Sure, Why Not?
18 Capitulo 18
Notas iniciais
Arthur acordou de sobressalto, com o nariz entupido e os olhos remelosos. O peso repentino de Alfred a saltar na cama, ação que acordou o inglês, deslocou-se e Arthur sentiu-se ser beijado com força.
Entre abriu os olhos e fitou o rosto sorridente de Alfred com desagrado.
_ Está a nevar! – Exclamou o americano alegremente.
Com um grunhido, Arthur aconchegou-se á cama e enrolou mais os cobertores em volta do seu corpo. Ouviu Alfred bufar impacientemente e num ápice o calor dos cobertores desapareceu, deixando-o nu perante o mundo.
_ Nãaaao… — Grunhiu, descontente e esbracejou em busca do cobertor perdido.
_ Anda lá, está a nevar! É um acontecimento feliz!
_ Neva todos os anos! É frio, molhado e desconfortável! – Com algum esforço, conseguiu cobrir-se de novo e aninhou-se para se aquecer.- Agora deixa-me dormir.
_ Não posso, tens trabalho e eu também.
_ Nheee…
_ Arthur… — Alfred deitou-se novamente, enfiando-se dentro do casulo que Arthur fizera para se proteger do frio – Não sejas rabugento.
Sem qualquer resposta, Arthur limitou-se a enroscar-se ao corpo do outro, aproveitando-se do calor que emanava. Sentiu um beijo delicado na sua nuca e mãos firmes passearem pelos seus ombros.
_ Eu pensei que tínhamos trabalho. – Disse Arthur com um sorriso e olhos pesados.
_ A culpa é tua por seres adorável.
_ A tua cara é adorável. – Respondeu o inglês, agora mal-humorado.
_ Bem, agradeço o elogio. – Riu-se Alfred, puxando-o mais contra si e depositando um beijo molhado e ruidoso na sua bochecha.
_ Ugh, és tão irritante quando neva. Ou quando chove. E quando há sol. Na verdade és irritante durante o ano todo.
_ Mas é por isso que me amas.
_ Não sejas convencido. – Arthur virou o rosto para impedir que Alfred o beijasse nos lábios – Acabei de acordar, seu imbecil, devo ter o hálito de um cadáver.
_ Eu não me importo. Acho que se caísses numa montanha de estrume, eu iria querer beijar-te na mesma.
_ Isso é nojento, Alfred.
Ele riu-se e Arthur viu-se ser beijado com doçura. Após um suspiro, separou os lábios para aprofundar o gesto e rodeou o pescoço de Alfred para o puxar mais contra o seu corpo.
Alfred tinha aberto a persiana antes de Arthur acordar, provavelmente para ver o tempo que se fazia na rua. Um pequeno amontoado de neve tinha-se formado nos cantos do lado de fora do parapeito e uma luz fraca e acinzentada iluminava o quarto, como um deprimente foco em direção ao casal deitado na cama.
Arthur nunca gostara de neve. Era fria, húmida e escorregadia. O facto de ter levado com umas quantas bolas geladas na cara, por cortesia dos seus irmãos e Alfred, não ajudava nada ao seu desgosto pela água gelada que caia do céu.
Teria que pedir ao Scott para lhe modificar os pneus da carrinha e colocar as correntes necessárias para conduzir durante tal época invernal.
O seu trilho de pensamentos foi quebrado quando Alfred abocanhou o seu pescoço. Arthur arrepiou-se, deleitado, e deu-lhe mais acesso. Ele adorava quando lhe faziam aquilo e Alfred parecia ter um talento especial por o fazer derreter sob a sua boca.
_ Estás bem? – Perguntou Alfred contra a sua pele.
_ Hmm? – Fez Arthur desnorteado.
Alfred afastou-se um pouco para o encarar e Arthur sentiu de imediato a falta daqueles lábios sobre si.
_ Ontem à noite…
_ Não quero falar disso! – Interrompeu Arthur de imediato,
_ Mas vamos falar! – Alfred fitou-o firmemente – Não podemos ignorar o que aconteceu, Arthur.
_ Não aconteceu nada! – Bufou o inglês com impaciência.
_ Arthur. – Alfred agarrou-lhe o rosto com as mãos – Arthur – Suspirou, então, juntando as testas. Os seus dedos longos acariciavam as bochechas com uma ternura de parar o coração e Arthur sentiu dificuldade a respirar sob o olhar intenso que Alfred lhe lançava – Podes dizer-me. Não tens que te sentir embaraçado, podes dizer-me qualquer coisa.
Arthur grunhiu, frustrado, e deixou cair os braços sobre o colchão. Alfred não se moveu, ainda praticamente em cima dele a acariciar o seu rosto com leveza enquanto o olhava como se ele fosse a coisa mais importante do mundo.
Era um bocado desconcertante.
_ Não sei, Alfred! – Exclamou ele naquele tom irritado que ele usava para esconder o quão abalado estava pela situação – Acho que foi tudo uma mistura do vinho e… e da história do Feliciano e acho que… acho que me apercebi que tenho mais sorte do que mereço. – Murmurou, finalmente, e dirigiu o olhar para a janela, por onde, através do vidro, se poderia constatar que a neve recomeçara a sua queda.
_ Hei… — Chamou Alfred baixinho, obrigando-o a mirá-lo ao tocar-lhe no queixo com as pontas dos dedos. Ele tinha o sobrolho franzido numa expressão reprovadora, uma expressão que Arthur nunca apreciara nele. – Hei, não digas isso. Tudo o que tens; a tua família, o teu emprego, os teus amigos, tudo! Mas mesmo tudo, é merecido. Nunca duvides disso.
_ Mas…!
_ Mas, nada. Eu sei que achas que és uma espécie de vilão sisudo e irritadiço que se irá tornar num velho rezingão que passa o dia a proteger o seu relvado, mas há muito mais em ti do que a tua rabugice. Tu és teimoso, e meigo e leal. Nunca desistes de nada mesmo quando todas as situações apontam para o falhanço. Tu mereces todo o amor que tens na tua vida, está bem? O que aconteceu ao Feliciano é horrível e infelizmente é uma realidade que acontece com demasiada frequência, mas pelo menos ele não está sozinho. Tem o homem da sua vida ao seu lado e agora tem-nos a nós para lhe fazer companhia. Quem sabe, um dia a família dele abra os olhos e vai ver o que perdeu. Agora não te quero ouvir a dizer parvoíces desse género, entendido?
Arthur fitou-o de olhos arregalados e engoliu saliva. Sentia os lábios secos, o seu nariz ainda estava entupido, tinha acabado de acordar e deveria estar com um aspeto horrendo, mas Alfred não parecia minimamente incomodado por tais aspetos indesejáveis da sua aparência, e sorria-lhe com doçura enquanto murmurava palavras de conforto.
Com alguma hesitação, levantou a cabeça da almofada e depositou um beijo tímido nos lábios do outro, como uma recompensa. Alfred recebeu e retribuiu de bom grado embrenhando os seus dedos pelo cabeço cabelo despenteado de Arthur enquanto a outra mão entrelaçava os seus dedos com os dele.
Arthur nunca fizera amor em todos os seus vinte e sete anos de idade. Já fodeu, fornicou, comeu e mandou umas valentes trancadas, mas nunca se deitou com alguém onde a apreciação mutua era tal que se pudesse atribuir "amor" no ato.
Mas depois de tanto beijo profundo, toques quentes e palavras intimas suspiradas ao seu ouvido, que outra coisa Arthur poderia chamar quando Alfred o penetrou cuidadosamente se não "amor"? Pois era amor. Talvez não o tipo de amor de que os livros românticos falam, ou mesmo o tipo de amor que ele via nos olhos do seu pai cada vez que este olhava para a sua mãe, mas não poderia negar que aquilo que havia entre ele e Alfred, fosse o que fosse, continha uma afeição intensa.
Arthur não conseguia respirar novamente. A combinação entre o seu nariz entupido e a realização que poderia haver algo mais apaixonante naquela reação do que ele primeiramente julgara atordoou-o de tal forma que viu o teto rodar por alguns momentos até que Alfred moveu as ancas no angulo certo e de repente já não havia nada na sua mente a não ser o prazer ardente e os beijos fervidos contra o seu pescoço.
______________________________________________________
_ Lindo, estou atrasado. — Murmurou Alfred contra o ombro de Arthur, após ter lançado uma olhadela ao relógio digital que estava na mesinha de cabeceira.
_ Hmm. — Fez Arthur ainda meio endrominado com todas as sensações agradáveis pós orgasmo — A culpa é tua.
_ Tu é que não te levantavas.
_ Tu é que começaste a dizer palavras bonitas ao meu ouvido.
_ Desculpas, desculpas. — Alfred depositou um beijo braço e acariciou-lhe o tronco com as pontas dos dedos — O que é que queres tomar como pequeno-almoço?
_ Whisky.
_ Eu ouvi panquecas. — Alfred começou a levantar-se e Arthur não conseguiu impedir o grunhido de descontentamento que escapou pelos seus lábios ao ser negada a sua principal fonte de calor.
_ Pensei que estavas atrasado.
_ E daí?
_ És muito mau para o negócio. Se eu fosse o Matthew já te tinha despedido. — Resmungou Arthur, rolando para o lado e enfiando o nariz na almofada.
_ O Matthew não duraria três dias sem mim. E se ele ralhar muito, podemos sempre culpar o Obama.
_ Isso não faz sentido. — Mas Alfred já tinha ido para a casa de banho, sem um pingo de pudor quanta à sua nudez.
Arthur deixou-se ficar deitado durante mais algum tempo, ciente de que deveria levantar-se para encarar o dia e lidar com os seus irmãos.
Quando ganhou vontade para tirar a cara da almofada, Alfred já estava a tomar o seu duche. Com sons primitivos, Arthur retirou-se da cama, praguejou ao pisar o chão frio, olhou desgostoso uma ultima vez em direção ao tempo nevoso e dirigiu-se para a casa de banho no fim de se limpar de todos os fluidos corporais que sujavam a sua pele.
___________________________________________________
Alfred vestia-se enquanto Arthur enxaguava o cabelo. Abriu a torneira do lavatório apenas para ser um cabrão e deliciar-se com o guincho que o inglês lançou quando a água do chuveiro ficou subitamente fria. A rir-se e vitima dos palavrões do seu melhor amigo, Alfred saiu da casa de banho e desceu as escadas.
Sentia-se nas nuvens quando entrou na cozinha, com o bem estar após bom sexo ainda a arder-lhe nas veias. Alfred gostava de acordar ao lado de Arthur, gostava e queria faze-lo para o resto da sua vida.
A noite anterior tinha-o assustado um pouco. Ele raramente vira Arthur chorar em toda a sua vida, e das vezes que tal coisa acontecia o inglês estava maioritariamente bêbedo. Mas pelo menos agora estava tudo bem, ainda que Alfred não soubesse de onde aquele desdém próprio viera assim tão de subito.
Pegou nos ovos, no leite e na manteiga que se encontravam no frigorifico e colocou-os no balcão. Depois foi buscar a farinha, pousou-a ao lado dos outros ingredientes e pôs uma frigideira ao lume.
Enquanto ele misturava os ingredientes numa tigela os seus pensamentos divagaram para os acontecimentos daquela manhã. Ele já fizera sexo com Arthur inúmeras vezes, mas nenhuma delas tinha sido como aquela. Era como... como... ele nem sabia, mas tinha sido diferente.
Tinha-o deixado sem fôlego e a chorar por mais.
Mas pedir mais a Arthur era uma impossibilidade de momento. Alfred não podia simplesmente cair de joelhos e implorar que Arthur o aceitasse como seu fiel parceiro para o resto das suas vidas, por muito tentador que fosse.
A julgar pela maneira de como Arthur se abrira mais para ele, o beijara, tocara e gemera naquela manhã, Alfred poderia confirmar que o seu amigo não era tão indiferente, no que dizia ao romance, como mostrava, e tal facto enchia o peito de Alfred com esperança.
Estava a colocar um pouco de manteiga na frigideira quando alguém bateu á porta com uma estranha timidez.
Confuso, pois geralmente ninguém o incomodava de manhã a não ser Arthur, que estava na sua casa de banho, Alfred colocou o fogão no mínimo, pousou o resto da manteiga no balcão e foi abrir a porta.
O rosto corado e sorridente de Eireen cumprimentou-o e Alfred sentiu o seu sangue gelar.
_ Bom dia! — Disse ela, jovial. Estava a usar um gorro com orelhinhas de gato azuil, que contrastava perfeitamente com os caracóis ruivos que escapavam por de baixo — Estava a dirigir-me para o restaurante para te dizer olá, mas vi que o teu carro ainda estava aqui! – Ela já tinha um pouco de neve acumulada nas suas roupas e no seu cabelo. Alfred sentiu a indecisão e o receio apertar-lhe o peito.
_ Eu...
_ Posso entrar? — Eireen sorriu com doçura e Alfred nunca sentiu um pânico como aquele que agora acelerava o seu coração — Se bem me lembro prometeste-me um chá, um dia destes.
_ Não! — Fez Alfred muito depressa. Eireen franziu as sobrancelhas, magoada — Quero dizer, sim! Mas... erm... tu... eu... ahh... — Merda.
_ Alfred? — Chamou Arthur algures atrás de si e Alfred ouviu-o descer as escadas — Alfred, cheira-me a manteiga queimada.
Merda ao quadrado.
Alfred sentiu o mundo ficar mais frio e sem dúvida que não foi por ter a porta aberta durante um dia de neve. Os dois Kirkland fitaram-se de olhos arregalados, a Eireen com choque e o Arthur a fazer uma imitação prestigiada de um veado encadeado pelos faróis de um carro.
Eireen passou os olhos verdes pelo irmão e depois por Alfred, apenas para voltar a Arthur e assim adiante numa sessão repetitiva. A realização tornou-se mais evidente no seu rosto e de repente a sua pele leitosa estava corada por motivos que pouco tinham a ver com o frio.
Eireen podia ser ingénua de vez em quando, mas não era estupida. Ela obviamente decifrara os lábios abusados de ambos, tal como os cabelos molhados depois do banho e as marcas encarnadas no pescoço de Arthur.
Lançou um olhar furibundo ao irmão e Alfred sentiu-se dar um passo instintivo para trás, talvez numa tentativa de proteger o seu amigo.
_ Tu! — Rugiu ela com os punhos cerrados — Tu sabias! Tu sabias e mesmo assim...! Argh! — Esbracejou freneticamente num gesto de frustração.
_ Eireen... — Tentou Arthur, cauteloso, agora perto de Alfred e da irmã. Tentou tocar-lhe no braço, mas Eireen virou-se e deu-lhe uma chapada tão grande que Alfred a conseguiu sentir.
_ Seu vadio!
_ Hei! — Fez Alfred, já que Arthur decidiu ficar simplesmente estacado no sítio, agora com uma impressão rubra na bochecha direita. Agarrou-lhe no braço com firmeza, uma vez que ela parecia ter todas as intenções de investir com a palma da sua mão novamente — Se quiseres ficar zangada, então fica zangada comigo. Mas não te atrevas a bater e chamar nomes ao teu irmão.
Ela olhou-o com os olhos repletos de lágrimas e os lábios a tremer. Soltou-se com brusquidão, afastando-se, deu dois passos atrás, a arfar, e fungou irritada.
_ Achaste engraçado?
_ Eu...
_ Se não estavas interessado era só dizer. – Soltou ela num tom gélido – Assim não tinha perdido a merda do meu tempo. — Tanto Alfred como Arthur ergueram as sobrancelhas, admirados, pois nunca ouviram a doce Eireen usar tal linguagem — Ou acharam que era engraçado verem a pobre Eireen, tão estupida e ceguinha, que não consegue ver que o homem que ama anda a meter o seu caralho dentro do seu irmão! Era uma piada entre vocês?
Arthur abanou a cabeça, lívido, e tentou chegar-se de perto, mas Eireen saiu do seu alcance e abraçou-se a si mesma.
_ Eireen...
Mas ela pareceu ficar farta de olhar para ambos e, após um ultimo olhar que era um misto de raiva e mágoa, simplesmente saiu porta fora, marchando pela neve até ao seu carro.
_ Eireen! — Chamou Arthur.
_ Hei, espera. — Alfred impediu-o de a seguir — Eu acho que ela precisa de um tempinho a sós.
_ N-não! Ela é a minha irmã, eu preciso de falar com ela! — Arthur correu atrás dela e desta vez Alfred não o travou. Viu-o entrar na carrinha, pois Eireen já tinha seguido com o carro pela estrada fora.
Uma vez sozinho Alfred fechou a porta e bateu levemente a testa contra a madeira. Suspirou numa exaustão profunda que apareceu de súbito e amaldiçoou todas as divindades que o ser humano alguma vez acreditou.
Dirigiu-se para a cozinha e constatou, de facto, que a manteiga que pusera na frigideira derretera e queimara, formando uma camada negra e pegajosa.
Desligou o fogão e deitou a frigideira no lavatório. A massa das panquecas continuava no balcão, dentro da tigela, á espera de ser cozinhada.
Alfred olhou em volta e a sua casa nunca lhe pareceu mais vazia.
_______________________________________________________________
Arthur estacionou a carrinha meio torta ao pé da casa dos seus pais. Nem sequer tinha posto o cinto de segurança, tal tinha sido a sua pressa. Viu Eireen sair do seu carro pequeno e económico. Tinha retirado o gorro azul e agora o seu cabelo ruivo dançava ao vento como uma chama.
Arthur apressou-se a segui-la.
_ Eireen! — Chamou enquanto tropeçava para fora da carrinha — Eireen, espera!
_ Vai-te embora, Arthur! — Ordenou ela sem se virar para trás.
Os flocos de neve ainda não tinham parado de cair e começavam a acomodar-se nas suas roupas e cabelo. Como não pusera luvas, as suas mãos estavam geladas e quase não sentia os dedos. Os seus pais não tinham limpo a neve do pátio e andar mostrava-se ser uma tarefa complicada e um bocado perigosa.
_ Eireen. — Ele conseguiu alcança-la e pegou-lhe na mão enluvada — Por favor...
Ela soltou-se da mão dele como se ele estivesse em chamas e lançou-lhe o olhar irado.
_ Foi antes ou depois? — Perguntou ela, tão fria como o gelo que os rodeava.
_ Ãh?
_ Vocês começaram a foder antes ou depois da festa de anos da Lily Zwingli?
Arthur engoliu em seco pois ele sabia, e ela também, que a festa da Lily Zwingli tinha sido a noite onde tanto Arthur como Alfred descobriram os sentimentos que Eireen tinha pelo americano.
_ ... foi depois... — Murmurou Arthur baixinho e a sua voz quase foi consumida pelo vento, mas o olhar de pura ira que Eireen lhe lançou mostrou-lhe que ela o ouviu sem qualquer problema.
_ Seu vadio! — Guinchou ela e saltou-lhe para cima.
Eireen não lutava como "uma rapariga". Não tinha os movimentos estereotipados das lutas femininas que geralmente apareciam pela televisão. Arthur levou com um punho firme no nariz e depois teve que meter os braços na cabeça para se proteger dos murros da sua irmã mais nova. Parte dele até estava orgulhoso.
_ Vadio, vadio, vadio! — Exclamava ela como uma mantra exaltada, cada palavra era uma investida nova.
Arthur fartou-se de ser o saco de boxe dela e puxou-lhe os cabelos. Eireen soltou um grito, deu-lhe uma joelhada no meio das pernas e recebeu uma cotovelada no seio esquerdo como resposta.
Continuaram a rebolar na neve numa luta por dominância rendida. As suas roupas ficaram encharcadas e os seus corpos iam arrefecendo, mas nenhum deles desistiu.
Ouviram o som chocado da mãe de ambos algures ao pé do portão de entrada, mas ignoraram-na completamente. Eireen ocupava-se a morder o braço de Arthur enquanto este dava-lhe safanões violentos para a afastar.
_ Arthur Ignatus e Eireen Isabella, o que vem a ser isto!? — Bramou Helen Kirkland enquanto marchava em direção dos filhos.
Os dois olharam-na, espantados e depois viram-se ser puxados para cima pelas orelhas, como se fossem crianças mal comportadas. Ela estava de roupão e pantufas, tão semelhante a quando eram mais novos e eram apanhados a fazer esterco.
_ Eu não acredito no que estou a ver! — Continuou Helen e fez mais força com os dedos. Arthur sentiu a sua orelha em chamas. — Quero uma explicação! – Nenhum dos dois disse nada, limitaram-se a baixar a cabeça como se o chão fosse subitamente a coisa mais interessante do universo — Já! – Foi a ultima ordem.
Eireen lançou um último olhar de desdém a Arthur.
_ Vadio.
_ Eireen! Que palavreado vem a ser esse! Pede desculpa ao teu irmão imediatamente!
_ Não peço! Ele que negue! Ele que negue que não andou a abrir as pernas ao Alfred F. Jones!
Helen mostrou-se surpresa, com as sobrancelhas arregaladas e a boca entreaberta. Largou as orelhas dos filhos e olhou para Arthur.
_ Isso é verdade? Arthur?
Ele não gostava do tom suave da sua voz e muito menos gostava do olhar acusador de Eireen. Suspirou pesadamente, frustrado, e olhou na direção oposta.
_ Se ela me deixasse, eu já tinha pedido desculpa.
_ E de que me valem as tuas desculpas?
_ Eu… eu paro de dormir com ele se for o que quiseres! – Implorou Arthur, encarando-a com toda a sinceridade – Sabes bem que sim! Nunca mais! Por ti!
Ela lançou um som de troça e virou-lhe costas, dirigindo-se para casa.
_ Eireen…! – Arthur tentou segui-la, comunicar com ela, mas Helen travou-o.
_ Amor, deixa-a por agora. – Disse ela no mesmo tom cauteloso que se usa para acalmar animais assustados.
_ Não, eu tenho que falar com ela…!
_ Arthur, vocês são dois casmurros com sangue quente, vão acabar por me partir a casa toda. Deixa as coisas acalmarem um bocado e depois podem falar, está bem? – Perguntou Helen com um sorriso e tocou-lhe no rosto. Só então Arthur se apercebeu do quanto a mãe estava fria, vestida com uma roupa tão pouco adequada para a temperatura que se fazia.
Aproximou-se dela, tanto pelo conforto como no intuito de lhe dar calor.
_ Eu não… eu não queria… — Ele não queria magoar Eireen. Ele nem sequer se lembrara dela de todas as vezes em que se deitara com Alfred, ou o beijara, ou o abraçara. Ele simplesmente… esqueceu-se.
_ Oh, querido, eu sei que não. – Abençoadas fossem as mães por perceberem o que os filhos queriam dizer mesmo quando estes se engasgavam todos ao tentarem efetuar uma simples tarefa de comunicação – Oh, amor!- Fez ela com pena quando viu que ele tinha os olhos húmidos – Amor, não fiques assim! Ela não vai ficar chateada contigo para sempre, era só uma paixoneta!
_ E se fosse mais do que isso? E se eu arruinei tudo? E se…!
_ “E se” nada. A vida nem sempre corre como queremos. A Eireen vai seguir em frente e vai encontrar outra pessoa que a irá amar com tudo o que tem. O Alfred não é essa pessoa e, se queres a minha opinião, nunca seria, mesmo sem a tua interferência.
_ Mas…!
_ Não, não querido. Vai para casa. Eu cuido dela. Eu ligo ao teu pai para avisar que hoje não vais trabalhar, está bem?
Ele fungou e anuiu. Passou a manga do casaco pelo nariz e sentiu os dedos de Helen passarem pelo seu cabelo.
_ Desculpa, mãe. Eu nunca quis que nada disto acontecesse.
_ Eu sei, amor. E não me tens que pedir desculpas. Nem tens que pedir desculpas à Eireen. Ainda não sei bem o que se passou, mas não tenho a menor duvida de que nunca tentaste magoa-la.
_ Não, não, eu nunca…!
_ Arthur, querido, vai para casa. Aquece-te e bebe um chá. Acalma-te. Vai tudo correr bem, está bem?
Ele mostrou-se indeciso, mas anuiu. Helen lançou-lhe um sorriso triste e deu-lhe um beijo no rosto. Arthur retribuiu da mesma forma.
_ Eu… eu vou então.
_ Vai.
_ Pede-lhe desculpa por mim! E… e diz-lhe que eu a adoro.
_ Eu digo-lhe. Mas não sei se vai resolver muita coisa.
Arthur suspirou, derrotado.
_ Adeus, mãe. Eu ligo-te logo.
_ Adeus, amor.
Helen viu o filho afastar-se solenemente e entrar na sua carrinha pobremente estacionada. Aconchegou o roupão ao seu corpo e arrepiou-se com o frio. Virou-se para o portão da entrada.
Era tempo de enfrentar a fera.
____________________________________________________________________
_ Eireen, amor, por favor, vem almoçar!
_ Não tenho fome.
Três horas. Tinham-se passado três horas desde que Helen tinha encontrado dois dos seus filhos enrolados na neve a tentarem arrancar um pedaço um do outro. Eireen tinha-se fechado no quarto e até ao momento nada do que Helen lhe dizia a tirava de lá.
Ouviu os carros do seu marido e filhos estacionarem na rua e suspirou.
_ Eireen, os rapazes já chegaram, por favor, sai daí.
_ Ele vem com eles? – Perguntou Eireen do outro lado da porta.
_ Não, querida ele foi para casa.
A sua menina lançou um som incrédulo.
_ Deve ter voltado para os braços do seu querido Alfred. Bem, por mim, eles podem engasgar-se nas pilas um do outro, eu já não quero saber. – Mas a sua voz tremia-lhe, como se ela estivesse a conter o choro.
Helen queria ficar escandalizada pelas palavras da filha, mas infelizmente achou-as incrivelmente divertidas e levou a mão à boca para abafar o riso. Atrás de si, a porta de entrada abriu-se, e a sua família invadiu a casa.
_ O que se passa? – Perguntou Albert ao ver a expressão da sua esposa e a porta fechada do quarto da filha.
Helen suspirou e afastou-se da porta, sussurrando para o marido.
_ Aparentemente, o Arthur e o Alfred têm andado às cambalhotas e hoje a Eireen descobriu.
_ O ALFRED E O ARTHUR TÊM ANDADO ÀS QUEM!? – Fez Scott subtilmente.
Reprimindo a vontade que tinha por estrangular o seu filho mais velho, Helen olhou para o marido, apenas para constatar que Albert tinha a mesma expressão incrédula no rosto. De facto, todos tinham. William até parecia vagamente confuso.
_ Oh, parem de agir como se fosse assim tão surpreendente!
_ Tens razão, não é surpreendente! – Eireen abriu a porta de repente – Não é nada surpreendente e isso é que me irrita mais! – Ela começou a deambular pela casa fora e foram todos atrás dela – Como é que eu fui tão cega! Eles são tão óbvios! – Deu três voltas à mesinha que se encontrava no meio da sala – Imaginem que eu realmente começava a namorar com o Alfred! Imaginem que casava-mos e tínhamos meia dúzia de filhos! Imaginem que dez anos depois no nosso casamento aparentemente feliz, eu apanho o meu querido marido na minha cama com o meu irmão mais velho! Teríamos um divórcio terrível, as nossas crianças ficariam traumatizadas e eu ficaria sozinha com um monte gatos até morrer!
Ela calou-se e ficou uns segundos a olhar para a sua família sem se mexer. E assim, os seus olhos encheram-se de lágrimas e ela levou as mãos ao rosto para esconder o facto de que retomara o seu choro.
_ Eu gosto de como ela já planeou um casamento infiel. – Murmurou William a Scott, que anuiu solenemente.
_ Oh, não, não, não, não chores, meu anjinho. – Fez Albert num tom horrorizado, e apreçou-se a puxar a filha para os seus braços – Não chores! Tu mereces melhor do que aquele Jones desgraçado!
_ Pai, o teu quarto filho anda a dormir com o Jones desgraçado. – Disse Brody secamente.
Albert lançou-lhe um olhar de aviso e Brody não disse mais nada.
_ O pior… — Soluçou Eireen contra o peito do seu pai – O pior é que eles sabiam. Eles sabiam e nunca me disseram nada. O Alfred sabia, e nunca me disse que não estava interessado. “Planos para o fim de semana” pff, provavelmente ficaram a noite toda a mandar trancadas.
_ Eu não sei se o Arthur tem genica suficiente para isso tudo. – Comentou William ao pé da ombreira da porta – Hei, alguma vez algum de vocês se perguntou se o Arthur é ativo ou passivo?
_ Eu, pessoalmente, gosto de imaginar que nenhum de vocês tem sexo. – Retorquiu Scott com um ar enjoado.
_ Mano, eu tenho uma filha.
_ Poder divino.
Helen rolou os olhos mas ficou satisfeita por ver um pequeno sorriso nos lábios de Eireen face às parvoíces dos irmãos. Aproximou-se da sua menina e com os dedos colocou algumas madeixas ruivas atrás da sua orelha.
_ Querida, eu sei que achas que isto foi injusto para ti, e eu sei que gostavas muito do Alfred, mas… — Parou, indecisa, pois não sabia bem como o dizer – Amor, o Alfred e o Arthur já têm algo muito forte entre eles há muito tempo, era só uma questão de tempo até uma coisa deste género acontecer. Eles não o fizeram por mal, nem o fizeram para te magoar. Eles adoram-te!
Eireen parecia duvidar e Helen agarrou-lhe a mão.
_ Fofinha, o Alfred provavelmente nunca que rejeitou porque não queria magoar os teus sentimentos.
_ Mais valia ter dito não na altura do que eu descobrir desta forma.
_ Eu nunca disse que ele era particularmente inteligente, apenas que tinha um bom coração.
Eireen suspirou numa forma semelhante á que Arthur fizera horas antes, quando se sentiu derrotado.
_ Eu percebo, mãe. Eu sei que pareço uma adolescente a fazer uma birra só porque um rapaz não gosta dela, mas… acho que o meu lado emocional está a ter mais força que o racional e sinceramente, não sei se nos próximos dias vou conseguir olhar para algum deles sem querer espetar um murro nas suas caras.
_ Ela deu uma carga de porrada ao Arthur, lá fora. – Fez Peter alegremente.
Olharam todos espantados para ele.
_ De onde é que tu apareceste? – Perguntou Scott.
_ Eu estive sempre aqui!
_ Uh… não te vi. Uma carga de porrada, dizes tu, minorca? – Scott ergueu as sobrancelhas de forma apreciativa em direção da irmã – Parabéns, ruivinha, o Arthur pode não parecer, mas ele é um osso duro de roer.
_ Ele não estava a dar o seu melhor. – Disse Eireen, mas pareceu satisfeita com o elogio.
_ Eireen – Fez Helen delicadamente – Eu sei que estás chateada e magoada, mas não vou afastar o Arthur por causa disto.
_ Eu sei mãe. Eu não quero que o afastes. Só não prometo não requerer à violência.
Helen pareceu satisfeita com a resposta.
_ Onde está o Arthur, afinal? – Perguntou Brody – Pela conversa pareceu-me que ele esteve aqui.
_ E esteve. Mandei-o para casa para se acalmar.
_ Como é que ele está? – Inquiriu Albert ainda abraçado à filha.
_ Abalado. Acho que ele julga mesmo que partiu o coração à Eireen.
_ Bem, ele quebrou o código dos Manos. – Disse William – Nunca roubar a mulher que um mano já tem o olho em cima. A Eireen tinha os olhos em cima de Alfred e o Arthur fisgou-o, por isso quebrou o código. Vergonha.
_ O Arthur já tem os olhos postos no Alfred desde que eles têm onze anos, por isso tecnicamente a Eireen é que estava a quebrar o código dos manos. – Brody apontou um dedo acusador em direção da irmã, que lhe lançou o dedo do meio.
_ Vergonha. – Suspirou William.
_ Peguem no código dos manos e enfiem-nos pelos vossos cus a cima.
_ Muito bem! – Fez Hellen muito depressa, erguendo-se e encarando os filhos – Chega de palavrões, e de choros e de código dos manos, ou lá o que é. O almoço está pronto, tudo para a mesa.
Foram todos para a cozinha com murmúrios e grunhidos incompreensíveis. Helen observou-os, satisfeita, e também reparou que Eireen já parecia mais calma e controlada.
Pousou-lhe no coração ver a cadeira de Arthur vazia, mas ela sabia que tudo se iria resolver.
Instinto maternal.
Fale com o autor