Sure, Why Not?
17 Capitulo 17
Notas iniciais
A sua cozinha estava exatamente como ele a deixara, toda brilhante e organizada. Alfred acenou com aprovação e retirou o casaco, vestiu o avental, lavou as mãos e começou a trabalhar.
Matthew ainda estava em casa com a mulher e o filho, mas retomara o seu trabalho a tratar das contas e lucros do restaurante mas, em vez de o fazer no seu escritório na parte de cima do edifício, fazia-o sentadinho no sofá da sua sala de estar, quentinho à lareira.
Entretanto Alfred tivera que ir buscar um aquecedor elétrico que estava guardado há séculos na arrecadação para impedir que o seu rabo caísse de tão frio que estava. Mas não havia problema, uma vez o forno e o grelhador começassem a trabalhar com toda a força, a cozinha ficaria quentinha.
Ouvia Elizaveta falar alegremente com os primeiros clientes do dia do outro lado da porta e sorriu. Sentia-se mais calmo, agora, mais… ele mesmo. E, quando se ocupava a organizar a carne no refrigerador, Alfred sentiu-se completamente em paz, como se os seus receios e medos dos últimos dias nunca tivessem acontecido.
Acordara naquela manhã com Arthur novamente aninhado contra si. Ele, sinceramente, poderia habituar-se a tal acontecimento, pois aqueles primeiros momentos de consciência, tão quentes e ternos, eram uma preciosidade e Alfred não conseguia cansar-se deles.
A lembrança da cara rabugenta que Arthur lhe lançara levantou um sorriso nos seus lábios.
Alfred começou a trabalhar e foi aquecendo gradualmente á medida que a manhã ia passando. A partir do meio-dia, Elizaveta começou a fazer os primeiros pedidos. Depressa Alfred ocupou-se a grelhar carne, fritar batatas e aquecer restos de arroz.
Depois das duas horas mais atarefadas do almoço, Alfred deixou-se envolver na preguiça e, após colocar a louça suja na máquina de lavar, sentou-se numa cadeira e ficou a navegar na internet a partir do seu telemóvel.
Ouviu a porta abrir-se enquanto acabava um último vídeo com gatos e virou-se para ver quem tinha entrado, encolhendo-se ao ver o cabelo flamejante de Eireen Kirkland.
Já fazia algum tempo em que ele não estava sozinho com a rapariga. Se bem se lembrava a ultima vez que tivera uma conversa com ela tinha sido há um mês ou dois, numa festa de anos, antes de Arthur aparecer e acusar Alfred de estar a tentar profanar a santidade da irmã, ou coisa parecida.
Francamente, Alfred tinha andado um bocado a evitar confronto. A última coisa que queria era encorajar a paixoneta que a rapariga fermentara por si, não fosse ele quebrar-lhe o coração por um tipo de afeição que não poderia corresponder.
Além disso, como é que dizemos delicadamente a uma jovem que está supostamente endrominada de amores que nós que estamos perdidamente apaixonados pelo irmão mais velho desta?
Mas não podia evitá-la para sempre e, com um sorriso estampado no rosto, levantou-se e disse.
_ Viva, Eireen.
As faces pálidas dela ficaram extremamente rosadas e ela advertiu o olhar. Puxou uma madeixa ruiva para detrás da orelha e mordeu o lábio.
_ Boa tarde, Alfred. – Murmurou ela num tom tímido – Como é que estás?
_ Estou ótimo, muito obrigada. – Respondeu ele de bom humor. Era verdade. Tinha começado o dia na perfeição a abraçar o homem que amava e até ao momento nada de grave tinha acontecido. – E tu?
_ Estou bem. Um bocado atarefada com a escola, mas nada que não se aguente.
_ Isso é bom.
Caíram num silêncio desconfortável, pois Alfred sinceramente não sabia o que lhe perguntar ou mesmo dizer. Ocupou-se a passar um pano húmido pelo balcão da cozinha e remover a sujidade inexistente da sua superfície.
Sentiu a presença de Eireen aproximar-se e os cabelos por detrás da sua nuca arrepiaram-se quando uma mãozinha delicada tocou no seu braço.
_ Eu estava a pensar… — Disse ela com cautela – Bem… eu estava a pensar se não gostavas de ir ao cinema comigo no próximo sábado. – Ela lançou-lhe um olhar esperançoso e Alfred sentiu-se o homem mais cruel do mundo.
_ Ermm… Eu gostava imenso, Eireen, mas… — Arranja uma desculpa, arranja uma desculpa! – Já tenho coisas combinadas com o Arthur para sábado. – Era mentira, ele e Arthur não tinham quaisquer planos para o fim-de-semana, mas, refletindo bem a atual relação dos dois, poder-se-ia calcular que alguma coisa iria acontecer.
Eireen ficou muito rígida e premiu os lábios numa linha fina e desgostosa.
_ Com o Arthur? Não podes adiar?
_ Uh, não. – Alfred esfregou a parte de trás da cabeça, desesperado para ter uma desculpa para se livrar dela, por muito mal que se sentisse por tais sentimentos – Sabes como ele fica rabugento quando alguém estraga os seus planos.
_ Mas vocês estão sempre a passar tempo juntos. Tenho a certeza que ele não morre se adiarem as vossas coisas por um dia.
Eireen estava a fazer aquela coisa novamente de se aproximar muito para que o seu corpo curvilíneo ficar quase colado ao dele e Alfred sentiu-se encurralado.
_ Eu… eu acho que não seria boa ideia. – Disse ele, procurando um tom firme, e deu um passo para o lado, afastando-se dela.
_ Oh… ok. – Murmurou ela e Alfred nunca a vira mais desapontada em toda a sua vida.
Amaldiçoou de imediato o seu lado de compaixão e suspirou
_ Hei, podes sempre passar lá em casa uma manhã destas para um chá.
A expressão dela iluminou-se num sorriso esperançoso.
_ A sério?
_ Claro. As minhas portas estão sempre abertas a amigos.
_ Então não fiques admirado que eu apareça lá um dia destes. – Sorriu ela animadamente.
_ Claro!
_ Bem… vou deixar-te trabalhar então. – Ela estava mais relaxada – A minha hora de almoço está quase a acabar.
Alfred lançou-lhe um sorriso incerto e limpou as mãos ao avental num gesto nervoso.
_ Claro, claro. Vai lá. Mas, Eireen! – Chamou ele quando ela se começou a afastar – Avisa antes de apareceres lá em casa, eu gosto de ter tudo limpo para as visitas.
Ela anuiu com um sorriso enorme estampado no seu rosto bonito e Alfred soltou um grunhido quando ela desapareceu pelas portas da cozinha.
Porque é que Eireen não se afeiçoara a alguém da sua idade, de preferência que não estivesse a comer o irmão dela? Seria tudo tão mais fácil para toda gente. Como é que ele iria resolver isto? Não queria partir o coração à jovem rapariga, mas não via outra forma de fazer com que ela o esquecesse e passasse para outro mais aceitável e disponível. Era óbvio que afastar-se não estava a resultar.
Suspirou e retomou o trabalho.
Isso era problema para depois.
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_ … e o meu irmão, Lovino, ficou tão vermelho que eu achei que ele ia rebentar. – Feliciano riu-se alegremente antes de colocar um pedaço de pão na boca – E a partir desse dia nunca mais me deixaram participar na confeção do vinho.
Arthur e Alfred sorriram-lhe, enquanto Ludwig colocava a sua grande mão em cima da de Feliciano, que estava pousada em cima da mesa.
Conviviam os quatro num restaurante chique bem afastado da cidade onde viviam, já que Alfred e Arthur estavam oficialmente proibidos de entrar no restaurante da mesma qualidade mais próximo. Todos enfiados em roupas formais e elegantes, para grande desconforto de Alfred, que precisara de ajuda para ajeitar a gravata, e esperavam que a comida fosse servida.
Até ali, Feliciano tinha sido a alma da noite, sempre a palrar num tom alegre e a gesticular freneticamente as mãos para exemplificar melhor o que queria dizer.
_ Eu não sabia que tinhas irmãos. – Disse Arthur.
_ Tenho sim. O Lovino. Ele é… — Feliciano fez uma careta – Um bocadinho difícil de se lidar, mas é uma joia de pessoa uma vez que perfuramos a carapaça dura.
Ao seu lado, Ludwig soltou um som de discórdia, mas não acrescentou mais nada.
_ Tens irmãos, Ludwig? – Perguntou Alfred por detrás do seu copo de vinho. Pescou os olhos repetidamente, pois as lentes estavam a torna-los um bocado secos e a sua visão ficava algo turva.
Se Ludwig achou tal gesto estranho, não o indicou.
_ Só um, felizmente. O seu nome é Gilbert e temo o dia em que ele puser os pés na América.
_ Ele é assim tão mau?
_ Não! – Fez Feliciano antes de Ludwig poder dizer alguma coisa – Ele é um amor!
_ Ele é uma peste!
_ É só um bocadinho metediço e arrogante. – Cortou Feliciano com um leve olhar desaprovador em direção do namorado – Mas não é má pessoa. Uma vez que a nossa casa esteja terminada e devidamente mobilada, ele vai passar cá uns dias e vocês os dois poderão conhece-lo.
_ Mal posso esperar. – Disse Arthur num tom sarcástico e Alfred deu-lhe uma cotovelada no braço. Arthur grunhiu levemente mas teve a decência de mudar a forma de falar quando perguntou – E o Lovino? Também te vem visitar?
Feliciano dirigiu o olhar para a mesa, desconcertado.
_ Ele… não, não vem. Nós já não nos falamos há uns quatro anos. Ninguém da minha família me fala.
_ Oh… isso… isso é horrível.
_ Infelizmente nem todas as famílias são como a tua. – Soltou Feliciano com alguma amargura. Ludwig entrelaçou os dedos com os dele numa forma de apoio. – Fui praticamente deserdado no momento em que decidi ir morar com o Ludwig para a Alemanha.
Alfred sentiu uma enorme onda de afeição pelo pequeno italiano e uma extrema raiva para a família deste. Não podia dizer que entendia o que Feliciano passara, pois seria mentira. Ele não sabia. A homofobia do seu pai perante a recente saída do armário de Arthur tinha sido a única parede de intolerância que encontrara no leito familiar, se não contássemos com o extremo racismo dos primos do Missouri que raramente eram mencionados por razões óbvias.
Colocou a mão no joelho de Arthur, pois este provavelmente estava a tentar imaginar-se num mundo onde os seus pais e irmãos não lhe falavam, e esse mundo, ainda que hipotético, era demasiado doloroso.
_ Lamento imenso ouvir isso. – Disse Alfred suavemente – Não consigo imaginar o quão difícil deve ter sido.
_ Oh, não foi nada fácil. Eles já andavam chateados quando comecei a namorar do Ludwig, mas acho que sempre tiveram a esperança que eu “voltasse para o caminho de Deus” ou coisa parecida. – Bufou, irritado com a memória – Acho que repararam que já não havia salvação possível para esta alma quando eu anunciei que ia viver para a Alemanha com o meu namorado.
Feliciano suspirou, derrotado, e lançou um pequeno sorriso a Arthur.
_ A tua família é um amor. Tens muita sorte em os teres e eles também têm sorte por te terem. Se todas as famílias fossem como a tua, o mundo seria um lugar melhor. – Ficaram todos um bocado em silêncio, sem saber bem o que dizer, até que Feliciano respirou fundo e estampou uma expressão alegre no rosto – Bem, não falemos mais de coisas deprimentes, vocês convidaram-nos para jantar e eu não quero estragar o momento.
_ Não há problema.
_ Então… — Fez Feliciano num tom conversativo, olhando alternadamente para Arthur e Alfred – Como é que se conheceram?
_ Na escola. – Respondeu Arthur – Provavelmente numa aula.
Alfred rolou os olhos.
_ Tínhamos onze anos e o Arthur ficou amigo do meu irmão. Eu achei tal facto estranho, porque o Matthie não falava para ninguém. Quis conhecer o estrangeiro novo, insultei-o e ele deu-me uma sova. Dois dias depois eramos melhores amigos.
_ Eu dei-te uma sova?
_ Deste.
_ Uh. Já não me lembrava disso.
Feliciano riu-se e Ludwig mostrou alguma diversão com o olhar.
_ Eu e o Ludy não tivemos um começo tão violento.
_ Não sei bem, Feliciano, acho que violência é que não faltava. – Retorquiu Ludwig suavemente, proferindo a sua quinta frase da noite inteira.
_ Os meus pais mandaram-me para um colégio militar quando eu tinha dezassete anos, na esperança que eu ficasse menos… bem… que eu me tornasse num homem “ a sério”. – Disse o italiano, utilizando os dedos para fazer enfase às suas palavras.
Interrompeu o seu discurso quando o empregado chegou com os pratos repletos de comida. Alfred lançou um olhar critico ao seu arroz de pato antes de levar uma garfada á boca. Estava bem temperado e não tinha ficado muito seco, mas ele conseguia fazer melhor.
_ Bem… — Continuou Feliciano uma vez que todos foram servidos e o empregado se retirara para atender outra mesa – Era obvio que eu era horrível em maior parte das provas físicas, quero dizer, olhem para mim, não tenho propriamente corpo para essas vidas. O Ludy aqui, ao contrário de mim, era o melhor da escola. Os professores adoravam-no, e os generais também. Puseram-me ao cargo dele para ver se ele me endireitava. Obviamente não resultou. Mas acabamos por ficar amigos, apesar de eu estar sempre a mandar pista de que queria mais.
_ E não eras muito subtil.
_ Não era, pois não! Tu é que te fazias de sonso. No final, acabei por ir para casa de mãos sem namorados alemães, e ainda mais gay que antes. Parti o pobre coração católico dos meus pais, mas felizmente o meu avô, que Deus guarde a sua alma, apoiou-me.
_ Então e você? – Perguntou Alfred a Ludwig.
_ Eu continuei na vida militar. Fui mandando cartas ao Feliciano para manter contacto…
_ Ele podia simplesmente ter-me mandado mails, nós não somos assim tão velhos, mas ele é por com a tecnologia do que um orangotango.
_ … E quando fiz vinte e um anos decidi ir visitá-lo à sua terra natal.
_ E depois ele ficou todo meu e só para mim! – Feliciano agarrou no rosto do namorado e espetou-lhe um beijo sonoro e embaraçoso na bochecha. Um rubor cobriu o rosto geralmente frio de Ludwig.
Arthur riu-se com o garfo dentro da boca e engasgou-se um pouco. Levou o guardanapo à boca para disfarçar o seu misto de gargalhadas e tosse. Alfred bateu-lhe levemente nas costas.
Feliciano olhou-os curiosamente.
_ É tão bonito ver como vocês continuam amigos depois de tantos anos! – Disse ele enquanto enrolava a sua pasta em volta do garfo – Eu raramente conseguia manter uma amizade mais do que cinco anos. E depois de ter saído da Itália definitivamente, foi muito difícil manter contactos.
_ Nunca mais vais voltar?
_ Bem, espero que sim, nem que seja só para visitar. Nunca pensaste em voltar para a Inglaterra?
_ Nós visitávamos os nossos tios todos os Verões antes de eu ir para a Universidade, mas depois vieram eles visitar-nos para conhecer a América. Mas espero um dia voltar e explorar um bocadinho. Há tanta coisa do meu próprio país que eu desconheço.
_ É verdade. Passamos a vida toda numa só localidade, e só quando mudamos de país é que vemos que a nossa terra natal é praticamente desconhecida. — Feliciano virou-se para Alfred – E você? Já viajou muito pelos Estados Unidos?
_ Ugh… fui ao Texas quando tinha dez anos. E passei alguns Verões com uns primos, mas os meus pais descobriram que um deles estava associado com os KKK e nunca mais pusemos lá os pés.
_ Deus do céu!
_ Nunca me disseste que tinhas membros da família que pertenciam aos Ku Klux Klan. – Disse Arthur, tão espantado como os outros dois à sua frente.
_ Não é algo que faça sentir grande orgulho. – Respondeu Alfred secamente – Adiante, a partir desse ano, devia ter uns sete, eu e o Matthie passamos os nossos Verões ora aqui, ora no Nevada com os tios da minha mãe. Quando fiz treze anos recusei-me a passar mais de duas semanas lá, porque depois ficava demasiado tempo sem falar com o Arthur e, segundo o Matthie, amuava e ficava insuportável.
_ Aw, tão novo e já tão dependente de mim.
Alfred abafou o desejo de afagar as bochechas coradas de Arthur, que fingia estar menos lisonjeado do realmente estava. Queria imenso entrelaçar os seus dedos aos de Arthur, tal como Ludwig fizera a Feliciano quando falaram de coisas negativas, ou simplesmente ter a permissão de tocar no Inglês de forma mais íntima do que uma simples amizade.
Cortejar Arthur subtilmente para que este fosse-se apaixonando sem se aperceber era difícil. Tentara ser mais atencioso, tocá-lo inocentemente mais vezes, como uma caricia no ombro ou na bochecha. Beijava-o com mais frequência sem ser em ocasiões picantes e, por vezes, quando estavam enrolados no sofá a ver um filme, entrelaçava os dedos com os de Arthur e puxava-o mais para si.
Infelizmente para si, Arthur parecia apreciar tais gestos, mas não passava disso. O inglês não mostrava qualquer diferença de comportamento, continuava o mesmo de sempre e não dava qualquer início de sentir mais alguma coisa por Alfred, o que o frustrava imenso.
Talvez tinha que mudar de técnica. Ser mais óbvio. Ser o mais obvio possível sem correr o perigo de levar com um murro nos tomates.
Mas não o faria em público, como era evidente. A relação mais íntima de ambos, que por si, não era tão intima quanto ele desejaria, era segredo para toda a gente, com vagas exceções. Arthur preferia manter o sexo de ambos na calada e Alfred iria respeitar a sua decisão.
A conversa durante o jantar continuou agradável e de boa vontade. Alfred e Feliciano comeram demasiada sobremesa e no final, Alfred sentiu-se tão cheio que simplesmente entregou as chaves do carro a Arthur, coisa que ele nunca faria num estado normal, e deixou-o levá-los para casa.
_ Ainda não percebi porque és tão picuinhas com esta coisa. – Disse Arthur, quebrando o silêncio do carro.
_ É o meu bebé!
_ É um carro.
_ Tu conduzes uma banheira com rodas há uns vinte anos porque é a tua menina preciosa, mas eu não posso sentir afeição pelo meu carro? – Alfred desapertou o botão das calças para dar espaço á sua barriga dilatada.
_ A minha carrinha é ótima, muito obrigada! – Foi o resmungo vindo do lado do condutor e Alfred não conseguiu conter o sorriso.
Fora do casulo agradável do carro, a noite estava fria e húmida mas, felizmente, não estava a chover. Mesmo assim, Arthur estava a ter o cuidado extra de andar a uma velocidade moderada para o caso de as baixas temperaturas terem provocado gelo na estrada.
Agora que estavam praticamente no inicio do Inverno, os adolescentes rebeldes já não se juntavam às beiras da estrada a beber cervejas que roubaram aos pais, contentando-se por combinarem entre ir às casas de uns dos outros. Assim sendo, as ruas estavam completamente desertas àquela hora.
_ Então… — Fez Arthur num tom de conversa – Tens familiares nos KKK, hã?
Alfred amuou de imediato.
_ Eu não gosto de falar disso.
_ Porquê?
_ Porque não gosto de pensar que estou relacionado a criaturas dessas. Como é que te sentirias se os teus primos andassem por aí com capuchos brancos a gritarem “poder branco” no meio da rua e falarem merdas sobre os pobres coitados que simplesmente estão a tentar viver a vida deles? E quem sabe, até podem fazer pior do que só falar! Eles assustam-me.
_ Bem… se te fizer sentir melhor, a minha família da parte da minha mãe tinha escravos.
_ Como é que isso me faz sentir melhor?
_ Sei lá! Achei que podíamos trocar as experiencias de racismo extremo das nossas famílias e tornar a nossa amizade mais bela, ou coisa parecida. – Ele riu-se, então, lembrando-se de alguma coisa – Um dos meus antepassados, um te-te-travô, ou coisa parecida, morreu atropelado por um cavalo de um escravo fugitivo.
Alfred olhou-o com uma sobrancelha erguida.
_ E tu achas isso divertido?
_ Eu acho hilariante. – Ao ver o olhar acusador de Alfred, Arthur revirou os olhos – O homem tinha escravos, provavelmente tratava-os abaixo de cão, ser atropelado por um cavalo foi pouco. Para de ser tão melancólico. – Arthur abrandou mais um pouco quando chegaram à rua dos gatos suicida – Olha, a minha gente chegou aqui, matou, violou e fez mais umas quantas merdas horríveis. E a tua gente é o que eles deixaram cá, e também têm uma grande quantidade de porcaria debaixo dos pés. Agora nós, tu e eu, não fizemos nada e poderíamos afirmar que não temos qualquer responsabilidade pelo que os homens do passado fizeram, o que, por si, até é verdade.
Alfred ouviu-o de olhos semiabertos e colocou a mão dele por cima da de Arthur, que se ocupava da alavanca das mudanças.
_ Mas… temos que assumir alguma responsabilidade. Se ignorarmos o que foi feito, então estamos a permitir que a história se repita.
_ E o que é que achas que eu deva fazer? – Perguntou Alfred num murmúrio – Deveríamos ir ao Missouri dar uns quantos murros aos meus primos? Somos brancos e cristãos, não devemos correr muito perigo.
_ Eu não sei bem qual é a opinião deles quanto aos gays.
_ Provavelmente é tão bonita como a dos homens negros.
_ Uau, não só são racistas, como são homofóbicos, que familiares encantadores. Ainda bem que não vivem aqui.
_ Eu tenho a certeza que os teus irmãos já tinham acabado com eles há muito tempo se assim fosse.
_ É possível. Meu Deus, olha para nós, a falar dos loucos das nossas famílias a esta hora da noite. – Comentou Arthur enquanto estacionava à frende do pátio da casa de Alfred.
_ E de quem é a culpa? Hei, não encostes muito ao muro, ou não vais conseguir sair sem riscar a porta.
_ Não é a primeira vez que eu estaciono o que quer que seja Alfred.
_ A julgar pela tua performance, eu pensaria o contrário.
_ Ah, seu cabrão. – Arthur parou o carro e esticou o braço para dar uma palmada afetiva atrás da nuca de Alfred, que se afastou com uma gargalhada, retirou o cinto de segurança, abriu a porta e removeu-se do veículo.
Correu até á porta de entrada e depois parou para tirar as chaves do bolso das calças. Estava a tentar enfiar as chaves no buraco no meio da escuridão, quando o corpo de Arthur colidiu com o seu.
_ Au! Que diabos!?
Arthur riu-se algures atrás de si e depois obrigou-o a fitá-lo. Alfred preparou-se para dar-lhe um sermão, mas lábios quentes calaram-no com um beijo sôfrego e ele viu-se encurralado entre a por e o corpo quente do inglês.
Talvez curtir no meio da rua durante uma madrugada de graus negativos não fosse a ideia mais inteligente que se poderia ter, mas Arthur era irresistível e estava ali á sua disposição. Os braços do inglês rodearam o seu pescoço e puxaram-no mais contra o seu corpo.
_ Está a ficar frio. – Murmurou Arthur contra os seus lábios.
_ Se me tivesses deixado abrir a porta, isto não tinha acontecido.
Abrir a porta com a boca de Arthur colada ao seu pescoço mostrou-se ser uma tarefa complexa, mas executável.
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Por vezes Arthur ficava espantado com os talentos que ambos mostravam ter. Percorrer a escuridão da casa de Alfred aos beijos e amassos parecia ser um passatempo meio perigoso, mas conseguiram cair na cama ser qualquer lesão aparte do joelho de Alfred que bateu no armário do corredor.
Foram perdendo a roupa pelo caminho. Os casacos ficaram no hall de entrada, algures nas escadas caíram as gravatas e a camisa azul clara de Alfred e os sapatos de Arthur estavam algures ao pé da porta da casa de banho.
De momento Alfred praticamente rasgava a camisa de Arthur que, mais tarde, provavelmente ralharia, pois o seu número de camisas era limitado e ele não podia andar por ai a gastar dinheiro para comprar mais. Agora, no entanto, estava demasiado ocupado a gemer baixinho quando a língua de Alfred provocou o seu mamilo para pensar nessas coisas.
Não demoraram muito tempo. Removeram o resto de vestuário como dois desesperados e depressa ficaram despidos e colados um ao outro. Arthur já estava em brasa quando os dedos lubrificados de Alfred penetraram-no e preparam-no para algo mais. De alguma forma, depois de muito enrolar no colchão, Arthur acabara no colo do americano, de pernas abertas, mãos no membro do outro e a boca ocupada com beijos ardentes.
Os dedos de Alfred quase o levaram ao desespero e Arthur achou que esteve prestes a atingir o limite mesmo antes de começar o menu principal. Mordeu o lábio inferior do amigo e assumiu controlo.
Com as mãos, empurrou Alfred até que este caísse de barriga para cima na cama. Não conseguia ver nada no escuro, mas assumiu que a expressão do americano era uma de surpresa. Sem mais rodeios, removeu os dedos de Alfred de dentro de si, colocou-se a jeito, e empalou-se no falo excitado do americano.
Doeu. É claro que doeu. Alfred tinha estado mais preocupado a dar-lhe prazer do que o preparar para o seu membro e Arthur provavelmente ia ficar dorido durante um dia ou dois, mas caralho valia a pena. Debaixo de si, Alfred gemeu alto e estremeceu. As suas mãos grandes agarraram as ancas de Arthur como se a sua vida dependesse disso e, apesar do esforço de Arthur, impediram-no de começar a mexer-se de imediato.
Idiota, pensou Arthur com carinho, mesmo entre as chamas da luxúria Alfred pensava sempre no seu bem.
Baixou-se e beijou-o, mais docemente desta vez, como um agradecimento pelo gesto atencioso. Ouviu Alfred sussurrar o seu nome num misto de prazer e algo mais e, agora sem fôlego por uma emoção que o vinha a atingir cada vez com mais frequência, começou a mexer as ancas.
Desta vez Alfred não o impediu.
Por vezes sexo era divertido. Piadas eram ditas, gargalhadas eram dadas e misturadas com o grunhidos e gemidos. Por vezes sexo era tímido e constrangedor, como a primeira vez que ele se deitara com Alfred naquela cama. Por vezes sexo era apaixonante e ardente, uma mistura de corpos levados ao desespero, onde cada toque parecia ser demasiado e ao mesmo tempo parecia não ser o suficiente.
Mas sexo, para Arthur, nunca tinha sido assim, pois de repente, assim do nada, imaginou-se no lugar de Feliciano. Imaginou os seus pais e irmãos virarem-lhe as costas como se ele nunca tivesse importado, como se ele fosse insignificante e tal coisa magoou-o como nada alguma vez o magoara em toda a vida. Ele não queria pensar na solidão que seria, no isolamento provocado por aqueles que um dia prometeram amá-lo e protege-lo para todo o sempre.
Os dedos de Alfred, quentes e reais, tocaram-lhe no rosto com gentileza e Arthur apercebeu-se que, no meio do seu monólogo interior, tinha começado a chorar.
Embaraçado e humilhado por tal fraqueza, tentou redimir-se ao passar as mãos no rosto e tentar mover as ancas mais depressa e com mais força, tentar fazer daquilo bom, pelo menos para o americano.
Mas Alfred não o deixou. Sentou-se, desequilibrando Arthur com o gesto abrupto. O inglês gesticulou com os braços para tentar agarrar alguma coisa a fim de não cair e foi abraçado com força contra o corpo quente de Alfred.
_ Shhh… — Fez ele quando Arthur abriu a boca para dizer alguma coisa – Shhh, eu estou aqui.
É claro que estava. Alfred estava sempre lá para ele, mesmo quando mais ninguém podia. Arthur não tinha qualquer dúvida se, por alguma razão, a sua família o abandonasse, Alfred ficaria sempre ao seu lado para o ajudar a pôr-se de pé.
Alfred… o seu Alfred, que o olhava como mais ninguém olhava, sempre como se ele fosse mais do que na realidade era. O seu Alfred, que lhe arranjava sempre alguma coisa no dia de S. Valentim só para Arthur não se sentir sozinho, mesmo quando acartava com os olhares desaprovadores das suas namoradas. O seu Alfred, que o deixava escolher filmes de terror mesmo quando ficava absolutamente aterrorizado, mas via-os na mesma para fazer Arthur feliz.
O Alfred estava sempre lá para ele. Sempre. Era um luxo que Arthur nunca antes se tinha apercebido e por alguma razão isso fê-lo chorar com mais força.
Era obvio que Alfred estava em pânico pelo seu comportamento e isso acompanhado com a total embaraço que Arthur sentia de momento fez com que o clima erótico se dissipasse por completo.
Alfred levou o rosto de Arthur até ao seu pescoço, apertando-o num abraço fechado enquanto lhe afagava o cabelo e murmurava pequenas palavras de conforto.
_ Desculpa! – Fungou Arthur contra a pele dele – E-eu arruinei tudo!
_ Shh, não arruinaste nada. – Confortou Alfred baixinho – Está tudo bem.
Não, não estava. O clima estava arruinado, nenhum dos dois estava excitado e agora Alfred tinha o ombro todo húmido pelas lágrimas dele.
_ Tu és tão bom para mim. Porque é que és tão bom para mim?
_ Porque é que não deveria ser?
Arthur afastou a cabeça para o encarar e ficou feliz por estar embebido pela escuridão e não conseguir ver merda nenhuma, porque aquilo já era tudo humilhante o suficiente sem ter o olhar azul de Alfred sobre a sua forma patética.
_ Não me deves nada. Não tens que me fazer metade das coisas que fazes. Não tens que me beijar, nem me dar a mão, nem cozinhar para mim, nem me abraçar quando em sinto sozinho. Tenho a certeza que serias mais feliz se não tivesse que lidar com as minhas birras.
_ Não, não seria. – Disse-lhe Alfred firmemente – Tu és uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Arthur fungou.
_ A sério?
_ Claro… é assim tão surpreendente?
Com um suspiro derrotado, Arthur voltou a encostar a cabeça ao ombro de Alfred. Percorreu as costas do amigo com os dedos e puxou-o mais contra si. Sentiu um beijo a ser depositado no seu cabelo e o seu peito encheu-se de um calor maravilhoso que o deixava tonto.
_ Não… — Murmurou baixinho quando Alfred os deitou nos lençóis e os cobriu com os cobertores. Lábios quentes tocaram-lhe na testa com ternura e Arthur enroscou-se mais ao corpo do outro – Tu também és muito importante para mim.
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