Notas iniciais
.... Eu sou uma desgraça

Alfred chegou a casa por volta da meia-noite, exausto depois de uma tarde inteira a trabalhar que nem um cão para Matthew, como castigo por ter faltado de manhã. Sentiu uma vaga excitação ao ver a carrinha de Arthur estacionada á frente do seu jardim.


Como não viu o inglês em lado nenhum, deduziu que este finalmente tinha utilizado a chave que Alfred lhe dera para entrar em casa, e tal pensamento encheu-o de ternura.


Estacionou em frente da garagem, pois estava com demasiada pressa para ver Arthur e não tinha tempo de fazer um estacionamento devido.


Apesar dos flocos de neve terem parado de cair, o chão estava completamente coberto de gelo amontoado, o que tornava a caminhada mais complexa e perigosa. Alfred, por algum milagre, conseguiu chegar à porta de casa de pressa sem ter escorregado e caído.


Estava tudo escuro quando entrou, a não ser pela vaga luz que escapava pela fresta da porta da sala. Alfred retirou e pendurou o casaco e colocou as luvas em cima de uma mesa de apoio que ficava perto da porta.


Ao entrar na sala, viu Arthur sentado num canto do sofá. Ainda não retirara o vestuário de sair à rua, e o casaco grosso que usava dava a ilusão do que o seu corpo era especialmente redondo e macio. Aquelas bochechas pálidas tinham tomado um tom rosado, o seu lábio inferior estava um pouco gretado e havia uma mancha roxeada em volta do seu olho esquerdo.


Depois de um dia tão horrível, Alfred apenas queria atravessar a sala, segurar Arthur contra o seu corpo e beijá-lo até os dois ficarem sem fôlego.


Mas a expressão abatida que Arthur tinha estampada no rosto quando virou a cabeça no fim de o fitar travou-o e Alfred foi consumido pela preocupação. Havia uma pequena mancha escura em volta do seu nariz e o seu lábio também estava ferido.


_ Que raio é que te aconteceu?


_ A Eireen é uma Kirkland e tem o punho da família.


_ Ela bateu-te!? — Fez Alfred indignado. Atravessou a sala, sentou-se no sofá e tomou o rosto de Arthur com as mãos, acariciando gentilmente o maxilar do amigo apesar dos seus protestos. — Ela não tinha o direito...!


_ Não faz mal.


_ Faz sim. — Alfred sentiu Arthur tentar afastar-se e puxou-o mais para si — Ela magoou-te erradamente.


Inclinou-se para beijar os lábios magoados de Arthur, mas foi cruelmente impedido pelos dedos do outro, que se colocaram por cima da sua boca.


_ Alfred, não. Eu não vim aqui para isto. — Disse Arthur num tom mais firme e decidido que antes.


Meio confuso pela recusa, Alfred finalmente afastou-se, metendo uns bons vinte centímetros entre ambos. Arthur estava muito pálido e começara a brincar nervosamente com o fecho do seu casaco.


_ Que foi? — Perguntou Alfred preocupado.


_ Eu... eu vim para... — Arthur calou-se, enfiou a mão no bolso, retirou de lá alguma coisa. Depois pegou no braço de Alfred, virou a palma dele para cima e colocou lá o objecto.


Alfred sentiu-se gelar quando o metal metal das chaves da sua casa cair caiu sobre a superfície da sua pele. Olhou para o objecto inanimado que fora pousado na sua mão como se este fosse incrivelmente ofensivo e, por um lado, até era, pois era como se Arthur tivesse acabado por lhe devolver a confiança que Alfred lhe entregara.


_ O que...?


_ Nós... — Começou Arthur, numa vozinha pequena e hesitante. Depois ficou com um olhar mais decidido, e quando voltou a falar parecia mais firme — Alfred, tu és o meu melhor amigo e eu adoro-te, por isso acho que devíamos parar com...


­_ Com o sexo? — Terminou Alfred bruscamente.


Arthur baixou o olhar.


_ Foi bom enquanto durou, mas ambos sabíamos que um dia iria terminar. — Continuou o arquitecto, falando para Alfred como se este fosse um animal selvagem que necessitava que o acalmassem. — Foi o nosso acordo, certo?
Havia uma amargura terrível na sua boca e Alfred sentiu um misto de raiva e mágoa borbulhar nas suas entranhas. Fechou a mão sobre a chave rejeitada e tentou simplesmente concentrar-se na dor fisica que sentia ao apertar o metal contra a sua carne.


_ Isto é por causa da Eireen?


_ Bem... em parte.


_ Ela obrigou-te a terminares tudo comigo?


_ Não sejas estúpido, porque haveria ela de...


_ Porque eu não vou miraculosamente começar a namorar com ela só porque parei de dormir contigo.


Arthur lançou-lhe um olhar desesperado.


_ Ninguém disse que tinhas que o fazer. Apenas... apenas acho que isto é o mais correto, está bem? Olha, vamos... vamos simplesmente ser o que éramos antes, e toda a gente fica feliz.


Não, Alfred não podia voltar a ser apenas o melhor amigo de Arthur Kirkland. Ele não conseguia suportar o pensamento de que o único contacto intimo que teria com o inglês seria as manhas a beber chá depois do seu lavatório ter sido arranjado. Ele nunca mais iria conseguir olhar para Arthur sem sentir aquela angustia e ânsia de o voltar a ter nos seus braços.


Francamente, naquele momento, Alfred queria voltar atrás do tempo e dar-se um murro a si mesmo para se impedir de se apaixonar por quem não devia.


_ Eu não ficarei feliz.


_ Alfred...!


_ Não... eu... eu não consigo voltar atrás.


Arthur encarava-o com os olhos muito abertos e a cara muito pálida.


_ Tu... tu prometeste que continuaríamos a ser amigos!


_ Bem, as coisas mudaram desde então! — Soltou Alfred e Arthur encolheu-se como se tivesse sido atingido — Não sei se consigo voltar ao que éramos antes! Eu não acredito que queres acabar tudo assim do nada!


_ Não sejas dramático. Era só sexo. Eu sei que sou bom, mas não assim tanto.


_ "Só sexo"? Foi isso apenas isso que foi para ti?


_ Bem... não. Somos amigos, houve sempre o carinho especial. Mas o nosso acordo era só sexo. Tu sabias, eu sabia. E já que comecei esta porra toda, também a acabo. — Arthur levantou-se e dirigiu-se para a porta. Alfred apressou-se a ir atrás dele.

_ Eu não acredito que simplesmente queres acabar tudo, e nem sequer me perguntas o que é que eu quero! — Exclamou o americano enquanto travava Arthur de chegar ao hall de entrada.


_ Eu não vou continuar a magoar os sentimentos da minha irmã só porque achas que eu sou uma boa foda!


_ Então eu tinha razão! Ela obrigou-te!


_ Ela não me obrigou coisa nenhuma! — Arthur encarou-o com fogo no olhar e Alfred rangeu os dentes — Sim, estou a fazer isto principalmente por ela, mas ela não me obrigou, ou pediu para fazer o que quer que seja. É melhor assim. — Com um olhar quase triste, Arthur acrescentou — Agora podes ir a tua vida, encontrar uma boa rapariga, casar-te, teres dois filhos e meio e essa treta toda.


Mas Alfred não queria uma boa rapariga. Ele não queria ninguém. Apenas Arthur.
Mas as palavras não lhe saíram. O seu cérebro implorava por alguma acção desesperada, mas o seu corpo desobedeceu-lhe, e ele não foi capaz de confessar o que sentia ao homem que amava.


O homem que agora lhe dizia que queria voltar a apenas ser seu amigo.
_ Então... queres voltar ao mesmo, hã? — Murmurou Alfred após um longo e desconfortável silencio.


Arthur apertou os lábios numa linha fina, meteu as mãos nos bolsos do casaco e sussurrou um minúsculo "yeah".


Alfred respirou fundo e tentou ignorar a facada que sentiu no coração. Era como se tudo o tivesse atingido de repente e o seu corpo finalmente se apercebera do que ele iria perder. Arthur ainda estava ali, a olha-lo com alguma preocupação, e Alfred quis atravessar aqueles três passos que os separavam e abraça-lo com força, puxá-lo para si e implorar para que ele não o deixasse.


Mas não o fez, não o fez porque Arthur obviamente não o queria da mesma maneira. E Alfred não queria ainda estragar mais aquela amizade já do que iria ficar depois de aquele momento.


_ Alfred... — Começou Arthur gentilmente, aproximando-se e tocando no seu braço com suavidade.


E, de repente, Alfred já podia estar mais na sua presença.


_ Eu... eu acho que devia sair. — Disse num mais frio do que intencionado e Arthur tirou a mão do seu braço como se este queimasse.


_ Oh... — Fez ele baixinho e deu uns passos tímidos para trás — Está bem, então. Eu... eu vou. — Apertou melhor o casaco em volta do seu pescoço e abriu a porta. Lançou um ultimo olhar a Alfred, que não saíra do sitio — Fica bem.


E saiu. A porta fechou atrás de si com um som decisivo, e Alfred ficou completamente sozinho.


Estava tudo acabado. O acordo, o sexo, a sua chance de conquistar Arthur...
Alfred lançou um pequeno som agoniado e mordeu o punho numa tentativa de travar a vontade de chorar. Algures atrás da sua mente, ouvia a voz do seu pai, no seu tom altivo, a declarar-lhe que homens a sério não choravam, homens a sério não mostravam fraqueza, homens a sério não mostravam emoções.


Que se fodam os "homens a sério". Que se o seu pai se fosse foder, também. E o Arthur, a Eireen e toda aquela familia numerosa de ingleses barulhentos. Alfred estava em sofrimento e ele nunca sentira nada tão forte e devastador como aquilo que agora corroía-lhe a alma. A sua visão começou a ficar turva pelas lágrimas e um soluço escapou-lhe pelos lábios.


Ok, talvez estivesse a ser demasiado dramático. Ele já terminara muitas relações, relações que existiam mesmo e que a palavra "amor" era atirada com frequência, e não ficara assim tão perturbado.


Nunca deveria ter-se metido naquela embrulhada. Nunca devia ter-se deixado ser guiado até à cama de Arthur pelo ciume de o ver com outro homem. Talvez se ele nunca tivesse dormido, nunca ser teria apaixonado e a Eireen nunca teria aparecido para estragar tudo.


Suspirou, subitamente exausto. Quem é que ele estava a tentar enganar? Provavelmente aqueles sentimentos pelo inglês sempre lá estiveram, escondidos sob uma enorme camada de negação. O sexo apenas os trouxe à superfície mais depressa. Mesmo que os eventos dos últimos meses não tivessem acontecido, teria sido apenas uma questão de tempo até se realizar que estava perdido de amores e depois acabaria a onde estava naquele momento:


Na miséria emocional.


Dirigiu-se á cozinha, demasiado cansado para cozinhar, mas pronto para ingerir qualquer coisa.
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_ MATTHEW!


Matthew acordou ao ouvir o seu nome ser berrado de forma tão estridente a meio da noite. Ergueu a cabeça da almofada e olhou em volta numa busca da fonte sonora que o perturbara tão rudemente. Katyusha dormia, exausta, ao seu lado e Dorofey estava, finalmente, no mundo dos sonhos no seu berço, depois de muito choro e pouco descanso.


Olhou para o relógio que se encontrava em cima da mesinha de cabeceira e franziu o sobrolho ao ver que eram três da manhã.


Talvez tivesse sonhado? Estava tudo silencioso agora, e não fazia sentido alguém gritar o seu nome se a Kat estava a dormir, o seu filho ainda não sabia falar e Ivan certamente não berraria de tal jeito do quarto de hospedes se necessitasse de alguma coisa. Provavelmente entraria no quarto e ficava a olhar para o casal até um deles acordar e atender as suas necessidades.


_MATTHEW!!


Ok, não era imaginação sua e parecia ser o Alfred.


Katyusha murmurou incoerências e rebolou para o lado enquanto Dorofey, graças aos céus, continuou quietinho com a sua respiração branda lá no seu berço. Matthew não aguentaria mais seis horas de choro.


Levantou-se cuidadosamente para não acordar a sua esposa, vestiu um roupão, calçou uns chinelos e retirou-se do seu quarto o mais silenciosamente que conseguiu.


_ Que barulheira é aquela? — Rosnou baixo a voz de Ivan no meio da escuridão mal Matthew fechou a porta. O pobre homem petrificou, assustado, ao ouvir a voz do cunhado, mas rapidamente recuperou e clareou a garganta.


_ Acho... acho que é o Alfred. — Balbuciou com timidez, porque não ser intimidado pelo enorme Ivan Bragisky era proeza que só o seu irmão gémeo conseguia ter.


_ "Achas"? É óbvio que é ele! O que é que o filho da puta quer? E liga uma luz, não vejo um corno à minha frente.


Matthew apreçou-se a tactear a parede e premir no interruptor. O corredor ficou iluminado e o rosto sonolento e mal-humurado de Ivan. O grande russo tinha vestido apenas uma t-shirt larga e uns boxers azuis escuros, um grande contraste das montanhas de roupa que geralmente usava.


Ouviram alguma coisa a partir lá em baixo, provavelmente um dos vasos que a mãe de Katyusha lhes oferecera para o casamento, e uma corrente de asneiras abafadas.


_ Por amor de Deus. — Rosnou Ivan e desceu as escadas e Matthew correu atrás dele, não fosse o seu irmão sofrer demasiado sob aquelas mãos gigantescas.


Quando chegou ao andar de baixo, Ivan já tinha acendido as luzes e aberto a porta de entrada. Matthew aproximou-se e começou a apanhar a conversa.


_... Três da manhã, seu cabrão. Não tens mais nada para fazer?


Houve um silencio até:


_ Tu não és o Matthew. — Fez Alfred com a fala arrastada.


Delicadamente, Matthew conseguiu espremer-se entre Ivan e a porta. Horrorizado, viu o seu irmão cambalear no jardim, de t-shirt, calças de pijama e um chinelo de cada cor. Estava coberto de neve, a sua pele tinha adquirido um tom pálido e adoentado e os seus lábios estavam praticamente azuis.


_ Deus do céu, Alfred! — Matthew agarrou a mão do seu gémeo. Estava gelada — Temos que te aquecer! O que raio é que se passou pela tua cabeça!


_ Eu não sei se ele tem alguma coisa na cabeça. — Comentou Ivan, ainda irritado.
_ Tu... tu cala-te! — Grunhiu Alfred numa tentativa falhada de tentar parecer ameaçador — Eu tenho... eu tenho coisas na cabeça, tipo... tipo cenas. — Esbracejou para exemplificar o que queria comunicar.


Matthew franziu o sobrolho.


_ Estás bêbedo?


_ Yeah.


_ E vieste até aqui a pé?


_ Claro, estou podre que nem um barril, nã' me ia meter no mê carro.


Matthew e Ivan ficaram a olhar para ele como se Alfred fosse completamente louco. E talvez, naquele momento, até fosse. Ninguém na sua boa mente teria percorrido aquela distancia toda numa noite tão fria como aquela enquanto usava algo tão pouco apropriado para a temperatura ambiente.


Embebedar-se até aquele ponto não era coisa de Alfred. Ele geralmente tinha uma óptima tolerância ao álcool. Tinha que ter bebido bastante para ter ficado naquele estado.


_ Eu não tenho tempo para isto. — Resmungou Ivan, que aparentava ser imune ao frio apesar de estar apenas de t-shirt e boxers. Céus, Matthew tinha um pijama de flanela e um roupão grosso e já começara a tremer.


_ Oh, cala-te. A culpa é tua. — Ralhou Alfred, inclinando-se um pouco para trás de forma a encarar Ivan e quase se espalhou no chão com o gesto.


Ivan ergueu uma sobrancelha.


_ O que é culpa minha?


_ Tudo! Tudo é culpa tua. Tudo o que se passa na minha vida!


_ De que raio estás a falar?


_ A tua cara é estúpida. E tens um rabo demasiado gordo.


_ Matthew, cala o teu irmão antes que o meu punho o faça.


O filho mais novo dos Jones suspirou, passou uma mão pela cara e arrastou o irmão para dentro de casa. Alfred mostrou alguma resistência, mas Ivan começou a empurra-lo e ele não teve escolha se não avançar.


Matthew virou-se para o russo.


_ Podias encher a banheira de água quente? Preciso de aquecer este idiota, ou ainda vamos ter que ir ao hospital.


Ivan lá foi a resmungar na língua dele e Matthew levou Alfred para a sala e embrulhou-o numa manta, ainda que este tenha lutado contra os seus esforços. Uma vez o seu irmão bem preso num casulo de cobertores, Matthew foi à cozinha preparar um chá.


Quando regressou a sala, Alfred tinha-se tornado uma bola em cima do sofá. Nada no seu corpo era visível, de tal forma ele estava enrolado no meio de tanta manta.


_ Alfred, estás bem? — Perguntou Matthew com gentileza e sentou-se ao lado do monte de mantas.


_ Não. — Veio a vozinha abafada e Matthew ouviu-o fungar.


_ E... estás a chorar?


_ Não! Cala-te.


_ O que é que se passou? Geralmente quando estás bêbedo apenas começas a rir que nem um louvo e adormeces na primeira superfície plana que encontras.


Houve um curto silencio. Conseguiam ouvir Ivan mexer-se na casa de banho do piso de baixo e a água a escorrer para dentro da banheira.


_ Eu não quero falar disso. — Murmurou Alfred num tom miserável.


_ Alfred, não podes simplesmente aparecer ao meio da madrugada, bêbedo e à beira da hipotermia e depois não me dizes o que se passa.


_ Eu só não queria estar lá em casa sozinho.


_ Ugh, temos mesmo que lidar com isto agora? — Perguntou Ivan enquanto entrava na sala.


Matthew, num momento de coragem, pois o seu cunhado assustava-o, lançou-lhe um olhar de aviso. Ivan ergueu as sobrancelhas, admirado pelo gesto, mas manteve-se em silencio.


Após algum tempo a tentar encontrar uma fenda para encarar o rosto do irmão, Matthew lá conseguiu fitar os olhos azuis, que estavam húmidos e muito vermelhos graças ao choro e a bebida.


_ Anda lá. — Fez Matthew ainda num tom suave, levantou o irmão pelos braços e debateu-se para o carregar até á casa de banho. — Vamos aquecer-te.


Ivan, após notar que os membros de Alfred estavam praticamente inúteis, ajudou Matthew a carrega-lo até ao locar desejado.


Uma vez lá, sentaram-no no tampo da sanita e Matthew começou a despi-lo enquanto Ivan punha a mão na água para ver se estava a uma temperatura decente.


_ Ajuda-me a metê-lo na banheira. Ele é mais pesado do que parece. — Pediu Matthew.


_ Eu reparei.


Os dois enfiaram Alfred na banheira, que grunhiu alguma coisa de estar tudo muito quente e deixaram-no estar ali deitado de molho. Matthew ajoelhou-se ao seu lado e agarrou-lhe as mãos para ver se estas mostravam algum calor.


_ A água não está muito quente. — Disse Matthew num tom acusador para Ivan.


_ Ele estava completamente gelado. Se eu metesse a água muito quente, ele ainda entrava em choque termico. Podemos ir aderindo mais calor á medida que ele vai aquecendo.


_ Está bem, está bem. Eu pus um bule de água ao lume. Podias ir ver já está a ferver?


Ivan grunhiu afirmativamente e retirou-se da casa de banho. Matthew encarou o irmão, que estava deitado na banheira com a cabeça pousada na porcelana. O seu olhar, desfocado pelo álcool, estava dirigido para o tecto.


Matthew passou-lhe as mãos pelo cabelo e retirou algumas madeixas louras da testa. Lentamente, um tom rosado começou a substituir a palidez assustadora da pele de Alfred e Matthew sentiu-se mais descansado.


_ Vais-me dizer o que é que se passou para te comportares desta maneira? — Perguntou ele num murmúrio.


Alfred não respondeu de imediato, mas as suas mãos brincaram com a superficie da água. Matthew tocou-lhe nos dedos dos pés, constatou que estes já se encontravam a uma temperatura mais aceitável e abriu a torneira para encher a banheira com água ainda mais quente.


Tratar das bebedeiras ou doenças de Alfred não era trabalho para Matthew. Geralmente era Arthur que ficava encarregue de tais fardos, provavelmente porque os dois idiotas estavam sempre a cuidar um do outro. Num dia Alfred carregava o corpo quase inanimado de Arthur, porque este bebera demasiado, ou algo assim, noutro Arthur aconchegava as almofadas de Alfred e aquecia-lhe sopa que Helen Kirkland tinha feito.


Matthew sempre ficara meio de lado nessas ocasiões. Durante as noites de festa, mesmo quando eram mais novos, Arthur era sempre o que ficava K.O primeiro, Alfred ria-se muito e Matthew era o condutor, por isso limitava-se a ficar com uma cerveja mal bebida. Depois deixava-os no quarto de Alfred deitados um para cada lado na cama, apesar de saber que um deles iria acabar eventualmente por cair no chão.


Por isso estava um bocado confuso com a presença do irmão naquele momento, porque, pela lógica, se estivesse mal, Alfred ia sempre ter com Arthur para resolver os seus problemas.


A não ser...


_ Aconteceu alguma coisa com o Arthur? — Perguntou com gentileza.
Alfred suspirou e deixou a sua cabeça inclinar-se para a frente, como se fosse de repente muito pesada.


_ A Eireen apareceu lá hoje... ontem? Ela apareceu lá e descobriu o que eu e o Arthur andávamos a fazer.

_ Oh.


_ Sabes como ela tem aquela paixoneta estupida por mim?


_ Sei, ela não é muito subtil.


_ Fez um drama. O Arthur foi atrás dela e depois aparece-me em casa com a cara fodida e diz que quer acabar tudo, que quer que voltemos a ser só amigos. — Alfred lançou-lhe um olhar desesperado e Matthew sentiu algo amargo a subir-lhe pela garganta — Eu não quero ficar só amigo dele! Eu amo-o! E ele acha que era só sexo!


Matthew não sabia bem o que dizer. Parte dele já sabia que isto poderia acontecer, mas tivera a esperança de que os idiotas conseguissem resolver tudo sem interferência, mas não parecia ser o caso.


Ao ver o estado miserável em que o seu irmão se encontrava, Matthew só podia imaginar o quão profundos os seus sentimentos pelo inglês na verdade eram.


_ Estás a dizer-me... — Fez Ivan sobriamente para além da ombreira da porta, meio escondido pelo escuro. Tinha uma chávena de chá na mão -... Que quase te meteste num coma alcoólico, quase morreste de hipotermia ao caminhares estupidamente mal vestido no meio da neve e acordaste-me do meu sono às três da manhã apenas porque o Arthur Kirkland já não quer a tua pila?!


Alfred encostou-se à banheira e lançou-lhe um olhar descontraído.


_ Yeah.


_ Eu quero atirar-te esta chávena a cima.


_ Oh, boo-hoo, estraguei o teu sono de beleza, pobrezinho de ti. O meu coração está partido, tenho o direito de me embebedar se quiser!


_ Oh, por favor, cresce. Vocês nem sequer tinham uma relação a sério.


_ Não quer dizer que os meus sentimentos não sejam verdadeiros!


_ E ao menos disseste-lhe que tens esses sentimentos? — Perguntou Ivan secamente.


_ Bem... não... — Alfred fungou e cruzou os braços — Não importa. Ele não sente o mesmo.


_ Sabes lá tu o que é que ele sente ou não.


_ Aparentemente, sei tanto como tu.


_ Ugh! — Fez Matthew impacientemente. Retirou o chá das mãos de Ivan e ajoelhou-se ao lado do irmão — Parem de discotir, vocês os dois. Toma — Levou a chávena aos lábios de Alfred — Bebe.


_ Eu não gosto de chá.


_ E eu não quero saber. Bebe e cala-te.


Alfred resmungou baixinho antes de mandar um gole. Depois fez um som desgostoso e uma careta.


_ Nem sequer tem açúcar!


_ Bebe-me essa merda!


Finalmente Alfred lá decidiu de deixar de ser um bebé e bebeu o chá, se bem que com bastante lentidão e expressões enojadas.


Entretanto, Matthew pedira a Ivan para ir buscar uns pijamas ao quarto, o que lhe fez com que recebesse um olhar irritado e intimidante pela parte do russo, mas este foi na mesma.


Retirou duas toalhas do armário e colocou-as ao lado da banheira.


_ Anda lá, seu idiota, levanta-te. — Pediu gentilmente. Alfred cooperou desta vez, erguendo-se sobre pernas bambas e passando a toalha pelos ombros. Matthew ajudou-o a retirar-se da banheira, mas o mais velho conseguiu secar-se sozinho.


Vestiu o pijama que Ivan lhe trouxera e voltaram para a sala. Pelos vistos, num gesto estranhamente atencioso sua parte, Ivan tinha posto mantas, cobertores e almofadas no sofá de forma a fazerem uma cama improvisada. Matthew lançou-lhe um olhar agradecido e foi ignorado.


Deitou Alfred no sofá e embrulhou-o num casulo, ajeitando as almofadas para que ele ficasse confortável. Não demorou muito a adormecer, os seus olhos ficaram pesados e pesados até as pálpebras se fecharem completamente e a sua respiração abrandar.

Matthew suspirou e passou os dedos pelo cabelo do irmão.


_ Ugh, finalmente acabou. — Fez Ivan.
Sem qualquer resposta, Matthew limitou-se a continuar a acariciar os cabelos de Alfred.


_ Vai tudo ficar bem, Al. — Murmurou e deu-lhe um beijo na testa.


Ivan rolou os olhos.


_ É claro que vai. Só um cego é que não vê que esses dois idiotas estão caidinhos um pelo outro. — Lançou um ultimo olhar irritado a Alfred, mas Matthew conseguia ver uma nota de afeição nas suas feições — Agora, se não te importas, vou voltar para a cama. Tenho um certo chinês para seduzir, e não o posso fazer se tiver olheiras até ao chão.


_ Ele não está interessado em ti, Ivan. — Disse Matthew para o russo que já saia pela porta.


_ Mas vai estar!

Matthew sorriu, apesar de temer um bocado pela segurança do pequeno Yao, o homem que conhecera na festa do seu filho. Certificou-se de que Alfred estava bem tapado e levantou-se.


Desligou as luzes e subiu as escadas.


Quando voltou para a sua cama, Katyusha tinha-se movido um pouco para o meio da cama e Matthew abraçou-a ao deitar-se. Ela murmurou alguma coisa no sono, mas não acordou.


Dorofei continuava deitado no seu berço.


Matthew enterrou o rosto no cabelo cheiroso da sua mulher, fechou os olhos e desejou que quando a manhã viesse, as coisas estivessem melhor.

Notas finais
Mais uma vez, perdoem a demora. Eu prometo sempre que vou escrever mais depressa, mas parece que nunca acontece. Sorry! Mas pronto, está aqui. Depois de sete anos a escrever fanfics ainda não me sinto confortável a escrever capítulos de drama Espero que tenham gostado anyways. Kisses, Evil