quem gostava do quê.

Acabou por também perder a camisola a certa altura. Sentiu-se um bocado desconfortável sob o olhar crítico de Arthur, que passou os seus dedinhos hábeis pelos seus peitorais e abdominais, aparentemente fascinado.

_ Gostas do que vês? – Perguntou Alfred com um sorriso, parecendo mais confiante do que na verdade se sentia.

_ Sempre gostei. – Respondeu Arthur. Levou os olhos mais a baixo e fez um ar mesquinho – E a julgar pelo tamanho do volume que tens aí nas calças, também vou gostar do que vou ver quando ficares sem elas.

Alfred sentiu o rosto aquecer com embaraço pelas palavras do arquiteto, e beijou-o para se impedir a si mesmo de cobrir a sua intimidade numa busca de a poupar do olhar penetrante de Arthur. Mas tinha que admitir que a sensação de ter a aquela pele suave encostada à sua era bastante agradável. Demasiado, até.

_ Pensava que tinhas dito que era demasiado cedo e que ainda estavas zangado comigo. – Murmurou Alfred contra a boca dele.

_ Mudei de ideias. – Arthur mordeu o lábio inferior de Alfred e passou as unhas pelos seus músculos do tronco – Tens preservativos?

_ Tenho.

_ Lubrificante?

_ Ah… não, não tenho nada disso. – De repente Alfred sentiu o pânico borbulhar, porque raios, como é que combinava ter sexo com um homem e não preparava os materiais necessários para o fazer devidamente.

No entanto a boca de Arthur estava na sua novamente, libertando-o dos pensamentos problemáticos.

_ Não é assim tão mau. – Disse o inglês suavemente – Arranjamos qualquer coisa.

Bem, iria confiar na palavra de Arthur, já que este tinha mais experiencias em assuntos homoeróticos. Deixou-se ficar pelas partes onde sabia que tinha talento, como beijar e provocar.

Mas as suas visões, que envolviam Arthur completamente despido embrulhado nos seus lençóis, foram cruelmente interrompidas por um toque violento de uma guitarra, que parecia relativamente distante.

Arthur arquejou e descolou-se de Alfred, olhando em volta como um animal confuso.

_ Ninguém me telefona a esta hora. – Murmurou ele, ainda vagamente perdido. Obrigou o americano a afastar-se enquanto saltava do balcão e corria para a sala de estar.

Alfred seguiu-o, também algo confundido e frustrado pela situação, indagando-se porque é que Arthur não poderia simplesmente ignorar o telemóvel. Então ouviu a voz exaltada do inglês e este saiu disparado da sala e correu pela cozinha a dentro, pegando de imediato na sua camisola esquecida.

_ … Já estou a caminho! É claro que não vou esperar até amanhã, seu imbecil, também sou irmão dele e a família vai aí estar toda! Até já! – E desligou a chamada. Posou o telemóvel em cima da mesa e vestiu a camisola.

_ O que é que se passa? – Perguntou Alfred, ainda à deriva com a situação.

_ O Scott ligou. O William está a ter o bebé!

_ O quê!?

_ O William está a ter o bebé! Bem, a mulher dele está a ter o bebé, não o William, mas ele continua a ser o pai e eu vou ser tio, oh, céus, eu nunca fui tio antes!

_ A criança está a nascer!? Agora? Mas eu pensava que ainda faltavam três semanas!

_ Isso é o filho do Matthew, Alfred, não o do William.

_ Ah! Pois. Desculpa, por vezes confundo-me. Ninguém os mandou engravidarem as esposas praticamente ao mesmo tempo. – Comentou Alfred numa tentativa de soar jovial. Entretanto, Arthur vestia o casaco – Vai lá agora?

A sua pergunta foi recebida com um olhar cortante.

_ É claro que vou lá agora! É o meu irmão! O Scott disse-me que já está na maternidade com o William e a Sara e os meus pais, a Eireen e o Peter já estão a caminho. Eu não vou ficar de fora num momento tão importante para nós.

Era claro. Nada era mais precioso para os Kirkland do que a família. Alfred achava fofo e querido, mas, sinceramente, a criança não podia escolher outra altura para nascer?

Com um suspiro, agarrou na sua própria camisola e vestiu-se.

_ Vai buscar a tua carteira e espera por mim na porta. Vou buscar o meu casaco.

Arthur mostrou-se admirado.

_ Também vens? Não é preciso!

_ Achas que eu te vou deixar conduzir a estas horas da noite como um desalmado naquela coisa podre!? Eu levo-te à maternidade.

_ Não critiques a minha carrinha! E despacha-te!

_ Já estou a ir, já estou a ir! – Grunhiu Alfred, ainda com só um braço coberto pelo casaco. Pegou nas chaves e desligou as luzes e televisão.

Ambos foram a correr para o carro do americano, um belo BMW preto que comprara depois de um mês particularmente produtivo no restaurante. Arthur enfiou-se logo no lugar do passageiro mal Alfred carregara no botão no interruptor ligado às chaves que abria as portas. O Chef, por sua vez, fez as coisas com mais calma, sentando-se no lugar com leveza e colocando o cinto de segurança em silêncio.

Arthur lançou-lhe um olhar de desespero.

_ Pelos colhões de Atena, mexe-me esse cu balofo ou eu juro que te roubo o carro!

_ Desculpa lá, acabaste de dizer que o meu rabo é balofo!? Perdoa-me por não ser um Jack the skeleton como tu!

_ És capaz de por esta porcaria a trabalhar!?

_ Tem calma, homem, a tua cunhada não vai a lado nenhum, ela tem uma criança de três quilos a sair-lhe pela vagina neste momento!

_ Alfred!

_ Está bem, está bem! – Enfiou as chaves pela ignição – Já vamos. – Ligou o carro e fez marcha atrás, removendo-se do seu espaço privado de estacionamento. Concentrou-se na condução, mas ia-se perguntando se ficaria tão exaltado quando o bebé de Matthew e Katyusha nascesse, como Arthur estava naquele momento.

_ És capaz de ir mais depressa!?

_ Já estou no limite de velocidade, Arthur, e tenho que ter cuidado com os gatos que gostam de se suicidar por estas bandas! – Tirou uma mão do volante e levou-a aos cabelos de Arthur carinhosamente – Acalma-te. Vai tudo correr bem, vais ver.

_ Não, não vai se continuares a ir à mesma velocidade que uma lesma!

Alfred suspirou mais uma vez, e calculou que Deus realmente o odiava e queria que ele sofresse.

Notas finais
E o meu presente de natal consiste em cock block. Porque eu amo-vos. Feliz Natal (Um dia atrasado) e um feliz ano novo, porque sem dúvida que não devo ter outro capitulo pronto até lá. Kisses, Evil.