Notas iniciais
Eu sou uma desgraça e vocês deviam odiar-me

_ Há quanto tempo é que ele não sai dali? — Perguntou Albert baixinho para Scott, que encolheu os ombros.

_ Acho que ainda não se levantou desde de manhã.

Os dois estavam ao lado de um carro velho que William tinha encontrado na sucateira. Olhavam para cima, para o escritório protegido por paredes de acrílico, onde Arthur se situava, debruçado sobre a sua secretária desde de manhã.

_ Nem foi almoçar?

_ O Brody levou-lhe uma sandes por volta das duas da tarde, mas ele nem comeu metade.

_ Há quanto tempo é que ele anda assim?

_ Há uma semana. Desde que... tu sabes.

Albert suspirou e passou uma mão pelo rosto. A ultima semana tinha sido caótica para si, pois um canos na retrosaria mais próxima tinha rebentado e arranjar tudo sem grandes prejuízos tinha sido complexo. Assim sendo, sentia que não tinha dado a atenção devida ao seu quarto filho.

A Eireen era mais fácil de vigiar, já que ainda vivia com os pais e Albert podia reparar no seu comportamento durante a noite. Arthur, por outro lado, morava num pequeno apartamento nos arredores da cidade, perto do lago, e era impossível saber o que ele fazia quando não estava no trabalho.

Quando Albert o vira naquela manhã, até se assustara com a palidez do seu rosto e as graves olheiras por debaixo dos seus olhos. Arthur grunhira um pequeno bom dia e subira para o escritório, onde ficara até ao momento.

_ Achas que ele está bem?

Scott lançou-lhe um olhar obvio.

_ É claro que não está. Se estivesse, ontem tinha-me atirado com aquele vaso quando lhe chamei piolho de chimpanzé, mas ele limitou-se a olhar para mim sem qualquer expressão e virou-me costas! Ignorou-me! A mim!

_ Hmmm, isso é preocupante. Se ele continuar assim, vamos ter que intervir.

_ Eu acho que ele nem se apercebe do que anda a fazer.

_ Quem é que não se apercebe do que anda a fazer? — Perguntou Brody enquanto se aproximava com uma caixa de cartão.

_ O Arthur. Anda todo melancólico e esquisito... mais que o habitual.

Brody franziu o sobrolho. William, que vinha atrás de si carregado com caixas, aproximou-se e colocou o seu fardo no chão, antes de se erguer e arquear as costas até estas fazerem um audível "crack".

_ Ele não anda bem. — Comentou Brody — Acho que alguém devia falar com ele.

Os quatro homens Kirkland lançaram olhares desconfortáveis entre si. Falar sobre sentimentos não era a actividade favorita daquela família, especialmente se fossem do sexo masculino. A não ser Helen e Eireen, os restantes Kirkland, em geral, mostravam as suas emoções de adoração com um murro no braço ou uma palmada forte nas costas.

Mas haviam alturas da vida em que um murro bem dado e uma palmada valente não eram suficientes, e um deles teria que sacrificar a sua virilidade e no fim de ajudar alguém que amava.
Houve um silencio constrangedor entre eles, olhares nervosos foram cruzados até caírem todos em cima de Scott, que conseguiu aguentar-se sob eles durante algum tempo até cair sob a pressão.

_ Está bem! — Fez Scott exasperado — Eu vou lá falar com ele. Se eu morrer digam à mãe que eu a adoro.

Subiu as escadas a resmungar para ninguém em particular e, mal chegou à porta, respirou fundo com o fim de ganhar coragem.

Meteu a mão na maçaneta.

_ Deus me acude. — Murmurou enquanto se benzia.

Abriu a porta e espreitou cautelosamente. Arthur, sentado na secretária, não deu indicação de se ter apercebido da sua presença, mas Scott sabia muito bem que o irmão o tinha ouvido a subir as escadas, já que ele não tinha propriamente pezinhos de fada, por isso era possível que este estivesse simplesmente a ignora-lo.

Entrou e fechou a porta atrás de si.

_ Hei pequenote! — Fez ele com a mesma doçura com que um dono fala para o seu cão — Estávamos começar a arrumar tudo pelo dia e depois íamos comer alguma coisa ao Jones. — Inclinou-se para a frente e envolveu o braço sobre os ombros curvados de Arthur — Que tal tirares o nariz dessa folha e vires connosco?

O lápis extremamente afiado de Arthur parou de traçar uma linha e foi pousado em cima da secretária. Arthur esticou as costas e retirou o braço do irmão de cima de si. Scott tratou de dar uma certa distancia entre os dois, não fosse o mais novo explodir.

Mas Arthur não o fez. Sem levantar a cabeça, começou a arrumar o seu material de desenho.

_ Não tenho fome. — Disse ele naquele tom calmo e distante que Scott detestava — Acho que vou logo para casa.

_ E vais para casa fazer o quê?

Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, Arthur ergueu o rosto e lançou-lhe um olhar meio confuso.

_ Dormir.

_ Dormir!? São seis da tarde! Anda lá! — Obrigou Arthur a levantar-se, apesar dos protestos do mais novo — Vive um pouco. Vem socializar com a pessoa mais importante da tua vida; Eu.

_ Scott...! Scott, deixa-me! — Arthur soltou-se e lançou-lhe um olhar mortífero. Scott sentiu a satisfação invadi-lo. Finalmente uma emoção nova substituía a tristeza do olhar de Arthur — Eu não quero ir comer ao Jones, está bem!

_ Por causa do Alfred? — Perguntou Scott secamente.

Arthur fez um som frustrado e cruzou os braços.

_ Não. — Resmungou baixinho e não foi muito convincente.

_ É mesmo por causa dele, não é?

_ Ugh, não tens nada com isso! Porque é que não me deixas em paz! — Arthurcomeçou a enrolar as folhas de papel.

_ Eu só não vejo porque é que estás a fazer tanto drama por lá ir comer. Eu pensava que vocês andavam ás cambalhotas no vale dos lençóis.

_ Andávamos mas já não andamos. — Disse Arthur após soltar um som esquisito pelo nariz. Colocou as folhas de papel dentro do rolo de plástico que utilizava para as transportar de um lado para o outro.

_ Por causa da Eireen?

_ De onde vêm estas perguntas todas!?
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_ Só quero saber! Perdoa-me se quero saber o que é que se passa nessa tua cabeça de princesa.

Arthur soltou um grunhido frustrado.

_ Eu não quero ver o Alfred, está bem!? Eu acho que ele está zangado comigo.
Scott ia dizer algo inteligente, do tipo: "Pff, porque é que ele haveria de estar zangado contigo, Arthie, o idiota adora-te!" Mas de repente Arthur atirou o rolo de plástico para o outro lado da sala, onde caiu com um estrondo e derrubou o caixote do lixo quase vazio.

Com os olhos muito abertos pelo choque de tal gesto repentino, Scott ficou a olhar para o irmão e notou, com espanto, que este tinha os olhos medrejados de lágrimas

_ Hei, Arthie...

_ Ele sabia! — Interrompeu Arthur ferozmente — Ele sabia que era temporário, ele sabia que iria tudo acabar! — Andou freneticamente de um lado para o outro — Ele prometeu-me antes de começar-mos que iria ficar tudo igual! Ele prometeu-me!

_ "Prometeu"? Quem é que prometeu o quê?

_ O Alfred! Antes de começarmos a ter sexo, ele prometeu-me que continuaria a ser meu amigo mesmo que desse tudo para o torto! E... e agora que terminei tudo ele... ele... — Oh não, pensou Scott enquanto a voz de Arthur fraquejava e o seu lábio inferior tremia — Ele disse que não conseguia voltar atrás... que não conseguia voltar a ser só meu amigo e... e eu não sei o que se passa! Não sei o que é que ele quer nem sei o que fazer!

Arthur colocou as mãos na cara e suspirou desesperadamente. Scott ergueu a mão para o confortar mas depois hesitou. Afecto físico não era algo que ambos geralmente partilhavam, preferindo insultos a palavras carinhosas. Mas naquele momento chamar Arthur algo insultuoso não iria ajudar em nada e Scott respirou fundo, fez-se homem, rodeou o irmão com os braços e levou-o ao seu peito, num abraço embaraçoso.

O corpo de Arthur ficou rigido durante alguns segundos, e não houve qualquer som na sala, até o mais novo soltar o ar e começar a soluçar baixinho contra a camisola do irmão. Scott afagou-lhe os cabelos com incerteza e perguntou-se de que gestos horriveis tinha ele feito numa vida passada para merecer ter que fazer tais coisas.

_ Hei, hei, vai tudo ficar bem! — Fez ele desesperadamente. Os ombros de Arthur tremiam e a camisola de Scott ia ficando cada vez mais humida.

Como resolver este dilema? Eireen estava furibunda, mas iria passar-lhe com o tempo. Não tardava nada já teria uma paixoneta por outro moço qualquer e os seus sentimentos pelo Alfred seriam história. O Arthur, por outro lado, parecia mesmo pensar que a sua amizade estava arruinada e isso estava, como era obvio, a partir o coração do pobre coitado.

Mas havia algo que Scott não entendia. Alfred e Arthur tinham um acordo, aparentemente, acordo esse que se, por ventura, as suas escapadelas sexualmente aventureiras acabassem, os dois continuariam amigos. Tal acordo implicava que ambos sabiam, emocionalmente, que não haveria sentimentos envolvidos, e aquela seria uma relação física.

O que queria dizer...

_ Arthie... — Chamou ele de mansinho para não perturbar as emoções abaladas do irmão — Arthie, eu acho que o facto do Alfred já não conseguir ser teu amigo seja assim tão mau.

Arthur afastou-se do peito dele como se este tivesse insultado a sua mãe. Tinha o rosto vermelho e todo molhado graças ao seu choro silencioso.

_ Como é que podes dizer uma coisa dessas! Ele era o meu melhor amigo! Queres que eu seja miserável para o resto da vida? Achas que as amizades têm assim tão pouco valor!

_ Hei, hei, hei, tem calma, não é nada disso! Eu acho que o Alfred está apaixonado por ti, é por isso que não consegue ser só teu amigo!

Houve mais um silencio, onde Arthur fitou-o com os olhos muito abertos. Então, a sua expressão atónita mudou para uma incrédula.

_ Não sejas ridículo. Porque é que ele haveria de fazer isso?

_ Eu acho que não é algo que consigas controlar. — Disse Scott secamente.

_ Não... Não isso não está certo. Tem de haver outra razão.

_ Porquê? Eu acho que esta é bastante plausível. — Cruzou os braços e lançou um olhar superior a Arthur — Até estou admirado por isto não ter acontecido mais cedo, sabes? A forma de como ele sempre andou atrás de ti como um cachorrinho desesperado era demasiado obvia. Ele dá-te flores no dia de S. Valentim... que homem dá flores a outro homem a não ser que esteja completamento caidinho por ele?

_ Ele faz isso porque não quer que me sinta sozinho.

_ Ou então, faz isso porque gosta de ti e quer fazer-te feliz.

_ Ele não está apaixonado por mim Scott.

_ E como é que tu sabes!?

_ Porque... bem... — Arthur mostrou-se um bocado acanhado e olhou para o lado, tímido. Scott sentiu-se incrivelmente desconfortável, pois nunca tinha visto, em toda a sua vida, Arthur tão vulnerável — Não há nada em mim que seja interessante o suficiente para fazer com que um homem como ele se apaixone por mim.

_ Só podes estar a brincar!

_ É verdade! Olha para mim! Sou uma desgraça!

_ Não sejas imbecil. Se ele te acha interessante o suficiente para te foder, também deves ser interessante o suficiente para seres material de namoro.

_ Uma coisa é completamente diferente da outra!

_ Oh? Achas que és bom o suficiente para comer mas não para casar?

_ É claro que não é isso! É que... ele é tão... e eu não sou lá muito... bem... — Arthur parecia estar a debater-se por encontrar as palavras certas e Scott estava, sem duvida, um bocado admirado. Nunca em toda a sua vida vira Arthur assim tão inseguro, nem alguma vez pensara que o seu irmão pudesse ter problemas de auto-estima.

Mas, supunha ele, até fazia sentido que Arthur se sentisse inferior, pelo menos em relação a Alfred. O americano sempre fora muito popular, até mesmo quando era uma criança, com o seu enorme sorriso, olhos brilhantes e um charme jovial. Arthur, por outro lado, andara sempre um bocado na sua sombra, não tanto como Matthew, que geralmente passava de despercebido, mas o suficiente para se sentir um pouco posto de lado pelo resto da população.

Isso não queria dizer que ele não merecia amor, ou outras porras nojentas do género.

_ Enfim... eu não sou propriamente o tipo de pessoa por quem o Alfred se apaixonaria. — Continuou Arthur após um suspiro — Ele geralmente gosta de morenas curvilíneas e com vagina. Algo que eu obviamente não sou ou possuo. — Scott abriu a boca para lhe dizer que ele era um idiota, mas Arthur foi mas rápido — E mesmo que ele estivesse apaixonado por mim, o que não é verdade, pois é absolutamente ridículo, não iria dar em nada, porque eu não estou apaixonado por ele.

_ Oh.

Oh.

O quê?

_ Tens a certeza?

Arthur lançou-lhe um olhar estranho.

_ É claro que tenho.

_ M-mas... mas tu estás de rastos! Mal comes! Mal dormes! Ainda á bocado estavas a chorar por causa dele!

_ Ele é o meu melhor amigo que alguma vez tive e a nossa relação está a ficar uma merda, o que é que queres que eu faça? Dance ballet?

Mas... mas nada daquilo fazia sentido! Como assim Arthur não estava apaixonado por Alfred? Tudo indicava para o contrário! Scott sempre desconfiara de alguma coisa desde que Arthur saíra do armário, pois a maneira como este olhava para o melhor amigo não podia ser apenas platónica!

Mas Arthur parecia estar convicto de que não sentia qualquer emoção romântica pelo Alfred, o que revelava ser mais um problema, pois uma coisa era ter dois idiotas casmurros apaixonados um pelo outro mas que tinham sérios problemas de comunicação, outro era ter apenas um idiota apaixonado e o outro simplesmente queria agarrar-se à amizade de ambos como se a vida dependesse disso.

_ Arthur, se o que dizes é verdade, então talvez seja melhor afastares-te dele durante algum tempo, até as coisas acalmarem.

_ O... mas... mas e como é que fazemos as pazes se eu estiver afastado dele durante muito tempo?

_ Arthie, ouve-me. Eu sei que não acreditas que o Alfred tem sentimentos românticos por ti...

_ Porque isso é ridículo.

_ ... Mas acredita em mim quando te digo que não lhe vais fazer bem nenhum ao tentar falar com ele agora. Se ele está apaixonado por ti, a ultima coisa que ele quer, nesta situação, és tu!

_ Ele não está apaixonado por mim!

_ Está bem! Ele não está! Mas talvez ele precisa um bocado de espaço. — Olhou para o irmão com os olhos semicerrados — E sabes que mais, tu também precisas. Este comportamento não é saudável para ti, e precisas de ser menos coodependente do teu amigo.

_ Mas...!

_ "Mas" nada. Pega no teu casaco, afinal não vamos comer ao Jones. Tu e eu vamos até aquele restaurante que fica ao pé da auto-estrada.

_ Mas isso fica longe.

_ O quão mais longe estivermos daqui, melhor para ti. — Levou o braço até aos ombros do irmão e puxou-o para si — Eu não gosto de te ver assim, tão triste e solitário. Vamos sair um bocado, só tu e eu, jantar fora, ver o por do sol, ir até uns bares e talvez até engatar pessoas! Nada melhor para limpares a tua mente.
Arthur franziu o sobrolho.

_ Eu não quero engatar ninguém num futuro próximo. O sexo arruinou a minha amizade.

_ É por isso que vais engatar desconhecidos, para não haver complicações.

_ E se eles forem assassinos? Ou traficantes?

_ Pára de ser dramático. — Scott pegou no casaco que estava pendurado no cabide e atirou-o à cara de Arthur — Vamos sair! Beber até não nos conseguirmos manter em pé!

Puxou o irmão para fora do escritório e começaram a descer as escadas.

Albert, William e Brody olharam-nos curiosamente.

_ Mudança de planos, pessoal. Vocês vão comer ao Jones, eu e o Arthie vamos ter uma noite de arromba! — Exclamou Scott com um sorriso brilhante, ignorando os protestos de Arthur enquanto este se debatia contra o aperto da sua mão.

Albert cruzou os braços e apertou os lábios numa linha fina.

Olhou para Brody.

_ Vai com eles e tem a certeza que não se matam.

Brody suspirou.
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_ Alfred! Quero um Cheeseburguer, menu completo e dois pratos de massa à bolonhesa. — Pediu Elizaveta ao passar pelas grandes portas que davam acesso à cozinha. Parou para fitar Francis, que estava encostado ao armário dos aventais — O que é que ele faz aqui?

_ Estou meramente a dar apoio moral.

Elizaveta semicerrou os olhos, meio desconfiada, mas não comentou. Virou-se para Alfred, que já começara a grelhar o hambúrguer.

_ Então... como vai o bebé? — Perguntou Elizaveta.

_ Que bebé?

_ O bebé do teu irmão, Alfred. O teu sobrinho. Como anda o pequenote?

Alfred continuou trabalhar sem sequer se dar ao trabalho de reconhecer a sua presença com o olhar, limitando-se a fitar a comida e a mexer as mãos rapidamente.

_ Sugiro que vás perguntar ao Matthew, a criança é dele, afinal.

_ Ugh, mas ele está lá em cima fechado em talões de compras. Vá lá, eu quero socializar!

Com mãos firmes, Alfred retirou uma porção de esparguete de dentro de uma grande panela e colocou-a num dos pratos que estavam pousados em cima do balcão.

_ Não tens clientes para atender?

_ É uma noite morta. — Disse ela com um gesto indiferente — E estou aborrecida. Tinha intenções de raptar o Arthur para uma noite de conversa, mas o cabrão abandonou-me pelos irmãos, segundo o que o William me disse antes de eu vir para aqui. — Elizaveta fungou e cruzou os braços — Eu não acredito que ele vai a bares e discotecas sem mim! Eu! A sua melhor wingman!

_ Oh, o Kirkland vai-se divertir? — Perguntou Francis lá do seu canto.

_ Sim, o William disse que o Scott tinha tido a brilhante ideia de que o maior problema do Arthur era a falta de sexo, por isso levaram-no a passear para ver se ele engatava alguém.

Elizaveta e Francis mandaram um salto quando um prato de esparguete caiu no chão com um estrondo. Olharam para Alfred, cujo rosto estava pálido num misto de angustia e pura fúria, punhos serrados e respiração agitada.

_ Alfred, estás bem?

_ Eu estou óptimo! — Respondeu ele após uma risada meio histérica — Nunca estive melhor! — Foi até à dispensa e retirou de lá uma vassoura — Simplesmente adoro como ele salta de caralho para caralho como se nada mais tivesse importância. — Começou a varrer o chão bruscamente e os cacos do prato voaram em várias direcções, o que contribuiu para a sua frustração. — "Oh, Alfred, vamos parar tudo, está bem? A minha irmã está muito magoada por isso acho que é melhor ir foder alguém que ela não conhece!" — Soltou ele numa vozinha fina. As suas vassouradas não estavam a ajudar em nada a limpeza do chão até que ele soltou um grunhido irritado e mandou a vassoura para o outro lado da cozinha.

Elizaveta tinha-se escondido parcialmente atrás de Francis, que também se afastara durante o ataque de raiva de Alfred. Ambos olhavam-no com os olhos muito esbugalhados.

_ Tens a certeza que estás bem?

Alfred lançou-lhe um olhar furibundo.

_ Não, não estou bem! Não estou nada bem. Se queres saber, quero partir mais alguma coisa, de preferência a cara de Arthur!

_ Ninguém vai partir a cara a ninguém! Acalma-te! — Elizaveta olhou-o com preocupação — Eu sabia que alguma coisa não estava bem. Vocês acabaram aquele arranjinho de amigos coloridos, não foi?

_ Ele é que acabou, não fui eu! Ele nem sequer me perguntou se eu queria acabar! Ele nem quis saber sobre a minha opinião!

_ Bem... -Elizaveta suspirou, indecisa das palavras que deveria utilizar — Se ele terminou tudo, foi porque quis, e tens que respeitar a decisão dele.

_ Pois eu não queria acabar! Eu não queria... ele nem sequer me deixou... — A sua voz começou a tremer e Elizaveta soube de imediato o que é que dali vinha.

_ Oh, amor. — Aproximou-se dele e levou as mãos ao seu rosto. Olhos azuis encaram-na, húmidos e repletos de dor — Oh, não, não me digas uma coisa destas! Alfred, tu apaixonaste-te por ele?

Alfred baixou a cabeça em derrota.

_ Eu sei, é uma estupidez.

_ Não, não é nada estúpido! O amor nunca é estúpido. Pode levar-nos a situações estúpidas, mas o sentimento em si não... — Parou de falar, pois não estava a chegar a lado nenhum — Disseste-lhe o que sentias?

_ Não. Eu tinha medo que ele se afastasse. Mas lá no fundo, sempre achei que talvez ele soubesse, mesmo que fosse inconscientemente.

_ Alfred, é claro que ele não vai saber. O Arthur é um homem muito inteligente, mas no que diz respeito às emoções dos outros em relação à sua pessoa, ele pode ser bastante idiota. Especialmente contigo.

_ O que queres dizer com "Especialmente comigo"?

_ Bem... Nós falamos muito, e eu sei praticamente a vida toda dele, tal como ele sabe da minha. Por debaixo de toda aquela carapaça rezingona e arrogante, ainda está aquele rapazinho que se sentia inferior comparado aos irmãos mais velhos e ao melhor amigo. Mesmo que alguma coisa lhe indicasse que tu estavas apaixonado por ele, a sua insegurança iria destruir essa expectativa num instante.

_ E o que é que queres que eu faça? Que o convide para uma noite de cinema e finja que está tudo normal? Vou fingir que os últimos meses não aconteceram? Vou esconder os meus sentimentos e enlouquecer lentamente porque ele vai estar ali sempre e eu nunca mais vou poder beijá-lo, abraçá-lo ou fazer amor com ele! — Alfred passou as mãos no cabelo, desesperado — Eu não sei o que fazer! Está a matar-me não o ver, mas também não sei se consigo olhar para ele e saber que ele nunca será meu!

_ Eu acho que o melhor agora é dares um tempo. Passa tempo com a tua família, mima o teu sobrinho, conversa com o teu primo antes de ele voltar para a França — Apontou para Francis, que parecia estar muito desconfortável naquele momento — Eu vou falar com o Arthur, e depois vemos o que acontece. Não desesperes, está bem? Vais ver que no final vai tudo correr na perfeição.
Alfred lançou-lhe um pequeno sorriso e abraçou-a. Elizaveta riu-se e levou a mão até ás costas dele, dando-lhe palmadinhas afectivas.

_ Está bem, está bem. Chega de abraços. — Ele soltou-a e ela sorriu-lhe — Tens pratos de esparguete à bolonhesa para acabar, não é verdade. Tu! — Fez para Francis, que a olhou meio assustado — Limpa isto — Apontou para a desgraça que ainda estava no chão.

_ Eu sou um chef de categoria, minha menina, eu não limpo o chão.

_ Aqui não és nada a não ser família. E a família limpa o chão.

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Para ser franco, Arthur nunca apreciara discotecas. Eram demasiado barulhentas, tinham iluminações fracas e inconstantes, com aquelas trocas insanas de luzes e cores, e francamente, o chão estava sempre pegajoso e nojento.
Também não era muito adepto às multidões de pessoas a roçarem-se umas às outras como cães com o cio.

Scott convencera-os a ir à discoteca gay mais próxima, apesar de ele e Brody serem heteros. Arthur perdera-os uns dez minutos depois de terem chegado, pois Brody encontrou um amigo da faculdade e ficaram os dois a conversar e Scott foi em busca de uma casa de banho porque, segundo as suas palavras, aquela enchilada que tinham comido ao jantar tinha-lhe caído mal.

Então Arthur estava sentado num banco em frente ao balcão, com um copo de whisky à sua frente e uma expressão melancólica no seu rosto. O bartender, um moço novinho com o rosto de boneca, lançou-lhe um olhar de simpatia antes de encher um pouco mais o seu copo e ir à sua vida.

Sinceramente, o plano de Scott de abstrair a sua mente não estava a resultar. Por muito que olhasse, não sentia qualquer interesse por ninguém e já tinha rejeitado os avanços de pelo menos dois homens.

Ele não estava com disposição de fazer sexo. Nunca se sentira tão murcho nas suas partes baixas como se sentia naquele momento.

Um homem aproximou-se e sentou-se ao seu lado. Era alto, de ombros largos, braços musculados e sorriso charmoso. A sua pele negra parecia ser suave à parte da barba de dois dias que se encontrava na sua face e os seus lábios eram beijáveis.

No entanto Arthur não sentiu nada ao olhar para ele e voltou-se para a sua bebida.

_ Noite chata? — Perguntou o homem.

_ Semana chata. — Respondeu Arthur sem grande vontade.

_ Esse é um sotaque inglês que eu detectei?

Arthur não conseguiu impedir o sorriso.

_ Talvez.

_ Fantástico. Vens aqui de férias?

_ Não, eu vivo aqui. Bem, não aqui mesmo, mas aqui perto. A uns quilómetros de distancia.

_ E o que trás aqui, se não estás na pista de dança ou a socializar com alguém.

_ Fui obrigado a vir aqui. E não me apetece socializar.

O homem lançou-lhe um sorriso meio desapontado.

_ Essa é a tua maneira discreta de me mandares embora?

_ Talvez? Desculpa, pareces-me ser um tipo excelente e obviamente não te faltam atributos físicos, mas não estou com grande disposição para... Socializar.

_ É compreensível. Se, por alguma eventualidade, ficares com disposição, eu vou vaguear por aí, por isso procura-me.

O homem retirou-se e pelo menos tinha sido mais educado que os outros dois rejeitados, que tinham ficado todos princesas ofendias pelo travão de Arthur perante os seus avanços.

Suspirou e colocou a mão no queixo.

_ Que raio!? — Fez Scott ao aparecer subitamente ao seu lado — Aquele homem parecia ser um deus africano e tu mandaste-o embora?

_ Eu tenho a certeza que ele há-de encontrar outro deus qualquer para se entreter.

_ Arthur Kirkland, o meu rabo não foi violentamente apalpado por desconhecidos nos últimos trinta minutos para estares aqui no bar a beber que nem um deprimido!

_ Pensava que o plano era bebermos até cairmos. — Arthur deu uma palmada no banco do lado — Senta aqui e afoga as tuas mágoas comigo. E finge que me queres comer para eu parar de ter senhores atrás do meu rabo.

_ Preferia atirar-me de um penhasco a fingir que estou interessado em ti. — Mas Scott sentou-se ao seu lado e fez sinal ao bartender — O que é que se passa?

_ Tu sabes bem o que se passa.

_ Arthur, é suposto estares a pensar no teu pénis e não na tua amizade com o Alfred.

_ Neste momento a minha amizade parece-me ser mais importante do que o meu pénis.

Scott deu-lhe um murro afectivo no braço e Arthur grunhiu-lhe. Ficaram os dois em silencio durante um pedaço. Scott pediu a bebida mais colorida que viu no menu e rejubilou quando esta foi colocada à sua frente.

_ Eu nunca devia ter-lhe pedido nada. — Murmurou Arthur contra o seu copo.

_ Pedido nada a quem?

_ Ao Alfred. Se eu não tivesse feito aquela proposta, agora não estaria aqui a ser inútil. Estaria ali — Olhou para a pista de dança — A tentar engatar a minha pila do mês.

_ E porque é que fizeste a proposta ao Alfred?

_ Ugh, eu já nem sei. Ele sempre foi tão... sexy.

_ Ew.

_ Shh, é verdade. Eu entrava em histerismo mental sempre que ele tirava a camisola ao pé de mim.

_ És patético.

_ Oh, cala-te, tu nem conseguiste evitar a ejaculação precoce quando a Debrah Collins tirou o sutiã dela à tua frente.

_ Eu tinha quinze anos!

_ Desculpas, desculpas. — Riu-se Arthur pela expressão ofendida do irmão — Eu só... acho que queira saber como era. Tinha uma comichão pelo Alfred e só ele a podia coçar. Mas eu... eu não sabia que isto ia acontecer. Eu não me lembrei que a Eireen gostava dele, nem considerei a hipótese de que ele não quisesse voltar a ser meu amigo. Agora estou num bar gay, com o meu irmão mais velho, de todas as pessoas, a minha irmão não me fala e perdi o meu melhor amigo. Vai um brinde?

Scott pegou na sua bebida colorida e chocou o copo com o de Arthur.

_ Hei, a Eireen vai voltar a falar para ti não tarda nada. Ela é uma Kirkland, toda fúria no inicio mas depois acalma-se e faz a coisa certa. Quanto ao Alfred... — Hesitou — Mesmo que vocês não voltem ao que eram, pelo menos terás sempre as memórias. É melhor do que não teres nada. E, hei, pelo menos sabes como é que ele é na cama.

_ Yeah... ele estava super nervoso na nossa primeira vez, sabes?

_ Eu não quero saber.

_ Shhh. Tipo, super pálido e a tremer por todos os cantos. Estava sempre com medo de me magoar e foi muito delicado comigo. — Arthur sorriu tristemente para o seu copo — Nunca tive um homem que me tratasse daquela forma, como se eu fosse a coisa mais importante à face da terra. É claro que depois de ele ter ganho alguma confiança provou que também conseguia ser um animal na cama, o que era uma mudança agradável.

_ Porque é que me fazes sofrer desta forma?

_ Porque és o meu irmão e é isso que os irmãos fazem.

_ Ah, ah. — Fez Scott sarcasticamente — Então, gostaste de ter sexo com o Alfred.

_ Yeah.

_ E decidiste que deviam parar, porque...?

_ Porque a Eireen estava a chorar. E ela é mais importante do que alguns momentos de prazer.

_ Olha... eu amo a Eireen. Eu amo-a, e amo-te e amo todos os meus irmãos. Mas a minha vida é a minha vida e a vossa vida é vossa. O que tu fazes e quem fazes é da tua conta e não devias parar de fazer coisas que gostas só porque achas que nos vai desagradar.

_ Então achas que devia continuar a magoar os sentimentos dela!

_ Os sentimentos dela já estão magoados, mas é algo que ela terá de tratar por ela mesmo. Tu não és responsável pelas suas emoções e também não és obrigado a sacrificar-te para a poupares de sofrer um bocadinho. Corações partidos fazem parte do crescimento, e, sinceramente, acho que aquela paixoneta pelo Alfred não ia levar a lado nenhum. Ela iria sofrer mais tarde ou mais cedo.

Arthur não disse nada, limitou-se a fungar e traçar o limite do copo com o dedo.

_ Hei... — Disse Scott gentilmente — Promete-me que no futuro, quando arranjares algo na tua vida que aprecias, que te dá prazer e te faz feliz, seja o que for, que não vais parar por causa de um de nós.

_ Scott...

_ Promete!

Arthur suspirou, roubou o morango que estava a boiar na bebida doce de Scott, apesar dos protestos que vieram com o acto e colocou a cabeça no ombro do irmão enquanto mastigava o fruto.

_ Prometo.

Notas finais
A escola é horrivel, a vida é horrivel e eu sou horrivel. Espero que me perdoem o atraso. Eu não sei mesmo escrever drama, parece sempre tão... estranho quando olho para as frases, irrita-me um bocado e isso também contribuiu para a demora, mas a escola foi, sem duvida, o principal motivo. Sorry, Kisses, Evil.