Sure, Why Not?
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Um silêncio desconfortável caiu sobre ambos.
Arthur instalou-se numa cadeira perto da lareira, decidido, já que não queria ali estar, que não seria o primeiro a falar. Alfred, por sua vez, ocupara-se a colocar água a ferver no intuito de fazer um chá. Pegou num pacote de pão fatiado e no seu enorme jarro de nutella e começou a preparar sandes.
Apesar de não ter grande fome, Arthur não disse nada, ainda na sua teimosia de não ser o primeiro a proferir uma palavra. Uma sandes de nutella enfiada num prato branco foi colocada à sua frente, na mesa, mas foi ignorada. Levou o olhar para a direção oposta do americano, fazendo-se o mais difícil possível.
Ouviu Alfred afastar-se e remover-se da divisão. Resistiu à curiosidade de saber o que é que o outro estava a fazer e continuou de olhos postos nas labaredas que consumiam a madeira dentro da lareira. Os sons vinham lá de cima, pela esquerda, por isso assumiu que Alfred estava na casa de banho a fazer alguma coisa.
Quando voltou para baixo e regressou à cozinha, Arthur continuava de costas viradas para a porta. Ouviu Alfred colocar algo pesado em cima da mesa e estremeceu levemente.
Quase gritou quando sentiu dedos compridos tocarem-lhe gentilmente na face. Desta vez não conseguiu fingir que não estava interessado, pois Alfred obrigou-o a fitá-lo.
Encarou os olhos azuis de Alfred, que voltaram a estar meio escondidos pelas lentes dos óculos. Notou com um vago orgulho que a pele em volta do olho esquerdo estava a ficar lentamente negra, fruto do seu punho.
Alfred arrastou uma cadeira para a sua frente e sentou-se sem qualquer graciosidade. Arthur reparou que ele tinha trazido uma caixa de primeiros socorros. O americano retirou de lá algodão e desinfetante. Uma vez estando o algodão molhado, ele agarrou novamente a cara de Arthur e praticamente lhe espetou o algodão no nariz.
_ Hei! O que é que pensas que estás a fazer! – Bramou Arthur indignado, afastando o rosto da mão ofensiva.
_ Para quieto, sua peste. Estou a limpar-te a cara.
_ O Yao limpou-a antes de se ir embora, muito obrigado. – Comentou Arthur secamente e engoliu em seco ao ver o vago brilho mortífero no olhar celeste do amigo – Eu não vim aqui para tratamentos médicos, comida e chá. Querias falar, então desembucha.
_ Se ele limpou-te a cara, então fez um trabalho do piorio. Ainda tens sangue nas bochechas e acho que devias meter gelo no nariz. Ele está a ficar um bocado roxo.
_ E de quem é a culpa disso? – Ironizou Arthur, mas deixou-o trabalhar em paz. Era inacreditável como aquelas grandes, longas e gentis mãos que limpavam a sua face com a maior das delicadezas tivessem causado a dor aguda que percorria o seu nariz.
Alfred fez um ar culpado e parou a sua tarefa momentaneamente.
_ Eu nunca pensei que alguma vez te fosse bater.
_ Eu bati-te primeiro. Além disso somos homens. A sociedade espera isso de nós.
_ Estou-me a cagar para o que a sociedade espera. Eu nunca te bati, nem mesmo depois de me teres partido o nariz quando tínhamos quinze anos, coisa que eu duvido que tenha sido um acidente, como gostas tanto de afirmar. – Ignorou o pequeno som de protesto vindo de Arthur – E apesar disso, também sempre achei que nunca me irias bater, pelo menos diretamente. Pelos vistos estava errado.
_ Estás a tentar fazer com que me sinta mal por te ter dado uma carga de porrada. – Resmungou Arthur teimosamente. Ele já se sentia horrível o suficiente sem ter Alfred ali todo simpático a limpar-lhe as feridas – Eu também nunca pensei que alguma vez me fosses chamar aquilo. Sabes bem que eu odeio aquela palavra.
Alfred mostrou-se ainda mais miserável. Colocou o algodão, agora encarnado, em cima da mesa e suspirou. A tristeza que mostrava apertou o coração de Arthur, que não queria nada mais do que se atirar a ele, rodear os braços pelo seu tronco e enterrar o rosto no seu peito, como tinha feito tantas vezes depois de uma discussão ou simplesmente porque um deles estava mais deprimido.
Mas não o fez. Não o fez porque o seu orgulho não o permitia. Não o fez porque Alfred tinha-o magoado de formas piores do que os murros e pontapés que trocaram nos labados daquele restaurante chique.
_ Estás zangado comigo. – Murmurou Alfred suavemente, de olhos pregados ao chão.
_ A sério? Não sei onde foste buscar tal ideia. – Respondeu Arthur sarcasticamente.
Alfred colocou o rosto nas mãos, grunhindo alguma coisa. Respirou fundo, os seus ombros largos descaíram e ele mostrava uma pose de total e absoluta desistência.
_ Eu não queria que isto acontecesse! – Lamentou-se o americano sem tirar o rosto das mãos. A voz saiu abafada mas Arthur percebeu-o – Eu nunca pensei que alguma vez fosse capaz de tocar-te e magoar-te daquela maneira.
_ Falas como se eu fosse uma fadinha delicada com asinhas de vidro. – Comentou Arthur, tentado parecer mais relaxado e indiferente do que na verdade se sentia – Já levei pior.
_ Não de mim! Nunca deverias levar de mim! Mas eu estava tão zangado! Eu… eu acho que… — Ergueu o rosto e fitou os olhos de Arthur seriamente – Arthur… eu acho que já não deveríamos ser amigos.
_ O quê!? – Bramou Arthur horrorizado. Levantou-se num salto, demasiado inquieto para estar sentado – Só podes estar a brincar! Eu sei que andamos às cabeçadas, mas acabar com a nossa amizade só porque tentamos destruir uma casa de banho pública? Já tivemos discussões antes e conseguimos supera-las!
_ Mas eu nunca te bati! Sou abusivo! Sou um melhor amigo abusivo!
_ Estás a ser ridículo. E eu bati-te primeiro. Sou tão abusivo como tu.
_ Não! Eu tenho-te chamado coisas terríveis, eu… eu acho que não mereço ser teu amigo.
Arthur rolou os olhos. A chaleira começou a chiar e ele atravessou a cozinha para desligar o fogão. Encostou-se, exausto, ao balcão e encarou Alfred com uma sobrancelha erguida.
_ Para de ser melodramático. Lá por andares a comportar-te como um imbecil, não quer dizer que já não mereces ser meu amigo. Não sei ainda muito bem qual é exatamente o teu problema com a minha vida privada, mas tenho a certeza que isso vai passar!
Caíram num silêncio desconfortável. Alfred fungava, perturbado, sentado na sua cadeira. Não olhava para Arthur, como se achasse que não fosse merecedor de tal proeza. O inglês, para se entreter, foi tratar do chá. Encheu uma chávena para si e para Alfred, mesmo com o conhecimento de que este não apreciava a bebida.
_ Desde… desde que tu fizeste aquela proposta… — Murmurou Alfred num tom monótono ao mesmo tempo que Arthur colocava uma colher de açúcar na sua chávena – Tenho pensado em coisas sobre ti que...coisas que até já tinha pensado antes, mas que sempre as afastei da minha mente mal elas começavam.
_ Que coisas? As tuas ideias de que sou um total vadio? Que achas que me ponho de joelhos para a primeira pila que me apareça à frente?
_ Não. Eu nunca pensei isso de ti. Nem nos últimos dias, só não gostava de pensar em ti com outros homens.
_ Não vejo porquê. Sou gay, nunca te escondi esse facto, não é como se a minha preferência por pénis fosse alguma surpresa para ti. A não ser que sejas na verdade homofóbico e escondeste-o muito bem estes anos todos.
_ Eu não sou homofóbico. Não tenho qualquer problema com a tua sexualidade. Só não gosto de imaginá-los a tocarem-te. Eles não te merecem.
_ Eu acho que consigo ser juiz de quem me merece ou não.
_ Não, não sabes.
_ Porque é que continuas a tentar controlar-me? Pensava que já tínhamos chegado ao acordo que isso não resultava.
_ Tu também controlaste-me muito quando estudávamos.
_ Obrigar-te a fazer os trabalhos de casa não é a mesma coisa que esta situação, Alfred. – Resmungou Arthur enquanto cruzava os braços – E quando me disseste para parar, eu parei.
_ Deste-me um sermão de meia hora!
_ Mas parei! Tudo o que eu queria neste momento era que parasses de me lançar olhares julgadores de cada vez que alguém sai comigo! Ugh! Eu não sei o que é que queres! Primeiro querias que eu te contasse tudo! Com quem dormia e como o fazia. Depois eu… eu fiz-te aquela proposta e estás assim, todo… cruel para mim.
Alfred lançou um olhar culpado em direção da lareira, como se esta é que tivesse ficado ofendida.
_ Vais dormir com ele?
_ Com quem, Alfred? – Perguntou Arthur num tom cansado.
_ Com o Ying, ou Yao ou lá como ele se chama.
_ Não tinha grandes ideias de o fazer antes de estragares a minha noite.
_ Eu faço sexo contigo se me prometeres que não dormes com ele. – Negociou Alfred suavemente.
_ Eu não vou dormir com o Yao, ele não faz o meu… o que é que disseste? – Arthur certamente não tinha ouvido bem. Talvez o murro que Alfred lhe espetara no nariz tivesse provocado algum dano ao seu cérebro, porque sem dúvida que estava com alucinações.
_ Eu… eu não quero que durmas com ele. Mas percebo que queiras ter sexo, afinal és humano, por isso ofereço-me para ter sexo contigo. – Alfred levantou-se enquanto falava, levando a mão ao peito num gesto de dedicação – Por isso, se eu dormir contigo, as vezes que quiseres, não dormes com ele.
Arthur fitou-o, incrédulo. Ainda bem que as chávenas estavam esquecidas no balcão e não se encontravam nas suas mãos, ou já estariam despedaçadas nos azulejos, tal era o seu espanto.
_ Então? – Perguntou Alfred, ainda no seu tom suave – Queres dormir comigo?
_ Não! – Guinchou Arthur, indignado.
Alfred pestanejou, admirado pela resposta do outro. Franziu as sobrancelhas louras e inclinou a cabeça, confuso.
_ Não? Mas eu pensava que querias dormir comigo.
_ E quero, mas não se for para controlares a minha vida. Se vais fazer sexo comigo, fá-lo porque queres, não porque sentes a obrigação de… eu nem sei. Pelas barbas do meu pai, Alfred…
_ O teu pai não tem barbas.
_ … não vou ter sexo contigo por essas razões.
_ Mas se queres dormir comigo, porque não aproveitar?
Arthur corou ao ouvir as palavras do outro e cruzou os braços.
_ Eu só durmo com homens que me acham minimamente atraente… e que querem mesmo dormir comigo, porque me desejam e querem divertir-se um pouco, não porque sentem a obrigação de me satisfazer para eu não ir procurar mais nenhum parceiro.
_ Mas eu quero dormir contigo. – Respondeu Alfred num tom calmo. Demasiado calmo. E porque raio estava ele a aproximar-se? – Não te disse andava a pensar em coisas que não devia?
_ E isso envolvia uma cama?
_ Também. – O americano sorriu – Também gosto de o fazer no sofá.
_ Mas… eu… para de dizer essas coisas! Eu não vou dormir contigo! Ainda estou zangado. Trataste-me abaixo de cão quando te perguntei se querias fazer sexo comigo, achas que simplesmente ia aceitar-te de pernas abertas?
_ Não querias dizer “de braços abertos”?
_ Eu sei muito bem o que disse!
_ Eu sei muito bem que não ias aceitar logo. Eu conheço-te. Precisas de um pouco de persuasão.
Subitamente, Arthur viu-se encurralado entre o balcão da cozinha e o corpo quente de Alfred. Pendeu a respiração ao sentir cada músculo definido do tronco do americano colado ao seu. Quando o choque inicial e a primeira onda irracional de desejo passaram, Arthur sentiu as bochechas aquecerem ao ponto de combustão. Lançou um olhar hesitante a Alfred, que lhe sorria docemente com os lábios e com os olhos.
Seria muito tarde espertar-lhe mas um murro no focinho?
Era, pois qualquer pensamento violento derreteu no momento em que a boca de Alfred se fechou sobre um ponto delicado do seu pescoço.
Arthur não queria ceder e estava a dar tudo por tudo para resistir, a sério que sim, mas estava a ser particularmente complicado rejeitar o americano quando este mordiscava a pele de forma tão experiente e deliciosa. Dentes traçaram levemente uma linha entre a junção do seu ombro até por debaixo da orelha e Arthur lançou um pequeno gemido e estremeceu.
_ O que raio estás a fazer!? – Suspirou ele bruscamente, humilhado pela sua falta de controlo. Derreteu-se mais um pouco quando Alfred mordiscou-lhe o lóbulo da orelha.
_ A persuadir-te. – Respondeu Alfred num murmúrio abafado e foi distribuindo pequenos beijos contra o maxilar do inglês.
_ Eu não vou dormir contigo! – Ralhou Arthur, teimoso.
_ A sério? – As mãos do americano serpentearam por debaixo das roupas elegantes que Elizaveta escolhera para Arthur. Dedos compridos foram-se regalando com a pele suave e alva, percorrendo um trilho pela coluna do inglês – Não estás a ser muito convincente.
Arthur beijou-o, então, dizendo a si mesmo que só o fazia para o calar. Alfred lançou um grunhido de apreciação e aprofundou o gesto, invadindo a boca do inglês com a sua língua. Não houve qualquer batalha de dominância, até porque Arthur tinha mais que fazer, como explorar os abdominais de Alfred por de cima da camisa branca que ele usava. Céus, eram uns belos abdominais, mal podia esperar por vê-los sem qualquer peça de tecido a esconder a sua glória.
Espera! Não! Ele não ia dormir com o Alfred.
Afastou a boca da do outro momentaneamente para o mandar para o caralho, mas Alfred rapidamente a recapturou e qualquer insulto que Arthur quisera proferir foi perdido. A língua de Alfred sabia o que fazia e a língua de Arthur, por sua vez, estava a sentir-se imensamente feliz por fazer novas amizades.
Arthur tentou falar novamente, coisa que continuava a ser difícil graças ao músculo forasteiro americano enfiado pela sua goela abaixo. Como resposta, Alfred grunhiu alguma coisa contra ele e moveu as ancas, roçando as intimidades excitadas de ambos. Uma das suas grandes mãos instalou-se na nádega direita de Arthur, apalpando e apertando, enquanto a outra viajou até ao seu peito, por debaixo das roupas, beliscando provocatoriamente um mamilo indefeso.
Aquilo estava a mover-se depressa. Pensou Arthur vagamente, com o cérebro enevoado com desejo. Demasiado depressa.
_ Espera…! – Conseguiu ele finalmente arquejar, antes de ter os seus lábios novamente possuídos – hmmm! Al…! … red!
Mas Alfred parecia determinado em leva-lo para a cama. Se fosse naquele sábado, quando Arthur lhe fizera a proposta, o inglês não teria tido qualquer problema em deixar o outro levar à avante. Mas agora estava tudo demasiado complicado e confuso. As palavras e ações do seu amigo ainda lhe pesavam o coração e por muito agradável e tentador que fosse a ideia de total e maravilhosamente fodido por Alfred F. Jones ali mesmo no chão da cozinha, teria de recusar.
Num misto de ações entre tentar afastar-se e continuar a beijar Alfred, porque era algo que Arthur já desejava há algum tempo e era difícil separar-se, o inglês acabou por inclinar a cabeça bruscamente, chocando o seu nariz com o do amigo.
Uma dor aguda percorreu-lhe o rosto e ele soltou um arquejo choroso, assim como uma corrente de palavrões. Admirado, Alfred descolou-se dele um pouco, dando-lhe espaço enquanto Arthur levava as mãos ao seu nariz ferido, que latejava por ter sido mal tratado outra vez.
Pelo menos acabara com aquela festança toda.
Apesar do desejo de Arthur ter-se dissipado vagamente por causa da dor, Alfred ainda tinha um ar selvagem. Ainda assim não deu qualquer indicação que retomaria as suas ações eróticas num futuro muito próximo, pelo menos enquanto Arthur soltasse pequenos sons de agonia por causa do nariz.
_ Deixa ver. – Murmurou o americano e retirou as mãos de Arthur do rosto. Analisou no nariz do inglês em silêncio, movendo a cara deste num lado para o outro com a ponta dos dedos. Uma vez terminada a inspeção, suspirou e deu um passo atrás – Não me parece que esteja partido.
_ É de admirar, visto que levou com as tuas patorras. – Resmungou Arthur num tom de voz quebrado, tanto pela atividade passada momentos antes como pela dor aguda que ainda lhe percorria a cana do nariz.
Alfred não lhe respondeu, limitando-se a fitá-lo fixamente. Ficaram assim durante vários minutos até Arthur se sentir demasiado desconfortável a ser alvo de um olhar tão intenso.
_ O que é? – Perguntou com brusquidão.
_ Quero saber a tua resposta.
_ Resposta para quê?
_ Se dormes comigo ou não. Já provei que quero mesmo dormir contigo, eu não sou assim tão bom ator para fingir tudo o que se passou há cinco minutos, por isso queria saber se aceitas.
_ Quando eu te fiz a proposta, disseste que não querias dormir comigo. – Acusou Arthur. Sentia os lábios tenros pelos beijos e tinha a certeza que deveria ter marcas no pescoço.
Ainda bem que estava de folga no dia seguinte, ou os seus irmãos não o deixariam em paz.
_ Estava a mentir. – Respondeu Alfred aproximando-se de novo.
_ Fica aí, quietinho! – Arthur impediu-o de se chegar mais ao erguer um braço. Alfred pestanejou, admirado – Quero-te aí, assim não há mais incidentes.
_ Não gostaste do incidente que aconteceu há pouco?
Sentiu um novo rubor atingir-lhe as bochechas.
_ É claro que gostei. Mas… mas é muito cedo para isto. Eu… eu estou cansado e dói-me tudo. Sinto-me como se tivesse sido espancado por um gorila raivoso. E… e ainda estou muito triste por aquilo que se passou entre nós.
_ Mas…!
_ Olha, não estou a dizer que não tenhamos sexo nunca, nem nada parecido. Só não agora, está bem? Eu… estou muito confuso de momento.
Alfred não proferiu qualquer palavra durante alguns segundos, limitando-se a analisá-lo. Ainda que já não tivesse aquela aura selvática à sua volta, ainda mostrava algum desejo no olhar, assim como dentro das calças.
_ Está bem, então. Não fazemos nada hoje.
_ Nem amanhã.
_ Nem amanhã. – Concordou o Americano com um sorriso – Mas… sou eu que escolho quando e onde.
_ M-mas…! Mas isso é injusto! E se escolheres num dia em que eu não esteja pronto?
_ Eu conheço-te, vou saber muito bem quando estiveres pronto. – Afastou-se totalmente, como se tivesse medo de se aproximar demasiado – É melhor assim. Dá-nos mais tempo para pensar. Além disso tenho que arranjar uma boa maneira de te compensar pelas coisas que te disse. Ainda que ache que uma boa foda resolvia o assunto.
_ Não. – Resmungou Arthur, teimoso – Se queres compensar-me, faz-me meia dúzia daqueles teus muffins de chocolate. E saiu um livro novo de um dos meus autores favoritos. Compra-mo. Já te disse, sexo para mim é uma forma de dar e receber prazer, seja por amor ou simplesmente para ter diversão. Não é uma forma de controlo ou uma maneira de compensar por alguma coisa errada. Parece-me falso, assim.
_ Está bem, está bem. Farei os muffins mais deliciosos de sempre. – Alfred lançou-lhe um grande sorriso antes de ficar sério novamente. – Arthur, eu estou mesmo arrependido por tudo o que te disse. Eu… eu não sei porque é que fiquei tão chocado quando me fizeste aquela proposta, afinal de contas, tu és gay e eu sou deliciosamente sexy, quem é que te culpa, certo?
_ Se dizes esse tipo de coisas mais uma vez, parto-te o nariz mais uma vez.
_ Só te estou a pedir desculpas. Eu… eu gosto muito de ti e és o meu melhor amigo. Se vamos fazer sexo um com o outro, mesmo depois de eu ter agido como um parvalhão, queria saber se depois disto tudo passar, continuaremos a ser amigos.
Arthur não conseguiu conter o curvar de lábios, nem o calor da ternura que percorreu o seu peito ao ouvir as palavras do outro. Chegou-se a Alfred e deu-lhe umas palmadas afetivas no ombro.
_ É claro que vamos continuar a ser amigos, seu idiota. Já andamos aqui quase há vinte anos, e vamos continuar vinte anos mais. Acho que tinhas que fazer algo mesmo terrível para eu deixar de ser teu amigo. Como matar alguém a sangue frio, tornares-te um violador, ou pedófilo. Eu juro que te dou uma carga de porrada se virares pedófilo.
Alfred rolou os olhos com a declaração do inglês.
_ Para além de serem fofas, não há nada fascinante em crianças, muito obrigado. Neste momento tenho os meus olhos virados para ingleses mal-humorados com sobrancelhas gigantes.
_ Esses ingleses mal-humorados dão-te um pontapé nos tomates daqui a pouco se continuares a criticar as suas sobrancelhas. – Ameaçou Arthur sem grande raiva. Suspirou, cansado e aquela exaustão que sentira quando saíra do parque de estacionamento do restaurante, regressou, deixando-o mole – Acho que me vou embora, a minha cama está a gritar por mim e o meu corpo está a gritar por ela.
_ Ok.
Mas nenhum deles se mexeu e um silêncio embaraçado tomou conta da cozinha. O chá e as sandes que Alfred tinha preparado estavam no mesmo sítio onde tinham sido deixados, ignorados pelos dois amigos.
_ Eu… herm… — Arthur tossiu, atrapalhado – Eu vou embora, então.
_ Eu levo-te à porta.
Caminharam os dois até à porta sem dizerem uma única palavra, visto que nenhum dos dois parecia conseguir arranjar palavras para comunicação. Alfred colocou uma mão no fundo das costas, guiando-o com gentileza pelo corredor.
Arthur abriu a porta com um sorriso triste e estremeceu ao sentir o vento frio entranhar-se nos seus ossos. Praguejou alto e encolheu-se. Sentiu um peso nos ombros e viu-se coberto com o casaco preferido de Alfred.
_ Podes ficar com ele por enquanto. – Disse-lhe o americano, despenteando os cabelos dourados do outro – Dás-mo noutro dia.
_ Até to lavo com o detergente favorito da minha mãe. – Concordou Arthur baixinho, embrulhando-se do casaco castanho para se aquecer – Fica fofinho e a cheirar a sabão.
_ Parece-me bem. Está um gelo aqui fora. Devias ir para casa antes que fiques doente. Depois tenho que tomar conta de ti e tu és uma peste quando estás de cama.
_ Até parece que és muito mais agradável. – Retorquiu Arthur, embaraçado. Abraçou-o, então, enterrando o rosto no seu peito. Alfred lançou um som admirado, mas reconheceu o gesto de reconciliação e relaxou. Passou os braços pelos ombros de Arthur e espetou a cara nos seus cabelos, inalando o aroma suave a limão que provinha do champô que o inglês usava.
_ Estamos bem? – Perguntou Alfred num murmúrio fantasmagórico.
_ Estamos. – Afirmou Arthur enquanto se enterrava mais contra o corpo do amigo, aproveitando o máximo de calor possível.
_ Devias ir para casa. – Comentou o americano, que não se mexeu – Devias por alguma coisa nesse nariz.
_ Tem melhor aspeto que o teu olho. – Arthur afastou-se e rapidamente quis voltar para o abraço de Alfred, porque o frio voltou – Ugh, está mesmo um gelo aqui fora. Já não sinto os dedos dos pés!
_ Vai então. Devias dormir.
Foi preciso um grande pedaço de coragem para Arthur meter-se em bico dos pés e colocar um beijo casto nos lábios dos outros. Ruborizou imenso, ralhou consigo mesmo por estará comportar-se como uma menina adolescente que finalmente se confessou ao seu primeiro amor, deu um passo atrás.
_ Adeus, então. Tem uma boa noite.
_ Boa noite, Arthur.
O jovem arquiteto praticamente correu até à sua carrinha para tentar fugir das garras do outono. Entrou no seu veículo e teve que ligar o motor diversas vezes, pois este estava constantemente a desligar-se, até que houve uma vez que ele finalmente começou a ronronar no seu tom rouco e cansado.
Pelo espelho retrovisor, Arthur viu Alfred entrar dentro de casa e suspirou pesadamente. Todos os acontecimentos da noite passaram-lhe pela mente, desde conhecer Yao até à pequena festa privada que tivera com Alfred encostado ao balcão da cozinha.
_ Merda. – Murmurou com leveza e sorriu timidamente, abrandando a carrinha para não atropelar outro daqueles gatos irritantes e suicidas.
As coisas já não lhe pareciam tão melancólicas, agora.
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Apanhou uma leve constipação, no entanto. Não foi nada de especial, apenas uma tosse seca e o nariz, ainda dorido pela luta, entupido com muco.
Passou o seu dia de folga embrulhado numa manta quentinha e a senhora Macapple foi simpática o suficiente para lhe fazer uma canja. Arthur quase lhe quis vender a alma pela gentileza.
No domingo foi dia de família. Família essa que já sabia da sua luta com Alfred. Arthur suspeitou imensamente de Elizaveta. Ouviu o sermão longo da sua mãe, que lhe disse que nunca deveria bater nos amigos e esse tipo de coisas inspiradas. Os seus irmãos estiveram no lado dele, no entanto, orgulhosos por terem ensinado Arthur a defender-se como um homem. Eireen juntou-se ao sermão da mãe, mostrando que a sua paixoneta por Alfred ainda continuava de pé e Arthur ficou subitamente muito contente por não ter contado a ninguém que alguma vez propusera sexo ao melhor amigo e que duas noites antes esse mesmo melhor amigo curtiu com ele como se a sua vida dependesse disso.
Deixaram o assunto ir, ainda que sua mãe e Eireen lhe fossem lançando uns olhares desaprovadores, e passaram um dia agradável em conjunto.
Na segunda, Arthur instalara-se no escritório do seu pai e Brody, desenhando as mudanças que Feliciano lhe tinha pedido para fazer no projeto da casa. Estava concentrado no seu trabalho quando Scott entrou com um cesto numa mão e um muffin de chocolate meio comido na outra.
_ Hei minorca, o teu Alfie-kins passou por cá e deixou-te isto. – Rugiu Scott com a boca cheia e colocou o cesto em frente do irmão – Estas coisas estão bem boas. Se nãos as comeres, podes dar-mas a mim.
_ Vai cagar, este presente é meu. – Arthur agarrou no cesto de forma possessiva – Arranja o teu próprio melhor amigo cozinheiro.
_ Tens a certeza que ele é só teu amigo? – Perguntou Scott com uma sobrancelha ruiva erguida – Vocês sempre pareceram tão… juntinhos.
Arthur sentiu-se ruborizar, especialmente quando as memórias de sexta à noite lhe vieram à mente.
_ Não sejas ridículo. – Resmungou Arthur – E vai-te embora daqui, não vês que estou ocupado?
_ Ui, ui, tremo de medo quando olhas assim para mim. – Riu-se o mais velho alegremente e enfiou o resto do muffin na boca.
Scott retirou-se do escritório e Arthur foi grunhindo maldições num tom baixo. Retirou um muffin no cesto e admirou-se ao ver que no meio dos doces, encontrava-se um pequeno cartão azul.
Arthur agarrou no papel e levou-o até ao rosto, decifrando a letra desorganizada do seu melhor amigo.
“A primeira meia dúzia da minha compensação”
Arthur sorriu e levou um muffin à boca. Foi aquecido corpo e alma com o sabor doce do chocolate e lançou um pequeno gemido de apreciação.
Era bom que não se chateassem muito mais vezes, porque se Arthur continuasse a receber compensações daquelas, ficaria numa bola.
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