Notas iniciais
Heeeeey... Desculpem o atraso, mas pelo menos têm um capitulo grande, né :) So, eu tentei usar a versão portuguesa das palavras "fag" e "Faggot" que nos estados unidos é uma forma ofensiva de tratar alguém homossexual, e só pensei em "paneleiro" que é a mesma coisa cá em portugal, julgo que por aí no brasil vocês utilizam "Veado". Eu use "paneleiro" porque sou portuguesa e uso palavras da minha terra. Também temos veados por aqui, mas esses são só bixinhos de quatro patas. Era só para saberem o que era um "paneleiro", já que essa palavra aparece mais à frente e não queria que pensassem que alguém fazia panelas, ou coisa parecida. Casa de banho é banheiro, btw.

Eram quatro da tarde de uma quinta-feira gelada de Outubro e Alfred relaxava atrás do balcão, a descansar músculos e mente depois de horas a fio em frente ao fogão. Por vezes ainda se mexia para ajudar Elizaveta a servir algumas cervejas, mas estas eram raras.

Por falar em Elizaveta, a jovem mulher andava extremamente curiosa com a sua vida pessoal desde que Francis regressara depois de tantos anos a passear pelo mundo. A sua amiga e empregada, já que, teoricamente, ele era uma espécie de patrão, ainda que Matthew é que tratava dos dinheiros e ordenados, andava sempre a fazer perguntas sobre Arthur e a tentar descobrir quais eram os correntes problemas entre os dois, mas Alfred conseguia desviar sempre a conversa, para grande frustração dela.

Ele adorava Elizaveta com todo o seu coração, mas não queria que ela metesse o nariz onde não era chamada.

Suspirou pesadamente e anuiu para o que quer que seja que Berwald Oxenstierna estava a tentar dizer no seu inglês carregado com um sotaque finlandês cerrado. Já se tinha perdido na conversa desde que o pobre homem dissera mais que duas frases.

_ Oh Ludy! Não é um lugar adorável?

Alfred moveu a sua atenção em direção da voz desconhecida. Não era sempre que havia pessoas novas por ali, e o tempo estava demasiado frio para terem turistas.

Dois homens tinham entrado. Eram praticamente o oposto um do outro. O mais alto era louro, de ombros e tronco largo e musculado, rosto escultural repleto de ângulos masculinos e dominantes e olhos azuis gélidos e intimidantes. O seu companheiro, por outro lado, era baixo e magrinho. Tinha cabelo castanho, pouco cuidado e grandes e curiosos olhos cor de avelã. Um enorme sorriso rasgava-lhe a cara redonda e quase infantil, apesar de ser claro de que se tratava de um adulto.

Ignorando os olhares interessados dos residentes da cidade, o homem moreno saltitou pelo estabelecimento, analisando tudo com um interesse excessivo, como se o restaurante dos Jones tivesse todos os segredos do Universo.

_ Bom dia. – Cumprimentou Alfred polidamente, já que Berwald também tinha parado a sua conversa incompreensível para dar toda a sua atenção aos estranhos.

_ Olá! – Bradou o homem moreno alegremente, mas depois fez um ar indeciso – Disse corretamente? “Olá”? Ainda estou um bocado inseguro com o meu inglês.

_ Unng… sim, está correto. E o seu inglês parece-me ótimo. – Era melhor do que o de Berwald, pelo menos, que já se movera para os Estados Unidos há sete anos e ainda não conseguia fazer com que as pessoas o percebessem.

_ Maravilha! – O sorriso estava de volta – Diga-me, caro cavalheiro, de quem é este adorável estabelecimento?

_ Tecnicamente é do meu pai. Mas eu e o meu irmão é que tratamos dele.

_ É o dono? Ah! Ludy, Ludy, encontrei o dono. – Chamou ele com entusiasmo.

O homem louro franziu o sobrolho, descontente.

_ Eu ouvi, Feliciano. E não grites, estás a provocar demasiado alarido.

Mas o baixinho, Feliciano, ignorou-o, olhando para Alfred com alegria. O americano retribuiu-lhe o gesto, divertido com o comportamento do outro.

_ Vejo que tudo neste sítio é adorável! – Comentou Feliciano – Cidades pequenas são assim. Tão bonitas e delicadas. E aquela zona ao pé do lago? Estrondosa!

_ Sim, adoro o lago. Passava lá a vida quando era miúdo. – E a última vez que lá pôs os pés foi beijado pelo seu melhor amigo, causando uma cascata de pensamentos eróticos e proibidos que invadiam a sua mente nos momentos mais inoportunos. – Vocês são os clientes dos Kirkland! – Disse subitamente.

Feliciano mostrou-se agradado.

_ Falaram-lhe de nós!? Que bom! Eles são muito simpáticos!

_ São sim. O meu melhor amigo é o arquiteto e falamos muitas vezes sobre trabalho.

_ O Arthur? Oh ele tem imenso talento! Vimo-lo a restaurar uma cadeira no outro dia, ficou maravilhosa! Não ficou Ludy? – Virou-se para o seu companheiro.

_ Ficou sim, Feliciano.

_ O Arthur tem umas mãozinhas talentosas. – Riu-se Alfred até se aperceber que o seu comentário poderia ser tomado de outra forma. Oh meu Deus, porque é que agora tudo em que Arthur era inserido tomava um contexto sexual na sua mente?! – Todos os Kirkland têm! – Apressou-se a dizer, e depois reparou que ficou ainda pior – De facto, todas as cadeiras presentes no nosso restaurante foram feitas pelo pai e pelos filhos mais velhos.

_ A sério? – Guinchou Feliciano, felicíssimo – Pelos santos do nosso Senhor, isto é maravilhoso! – E colou-se à cadeira mais próxima, analisando-a com fascinação.

O seu parceiro suspirou pesadamente, embaraçado pela forma de como Feliciano se comportava. Dirigiu-se a Alfred, que lhe lançou um olhar de compaixão.

_ Peço imensa desculpa pelo comportamento do meu parceiro. – Pediu num sotaque alemão cerrado que era, com alguma surpresa, bastante compreensível.

_ Ah, não fique assim, não há qualquer problema. – Disse Alfred alegremente – Eu gosto de pessoas simpáticas e cheias de vida, fazem este sítio mais colorido.

O grande alemão pareceu relaxar e anuiu. Estendeu a mão, num gesto formal de cumprimento.

_ O meu nome é Ludwig Beilschmidt e o meu parceiro é Feliciano Vargas.

_ Humm… sou Alfred. Alfred F. Jones. – O jovem cozinheiro fechou a sua mão na outra que lhe era oferecida, num aperto firme e jovial.

_ Prazer. Então conhece os Kirkland, pelo que eu percebi?

_ Toda a gente conhece os Kirkland. Mas sim, tenho uma amizade com o Arthur já faz uns vinte anos.

_ Sim? Impressionante. Devem ser bastante próximos.

_ Somos sim. – Apesar de Arthur ter sugerido que ambos ficassem muito mais próximos… na cama… raios, Alfred, para de pensar nisso! – Andamos na escola juntos e nem a ida para diferentes Universidades nos separou.

_ É interessante, uma amizade dessas. Devem amar-se como irmãos.

_ Eu não diria “irmãos”… — Disse Alfred, indeciso. Afinal, irmãos, em circunstâncias normais, não se queriam foder uns aos outros – A minha relação com o Arthur é diferente da minha relação com o Matthew. Gosto muito do Arthur e ele é o meu melhor amigo, mas não o chamaria de irmão.

Ludwig ergueu uma sobrancelha loura, mas não comentou. Nem tinha nada a comentar, pois ele era um estranho que acabara de conhecer.

_ Ludy, acho que também deveríamos contratar os Kirkland para nos fazerem a mobília! – Informou Feliciano, materializando-se ao lado do seu parceiro.

_ Não digas tolices, isso demoraria demasiado tempo. Compraremos tudo em lojas específicas, como as pessoas normais.

_ M-mas…! Mas assim ficaria especial! Cada uma destas cadeiras é única e todas têm características diferentes! Eu quero coisas únicas e bonitas na minha casa, não cópias do que os outros já têm!

_ Discutiremos isso quando regressarmos ao apartamento.

_ Estão num apartamento? – Intrometeu-se Alfred, curioso.

_Estamos sim. Alugámos um apartamento a uns quarteirões a cima. Sairemos de lá uma vez que a nossa casa estiver habitável. A nossa senhoria não parece apreciar muito a… a nossa relação.

_ É a senhora Køhler? Isso parecem-me coisas da senhora Køhler.

Os dois homens pareceram admirados.

_ É pois! – Guinchou Feliciano alegremente, praticamente atirando-se para cima do balcão – Mas o senhor conhece tudo e toda a gente?

Alfred riu-se. Pelo canto do olho, viu Elizaveta passar e lançar olhares curiosos aos novos residentes da terrinha.

_ Eu vivi aqui toda a minha vida. E a senhora Køhler é uma das poucas que arrenda apartamentos por aqui, e também foi uma das mais criticou o Arthur quando este saiu do armário.

_ Oh! O Arthur é gay!? – Feliciano lançou um mini olhar acusador a Ludwig – E tu a criticar e a dizer que eu provavelmente o tinha feito desconfortável no outro dia!

_ Lá por ele ser gay não quer dizer que goste de receber dois beijos de cada homem que encontra.

_ Se for bonito, como eu, qual é o problema?

Naquele momento tanto Ludwig como Alfred não estavam a apreciar a conversa, por razões diferentes.

_ Então… essa senhora Køhler criticava o Arthur? – Perguntou Feliciano, interessado.

_ Pff, não se calava. Até chegou a criticar-me a mim e ao meu irmão por sermos amigos dele. Disse-lhe na cara que ele era uma criatura nojenta e que simplesmente fazia aquilo por atenção.

_ Não acredito! O pobrezinho!

_ É o Arthur. Mostrou-lhe o dedo do meio e virou­-lhe costas. – Alfred sorriu com ternura ao lembrar-se. A cara que a mulher fizera ao ver o dedo estendido centímetros do seu nariz ainda era hilariante. – Depois foi criticar os pais dele, a dizer-lhes que o facto de ele gostar de homens tinha sido culpa deles e que se eles tivessem vergonha, punham-no no lugar e arranjavam-lhe uma namorada. Infelizmente para ela, a senhora Kirkland odeia que falem mal dos seus filhos. Só me lembro que houve uma briga tão grande que a polícia teve que ser chamada.

_ Céus! – Exclamou Feliciano, fascinado. – É sempre tão bonito ver uma mãe protetora dos seus filhos!

_ Ela é protetora de toda a cidade. Se existe alguém descriminado por uma razão imbecil qualquer, ela estará lá para ajudar. Eles são extremamente boas pessoas, sabe? O casal Kirkland. E os filhos também, só mais barulhentos.

_ O Arthur pareceu-me bastante calado.

_ Espere até o ver bêbedo.

Feliciano riu-se mas Ludwig não pareceu mostrar tanta diversão.

_ Mal posso esperar por sermos todos amigos! – Guinchou Feliciano alegremente – Bem… Alfred, certo? – O americano anuiu – Esplendido! Caro Alfred, estou esfomeado, qual destes pastéis com aspeto divinal é que me aconselha?

_ Bem, tem os scones da senhora Kirkland, que todas as quintas nos entrega uma caixa deles acabadinhos de fazer. Não encontra melhor por aí. Mas aconselho-lhe qualquer coisa, são todos produtos caseiros feitos pelas residentes reformadas que querem ocupar o tempo e receber alguns trocos. Mas os muffins de caramelo foram feitos por mim.

_ Então levarei um muffin e um scone. – E o pequeno homem virou-se para Ludwig com um ar de expectativa. O alemão suspirou, enfiou a mão no bolso e retirou a carteira.

Alfred retirou os pastéis escolhidos a dedo de dentro da montra, colocou-os em pires e pousou-os em cima do balcão. Ludwig pagou com a quantidade necessária de dinheiro que era preciso para cobrir as duas delícias e rapidamente recebeu o troco.

_ Oh céus, cheiram maravilhosamente bem! – Disse Feliciano alegremente, e deu uma trinca no scone – Huuuum. Ok, Ludy, é melhor pedires um para ti, porque este aqui é só meu.

Alfred riu-se enquanto Ludwig franzia o sobrolho.

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Matthew andava num lado para o outro no quarto, retirando tudo o que era roupa do seu armário numa busca frenética de algo decente para se usar num restaurante chique.

_ Não sei porque estás com tanto trabalho. – Comentou Alfred que estava sentado na cama de casal do irmão, brincando com uma gravata colorida que tinha sido descartada momentos antes – Veste aquela camisa azul e coloca a gravata preta. Fica-te bem.

_ Não sei… ir de gravata parece-me muito formal para um jantar com a família. Mas é no restaurante mais caro que existe nos arredores! Raios! Porque é que o Francis tinha que ter a mania das grandezas?!

Katyusha entrou no quarto, então, sorrindo carinhosamente.

_ Eu acho que estas a fazer um drama desnecessário, querido. Porque é que não levas a camisa azul e a gravata preta?

_ Foi o que eu sugeri, mas ele está com a mania que é uma adolescente americana. – Disse Alfred descontraidamente.

Levantou-se momentaneamente para ajudar Katyusha sentar-se na cama, tarefa que era difícil graças à barriga dilatada.

Quando estavam os dois instalados e confortáveis, ficaram a observar Matthew.

_ Vocês vão ficar os dois aí especados!? – Queixou-se o pobre homem, pegando em duas camisas – Deveriam ajudar-me!

_ Nós já ajudámos. Leva a merda da camisa azul e o caralho da gravata preta!

_ Alfred, atento à língua! A Natacha já consegue ouvir o mundo! – Ralhou Katyusha no seu tom suave. Colocou uma mãozinha delicada na barriga e afagou carinhosamente.

_ Desculpa, Kat. – Alfred baixou-se lentamente até ficar ao mesmo nível do tronco da cunhada. Fez uma festa tímida na barriga dela – A minha Natachinha não se chateia, pois não!? Ela adora o tio Alfred, que a vai estragar com mimos uma vez que ela esteja cá para fora.

_ Não vais nada. – Cortou Matthew secamente – E é um menino.

_ Não te eludas, rapaz, aquilo que está ali dentro não tem pénis.

_ Veremos.

_ Aposto cinquenta dólares de como é uma Natacha. – Disse Alfred num tom confiante.

_ Pois bem, eu aposto cinquenta dólares de como é um Dofrey.

_ Dorofei. – Corrigiu Katyusha – E vocês não vão apostar nada sobre o meu bebé!

Os dois irmãos grunhiram, submissos, mas o olhar que ambos trocaram mostrou que a aposta ainda estava de pé.

Matthew lá aceitou levar a camisa azul e a gravata preta no jantar da noite seguinte, e Alfred ajudou-o a arrumar as roupas todas enquanto Katyusha se ocupava na cozinha a preparar um chá.

_ A Elizaveta também vai ao restaurante amanhã. – Comentou Matthew distraidamente, colocando num cabide um blazer castanho que raramente usava. – Disse-me hoje de manhã quando lhe disse que amanhã à noite fechávamos o estabelecimento.

_ Sim? Vai com o namorado novo? – Perguntou Alfred – O chinês?

_ Ele é japonês, Alfred.

_ Como é que é suposto eu saber, só o vi de longe. Para mim são todos iguais.

_ Isso é um bocado racista.

_ Eu não distingo um polaco de um grego, não chames as minhas pobres capacidades de observação de racismo.

Matthew rolou os olhos.

_ Mas sim, respondendo à tua pergunta, ela vai com o namorado. E leva o Arthur com ela.

_ O Arthur? Para quê? Ele não é propriamente um adereço interessante para um jantar romântico.

_ O namorado dela tem um amigo homossexual, e querem fazer-lhe um arranjinho com o Arthur. – Respondeu Matthew. Atirou uma camisola velha para o outro lado do quarto com o intuito de a deitar fora mais tarde – Acho que fazem bem. Pode ser que seja desta vez que ele arranje um namorado a sério.

Ora se Matthew não estivesse ocupado a arrumar o caos que provocara, teria reparado na súbita paralisação do seu querido irmão gémeo.

Alfred sentiu a familiar raiva que o atormentava há semanas vir ao de cima novamente. Amaldiçoou Elizaveta e o seu namorado novo por terem tais ideias, amaldiçoou quem quer que fosse o amigo homossexual por achar que era bom suficiente para pensar em relacionar-se de qualquer forma com o quarto filho de Albert Kirkland e amaldiçoou Arthur por ter concordado em ir jantar com eles.

Queria bater em alguém. Queria ir de imediato ao apartamento de Arthur e dizer-lhe que não, não podia ir a um encontro duplo com Elizaveta e o seu namorado chinês/Japonês/caralho onde fosse ele. Queria prender Arthur num armário para ter a certeza que ele não ia a lado nenhum. Queria descobrir quem era o marmelo larilas que achava que tinha direito a comer Arthur e partir-lhe a cara toda.

Mas não o fez. Não o fez porque todas essas ideias eram loucas. Não o fez porque tinha medo. Medo de si mesmo por pensar em tais assuntos. Melhores amigos não pensam assim um dos outros. Ele deveria apoiar Arthur e ficar feliz por ele.

Mas tudo o que sentia era aquela fúria cega e uma vontade de violência descomunal.

Não disse grande coisa o resto da noite. Ajudou Matthew a arrumar o vestuário, roubou-lhe qualquer coisa da cozinha e foi para casa.

Não conseguiu adormecer durante muito tempo. Os seus pensamentos estavam sempre no encontro duplo em que Arthur participaria no dia seguinte. Quando finalmente conseguiu fechar os olhos e dormir, a sua mente foi invadida por imagens horrendas do seu melhor amigo a ter sexo com alguém sem rosto.

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Wang Yao era o amigo gay do novo brinquedo da Elizaveta. Era um homem chinês, muito pálido, de longos, lisos e radiosos cabelos negros, atados num baixo rabo-de-cavalo. As suas feições alvas eram delicadas e redondas, emolduravam lábios vermelhos falsamente brilhantes com uma camada de lip-gloss. Possuía uma estrutura baixa e o seu corpo, por de baixo do da roupa formal que usava, parecia ser delgado e frágil.

Era, sem dúvida, um homem muito bonito.

Mas não era o género de Arthur.

O arquiteto suspirou, picando na sua comida com um garfo esbelto. Ao seu lado, Elizaveta falava alegremente com Yao e Kiku, o seu novo e japonês namorado, e ambos a ouviam atentamente e iam dando a sua opinião.

Arthur, por sua vez, não dissera grande coisa desde entraram no restaurante. Uma hora antes, quando se encontraram no parque de estacionamento, cumprimentara os dois asiáticos da forma mais polida que conseguira, apesar de toda a sua relutância por ali estar. Tentara ser cortês para com Yao e até “flirty” quando a Elizaveta lhe lançou um olhar desesperado, mas passado algum tempo desistira, até porque não estava assim tão interessado no outro.

Ele não queria ser rude, nem parecer racista, mas asiáticos não lhe interessavam muito fisicamente. Arthur sempre preferira homens altos, bem constituídos e de preferência louros. Ele sempre tivera aquela paixoneta estranha pelo Brad Pitt e Wang Yao não era um Brad Pitt.

Onde é que andava o Brad Pitt quando precisavam dele?

_ Então, Arthur, certo? – Perguntou Yao, interrompendo o trilho de pensamentos do inglês.

_ Humm, sim.

_ A Elizaveta disse-me que eras Arquiteto.

_ Sou, sim.

E agora? O que dizer? Contava-lhe a história da sua vida Professional? Os anos de escola? Universidade? Ugh, ele não sabia! Ser social era difícil!

_ E disse-me que a tua família tem uma empresa.

Ok, Arthur, não entre em pânico, podes sempre falar do trabalho em geral.

_ Sim. Não é muito grande. Geralmente arranjamos umas coisas ou construímos peças, ou ajudamos em obras. Mas este mês conseguimos um contrato para construir uma casa de raiz. É a primeira vez que fazemos algo desta magnitude e se correr tudo bem, quem sabe, o nosso nome chegue a espaços mais distantes e a nossa empresa cresce com isso.

_ E fazes mais do que desenhar casas?

_ Bem… sei trabalhar com madeiras e sou bastante bom a restaurar velharias. – Respondeu Arthur calmamente e perguntou-se se parecia ridículo aos olhos do outro. Yao era um homem de negócios bastante abastado, segundo Elizaveta, e não se devia impressionar por pequenos “fazem um pouco de tudo” como Arthur – Também sei um pouco de canalização e orgulho-me bastante das minhas capacidades para decoração.

Mas Yao não parecia aborrecido. Lançou-lhe um sorriso aberto, e os seus dentes brancos e brilhantes quase cegaram Arthur com a sua perfeição, e pestanejou de forma sedutora. O que foi vagamente perturbador.

Sentiu então uma onda de gelo atravessar o seu corpo e uma sensação paranoica de estar a ser atentamente observado consumiu o seu cérebro. Resistiu à vontade de olhar em volta e atirar o garfo a quem quer que seja que estivesse a olhar para ele e estremeceu.

_ Bem, pareces-me um homem cheio de talentos! – Elogiou ele com um sorriso e Arthur corou, embaraçado – E a tua família? São tão talentosos como tu?

_ O meu pai sabe fazer tudo. Acho que nunca houve nada que ele não conseguisse arranjar ou construir. O meu irmão Scott também sabe muita coisa, mas gosta mais de mecânica. O William tem um mestrado em canalização e o Brody é muito bom eletricista e também gere muito bem o nosso dinheiro. A Eireen está a estudar turismo, e é bem provável que não vá trabalhar connosco e o Peter também não mostra grande interesse.

A conversa passou então para Yao, que era presidente de uma empresa que fazia algo que Arthur nunca chegara a perceber. Ficaram mais de uma hora só a falar da vida do homem chinês, até a comida estar devorada e as sobremesas foram pedidas. Por vezes Yao juntava as suas mãos e mirava-o intensamente, de forma a mostrar que era óbvio que queria algo mais que umas conversas animadas entre amigos. Arthur não estava no mesmo caminho, mas não rejeitou o toque do outro, ou ainda levava um safanão da Elizaveta.

A sensação irritante de estar a ser observado não terminara.

_ Desculpem. – Acabou ele por dizer, interrompendo o que quer que seja que Kiku discursava – Tenho que ir à casa de banho.

_ Oh! Claro! – Disse o jovem japonês no seu tom polido.

Elizaveta ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Yao fez mais uma festa suspeita nas costas da sua mão antes de a largar e foi como se tivesse liberto Arthur de algemas invisíveis.

Levantou-se e tentou ser o mais gracioso possível. Falhou miseravelmente porque bateu com as pernas na mesa. Pediu imensos perdões e esgueirou-se até aos labados.

Mal fechou a porta atrás de si, suspirou, aliviado. A pressão de parecer decente em frente de um estranho de sucesso foi aliviada e a sensação de ter olhos constantemente fixos nas tuas costas desapareceu.

Mas ele estava ali por uma razão e essa estava a apertar-lhe a bexiga. Apressou-se em direção dos urinóis e retirou-se dentro das calças.

Fungou enquanto se aliviava e tentou pensar no que diria mais quando voltasse para a mesa. Não que fosse muito desagradável falar com Yao e Kiku, mas o chinês estava demasiado interessado para o seu gosto.

Bem, até poderia dar-lhe uma hipótese, nem que fosse só para estrear-se com um asiático, afinal, há uma primeira vez para tudo e Arthur nunca fora para a cama com alguém dos orientes. Mas desde daquela tarde ao pé do lago, depois de ter sido chamado de vadio pelo seu melhor amigo, o nosso inglês não tinha grandes vontades de dormir com ninguém.

Ele sabia que era ridículo, que não era nenhum vadio, que se ele poderia ser chamado de prostituto só porque teve mais que um parceiro na vida, então Alfred era o gigolô da cidade, pois já dera uma voltinha a praticamente todas as jovens raparigas que viviam por aquelas bandas.

Ok, talvez fosse um bocado exagerado, o Alfred não dormiu assim com tanta gente. Mas dormiu com mais gente que Arthur!

_ Quem é aquele tipo?

Santa mãe de Deus, caralho, foda-se, que o apocalipse chegou! Ainda bem que Arthur já estava a terminar o serviço, ou a parede estaria arruinada graças ao salto que deu com o susto.

Olhou por cima do ombro, encarando os olhos azuis de Alfred. Não usava os seus habituais óculos, por isso Arthur assumiu que andava com lentes de contacto. Ou andaria a bater nas paredes.

Mas que merda, agora aquele imbecil era evocado quando pensavam nele?

Achando esquisito estar quase a torcer o pescoço para encarar o melhor amigo e ter o seu amiguinho de baixo cá fora enquanto o fazia, Arthur sacudiu-se se recolheu-se, apertando as calças de seguida.

Virou-se totalmente para Alfred e lançou-lhe um sorriso hesitante.

_ Haaa… olá.

Alfred semicerrou os olhos.

Decidiu deixar o americano resolver qualquer que fosse o seu problema, e aproximou-se do lavatório. Lavar as mãos era imperativo. A água estava demasiado fria e congelou-lhe os dedos, mas Arthur armou-se em homem e aguentou sem gemer. Bravo!

_ Quem é ele? – Perguntou Alfred novamente, ainda pregado ao pé da porta. Ele não tinha mais nada para fazer?

_ Ele quem?

_ O homem.

_ Que homem?

_ Ugh! O homem que estava sentado à tua frente!

Arthur ainda não percebera qual era mesmo o problema dele. Primeiro queria saber tudo sobre a sua vida sexual e queixava-se feito criancinha quando não tinha o que queria, mas uma vez que Arthur lhe indica que sim, de facto, tem uma vida sexual ativa, muito obrigada, o raio do homem fica todo paranoico e metediço, como uma mãe católica a proteger a virtude da filha.

Tenham dó.

_ É o Yao. Ele é amigo do namorado da Elizaveta. – Respondeu secamente, desligando a torneira – E tu? Estás aqui por alguma razão, ou deu-te na cabeça perseguir-me?

Alfred ruborizou ligeiramente e olhou para o lado.

_ Não! Eu estou aqui com o Matthie, a Kat e o Francis. Ele está de visita, se queres saber.

_ Não queria, mas obrigado pela informação. – Limpou as mãos, atirou os lenços para o lixo e preparou-se para sair, mas Alfred não se moveu do caminho – Queres alguma coisa?

_ Vais dormir com ele?

A pergunta apanhou-o de surpresa. De facto, surpreendeu-o mais do que ver Alfred ali. Se fosse outra pessoa a perguntar tal coisa, digamos, Elizaveta ou o Scott, Arthur teria revirado os olhos com um sorriso e até mandar uma piada quanto à situação, mas o olhar de puro desprazer que Alfred lhe lançava enquanto as palavras saiam pela boca, tirava Arthur do sério.

Foi atingido pela irritação e humilhação que sentira naquele sábado quando cometera o pior erro da sua vida; sugerir sexo a Alfred.

_ E se dormir? Não vejo como é da tua conta.

_ Não!

_ Não?

_ Não! – Repetiu Alfred firmemente. Cerrou os pulsos e elevou-se sobre Arthur, como se estivesse a acertar a sua dominância e a exigir submissão.

Pff, Arthur Kirkland não se submete a ninguém.

A não ser na cama.

E Alfred não queria dormir com ele, por isso que fosse cagar.

_ E porque é que de repente mandas em mim?

_ Eu sou o teu melhor amigo!

_ E daí?

_ Tu… tu não podes dormir com ele! – Continuou Alfred, parecendo estar à beira do histerismo. Passou uma das suas grandes mãos pelo cabelo louro, que ficou completamente desalinhado – Não vais simplesmente dormir com um tipo qualquer só porque eu te rejeitei.

_ Tens muita piada, até parece que o que tudo o que eu faço com a minha pila gira à tua volta. – Retorquiu Arthur sarcasticamente. Fez mais uma tentativa de passar por ele e escapar até ao restaurante, mas Alfred era uma espécie de parede impenetrável. – Sai-me da frente.

_ Não, até jurares que não dormes com ele!

_ Eu não vou jurar nada, seu suíno hipócrita! – Empurrou Alfred pelo peito – Sai da frente! – Ele não se mexeu – Merda, Alfred, eu realmente não sei o que é que tu queres de mim.

_ Quero que pares de ser promíscuo.

_ Desculpa!?

Alfred lançou-lhe um olhar de acusação enquanto Arthur se interrogava porque é que era promíscuo se já não tocava noutro homem há séculos.

_ O Francis contou-me sobre as tuas aventuras no liceu. Sobre o António e o Matthias.

Aqueles dois? A sério? Ele já não falava com Matthias desde que o cobarde decidiu fingir que era hétero e começar a namorar uma rapariga e quanto ao António, esse tinha partido de volta à Espanha oito anos antes.

_ Tu sabes de dois homens com quem dormi, DOIS! E achas que subitamente tens qualificação para me chamar promíscuo!? – Guinchou Arthur num tom não muito másculo, mas o murro que queria vontade de espetar na cara idiota de Alfred compensava essa falta de virilidade.

Empurrou-o novamente, desta vez com mais força. O americano cambaleou um pouco mas manteve-se firme.

_ Então e tu!? – Acusou Arthur, ainda a empurra-lo – Tu e a Marceline Douglass, a Juliet Clint, a Maggie Roberts, a Michelle Lopez, a Bella Hall, aquela rapariga do mercado, a filha mais velha da senhora Robinson, aquela Danielle qualquer coisa, a Rita Fletcher, aquela mexicana cujo nome não me lembro, a Dora do museu e mais não sei quem!

Respirou fundo, parou de o empurrar e olhou-o com desprezo.

_ Se eu sou promiscuo, então és praticamente uma puta. – Declarou com malvadez e deve ter atingido algum nervo, porque Alfred retorquiu de imediato com:

_ Pelo menos não sou paneleiro.

Então aconteceu algo que nunca tinha antes acontecido entre os dois.

Uma luta física.

Foi Arthur que começou, frustrado com a intolerância do seu suposto amigo e furioso por ser chamado tal coisa, embateu o seu punho fechado com toda a força no estômago de Alfred, que ficou sem fôlego, mas retorquiu de imediato com os seus próprios murros.

Foi uma briga rendida, Alfred era maior e mais forte, mas Arthur era esguio, rápido e tinha a experiencia de ter vivido com três irmãos mais velhos arruaceiros. Sempre que um pensava que estava a ganhar, o outro investia com algo novo e voltavam ao empate.

Houve uma altura em que Arthur ouviu algo cair ao chão, provavelmente de porcelana, mas não ligou, demasiado ocupado a tentar morder Alfred, pois este conseguira imobilizar os seus braços.

_ Hei, hei! Parem já os dois!

Um homem grande materializou-se subitamente e separou-os. Tinha ar de segurança, com os seus ombros largos, roupa escura e óculos de sol, e a julgar pela etiqueta à frente que realmente dizia: “Segurança”, a presunção estava correta.

_ O que quer que vocês têm a resolver um com o outro, façam-no lá fora. – Rugiu o homem.

_ Arthur!

Oh, maravilhoso, era a Elizaveta. Arthur tinha o nariz a sangrar e doía-lhe os músculos, ainda tinha que sofrer mais?

_ E Alfred? O que é que vocês estavam a fazer?

_ Estes rufias estavam a destruir a casa de banho, é o que estavam a fazer! – Respondeu o segurança, ainda com as suas patas colossais a segurar cada um.

_ Ele é que começou! – Queixou-se Arthur num tom infantil.

_ Eu!? – Fez Alfred indignado – Tu deste o primeiro murro!

_ Chamaste-me paneleiro!

_ E tu chamaste-me “puta”!

_ É o que és!

_ Eu sou um homem!

_ Não te faz menos prostituível!

_ Muito bem, vocês os dois vão para o olho da rua. – Apesar dos protestos de Elizaveta e dos seus dois prisioneiros, o segurança arrastou-os para fora da casa de banho, fez uma espécie de parada humilhante pelo restaurante fora e atirou-os lá para fora.

Arthur caiu sem qualquer graciosidade. Pela dor nas mãos, podia calcular que as tinha esfolado. Fantástico.

Estava frio. A adrenalina provida da luta começou a dissipar-se e o seu corpo começou lentamente a congelar. Fungou, tentando levantar-se. Doía-lhe tudo, mas ele sabia que no dia seguinte estaria tudo pior.

_ Ainda vão ter que pagar pelo jarro que atiraram ao chão. – Disse o raio do homem, desaparecendo pela porta, por onde Elizaveta, Yao e Kiku saíram de seguida.

_ Arthur Kirkland e Alfred F. Jones, nunca estive mais embaraçada em toda a minha vida! – Bramou ela e ambos se encolheram ao ouvir o seu tom de voz.

_ Alfred? – Era a voz suave de Matthew. Arthur tirou os olhos do rosto furibundo de Elizaveta e encarou o gémeo do seu a partir daquele momento Ex-melhor amigo. Katyusha e Francis vinham atrás dele, ambos envergavam uma expressão de preocupação. – Alfred, o que é que se passou?

_ Nada! – Respondeu o americano bruscamente, ignorando a mão estendida do irmão e levantou-se sozinho – Foi só algo estúpido.

_ Tudo o que fazes é estupido. – Atirou-lhe Arthur, levantando-se também. – És um idiota.

_ Arthur és capaz de parar com isto! – Sussurrou Elizaveta ferozmente, segurando-o pelo braço – Já chega!

_ Oh, não, ele tem razão! – Cortou Alfred com um sorriso irónico – Sou um imbecil completo! Um total idiota por alguma vez me ter preocupado com alguém como ele!

_ “Alguém como eu”? O que é suposto isso querer dizer!? Isto tem alguma coisa a ver com a minha sexualidade!? Sempre disseste que não te importavas!

_ E não me importo!

_ Então qual é o teu problema!?

_ Tu és o meu problema!

_ Como!?

_ Eu não sei!

_ CALEM-SE! – Berrou Matthew com um volume surpreendente – Calem-se, por favor! Os dois… estejam calados.

Houve um silêncio perturbado, apenas cortado pelas respirações ofegantes de Alfred e Arthur, que olhavam esbugalhadamente para Matthew. Este respirou fundo, passou as mãos pelo cabelo louro, nuca e face, levantou os óculos e massajou a cana do nariz com um suspiro.

Então encarou o irmão e Arthur com firmeza e, quando falou, foi com um tom calmo de comando.

_ Vocês vão para as vossas respetivas casas, lavam-se, cuidam do sangue nessas caras, dormem um bom sono e amanhã, ou no dia seguinte, ou no mês seguinte, quando quer que seja que essa raiva toda desaparecer, voltam a falar.

Alfred abriu a boca com o intuito de protestar, mas o olhar que Matthew lhe lançou calou-o antes das palavras saírem.

_ Eu não sei o que é que se passa entre vocês os dois, mas andam esquisitos há umas semanas para cá. Seja o que for, não vai ser resolvido com vocês a gritarem para a cara de um do outro. Agora, vamos embora. Vamos descansar as nossas mentes e conversamos depois, está bem?

_ Ótimo. – Fez Arthur num tom mais descontraído do que na verdade se sentia – Eu não quero estar ao pé dele nem mais um segundo.

_ Então vai. Poupas-me de olhar para a tua cara horrenda.

_ Vai foder uma vaca, Alfred, já que és tão bom nisso.

_ Arthur! – Guinchou Elizaveta e começou a empurra-lo em direção ao parque de estacionamento – Por amor de Deus!

_ Deus não existe!

_ Não comeces uma briga comigo, Arthur Kirkland, sabes bem que não me vences!

Era verdade. Ninguém batia a Elizaveta numa boa sessão de porrada. Ela era praticamente ninja. Arthur desistiu, deixando-se ser guiado até à sua amada carrinha, que tinha sido pintada recentemente para ter melhor aspeto.

_ Espero que estejas orgulhoso de ti mesmo! – Ralhou Elizaveta – Estragaste não só o meu encontro, como o que eu arranjei para ti!

_ Eu não te pedi encontro nenhum.

_ O Yao estava mesmo interessado por ti! Céus o que deve ele pensar agora!? – Chorou ela de forma demasiado dramática e escondeu o rosto nas mãos.

Ah, pois, Yao. Arthur tinha-se esquecido dele. Olhou levemente em volta e viu os dois asiáticos que lhes tinham feito companhia durante o jantar aproximar-se com timidez, ambos receosos da reação de ambos.

Arthur endireitou as costas, subitamente embaraçado pelo seu comportamento. Passou as costas da mão pelo nariz para tentar retirar o sangue do rosto, mas só o espalhou mais.

Yao chegou-se bastante perto, a invadir o seu espaço pessoal, retirou um lenço do bolso e, sem pedir qualquer permissão, começou a limpar a face de Arthur.

Ok, era um bocado esquisto, mas até era simpático da parte dele.

_ Peço imensa desculpa, Yao! – Pediu Elizaveta – Eu juro que ele geralmente não se comporta assim, especialmente com o Alfred! Eles eram tão amigos!

_ Não há problema. Eu aprecio um homem que se saiba defender. – E lançou um sorriso radiante em direção de Arthur.

Esperem lá, um gajo arruína um encontro, destrói uma casa de banho pública, é expulso do estabelecimento, insulta o melhor amigo e Yao ainda o achava atraente? Se Arthur estivesse no lugar dele, já se tinha posto a milhas de distância.

Asiáticos eram estranhos.

_ Oh! – Fez Elizaveta, tão admirada quanto Arthur – Ainda bem, acho eu…

_ Sim… parece-me que aqui o senhor Kirkland necessita de uma boa noite de descanso, por isso acho que me vou retirar pela noite. – Yao guardou o lenço agora manchado com o sangue de Arthur, o que foi um gesto um pouco perturbador, e enfiou um cartão na mão do inglês, que pestanejou para o número impresso no papel – Ligue-me, por favor. Gostaria de jantar consigo novamente, de preferência sozinhos e sem estragos.

_ aaah… — Fez Arthur com toda a coerência , ainda a olhar aparvalhadamente para o cartão.

Yao sorriu, disse alguma coisa em mandarim para Kiku, que anuiu, aparentemente conhecedor do dialeto do outro. O baixo homem chinês virou-se novamente para Arthur, ainda a sorrir.

_ Até outro dia então. Foi um prazer conhecê-los a ambos.

E partiu para o seu carro, que era grande, largo e brilhante, provavelmente para compensar alguma coisa.

Elizaveta virou a cabeça na direção de Arthur, fulminando-o com o olhar.

_ Tens muita sorte, isso é o que tens! – Guinchou ela. Tinha? Arthur não se sentia com grande sorte naquele momento, com o nariz e entranhas a latejarem e as mãos feridas a arder – Céus, Arthur! Olha para ti, parece que foste atropelado por um elefante!

E sentia-se assim, também.

Elizaveta suspirou, deu a mão a Kiku, que continuava uma presença silenciosa e inquietantemente observadora, e lançou um olhar triste a Arthur.

_ Vai para casa, está bem? Mas não penses que não vamos falar sobre isto! Céus, vocês os dois são adultos, deviam resolver as vossas divergências como tal!

E afastou-se, sem se despedir, ainda a resmungar para os seus botões enquanto arrastava Kiku consigo.

Arthur ficou sozinho durante algum tempo no parque de estacionamento, encostado à sua carrinha como se esta fosse o único apoio que tinha em todo o universo.

Sentiu uma súbita infelicidade ao aperceber-se de naquela noite tinha muito bem sido capaz de ter perdido o melhor amigo que alguma vez teve. Tal realização doía mais que o nariz, mãos ou barriga e teve que conter as lágrimas com toda a sua força.

Recordou-se de todas as boas memórias que tinha tido com o Alfred, desde criancinhas aventureiras a adultos que de vez em quando assumiam responsabilidades.

Só quando deixou de sentir o dedos, de tão gelados que estavam, é que decidiu parar de amuar ali no meio do nada e entrar na carrinha. Fungou pateticamente ao ligar o motor e apressou-se a sair daquele lugar.

Era tudo sua culpa, não era? Se ele nunca tivesse feito aquela proposta, estaria tudo normal entre eles os dois. Nunca deveria ter cedido ao desejo, nunca deveria ter sido estupido o suficiente por pensar um único segundo que Alfred alguma vez o achasse atraente o suficiente para o levar para a cama.

Ele só não percebia porque é que Alfred reagia daquela maneira, como se achasse que a vida sexual de Arthur fosse repulsiva, nojenta e errada. O americano nunca antes parecera homofóbico e não poderia achar a ideia de dormir com um homem assim não horrenda, ou nunca teria comido o Braginsky.

Sentiu uma onda de exaustão cobrir o seu corpo. Passava da meia-noite e as estradas estavam desertas. Não ligou o rádio. Decidiu remoer-se no ressentimento em silencio, e concentrou as suas atenções na condução.

Passou por um grupo de adolescentes que aproveitava uma noite de sexta-feira para beber umas cervejas que tiraram secretamente dos frigoríficos dos pais. Alguns deles, já bêbedos mas ainda capazes de reconhecer a sua carrinha, mandaram piadas ofensivas que envolviam a os seus órgãos sexuais e a boca de Arthur.

Palermas, nem sequer pelos púbicos tinham e andavam a dizer essas coisas.

Tentou relaxar, abrandando a velocidade ao passar pelo bairro onde Alfred vivia, pois os gatos da senhora Collins andavam sempre a vaguear num lado para o outro e Arthur não queria atropelar nenhum… outra vez.

Sinceramente, a mulher não podia controlar os bichos? É que eles corriam de um lado para o outro da estrada e maior parte deles são pretos e Arthur não os destingue bem à noite! É difícil! E ele gosta de gatos, sentiu-se um cabrão quando matou o pobre Pantufa Laranja, que se atirara subitamente para a frente da sua carrinha, como se estivesse cansado de viver.

Com um nome daqueles, Arthur também já se tinha suicidado há bastante tempo.

Pelos vistos, gatos não eram a única coisa que gostava de aparecer de repente no meio da estrada naquele bairro, porque num pestanejar de olhos ali estava Alfred, mesmo no centro, imóvel, de pé.

Arthur lançou um grito de horror e premiu o travão com força. A carrinha derrapou, chiou e parou. Não tocou no americano por um triz, mas este também não parecia particularmente preocupado por quase ter levado uma carrinha em cima.

Com o coração praticamente a saltar cá para fora, Arthur abriu a janela e colocou a cabeça de fora.

_ Está louco! – Tentou gritar, mas só saiu um fio de voz aterrorizado – O que é que pensas que estás a fazer!?

_ Estaciona o carro. – Ordenou Alfred calmamente, ignorando as perguntas frenéticas do inglês – Quero falar contigo.

A voz tremia-lhe um bocado e Arthur reparou que ele estava muito pálido e com os lábios roxos. Apercebeu-se então que Alfred deve ter ficado ali na rua, ao frio, enquanto esperava que Arthur passasse por ali para ir para casa.

_ Alfred, estou cansado e quero ir dormir. – Disse Arthur – Devias fazer o mesmo.

O americano abanou a cabeça, decidido.

_ Eu quero falar contigo. E não saio daqui enquanto não estacionares esse pedaço podre de carrinha e formos para dentro de casa. E gostaria que o fizesses rápido, já não sinto os dedos dos pés.

Seguiu-se então uma guerra de olhares para ver quem cedia primeiro, mas Arthur sabia que por muito frio que Alfred sentisse de momento, nunca se deixaria vencer. E vê-lo ali, a tremer que nem varas verdes, tão branco e pouco saudável, o inglês não conseguiu lutar mais e estacionou a carrinha com um suspiro exausto.

Saiu do seu adorado veiculo e fechou a porta com mais violência que o necessário. O estrondo ecoou pela rua escura mas o silêncio rapidamente retomou o seu reino.

_ Se queres falar, então fala. E sê rápido.

_ Vamos para dentro. – Informou Alfred, acenando com a cabeça para a sua casa – Acendi a lareira quando cheguei, antes de ficar à tua espera. Eu faço-te um chá.

_Um chá é o contrário de uma conversa rápida.

_ Eu faço-te um chá e tu vais bebê-lo, quer queiras ou não.

Mais uma luta de olhares onde a qual Arthur saiu novamente derrotado. Rugiu levemente e passou por Alfred, atravessou o pátio e entrou pela porta de entrada sem qualquer cerimónia.

Estava muitíssimo mais quente dentro de casa. Arthur instalou-se na cozinha, tão familiar mas tão estranha naquele momento, e estacou-se em frente da lareira, deixando deliciar pelo calor do fogo.

Ouviu a porta de entrada fechar-se e, passados alguns segundos, Alfred entrou na cozinha, olhando-o seriamente.

Arthur não queria estar ali. Queria ir para o seu pequeno apartamento, ligar o aquecimento central e tomar um banho.

Não queria estar ali, dorido, congelado e constrangido, na presença de um homem que lhe era tão querido, mas que o irritava profundamente.

Ele não queria falar com Alfred. Não naquela altura, não quando estava tão exausto física e mentalmente.

Mas agora não havia escolha. Deixaria Alfred falar. Poderia ser que não adormecesse durante o processo.

Notas finais
Espero que tenham gostado, eu prometo que a partir do próximo capitulo as coisas começam a melhorar :) Kisses, Evil.